Um Homem, Uma Mulher (Un Homme et Une Femme)

Anne Gauthier é uma roteirista de cinema que vive só com o filho, após a morte de seu marido em um brutal acidente. Já Jean-Louis Duroc é um piloto de corridas, ainda se recuperando do suicídio de sua esposa, que também lhe deixara uma filha. Os dois se conhecem casualmente em uma tarde de domingo, durante a visita semanal que fazem ao colégio interno em que suas crianças estudam. Como Anne perde o trem, Jean-Louis lhe oferece uma carona de volta a Paris. Os encontros semanais se sucedem e, aos poucos, a atração inicial entre os dois se transforma em amor.

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O argumento de Um Homem, Uma Mulher não poderia ser mais simples. No entanto, o filme de Claude Lelouch é, sem dúvidas, uma das mais belas histórias de amor do cinema. Já declarei em inúmeras ocasiões ser um defensor da tese de “menos é mais” – e em Um Homem, Uma Mulher esta definição é muito bem exposta. A simplicidade da narrativa é transposta, inclusive, para o método: as profundas discussões filosóficas, existenciais e metafísicas tão comuns à época de seu lançamento (1966, período em que a nouvelle vague estava em alta) são trocadas por dramas de pessoas comuns. Suas angústias, sofrimentos e questionamentos são exprimidos na tela de forma que o expectador possa acompanha-los sem reservas (não à toa, Lelouch declarou que seu longa não tinha nada a ver com o movimento francês de então).

Um Homem, Uma Mulher ainda é considerado como a base daquilo que é o cinema de seu cineasta: para além das temáticas que tratavam as relações humanas (em especial, o relacionamento entre homem e mulher), podemos ainda observar o emprego de câmera móvel (na mão ou no ombro, em muitos casos), o uso recorrente de voz over e flashbacks e os diálogos improvisados, bem como a trilha musical marcante – aqui, Francis Lai é o responsável por um dos temas mais populares do cinema. Além disso, Lelouch utiliza as cores de forma cronológica, o que ajuda o público a se localizar no tempo: enquanto o colorido representa as lembranças de um passado recente (interrompido pela morte de seus respectivos cônjuges), o preto e branco pontuam o momento presente (pautado pelo recomeço e a busca pela felicidade). É através desta brincadeira com o “tempo narrativo” que o diretor vai revelando as memórias do casal de protagonistas.

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Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e roteiro original em 1967, além do Palma de Ouro em Cannes no ano anterior, Um Homem, Uma Mulher ainda apresenta as atuações magnânimas de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant. Anos mais tarde, Lelouch repetiria o par central na sequência Um Homem, Uma Mulher: 20 Anos Depois, não obtendo o sucesso do filme original. Mas isso não desqualifica Um Homem, Uma Mulher em nenhum aspecto. Assisti-lo ainda nos dias de hoje é uma experiência cinematográfica indescritível. Mesmo em sua simplicidade, esta produção francesa é rica em sua magnitude de sentimentos – o que por si só já lhe garante o status de obra-prima do cinema.

A Corte (L’hermine)

Um homem é acusado do homicídio de sua própria filha de apenas sete meses. Quem vai julga-lo é o temido juiz Michel Racine (Fabrice Luchini), o presidente do tribunal. Conhecido como “dez para cima” (uma referência à quantidade de anos com a qual seus réus são condenados), Racine é tão rígido com os outros como é consigo mesmo: quase inatingível, tem cara de poucos amigos e trata todos os seus casos guiando-se sempre pela razão e com extremo profissionalismo.

A Corte é, a princípio, um típico filme de “tribunal”. Praticamente toda sua narrativa é centrada no julgamento presidido por Racine: acompanhamos ali os depoimentos de defesa, acusação, testemunhas e também as percepções do júri popular que irá condenar ou não o réu. Por este motivo, é compreensível que o expectador possa se sentir um tanto entediado com a história, pois ela em poucos momentos se expande para fora daquele núcleo – e por mais que a direção de Christian Vincent seja competente, ela é incapaz de fazer com que o público abrace totalmente a “causa”.

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O roteiro consegue despertar o interesse com algumas tramas paralelas, mas há um problema: elas parecem caminhar para um lado, mas acabam indo por outro: o suposto “resfriado” de Racine é desnecessário, assim como a sequência em que o magistrado vai até sua casa e dialoga com os moradores; a entrada de uma personagem adolescente pouco (ou quase nada) agrega ao longa. Mesmo a história secundária do filme passa quase despercebida: um dos membros do júri é Ditte (Sidse Babett Knudsen), uma mulher que passou pela vida de Racine anos atrás e por quem ele ainda nutre algum tipo de sentimento – mas nunca sabemos ao certo qual é e como realmente se deu a relação entre eles.

Talvez a grande proposta de A Corte é trazer uma reflexão sobre como uma pessoa do passado pode mudar ou influenciar nosso presente. O quanto somos dependentes de alguém que, em determinado instante, foi importante para nós? São questionamentos que A Corte até levanta, mas não responde. Apesar do ritmo leve e despretensioso da obra, A Corte não chega a ser um grande filme para o público “comum”- e mais do que isso: de forma cíclica, ele termina exatamente de onde começou, obtendo pouca relevância dentro da produção cinematográfica francesa contemporânea.

Meu Rei (Mon Roi)

Tony e Georgio se conhecem casualmente e logo se apaixonam. Ela, mulher independente, é uma advogada bem-sucedida; ele, por sua vez um sedutor convicto, é dono de um restaurante e figura frequente nos eventos mais “moderninhos” da cidade. O relacionamento dos dois se intensifica, mas logo perde forças à medida que as diferenças entre eles ficam mais perceptíveis e cada um passa a conhecer o melhor e o pior do outro. Tempos depois, Tony, que está internada em uma clínica de reabilitação para se recuperar de um grave acidente de esqui, tem a oportunidade de olhar para trás e avaliar a turbulenta relação com o ex-marido.

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O roteiro muito bem desenvolvido de Meu Rei intercala as sequências de terapia de Tony com os flashbacks que a levaram até aquela situação. A transição entre os dois núcleos, no entanto, é bastante sutil, quase imperceptível (o que pode até confundir o espectador menos atento), mesmo que haja diferenças entre eles: enquanto o presente é pontuado por muita luz natural (transmitindo a ideia de tranquilidade, paz, alívio de nossa protagonista), o passado é retratado através de uma montagem mais rápida e ágil, reforçando toda tribulação daquele período.

Com personagens bem construídos, Emmanuelle Bercot e Vincent Cassel se sobressaem com suas performances poderosas. Enquanto a primeira nos faz sentir de perto sua dor, parecendo uma pessoa como qualquer um de nós (não à toa, Bercot levou o prêmio de melhor atriz em Cannes), Cassel é o maior acerto do filme. Ainda que a história seja de Tony, o ator francês encarna com perfeição o tipo “cafajeste” irresistível: aquele que você ama e quer por perto, mesmo conhecendo todos os seus defeitos. Arriscaria dizer que Meu Rei apresenta as melhores atuações da carreira da dupla. Outro destaque positivo fica por conta de Louis Garrel, muito à vontade como o antagonista Solal e com um timing cômico perfeito (aliás, sua personagem é o único “comic relief” da narrativa).

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Dirigido por Maïwenn, Meu Rei se equilibra na linha tênue entre o melodrama e o antirromântico. Com um ritmo agradável, Meu Rei nos propõe refletir sobre relacionamentos abusivos e o quanto eles podem nos machucar e causar feridas ao longo da vida. Quando o amor acaba e a relação se desgasta, vale a pena insistir nela? É um questionamento que, em determinado momento de nossa existência, todos nós nos fazemos, como se fosse uma situação vivida por nós ou por alguém que conhecemos – o que torna Meu Rei uma obra com a qual o público vai facilmente se identificar.

Marguerite (Marguerite)

Será que a verdade deve ser dita em qualquer circunstância, a qualquer custo? Esta é a pergunta que permeia toda a narrativa de Marguerite, novo longa de Xavier Giannoli estrelado pela musa francesa Catherine Frot.

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Inspirado livremente na vida de Florence Foster Jenkins (considerada a pior soprano do mundo ou cinicamente conhecida como “a diva do grito”), Marguerite nos leva à França dos anos 20 para nos apresentar a Marguerite Dumont, uma aristocrata parisiense apaixonada pela música, em especial por óperas. Todos os anos, a socialite canta regularmente para seu círculo de conhecidos, mas há apenas um problema: sua voz. Marguerite acredita firmemente ser uma grande intérprete, quando na realidade não consegue cantar uma única nota sem desafinar. Seus amigos e, principalmente, seu marido são os que alimentam esta ilusão, até o dia em que Marguerite, convencida de seu talento, decide se apresentar para um público “de verdade” na Ópera Nacional de Paris.

Interpretada de forma terna por Catherine Frot, Marguerite é uma personagem encantadora. Construída com graciosidade, Marguerite faz o público rir com ela, mas nunca dela. Pelo contrário: nos sensibilizamos com esta protagonista, sentimos amor por ela. Marguerite não é em nenhum instante um motivo de chacota diante da tela; ela é uma mulher otimista, cândida, corajosa e mesmo que não possua os atributos necessários para ser uma grande cantora, o espectador se enternece por seu drama. Enganada por todos a sua volta, Marguerite sempre mantem o sorriso no rosto, o que nos comove.

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Giannoli se coloca aqui como um excelente contador de histórias: a forma como conduz a narrativa é envolvente e é amparada por um design de produção competente e uma fotografia muito pertinente. Apesar de um pouco esticado (devido a algumas tramas paralelas um tanto desnecessárias), Marguerite é uma obra agradabilíssima, que se utiliza de um argumento trágico para criticar o oportunismo na classe alta: todos ao redor de Marguerite são hipócritas, desonestos e se aproveitam da situação em algum modo – não muito diferente de nossa contemporaneidade, diga-se de passagem. Quem será o responsável por revelar a verdade à nossa protagonista, nem que ela seja tão dolorosa? Com alguns lampejos cômicos inseridos nos momentos certos, Marguerite é comovente dentro de sua proposta, se tornando, assim, uma obra indispensável.

Um Belo Verão (La Belle Saison)

França, início da década de 70. O país está passando pela efervescência da liberação sexual e o movimento feminista, por sua vez, atinge seu ápice. Neste contexto histórico, a trama de Um Belo Verão gira em torno de Delphine, uma camponesa que dedica sua vida aos serviços na fazenda de sua família no interior francês. Naquela região rural, a jovem mantém escondidos seus relacionamentos, já que não tem a liberdade de assumir sua sexualidade graças ao conservadorismo predominante naquele ambiente. Suas perspectivas mudam quando, em uma viagem a Paris, Delphine conhece um grupo de ativistas que lutam pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. Sentindo-se livre para ser quem realmente é, Delphine inicia um caso amoroso com Carole, uma mulher mais velha e casada, cuja personalidade influenciada por valores à frente de sua época acabam encantando a garota de costumes interioranos.

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A relação entre elas, descompromissada inicialmente, se aprofunda com o tempo, especialmente quando Delphine é forçada a retornar ao campo para cuidar do pai com saúde debilitada. Carole, que não tem outra opção, decide acompanhar a amada, uma vez que o romance entre as duas já não é uma simples aventura. Delphine mostra força e maturidade ao liderar a fazenda, valorizando os ideais feministas pelos quais lutava na capital. Entretanto, a personagem é incapaz de conduzir sua relação com a companheira, limitando-a à clandestinidade – sobretudo por conta dos olhares desconfiados dos moradores locais e também da vigilância de sua mãe. Carole, que defende a liberdade acima de tudo, se sente incomodada com a situação e, claro, os conflitos são gerados a partir daí.

Não podemos voltar atrás. Só podemos ir em frente…

O ponto mais favorável do filme de Catherine Corsini, além de sua direção e da bela fotografia, é a atuação de suas atrizes. Existe, sim, uma química interessante entre Izïa Higelin e Cécile De France, evidenciado pela ótima construção das personagens – o que contribui para que o espectador abrace o drama dessas protagonistas e faz com que alguns problemas do longa sejam quase ignorados. No entanto, um deles chama a atenção e é a mudança do foco narrativo: a trama de caráter “social” é posta de lado em determinado momento, cedendo espaço apenas ao relacionamento entre as duas mulheres – e isso restringe Um Belo Verão apenas a um romance convencional, desperdiçando sua premissa inicial que certamente traria maior valor à obra.

Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass)

Já comentei outras vezes aqui sobre a importância do burtoniano Alice no País das Maravilhas à época de seu lançamento, em 2010. Apesar das críticas pouco amistosas, o longa foi um sucesso de bilheteria, alavancou a indústria do 3D nos cinemas e também iniciou a febre dos remakes de contos infantis. É até estranho que a Disney tenha demorado exatos seis anos para conceder uma sequência à história – desta vez com Tim Burton assumindo apenas a produção do projeto e deixando a claquete nas mãos de James Bobin (cujo currículo modesto não inclui nada além de dois filmes da série Muppets).

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A narrativa desta nova aventura parte exatamente de onde terminou a primeira e segue basicamente a mesma premissa: Alice está em uma situação importante de sua vida “real” e é forçada a regressar ao mundo subterrâneo para resolver uma situação que só ela é capaz. Alice é agora a capitã do navio de seu falecido pai e, após uma extensa viagem de negócios, retorna a Londres e descobre que sua mãe está prestes a ceder a embarcação a Hamish Ascot (seu antigo noivo) em troca da hipoteca da casa da família. Seus amigos do País das Maravilhas, entretanto, estão preocupados com a vida do Chapeleiro Maluco – e para salva-lo, Alice terá que enfrentar o Tempo e resgatar todo o clã dos Cartolas.

É inegável que a primeira pergunta que se passa na cabeça de qualquer um ao assistir Alice Através do Espelho é: esta sequência é realmente necessária? Ao que tudo indica, a resposta é clara: não. A fórmula é saturada, não há novidades e, pior, repete praticamente os mesmos “moldes” do primeiro filme (que era repleto de erros – entre eles, o roteiro atropelado de Linda Woolverton, que demonstra não ter se importado com as críticas da fita anterior e aposta nas mesmas fichas). O argumento parou, literalmente, no tempo e não procurou corrigir as falhas de outrora, desperdiçando até boas tramas paralelas que poderiam trazer maior profundidade ao enredo.

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O que ganha certo destaque agora é a protagonista: Alice, definitivamente, tem vida aqui. Existe uma temática de valorização e libertação da figura feminina que permeia o lado “real” da jornada de Alice, apesar de pouco explorada, é verdade. Para além disso, Mia Wasikowska parece estar muito mais à vontade com o papel, tomando às rédeas como protagonista – e, para falar a verdade, eu que já a critiquei muito devo admitir que ela apresenta uma das poucas boas atuações em um filme carregado de estrelas “apagadas”. Sacha Baron Cohen é o mesmo tresloucado de sempre; Anne Hathaway está bem menos carregada do que no longa anterior e isso tirou o charme de sua personagem; já Johnny Depp ainda dá sinais de não ter se achado. Além de Mia, o único “alívio” fica por conta de Helena Bonham Carter, que retorna como a Rainha Vermelha, rendendo divertidos momentos. Tecnicamente, é importante ainda salientar o bom uso do CGI, que criou cenários exuberantes em uma fotografia mais “clara”, “alegre”, “convidativa” – diferente da atmosfera um tanto “assustadora” da produção burtoniana.

Mas se você, leitor, quer uma dica, eu diria: vá assistir Alice Através do Espelho, sim. É óbvio que o longa vale a pena como entretenimento para a família, mesmo com suas deficiências. E é isso que muita gente procura indo ao cinema: se divertir. Talvez Alice Através do Espelho sequer tenha o mesmo desempenho do primeiro, uma vez que sua estreia coincide com a de X-Men: Apocalipse. Ou seja, Alice chegou de forma errada na hora mais errada ainda – mas mesmo assim, caso você não espere muito, Alice Através do Espelho cumpre muito bem sua proposta de ser um blockbuster. Descartável, sim, mas que funciona de algum jeito…

Os Anarquistas (Les Anarchistes)

“ANARQUIA” – segundo o Aurélio, “falta de chefe; desordem, confusão (motivada por falta de direção); sociedade constituída sem governo”. Na Wikipédia, “(…) uma ideologia política socialista e revolucionária baseada em uma crítica da dominação e em uma defesa da autogestão, e que defende uma transformação social fundamentada em estratégias que deverão permitir a substituição de um sistema de dominação estatista e capitalista por um sistema socialista e autogestionário”.

Os Anarquistas, novo filme de Élie Wajeman (de Aliyah, 2012), se passa no final do século XIX, precisamente no ano de 1899, onde Jean Albertini, um militar de origem humilde, é escolhido para se infiltrar em um grupo de anarquistas parisienses. Com a promessa de promoção caso a operação seja bem-sucedida, Jean fornece aos seus superiores informações sobre o cotidiano daquelas pessoas, enquanto se envolve fraternalmente com os membros do grupo – em especial, com a jovem Judith, uma das líderes da trupe de rebeldes.

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Talvez o maior erro de Os Anarquistas seja repetir pela não-sei-qualésima vez a velha estrutura narrativa da fórmula “infiltrado versus dilema”. Por conta disso, a obra de Wajeman fica restrita a um filme de época visivelmente previsível. Os ideais anárquicos são tratados com superficialidade, sem força suficiente para fomentar uma analogia político-social com a nossa contemporaneidade. Para além disso, falta ritmo ao argumento devido, sobretudo, à montagem da fita e também ao próprio roteiro, que mantém um equilíbrio durante toda a projeção e que dificilmente prende a atenção do espectador. É como se você assistisse a uma cena já esperando o que vai acontecer porque tem a incrível sensação de já tê-la visto anteriormente dentro do mesmo projeto.

No entanto, deve-se elogiar o trabalho cenográfico, bem como os demais itens de direção de arte, que praticamente nos transportam para a Paris daquele período. A fotografia, predominantemente em cores frias, ganha bastante com a utilização de pontos de luz, o que contribui para dar um sentido de “distanciamento” daquele grupo com o restante do mundo – e é, a meu ver, um dos pontos mais favoráveis da película. Com relação ao elenco, Tahar Rahim convence no papel do homem dividido entre a obrigação e a lealdade, vivendo em constante tensão com o medo de ser descoberto – apesar de não ser excepcional, bom deixar isso claro. Filme de abertura da Semana da Crítica no Festival de Cannes em 2015, Os Anarquistas é esteticamente atraente, porém faltou mais ousadia – algo claramente necessário ao tratar o tema. Cadê o fogo?

O Conto dos Contos (Il Racconto dei Racconti)

Geralmente, os contos de fadas se iniciam com a expressão “Era uma vez…” e se despedem com o célebre “…e viveram felizes para sempre”. Ao menos, foi assim que nossa cultura “cinematográfica” nos ensinou. Repare, por exemplo, na influência de Walt Disney: suas obras mais memoráveis são justamente os contos que povoaram a imaginação de crianças e adultos ao longo das últimas décadas – o que contribuiu (e muito) para a criação de seu império. Mas as histórias Disney, definitivamente, estão muito longe de referenciar como deveriam o material que as originou. Princesas fofas? Heróis valentes? Animais antropomorfizados? Deixe isso de lado – e talvez assim você será capaz de apreciar como se deve o longa O Conto dos Contos.

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O filme do italiano Matteo Garrone (Gomorra, de 2008) narra três tramas paralelas que envolvem os monarcas de três reinos diferentes. Na primeira delas, um rei mata um monstro marinho para roubar o coração da criatura e fazer sua esposa estéril engravidar. No segundo núcleo, um rei libertino se apaixona pela bela voz de uma camponesa, sem saber que na realidade sua amada é uma idosa. Finalmente no terceiro segmento, um rei viúvo cria sua filha adolescente, que deseja se casar e sair além dos muros do castelo.

Essas histórias são unidas apenas pela época em que ocorrem. Isso até chega, no início, a dificultar ligeiramente a compreensão do espectador que for ao cinema sem antes ter lido a sinopse, porque toda a ambientação parece muito igual. No entanto, conforme o filme caminha, cada um destes “contos” mantém sua estrutura própria e, consequentemente, seu devido clímax. Para além disso, há um certo equilíbrio entre as narrativas: em alguns momentos, é visível que algumas perdem um pouco o foco, dispersando a atenção do público; em compensação, outras começam a crescer (e mesmo surpreender) durante seu desenvolvimento.

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Mas há ainda um upgrade: O Conto dos Contos é visualmente encantador. A fotografia do veterano polonês Peter Suschitzky já impressiona nos primeiros instantes, bem como toda a direção de arte do projeto. A trilha assinada pelo sempre competente Alexandre Desplat agrega bastante à atmosfera da fita, indo de pontos discretos a outros mais intensos. Quanto à decupagem do cineasta, é importante observar uma coisa: diferente do que acontece nas tradicionais produções fantasiosas (vide O Senhor dos Anéis, por exemplo), que optam pelos constantes planos abertos de forma a destacar cenários exuberantes, O Conto dos Contos recorre a enquadramentos menores, o que valoriza a construção psicológica de seus personagens e, consequentemente, a atuação do elenco estelar (com nomes como Salma Hayek, Toby Jones, Vincent Cassel e John C. Reilly).

A única ressalva de O Conto dos Contos é sua última parte. Fica evidente que uma história ganha maior tempo em seu desfecho, enquanto as demais ficam à deriva. A cena final soa apressada e com isso algumas brechas surgem (o que se resolveria com quinze minutos a mais de projeção), mas nada que estrague a ótima experiência que é O Conto dos Contos. O filme é uma aventura cheia de fantasia que certamente agrada aqueles que apreciam o gênero, especialmente por escolher apresentar uma visão mais adulta, grotesca e surreal de histórias que nos são entregues, em sua maioria, de maneira tão infantilizada. Esse é um dos grandes méritos de O Conto dos Contos, o que por si só já o torna um dos melhores filmes do ano.

Angry Birds: O Filme (The Angry Birds Movie)

Nunca fui muito fã de videogames, seja a plataforma que for. É um entretenimento que não me agrada por questões particulares, mas é inegável o sucesso de alguns games inclusive para a cultura pop. Talvez um dos exemplos mais interessantes dos últimos anos seja a série Angry Birds, desenvolvida pela Rovio Entertainment no final da década passada e que hoje já soma mais de 3 bilhões de downloads. O jogo foi absoluto – daí o frenesi com a notícia da adaptação de Angry Birds para os cinemas. Uma pena que, diferente do jogo, Angry Birds não funciona como filme.

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Angry Birds – O Filme é uma animação (da Sony Pictures Imageworks) que parte de uma premissa já batida em produções voltadas ao público infantil: um herói rejeitado percebe uma “ameaça” e, com o auxílio de amigos, salva os demais e vira o queridinho do momento. No caso do longa dirigido pela dupla Clay Kaytis e Fergal Reilly, o hostilizado da vez é Red, um pássaro ranzinza que vive em uma ilha onde a alegria é praticamente uma lei. Após dar um “chilique” com os moradores do local, Red é enviado a uma espécie de sessão de terapia, para aprender a controlar seu temperamento. Lá, ele conhece outros pássaros “esquentadinhos” que ajudarão Red a resgatar os ovos das famílias daquela comunidade, que foram “sequestrados” por porcos verdes.

A verdade é que, exceto em sua terceira e última parte, pouco do material que o originou é referenciado em Angry Birds – O Filme. O conflito que gera a “narrativa” do game é restrita praticamente a um curto intervalo de tempo. Isso é ruim? Não seria se o argumento soubesse aproveitar o restante da fita com uma história realmente boa. Ao invés disso, o roteiro se perde em tipos clichês (quando não mal aproveitados), piadas sem ritmo e uma trilha sonora para lá de fraca. Salva-se apenas a excelente estética: os cenários são primorosos e os personagens são graficamente bem desenvolvidos. Mas isso não é suficiente: Angry Birds não convence como animação. Talvez se a proposta fosse mais incisiva na caracterização dos “angry birds” reais, a coisa fluiria melhor. Pelo contrário: a trama nonsense e infantilizada de Angry Birds – O Filme o torna um passatempo passageiro assim como o jogo (que há muito perdeu o fôlego).

Zelig (Zelig)

Escrito e dirigido por Woody Allen, Zelig é, sem sombra de dúvidas, um dos trabalhos mais interessantes de sua carreira – infelizmente esnobado pelo público e ofuscado por outras de suas obras mais “famosas” (porém superestimadas, a meu ver). Propositalmente estruturado como um documentário, o filme narra a história de Leonard Zelig (o próprio Woody), um homem comum com uma característica bastante peculiar: ele tem a incrível capacidade de transformar sua aparência, bem como suas maneiras e até seu intelecto, de forma a adaptar-se ao ambiente ao seu redor. Internado em um hospital em Manhattan, seu caso chama a atenção da doutora Eudora Fletcher (Mia Farrow), que acaba se apaixonando pelo paciente.

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O que faz Zelig ser um filme tão genial é a segurança com a qual Woody brinca com a narrativa. Se o próprio estilo pseudo-documentário já lhe traz possibilidades cômicas, Allen potencializa esta perspectiva com a ironia recorrente em sua filmografia. O cineasta segue firmemente o padrão “documentário” tradicional, inserindo elementos como as filmagens em preto e branco e os depoimentos de pessoas que teriam conhecido o protagonista, por exemplo. Para além disso, as técnicas de manipulação de imagens são bastante convincentes para a época (o longa é do início da década de 80): Zelig é visto em fotos ao lado de personalidades, como Al Capone, Charles Chaplin, F. Scott Fitzgerald e, pasmem, Adolf Hitler.

Mas Zelig não é apenas uma comédia crua e sem propósito. Zelig é também uma fábula atemporal sobre a inútil necessidade do ser humano de aceitação. Para Leonard, se adaptar aos demais ao seu redor era se sentir “aceito”, era estar “seguro” – daí sua transformação. Ser “igual” era para ele um instinto de sobrevivência, uma maneira de estar integrado ao todo. Cá entre nós: pouca coisa mudou deste então. Ainda hoje, é possível encontrar milhões de “Zeligs” sem personalidade, sedentos de atenção, tentando ser apenas mais um na multidão – as redes sociais estão aí para comprovar. Zelig consegue criticar esse comportamento através de uma trama repleta de humor, que ironiza até mesmo o sensacionalismo da imprensa e o culto às celebridades. É Woody Allen em grande forma – mais até do que em seus supostos momentos mais inspirados.