Presos na Floresta: Fuja Se For Capaz (Quicksand)

A tensão entre Sofia e Josh já é estabelecida nos minutos iniciais de Presos na Floresta: Fuja Se For Capaz : como muitos casais à beira do término de uma relação, o clima entre eles não poderia estar pior, apesar dos visíveis esforços do rapaz para tentar salvar o casamento. A moça, por sua vez, parece estar irredutível: nada a agrada e tudo a incomoda – principalmente quando é forçada a dividir com o futuro ex-companheiro o quarto de hotel em uma viagem de negócios à Colômbia. E que melhor maneira de passar o tempo livre um casal como esse encontraria? É claro: se embrenhar por uma floresta tropical, sozinhos, sem avisar ninguém, sem mais nem porquê. Resultado dessa presepada: os dois acabam presos em um poço de areia movediça – e agora não tem jeito: é deixar as mágoas de lado e lutar juntos pela sobrevivência.


Presos na Floresta possui alguns problemas, mas dois deles se sobressaem. A princípio, temos um roteiro que se esforça para extrair ao máximo as motivações de seus protagonistas, de forma excessivamente didática ou repetitiva. Decerto na tentativa de amenizar a dificuldade que é manter uma história inteira rodada praticamente em único ambiente, o que vemos é uma sucessão de pequenos episódios de “DR”, porém sem qualquer profundidade (tudo bem, não creio que este seja o foco da trama). Alguns personagens secundários poderiam ser explorados, mas tudo o que temos é um suposto vilão sem qualquer propósito e um segundo coadjuvante pífio. Ainda, alguns trechos poderiam ser eliminados, já que não acrescentam nada à construção do enredo – a sequência inicial, por exemplo, é absolutamente descartável. No entanto, provavelmente o maior erro do filme esteja na direção inexperiente de Andres Beltran, um cineasta até aqui com pouca expressão: suas escolhas simplesmente não funcionam. O diretor recorre a efeitos de câmera que dão um tom de amadorismo à obra, quando uma boa edição facilmente resolveria a situação. Falta ainda certa malícia na condução de seu elenco, cuja (in)expressividade é gritante. E, é claro, falta coordenação: Presos na Floresta: Fuja Se For Capaz é uma produção onde o todo parece não se conversar; falta harmonia, coesão e, principalmente, identidade.

A Mão Que Balança o Berço (The Hand That Rocks The Cradle)

Rebecca De Mornay não faria nada tão expressivo em sua carreira após o sucesso de A Mão Que Balança o Berço, um thriller de Curtis Hanson (de Los Angeles – Cidade Proibida) que foi amplamente elogiado pelo público e crítica na época de seu lançamento. Na trama, Rebecca dá vida a Peyton Flanders, uma babá que passa a atormentar a vida de uma família para vingar a morte de seu esposo.

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Com um roteiro simples mas conciso, que vai nos dando pistas sobre os atos de Peyton mas sem se perder no meio-campo tentando explicar suas motivações, Hanson é competente ao transpor o argumento para a tela sem grandezas ou inventices. Do ponto de vista técnico, inclusive, A Mão que Balança o Berço é um filme que não chega a ser brilhante – na verdade, é bem mediano em diversos momentos. Porém é nítido o talento do cineasta para as sequências de suspense, que cresce à medida que a fita se desenrola e quase chega a alcançar o terror psicológico – não em nível tão requintado, é verdade, mas o suficiente para proporcionar um ótimo entretenimento.

Rebecca faz uma atuação coerente e bem articulada, sendo a escolha perfeita para o papel. Seu talento é imprescindível para a construção de Peyton, que ora é pura inocência, ora é pura maldade – o anjo e o demônio na mesma pessoa. As nuances de Peyton são bem delineadas por De Mornay, que recebeu bastante atenção na época. Soma-se ao elenco Annabella Sciorra, a dona de casa tranquila, porém frágil, alheia a todos atos da babá – a mocinha ideal, que ainda tem crises de asma, aumentando sua fraqueza diante das telas; e também uma Julianne Moore em início de carreira, com um tipo extravagante e esperto que chega a ter seu devido ponto alto na narrativa.

Apesar de a história não apresentar nada significativamente novo, A Mão que Balança o Berço nos traz personagens que são verossímeis – e isso é importante para que o público se identifique com o núcleo central. Trata-se de um filme bem feito e redondo, com um roteiro bem construído que pode até não marcar a vida do espectador, mas é suficiente para prender sua atenção durante a projeção.

Frenesi (Frenzy)

Londres, década de 70. Uma série de crimes inquieta a polícia local: mulheres são estupradas e assassinadas por um maníaco sexual que as asfixia com uma gravata. Após o assassinato de sua ex-esposa, o fracassado Richard Blaney passa a ser o principal suspeito dos crimes. Preso injustamente, sua missão agora é provar sua inocência e incriminar o verdadeiro culpado.

01Esta é a sinopse de Frenesi, o penúltimo filme de Alfred Hitchcock, lançado em 1972 – após uma sequencia de películas que dividiram o público e a crítica (na ordem, Marnie, Confissões de Uma Ladra; Cortina Rasgada; e Topázio – este último amargando duras críticas e considerado por muitos o seu trabalho mais irregular). Não que estes títulos sejam ruins; de fato, há de se admitir que todos eles são superiores a muita coisa produzida na época. Mas faltava certa dose da identidade do cineasta. Talvez por essa razão, Frenesi foi recebido como o retorno de Hitchcock ao gênero que o consagrou. Frenesi também marca seu retorno a Inglaterra, sua terra natal (aliás, o longa já se inicia com uma ótima tomada aérea de Londres por cima do rio, aterrissando no mercado da cidade). O tema, por sua vez, já foi amplamente explorado por Hitchcock: um homem acusado de um crime que não cometeu.

Frenesi é, de longe, o filme mais violento da carreira de Hitchcock. Muito mais cru do que em seus trabalhos anteriores, a violência em Frenesi é mais explicita. A sequência do assassinato (e estupro) de Brenda Blaney, para a época, poderia ser comparada a qualquer cena de pancadaria tarantinesca hoje. Há, além disso, inúmeras cenas de nudez, que o diretor filma com bastante destreza, mas não chega necessariamente a “chocar” (já que o espectador entende que a nudez é importante dentro daquele contexto). Frenesi também apresenta um roteiro muito bem humorado – aliás, o humor quase se mistura ao suspense devido aos inúmeros percalços pelos quais seus personagens passam. O humor aqui trafega por vários tipos, do mais “bobo” (as comidas intragáveis que o inspetor de polícia é obrigado a provar para agradar a esposa) ao mais ácido (um corpo boiando no Tâmisa enquanto um político londrino discursa sobre a limpeza do rio).

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Curiosamente, o roteiro aposta em algo inusitado: diferente dos suspenses tradicionais (onde o culpado só é revelado geralmente ao final da trama), Frenesi apresenta o criminoso antes da metade da projeção – mas nem por isso o filme perde interesse. Pelo contrário: o público anseia pelo desfecho da história, torcendo para que o verdadeiro assassino pague por seus crimes. Isso é reflexo do excelente trabalho de direção de Hitchcock, que consegue despertar a simpatia do público por um protagonista que sequer é muito simpático – interpretado por Jon Finch (que um ano antes estrelou o polêmico Macbeth, de Roman Polanski). A condução do diretor é primordial para que, mesmo não caindo de amores por Richard (um sujeitinho medíocre), o público torça para que ele prove sua inocência e se vingue de Robert Rusk, o comerciante vivido por Barry Foster (um tipo detestável já nas cenas iniciais, com todo seu ar de “amigão, camarada” que soa, de cara, falso e forçado).

Recorrendo a inúmeros de seus próprios clichês, Hitchcock entrega um filme claramente mais popular (a começar pela trilha sonora de Ron Goodwin, muito mais comercial do que qualquer coisa já feita por Bernard Herrman, velho companheiro de Alfred). Talvez isso tenha sido culpa dos próprios estúdios, que participavam efetivamente da produção do longa e, de certa maneira, “engessavam” a criatividade do artista (algo do qual o diretor reclamou algumas vezes). É notória a impressão de que Frenesi é uma espécie de apanhado geral de ideias e recursos já vistos incansavelmente na filmografia do cineasta. Frenesi aposta em algumas velhas receitas batidas para criar um filme que, apesar de não inovar, funciona bem para o seu propósito, se tornando indispensável para os fãs do cinema hitchcockiano.

O Médico Alemão (Wakolda)

01A trama de O Médico Alemão nos leva a Argentina dos anos 60, onde uma família em travessia pela Patagônia, rumo a Bariloche, conhece um curioso e suposto cientista cuja personalidade e identidade lhe são desconhecidas. Ao chegar a seu destino, o médico é acolhido como primeiro hóspede do hotel da família e logo se apega à caçula Lilith, uma menina de doze anos com visíveis problemas de crescimento e que sofre discriminação no colégio por conta de seu pequeno porte. Sob o consentimento da mãe (e às escondidas do pai), o médico se propõe a ajudar a garota através de um tratamento que envolve a aplicação de hormônios, prometendo-lhe uma aceleração em seu crescimento e que seria, naquele momento, indispensável para o desenvolvimento sadio da menina – já na fase da puberdade.

Mais tarde, descobrimos que o médico em questão é Josef Mengele, conhecido como “Anjo da Morte” – que atuou no campo de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial e fazia experimentos com judeus refugiados, especialmente crianças. Porém, essa identidade não é explícita: aos poucos, a diretora Lucía Puenzo vai fornecendo ao espectador as pistas necessárias para que o mistério desta personalidade doentia seja desvendado. E, contrariando o que se poderia imaginar, ao descobrir a identidade do médico o interesse do espectador pelo filme não diminui; ao contrário, ele gradativamente aumenta à medida que a relação do médico com a garota se torna mais estabelecida (no início, sugere-se até mesmo uma conotação sexual, que logo se extingue no decorrer da história).

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Lilith, que desde que chegou à cidade sofre no colégio nas mãos de seus colegas (o que já demonstra a influência alemã naquela região), vê Helmut (o nome falso do alemão) como um herói, capaz de ajuda-la a superar uma limitação que a torna motivo de discriminação entre as crianças de seu grupo. Enquanto Helmut vê Lilith exclusivamente como uma cobaia para seus experimentos (anotando todos os pontos mais importantes de seu tratamento), a garota tem apenas bons olhos para o “vilão” – e quando percebe que algo está errado consigo, já é tarde demais: o cientista foge e nada mais resta.

Com uma fotografia cinzenta em boa parte de sua projeção (acentuando ainda mais a chegada do inverno naquela região), a edição fica mais ágil no decorrer da história, ajudando a aumentar o “suspense” do filme, especialmente nos instantes finais. O trabalho de direção é primoroso ao deixar de lado o suspense “gráfico” (não há nada escancarado na tela) e apostar na tensão progressiva, fazendo do médico a figura típica de um psicopata – mas sem trata-la com uma condenação prévia. Só que muito mais do que um mero suspense sob o período pós-nazista na Argentina ou uma biografia de um nome tão polêmico na História, O Médico Alemão é também um drama sobre a transição feminina da infância para a fase adolescente, especialmente no que se refere à descoberta do corpo (um tema que a diretora já abordou anteriormente, no seu longa de estreia, o elogiado XXY, em 2007). Mas não apenas isso: com uma direção precisa, O Médico Alemão é bom exemplo de filme que cresce e, mesmo que não seja grandioso, atinge uma maturidade difícil de se encontrar no cinema atual.

O Último Portal (The Ninth Gate)

Muitas biografias de Roman Polanski sugerem que o diretor tenha feito um pacto com o demônio em troca da fama. Não se pode afirmar ao certo se tal pacto realmente existiu, mas é fato incontestável que Polanski tem uma vida fora dos palcos tão polêmica quanto sua própria obra. Em O Último Portal, de 1999, o diretor retoma um tema que abordara (ainda que parcialmente) trinta anos antes, em seu cultuado O Bebê de Rosemary: o satanismo, o sobrenatural, o além.

O Último Portal é uma viagem ao reino das trevas. Na trama, Dean Corso (Johnny Depp, antes da saga Piratas do Caribe) é um especialista e negociante de livros raros de caráter duvidoso e despudorado, contratado pelo milionário Boris Balkan (Frank Langella) para confirmar a autenticidade de um livro raro que, segundo consta, teria sido coescrito por Aristide Torchia e o próprio demônio. Na realidade, Boris possui um dos três únicos exemplares do livro de Torchia dos nove escritos em 1966 que teriam o poder de invocar o diabo e abrir as portas para o inferno.

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Essa é uma incursão séria de Polanski ao sobrenatural. Boa parte da obra mais autoral do diretor já tem alguns elementos essenciais em thrillers de mistério ou sobrenatural (como o já citado O Bebê de Rosemary ou O Inquilino). No entanto, em O Último Portal, Polanski vai mais a fundo, quase caindo nos clichês do gênero. Não fosse pelo talento do cineasta, O Último Portal teria tudo para ser mais um longa de suspense a tratar temas sobrenaturais – mas Polanski conduz tão bem a tensão e o clima decadente da história que o filme se torna uma obra que te deixa atordoado (positiva ou negativamente).

Polanski faz do livro misterioso o principal personagem de seu filme. Dean Corso é um anti-herói, que vai ganhando mais empatia à medida que se torna mais decadente como ser humano. A frieza de Corso e sua moral cínica deixam o personagem ainda mais interessante, enquanto ele se vê cada vez mais determinado a encontrar uma resposta para o enigma que tenta desvendar, ainda que não saiba exatamente o porquê. Aliás, não há porquês – e com isso, Polanski cria um suspense aterrorizante e aberto a inúmeras interpretações. Há grupos de debates na rede que tentam decifrar alguns enigmas da história, como a identidade da personagem de Emannuelle Seigner ou a pessoa por trás dos assassinatos da trama. Até mesmo o desfecho é de uma ambiguidade tamanha que divide os fãs, deixando uns fascinados e outros decepcionados.

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Polanski cria ainda um ambiente repleto de sugestões: a obra traz referências e citações, com pistas escondidas que conduzem às mais diversas leituras. Deixando as soluções muito fáceis de lado, Polanski é um deus fanfarrão que brinca com suas personagens como marionetes, manipulando-os da maneira que bem entender para criar seu suspense – que ainda é mais atenuado com a excelente trilha sonora do polonês Wojciech Kilar (um subestimado que, entre outros, assina a trilha de Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Copolla), com toda sua erudição e mistério.

Embora tenha uma das piores avaliações da filmografia do cineasta, O Último Portal, a meu ver, é um ótimo filme, que abre margem para diversas suposições e cabe ao expectador decidir qual delas é a mais adequada para si. Apesar do ritmo lento em alguns instantes, é um thriller sobre forças ocultas e satanismo – o que aumenta ainda mais os mitos acerca da obra e, principalmente, da vida de Polanski.

A Mulher de Preto (The Woman in Black)

A Mulher de Preto conta a história de Arthur Kipps, um jovem advogado e pai viúvo, desestabilizado emocionalmente desde a morte de sua esposa, que viaja para uma cidade do interior da Inglaterra para cuidar dos papéis de um cliente falecido recentemente, dono de uma mansão. Lá, ele descobre que há o espírito de uma mulher que toda vez que é visto causa a morte trágica de uma criança da cidade. Mais tarde, Arthur descobre que o espírito apenas deseja vingança por conta da morte de seu filho, cujo corpo nunca fora encontrado.

O filme tem todos os elementos próprios deste tipo de película. Vamos lá: homem da cidade que não acredita nas crendices de pessoas simples do campo, confere; atmosfera sinistra, confere; história envolvendo o sobrenatural, confere; cenário do interior de uma Inglaterra no início do século XX, confere. Entretanto, nem mesmo estes elementos são capazes de impedir que A Mulher de Preto deslize e se torne uma quase furada.

A princípio, já somos apresentados claramente a uma falha na escolha do ator principal. Apesar do roteiro destacar a juventude de Kepps, Daniel Radcliffe é absolutamente muito jovem para o papel – além do fato de Radcliffe ainda estar muito vivo na memória dos fãs como o bruxinho Harry Potter, personagem principal de uma das maiores franquias do cinema. Radcliffe faz um tremendo esforço para o papel que, definitivamente, não foi feito para ele. Afinal, Daniel em nada se parece com um viúvo que tem um filho de cinco anos. A sensação é a de que estamos em uma montagem de teatro escolar, onde crianças e adolescentes fazem personagens adultos. Além disso, o rosto assustado de Radcliffe a todo instante é irritante – e essa foi a única expressão que o ator conseguiu fazer durante todo o filme.

Depois, o filme tropeça – e muito – no roteiro. A história em si tem um grande potencial, pois é um legítimo conto de fantasmas. O que acontece é que ela não decola: as sequências são longas e cansativas, com pouquíssimos sustos. sustos. Alem disso, a lógica com que Kepps descobre o “grande” mistério do fantasma é, sob certo aspecto, duvidosa (confesso que ri com a facilidade com que o advogado encontra o corpo do filho do fantasma), o que faz com que o filme caminhe para um final bem diferente daquilo que se espera – e que não deixa de ser decepcionante para o espectador.

Mas tudo isso pode ser, talvez, creditado à falta de uma direção madura: percebe-se que o diretor James Watkins não teve pulso forte para conduzir sua obra e não aproveitou o potencial da trama. Parece que não é apenas uma história sobre fantasmas. A direção, ao que tudo indica, também é difícil de enxergar.