Uma Jornada de Bicicleta (À bicyclette!, 2024)

Mathias Mlekuz e Philippe Rebbot cultivam uma amizade de longa data e decidem empreender uma ambiciosa travessia de bicicleta em memória do jovem Youri, filho de Mathias, que se suicidara pouco tempo antes. O roteiro da viagem – literal e simbolicamente – é um livro escrito pelo rapaz, no qual registrara o trajeto de uma jornada realizada anteriormente por diversas cidades da Europa. Assim, na companhia de um simpático cachorro, os dois amigos se lançam a uma experiência que busca transformar o peso do luto em uma celebração da vida e da própria amizade.

Uma Jornada de Bicicleta é o resultado desse processo docuficcional: o que se vê na tela é a condensação de cerca de 150 horas de filmagens, gravadas sem um roteiro predefinido e construídas a partir da improvisação – dos diálogos, dos gestos e dos percalços enfrentados pela dupla. A proposta inicial envolvia apenas o desejo de repetir os passos de Youri, tendo partido de Philippe Rebbot a ideia de prestar essa homenagem artística ao filho do amigo. Desse modo, Mathias e Philippe seguem estrada afora acompanhados por uma equipe de cinco pessoas e, ao longo de um mês, revisitam lugares, pessoas e vivências para manter viva a presença de Youri. Sem indicações prévias, foi na montagem que se definiram as escolhas daquilo que permanece (e do que se ausenta), preocupando-se em preservar o que fosse narrativamente essencial.

O filme preserva uma notável sensação de espontaneidade, muito ressaltada por seu viés documental: a câmera, por vezes, assume uma postura observacional, como na sequência em que o grupo reencontra uma antiga namorada de Youri – trecho que se aproxima do registro direto de um documentário, quase como se estivéssemos diante do fragmento de algum título do gênero. Em outros momentos, essa naturalidade é levemente questionada – como na cena em que a dupla sai ao encontro de Josef, filho de Mathias que se junta à viagem, e esquece as chaves do quarto em que estavam hospedados. Há elementos que corroboram para tensionar essa naturalidade, especialmente a trilha sonora, muito precisa e emocionalmente conduzida, mas cujo tom remete discretamente à ficção, em especial, à comédia.

Todavia, essa fricção não enfraquece o conjunto da obra; pelo contrário, a tensão entre o registro mais cru e a elaboração ficcional reforça o caráter híbrido do filme, situado na zona tênue entre o documentário e a ficção. Não por acaso, o espectador só apreende plenamente essa posição narrativa quando conhece previamente a história ou quando, ao final, os créditos sobem juntamente com as fotografias do grupo. Assim, mais do que um mero relato do deslocamento físico – que poderia reduzir o longa a um road movie genérico sob duas rodas –, o filme parece propor não apenas uma reflexão sobre a memória, mas também um exercício de cinema sobre os limites da representação: entre a vida vivida e a vida encenada, Uma Jornada de Bicicleta afirma a docuficção não como uma indecisão formal, mas como uma escolha consciente de recriação da experiência real por meio da linguagem cinematográfica.

Voz de Aluguel (Le Répondeur, 2025)

Baptiste é um talentoso artista, porém não consegue viver exclusivamente de sua arte – quando muito, realiza apresentações esporádicas no pequeno teatro de um amigo. Para ganhar a vida, ele atua como atendente de telemarketing, função que desempenha sem muito entusiasmo e que claramente contrasta com todo o seu potencial criativo – até o dia em que é surpreendido por uma proposta um tanto inusitada. Pierre Chozène, um consagrado romancista incapaz de se dedicar à escrita de seu novo livro devido às inúmeras ligações de amigos e familiares, lhe oferece um emprego singular: tornar-se sua ‘voz de aluguel’, atendendo suas chamadas e passando-se pelo próprio escritor.

Nos últimos anos, o cinema francês recorreu – à exaustão, diga-se de passagem – à “dramédia”, gênero que combina elementos de drama e comédia de forma equilibrada. É o tipo de narrativa onde o riso e a tensão dramática coexistem, buscando tratar temas sérios com mais leveza – não se limitando simplesmente a dramas com eventuais gags cômicos ou comédias com momentos mais emocionais. Dentro dessa tendência observada no cenário fílmico francês contemporâneo, Voz de Aluguel ocupa uma posição ambivalente: embora parta de uma premissa potencialmente cômica (a “terceirização” da própria voz), o filme de Fabienne Godet desloca seu eixo narrativo, de forma mais contida, para uma investigação de temas como identidade, solidão e a fragilidade das relações, recorrendo ao humor como uma camada superficial para o tratamento desses conflitos existenciais.

Esse plano temático encontra, no campo formal, inquietação equivalente – ou melhor, a ausência dela: enquanto a direção de Godet não ultrapassa os registros convencionais (embora funcional, é verdade), a fotografia mais sóbria, com iluminação naturalista, reforça o realismo da trama – embora não construa momentos que potencialize os conflitos internos de seus personagens. A montagem linear, por sua vez, garante clareza narrativa ao privilegiar a fluidez clássica, mas também produz uma atmosfera de monotonia, não exigindo sequer muita atenção do espectador. Em suma, não há qualquer risco estético ou soluções visuais que produzam tensionamento narrativo.

Voz de Aluguel apoia-se, então, no carisma de seu elenco: um simpático Salif Cissé, que performa um Baptiste afetuoso em todas as suas fragilidades, e um veterano Denis Podalydès, que carrega na face todo o esgotamento de um intelectual em crise criativa. À medida que a história avança e Baptiste se vê mais absorto na personalidade de Pierre, identidade e performance passam a se confundir, promovendo desdobramentos interessantes, porém pobremente explorados. Voz de Aluguel parece sugerir muito: a dependência cada vez mais constante de elementos virtuais, a interação fragmentada entre indivíduos em um mundo digital, os privilégios das classes dominantes ou mesmo a linha tênue que separa a imitação da atuação; decide, no entanto, manter-se como um entretenimento leve, óbvio e comedido, o que o limita a um filme agradável e bem acabado, porém inevitavelmente esquecível.

Nouvelle Vague (Nouvelle Vague, 2025)

Na Paris do final dos anos 1950, surge um grupo de jovens cineastas — muitos deles oriundos da redação da lendária Cahiers du Cinéma — que seria responsável por um dos movimentos mais importantes da história do cinema: a nouvelle vague francesa. Para se ter uma noção de sua dimensão, segundo estimativa de François Truffaut, cerca de 170 novos cineastas emergiram em seus primeiros anos, entre 1958 e 1962 — número expressivo, considerando as condições da época. Nesse contexto de renovação estética e de contestação dos modelos narrativos tradicionais, Jean-Luc Godard faz sua estreia em longa-metragem com Acossado (À bout de souffle, 1960), consolidando seu nome como principal autor do movimento ao entregar aquela que é a obra mais emblemática da nouvelle vague.

Décadas depois, esse momento central na história do cinema moderno serve de contexto histórico para o homônimo Nouvelle Vague (2025), de Richard Linklater, filme que revisita os bastidores de Acossado. À medida que reconstrói o processo fílmico da obra-prima godardiana, o cineasta interroga a própria origem do mito da nouvelle vague, ao mesmo tempo que observa, à distância, o surgimento de uma modernidade cinematográfica que recusava padrões estabelecidos e estimulava a liberdade autoral.

Godard, é sabido, não era uma pessoa fácil de lidar – e, sob parâmetros atuais, seria certamente “cancelado”. Sua genialidade, no entanto, é inegável. Essa dualidade (tão comum na história da arte, diga-se de passagem) atravessa os tempos e suscita discussões recorrentes sobre o desafio de se olhar a obra para além de seu autor (ou apesar dele). Em Nouvelle Vague, essa problemática é atenuada pela carismática construção de personagem de Guillaume Marbeck, que entrega um protagonista sem caricaturas – mesmo com seus inseparáveis óculos escuros e suas frases de efeito: ora petulante, ora vulnerável, seu Godard se revela, provavelmente, muito mais simpático que o original. Zoey Deutch e Aubry Dullin, por sua vez, completam o elenco principal como, respectivamente, Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo, os protagonistas de Acossado. Enquanto ela, mesmo em sua docilidade, estabelece uma relação conflituosa com o diretor – marcada por ironias, piadas e visível insatisfação com o projeto –, o descolado Belmondo se impõe como uma figura extremamente cativante (de longe, a maior surpresa do elenco). A dinâmica entre o trio responde por alguns dos melhores momentos no filme.

No entanto, há uma ressalva: Nouvelle Vague é um projeto milimetricamente pensado por e para os apaixonados por cinema – e, principalmente, o movimento francês. Rodado em câmera de 35 mm, em preto e branco e com um design de produção impecável, Nouvelle Vague nos transporta com eficácia para aquele universo, como se, de fato, estivéssemos diante de uma obra dos anos 1960 e não de um filme contemporâneo sobre o período. Dito isso, é necessário pontuar que o longa de Linklater atua quase como fanservice: está repleto de referências, citações e personagens icônicos (aliás, a escolha de identifica-los por legendas, olhando diretamente para a câmera, funciona muito bem aqui); mas carece, é verdade, de profundidade – seja na construção de seus personagens secundários, seja em seu arco narrativo central. Assim, Nouvelle Vague é mais um filme de bastidores (bem executado, agradável de se assistir, divertido, acolhedor e direto – quase não se vê a hora passar) para os que já estão habituados a esse cenário; para quem cair de paraquedas, a história pode soar superficial, simplista demais – contentando-se, no máximo, a despertar o interesse pelo movimento e seus personagens (até mesmo por se concentrar mais em Godard e seu processo criativo do que na nouvelle vague em si). Nouvelle Vague, portanto, se assume menos como uma reinvenção do passado e mais como uma celebração – um verdadeiro gesto de amor ao cinema que, mesmo limitado, reafirma a permanência de um legado inquestionável.

História(s) do Cinema (Histoire(s) du Cinéma, 1988)

Godard tinha pouco menos de 30 anos quando dirigiu seu primeiro longa-metragem, Acossado, muito embora já tivesse uma carreira interessantíssima enquanto resenhista de cinema (inclusive atuando na lendária “Cahiers du Cinéma”) ao lado de nomes como François Truffaut, Claude Chabrol e Jacques Rivette – todos eles que, posteriormente, se consagrariam como grandes cineastas e estariam à frente da nouvelle vague francesa. Esse movimento, popularizado ao final dos anos 50 e início dos 60, questionava o cinema francês tradicional através de uma nova perspectiva do audiovisual, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo: a valorização do “cinema de autor”, a quebra da linearidade narrativa e os temas do cotidiano são algumas das características mais marcantes desse período, que influenciou toda uma geração de artistas. Mas Godard e sua trupe eram mais do que jovens frustrados em uma Europa pós-guerra: eram, antes de tudo, cinéfilos, com um real interesse no cinema e sua história. Alfredo Manevy pontuaria, anos mais tarde, que “a Nouvelle Vague foi o primeiro movimento cinematográfico produzido com base em um interesse pela memória do cinema”¹.

Essa introdução se faz necessária para entender a gênese de História(s) do Cinema, série dirigida por Godard em 1988. Dividida em 8 capítulos com diferentes temáticas, a obra dialoga a todo instante com a memória do próprio cinema: o cineasta aqui faz suas reflexões sobre o cinema mundial, enquanto parece examinar seu próprio portfólio, através de inúmeros elementos como fotografias, pinturas, literatura, escultura, música – e, é claro, o próprio cinema (utilizado aqui quase que como um material de arquivo). Esses elementos são distribuídos em vídeo por efeitos variados: imagens divididas ou duplicadas, justaposição de imagens e sons, citações ou mesmo a montagem frenética e fragmentada – que embora exija maior ‘entrega’ por parte do espectador, traz um sentido à narrativa à medida que a cada intervenção propõe algo novo a ser analisado (não à toa, no livro de poemas homônimo que complementa a obra audiovisual, o cineasta admite: “por acaso ou não / o único / grande problema / do cinema / parece ser para mim / onde e por que / começar um plano / e onde e por que / terminá-lo”²). A montagem é desencadeada quase como uma poesia, com um ritmo bem definido e proposital.

História(s) do Cinema não busca uma narrativa linear (o próprio diretor declararia que uma história precisa ter um começo, meio e fim, mas não nesta ordem); pelo contrário, temos uma total desconstrução da narrativa cinematográfica mais ‘tradicional’ (ou comercial) – e aqui o cineasta explora múltiplas alternativas que geram infinitas perspectivas. Nada está inserido ali por acaso: cada plano/trecho expõe um ‘pedaço’ da visão de Godard sobre esta forma de arte – seja sua admiração pelo cinema italiano (o único que encontrara sua identidade), sua crítica à indústria cinematográfica e, obviamente, a defesa do cinema como forma de expressão, com sua capacidade inerente de contar a história da humanidade através de si.

Considerado por muitos o melhor trabalho de Godard (ápice de suas experimentações e devaneios), História(s) do Cinema é um convite do idealizador francês a seu mundo pessoal, este construído na cinefilia assumida de um intelectual que domina os mais variados campos do conhecimento humano – mas relaciona todos eles com essa arte tão particular que é o cinema. Devido ao seu grau de experimentalismo, não é uma obra para todos – sequer para aqueles mais acostumados à filmografia do diretor (que, em alguns instantes, se mostra invariavelmente descontente com os rumos que esta arte vinha tomando). Mas para os que se propõe a olhar as imagens (e seus significados) mais de perto, História(s) do Cinema celebra o cinema como nenhum outro dos exemplares godardianos – quiçá de outros artistas.

¹ MASCARELLO, Fernando (org.). História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006.

² GODARD, Jean-Luc. História(s) do cinema. São Paulo: Círculo de poemas, 2022.

O Vale do Amor (Valley of Love)

Sutilmente protagonizado pelos astros franceses Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, O Vale do Amor acompanha um pai e uma mãe, divorciados, que se reencontram após muito tempo em uma viagem ao Death Valey, nos EUA, a pedido do filho que lhes escrevera uma carta antes de se suicidar. Durante a estadia, eles discutem a relação e refletem sobre o passado, enquanto enfrentam no presente a própria dor causada pela morte do filho.

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Dirigido por Guillaume Nicloux (do elogiado A Religiosa, de 2013), O Vale do Amor não é um filme para qualquer um. Com um desenvolvimento lento e angustiante, porém preciso, o longa parece, a princípio, ser tão “desnorteado” quanto seus protagonistas: eles estão ali à procura de respostas para seu sofrimento. Cada um deles, entretanto, reage de uma forma particular: suas razões não são as mesmas e os conflitos nascem daí, através de diálogos emocionalmente carregados que nos fazem sentir a dor destes personagens como se fôssemos nós mesmos quem tivéssemos perdidos um ente próximo, ou pelo menos nos colocar no lugar deles, mas mantendo certa distância.

Triste, poético, etéreo – esses podem ser alguns dos adjetivos que me vêm à cabeça quando penso em O Vale do Amor. É um filme sobre o luto, mas não sua superação e sim sua dor. Ela não passa facilmente (quando passa), ela machuca, corrói e, na maioria das vezes, não tem explicação, como boa parte das coisas em nossa existência. As feridas nem sempre podem ser saradas, mas o tempo não para e a vida continua. É estranho pensar assim? Sim, mas é provavelmente por isso que O Vale do Amor não tenha um final feliz. Com atuações acima da média e uma fotografia bastante atraente, O Vale do Amor nos convida à uma interessante reflexão sobre os traumas do luto, com um argumento rico e competente para tornar este um filme melancolicamente necessário.

A Viagem de Meu Pai (Floride)

É inevitável: a menos que haja alguma interrupção do destino, chega uma fase na vida em que os papéis se invertem e os filhos se tornam os pais de seus próprios pais. Este é o fio que conduz a trama de A Viagem de Meu Pai, o novo filme de Philippe Le Guay.

A Viagem de Meu Pai acompanha Claude Lherminier (Jean Rochefort, em performance irretocável), um octogenário que começa a sentir, ainda que a contragosto, os sinais da demência senil. Antigo proprietário de uma grande fábrica de papel, Claude está aos poucos perdendo a noção entre realidade e fantasia e é sua filha mais velha, Carole (Sandrine Kiberlain), que o substituiu na gestão da empresa, a responsável pelo pai. A situação complica quando Claude decide viajar a Flórida para rever Alice, a outra filha que não vê há quase dez anos.

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A direção discreta de Le Guay contribui muito para que o cineasta consiga narrar uma história triste de maneira leve: o diretor encontra o equilíbrio exato entre humor e drama, concedendo total sensibilidade para uma temática difícil e que, nas mãos de outros artistas, seria tratada com apelação ou sentimentalismo barato. Para além disso, Le Guay está muito bem amparado pelas atuações excepcionais de sua dupla principal. O veterano Jean Rochefort (em seu último trabalho, já que anunciou sua aposentadoria há alguns meses, infelizmente) é um ator incrível e faz de Claude um personagem que certamente já vimos em algum momento – e por isso a compaixão do público com ele é inevitável. Claude é um típico senhor de terceira idade: para além dos ataques de confusão ou esquecimento, ele insiste em morar sozinho, afugenta a todos que querem o ajudar (inclusive as enfermeiras) e é cheio de manias e obsessões. Seus sorrisos e olhares dão um toque todo especial à sua atuação. Já Sandrine (que retoma a parceria com Le Guay) confere segurança a uma personagem dividida: ela se sente “agraciada” por ter o pai ainda vivo, mas reconhece o peso dos cuidados que ele exige. De um lado, Carole tem a consciência de que o pai precisa dela, mas sabe que terá de abrir mão de sua própria vida pessoal em algumas ocasiões.

Ninguém deveria se desentender com vinho ou com as pessoas. É perda de tempo…

Com uma rica fotografia e uma estética caprichada, A Viagem de Meu Pai é, sem dúvidas, o melhor filme de seu realizador até aqui. O longa nos leva a enxergar a vida de maneira mais solidária, humana: as pessoas estão aí, o tempo passa e não volta jamais – então por que perder tempo com desentendimentos, discussões tolas ou brigas? Isso não é piegas, mas realidade: só percebemos o quanto alguém é importante para nós quando o perdemos – então por que não amar as pessoas como elas realmente são e aproveitarmos o tempo ao lado delas enquanto elas ainda estão vivas? Nos presenteando com um belíssimo desfecho, A Viagem de Meu Pai é um título que consegue a proeza de tratar temas pesados com muita delicadeza e isso já faz dele uma obra magnífica e necessária.

Um Homem, Uma Mulher (Un Homme et Une Femme)

Anne Gauthier é uma roteirista de cinema que vive só com o filho, após a morte de seu marido em um brutal acidente. Já Jean-Louis Duroc é um piloto de corridas, ainda se recuperando do suicídio de sua esposa, que também lhe deixara uma filha. Os dois se conhecem casualmente em uma tarde de domingo, durante a visita semanal que fazem ao colégio interno em que suas crianças estudam. Como Anne perde o trem, Jean-Louis lhe oferece uma carona de volta a Paris. Os encontros semanais se sucedem e, aos poucos, a atração inicial entre os dois se transforma em amor.

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O argumento de Um Homem, Uma Mulher não poderia ser mais simples. No entanto, o filme de Claude Lelouch é, sem dúvidas, uma das mais belas histórias de amor do cinema. Já declarei em inúmeras ocasiões ser um defensor da tese de “menos é mais” – e em Um Homem, Uma Mulher esta definição é muito bem exposta. A simplicidade da narrativa é transposta, inclusive, para o método: as profundas discussões filosóficas, existenciais e metafísicas tão comuns à época de seu lançamento (1966, período em que a nouvelle vague estava em alta) são trocadas por dramas de pessoas comuns. Suas angústias, sofrimentos e questionamentos são exprimidos na tela de forma que o expectador possa acompanha-los sem reservas (não à toa, Lelouch declarou que seu longa não tinha nada a ver com o movimento francês de então).

Um Homem, Uma Mulher ainda é considerado como a base daquilo que é o cinema de seu cineasta: para além das temáticas que tratavam as relações humanas (em especial, o relacionamento entre homem e mulher), podemos ainda observar o emprego de câmera móvel (na mão ou no ombro, em muitos casos), o uso recorrente de voz over e flashbacks e os diálogos improvisados, bem como a trilha musical marcante – aqui, Francis Lai é o responsável por um dos temas mais populares do cinema. Além disso, Lelouch utiliza as cores de forma cronológica, o que ajuda o público a se localizar no tempo: enquanto o colorido representa as lembranças de um passado recente (interrompido pela morte de seus respectivos cônjuges), o preto e branco pontuam o momento presente (pautado pelo recomeço e a busca pela felicidade). É através desta brincadeira com o “tempo narrativo” que o diretor vai revelando as memórias do casal de protagonistas.

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Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e roteiro original em 1967, além do Palma de Ouro em Cannes no ano anterior, Um Homem, Uma Mulher ainda apresenta as atuações magnânimas de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant. Anos mais tarde, Lelouch repetiria o par central na sequência Um Homem, Uma Mulher: 20 Anos Depois, não obtendo o sucesso do filme original. Mas isso não desqualifica Um Homem, Uma Mulher em nenhum aspecto. Assisti-lo ainda nos dias de hoje é uma experiência cinematográfica indescritível. Mesmo em sua simplicidade, esta produção francesa é rica em sua magnitude de sentimentos – o que por si só já lhe garante o status de obra-prima do cinema.

Sobre Amigos, Amor e Vinho (Barbecue)

01Filmes sobre amizades parecem ter caído no gosto dos idealizadores do cinema francês. Esta espécie de “subgênero” permite várias abordagens, das simples comédias ou homenagens às pessoas queridas até sátiras sociais e reflexões sobre o caráter humano – afinal de contas, cá entre nós: todo mundo tem aquele grupo de amigos com o qual se reúne uma ou outra vez para dar risada, tomar um café ou apenas trocar ideia. Sobre Amigos, Amor e Vinho é o mais novo título desta safra, um sucesso na França que chegou recentemente às salas nacionais.

No centro da narrativa de Sobre Amigos, Amor e Vinho está Antoine. Sua vida não podia ser melhor: situação financeira estável, uma rotina saudável, um casamento bem estruturado, emprego bem conceituado, muitos e fiéis amigos que o acompanham desde a época da faculdade – enfim, tudo vai bem para o bonitão. Apesar disso, Antoine não está feliz – ou como ele mesmo narra, “está de saco cheio”. Tudo o aborrece. Até que o destino lhe dá uma surpresa: às vésperas de seu aniversário de 50 anos, Antoine sofre um ataque cardíaco enquanto está participando de uma corrida com seus companheiros. Esta visita antecipada e inesperada ao hospital (justamente quando acreditava estar em seu melhor shape) faz com que Antoine reveja sua própria existência e decida mudar suas atitudes – inclusive com relação aos colegas.

A premissa não é necessariamente “original” – essa história do tipo que passa por alguma situação que o faz repensar a vida já é batida. Entretanto, Sobre Amigos, Amor e Vinho se sobressai graças à sua trama bem escrita, que desenvolve suas personagens de maneira tão carismática que, ao final do longa, já nos sentimos íntimos deles, como se fossem nossos próprios conhecidos. Além disso, ainda que algumas figuras sejam caricatas (e certamente já tenham sido vistas em outras produções do gênero), é impossível ao espectador não se identificar com seus dramas. O grupo é variado: Baptiste é o desempregado que quer reatar com a ex-esposa; Laurent passa por problemas financeiros, mas não abandona a pose e nem se abre com ninguém; Yves é o “almofadinha” que se acha o dono da razão; Jean-Michel é o gordinho menosprezado – que só está ali porque conheceu os demais enquanto trabalhava no refeitório da universidade. E claro, o próprio Antoine, o líder da turma que mantém um casamento aparentemente perfeito – mas que é pura fachada.

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Os conflitos são causados no momento em que o grupo decide passar as férias em uma isolada casa de verão. É comum ouvirmos que intimidade não é uma coisa muito legal, certo? Aos poucos, a convivência entre eles se torna mais difícil – algo natural, pois com a idade, costumamos ficar mais francos e sinceros e pequenos defeitos alheios que antes aceitávamos com maior facilidade começam a incomodar. Mas também é quando conhecemos quem realmente são nossos amigos, aqueles que podem até se irritar de vez em quando, mas nos aceitarão como somos. É o que acontece naquele círculo: apesar de suas diferenças, eles se amam – e o público sente isso graças ao ótimo desempenho do elenco – especialmente o de Lambert Wilson, nosso protagonista, em um papel mais verossímil do que aquilo estamos habituados a vê-lo e, talvez por isso, seja a grande atração do filme.

Com uma direção segura de Éric Lavaine, Sobre Amigos, Amor e Vinho ainda nos delicia com sua arte impecável, que valoriza a suavidade das cores e uma fotografia que funciona muito bem em sua simplicidade. Apesar do roteiro previsível até certo ponto, ele não se utiliza da piadas escrachadas ou verborragia barata; pelo contrário: com um humor sutil e inserido oportunamente ao longo da projeção, a forma leve como o longa é conduzido faz com que Sobre Amigos, Amor e Vinho seja um filme agradável de se assistir. Portanto, chame os amigos e abra seu coração – só não se esqueça de uma boa garrafa de vinho para acompanhar…

Adeus à Linguagem (Adieu au Langage)

Há filmes que não são feitos para ser entendidos. Eles são produzidos não para contar uma história, informar ou mesmo trazer algum tipo de questionamento; eles apenas existem para ser contemplados, pelo prazer exclusivo da arte. Se o espectador buscar alguma compreensão, as chances de sair do cinema frustrado serão grandes, pois a película está ali na tela para se admirar. É exatamente assim que vejo Adeus à Linguagem, novo filme do mestre da nouvelle vague Jean-Luc Godard.

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Ao longo de pouco mais de uma hora de duração, Adeus à Linguagem apresenta a trama de um homem e uma mulher, um casal cujo maior desconforto na relação é a falta de comunicação. Eles não se compreendem – e o cachorro é o símbolo deste relacionamento. É interessante, no entanto, analisar a forma como Godard conduz este argumento. A comunicação do filme é totalmente visual – e é justamente isso que dificulta um entendimento maior da fita. Em determinado momento, Godard diz que “as duas maiores invenções são o zero e o infinito” – frase que traduz bem a proposta do artista de nos fazer entender algo que, na realidade, não está ao nosso alcance.

Conforme o próprio título sugere, Godard quebra a narrativa convencional e constrói uma nova linguagem, cuja força reside na mistura competente de som e imagem. O admirável aqui é o domínio de Godard como cineasta: sua destreza é impecável. Como uma criança com um brinquedo na mão, assim é Godard como diretor, buscando os mais diferentes recursos e manejando-os com total desenvoltura e simplicidade (para se ter noção, até mesmo uma câmera de celular é material de trabalho para Godard). Para tornar a experiência ainda mais agradável, o uso do 3D é excepcional – e, para um profissional que nunca utilizou tal técnica, Godard proporciona algo bastante satisfatória.

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Infelizmente, no entanto, Adeus à Linguagem é ainda um filme de Jean-Luc Godard. E o que isso quer dizer? Bom, se o cineasta sempre foi sinônimo de um cinema “difícil”, é fato que Adeus à Linguagem não é um de seus trabalhos mais fáceis. De longe, Adeus à Linguagem é um de seus filmes mais experimentais, ousados e emotivos, apesar de conter vários elementos comuns à sua filmografia (como a trilha descontinuada, os personagens que conversam fora de enquadramento ou os diálogos cheios de reflexões). Não à toa, Adeus à Linguagem foi considerado a melhor produção de 2014 pelos críticos norte-americanos, além de ser ovacionado em Cannes. Mas a verdade é que o público “comum” tende, com toda razão, a desprezar uma obra como esta. Para os cinéfilos, entretanto, Adeus à Linguagem comprova a maestria de um Godard que merece ser apreciado.

Uma Nova Amiga (Une Nouvelle Amie)

Claire e Laura se conheceram ainda no colégio e logo tornaram-se amigas. As duas cresceram inseparáveis, dividindo suas experiências da infância à idade adulta. Suas vidas tinham tudo para seguir seu curso normalmente até a morte prematura de Laura, após dar à luz a sua única filha. Devota à companheira, Claire se compromete firmemente a cuidar tanto da criança quanto de David, o viúvo – até o dia em que Claire é surpreendida com um fato completamente novo: David é flagrado vestindo as roupas da falecida. A situação é um tanto quanto “bizarra” – ou, pelo menos, inesperada. Mas aí vem a explicação: o rapaz sempre gostara de se vestir como mulher – e, segundo ele, sua própria esposa sabia de sua preferência, apesar de David ter aprisionado essa “personalidade” durante muito tempo para manter as conveniências do matrimônio. O problema é que com a morte de Claire, essa figura “feminina” interior agora quer se libertar.

01Uma Nova Amiga traz abertamente um tema que ainda é tabu: a questão de gênero. Confesso que fiquei surpreso com a trama (até mesmo porque o trailer pouco revela sobre a história) e logo me recordei de Laurence Anyways, de Xavier Dolan – longa de 2012 que também falava sobre o assunto. No entanto, a abordagem sobre gênero é o único ponto em comum com o filme do cineasta canadense, pois Uma Nova Amiga nos traz alguns elementos que nos remetem vagamente à obra do espanhol Pedro Almodóvar, especialmente na forma como Virgínia (a versão feminina de David) se desenvolve e, aos poucos, toma espaço, se tornando praticamente a personalidade dominante – tanto que chega um instante na fita em que Claire quase se convence de que o melhor meio de David lidar com o luto pela morte da esposa é através de Virgínia, assim como ela mesma, que encontra na nova amiga uma razão para sua existência abalada.

Com uma fotografia competente (cujas cores também nos transportam ao universo de Almodóvar) e uma boa cenografia, Uma Nova Amiga flerta de maneira bastante pontual com vários estilos, desde o drama intimista (como no irreparável prólogo, que apresenta todas as fases da amizade entre Claire e Laura), a comédia e também o suspense – principalmente nas sequências de sonhos eróticos de Claire). Além disso, a trilha sonora contribui muito para o desenvolvimento da narrativa, acentuando o tom dramático através de acordes de piano envolventes. Por sua vez, o elenco cumpre bem sua função: se Anaïs Demoustier é eficientemente sóbria na construção de Claire, Romain Duris é, no mínimo, excepcional, se entregando totalmente à personagem. Sua atuação é bastante expressiva, sobretudo no olhar do ator, capaz de trazer toda ternura tanto a David quanto a Virgínia.

É interessante analisar a capacidade de François Ozon em percorrer os mais diversos temas e gêneros com total desenvoltura. Um dos maiores expoentes do novo cinema francês e um dos mais ativos cineastas contemporâneos (com, no mínimo, uma produção por ano), sua obra não é unânime – o que é compreensível, haja visto o período entre seus projetos. Uma Nova Amiga, por exemplo, está longe de ser o momento mais inspirado do diretor, mas possui uma identidade marcante que o torna um título obrigatório na filmografia do artista. Apesar de faltar ousadia, Ozon não decepciona ao trazer à discussão um assunto ainda polêmico, mas tratando-o com muita delicadeza, valorizando a inocência da transformação de sua personagem principal. Uma Nova Amiga é um filme que celebra brilhantemente a diversidade – e, sobretudo, a autodescoberta do indivíduo.