Tangerinas (Mandariinid)

No início da década de 90, eclodiu-se uma disputa entre os povos chechenos e georgianos pela posse das terras da região da Abecásia – uma guerra civil que devastou milhares de vidas e destruiu a economia local. Neste cenário caótico, a população estoniana que vivia ali se dividiu em dois grupos: aqueles que retornaram à sua terra natal e os demais (e poucos) que decidiram permanecer em seus lares, enfrentando a crise que se instalava. Dentre eles, está Ivo, um senhor de meia-idade que passa os dias em sua pequena e modesta oficina, fabricando caixas de madeiras utilizadas para transportar as tangerinas que são colhidas por um de seus vizinhos. É quando o trágico acontece: um confronto armado deixa dois feridos às portas de Ivo, que decide cuidar dos homens em sua casa, sem imaginar que esses sobreviventes são inimigos.

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Tangerinas é, provavelmente, a produção mais intimista e humana entre as concorrentes ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira de 2015. Representante da Estônia, a obra do cineasta Zaza Urushadze é uma verdadeira ode ao amor ao próximo, ao respeito ao ser humano e, principalmente, à vida. Dentro daquelas paredes, ao longo dos dias, esses personagens convivem entre si, com suas diferenças e traumas mas com um ponto em comum: são seres humanos – e, como tais, estão sujeitos a quaisquer sentimentos e dores que atingem a todos nós. O desfecho da história (trágico e arrebatador) mexe com o espectador e produz aquela sensação otimista diante da vida, nos dando uma ponta de esperança na humanidade. Tecnicamente, Tangerinas é ainda de um esmero absurdo – seja na ótima ambientação (que traduz muito bem o vazio de uma guerra e torna todo o filme muito mais real) até o roteiro, que flui naturalmente e se desenvolve através de atuações muito convincentes e uma trilha sonora muito agradável.

Não bastasse isso, Tangerinas também levanta um debate inquietante: qual é o sentido de uma guerra? Afinal, existem realmente vencedores e perdedores ou estamos todos em um mesmo patamar? Dentro do lar de Ivo, aqueles dois inimigos a todo momento se enfrentam e juram morte certa ao seu oponente, alimentando um ódio que nenhum deles sabe muito bem a razão – como se lutassem por algo que, definitivamente, não conhecem ou acreditam. E é esta a maior beleza de Tangerinas: um filme que impressiona por sua simplicidade, mas que surpreende muito mais por sua incrível capacidade de ser humano sem ser piegas.

Mapas Para as Estrelas (Maps to the Stars)

Não sou um conhecedor do cinema de David Cronenberg. Para ser bastante honesto, meu único contato com sua obra foi em Cosmópolis, um filme enfadonho, cansativo, sem pé nem cabeça e que me irritou profundamente. Exatamente por isso (e por não ter conhecimento de sua filmografia), a única coisa que me chamou a atenção em Mapas Para as Estrelas é a presença de Julianne Moore – atriz por quem nutro uma admiração ímpar. Mas, frustrando minhas expectativas, me deparei com uma fita bastante singular e que, dentro de sua proposta, me agradou e me fez repensar meus conceitos sobre o diretor.

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Tudo bem, Mapas Para as Estrelas não é um primor cinematográfico – tampouco é a obra-prima de seu idealizador, pelo que tenho reparado nas críticas que busquei. Pelo contrário: tem alguns que o consideram até mesmo um filme “fraco” na carreira de Cronenberg. Na trama, somos transportados a uma Hollywood quase surreal (para alguns, “nua e crua” – aliás, vi esses adjetivos em quase todos os textos que li sobre a obra, mas acredito que esteja bastante longe disto), onde somos apresentados a alguns personagens icônicos: temos um ator mirim em ascensão que está voltando da reabilitação; uma atriz de meia idade em decadência, cuja carreira sobrevive apenas de glórias passadas e escândalos atuais; um psicólogo que fez fortuna com livros de autoajuda e sua esposa, que passa a maior parte do tempo cuidando da carreira do filho; um motorista de limusine que tenta a sorte como ator; e, ligando todos estes tipos, uma jovem distante de todo este universo, que chega a Los Angeles trazendo nas malas um mistério que pode afetar a vida de todos.

As tramas destes personagens se desenvolvem em meio a histórias de sexo, fantasmas, loucura – em uma mistura frenética e inusitada que cai como uma luva para a Hollywood tão decadente de Cronenberg. Sua visão do mundo das celebridades é avassaladora, mostrando toda perversão e crueldade de uma realidade que é desconhecida para muitos. O cineasta não economiza no choque: é como se qualquer situação, por mais comum que seja, tome proporções gigantescas. O excesso é simplesmente natural, já faz parte da vida de cada um dos personagens, que vivem em um eterno clima de tensão e círculo vicioso: todos se conhecem e possuem, a seu modo, os mesmos problemas – até, obviamente, a chegada de Agatha, a garota misteriosa a quem nos referimos anteriormente.

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A atuação do elenco em Mapas Para as Estrelas é, no mínimo, extraordinária. Já de cara, digo: Julianne Moore toma o filme para si. Por mais que os demais se esforcem, é Julianne que atrai os holofotes a cada aparição. Arrisco dizer que esta seja sua melhor performance em anos. Moore consegue ser atordoante em cena e mesmo fazendo um tipo arrogante, o espectador é capaz de torcer por ela (sua personagem é uma atriz que não consegue lidar muito bem com a idade e com os fantasmas do passado, que inclui a morte da mãe em um incêndio). Mia Wasikowska há muito se desvencilhou de sua apática Alice burtoniana e já pode ser considerada uma das melhores intérpretes de sua geração. Mia cresce gradualmente no decorrer da fita, sendo a responsável pelo grande clímax da história e pelo desfecho lírico. Outro destaque fica com Evan Bird, que agarrou bem a responsabilidade de viver uma celebridade adolescente em crise, com todas suas irritações causadas, sobretudo, pelas privações que deve enfrentar.

Com uma trilha sonora confusa e atordoante, montagem vaga em certos momentos e fotografia pontual, Mapas Para as Estrelas é um filme onde se consegue ver o desejo do diretor em chocar o público e pronto. O mundo nefasto das celebridades é visto aqui sob uma ótica que preza pela “estranheza”, pelo “anormal”. pelo “repulsivo”. Mapas Para as Estrelas não é uma pérola do cinema, mas perturba, incomoda, constrange, enoja e é indigesto mesmo horas depois que o assistimos.

O Ciúme (La Jalousie)

03É difícil compreender as escolhas de Philippe Garrel. O diretor é talvez o mais próximo que temos na atualidade da nouvelle vague – uma das mais interessantes estéticas cinematográficas, que muitos tentam recriar, mas raros o conseguem. Mais do que isso: Philippe é um dos poucos que conseguem exprimir a tradição do amor no cinema francês, que se converte em filmes introspectivos que retratam relacionamentos amorosos e conflitos humanos. Seu mais novo longa, O Ciúme, segue esta linha e mantém este clima delicioso das tradicionais produções francesas – se tornando uma das melhores obras de Garrel.

Com 77 minutos de duração, o filme foge do óbvio e se sustenta na visão de que o homem (como um todo) é um ser complicado e as relações entre eles mais ainda (algo que não é necessariamente novo, porém o cinema carece de uma abordagem mais direta, simples, adulta – contrariando os clichês romantizados hollywoodianos de hoje). Na narrativa, acompanhamos a derrocada amorosa de Louis (Louis Garrel), um ator por volta dos trinta anos que tenta arranjar um emprego para sua nova companheira, a também atriz Claudia (Anna Mouglalis). A filha de Louis (Olga Milshtein) tem um relacionamento saudável com os dois, o que acaba provocando certo ciúmes na mãe da garota, que foi abandonada por Louis tempos atrás. Mais tarde, decepcionada com o fracasso do amante, Claudia o trai com um homem que pode lhe dar a independência financeira que tanto precisa.

O ponto alto de O Ciúme é, obviamente, sua fotografia em preto e branco, que cria uma atmosfera melancólica capaz de acentuar os conflitos de suas personagens. Aqui, é importante citar a ótima escolha de Garrel por filmar a película manualmente (o que justifica alguns momentos tremidos) e também o brilhante trabalho do diretor de fotografia Willy Kurant (que já colaborara com o cineasta anteriormente e também foi parceiro do gênio Godard). A trilha de Jean-Louis Aubert é bem executada e variada, indo do íntimo ao eloquente com muita naturalidade. Quanto às atuações, todo o elenco é razoavelmente suficiente e sem grandes destaques – exceto pela atriz mirim Olga Milshtein, encantadora como a filha do protagonista. Aliás, protagonista que já é nosso velho conhecido Louis Garrel – filho do Philippe e que é capaz de levar no rosto todo o ar descompromissado de sua personagem. É engraçado, no entanto, quando dizem que Garrel (filho) tem a mesma cara em suas atuações. Eu vou um pouco mais alem: Louis parece sempre fazer o mesmo papel, como se ele mesmo fosse uma personagem e seus filmes fossem apenas continuações de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, Louis consegue ser arrebatador em cena.

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O Ciúme foge do título clichê e se revela uma obra inspirada cuja poesia não reside apenas nas imagens, mas também em seu argumento que, antes de tudo, trata sobre relações: pais e filhos, irmãos, homem e mulher, amigos. Não há um modelo perfeito de relacionamento, não existe uma receita pronta – e talvez por isso, o título do filme pode confundir a percepção por parte do público. Com cenas inquietantes (que demonstram que a felicidade pode ser encontrada nos simples momentos da vida, como uma conversa com o professor ou um passeio ao parque), O Ciúme leva o espectador a confrontar as complexidades da interação entre os homens.

Saint Laurent (Saint Laurent)

Saint Laurent, de Bertrand Bonello, é a segunda produção francesa – no curto espaço de um ano – a tratar a biografia de um dos maiores artistas da moda de todos os tempos. Nesta fita, contudo, a difícil tarefa de encarnar o icônico estilista fica por conta do também francês Gaspard Ulliel, que com notável semelhança física a Laurent, consegue entregar um dos trabalhos mais significativos de sua filmografia.

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Saint Laurent concentra sua narrativa, de forma não linear, entre os anos de 1967 e 1976 – não à toa, o período mais importante da carreira de Yves. O filme retrata o lado profissional do artista e sua equipe, embora o fio condutor da trama seja a relação de Yves com Pierre Berger, parceiro e sócio responsável por grande parte do sucesso comercial da marca YSL. Aborda-se ainda a tórrida relação do estilista com Jacques de Bascher (que o levou a conhecer de perto o submundo parisiense, regado a álcool, drogas e sexo). Consequentemente, é aqui que encontramos os melhores e mais atraentes trechos do longa. Fugindo das cinebiografias convencionais (contadas, em sua maioria, linearmente), Bonello opta por mostrar esses diferentes momentos da vida de Yves, consequentemente quebrando a relação entre os fatos (causa/efeito). Já ao final, no entanto, o diretor escolhe filmar Yves em seus últimos dias (vivido aqui pelo talentoso Helmut Berger), já recluso como celebridade que era e envolto a todo império que criou.

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Gaspard Ulliel, incrivelmente parecido com o original (e aqui se destaca a ótima maquiagem), é excelente em sua atuação. Seus gestos e olhares são precisos, transmitindo melancolia, discrição e a sofisticação tão comum a Yves. Mesmo nos momentos mais “darks”, Ulliel tem um comportamento elegante em cena, nunca perdendo sua pose aristocrática. Jeremie Renier também é sóbrio e conciso na construção de Pierre Barger – estranhamente, o filme não mostra os dois como um “casal”, muito menos aborda o rompimento entre eles, no auge do sucesso, em 1976. Léa Seydoux e Aymeline Valade abrilhantam o elenco feminino, vivendo duas das belas musas inspiradoras do artista – respectivamente, Loulou de La Falaise e Betty Catroux. Enquanto a primeira traz luz à cada aparição devido ao encantador charme de sua intérprete, Valade consegue ser excessivamente sensual em cena – protagonizando  uma das sequências de dança mais interessantes que já pude assistir. Quem surpreende, no entanto, é Louis Garrel – o ator fetiche francês que, após uma série de personagens enfadonhos e com a mesma “cara”, empresta um charme (caricato por vezes, mas irresistível) a Jaccques de Bascher.

Saint Laurent foi escolhido como representante francês – e forte candidato – a uma vaga entre os cinco finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar. Saint Laurent peca, talvez, por sua duração que acaba cansando e por ser totalmente fechado na figura do estilista, deixando de lados alguns momentos e personalidades que poderiam trazer mais profundidade à história. Saint Laurent é realista, o que se percebe claramente no vestuário, na reconstituição de cenários, na fotografia, na música que ajudam a evocar todo espírito da época. Curiosamente, a obra de Bonello tira o primeiro nome do artista e se inicia com “Saint”, que em francês pode ser traduzido por “santo” – justamente o oposto da personalidade implacável de Yves.

Exposição Homenageia Leonardo da Vinci em São Paulo

E os paulistanos terão um programa imperdível para os próximos meses. Trata-se da exposição Leonardo da Vinci: a Natureza da Invenção, que estreou no último dia 11 e fica até 10 de maio de 2015 no Centro Cultural Fiesp.

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Com curadoria de Eric Lapie, a mostra faz parte de um projeto que irá celebrar o quinto centenário de nascimento do mestre renascentista e, certamente, um dos maiores gênios da história. Da Vinci (1452-1519), ao contrário do que a grande massa acredita, não foi apenas o autor do célebre e mundialmente aclamado quadro Mona Lisa (também conhecido como La Gioconda) – um dos mais notáveis e respeitados trabalhos de pintura a óleo de todos os tempos. Leonardo também foi um importante estudioso que, através de sua constante observação da realidade que o cercava, analisou os fenômenos naturais e criou ideias que até hoje são referências para muitas das invenções que foram imprescindíveis para o progresso da humanidade.

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Leonardo da Vinci: a Natureza da Invenção (pela primeira vez na América Latina) reúne mais de 40 objetos produzidos por engenheiros e pesquisadores no ano de 1952. O público poderá ver de perto projetos, maquetes e desenhos que foram reinterpretados dos manuscritos originais de Da Vinci e apresentados pela primeira vez no ano seguinte – e ainda podem ser vistas no Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci, em Milão, na Itália. A exposição conta também com recursos audiovisuais que explicam as mais diversas obras do artista, alem de alguns protótipos onde o público pode interagir e visualizar os temas propostos.

Muito mais do que a simples exibição sobre um artista, Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção proporciona um olhar reflexivo sobre um gênio que contribuiu significativamente em vários campos do conhecimento humano, como a engenharia, a matemática, a física, as artes, entre tantos outros. A mostra nos permite entender como a obra de Da Vinci foi revolucionária para sua época e como influenciou milhares de estudos seguintes, sendo de vital importância para muitas tecnologias que temos na atualidade. Dessa forma, Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção é um passeio obrigatório.

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LEONARDO DA VINCI: A NATUREZA DA INVENÇÃO
Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso (Galeria de Arte do Sesi-SP) – Avenida Paulista, 1313 – São Paulo-SP

Data: de 11/11/2014 a 10/05/2015
Horário: Segunda a domingo, das 10h às 20h (entrada permitida até 19h40)
Classificação: Livre
Entrada Gratuita
Informações: http://www.sesisp.org.br/cultura/

Foo Fighters Comemora 20 Anos com “Sonic Highways”

Lá se vão 20 anos de carreira de uma das bandas de rock mais influentes dos últimos tempos: Foo Fighters. Duas décadas de sucesso e reconhecimento por parte do público e crítica tornaram o grupo um referencial para novos artistas – e, certamente por isso, vimos Sonic Highways, último registro de estúdio dos caras, despontar como um dos álbuns de rock mais aguardados do ano.

01Sonic Highways precede Wasting Light, de 2011 – trabalho que faturou o Grammy de Melhor Álbum de Rock e que foi o primeiro do Foo Fighters a alcançar o número um nos EUA, recebendo muitos elogios da crítica. Sonic Highways, apesar de não ganhar um título numérico, é totalmente trabalhado em torno do número “8” – é o oitavo disco da banda e traz apenas oito faixas (no total, o álbum tem pouco mais de quarenta minutos). Alem das obviedades, o “8” também serve como uma espécie de metáfora ao “infinito” – que é explícito na capa e na arte oficial do registro.

A faixa de abertura é Something From Nothing – um dos singles deste trabalho que possui uma das melhores melodias da banda em anos (apesar da letra parecer meio descuidada, mas ainda assim é uma ótima experiência), recheada com guitarras distorcidas. The Feast and the Famine chega em seguida, com muita rapidez que, de cara, já nos mostra que o grupo liderado por Grohl sabe fazer rock – aliás, esta é a canção que mais nos remete à linha sonora do disco anterior e onde Dave mais gasta seus dotes vocais (unânimes, diga-se de passagem). Congregation é outra boa pedida, mas que peca por sua duração (são cinco minutos de pouca inspiração musical ou nada muito novo ou grandioso) e por sua sonoridade bem próxima ao pop rock, com versos melódicos e riffs bem executados.

What Did I Go? / God As My Witness, como a própria formação do título sugere, poderia se dividir em duas partes: começa lentamente e depois explode em uma melodia mais carregada, com um guitarra e bateria em sintonia profunda – e terminando com um fade out que a deixa com um misto de nostalgia. Outside é a faixa pop, digamos – ao menos, percebe-se um maior apelo “popular” e moderno na composição, mas que é incapaz de fazer você pular (talvez pelo excesso de instrumental, que acaba cansando um pouco). In The Clear é música obrigatória, com ótimos arranjos mas que também sofre com uma letra pouco inspirada. Subterranean é uma balada que tem um ar meio obscuro que nos lembra alguma coisa feita por Ozzy Osbourne. Fechando o disco, Grohl nos delicia com I Am a River, belíssima e, de longe, a mais bem trabalhada canção, mesmo com seus sete minutos (a guitarra inicial e o desfecho são épicos).

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Sonic Highways não é um álbum totalmente excepcional e desprovido de defeitos – e o principal é a duração de algumas canções e seu toque experimental, que fizeram com que a banda perdesse um bocado de sua personalidade. No entanto, há de se admitir que é um registro conciso, redondo em sua proposta e bem equilibrado, com músicas boas mas não tudo aquilo que esperávamos de um grupo como Foo Fighters. Talvez o maior atrativo desta fase seja a série Foo Fighters: Sonic Highways, exibida pela HBO e dirigida pelo próprio Dave Grohl. São documentários que acompanham as gravações do disco ao longo das oito diferentes cidades onde as faixas foram produzidas (respectivamente, Chicago, Washington D.C., Nashville, Austin, Los Angeles, New Orleans, Seattle e Nova York) – e vem sendo bem recebida pela crítica. Talvez Sonic Highways possa não parecer neste momento uma obra grandiosa, talvez ela sobreviva ao tempo, quem sabe Dave e companhia façam coisas melhores nos próximos anos. Mas uma coisa é certa: Sonic Highways não é infinito em sua concepção.

Elephant Song (Elephant Song)

Sala de cinema razoavelmente cheia para uma noite de quarta. Reparei certo alvoroço entre os espectadores. Pesquei alguns comentários ao acaso e todos apontavam para um único nome: Xavier Dolan – diretor canadense considerado o garoto prodígio do cinema na atualidade, que decidiu ficar à frente das câmeras no novo filme do cineasta Charles Binamé.

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Elephant Song é uma mistura de drama e suspense, cuja história passada na década de 70 gira em torno do desaparecimento repentino de um psiquiatra em um hospital às vésperas do Natal. O diretor da instituição decide interrogar um dos pacientes, Michael, que fora a última pessoa vista com o médico, na tentativa de descobrir alguma pista que leve ao paradeiro de seu colega. No entanto, o interno se mostra um jovem intelectual e manipulador, que faz um jogo psicológico que dificulta o interrogatório e põe em dúvida sua sanidade.

A narrativa é concentrada apenas nas conversas entre médico e paciente, apesar de recorrer em inúmeros momentos a flashbacks. O roteiro flui com clareza, apesar de ser previsível em alguns pontos – a certa altura do filme, o próprio médico sugere ao interno que suas brincadeiras seriam melhores se fossem mais surpreendentes (o que não deixa de revelar também a sensação do público diante dos artifícios aos quais o diretor recorre para atenuar o clima de suspense do longa). A fotografia de Elephant Song cumpre bem sua proposta, com tons frios que preenchem a tela durante quase todo o filme e um bom uso da iluminação.

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A química entre os dois nomes principais parece funcionar. Bruce Greenwood mantém uma atuação firme no papel do diretor do hospital, enquanto Dolan segurar os trejeitos e, ironicamente, empresta muito menos loucura a seu personagem do que em suas outras atuações (eu, particularmente, nunca tive bons olhos para Dolan como ator – apesar de apreciar suas obras como cineasta). No entanto, seu Michael tem muito menos “força” ou “personalidade” do que o filme sugere (dois funcionários do local perguntam “Você conhece o Michael?”, como se fosse um indivíduo acima da média – algo que Xavier, apesar de tentar, não consegue passar com seu desempenho).

O título faz referência à canção que Michael ouvia de sua mãe quando criança – e é símbolo também de todos os problemas pelos quais Michael passou ao longo de sua juventude. Baseado na peça de Nicolas Billon, Elephant Song é uma boa produção, porém abaixo do que realmente tenta ser. Apesar da premissa interessante, o diretor Charles Binamé pouco arrisca, limitando seu trabalho a um título esquecível. Definitivamente, Elephant Song tem como único “grande” atrativo o nome de Xavier Dolan nos créditos – e nada muito além disso.

Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood)

01Boyhood – Da Infância à Juventude, último trabalho do cineasta Richard Linklater (da trilogia Before), já chamava a atenção do público antes mesmo de seu lançamento – e isso é resultado da proposta atípica pela qual o diretor optou produzir sua história. O filme narra as transformações de vida de Mason, um garoto norte-americano comum entre tantos outros, especialmente entre seus 6 e 18 anos – mostrando suas visões de mundo, seus medos, dúvidas, ansiedades. Para tal feito, Richard passou os últimos doze anos acompanhando de perto o cotidiano de Ellar Coltrane, de seus dias na escola até seu ingresso na faculdade. E não apenas Ellar: todo o elenco acompanhou o artista durante esse período, se reunindo com a equipe anualmente para adicionar novas cenas à fita, apenas durante três ou quatro dias de gravações anuais.

Com um elenco em ótima sintonia (entre os nomes, temos Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater – esta última, filha do diretor), o pequeno Coltrane é excelente na construção de sua personagem – ou seria o reflexo de seu próprio crescimento? Coltrane oscila bem as nuances de Mason e carrega no olhar todas as experiências pelas quais o nosso protagonista passa. Mas se engana quem pensa que Boyhood traz apenas a história de um garoto. Na verdade, o filme conta muito menos sobre Mason e muito mais sobre a vida e as mudanças que passamos ao longo do tempo. Apesar de a narrativa se estender sobre uma perspectiva americana, é certo que Boyhood é puramente universal, alcançando qualquer espectador, ainda que de forma diferente. Muito longe dos melodramas convencionais, Boyhood nos leva de volta às nossas memórias, pessoas, lugares e, principalmente, momentos, sejam eles bons ou ruins, mas que em sua totalidade ajudam a formar nossa identidade. De forma simples, mas nunca ordinária, o cineasta insere temas que são comuns em todas as sociedades, como infância, casamento, separações, superações.

O espectador literalmente vê Mason crescer diante de seus olhos, vivenciando todos os dramas rotineiros da adolescência até chegar à fase adulta da vida – quando deve assumir uma postura mais “séria”, assim como responsabilidades. Exatamente por isso, a narrativa é de um realismo incomparável, até mesmo pela habilidade natural de Linklater em conduzir a trama. O roteiro e a edição contribuem muito para a ação da película, até mesmo se levarmos em consideração o fato de que não há uma “história” propriamente dita, com começo, meio e fim – pois aqui, a história é adaptada com o passar dos anos na vida real. A própria trilha sonora (excelente, por sinal) faz uma marcação concisa de tempo cronológico, iniciando-se com a inconfundível Yellow, do Coldplay, e passeando por Arcade Fire, Daft Punk, entre outros artistas – além também das inúmeras referências à cultura pop, com menções a Lady Gaga, Harry Potter e outros elementos da última década (incluindo impressões sobre o ataque às Torres Gêmeas e a candidatura de Barack Obama). Em suma, Boyhood é um filme também sobre a passagem do tempo.

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Com quase três horas de duração (mas, ironicamente, você nem sente o tempo passar), Boyhood é grandioso em sua simplicidade. Apesar de ficcional, Boyhood é uma obra que traz para a discussão a vida de todos nós: os desafios, os altos e baixos, a instabilidade do mundo, as primeiras experiências. Boyhood está longe de ser um filme sobre Mason: é também um retrato da existência de Davi, de Maria, Alberto, Regina – enfim, de todos. Não à toa, o longa de Richard Linklater (que custou pouco mais de 2 milhões de dólares – quase nada em comparação a outras produções norte-americanas – e demorou menos de quarenta dias de gravação) vem sido amplamente elogiado pela crítica e pelo público. No site Rotten Tomatoes, por exemplo, Boyhood tem cerca de 99% de aprovação da crítica e 89% do público. Boyhood é, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de seu diretor e, provavelmente, um dos mais intensos filmes do ano.

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit)

Sandra é uma mãe de família que está prestes a retornar ao trabalho após um período afastada tratando uma depressão. Seu emprego, porém, está ameaçado uma vez que, como medida de contensão de gastos, seu chefe ofereceu aos demais membros da equipe um bônus em dinheiro, desde que Sandra fosse dispensada. A maioria dos funcionários aceita a oferta, mesmo que isso implique na demissão da colega. No entanto, uma das funcionárias consegue convencer o patrão a fazer uma nova votação – e Sandra tem um curto espaço de tempo para bater de porta em porta atrás de votos a seu favor e tentar salvar seu posto.

Dois Dias, Uma Noite é o representante belga pré-indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. Com direção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (de O Garoto da Bicicleta), o longa é quase uma espécie de road-movie, onde a protagonista faz uma verdadeira peregrinação buscando salvar seu emprego. Durante a empreitada, com a ajuda do esposo Manu, Sandra se depara com as mais distintas reações, das mais solidárias às mais violentas. Nesse ponto, o filme coloca em pauta duas questões fundamentais em nossa sociedade atual: a solidariedade e o egoísmo. Afinal, até onde eu posso pedir que uma pessoa abra mão de seu direito por um direito meu? Todos os empregados precisam do bônus – cada um por um motivo especifico, mas além desta necessidade existe aqui também a questão do direito: ninguém pediu o bônus; ele foi ofertado em troca da demissão de Sandra.

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O roteiro, também escrito pelos irmãos, é equilibrado, sem altos e baixos, porém bem desenvolvido, proporcionando alguns momentos comoventes (talvez pelo excesso de “vitimização” concedido a Sandra). A montagem quase sugere uma espécie de “documentário”, o que de certa maneira aproxima o público do drama de nossa protagonista. Marion Cotillard, por sua vez, está despida aqui de qualquer glamour, requinte ou sofisticação. Já há muito tempo, Marion vem mostrando sua versatilidade diante das câmeras, se consagrando como uma das mais talentosas atrizes francesas de sua geração. Não à toa, ela empresta muita suavidade a Sandra e, embora carregue demais no tom dramático de sua personagem em certos instantes, arriscaria dizer que esta é sua melhor atuação desde Piaf – Um Hino ao Amor. Fabrizio Rigone (o esposo da protagonista) e os demais nomes do elenco (que interpretam os colegas de Sandra – logo, fazem pequenas mas intensas participações) são competentes o suficiente para preencher o quadro concisamente – apesar do filme ser exclusivamente de Cotillard.

Dois Dias, Uma Noite é um filme honesto, direto e silencioso – mas nem por isso perde sua riqueza e profundidade ao longo de sua uma hora e meia. Apesar de não apresentar um gênero muito bem definido, Dois Dias, Uma Noite proporciona uma reflexão sobre o mundo corporativo, que obriga até mesmo o mais moral dos seres humanos a perder sua dignidade diante da busca pelos seus interesses. Como é de se esperar, não há um happy ending. Não à toa, a trama se passa na Bélgica – um dos países mais “perfeitos” do mundo ocidental, mas ainda assim com seus problemas e deficiências sociais.

Atirem no Pianista (Tirez sur le Pianiste)

Na primeira sequencia de Atirem no Pianista, François Truffaut nos mostra um sujeito sendo perseguido por dois homens. Não sabemos nada a respeito da perseguição ou mesmo quem são os envolvidos (a fotografia escura deste trecho da fita dificulta bastante a identificação). Na correria, o homem esbarra em um poste e cai meio desacordado no chão. Um transeunte passa e, após certificar-se de que o outro está bem, ajuda-o a se levantar e ambos saem caminhando pelas ruas, desenfreando uma conversa natural, como se fossem velhos amigos.

Esta, claro, é apenas a ótima introdução de Atirem no Pianista, segundo filme do cineasta francês conhecido por ser um dos fundadores da “nouvelle vague”. Escrito pelo próprio Truffaut, em parceria com Marcel Moussy (que se tornaria um colaborador constante do diretor), o roteiro segue Charlie Kohler, um outrora pianista famoso que hoje trabalha tocando em um bar de segunda classe qualquer da cidade, longe dos holofotes e escondendo sua verdadeira identidade: Edouard Saroyan. Enquanto foge de sua família e do seu passado (incluindo o suicídio de sua esposa), Charlie reencontra um de seus irmãos, que está envolvido com a máfia.

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Atirem no Pianista tem uma incômoda posição na filmografia de Truffaut: foi produzido entre os amplamente elogiados Os Incompreendidos e Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois, de 1959 e 1963, respectivamente. Talvez por isso, este não seja um filme unânime na carreira do cineasta, que se tornaria um dos nomes mais citados da história do cinema. A crítica só reconheceu a fita anos após seu lançamento, enquanto o público esnobou a ideia nas bilheterias. De fato, Atirem no Pianista escorrega em sua narrativa desfragmentada e irregular: flerta-se com o romance, o humor, o mistério, a tragédia e, apesar de isso até ser “charmoso” em determinados momentos, faz com que não haja uma espécie de “fio lógico” muito consistente – afinal, faltava a Truffaut naquela época a maturidade suficiente para trabalhar com essa alternância de forma elegante. Talvez isso seja resultado da forma como Truffaut e Moussy optaram por desenvolver o roteiro, que era escrito conforme as filmagens avançavam – algo que pode ter atrapalhado o resultado final.

Mas se o pecado de Atirem no Pianista está em sua narrativa desnorteada, o mesmo não pode se dizer do protagonista vivido por Charles Aznavour – que compensa cada minuto em cena com seu tipo franzino, calado e tímido. Um dos maiores intérpretes da música francesa de todos os tempos, Aznavour é impecável em sua construção de personagem, um homem com evidentes (mas modestos) desvios de personalidades e que trava ótimos diálogos imaginários consigo mesmo, explicitados em uma narração voice over. Sem outros grandes destaques, o elenco ainda é formado por artistas como a belíssima Marie Dubois, Albert Rémy, Serge Davri e Nicole Berger.

Atirem no Pianista talvez funcionasse melhor se fosse um filme noir, alguns dizem. Com a ótima fotografia em preto e branco de Raoul Cotard (que se tornaria um dos nomes mais importantes na fotografia da nouvelle vague), o longa abusa de sombras e planos escuros, recorrendo a inúmeros elementos típicos do cinema norte-americano. Com uma trilha incidental firme e um argumento baseado em um romance policial, Truffaut se perde um pouco na direção, nos entregando uma obra que não apresenta nenhuma intriga ou suspense próprios do cinema hollywoodiano (aos moldes de Hitchcock, por exemplo, um ídolo do cineasta), mas também não tem o realismo psicológico de uma produção francesa clássica. Resumindo: não sabe muito bem para onde vai e nem de onde veio – mas cumpre bem seu papel de mostrar tudo aquilo que Truffaut ainda seria capaz de fazer ao longo de sua curta existência.