Uma Nova Amiga (Une Nouvelle Amie)

Claire e Laura se conheceram ainda no colégio e logo tornaram-se amigas. As duas cresceram inseparáveis, dividindo suas experiências da infância à idade adulta. Suas vidas tinham tudo para seguir seu curso normalmente até a morte prematura de Laura, após dar à luz a sua única filha. Devota à companheira, Claire se compromete firmemente a cuidar tanto da criança quanto de David, o viúvo – até o dia em que Claire é surpreendida com um fato completamente novo: David é flagrado vestindo as roupas da falecida. A situação é um tanto quanto “bizarra” – ou, pelo menos, inesperada. Mas aí vem a explicação: o rapaz sempre gostara de se vestir como mulher – e, segundo ele, sua própria esposa sabia de sua preferência, apesar de David ter aprisionado essa “personalidade” durante muito tempo para manter as conveniências do matrimônio. O problema é que com a morte de Claire, essa figura “feminina” interior agora quer se libertar.

01Uma Nova Amiga traz abertamente um tema que ainda é tabu: a questão de gênero. Confesso que fiquei surpreso com a trama (até mesmo porque o trailer pouco revela sobre a história) e logo me recordei de Laurence Anyways, de Xavier Dolan – longa de 2012 que também falava sobre o assunto. No entanto, a abordagem sobre gênero é o único ponto em comum com o filme do cineasta canadense, pois Uma Nova Amiga nos traz alguns elementos que nos remetem vagamente à obra do espanhol Pedro Almodóvar, especialmente na forma como Virgínia (a versão feminina de David) se desenvolve e, aos poucos, toma espaço, se tornando praticamente a personalidade dominante – tanto que chega um instante na fita em que Claire quase se convence de que o melhor meio de David lidar com o luto pela morte da esposa é através de Virgínia, assim como ela mesma, que encontra na nova amiga uma razão para sua existência abalada.

Com uma fotografia competente (cujas cores também nos transportam ao universo de Almodóvar) e uma boa cenografia, Uma Nova Amiga flerta de maneira bastante pontual com vários estilos, desde o drama intimista (como no irreparável prólogo, que apresenta todas as fases da amizade entre Claire e Laura), a comédia e também o suspense – principalmente nas sequências de sonhos eróticos de Claire). Além disso, a trilha sonora contribui muito para o desenvolvimento da narrativa, acentuando o tom dramático através de acordes de piano envolventes. Por sua vez, o elenco cumpre bem sua função: se Anaïs Demoustier é eficientemente sóbria na construção de Claire, Romain Duris é, no mínimo, excepcional, se entregando totalmente à personagem. Sua atuação é bastante expressiva, sobretudo no olhar do ator, capaz de trazer toda ternura tanto a David quanto a Virgínia.

É interessante analisar a capacidade de François Ozon em percorrer os mais diversos temas e gêneros com total desenvoltura. Um dos maiores expoentes do novo cinema francês e um dos mais ativos cineastas contemporâneos (com, no mínimo, uma produção por ano), sua obra não é unânime – o que é compreensível, haja visto o período entre seus projetos. Uma Nova Amiga, por exemplo, está longe de ser o momento mais inspirado do diretor, mas possui uma identidade marcante que o torna um título obrigatório na filmografia do artista. Apesar de faltar ousadia, Ozon não decepciona ao trazer à discussão um assunto ainda polêmico, mas tratando-o com muita delicadeza, valorizando a inocência da transformação de sua personagem principal. Uma Nova Amiga é um filme que celebra brilhantemente a diversidade – e, sobretudo, a autodescoberta do indivíduo.

Relacionamento à Francesa (Papa ou Maman)

Vincent e Florence formam um casal aparentemente sem defeitos. Aos olhos das demais pessoas, o casamento dos dois é irretocável. Pais de três crianças saudáveis, bem empregados, com uma boa casa, enfim: a vida conjugal da dupla é perfeita. Por essa razão, ninguém entende quando os dois decidem se divorciar. Amigavelmente, é claro – já que até na sociabilidade eles são exemplo (“Dá até vontade de se separar também…”, diz um amigo).

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Relacionamento à Francesa é o filme de estreia de Martin Bourboulon e reflete bem um dos vários dramas tão comuns às famílias atuais – aliás, esta é uma tendência no cinema francês contemporâneo, a comédia familiar. No caso da película do estreante, o humor é causado justamente pelo inesperado: nenhum deles quer ficar com os filhos e ambos vão fazer de tudo para não ter a guarda dos pequenos – e conforme os pais percebem que seus planos não estão dando certo, eles mergulham cada vez mais em tentativas frustrantes de alcançar seus objetivos. Aos poucos, a civilidade é deixada de lado e as situações bizarras vão tomando conta da tela, arrancando muitas gargalhadas do público.

É inevitável destacar as ótimas atuações dos protagonistas Laurent Lafitte e Marina Foïs, que demonstram boa sintonia e são simplesmente hilários em cena. A edição da fita e trilha sonora, por sua vez, são bastante pontuais, ajudando muito a tornar o filme bem agradável. Apesar de alguns clichês inevitáveis à história (que podem até levar o espectador menos atento a fazer comparações com as comédias norte-americanas – especialmente as de ‘besteirol’), Relacionamento à Francesa é uma produção que vale muito a pena por sua qualidade inegável, seu humor inteligente e também por se tratar do trabalho de um cineasta iniciante – que, logo em seu debut, acertou em cheio.

A Bela e a Fera (La Belle et la Bête)

Desde 2010, com o sucesso épico do burtoniano Alice no País das Maravilhas, o cinema não parou mais de produzir novas versões (especialmente em live action) de alguns clássicos infantis. De lá para cá, podemos citar a trama dos irmãos João e Maria (João e Maria: Caçadores de Bruxas, 2013), a história da sofrida Branca de Neve (que ganhou os filmes Branca de Neve e o Caçador e Espelho, Espelho Meu, lançados quase simultaneamente, em 2012), as aventuras de João e seu pé de feijão mágico (com Jack, o Caçador de Gigantes, de 2013) e as maldades da madrasta de Cinderela (no mais recente Malévola, de 2014). No entanto, com exceção deste último, todas essas versões (que em geral faturaram muito em bilheteria) não receberam críticas muito amistosas – e dessa forma, a releitura francesa para A Bela e a Fera veio como um tapa certeiro na cara de Hollywood.

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Neste novo filme (baseado no original que, pouca gente sabe, é francês – escrito no século XVIII por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve), Bela é uma dos seis filhos de um próspero comerciante que, de uma hora para outra, perde toda sua fortuna por conta de um desastre marítimo. A família se vê obrigada a mudar para uma casa menor, longe da agitação da cidade grande, onde vivem modestamente apesar dos constantes protestos das irmãs mesquinhas de Bela. O pai, em uma tentativa de alavancar os negócios da família, se perde em uma tempestade e vai parar em um castelo, onde se torna refém de um terrível monstro após “roubar” uma rosa para sua filha mais querida – obviamente, Bela. Quando o pai retorna à casa da família apenas para se despedir dos filhos, Bela decide se oferecer como prisioneira no lugar do pai – e daí pra frente é tudo aquilo que já conhecemos.

A direção fica por conta do competente Christophe Gans, do elogiado O Pacto dos Lobos, de 2001. Gans (que também assina o roteiro) apresenta um trabalho bastante equilibrado e homogêneo, sem altos ou baixos que mereçam ser destacados – com exceção, talvez, do tom fabular que em determinados momentos são exagerados, mas que não comprometem o resultado final. A trama é envolvente e a narrativa se desdobra muito bem no decorrer de suas quase duas horas. Além disso, tecnicamente a produção é caprichada: do belíssimo design de produção aos figurinos e cenários (quase todos digitais, é verdade, porém magníficos), tudo contribui para um filme visualmente atrativo.

Léa, a nova “queridinha” do cinema francês (principalmente após o polêmico Azul é a Cor Mais Quente) está encantadora diante das telas – apesar da estranha sensação que tenho de que ela sempre tem a mesma expressão. Já o veterano Cassel é competente e mostra boa forma para um quase cinquentão. Juntos, no entanto, me pareceu faltar carisma ao casal – ao menos, a química entre eles não me convenceu. Os demais nomes do elenco cumprem bem a proposta exigida – inclusive as criaturas “fofas” que Bela encontra no castelo (uma tentativa clara de suprir a falta dos simpáticos personagens mágicos da versão Disney).

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De forma geral, este A Bela e a Fera não é uma obra-prima – e está muito longe de ser. Mas é um filme que funciona bem para o seu propósito, surpreendendo por se igualar a qualquer superprodução norte-americana do gênero. Se compararmos esta refilmagem com as outras que citamos no início (ou mesmo outras que deixamos de lado), chegaremos ao fatídico fato de que ela não perde em nenhum aspecto. Pelo contrário: A Bela e a Fera demonstra a total maturidade que só o cinema francês possui, com um texto bem escrito, um trabalho técnico impecável e, claro, uma identidade única. Alguns podem argumentar que este A Bela e a Fera foge um pouco do “padrão francês de se fazer filme” e escorrega ali e aqui em seu tom – e eu posso até concordar, mas de forma positiva. A Bela e a Fera de Christophe Gans não é uma típica produção francesa, mas acerta em cheio ao tentar fazer cinema como Hollywood achava que só ela sabia fazer.

Belle e Sebastian (Belle et Sébastien)

Em uma vila nos Alpes Franceses, em 1943, um garoto de seis anos chamado Sebastian vive solitário, com a esperança de um dia reencontrar sua mãe. Ele não frequenta o colégio e ajuda a jovem Angelina e o rabugento César, que cuidam do menino, em pequenas tarefas diárias, como apascentar os animais do rebanho. Em meio ao terror da ocupação nazista naquela região durante a Segunda Guerra Mundial, Sebastian encontra nas montanhas um cão selvagem, com quem irá estabelecer fortes laços de amizade. No entanto, o cão é acusado injustamente de atacar os animais dos pastores da região e Sebastian terá de proteger seu amigo das mãos dos demais moradores. Esta é a premissa do comovente Belle e Sebastian.

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Sebastian é um excluído não pelas demais crianças, mas por si mesmo. Sua frustração é nunca ter conhecido sua mãe e viver na constante promessa de César de que um dia ela virá. Bell, por sua vez, é um cão maltratado (evidentemente), que tenta cuidar de si mesmo. Ambos os personagens vivem em um ambiente hostil – e talvez a necessidade um do outro é que torna o vínculo entre os dois tão forte. A cena do primeiro encontro entre eles é crucial para exemplificar isso: se no início ambos são inseguros e demonstram medo um do outro, um simples ato de bondade entre eles é capaz de torna-los próximos. Mais tarde, a sequência em que estão se banhando no rio é intensamente bela, representando a nova vida que ambos terão pela frente.

A fotografia da produção é, no mínimo, exuberante e o espectador é quase transportado àquela época. As locações são primorosas e os ótimos planos da câmera de Vanier conseguem captar a beleza de cada ponto da região através de suas lentes. Da mesma forma, a doce trilha sonora (por vezes um pouco “melosa” demais) contribui para o andamento da narrativa, sendo indispensável em todos os momentos em que está inserida na trama. Quanto às atuações, poucos destaques – com exceção de Félix Bossuet, simplesmente uma fofura de criança na pele do pequeno Sebastian, transmitindo todas as nuances de sua personagem e com uma ótima interação com o animal.

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Bell e Sebastian é inspirado em um dos maiores clássicos da literatura europeia, o livro de Cécile Aubry, que já foi adaptado para a TV na década de 60 e também virou animação japonesa em 1981. Com muita sensibilidade, a trama ainda abre espaço para outros personagens, com dramas menores, mas ainda assim interessantes (como o médico que arrisca sua vida para ajudar judeus a cruzarem a fronteira, um homem defrontando seu passado ou o militar alemão que tenta mostrar seu “lado humano” e ser perdoado). Mas não tem jeito: em um cenário como este, é a amizade entre o cão e a criança que acaba se sobressaindo e emocionando a plateia.

Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme)

01Já nas primeiras cenas de Uma Juíza Sem Juízo, somos capazes de descobrir muito a respeito de sua protagonista. Ariane Feldier é uma juíza comprometida e extremamente rígida em seus julgamentos, com grandes perspectivas de crescimento no tribunal onde atua. Além disso, aos 40 anos de idade, ela é solteira, não tem filhos, trabalha muito, se diverte pouco, não acha prazer em quase nada, inclusive nos homens – que troca facilmente por uma dança. Não que haja uma questão de ausência de libido aí, mas talvez sua experiência traumática com a principal figura masculina em sua vida (o pai que abandonou a esposa quando Ariane era pequena – e a seguida morte da mãe, que fez com que a garota ficasse sozinha no mundo) tenha lhe trazido certa desconfiança com relação ao sexo oposto.

Na véspera de ano novo, em meio a uma animada festa em seu local de trabalho, Ariane bebe uns goles a mais e não se recorda de nada do que aconteceu na noite anterior. Alguns meses depois, ela recebe a notícia de que está grávida, mas não faz ideia de como isso pode ter acontecido – e, principalmente, quem é o pai da criança. A partir daí, Ariane começa uma investigação para descobrir os detalhes da história – e, para sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai do filho que espera é um perigoso agressor.

Uma Juíza Sem Juízo é um filme despretensioso, mas que agradou ao público e crítica em geral – tanto que a comédia ganhou o Prêmio Cesar de melhor roteiro (segundo maior festival francês) e foi um sucesso de bilheteria na França. Não tem grandes ambições e seu apelo absurdo consegue arrancar boas risadas da plateia.  Porém, o tom exagerado desta comédia não a torna apelativa. Na verdade, por mais que escolha alguns tipos absurdos e estereotipados, o roteiro ágil (que não deixa o espectador bocejar na poltrona) aliado à trama envolvente e inventiva é o que mais chama a atenção neste filme onde tudo é bastante previsível (mas nem por isso você perde o interesse na trama). A comédia absurda de Uma Juíza sem Juízo, por vezes até mesmo boba, lembra muito os primeiros trabalhos de Woody Allen (obviamente sem toda aquela firula existencial do cineasta).

Mas a comédia também pode render bons frutos, e Uma Juíza Sem Juízo aborda alguns temas contemporâneos que podem render boas discussões. O primeiro, estampado logo nas cenas iniciais, é a visão moderna da mulher na nossa sociedade – independente, workaholic e que não precisa de homem para nada. Depois, a desestruturação da família nos dias atuais é algo frequente. Ambos os protagonistas são frutos de lares problemáticos – e a ideia da formação de uma nova e perfeita “família” (segundo o conceito clássico) é o que mais assusta Ariane. Finalmente, há também uma questão ética aqui: vale a pena assumir um segredo vergonhoso para salvar outra pessoa? Como proceder diante desta questão, tomando ciência da situação vexatória à qual estaremos fatalmente expostos?

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Outro ponto que deve ser elogiado é a ótima interação entre os protagonistas. Sandrine Kiberlian e Albert Dupontel (este último que assina o roteiro e a direção do longa) estão ótimos em seus respectivos papéis e mesmo individualmente tem atuações excelentes. Sandrine consegue lidar bem com as alterações de humor de sua personagem – o que lhe rendeu o Cesar de melhor atriz – , enquanto Albert vive um tipo alucinado que é engraçadíssimo. Da parte técnica, vale ainda destacar a simpática (e divertida) trilha sonora de Christophe Julien (que acentua todo o tom escrachado da comédia).

Em alguns momentos, é bom dar uma pausa em filmes “sérios” e arriscar produções menos badaladas e que exijam um pouco menos de nós como espectadores. Isto não implica em assistir a filmes ruins, mas sim trabalhos menos pretensiosos que podem nos render bons momentos de distração e entretenimento. Uma Juíza sem Juízo não é uma verdadeira pérola cinematográfica, mas funciona bem como comédia, sem forçar a barra. Uma opção divertida para quem gosta de dar umas escapulidas uma vez ou outra das comédias hollywoodianas recheadas de estereótipos, apelações e preconceitos.

Eu, Mamãe e os Meninos (Les Garçons et Guillaume, à Table!)

A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Meninos e Guillaume, na mesa!”.

É com esta frase arrebatadora que Guillaume Gallienne introduz seu filme autobiográfico Eu, Mamãe e os Meninos – considerado a comédia francesa do ano e que foi o grande vencedor do César 2014 (o Oscar francês), incluindo melhor filme e melhor ator – desbancando títulos como Azul é a Cor Mais Quente, O Passado e A Pele de Vênus, último trabalho de Roman Polanski.

02Galliene, elogiado comediante francês, é o diretor, roteirista e protagonista desta incrível comédia – praticamente um grito de libertação de todos os traumas e questões mal resolvidas da infância e adolescência do artista. Desde cedo, o jovem nutre uma admiração incomum pela figura feminina – especialmente, por sua mãe, por quem tem verdadeira adoração e devoção –, chegando ao ponto até mesmo de referir a si mesmo como um ser feminino, uma mulher (em determinado momento, o protagonista aparentemente se descobre apaixonado por um colega do colégio, mas declara à mãe “não ser homossexual, pois é sua filha”). Isso leva a família a acreditar firmemente que Guillaume é homossexual e mais do que isso: a encorajar o garoto a se afirmar como tal.

O grande trunfo de Eu, Mamãe e os Meninos está na inovação de sua estrutura narrativa. De início, somos apresentados a um Guillaume nos palcos, se preparando para sua grande encenação teatral. Seu monólogo, no entanto, é entrecortado pela constituição dos episódios que o jovem narra. Dessa forma, o espectador está diante de duas narrativas que se completam: na primeira, nosso protagonista conta sua história; na segunda, Guillaume vive o que narra. Essa inovação ganha força através da utilização de um elemento já conhecido nas comédias escrachadas norte-americanas: a interpretação de vários papéis. Guillaume vive a si mesmo e também sua mãe – e, travestido como tal, é tão impagável quanto vestido de menininho que quer ser menininha.

No entanto, pouco se discute a respeito da homossexualidade de Guillaume – o que vemos é um protagonista que enfrenta suas questões sexuais sem, necessariamente, se preocupar em descobrir-se homossexual ou não. Já de início, Guillaume percebe que não apenas é ligado à figura materna, como também é parecido com ela – e cada vez mais tenta emular a mãe. Isso o leva a se enxergar “menina” e buscar imitar as demais mulheres à sua volta – mas não apenas pelo desejo de “ser uma mulher”, mas também porque admira o sexo oposto. Isto fica explícito no certo “receio” que tem do sexo masculino – chegando a abandonar uma orgia gay ou mesmo dispensar uma transa por se assustar com o tamanho do pênis do indivíduo.

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Na visão de Guillaume, sua feminilidade advém não de uma possível homossexualidade – mas simplesmente da admiração que mantém pelo sexo oposto. Ou seja, sua feminilidade não o torna homossexual (olha a quebra do estereótipo!) – apesar de, ao que tudo indica, estar preparado para aceitar esta condição caso se confirme. Aqui, nosso protagonista não luta para assumir sua sexualidade – e, consequentemente, sofrer com todos os problemas decorrentes de tal ação (como as brincadeiras dos irmãos ou o desprezo do pai). Contrariando o que se podia esperar de um filme com esta temática, a luta de Guillaume não é para sair do “armário” – mas sim para mostrar quem realmente é, mesmo quando todos dizem o contrário. E ele só consegue isso quando, finalmente, encara sua mãe: é justamente aí que ele descobre que o grande problema de sua progenitora foi transferir seus medos, suas angustias, ansiedades e insegurança para ele.

Comédia deliciosa (ainda que recorra a alguns momentos pastelões para fazer chegar ao riso), Eu, Mamãe e os Meninos também apresenta um excelente trabalho estético em sua direção de arte – o que torna o filme visualmente impecável. Ainda aproveita praticamente cada locação, recorrendo a uma vasta paleta de cores em sua fotografia (ora fria, nos momentos introspectivos do personagem; ora quente, nos demais). De longe, Guillaume consegue criar uma obra à altura de sua bela história – que nos faz pensar que o medo é o que nos impede, na maior parte das vezes, de nos aceitarmos como realmente somos, independente do que somos. Eu, Mamãe e os Meninos trata seu tema com a honestidade que é totalmente condizente à necessidade dele. Assim sendo, palmas para o cinema francês.

A Pele de Vênus (La Vénus à la Fourrure)

Gosto muito de filmes com diálogos rápidos, inteligentes e longas sequências, pois acredito que é justamente ali que um cineasta pode demonstrar ao público uma das habilidades que mais admiro no ofício da direção: dirigir pessoas. Redundante? Talvez, mas dirigir atores não é uma tarefa fácil. O consagrado Roman Polanski já havia mostrado que sabe como fazer isso em Deus da Carnificina, de 2011, quando colocou dois casais dentro de um apartamento e os fizeram trocar acusações até os ânimos se alterarem. Em A Pele de Vênus, Polanski retoma a ideia, mas com um grau de erudição e erotismo muito acima de seus trabalhos anteriores.

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Assim como Deus da Carnificina, A Pele de Vênus também é a adaptação de uma peça teatral homônima, apresentando a história de Thomas (Mathieu Amalric), um jovem dramaturgo que está à beira dos nervos por não conseguir encontrar a atriz principal para sua nova peça – uma releitura do livro La Venus à La Fourrure, de 1870 (um clássico da literatura mundial). Prestes a sair do teatro após uma série de audições fracassadas, Thomas recebe a inesperada visita de Vanda (Emmanuelle Seigner), uma bela atriz com quem o dramaturgo se envolve em um relacionamento de submissão, dominação e perversão.

Polanski repete aqui o esquema “teatro filmado”, conseguindo arrancar ótimas atuações de seu pequeno elenco. Mathieu (substituindo Louis Garrel, ator fetiche francês que abandonou o projeto devido sua agenda) e Emmanuelle dão um show à parte. A dupla, que já havia se encontrado no elogiado O Escafandro e a Borboleta, tem uma química incrível ao longo de mais de noventa minutos de película e cada um é bem explorado, desempenhando de forma pra lá de satisfatória sua função dentro da proposta daqueles personagens. Mas quem surpreende é Emmanuelle, esposa do diretor que, aos 46 anos, consegue ser incrivelmente atraente e deslumbrante em cena. A sexualidade que Emmanuelle exprime  é o que faz com que ela roube o filme para si, tornando sua personagem quase uma extensão (com um nível de maturidade acima) de seu papel em Lua de Fel, de 1992 (também dirigido por Polanski).

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Apesar de ter sua atuação bastante questionada na época, Emmanuelle protagonizou ali uma das cenas mais eróticas do cinema de Polanski. Hoje, mais de vinte anos depois, Emmanuelle é uma atriz muito mais madura e sua Vanda é prova irrefutável de que ela não é apenas a esposa de Roman Polanski. Aqui, Seigner tem em mãos um papel à altura de sua figura: Vanda é misteriosa e dosa o papel de vítima e algoz, invertendo-o com um tragicômico Thomas. E Polanski, que não é bobo e sabe como provocar, usa bem a imagem e talento de Seigner. Com uma câmera excepcional (que coloca o espectador sob o ponto de vista praticamente de um voyeur), é nítido o quanto Polanski busca capturar tudo o que sua musa inspiradora pode oferecer, quase que com um certo prazer.

Com um roteiro primoroso, recheado de referências à cultura clássica, a fita é verborrágica – e por tal razão pode parecer um pouco cansativa em diversos momentos. No entanto, os diálogos rápidos e inteligentes velam uma crítica implícita ao papel da mulher na sociedade, à sua verdadeira atribuição como “fêmea”, em um mundo ainda dominado pelo machismo. É a inversão de papeis entre Thomas e Vanda que vai dando mais corpo ao filme, à medida que o dramaturgo se vê cada vez mais ligado à atriz – uma mulher aparentemente sem cultura ou conhecimento, mas que aos poucos se revela muito mais do que um corpo sensual. A variação entre realidade e fantasia, que se misturam ao longo da projeção, dá o tom cômico e nos fazem questionar se Thomas está atuando ou realmente se tornou um escravo de Vanda.

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Há quem possa se incomodar com o estilo “teatral” com que Polanski filmou A Pele de Vênus. Não que essa seja a primeira incursão do diretor no gênero (aliás, Roman tem no currículo, além de Deus da Carnificina, o despercebido A Morte e a Donzela, de 1994, quando Polanski já flertava com o gênero), mas este não é um tipo fácil de filme (nem para quem faz, nem para quem assiste). Não devemos esquecer que, antes de tudo, é cinema e, como tal, o trabalho de Polanski como cineasta é louvável: ele entrega uma obra irresistivelmente atraente, com um “quê” de erotismo que funciona perfeitamente à proposta do longa. E por incrível que pareça, A Pele de Vênus é Polanski retornando às suas origens, já que tem todos os elementos que artista já utilizava em sua filmografia (erotismo, submissão, homoerotismo – aliás, em uma das cenas finais, temos Mathieu travestido com salto alto e batom, nos remetendo instantaneamente a Polanski vestido de mulher em O Inquilino, de 1976). A Pele de Vênus é muito mais requintado, culto e crítico do que Deus da Carnificina, que já era excelente – o que, certamente, representa um nível acima no trabalho do cineasta.

Jovem e Bela (Jeune et Jolie)

Jovem e Bela, do diretor francês François Ozon (de Dentro da Casa e 8 Mulheres), estreou há algumas semanas no circuito nacional. Já apelidado por alguns de “Bruna Surfistinha Francês”, o filme retrata um tema recorrente no cinema: a prostituição. No entanto, não se engane: Jovem e Bela não é um produto descartável, mas tampouco indispensável.

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Protagonizada pela irresistivelmente bela Marine Vacth, a história gira em torno de Isabelle, uma garota de 17 anos que após perder a virgindade com um namoradinho de verão alemão (e que a deixou claramente decepcionada), começa a se prostituir. No entanto, um fato inesperado faz com que sua família descubra a vida dupla da garota, que agora é vigiada e perde totalmente a confiança de seus pais.

Muita gente saudou Jovem e Bela como uma versão moderna de A Bela da Tarde, clássico francês dirigido por Luis Buñuel em 1967 e que tornou Catherine Deneuve símbolo sexual instantâneo. As comparações podem parecer evidentes – mas não são, se analisarmos friamente. No longa de Buñuel, somos apresentados a uma mulher que, insatisfeita no casamento, decide se aventurar na prostituição, procurando em outros homens o prazer que seu esposo não lhe proporcionava dentro de casa. Justificável? Em se tratando de cinema, sim. Aqui, a escolha da entrega a outros homens simbolizava claramente a oposição ao machismo que marcou aquele período.

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Em Jovem e Bela, Isabelle não tem nenhum motivo aparente para se prostituir. Estuda em um bom colégio, tem uma boa relação com a família, não tem falta de nada. Sua relação com os clientes é estritamente profissional – é fria, direta e pouco sentimental. Ela não parece sentir prazer em suas experiências – tampouco utiliza o dinheiro que consegue para comprar roupas de grife ou aparelhos de última tecnologia. Ao que parece, Isabelle se prostitui apenas por uma inquietude, uma curiosidade, como uma forma de transgredir seus conceitos e superar seus próprios limites.

Essa abordagem um tanto quanto “fria” faz com que o filme não trate de nenhum aspecto moral. Portanto, não há justificativas – tudo o que Isabelle faz na tela simplesmente não promove nenhum debate ou fornece resposta alguma. Isso é ressaltado ainda mais com a atuação “opaca” que Marine empresta à sua personagem. Com algumas sequencias que caem para o lado mais erótico, o real mistério e justificativa de Isabelle nunca ficam totalmente explícitos. Também contribui para isso o desenvolvimento superficial das demais personagens que, com exceção do irmão de Isabelle (com quem ela tem uma relação mais amistosa), pouco adicionam à narrativa.

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Dividido em quatro partes – e cada uma representando uma das estações do ano – , Jovem e Bela é um filme denso, com momentos bons e outros mais cansativos, que não faz julgamentos morais e muito menos dá respostas às ações de sua protagonista – respostas essas que ficam à mercê do espectador. Jovem e Bela não é a melhor obra de Ozon, mas também não deve ser descartado. Com uma bela fotografia e trilha sonora pontual, é um longa visualmente bonito, mas que não tem um propósito muito certo – e, talvez exatamente por isso, possa parecer tão perdido quanto sua protagonista.

Pedalando Com Molière (Alceste à Bicyclette)

A improvável amizade entre dois atores, Serge e Gauthier, é o fio condutor do longa francês Pedalando Com Molière. Por que improvável? Bom, enquanto o primeiro é um ator aposentado, desiludido com o showbiz e que abandonou a agitada vida artística parisiense para viver isolado em uma ilha francesa, o segundo é o protagonista de uma série de TV de sucesso, atuando em um projeto que, apesar de não lhe exigir tanto talento, lhe traz o status de artista mais bem pago do país.

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Parceiros de longa data, Serge e Gauthier conhecem um ao outro como ninguém. Serge, que sofrera uma depressão que o obrigou a fugir dos palcos, vive tranquilo em sua solidão, longe dos holofotes. Sua paz é interrompida quando Gauthier (que agora é um astro da TV) o convida para, juntos, protagonizarem a peça O Misantropo, de Molière. Apesar da recusa inicial, Serge propõe que ambos passem alguns dias ensaiando a cena que abre a obra, revezando-se entre os papéis principais (Alceste e Philinte). Ao final dos ensaios, Serge dará a resposta sobre sua participação na produção – e é a partir deste momento que começa um jogo de poder e manipulação entre os dois amigos.

É justamente este jogo que garante praticamente toda a diversão do longa. A competitividade entre ambos (sempre tentando obter vantagem um sobre o outro) rende boas risadas, tornando Pedalando Com Molière um filme deliciosamente agradável de se assistir. Como todas as comédias de situações, as piadas do filme são extraídas de pequenas coisas (como um passeio de bicicleta ou um acidente em uma banheira de hidromassagem). Além disso, esses intérpretes possuem aspirações pessoais e artísticas diferentes (cada um deles encara a arte sob uma perspectiva) e que são bem exploradas pelo roteiro. Com ótimos diálogos entre os dois colegas (que se amam, se odeiam, se admiram, se abominam), o filme ainda apresenta alguns trechos da obra original de Molière, que são protagonizados pelos dois amigos em uma espécie de disputa artística (e pessoal, por que não?).

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Com uma bela fotografia (resultado do trabalho de Jean-Claude Larrieu), Pedalando Com Molière ainda traz as atuações competentes de Fabrice Luchini e Lambert Wilson (respectivamente, Serge e Gauthier), que estão em ótima sintonia. No entanto, o excesso de tramas paralelas e personagens não muito bem desenvolvidos (como uma atriz pornô sem nenhuma veia artística ou uma italiana em processo de divórcio) faz com que o filme desvie um pouco a atenção do espectador. Problemas de roteiro a parte, o diretor Philippe Le Guay cria uma obra que, diferente das comédias norte-americanas, não se propõe apenas a fazer rir, mas também a fazer pensar. Com um desfecho um tanto quanto “doloroso” e que pega o espectador de surpresa (devido ao tom leve e festivo da trama até então), Pedalando Com Molière é um filme que comprova que nem tudo na vida é tão belo quanto a arte.

Canções de Amor (Les Chansons D’amour)

Já em 2006, com seu belíssimo Em Paris, o cineasta Christophe Honoré (uma das maiores revelações do novo cinema francês) flertava com o gênero musical na cena em que um casal separado dialoga musicalmente ao telefone. Aparentemente, essa cena era uma espécie de prévia do que estava por vir em seu filme seguinte, Canções de Amor, um musical inspirado repleto de romantismo e tragédia.

Antes de mais nada: abandone os preconceitos com o gênero: sempre podemos ser surpreendidos com bons musicais. E aqui, o estereótipo de musical norte-americano (com suas personagens cantando, pulando, dançando alegres e saltitantes e tudo mais…) passa longe. As músicas se adequam à proposta do longa – o que não deixa o filme se tornar cansativo ou que sua trama soe surreal como em muitos produtos do gênero. O filme apresenta o cotidiano de Ismael (o galã francês Louis Garrel) e sua namorada Julie (a ótima Ludivine Sagnier) que vivem um romance a três com Alice (vivida por Clothilde Hesme). No entanto, essa relação é interrompida por uma tragédia: a morte de Alice. No decorrer da história, Ismael conhece o jovem Erwann, que se apaixona pelo jornalista e tenta seduzi-lo.

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As músicas são o grande ponto forte da obra, pois conseguem transmitir os sentimentos honestos e espontâneos de suas personagens – o que Honoré sabe bem como capturar com sua lente. Interpretadas pelos próprios atores (que mais sussurram do que necessariamente cantam), as canções escritas por Alex Beaupain tornam Canções de Amor um “filme popular com canções”, como sugeriu o próprio diretor na época de lançamento. Beaupain (que perdeu a namorada na vida real antes de escrever as canções para o filme) conseguiu traduzir em poemas as experiências turbulentas sobre o amor dentro de um estilo pop moderno que torna Canções de Amor apaixonante.

Rodado na capital francesa, Honoré ainda consegue criar mais um personagem: sua própria Paris que, em pleno outono e recheado de cores cinzentas, chuvas e devaneios, é o cenário ideal para a história desse grupo de amantes que tudo o que mais desejam é simplesmente amar. O amor na visão de Honoré é tratado sem condicionalismos, sem falsos moralismos. O amor não deve ser pensado, racionalizado ou colocado dentro de uma caixinha e ser exibido como um prêmio. Na proposta do diretor, as pessoas simplesmente amam – e isso basta. Talvez essa visão possa incomodar a platéia um pouco mais conservadora, afinal o musical ganha um tom abertamente homoerótico a partir de sua segunda metade – e curiosamente, a melhor sequência do longa advém da noite de amor entre dois personagens masculinos. Esse divisor de águas na história trará os melhores conflitos da trama e as mais conturbadas experiências aos personagens. Aliás, após a morte de Julie, o filme é dividido em três partes: a partida, a ausência e o regresso – referência explícita ao processo pela qual Ismael irá passar a partir daí.

Canções de Amor é, dessa forma, um filme onde nada é gratuito. Honoré diz, ainda que de forma não direta, que as relações foram feitas para ser vividas e não explicadas. Não há julgamentos, não há certo ou errado – há apenas as expressões do amor em sua mais pura forma. Assim, Canções de Amor não é apenas um belo produto de entretenimento aos olhos e ouvidos, mas também uma reflexão moderna sobre o amor romântico em nossa sociedade.