Little Boy: Além do Impossível (Little Boy)

A narrativa de Little Boy: Além do Impossível é feita sob a perspectiva de Pepper Busbee, um garoto de 8 anos, com uma estatura abaixo do normal que é alvo constante da gozação das demais crianças de sua cidade, O’Hare, na Califórnia. Quando seu pai é convocado para servir na Segunda Guerra (a trama se passa durante a década de 40) no lugar de seu irmão mais velho, o pequeno Pepper se sente desolado – uma vez que perderá seu único amigo. Convencido pelo padre local de que a fé é capaz de tudo, Pepper embarcará em uma jornada para trazer seu pai de volta para casa são e salvo.

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Little Boy: Além do Impossível é abertamente feito para emocionar e não se envergonha disso – nem que para tal objetivo tenha que recorrer a um clichê batido: a amizade entre um adulto e uma criança como caminho para o amadurecimento do personagem mais novo. Neste caso, trata-se do improvável relacionamento entre Pepper e Hashimoto, um imigrante japonês que é visto como inimigo daquela comunidade apenas por conta de sua nacionalidade. Entretanto, falta uma dose de objetividade no longa do mexicano Alejandro Gomez Monteverde: não existe aprofundamento em um tema especifico, o que faz com que o filme se perca em determinados instantes. Não sabemos se Alejandro quer falar sobre bullying, xenofobia, guerra ou um drama de superação – ou mesmo se estamos diante de uma obra infantil ou indicada para o público mais adulto. Para além disso, o escasso aproveitamento de alguns personagens incomoda: alguns simplesmente surgem e desaparecem do nada.

Mas é verdade que esses percalços não tornam Little Boy uma produção incapaz de se apreciar. A boa ambientação e a trilha sonora somam muito ao longa, bem como a atuação do jovem Jakob Salvati, que emociona devido à carga dramática de sua persona. No entanto, o maior crédito de Little Boy encontra-se no fato de que ele não doutrina religiosamente o espectador de forma tendenciosa. A fé na visão do cineasta não se limita à religião, mas se expande para a crença em si mesmo – e isso reafirma a tese de que, independente de religião, a fé é uma arma poderosa contra os males do mundo. Com um desfecho feito claramente para levar o público às lágrimas, Little Boy: Além do Impossível é um filme motivador e comovente, capaz de nos fazer acreditar que quem acredita sempre alcança.

Bichas, o Documentário (Bichas, o Documentário)

Dois garotos de mãos dadas entre um grupo de amigos e uma ameaça: “eu vou atirar em vocês porque vocês são bichas e bichas merecem morrer”. Este foi o ponto de partida do publicitário pernambucano Marlon Parente para a concepção de Bichas, um documentário com pouco menos de quarenta minutos que vem ganhado muita repercussão nas redes sociais nesta última semana.

Com um modesto orçamento de R$ 10,00 (direcionado à compra de um microfone), o filme apresenta casos reais de seis personagens com diferentes perfis, narrados em formato de depoimento e editados pelo próprio Marlon. As histórias contadas no vídeo envolvem episódios sobre a descoberta da sexualidade, relação com a família, preconceito e violência nas ruas – temas constantes e até mesmo batidos, mas que carecem de boas abordagens e de um tratamento humanístico no cinema.

Infelizmente, Bichas entra para o extenso rol de produções que tratam seu assunto principal à beira da superficialidade (cinematograficamente falando). Apesar de o público poder se identificar com algumas situações transmitidas no decorrer da projeção, é evidente que a ausência de um roteiro elaborado faz com que a narrativa não avance, percorrendo em círculos sem chegar a um objetivo muito bem definido. É como se o autor simplesmente selecionasse alguns amigos para filmar, mas os diálogos entre eles não seguem muita lógica. Não há um critério: a sensação que se passa é a de que o diretor pegou horas de material e apenas juntou as partes que considera importante, refletindo um fraco trabalho de edição. Mas este aspecto técnico não atrapalha necessariamente o projeto, uma vez que temos a consciência de estarmos diante de um filme “amador” – e, para a sua proposta, esta característica não chega a ser um defeito.

O problema que vejo é apenas um: Bichas é mais um entre tantos. Mesmo na Internet, vira e mexe aparecem filmes que, assim como Bichas, retratam o cotidiano turbulento de homossexuais pelo mundo afora. Sendo documentário ou simples ficção, o tema já está virando pauta assídua – só falta ser devidamente trabalhado. Assim, o maior trunfo de Bichas é o fato do filme “empoderar” este termo, constantemente tratado de forma pejorativa. Bichas deixa bem claro que a “bicha” é um homossexual como qualquer outro – e, principalmente, é um ser humano e, como tal, deve ser respeitado. Bichas, como caráter “social”, é até interessante e levanta um debate que merece ser discutido urgentemente: a intolerância – mas como cinema é ainda pouco relevante.

O Lobo do Deserto (Theeb)

Apesar de o contexto histórico de O Lobo do Deserto não ser totalmente claro, sabemos que a trama do representante da Jordânia ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira se passa no deserto da Arábia, durante a 1ª guerra mundial. Em meio aquele cenário hostil, o garoto Theeb vive em uma tribo beduína junto com seu irmão mais velho (já que acabaram de perder seu pai, o sheik daquela comunidade), que tenta ensinar ao pequeno Theeb as tradições e cultura de seu povoado. O rumo de suas vidas é alterado com a chegada de um oficial britânico, que pede auxílio aos irmãos em uma missão, cujo destino é um poço na rota de peregrinação para Meca – a cidade sagrada do mundo muçulmano.

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Amparado em sua bela fotografia e a direção firme do estreante Naji Anu Nowar, O Lobo do Deserto não é um filme necessariamente fácil. Para muitos, inclusive, é um longa facilmente esquecível – até mesmo devido ao seu ritmo deveras arrastado. Apesar disso, os bons diálogos e a atuação competente do protagonista Jacir Eid ajudam a manter o nível técnico de uma obra cujo maior triunfo é justamente a sutileza de sua narrativa, que cresce grandemente a partir de sua segunda metade, quando os conflitos dramáticos mais extremos são levantados (especialmente quando Theeb passa a depender de um de seus “inimigos” para sobreviver – o que o leva a fazer difíceis escolhas). Com um clima de tensão acentuado pela imensidão daquele ambiente, o desfecho de O Lobo no Deserto surpreende até certo ponto e encerra bem a trama – é a passagem de Theeb à vida adulta, o que nem sempre é tão simples quanto parece.

Guerra (Krigen)

Os filmes de guerra ambientados no Afeganistão e Iraque surgiram aos montes nos últimos anos – e, salvo algumas poucas exceções, não trazem propostas muito diferentes entre si. Muda-se uma situação, talvez, mas a premissa é sempre a mesma: um grupo de soldados na efervescência da guerra e um ou outro questionamento pessoal a ser tratado. Na realidade, este é um gênero que, cá entre nós, precisa ser reinventado urgentemente. No caso de Guerra, temos Claus M. Pedersen, um comandante dinamarquês à frente de uma patrulha de paz no Afeganistão – o que, por si só, já não é uma situação fácil. Para piorar, sua esposa está em casa lutando diariamente para criar os três filhos que sentem a falta do pai como nunca antes.

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E assim Guerra segue a mesma linha de tantos outros. Oscila seu roteiro entre as sequências de batalha e as cenas de drama familiar de forma bastante equilibrada, mas sem apresentar nada original. Em alguns momentos, por exemplo, é impossível não associar a produção nórdica a títulos como Sniper Americano ou Guerra ao Terror (talvez o mais expressivo produto desse tipo que, em 2010, faturou 6 estatuetas do Oscar). É como se Guerra fosse, na verdade, pedaços de várias outras obras do gênero juntas em um único lugar. O que talvez destaque ligeiramente o longa de Tobias Lindholm é sua mudança de tom a partir da segunda metade da fita: por conta de uma decisão equivocada em meio ao terror de uma batalha, a ética de seu protagonista é superficialmente questionada – e aí Guerra se transforma em uma narrativa de tribunal. É quando se abre uma ponta para se discutir a questão dos direitos humanos durante os conflitos armados – e é impossível não criarmos inúmeros paralelos com casos que vemos aos montes por aí. Mas é apenas isso e Guerra pára por aí. Apesar de muito bem produzido (com uma fotografia que praticamente insere o espectador dentro da trama e um protagonista competente), Guerra é incapaz de marcar quem quer que seja devido à sua sobriedade e falta de ousadia – limitando-se apenas a ser mais um filme de guerra e nada além disso.

“Death of a Bachelor”: P!ATD se Reinventa em Novo Álbum

Há mais de uma década, o Panic! At The Disco surgia e, dentre os vários artistas de sua época (que dominaram o que podemos chamar de “onda emo” dos anos 2000) a banda liderada por Brendon Urie facilmente se destacava. Seja por suas apresentações pomposas, pela versatilidade das canções e discos ou simplesmente pela irreverência de seu frontman, é fato que o P!ATD foi uma das poucas e gratas surpresas daquele período que ainda continua sendo relevante no cenário fonográfico atual, ao ponto de lançar um álbum que há tempos esperávamos: o elogiado Death of a Bachelor.

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A impressão que temos ao ouvir aos trabalhos do Panic em sua ordem cronológica é a de que os rapazes estão sempre “à procura da batida perfeita”. Único integrante remanescente da formação original, Brendon hoje parece se sentir à vontade para criar aquele que é, provavelmente, o disco mais redondo da banda desde seu debut. Não que aquilo que veio após o inigualável A Fever You Can’t Sweat Out não tenha qualidade ou sua devida importância na carreira dos caras. Muito pelo contrário: todos foram necessários para criar a identidade do grupo que, sem sombra de dúvidas, é um caleidoscópio de referências e citações – e exatamente por isso tão preciosa. Mas Death of a Bachelor, ainda que (bem) diferente do primeiro registro do Panic, chega como título definitivo na imprevisível trajetória dos roqueiros.

De forma energética, o álbum se inicia com a poderosa Victorious, onde a batida eletrônica é marcante e ousada – sem mencionar o refrão “Tonight we are victorious / Champagne pouring over us / All my friends were glorious / Tonight we are victorious”, grudento ao ponto de fazer você querer ouvi-la inúmeras vezes sem cansar. Cheia de camadas, Victorious é uma combinação perfeita de guitarras, sintetizadores, agudos – tudo junto e misturado mas em ótima harmonia. Don’t Threaten Me With a Good Time chega com sua melodia hip-hop e um tanto retro e uma base de guitarra bastante propícia. Velha conhecida dos fãs, a balada quase-gospel Hallelujah estranha um bocado à primeira audição, mas vai ganhando seu devido espaço no todo. Emperor’s New Clothes é dançante, mas peca talvez no excesso de informação – e assim como a faixa anterior, precisa ser ouvida mais algumas vezes até você se acostumar.

Título deste registro, Death of a Bachelor vai ser, para muitos, o momento mais incrível até aqui – e realmente o é. Trafegando os limites do pop e R&B e com excelentes arranjos de metais (que dão um charme muito peculiar e ela), é de longe a interpretação mais consciente de Brendon até então: seu vocal é potente e seus falsetes são inteligentes e inseridos oportunamente. E se você ama A Fever You Can’t Sweat Out, impossível não balançar ao som da deliciosa Crazy = Genius, praticamente um musical da Broadway. Grande balada do disco, LA Devotee cresce bastante com seu aumento de tom na parte final (após um intermezzo muito bem vindo). Em Golden Days, é a guitarra base que fala mais alto, além da boa performance de Urie. The Good, The Bad and The Dirty não chega a empolgar demais, apesar de bem executada. House of Memories possui uma boa melodia, mas por algum motivo não carrega o mesmo brilho das demais – embora haja uma quebra de ritmo interessante. Encerrando o álbum com grandiosidade, é em Impossible Year que enxergamos até as influências de – pasmem – Frank Sinatra na formação musical da banda. É aqui também que temos um dos melhores desempenhos de Brendon em anos, através de uma composição que aposta na sutileza da combinação piano e voz – vale lembrar que, em alguns casos, menos é mais e isso fica evidente nesta faixa irrepreensível.

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A verdade é que o P!ATD nunca teve medo de inovar e explorar a si mesmo, tentando ao máximo inventar e reinventar idéias. Com arranjos inesperados (mas não totalmente surpreendentes), Death of a Bachelor deu a Brendon seu primeiro número 1 na parada norte-americana da Billboard 200, além de inúmeras e amistosas críticas. Para os fãs, um disco que exibe toda a monstruosidade que é o vocal de Brendon e sua criatividade ao compor música pop que, ainda que previsível e com certa estrutura já montada (introdução tímida e explosão no refrão), consegue funcionar pela sua diversificação. É como se, finalmente após tanto tempo, a banda – ou melhor, seu vocalista – soubesse o que quer fazer e como fazer. E isso, meu amigo, não tem Billboard que pague…

Cinco Graças (Mustang)

O ponto de vista de Cinco Graças se dá a partir de Lale, a caçula de cinco irmãs órfãs, que moram com a avó e tio em um pacato vilarejo turco, afastado da capital Istambul. Em uma manhã, ao sair da escola para comemorar o início das férias com os garotos da região, as meninas acabam provocando um pequeno “escândalo” naquela comunidade. A família decide, então, mantê-las sob rédea curta, impondo sobre elas os costumes mais conservadores de sua religião e preparando-as para o casamento, ainda que precocemente.

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Talvez Cinco Graças possa não parecer tão significativo para nós, da cultura ocidental – mas em países com regimes religiosos mais conservadores, a proposta se abrange de maneira contundente (apesar que, a meu ver, o Brasil parece ter regredido cinco décadas nos últimos anos). Cinco Graças é um filme que traz à luz um debate profundo sobre a opressão sofrida pelas mulheres – não apenas na Turquia, mas em muitos lugares do mundo. Infelizmente, para alguns, ser mulher se reduz apenas a “ser esposa”, “ser dona de casa” – e nada mais. Para além disso, Cinco Graças também promove uma reflexão aguda acerca da influência de crenças religiosas em nossa sociedade. Embora algumas tradições ligadas à religião estejam cada vez mais presentes no nosso cotidiano, é interessante notar que nossa geração está inserida em um novo “modelo” de mundo. Dizer “não” simplesmente não basta; é preciso ter argumentos para que não haja contestação – e as cinco protagonistas dessa história são retratadas aqui exatamente com este perfil questionador, contestador (o que acaba por gerar os grandes conflitos da trama).

Mas talvez a maior reflexão de Cinco Graças se dê ao mostrar o quanto a transição da infância para a fase adolescente pode ser difícil, cruel, dolorosa. Crescer não é fácil – e é aqui que Cinco Graças nos oferece um pouco dos excessos da rebeldia juvenil, apostando no talento de seu jovem elenco, que entrega atuações naturais e consistentes. Deixando de lado o happy ending, Cinco Graças é um filme que fala sobre liberdade de forma bastante sensível, o que nos permite discutir, refletir e, quem sabe, até mesmo mudar um pouco nossos conceitos a respeito da situação de nossas mulheres no cenário contemporâneo.

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)

O cineasta londrino Tom Hooper não é uma unanimidade. Para alguns um gênio, para outros superestimado, é fato, entretanto, que Hooper demonstra total domínio de sua obra no gênero que, definitivamente, é a sua praia: o cinema de época. Não à toa, O Discurso do Rei, de 2010, recebeu 12 indicações ao Oscar, vencendo em quatro delas (incluindo melhor filme e diretor); Os Miseráveis, adaptação do romance francês escrito por Victor Hugo, foi lançado dois anos depois e concorreu em oito categorias, faturando três prêmios. Em suma, Hooper sabe fazer bem aquilo que se propõe a fazer. A Garota Dinamarquesa, seu novo longa-metragem, provavelmente não será muito diferente de seus anteriores: um filme caprichado com ótimas chances de despontar nas premiações da temporada.

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Inspirado no livro de David Ebershoff, A Garota Dinamarquesa se passa na década de 20, na cidade de Copenhagen. O filme é a cinebiografia de Lili Elbe, nascido Einar Mogens Wegener, um artista plástico dinamarquês que teria sido a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. A trama foca o relacionamento do artista com sua esposa Gerda e sua descoberta como mulher.

Fazendo jus aos demais títulos de sua filmografia, Hooper confere bastante sensibilidade à história e, principalmente, um esmero técnico inigualável. Brilhantemente fotografado por Danny Cohen, A Garota Dinamarquesa  é uma aula de cinema – desde a direção de arte impecável (que recria com maestria o período e nos faz mergulhar na narrativa) à trilha poética de Alexandre Desplat. Para além disso, os trabalhos de maquiagem e o figurino de Paco Delgado (parceiro de Hooper em Os Miseráveis) agregam muito à produção.

No entanto, A Garota Dinamarquesa pertence inteiramente à sua dupla de protagonistas. Eddie Redmayne se entrega com propriedade à construção (mais uma vez) de um personagem difícil, que passa por inúmeras oscilações no decorrer da fita. De uma sutileza ímpar, sua atuação é tão genial quanto em A Teoria de Tudo (filme que lhe deu, precocemente talvez, o Oscar de melhor ator em 2015). Em determinado momento, não enxergamos mais Einar, apenas Lili. No entanto, é Alicia Vikander quem mais surpreende: é sua personagem quem enxerga pela primeira vez a feminilidade do esposo e é nela que Einar busca a força para sua transformação. E isso, é claro, não deixa de ser doloroso a Gerda: encorar o marido a ser quem realmente é, enquanto convive com a solidão de perder o homem que ama.

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Humano, A Garota Dinamarquesa é um filme que talvez não consiga emocionar por completo, uma vez que a condição de Lili para com o mundo à sua volta é explorada de forma um tanto superficial. Todavia, em tempos em que a comunidade LGBTQIAP+ luta com intensidade contra o preconceito, é relevante a produção de obras como esta, que trazem à tona questões que devem ser discutidas – e o cinema está aí para fazer este papel social. A Garota Dinamarquesa é cinematograficamente arrebatador e socialmente interessante – perde apenas na ausência de ousadia, que provavelmente geraria um debate maior e mais profundo sobre o tema. Até mesmo porque, infelizmente, os tempos mudam mas muitos pensamentos retrógrados ainda permanecem, né?

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

Uma diligência surge na paisagem invernal de Wyoming e nela vemos John Hurt (Kurt Russell) levando sua fugitiva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para ser enforcada em Red Rock. No caminho, eles se deparam com dois sujeitos: o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um caçador de recompensas, e Chris Mannix (Walton Goggins), um piadista que alega ser o novo xerife da cidade. Surpreendido por uma nevasca, o grupo é forçado a se abrigar em um pequeno armazém no meio da estrada – local este ocupado por outros quatro homens: o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o vaqueiro Joe Gage (Michael Madsen), o general Sanford Smithers (Bruce Dern) e Bob (Demian Bichir), um mexicano que cuida do estabelecimento na ausência dos donos.

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Ambientado alguns anos após o fim da Guerra Civil norte-americana, Os Oito Odiados é, curiosamente, o oitavo filme de Quentin Tarantino (sim, porque Kill Bill é uma única obra) – seu antepenúltimo trabalho, já que Tarantino afirma que sua carreira como cineasta será composta apenas por dez filmes. Assim como seu antecessor, Django Livre, pode também ser encarado como um western – apesar das semelhanças com ele pararem por aí. Na verdade, da filmografia do diretor, o único “comparável” a Os Oito Odiados pode ser Cães de Aluguel – afinal, a premissa é basicamente a mesma: um bando de sujeitos pouco confiáveis que são confinados em um mesmo recinto.

O que, talvez, prejudique Os Oito Odiados quando comparado a Cães de Aluguel é sua duração: enquanto o primeiro trabalho de Tarantino tinha pouco mais de uma hora e meia de projeção, Os Oito Odiados sofre com quase três horas de fita. Conhecido por seus longos e memoráveis diálogos, a verdade é que Tarantino exagerou um bocado em Os 8 Odiados, especialmente na primeira parte da película – e o que era para ser apenas mais uma de suas marcas registradas acabou se tornando pura verborragia. Até entendo que isso foi importante para desenvolver bem cada um dos personagens ali retratados, mas reduzisse certas conversas paralelas à trama principal ou algumas tomadas mais extensas, certamente o resultado seria melhor.

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Se o espectador disperso pode dormir na primeira hora, a segunda parte do filme é bem mais interessante: é onde os conflitos surgem e a narrativa passa a se desenrolar, apesar dos exageros usados por Quentin. É como se o diretor estivesse se esforçando para chocar o público, mas a pergunta que fica no ar é “pra quê?”. Em Os Oito Odiados, não basta ter violência: é preciso aproximar a câmera para vermos nitidamente uma cabeça sendo explodida. Não basta, assim como em Django Livre, abordar uma história de “vingança racial” – o negro é transformado em um tipo quase sádico tamanho ódio pelos brancos. Em suma: os excessos que em seus filmes anteriores criavam um sarcasmo “sadio” acabam parecendo uma falta de equilíbrio do cineasta aqui – algo desnecessário, para alguns.

No mais, restam as boas atuações por parte de todo elenco (sem grandes destaques, com exceção de Tim Roth e Jennifer Jason Leigh), a direção de arte caprichada e a trilha original de Ennio Morricone (que já recebeu 5 indicações ao Oscar nesta categoria), que acrescentam muito ao filme. Ah, claro: imprescindível assisti-lo no cinema. Vá por mim: Os Oito Odiados, em tela grande, é uma experiência imperdível para quem ama cinema, já que Tarantino rodou seu longa em Ultra Panavision 70 – um formato que revolucionou o cinema da década de 50 e, infelizmente, foi abandonado nos anos 60. Só isso valeria todo o ingresso, acredite. É uma pena que, como um todo, Os Oito Odiados não seja tão grandioso quanto esperávamos. Talvez uma edição mais “enxuta” contribuiria para tornar o ritmo mais “equilibrado” e menos “cansativo”. Tarantino perdeu a mão? Creio que não: Os Oito Odiados, ainda com suas deficiências, atesta o talento de Tarantino e responde o porquê de ele ser um dos artistas mais celebrado dos últimos tempos. Este apenas não é, digamos, um de seus momentos mais célebres…

Carol (Carol)

Baseado no romance The Price of Salt, de Patricia Highsmith (publicado originalmente em 1952), Carol se passa nos Estados Unidos da década de 50 e acompanha a trajetória de Carol Aird, uma mulher da alta sociedade nova-iorquina que vive um casamento de aparências com Harge Aird, um rico e influente banqueiro local. A situação entra em colapso quando Carol decide consumar o divórcio, embarcando em um relacionamento com Therese Belivet, uma jovem aspirante a fotógrafa com quem viverá uma intensa história de amor.

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O cineasta Todd Haynes (de Não Estou Lá e da série Mildred Pierce) acerta no estilo sofisticado, o que torna Carol um deleite visual tamanho requinte da produção. Com uma direção de arte primorosa e belas locações, a ambientação de época é impecável – e fica bem acentuada com a os ótimos figurinos (de Sandy Powell, ganhadora de 3 estatuetas do Oscar nesta categoria das 10 indicações que recebeu) e maquiagem. Para além disso, o roteirista estreante Phyllis Nagy faz um excelente trabalho de construção das personagens, cuidadosamente retratados de forma com que o público realmente se solidarize com elas. Obviamente, as atuações das protagonistas Cate Blanchett e Rooney Mara contribuem muito para isso. Apesar das atenções estarem voltadas todas para a primeira, é difícil dizer qual delas está melhor, uma vez que ambas se entregam completamente às suas personagens – Rooney chega, inclusive, a roubar a cena em várias ocasiões tamanha a sutileza com que faz sua Therese. Juntas, então, Blanchett e Mara são fulminantes: a cumplicidade que transmitem através dos olhares furtivos e dos gestos contidos dão ainda maior acalanto ao relacionamento das duas.

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Aplaudido em Cannes, Carol está longe de ser apenas um “romance lésbico com Cate Blanchett” – como muitos o têm reduzido (e, particularmente, acho que este tipo de “associação” vem prejudicando bastante os filmes lançados neste período ‘pré-Oscar’, pois limitam consideravelmente a perspectiva do espectador). Carol é muito maior: é uma elegante produção que escancara os obstáculos vividos pelas mulheres daquela época. E mais do que isso: a trama nos oferece um pequeno panorama da hipocrisia humana, fruto do preconceito de uma época onde o amor entre duas pessoas do mesmo sexo era considerado “ilícito”, “imoral”. Infelizmente, pouca coisa mudou desde então – portanto, Carol vai muito além de uma obra de cinema para trazer à tona uma discussão socialmente necessária.

O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur)

A primeira pergunta que passou pela minha cabeça após assistir a O Bom Dinossauro foi “Esse filme é realmente necessário?” – e esta questão me perturbou durante um tempo. Sim, porque sejamos honestos: após entregar uma de suas melhores animações em todos os tempos (Divertida Mente), a Pixar não precisava – nem nunca precisou, na verdade – provar nada a ninguém. Mais do que isso: é sempre com muita expectativa que aguardamos qualquer projeto do estúdio, afinal sempre somos surpreendidos, certo? Bem…

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O Bom Dinossauro não é ruim, entenda – mas deixou a desejar. E muito. A trama parte de um conceito clássico do cinema: um herói que precisa buscar coragem para conquistar algo. Assim, conhecemos Arlo, o caçula dos três filhos de uma família de dinossauros. Diferente dos irmãos, Arlo é um desastre nos afazeres cotidianos por conta do medo que possui de tudo e de todos, apesar da ajuda e incentivo dos pais. Após uma série de fracassos, Arlo tem a chance de matar a criatura que está roubando a comida que sua família armazenara para o inverno – mas descobre que o ladrão é um menino humano primitivo e, por pena, deixa-o escapar. Mais tarde, tentando consertar a situação, Arlo se afasta de seu lar e reencontra o garotinho, de quem acaba se aproximando.

Embora comece de forma promissora (questionando o espectador sobre como seria a relação entre humanos e dinossauros caso o asteroide que teria dizimado os grandes répteis não tivesse atingido a Terra), O Bom Dinossauro é um filme que não empolga e, principalmente, não surpreende. Pior: a narrativa é uma cópia de várias outras fitas infantis. Para começar, a abordagem sobre amizade nos remete imediatamente a Toy Story, com dois personagens que não se dão muito bem mas, devido às circunstancias, precisam se “suportar” para sobreviver. É possível também nos lembrarmos de Procurando Nemo na jornada que o protagonista faz em busca de seu objetivo – com quebras narrativas para apresentar outros personagens (com a diferença aqui que nenhum deles é engraçado). Ainda conseguimos enxergar certa referência a Mogli na forma como Spot, o pequeno humano, é retratado. Mas nenhuma associação é tão descarada quanto ao clássico Disney O Rei Leão – inclusive com sequências que são praticamente idênticas ao filme de 1994. O grande problema é que em O Bom Dinossauro não se trata de uma homenagem – aqui, estamos falando de um punhado de ideias já vistas que soam batidas, previsíveis e, mais do que tudo, manipuladoras.

Assim, O Bom Dinossauro se torna deveras cansativo ao longo de sua uma hora e meia de projeção – quase uma eternidade – , o que faz com que o público mais adulto não consiga se enternecer. Para as crianças, faltam personagens mais cativantes (além de uma dose de humor que chame a atenção dos pequenos). O Bom Dinossauro é até bem feito tecnicamente (os frames são bem executados, mostrando a excelência tecnológica Pixar, capaz de produzir cenários exuberantes), mas carece de uma história, digamos, mais original. Não é o caso de dizer que estamos diante do pior filme da Pixar, até porque temos Carros 2 e Valente aí para competir. Mas é fato que O Bom Dinossauro não chega a ser um marco no estúdio. Definitivamente, O Bom Dinossauro é legal, porém desnecessário.