A Amizade Entre Homens e Animais no Francês “Bell e Sebastião”

Em uma vila nos Alpes Franceses, em 1943, um garoto de seis anos chamado Sebastião vive solitário, com a esperança de um dia reencontrar sua mãe. Ele não frequenta o colégio e ajuda a jovem Angelina e o rabugento César, que cuidam do menino, em pequenas tarefas diárias, como apascentar os animais do rebanho. Em meio ao terror da ocupação nazista naquela região durante a Segunda Guerra Mundial, Sebastião encontra nas montanhas um cão selvagem, com quem irá estabelecer fortes laços de amizade. No entanto, o cão é acusado injustamente de atacar os animais dos pastores da região e Sebastião terá de proteger seu amigo das mãos dos demais moradores.

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O cinema está repleto de histórias de amizade entre animais e seres humanos. Portanto, o tema não é necessariamente novo. Mas estamos falando aqui do cinema europeu – precisamente, de uma produção francesa, vinda das mãos de Nicolas Vanier – um aventureiro (tanto da natureza quanto do cinema) que já havia trilhado esta temática em seus dois trabalhos anteriores, O Último Caçador (2004) e Loup – Uma Amizade Para Sempre (2009). Particularmente, não sou um grande apreciador de filmes com animais – e meu único interesse por Bell e Sebastião surgiu ao saber que se trata de um produto do cinema francês, o que logo despertou minha atenção (afinal, não me recordo de imediato de nenhum longa francês com este tipo de narrativa). E, para minha surpresa, Bell e Sebastião me surpreendeu de forma positiva, se revelando uma comovente história de amizade, aventura e inocência.

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Obviamente, a comoção surge com o desenvolvimento correto dos protagonistas da trama. O espectador já de cara consegue identificar o perfil de cada um deles. Sebastião é um excluído não pelas demais crianças, mas por si mesmo. Sua frustração é nunca ter conhecido sua mãe e viver na constante promessa de César de que um dia ela virá. Bell, por sua vez, é um cão maltratado (evidentemente), que tenta cuidar de si mesmo. Ambos os personagens vivem em um ambiente hostil – e talvez a necessidade um do outro é que torna o vínculo entre os dois tão forte. A cena do primeiro encontro entre eles é crucial para exemplificar isso: se no início ambos são inseguros e demonstram medo um do outro, um simples ato de bondade entre eles é capaz de torna-los próximos. Mais tarde, a sequência em que estão se banhando no rio é intensamente bela, representando a nova vida que ambos terão pela frente.

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A fotografia da produção é, no mínimo, exuberante e o espectador é quase transportado àquele ano – sensação estendida ainda mais através dos bons cenários, figurinos e maquiagem. As locações são primorosas e os ótimos planos da câmera de Vanier conseguem captar a beleza de cada ponto da região através de suas lentes. Da mesma forma, a doce trilha sonora (por vezes um pouco “melosa” demais) contribui para o andamento da narrativa, sendo indispensável em todos os momentos em que está inserida na trama. Quanto às atuações, poucos destaques – com exceção de Félix Bossuet, simplesmente uma fofura de criança na pele do pequeno Sebastião, transmitindo todas as nuances de sua personagem e com uma ótima interação com o animal.

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Bell e Sebastião é inspirado em um dos maiores clássicos da literatura europeia, o livro de Cécile Aubry, que já foi adaptado para a TV na década de 60 e também virou animação japonesa em 1981. Com muita sensibilidade, a trama ainda abre espaço para outros personagens, com dramas menores, mas ainda assim interessantes (como o médico que arrisca sua vida para ajudar judeus a cruzarem a fronteira, um homem defrontando seu passado ou o militar alemão que tenta mostrar seu “lado humano” e ser perdoado). Mas não tem jeito: em um cenário como este, é a amizade entre o cão e a criança que acaba se sobressaindo e emocionando a plateia – o que já é um grande mérito.

Comédia do Absurdo em “Uma Juíza Sem Juízo”

01Já nas primeiras cenas de Uma Juíza Sem Juízo, somos capazes de descobrir muito a respeito de sua protagonista. Ariane Feldier é uma juíza comprometida e extremamente rígida em seus julgamentos, com grandes perspectivas de crescimento no tribunal onde atua. Alem disso, aos 40 anos de idade, ela é solteira, não tem filhos, trabalha muito, se diverte pouco, não acha prazer em quase nada, inclusive nos homens – que troca facilmente por uma dança. Não que haja uma questão de ausência de libido aí, mas talvez sua experiência traumática com a principal figura masculina em sua vida (o pai que abandonou a esposa quando Ariane era pequena – e a seguida morte da mãe, que fez com que a garota ficasse sozinha no mundo) tenha lhe trazido certa desconfiança com relação ao sexo oposto.

Na noite de ano novo, em meio a uma animada festa em seu local de trabalho, Ariane (sempre inatingível em sua postura séria) bebe uns goles a mais e não se recorda de nada do que aconteceu naquela ocasião. Alguns meses depois, ela recebe a notícia de que está grávida, mas não faz ideia de como isso pode ter acontecido – e, principalmente, de quem é o filho. A partir daí, Ariane começa uma investigação para descobrir os detalhes da história – e, para sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai do filho que espera é um perigoso agressor.

Uma Juíza Sem Juízo é um filme despretensioso, mas que agradou ao público e crítica em geral – tanto que a comédia ganhou o Prêmio Cesar de melhor roteiro (segundo maior festival francês) e foi um sucesso de bilheteria na França. Não tem grandes ambições e seu apelo absurdo consegue arrancar boas risadas da plateia.  Porém, o tom exagerado desta comédia não a torna apelativa. Na verdade, por mais que escolha alguns tipos absurdos e estereotipados, o roteiro veloz (que não deixa o espectador bocejar na poltrona) aliado à trama envolvente e inventiva é o que mais chama a atenção neste filme onde tudo é bastante previsível (mas nem por isso você perde o interesse na trama). A comédia absurda de Uma Juíza sem Juízo, por vezes até mesmo boba, lembra muito os primeiros trabalhos de Woody Allen (obviamente sem toda aquela firula existencial do cineasta).

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Mas a comédia também pode render bons frutos, e Uma Juíza Sem Juízo aborda alguns temas contemporâneos que podem render boas discussões. O primeiro, estampado logo nas cenas iniciais, é a visão moderna da mulher na nossa sociedade – independente, workaholic e que não precisa de homem para nada. Depois, a desestruturação da família nos dias atuais é algo frequente. Ambos os protagonistas são frutos de lares problemáticos – e a ideia da formação de uma nova e perfeita “família” (segundo o conceito clássico) é o que mais assusta Ariane. Finalmente, há também uma questão ética aqui: vale a pena assumir um segredo vergonhoso para salvar outra pessoa? Como proceder diante desta questão, tomando ciência da situação vexatória à qual estaremos fatalmente expostos?

Outro ponto que deve ser elogiado é a ótima interação entre os protagonistas. Sandrine Kiberlian e Albert Dupontel (este último que assina o roteiro e a direção do longa) estão ótimos em seus respectivos papéis e mesmo individuais tem atuações excelentes. Sandrine consegue lidar bem com as alterações de humor de sua personagem – o que lhe rendeu o Cesar de melhor atriz – , enquanto Albert vive um tipo alucinado que é engraçadíssimo. Da parte técnica, vale ainda destacar a simpática (e divertida) trilha sonora de Christophe Julien (que acentua todo o tom escrachado da comédia) e a fotografia e edição do filme.

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Em alguns momentos, é bom dar uma pausa em filmes “sérios” e arriscar produções menos badaladas e que exijam um pouco menos de nós como espectadores. Isto não implica em assistir a filmes ruins, mas sim trabalhos menos pretensiosos que podem nos render bons momentos de distração e entretenimento. Uma Juíza sem Juízo não é uma verdadeira pérola cinematográfica, mas funciona bem como comédia, sem forçar a barra. Uma opção divertida para quem gosta de dar umas escapulidas uma vez ou outra das comédias hollywoodianas recheadas de estereótipos, apelações e preconceitos – e ainda assim vazias em sua essência.

“Eu, Mamãe e os Meninos”: Será Que Ele É?

A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Meninos e Guillaume, na mesa!”.

É com esta frase arrebatadora que Guillaume Gallienne introduz seu filme autobiográfico Eu, Mamãe e os Meninos – considerado a comédia francesa do ano e que foi o grande vencedor do César 2014 (o Oscar francês), incluindo melhor filme e melhor ator – desbancando títulos como Azul é a Cor Mais Quente, O Passado e A Pele de Vênus, último trabalho de Roman Polanski.

02Galliene, elogiado comediante francês, é o diretor, roteirista e protagonista desta incrível comédia – praticamente um grito de libertação de todos os traumas e questões mal resolvidas da infância e adolescência do artista. Desde cedo, o jovem nutre uma admiração incomum pela figura feminina – especialmente, por sua mãe, por quem tem verdadeira adoração e devoção –, chegando ao ponto até mesmo de referir a si mesmo como um ser feminino, uma mulher (em determinado momento, o protagonista aparentemente se descobre apaixonado por um colega do colégio e afirma a mãe “não ser homossexual, pois é sua filha”). Isso leva sua família a acreditar firmemente que Guillaume é homossexual e mais do que isso: a encorajar o garoto a se afirmar como tal.

O grande trunfo de Eu, Mamãe e os Meninos está na inovação de sua estrutura narrativa. De início, somos apresentados a um Guillaume nos palcos, se preparando para sua grande encenação teatral. Seu monólogo, no entanto, é entrecortado pela constituição dos episódios que o jovem narra. Dessa forma, o espectador está diante de duas narrativas que se completam: na primeira, nosso protagonista conta sua história; na segunda, Guillaume vive o que narra. Essa inovação ganha força através da utilização de um elemento já conhecido nas comédias escrachadas norte-americanas: a interpretação de vários papéis. Guillaume vive a si mesmo e também sua mãe – e, travestido como tal, é tão impagável quanto vestido de menininho que quer ser menininha (nos remetendo, erroneamente, à comédia brasileira Minha Mãe é Uma Peça – e digo “erroneamente” porque a produção de Paulo Gustavo é infinitamente inferior à obra de Guillaume).

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Mas não é apenas isso que torna Eu, Mamãe e os Meninos um ótimo filme. O longa é um estudo analítico sobre o desenvolvimento sexual, um tema que ainda é clichê. Na verdade, pouco se discute a respeito do homossexualismo em si – o que vemos é um protagonista que enfrenta suas questões sexuais sem, necessariamente, se preocupar em descobrir-se homossexual ou não. Já de início, Guillaume percebe que não apenas é ligado à figura materna, mas também é parecido com ela – e cada vez mais tenta emular a mãe. Isso o leva a se enxergar menina e buscar imitar as demais mulheres à sua volta – mas não apenas porque deseja “ser uma mulher”, mas também porque admira o sexo oposto. Isto fica explícito no certo “receio” que tem do sexo masculino – chegando a abandonar uma orgia gay ou mesmo dispensar uma transa por se assustar com o tamanho do pênis do indivíduo.

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Na visão de Guillaume, sua feminilidade advém não de um possível homossexualismo – mas simplesmente da admiração que mantém pelo sexo oposto. Ou seja, sua feminilidade não o torna homossexual (olha a quebra do estereótipo!) – apesar de, ao que tudo indica, estar preparado para aceitar esta condição caso se confirme. Aqui, nosso protagonista não luta para assumir sua sexualidade – e, consequentemente, sofrer com todos os problemas decorrentes de tal ação (como as brincadeiras dos irmãos ou o desprezo do pai). Contrariando o que se podia esperar de um filme com esta temática, a luta de Guillaume não é para sair do “armário” – mas sim para mostrar quem realmente é, mesmo quando todos dizem o contrário. E ele só consegue isso quando, finalmente, encara sua mãe: é justamente aí que ele descobre que o grande problema de sua progenitora foi transferir seus medos, suas angustias, ansiedades e insegurança para ele.

Comédia deliciosa (ainda que recorra a alguns momentos pastelões para fazer chegar ao riso), Eu, Mamãe e os Meninos também apresenta um excelente trabalho estético em sua direção de arte – o que torna o filme visualmente impecável. Ainda aproveita praticamente cada locação, recorrendo a uma vasta paleta de cores em sua fotografia (ora fria, nos momentos introspectivos do personagem; ora quente, nos demais). De longe, Guillaume consegue criar uma obra à altura de sua bela história – que nos faz pensar que o medo é o que nos impede, na maior parte das vezes, de nos aceitarmos como realmente somos, independente do que somos. Eu, Mamãe e os Meninos trata seu tema com a honestidade que é totalmente condizente à necessidade dele. Assim sendo, palmas para o cinema francês.

Erotismo à Flor da Pele de Vênus

Gosto muito de filmes com diálogos rápidos, inteligentes e longas sequências, pois acredito que é justamente ali que um cineasta pode demonstrar ao público uma das habilidades que mais admiro no ofício da direção: dirigir pessoas. Redundante? Talvez, mas dirigir atores não é uma tarefa fácil. O consagrado Roman Polanski já havia mostrado que sabe bem como fazer isso em Deus da Carnificina, de 2011, quando colocou dois casais dentro de um apartamento e os fizeram trocar acusações até os ânimos se alterarem. Com A Pele de Vênus, seu último longa, Polanski demonstra que, ainda que esteja um pouco longe dos holofotes, é merecidamente um dos diretores mais celebrados do cinema mundial.

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Assim como Deus da Carnificina, A Pele de Vênus também é a adaptação de uma peça teatral homônima, apresentando a história de Thomas (Mathieu Amalric), um jovem dramaturgo que está à beira dos nervos por não conseguir encontrar uma atriz principal para sua nova peça – uma adaptação do livro La Venus à La Fourrure, de 1870 (um clássico da literatura mundial). Prestes a sair do teatro após uma série de audições fracassadas, Thomas recebe Vanda (Emmanuelle Seigner), uma bela atriz com quem o dramaturgo se envolve em um relacionamento de submissão, dominação e perversão.

Polanski repete aqui o esquema “teatro filmado”, conseguindo arrancar ótimas atuações de seu pequeno elenco. Mathieu (substituindo Louis Garrel, ator fetiche francês que abandonou o projeto devido sua agenda) e Emmanuelle dão um show à parte. A dupla, que já havia se encontrado no elogiado O Escafandro e a Borboleta, tem uma química incrível ao longo de mais de noventa minutos de película, apesar do longa ser praticamente uma ode ao trabalho do cineasta e sua musa, Emmanuelle, esposa do diretor que, aos 46 anos, consegue ser incrivelmente atraente e deslumbrante em cena. A sexualidade que Emmanuelle exprime é o que faz com que ela roube o filme para si, tornando sua personagem quase uma extensão (com um nível de maturidade acima) de seu papel em Lua de Fel, de 1992.

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Apesar de ter sua atuação bastante questionada na época, Emmanuelle protagonizou ali uma das cenas mais eróticas do cinema de Polanski. Hoje, mais de vinte anos depois, Emmanuelle é uma atriz muito mais madura e se nunca teve a oportunidade de receber um personagem mais marcante, sua Vanda é a chance. Sob a direção do marido, Seigner tem nas mãos o papel de sua vida – ainda que o filme não tenha tido um apelo popular tão grande. Vanda é misteriosa e dosa bem o papel de vítima e algoz, invertendo o papel com um tragicômico Thomas. E Polanski, que não é bobo e sabe como provocar, usa bem o talento da esposa. Com sua câmera excepcional (que coloca o espectador sob o ponto de vista praticamente de um voyeur), Polanski usa e abusa de tudo o que Seigner pode oferecer, quase jogando em nossas caras “Esta é minha mulher, toda minha, veja o quanto ela é divina…”. Prova disto é a sequência final onde Emmanuelle provoca os mais altos índices de nossas libidos.

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Com um roteiro primoroso, recheado de referências à cultura clássica, a fita é verborrágica – e por tal razão pode parecer um pouco cansativa em diversos momentos. No entanto, os diálogos rápidos e inteligentes velam uma crítica ainda implícita ao papel da mulher na sociedade, à sua verdadeira atribuição como “fêmea”, em um mundo ainda machista. É a inversão de papeis entre Thomas e Vanda que vai dando mais paixão ao filme, à medida que o dramaturgo se vê cada vez mais ligado à sua musa inspiradora – uma atriz aparentemente sem cultura e conhecimento, mas que aos poucos se mostra uma verdadeira femme fatale. A variação entre realidade e fantasia, que se misturam ao longo da projeção, dá o tom cômico e nos fazem questionar se Thomas está atuando ou realmente se tornou um escravo de Vanda.

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Há quem possa se incomodar com o estilo “teatral” com que Polanski filmou A Pele de Vênus. Não que essa seja a primeira incursão do diretor no gênero (aliás, Roman tem no currículo, além de Deus da Carnificina, o despercebido A Morte e a Donzela, de 1994, quando Polanski já flertava com o gênero), mas este não é um tipo fácil de filme. É necessária um pouco de cultura para entender os diálogos e seus significados nas entrelinhas – e claro, uma pequena dose de paciência. Mas não se deve esquecer que, antes de tudo, é cinema e, como tal, o trabalho de Polanski como cineasta é louvável. Da belíssima locação, iluminação e figurino à inspirada e delicada trilha do francês Alexandre Desplat, tudo se encaixa perfeitamente para criar uma obra irresistivelmente atraente, com um “quê” de erotismo que cai perfeitamente à proposta do longa. A Pele de Vênus é Polanski retornando às suas origens – tem todos os elementos que Polanski já utilizava em sua filmografia (erotismo, submissão, homoerotismo – aliás, em uma das cenas finais, temos Mathieu travestido com salto alto e batom, nos remetendo instantaneamente a Polanski vestido de mulher em O Inquilino, de 1976). A Pele de Vênus é muito mais requintado, culto e crítico do que Deus da Carnificina, que já era excelente – o que, certamente, representa um nível acima no trabalho do cineasta.

A Bela Junie

Christophe Honoré é um dos cineastas franceses mais cultuados dessa nova geração. Com uma filmografia cheia de altos e baixos, Honoré busca no romance La Princesse de Clèves (de Mme. de La Fayette, século XVII) a inspiração para seu A Bela Junie, um filme mediano na carreira do diretor, mas nem por isso uma obra completamente descartável.

01A história segue Junie, uma garota de 16 anos que, após a morte trágica da mãe, vai morar com a família de seu primo. Ela passa a frequentar o mesmo colégio do parente e, como nova integrante do grupo de amigos do garoto, Junie desperta as emoções dos adolescentes românticos do local, entre eles, o sensível Otto, com quem acaba namorando. Enquanto Otto tenta entender o comportamento da namorada, Junie acaba se apaixonando por seu professor de italiano – paixão esta correspondida pelo docente.

Honoré adapta o romance de La Fayette para os dias atuais, em um mundo contemporâneo onde não há muitos interditos. Tema frequente na obra de Honoré, aqui as paixões da juventude são vividas de forma muito mais intensa do que em seus filmes anteriores – ainda que idealizadas. O deslumbre do professor quando enxerga Junie pela primeira vez – em uma cena quase operística – é uma ode à paixão romântica. No entanto, enquanto diversas histórias são desenvolvidas por outros personagens, é Junie a personagem mais racional do longa: o amor não é algo eterno. Esse distanciamento do amor (e do relacionamento) é acentuado pela atuação quase inexpressiva de Léa Seydoux, o suficiente para despertar o interesse e a curiosidade de qualquer homem que a observe.

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Diferente do que acontece nas tramas comuns, em A Bela Junie é a mulher quem “foge” do relacionamento tradicional, enquanto o homem é quem está entregue ao poder de sedução da mocinha. São cenas entre Léa e Louis Garrel (sim, o ator fetiche francês está aqui) que distanciam A Bela Junie dos contos convencionais, onde a mulher sofre pelo desprezo. Garrel faz o tipo sedutor que pode ter toda e qualquer mulher, mas cai em desespero ao ver que a única mulher que realmente deseja não está ao seu alcance. Mesmo o personagem de Grégoire Leprince-Ringuet (encantador, no auge de sua beleza) , o namorado de Junie, é tão obcecado por nossa protagonista (e cada vez mais confuso sobre as atitudes e mudanças bruscas da mulher que ama) que é sempre atordoante vê-lo em cena, tamanho desespero de sua persona (que trará um desfecho triste, porém interessante ao longa). OBS.: Grégoire é, provavelmente, a mais grata surpresa no filme.

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Com ares de nouvelle vagueA Bela Junie foi feito para a TV francesa, mas logo ganhou o público, apesar de não apresentar muitas novidades. Com uma delicada movimentação de câmera e uma trilha encantadora (ainda que simples), Honoré consegue extrair o melhor do ambiente, criando uma bela fotografia, ainda que os lugares sejam ordinários. A Bela Junie não é a melhor obra do cineasta e tão pouco apresenta uma evolução latente em relação aos trabalhos anteriores de Honoré. É um filme que fala sobre desilusões amorosas e as reviravoltas que ocorrem nos corações dos apaixonados, porém com pouca ousadia e inovação – e talvez esse seja seu único pecado, mas o suficiente para não torna-lo um filme inesquecível. Sincero e contido, A Bela Junie é um longa para aqueles que apreciam as produções francesas de outrora. Do contrário, pode ser um inevitável fardo.

Sexo Sem Respostas em “Jovem e Bela”

Jovem e Bela, do diretor francês François Ozon (de Dentro da Casa e 8 Mulheres), estreou há algumas semanas no circuito nacional (ao menos, em alguns cinemas menos “comerciais”, digamos). Já chamado por alguns de “Bruna Surfistinha Francês”, o filme retrata um tema recorrente no cinema: a prostituição. No entanto, não se engane: Jovem e Bela não é um produto descartável, mas tampouco indispensável.

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Protagonizada pela irresistivelmente bela Marine Vacth, a história gira em torno de Isabelle, uma garota de 17 anos que após perder a virgindade com um namoradinho de verão alemão (e que a deixou claramente decepcionada), começa a se prostituir, encontrando-se com diversos tipos de clientes. No entanto, um fato inesperado faz com que sua família descubra a vida dupla da garota, que agora é vigiada e perde totalmente a confiança de seus pais.

Muita gente saudou Jovem e Bela como uma versão moderna de A Bela da Tarde, clássico francês dirigido por Luis Buñuel em 1967 e que tornou Catherine Deneuve símbolo sexual instantâneo. As comparações podem parecer evidentes – mas não são, se analisarmos friamente. No longa de Buñuel, somos apresentados a uma mulher que, insatisfeita no casamento, decide se aventurar na prostituição, procurando em outros homens o prazer que seu esposo não lhe proporcionava dentro de casa. Justificável? Em se tratando de cinema, sim. Aqui, a escolha da entrega a outros homens simbolizava claramente a oposição ao machismo que marcou aquele período. Além disso, era uma resposta aos padrões do cinema da época, onde as mulheres eram abordadas sob uma visão conservadora – que refletia diretamente a opressão do sexo frágil na nossa sociedade.

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Em Jovem e Bela, Isabelle não tem nenhum motivo aparente para se prostituir. Estuda em um bom colégio, tem uma boa relação com a família, não tem falta de nada. Sua relação com os clientes é estritamente profissional – é fria, direta e pouco sentimental. Ela não parece sentir prazer em suas experiências – tampouco utiliza o dinheiro que consegue para comprar roupas de grife ou aparelhos de última tecnologia. Sequer teve algum trauma que justifique sua decisão em se prostituir. O que parece é que Isabelle se prostitui apenas pelo fato da curiosidade – apenas como forma de transgredir seus próprios conceitos e superar seus próprios limites.

Essa abordagem um tanto quanto “fria” faz com que o filme não trate de nenhum aspecto moral. Portanto, não há justificativas – tudo o que Isabelle faz na tela simplesmente não promove nenhum debate ou fornece resposta alguma. Isso é ressaltado ainda mais com a atuação “opaca” que Marine empresta à sua personagem (ainda que a atriz tenha uma beleza estonteante). Com algumas sequencias que caem para o lado sensual, o real mistério e justificativa de Isabelle nunca ficam totalmente explícitos. Também contribui para isso o desenvolvimento superficial das demais personagens que, com exceção do irmão de Isabelle (com quem ela tem uma relação mais amistosa), pouco adicionam à narrativa.

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Dividido em quatro partes – e cada uma representando uma das estações do ano – , Jovem e Bela é um filme denso, com momentos bons e outros mais cansativos, que não faz julgamentos morais e muito menos dá respostas às ações de sua personagem principal – respostas essas que ficam à mercê do espectador. Jovem e Bela não é a melhor obra de Ozon, mas também não deve ser descartado. Com uma bela fotografia e trilha sonora pontual, é um longa visualmente bonito, mas que não tem um propósito muito certo – e, talvez exatamente por isso, possa parecer tão perdido.

Pedalando Com Molière

A improvável amizade entre dois atores, Serge e Gauthier, é a base da história do longa francês Pedalando Com Molière. Por que improvável? Bom, enquanto o primeiro é um ator aposentado, desiludido com o showbiz e que abandonou a agitada vida artística parisiense para viver isolado em uma ilha francesa, o segundo é o protagonista de uma série de TV de sucesso, atuando em um projeto que, apesar de não lhe exigir tanto talento, lhe traz o status de ator mais bem pago do país. São esses dois contrapontos que enriquecem a trama de Pedalando Com Molière – uma comédia de situações deliciosa que atesta o dom nato dos diretores franceses para o gênero.

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Parceiros de longa data, Serge e Gauthier conhecem um ao outro como ninguém. Serge, que sofrera uma depressão que o obrigou a fugir dos palcos, vive tranquilo em sua solidão, longe dos holofotes da imprensa. Sua paz é interrompida quando Gauthier (que agora é um popular ator de TV) o convida para, juntos, protagonizarem a peça O Misantropo, de Molière. Apesar da recusa inicial, Serge propõe que ambos passem alguns dias ensaiando a cena que abre a obra, revezando-se entre os papéis principais (Alceste e Philinte). No final do treinamento, Serge dará a resposta sobre sua participação na produção. É a partir deste momento que começa um jogo de poder e manipulação entre os dois amigos.

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É justamente este jogo que garante praticamente toda a diversão do longa. A competitividade entre ambos (a todo momento tentando obter vantagem um sobre o outro) garante boas risadas do público, tornando Pedalando Com Molière um filme deliciosamente agradável de se assistir. Com ótimos diálogos entre os dois colegas (que se amam, se odeiam, se admiram, se abominam), o filme ainda apresenta alguns trechos da obra original de Molière, que são protagonizados pelos dois amigos em uma espécie de disputa artística (e pessoal, por que não?).

Apesar do tom humorístico (e de todas as cenas cômicas ao longo de sua exibição), Pedalando Com Molière também flerta com o drama, ao tratar a relação entre os dois companheiros e como eles encaram a arte. Como todas as comédias de situações, as piadas do filme são extraídas de pequenas coisas (como um passeio de bicicleta ou um acidente em uma banheira de hidromassagem). No entanto, a “graça” do filme reside no relacionamento entre os dois amigos e quais são suas aspirações pessoais e artísticas.

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Com uma bela fotografia (resultado do trabalho de Jean-Claude Larrieu), Pedalando Com Molière ainda traz as atuações convincentes de Fabrice Luchini e Lambert Wilson (respectivamente, Serge e Gauthier), que estão em ótima interação – o que traz muito mais carisma ao longa. No entanto, o excesso de tramas paralelas e personagens não muito bem desenvolvidos (como uma atriz pornô sem nenhuma veia artística ou uma italiana em processo de divórcio) faz com que o filme desvie um pouco a atenção do espectador. Problemas de roteiro a parte, o diretor Philippe Le Guay consegue criar uma obra que, diferente das comédias norte-americanas, não se propõe apenas a fazer rir, mas também a fazer pensar – e Le Guay consegue isso muito bem. Com um desfecho um tanto quanto “doloroso” e que pega o espectador de surpresa (devido ao tom leve e festivo da trama), Pedalando Com Molière é um filme que comprova que nem tudo na vida é tão belo quanto a arte.

A Fronteira da Alvorada

O cinema francês não é para qualquer um. Na maior parte das vezes, há os dois extremos: ou se ama ou se odeia. A Fronteira da Alvorada, do diretor Philippe Garrel, está exatamente nessa linha tênue de amor e ódio, gerando opiniões distintas no público e crítica.

A história do filme é simples – e sob certo aspecto, tem um final previsível (que vou evitar mencionar aqui). Carole (Laura Smet) é uma atriz solitária (apesar de cercada de amigos) recém-casada com um cineasta hollywoodiano. Longe do esposo, ela se envolve com o fotógrafo François (Louis Garrel), após uma sessão de fotos. Carole, que já possuía um histórico psiquiátrico não muito favorável, é abandonada por François e cai em profunda depressão, vindo a falecer. Tempos depois, François tenta reconstruir sua vida ao lado de uma nova paixão, porém é atormentado pela imagem da ex-amante.

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O cineasta faz um obra que, apesar de tratar de um tema atual – o amor – , foge dos padrões de cinema contemporâneo. A Fronteira da Alvorada é um filme sem muito apelo comercial e muito mais voltado à arte. Não que seja um produto difícil de digerir ou mesmo de se entender – o que diferencia A Fronteira da Alvorada dos demais longas convencionais que tratam sobre o amor é a maneira como o cineasta opta por criar um filme onde a arte é elevada à sua magnitude (apesar de algumas deficiências).

Esse status já fica explícito pela escolha do diretor em filmar em preto e branco – criando uma belíssima fotografia. Isso, de cara, já traz um clima romântico e retrô, assim como a obra anterior do cineasta, Amantes Constantes. Isso torna o filme infinitamente mais belo, nos dando uma espécie de expressionismo romântico carregado de beleza. Além disso, Garrel (pai) sabe bem que uma imagem vale mais do que mil palavras. É o gestual que acaba falando mais alto – como na cena do ensaio fotográfico onde, com uma curta troca de palavras, a tensão é acentuada pelo movimento de Carole e François na sacada do apartamento.

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É a fotografia em preto e branco que faz toda a diferença neste longa. Melhor: a maneira como a fotografia em preto e branco é utilizada. Os enquadramentos beiram a perfeição: seja no retrato dos rostos humanos (que captam os profundos sentimentos das personagens), seja nos ângulos das tomadas externas ou mesmo no uso da luz (ora com mais contrastes, em outros momentos com maior saturação). Com alguns defeitos nos aspectos sonoros, no entanto, o filme perde um pouco de sua qualidade técnica. A mixagem, em muitos momentos, evidencia uma total manipulação dos aspectos sonoros – o que pode causar certo desconforto.

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No final, são os belos e ricos diálogos que tornam A Fronteira da Alvorada um filme inspirador. E é ali que Garrel consegue o melhor: falar de amor de uma maneira atemporal e universal. Apesar da previsibilidade do desfecho, Garrel nos delicia com belas cenas e profundas reflexões ao longo de sua exibição. O espectador pode, assim, ficar despreocupado: A Fronteira da Alvorada atinge direto seus olhos e também seu coração.

Canções de Amor

Já em 2006, com seu belíssimo Em Paris, o cineasta Christophe Honoré (uma das maiores revelações do novo cinema francês) flertava com o gênero musical na cena em que um casal separado dialoga musicalmente ao telefone. Aparentemente, essa cena era uma espécie de prévia do que estava por vir em seu filme seguinte, Canções de Amor, um musical inspirado recheado de romantismo e tragédia.

Antes de mais nada: abandone os preconceitos com o gênero. Primeiro: sempre podemos ser surpreendidos com bons musicais. Segundo: o estereótipo de musical norte-americano (com suas personagens cantando, pulando, dançando alegres e saltitantes e tudo mais…) passa longe de Canções de Amor. As músicas se adequam à proposta do longa – o que não deixa o filme se tornar cansativo ou que sua trama seja surreal como em muitos produtos do gênero.

02O filme apresenta o cotidiano de Ismael (o galã francês Louis Garrel) e sua namorada Julie (a ótima Ludivine Sagnier) que vivem um romance a três com Alice (vivida por Clothilde Hesme). No entanto, essa relação é interrompida por uma tragédia: a morte de Alice. No decorrer da história, Ismael conhece o jovem Erwann, que se apaixona pelo jornalista e tenta seduzi-lo.

As músicas são o grande ponto forte da obra, pois conseguem transmitir os sentimentos honestos e espontâneos de suas personagens – o que Honoré sabe bem como capturar com sua câmera. Interpretadas pelos próprios atores (que mais sussurram do que necessariamente cantam), as canções escritas por Alex Beaupain tornam Canções de Amor um “filme popular com canções”, como sugeriu o próprio diretor na época de lançamento – e distanciando sua obra daqueles bregas musicais europeus de outrora. Beaupain (que perdeu a namorada na vida real antes de escrever as canções para o filme) conseguiu traduzir em poemas as experiências turbulentas sobre o amor dentro de um estilo pop moderno que torna Canções de Amor apaixonante.


Rodado na capital francesa, Honoré ainda consegue criar mais um personagem: sua própria Paris que, em pleno outono e recheado de cores cinzentas, chuvas e devaneios, é o cenário ideal para a história desse grupo de amantes que tudo o que mais desejam é simplesmente amar. O amor na visão de Honoré é tratado sem condicionalismos, sem falsos moralismos. O amor não deve ser pensado, racionalizado ou colocado dentro de uma caixinha e ser exibido como um prêmio. Na proposta do diretor, as pessoas simplesmente amam – e isso basta. Talvez essa visão possa incomodar a platéia um pouco mais conservadora, afinal o musical ganha um tom abertamente homoerótico a partir de sua segunda metade – e curiosamente, a melhor sequência do longa advém da noite de amor entre Ismael e Erwann. Esse divisor de águas na história trará os melhores conflitos da trama e as mais conturbadas experiências aos personagens. Aliás, após a morte de Julie, o filme é dividido em três partes: a partida, a ausência e o regresso – referência explícita ao processo pela qual Ismael irá passar a partir daí.

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Canções de Amor é, dessa forma, um filme onde nada é gratuito. Muito antes disso, é uma obra que aspira poesia, se tornando um deleite inegável aos ouvidos e aos olhos. Honoré diz, ainda que de forma não direta, que as relações foram feitas para ser vividas e não explicadas. Não há julgamentos, não há certo ou errado – há apenas as expressões do amor em sua mais pura forma. Assim, Canções de Amor não é apenas um belo produto de entretenimento aos olhos e ouvidos, mas também uma reflexão moderna sobre o amor romântico em nossa sociedade.