Na Cama Com Victoria (Victoria)

Victoria é uma bela e jovem advogada parisiense, cuja sanidade mental está por um fio. Workaholic e egocêntrica, ela recorre ao sexo para fugir das pressões que sofre por todos os lados. Mas as coisas, quando estão ruins, sempre podem piorar um pouco: seu ex-marido e pai de suas filhas, David, está difamando sua carreira. Além disso, Victoria reencontra Sam, um estagiário de direito que outrora ela inocentara por tráfico de drogas e agora insiste em ser seu baby-sitter. Para completar, ela aceita defender o caso de seu amigo Vincent, que está sendo acusado de um homicídio cuja única testemunha é o cachorro da vítima.

Na Cama Com Victoria (título extremamente apelativo quando comparado ao material original) é a prova de que os franceses descobriram recentemente o gosto pelas comédias. Abusando de inúmeras referências (há quem cite, por exemplo, semelhanças com obras de Billy Wilder, Blake Edwards e até Woody Allen), a cineasta Justine Triet apresenta uma mise-en-scène caprichada, recorrendo a planos bem trabalhados que criam um ritmo equilibrado e que jamais sai da linha. A direção de atores também é competente e Triet sabe como valorizar a performance extraordinária de Virginie Efira, que é engraçada e sóbria com a mesma proporção e tem ótimos momentos em cena (sua atuação lhe rendeu inclusive uma indicação ao César 2017 de melhor atriz). Vincent Lacoste, o lunático Sam, é adorável e é muito gratificante vê-lo em fase de amadurecimento (este provavelmente é o personagem mais “adulto” de sua filmografia – e o ator não decepciona).

Entretanto, é nítido que a superficialidade do argumento não permite que Na Cama Com Victoria vá além de uma simples comédia popular. Aquele que talvez fosse o tema central da película – e um dos maiores males de nosso século – é tratado de forma rasa: a depressão. Percebe-se que o filme fica em cima do muro: não é totalmente cômico, tampouco aprofunda-se na exploração das relações humanas entre seus personagens. O tom de comédia romântica é o indício mais claro de que Na Cama com Victoria não se propõe necessariamente a promover algum debate, sendo direcionado exclusivamente ao entretenimento do público comum e, óbvio, à possibilidade de uma bilheteria polpuda.

Um Instante de Amor (Mal de Pierres)

Gabrielle nasceu e cresceu em uma pequena aldeia francesa, em  uma época em que ser mulher limitava-se apenas a abandonar a família e unir-se ao marido – mas este não era o destino que a moça queria para si. Temendo pela reputação da filha rebelde, os pais resolvem casa-la com o pedreiro José que, mesmo com toda dedicação, pouco consegue agradar a esposa. Algum tempo depois, Gabrielle é internada em uma estância termal nos Alpes para tratar de suas fortes dores renais, o que marcará para sempre sua vida.

Adaptado do best-seller de Milena Agus, Um Instante de Amor instiga o público a discutir a emancipação feminina, em especial naquilo que tange à sua sexualidade. Para isto, o início da trama apresenta certa tensão sexual, com algumas sequências que transbordam erotismo (como quando Gabrielle está deitada em sua cama, folheando – e lambendo – o livro do amado). A narrativa ainda ganha uma reviravolta interessante com a chegada de André Sauvage, um tenente à beira da morte por quem Gabrielle irá se apaixonar durante o tratamento. É neste homem em que a jovem infeliz irá encontrar o amor e a paixão que nunca enxergou no cônjuge.

A direção “clássica” de Nicole Garcia, todavia, prejudica um tanto a obra. É nítido que o roteiro carecia de algo a mais, enquanto a cineasta faz escolhas que funcionam, mas não trazem brilho algum à história. Mesmo com a bela fotografia de Christophe Beaucarne, a diretora arrisca pouco, optando por uma mise-en-scène tradicional, sem qualquer identidade própria. O tom “romântico” passa a predominar, em especial a partir da segunda metade da fita, e com isso o argumento repleto de potencial para novos debates se limita a um romance simples, com um desfecho até mesmo inquietante mas um desenvolvimento mediano.

É na performance do elenco que Um Instante de Amor certamente irá agradar ao público. A protagonista de Marion Cotillard é construída com muito empenho por uma atriz que se entrega de forma absoluta. Marion vai de um extremo ao outro com total sutileza, de forma quase imperceptível, mostrando que, sem dúvidas, é uma das intérpretes mais extraordinárias de nossa geração. Seu par romântico, Louis Garrel, vai se distanciando cada vez mais do símbolo sexual a que todos insistem em o rotular. Com uma caracterização surpreendente, Garrel se despe de qualquer vaidade para a composição de sua personagem, que embora apareça pouco, é fundamental para o desenrolar da trama. A dupla, definitivamente, é o maior atrativo de Um Instante de Amor – um filme eficiente, sim; bonito e bem feito, é verdade; mas que, devido à fraca direção, reduz-se apenas a um drama que não sai de seu “quadrado” mesmo com todo o universo ao redor a ser explorado.

Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort)

Às vésperas de uma feira de fim de semana, a pequena cidade de Rochefort é povoada pelos tipos mais distintos: as belíssimas irmãs gêmeas Delphine e Solange Garnier, respectivamente uma professora de balé e uma instrumentista e compositora; um marinheiro em busca da mulher de seus sonhos; a dona de um simpático bar à beira-mar que deseja reencontrar o homem com quem viveu um romance no passado; um recém chegado, que acabara de se apaixonar por uma jovem desconhecida; entre tantos outros personagens que, cada qual à sua maneira, vivem momentos diferentes de um mesmo sentimento: o amor.

Duas Garotas Românticas é um daqueles filmes que te deixam com um sorriso de uma orelha à outra. Por duas horas, o musical de Jacques Demy consegue exprimir um intenso clima de felicidade, sem soar piegas ou cansar o expectador. Com um exagero de cores, sempre saturadas, os quadros expressam completa vivacidade e exuberância, mesmo nas poucas sequências mais tristes da história (um contraste que não incomoda em instante algum). A paleta contribui à narrativa com excepcionalidade e há uma harmonia interessantíssima entre figurinos e cenários, o que podemos observar amplamente com os planos empregados. Há escolhas que impressionam, como alguns planos sequências, todos filmados com bastante precisão – em especial, há um no início da narrativa que captura toda a movimentação da praça da cidade, com suas inúmeras pessoas ao redor para, aos poucos, fazer um zoom em direção à janela de um edifício, terminando em uma ampla sala onde vemos as deslumbrantes Catherine Deneuve e Françoise Dorléac em cena.

Praticamente fazendo par a Guarda-Chuvas do Amor, de 1964, Duas Garotas Românticas é, sobretudo, um filme que narra com beleza e alegria os encontros e desencontros da vida. Amparado pela competente fotografia de Ghislain Cloquet (um dos maiores fotógrafos do cinema europeu na década de 60), que é um visual à parte, Demy cria um mundo mágico e multicolorido – palco onde seus personagens desfilam, dançam e cantarolam suavemente suas melodias em um tom irradiante de êxtase, que transborda da tela e atinge o público em cheio. Se há quem defenda que assistir bons filmes nos tornam pessoas melhores, Duas Garotas Românticas é certamente aquele que vai te deixar de bem com a vida.

Com Disco Homônimo, Harry Styles é o One Direction Que Você Deve Ouvir Já

O que Beyoncé, Justin Timberlake, Michael Jackson, Sting, Gwen Stefani e Ozzy Osbourne tem em comum? Bom, além de serem astros da música, todos compartilham um mesmo fato: abandonaram as bandas pelas quais ficaram conhecidos e partiram rumo à carreira solo. O mais novo artista a compor este seleto time é Harry Styles, que com seu álbum homônimo lançado há poucos dias, comprova que, definitivamente, é um dos poucos remanescentes da One Direction que merece ser levado a sério.

Mas, sejamos francos, não era preciso que Harry seguisse um projeto solo para termos a certeza de que ele sempre foi o integrante mais expressivo do grupo. Com uma voz que se destacava entre o quinteto britânico, Harry também era dono de um carisma incomparável – não à toa, sua fanbase crescia cada vez mais, até o dia em que a banda anunciou seu hiato “indefinido”, lá em meados de 2015. Desde então, muito se especulava sobre o futuro dos membros do conjunto: cada um tomou seu rumo e as apostas eram altas – principalmente em Harry, é claro. E ele realmente não decepcionou.

Harry Styles é um disco de um artista em processo de amadurecimento, especialmente quando comparado ao pop teen da 1D. Com muito menos compromisso comercial do que na época de sua boyband, Harry abandona quaisquer vestígios de seu passado recente e abraça o retrô sem desprezar o novo ou soar cafona. Ao longo de dez faixas, o intérprete abusa de referências e variedades de gêneros (em especial à musicalidade da década de 70, seja no pop, folk ou até mesmo rock), executando todos eles com competência admirável para um garoto de apenas 23 anos.

Assim, o álbum nos brinda com ótimos momentos que vão, com muito equilíbrio, do intimismo à explosão. Meet me in the Hallway, que abre o trabalho, tem uma incrível influência no folk dos anos 60, podendo facilmente passar-se por uma canção de rádio de algum cantor da época. Com quase seis minutos de duração, Sign of the Times rendeu até mesmo comparações com David Bowie. Começando timidamente, a música ganha arranjos que lhe concedem um final espetacular – de longe, é um dos pontos altos deste registro, precedida por Carolina, uma faixa com escancarada referência aos Beatles. Two Ghosts e Sweet Creature são as duas grandes baladas do disco. Enquanto a primeira é o mais próximo que Harry consegue chegar de 1D aqui, a segunda pouco se utiliza de elementos sonoros e conta com uma performance de Harry que nos faz querer cantar junto com ele.

Only Angel e Kiwi conduzem a empreitada a um novo patamar, principalmente esta última, que aposta no vocal rasgado de Styles e em uma guitarra que nos remete quase aos trabalhos mais recentes de Jack White. Ever Since New York é um pop mais comum, sem muitas camadas e que pouco surpreende, mas se encaixa muito bem dentro da proposta do CD. Indo nas raízes dos anos 70, Woman tem uma melodia muito particular, sincopada, cheia de charme e atitude. Com simplicidade e arranjos de cordas, From the Dining Table fecha o álbum harmoniosamente, com um Harry bastante sóbrio que alterna sua performance entre falsetes e vocais graves.

Com um bom repertório musical, Styles entrega um registro honesto, porém não isento de falhas. Para além das letras sem muita profundidade (cujo principal “tema” são relações conturbadas), Harry Styles se mostra “indeciso”, com uma visível ânsia em desvincular-se da imagem de ex-membro de boyband, o que faz com que ele perca seu foco. Assim, é impossível descobrirmos qual é, de fato, sua personalidade musical. Claro, faz parte de seu amadurecimento artístico, é verdade – e também, no atual cenário fonográfico, isso pouco importa, contanto que um  artista tenha hits de sucesso ou bons números na parada. Harry tem talento: o cara realmente é bom e tem potencial para se tornar um astro como aqueles inicialmente citados. Basta apenas “se encontrar”. Mas a gente também não vai ligar enquanto isso não acontecer: mesmo quando está perdido, Harry Styles prova que é a melhor coisa que o One Direction produziu durante todos estes anos…

Frantz (Frantz)

Françoiz Ozon é um cineasta que transita por qualquer gênero, porém sempre com um estilo instigante, com uma certa dose de tensão e suspense que tornam seus filmes, no mínimo, agradáveis. Com isso, é muito comum ouvirmos por aí que Ozon é um diretor “confiável”, que mesmo em seus momentos menos inspirados erra pouco. Todavia, ao acertar, o realizador francês entrega obras interessantíssimas, como 8 Mulheres, Dentro da Casa e seu mais recente trabalho, Frantz.

Ambientado em uma pequena cidade alemã após a Primeira Guerra Mundial, Frantz narra inicialmente o luto de Anna (Paula Beer) após a perda de seu noivo, morto em uma batalha na França. Um dia, ao levar flores ao túmulo de seu amado, Anna percebe a presença de um jovem francês, Adrien (Pierre Niney), soldado que se apresenta como amigo de Frantz durante o período em que este esteve na capital francesa. No entanto, qual seria a real natureza do relacionamento de Frantz e Adrien?

A rivalidade entre Alemanha e França é o pano de fundo deste conto – e também é fundamental para o desenvolvimento da película. Adrien, como francês, se torna cada vez mais íntimo de Anna e da família de Frantz, estes alemães. Aos poucos, porém, as revelações (e algumas reviravoltas no roteiro) acabam modificando a relação inicial entre estes personagens – algo que Ozon consegue manipular muito bem, fazendo com que o espectador pense uma coisa quando mais a frente a situação tomará outro rumo.

Com total controle em sua mise-en-scène, Ozon constrói sua trama adequadamente, com uma estética visual impecável que recria a época e é primordial para a imersão do público. Direção de arte e design de produção são responsáveis pelo contraste entre a fria e quieta cidadezinha alemã e a efervescência parisiense do início do século XX (que acentua, inclusive, o conflito de Anna com relação à sua terra natal). A fotografia, por sua vez, desempenha um papel importante na narrativa: predominantemente em preto e branco, ela recorre a alguns artifícios pontuais como a mudança brusca para o colorido – onde Ozon ignora algumas regras do cinema tradicional para trazer maior destaque para os acontecimentos.

Frantz, apesar disso, é um dos filmes mais “formais” de Ozon. Sério, econômico porém elegante, o longa acaba cansando em sua segunda metade, muito prejudicada pela extensão da fita. Ainda assim, dado sua rica cinematografia, Frantz é um trabalho de apreço, uma obra incisiva que trata sobre a culpa do indivíduo e a omissão da verdade, temas contemporâneos que promovem discussões necessárias.

Quantos “Eds Sheerans” Cabem em “Divide”?

Já se foram 2 meses desde a estreia de ÷ (pronuncia-se Divide), terceiro álbum de estúdio do britânico Ed Sheeran – e confesso que levei um tempo para trazer este texto, tentando ao máximo digerir bem o novo trabalho do ruivo mais famoso da música pop antes de tecer uma crítica baseada em impressões rápidas e fúteis. Precedido por + (Plus) e x (Multiply) – este último que levou Ed ao status de grande astro – , Divide mostra o claro amadurecimento de um intérprete que opta por entregar um disco que atira com várias possibilidades, mas carece de algo minimamente novo.

À primeira audição, é evidente que a principal característica de Divide é a mistura dos mais variados estilos. Ed não tem medo de circular por gêneros diferentes, desde a levada rap de Eraser (faixa de abertura, que apresenta um Sheeran charmoso, porém desengonçado), a batida R&B de New Man ou até mesmo Galway Girl, onde o cantor abusa de recursos que remetem à sua linhagem irlandesa. Castle on The Hill é uma canção poderosa, aparentemente inspirada nos grandes clássicos de arena de bandas como U2 e Coldplay – com aquele típico refrão capaz de levantar multidões ao encerramento de um show. Já na frenética Shape of You, Sheeran declara “eu estou apaixonado por seu corpo”, em um arranjo que cairia muito bem na voz (e tipo) de Justin Bieber – talvez esta seja uma das mais gratas surpresas do registro.

Em sua zona de conforto, Ed se mostra competente com suas baladas. Com seu estilo soul, Dive é, provavelmente, o melhor momento do cantor no álbum. Muito à vontade, Ed emula algo que ouviríamos de Bruno Mars (sem, obviamente, a potência vocal deste último). Perfect lembra canções dos anos 50 e vem carregada de um sentimentalismo que chega até a ser piegas, mas também traz uma performance eficiente de Ed, assim como Happier e a belíssima How Would You Feel, com sua melodia amparada por um ótimo piano e violão (é, ao que parece, a Thinking Out Loud deste disco). Toda marota, What Do I Know é cheia de positividade, com sua declaração de que “o amor pode mudar o mundo em um momento” e uma base em guitarra sem firulas. Já em Supermarket Flowers, que encerra a versão simples de Divide, o artista usa uma interessante metáfora para expor a dor causada pela morte de sua avó recém-falecida.

Conquistando posições ambiciosas em várias paradas, Divide é o CD mais bem acabado do britânico até aqui. Talvez o título do álbum possa fazer alusão ao quanto o artista teve que se “desdobrar” para entregar um disco diversificado como este, que apesar de conter ótimas canções, peca pela falta de ousadia. No patamar em que está e com o talento que já sabemos que tem, Ed pode entregar muito mais do que um registro requentado de seus trabalhos anteriores. Ao menos, pela diversificação, Divide se destaca por trazer músicas com mais identidade e maior potencial de singles (nenhuma é totalmente igual a outra, diferente do que acontecia em Multiply, onde o público não tinha muita noção onde cada faixa começava ou terminava). Divide funciona como produto pop, mas não é o máximo de Sheeran e de seu talento; pelo contrário, é apenas um passo do intérprete rumo a algo muito maior e que só poderá ser alcançado quando Ed subtrair sua insegurança e mostrar realmente para o que veio.

O Dia do Atentado (Patriots Day)

Em 2013, durante sua famosa Maratona de Boston, no feriado do Dia do Patriota, os EUA sofriam seu maior ataque terrorista desde o 11 de Setembro. Este triste acontecimento serve de material para O Dia do Atentado, novo filme do cineasta Peter Berg, que se utiliza de relatos policiais, reportagens investigativas e registros reais para documentar as horas seguintes ao atentado que chocou todo o mundo.

Talvez seja difícil para nós, brasileiros, entendermos o real significado e amplitude de uma produção como esta, afinal ainda que enfrentemos diariamente inúmeros problemas sociais, temos o privilégio de vivermos em um país “pacífico”, ao menos em relação ao cenário externo. Hoje, os EUA é uma nação que vive a iminência de uma nova tragédia a todo instante – especialmente nos últimos dias, com a crescente tensão decorrente dos conflitos ocorridos na Síria. Portanto, nos colocarmos na posição de uma população tomada pelo medo seria fundamental para compreendermos o que é O Dia do Atentado.

Infelizmente não é preciso tanto. Assim como tantos outros longas do gênero, O Dia do Atentado mantém seu foco no heroísmo, no brilhantismo norte-americano e sua supremacia ao invés de se aprofundar em uma discussão que nos permita entender o contexto social em que esses acontecimentos estão inseridos. Em um estilo quase documental, o filme se concentra nas artimanhas policiais em busca dos responsáveis pelo crime, exaltando seus heróis “anônimos” e, principalmente, o sentimento de união e solidariedade do povo norte-americano (algo que, para mim, é louvável e deveria ser imitado por todos). Para além disso, falta à narrativa um elemento novo: quem acompanhou a repercussão do caso à época sabe exatamente o que esperar. Apesar de ser competente em sua proposta, apostando suas fichas em um elenco de peso (Mark Wahlberg, em sua terceira parceria com Berg, divide a tela com Kevin Bacon e o recém oscarizado J.K. Simmons), O Dia do Atentado se limita apenas a um simples registro deste fatídico e triste dia na história norte-americana, incapaz de nos fazer envolver pela produção enquanto obra cinematográfica.

Paterson (Paterson)

A vida de Paterson é uma constante rotina. Ele acorda diariamente por volta das seis da manhã (sem despertador ou celular – este último que ele se recusa a usar), passa um tempo na cama com sua mulher, toma seu café e sai para o trabalho. Passa pelos mesmos lugares até chegar à garagem onde está estacionado seu ônibus, que ele calmamente dirige pelas ruas de sua cidade, com quem divide o mesmo nome. Ao retornar para casa, arruma a caixa de correios, troca algumas palavras durante o jantar e sai para passear com seu buldogue inglês, até fechar a noite entre conversas e divagações com um amigo em um bar vizinho.

E assim, Paterson, novo filme de Jim Jarmusch, é construído a partir de suas aliterações, em que inúmeros elementos se repetem no decorrer da fita nos permitindo acompanhar a vida de seu personagem título durante sete dias. Entretanto, nosso protagonista tem um talento incomum (principalmente se posto ao lado da profissão que exerce, motorista de ônibus): entre observações de seu cotidiano, diálogos aleatórios e rotas percorridas, ele escreve versos em um modesto caderno que leva sempre consigo, sem muitas ambições. É sua excêntrica esposa quem o encoraja a continuar escrevendo e publicar seus textos.

Tentar resumir Paterson à uma sinopse “tradicional” é um exercício relativamente difícil, já que muito pouco acontece na história. Ou melhor, nada acontece que promova uma reviravolta na trama. No entanto, é interessante notar a maestria com que Jarmusch conduz seu filme: apesar da estrutura rígida e circular (refletida na excelente montagem do brasileiro Affonso Gonçalves), há um sentido rítmico na narrativa, como se ela toda fosse também uma poesia. Além disso, seu protagonista é construído com cuidado, praticamente uma antítese do clichê de “poeta” tão difundido em nossa cultura: um gênio incompreendido, boêmio e com propensão à melancolia – enquanto Paterson, por sua vez, é um homem comum, cujo cotidiano se limita apenas a existir.

Estrelado por um Adam Driver em ótima performance (nunca antes o intérprete esteve tão “belo” em cena), Paterson é um filme sobre as coisas comuns da vida. Existe beleza e encanto no “simples”; o que nos falta muitas vezes é a sensibilidade necessária para percebe-los. Jim Jarmusch nos delicia com uma obra que celebra o banal, nos levando a encarar a vida e a nós mesmos com outros olhos, o que realmente torna nossa existência tão profunda.

Um Limite Entre Nós (Fences)

Um Limite Entre Nós não possui exatamente uma trama em formato “tradicional”, com começo, meio e fim. No decorrer de suas mais de duas horas de duração, acompanhamos a vida do truculento Troy Maxson (Denzel Washington), um lixeiro negro na Pittsburgh da década de 50, cuja maior ambição naquele instante é deixar a traseira do caminhão de lixo para se tornar motorista – cargo que naquela época era destinado exclusivamente aos brancos.

Mas Troy é um homem ressentido – e aos poucos vamos descobrindo alguns fatos de seu passado não muito distante que contribuíram para isso. Quando tinha seus 30 e tantos anos, o protagonista viu o sonho de se tornar um jogador de beisebol profissional fugir de suas mãos – e hoje ele reprime o desejo de seu caçula em seguir carreira no esporte, além de desprezar a profissão do filho mais velho: um musicista de jazz falido. A única pessoa que parece se divertir com suas histórias é Rose Lee (Viola Davis), sua esposa devotada que além de cuidar da casa é capaz de fazer o marido voltar atrás em suas atitudes mais explosivas ou não pensadas.

Dirigido pelo próprio Denzel, Um Limite Entre Nós é a adaptação da peça Fences, de August Wilson – um sucesso na Broadway que o próprio ator chegou a encenar há alguns anos. O longa, de fato, é quase uma extensão do texto teatral: rodado praticamente em um único cenário e com longos diálogos. A impressão que o público tem a todo momento é a de que está vendo ali uma peça de teatro filmada, o que pode dispersar a atenção do espectador menos acostumado com este tipo de narrativa – especialmente em seu primeiro ato, onde há muita verborragia e monólogos que, a princípio, não agregam tanto à história.

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Entretanto, é aos poucos que Um Limite Entre Nós se desenvolve: o filme cresce com intensidade, às vezes de forma até mesmo cruel e dolorosa – e é aí que a câmera do cineasta se torna ainda mais discreta, com uma edição que prioriza muito o desempenho brilhante de seu elenco. Denzel é soberbo na pele de Troy, nos entregando uma de suas performances mais espetaculares (e não fosse a supremacia de Casey Affleck por seu Manchester à Beira Mar, certamente o Oscar de melhor ator seria dele). Viola Davis, por sua vez, faz jus ao prêmio de melhor coadjuvante: com uma personagem completa de sentimentos contidos, a entrega da atriz é impressionante. É interessante observar o contraponto entre as duas atuações: enquanto o ator impõe sua voz potente ao soltar cada palavra, Viola traz emoção. Em seu olhar, em seus gestos e expressões, nas lágrimas que surgem – Viola nos despeja todos os sentimentos de Rose sem medo ou pudor. E novamente a edição da fita se aproveita disso a favor do filme, deixando as cenas fluírem de maneira tão natural como se, de fato, estivéssemos observando essas pessoas como se em uma quarta parede.

Assim, amparado quase que completamente pelo irretocável trabalho de seu casting, Um Limite Entre Nós é um retrato cru da comunidade negra norte-americana dos anos 50, delineado em um drama que não mede esforços para realçar todo o aspecto teatral do material que o originou. E este pode ser um de seus problemas: ao tentar aproximar o filme daquilo que seria uma peça de teatro, Um Limite Entre Nós pode se tornar monótono ao longo de seu desenvolvimento, afinal teatro e cinema não são a mesma coisa. Com isso, é no carisma de seu elenco que a obra encontra seu maior triunfo, tornando Um Limite Entre Nós um filme poderoso como trabalho cinematográfico e necessário como estudo social.

Internet: O Filme (Internet: O Filme)

Podem me acusar de tudo, exceto ter preconceito com qualquer tipo de arte. Para mim, a arte é democrática e pode atingir o público de inúmeras formas. Principalmente no cinema. Eu sempre procuro deixar de lado as opiniões alheias para embarcar sem medo em umaprodução, buscando tirar minhas próprias conclusões e evitar, assim, qualquer tipo de julgamento anterior (e, quem sabe, sair surpreendido da sessão). Isto posto, fui de braços abertos ao cinema para assistir Internet: O Filme e até agora eu não consigo achar uma resposta convincente para uma única pergunta que me faço a todo instante: por quê?

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Idealizado e roteirizado por Rafinha Bastos (aquele da piada com Wanessa Ex-Camargo) e dirigido por Filippo Capuzzi Lapietra, Internet: O Filme é composto por uma série de pequenas esquetes, desenvolvidas paralelamente, que acontecem em um hotel onde centenas de youtubers estão reunidos para um evento. Com isso, encontramos vários arquétipos deste universo (inclusive os próprios youtubers, que estão ali desempenhando estes papéis): o tipo que se acha a maior webcelebridade; o gamer campeão de torneios; o casal oportunista que ganha dinheiro postando vídeos de seu animal de estimação; a garota fútil que critica a cultura webstar; até os fãs enlouquecidos por uma selfie ou um stalker maníaco que possui um altar de adoração ao seu ídolo.

Internet: O Filme é soberbamente absurdo. A proposta inicial, ao que parece, era utilizar a linguagem estética e narrativa das grandes produções do YouTube nas telonas. Infelizmente, este objetivo não é alcançado nem de perto: o filme é exagerado demais. Assim como os protagonistas de alguns destes canais, o longa sofre com o excesso: força-se muito para transformar a trama em algo nonsense e o resultado é uma obra que, definitivamente, nada agrega. As poucas piadas são de extremo mal gosto, além de escatológicas, gordofóbicas e machistas – isso sem mencionar o uso abusivo de palavrões que não produz qualquer efeito.

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Para piorar, a performance do casting não ajuda. Tenho total consciência de que boa parte do elenco é formada por youtubers que não são, necessariamente, atores profissionais (aliás, estar diante de uma câmera para milhares de pessoas e atuar são coisas completamente diferentes, não diminuindo uma nem engrandecendo a outra); mas poderia haver um pouco de esforço da galera para que suas atuações não fossem uma extensão de seus vídeos na rede. Victor Meyniel parece ter uma mesma cara não importa qual seja a situação (apesar de aparecer somente no fim da fita); Lucas Olioti, o T3ddy, não faz outra coisa a não ser tirar a franja do rosto, enquanto mesmo os veteranos Paulinho Serra e Rafinha Bastos pouco convencem.

Recentemente, saí do cinema muito satisfeito com Eu Fico Loko, filme que contava a vida do youtuber Christian Figueiredo – e apesar de não ser excepcional, me diverti muito com a história e dei altas risadas. Exatamente como mencionei acima, fui assistir sem expectativa e me surpreendi positivamente. O mesmo não aconteceu com Internet: O Filme, que realmente é ruim. O longa serve, no máximo, como um passatempo barato que não levará mais do que alguns adolescentes alucinados por este tipo de cultura ao cinema, provando como nunca antes que a inclusão digital tem lá seus aspectos negativos…