Uma Mulher é Uma Mulher (Une Femme Est Une Femme)

Uma Mulher é Uma Mulher é, de longe, um dos momentos mais agradáveis da obra de um cineasta cujo nome é comumente acompanhado dos adjetivos “genial” e “chato”. Segundo filme de Jean-Luc Godard, lançado após o unânime Acossado, de 1960, Uma Mulher é Uma Mulher é uma comédia deliciosa onde o diretor abusa das experimentações técnicas enquanto critica a supervalorização das atrizes no cinema (o tipo femme fatale) – revelando a clara intensão de cutucar os valores da estética cinematográfica daquela época. Iniciando sua próspera e bem sucedida parceria com Godard, a modelo Anna Karina (que, na ocasião, já era companheira do artista) é a personificação da jovialidade e beleza na pele de Angela, uma inocente e sonhadora stripper que vive pressionada por dois homens: seu noivo Émile e o amigo de seu companheiro, Alfred, apaixonado pela jovem.

Apesar de não ser necessariamente “engraçado”, o tom leve e pastelão do excelente roteiro do próprio Godard faz com que Uma Mulher é Uma Mulher seja um de seus filmes mais “digeríveis”. A narrativa (com algumas sequências puramente nonsenses) se desdobra de forma bastante natural: isso fica bem perceptível, por exemplo, nas tomadas externas, onde o público tem a nítida sensação de que as cenas são gravadas sem prévio ensaio, como se Godard colocasse a câmera nas mãos, escolhesse o lugar e dissesse: “É aqui! Vamos filmar!”. Isso torna muito mais crível a proposta de despersonificar a imagem feminina no cinema da época (no ápice desta desconstrução, Angela quer engravidar, mas fica em dúvida sobre qual dos dois homens deve escolher).

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Godard brinca com a montagem do longa: o filme possui algumas sequências mais extensas, mas para também com cortes secos e ágeis, onde é visível a intensão do cineasta de produzir um efeito humorístico, ou através dos diversos instantes em que os atores fazem seus discursos com os olhares fixos na câmera, como se falando diretamente ao espectador. Da mesma forma, a fotografia merece seu destaque, com o bom uso de cores e uma cenografia inteligente que realça os tons, especialmente nos ambientes internos, como no apartamento do casal principal. Aliás, o elenco é primoroso: se por um lado temos a musa godardiana Anna Karina como um furacão em cena, temos um Jean-Claude Brialy irresistivelmente atraente como Émile – franzino, com certo charme másculo sem parecer ogro. Já Jean-Paul Belmondo cumpre bem a tarefa de antagonista, mostrando boa sintonia com os protagonistas da trama. Já a trilha sonora, é um caso à parte: totalmente descontinuada e inusitada, uma marca registrada das produções do diretor.

Em determinado momento, os personagens se questionam: seria essa história uma comédia ou uma tragédia? Com um desfecho inteligente, Uma Mulher é Uma Mulher não fez tanto alarde em seu lançamento, principalmente na França. Por questões que podem parecer pouco óbvias, o filme foi um sucesso fora de seu país de origem, mas hoje é saudado como uma das melhores amostras do cinema de Godard, praticamente obrigatório para os que desejam conhecer sua vasta filmografia. Jean-Luc faz aqui um trabalho experimental, abusando de tudo o que tem à sua disposição para contar as aventuras deste incomum triângulo amoroso. Não à toa, essa película influenciou (e muito) autores dessa nova e atual fase do cinema francês, como François Ozon ou Christophe Honoré (repare o quanto Bem Amadas, deste último, tem traços evidentemente inspirados no filme godardiano). Uma Mulher é Uma Mulher é ousado, inovador e artisticamente belo – como tudo aquilo que Godard vem fazendo durante sua carreira.

Tempo de Guerra (Les Carabiniers)

01Tempo de Guerra é considerado por muitos um filme “menor” dentro da amplamente elogiada filmografia de Jean-Luc Godard. Talvez exista uma razão para isto: Tempo de Guerra foi concebido na década mais fértil do cineasta, onde nasceram clássicos como Uma Mulher é Uma Mulher (1961), Viver a Vida (1962), O Bando à Parte, Uma Mulher Casada (1964) e O Demônio das Onze Horas (1965). Lançado em 1963 (mesmo ano em que Brigitte Bardot estrelava o ótimo O Desprezo – o que por si só já seria suficiente para ofuscar qualquer outra coisa na Terra, cá entre nós…), Tempo de Guerra se mostra, no entanto, um longa que consegue amplificar seu valor como produto cinematográfico, indo muito além de sua projeção e se tornando um momento surpreendente da obra godardiana.

O filme se passa em um país qualquer que está em período de guerra. Em uma pequena e isolada casa, moram uma mãe, sua filha e seus dois filhos, que um dia recebem a visita de militares, informando-lhes que o Rei convocou os homens da família para servir no conflito. Deslumbrados com a promessa de riquezas e aventuras, os dois moços partem rumo ao desconhecido, enquanto as mulheres ficam à sua espera – e também na esperança de dias melhores.

Godard mostra a guerra com bastante frieza, sem a menor dramatização dos personagens – o que compromete, em parte, a empatia do público pela história. Não há sentimentos, comoções, exageros; há apenas os fatos, retratando os horrores da guerra de forma mais fria possível. Os atos praticados são tratados com simples naturalidade, como se tudo fizesse parte de uma rotina previsível e já batida. O cineasta consegue estender ainda mais esta condição através de suas cenas filmadas de longe, sem closes ou tomadas mais intimistas, como se não tivesse a menor intenção de extrair algum tipo de emoção dali.

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É Godard criticando de forma inteligente a farsa da guerra, que dizima vítimas, independente do lado em que estão lutando. Repleto de humor ácido e ironia sadia, o roteiro aposta neste drama fictício para abordar a questão social da guerra – há realmente um vencedor? Godard satiriza o ser humano diante da calamidade da guerra, com toda sua ambição, imbecilidade e maldade, revelando tudo o que há de pior neste aspecto: a violência desenfreada e sem fundamento, a estupidez e despreparo dos soldados, a covardia da nação. Assim, engana-se pensar que Tempo de Guerra é pacifista, antibélico: é uma obra sobre a idiotice humana. Os recrutados encaram a guerra como um sonho, uma aventura, uma brincadeira quase infantil. Longe de serem heróis com algum propósito, eles são seres ingênuos, até mesmo alienados, que aceitam passivamente sua realidade sem questionar toda a selvageria em que estão inseridos.

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No ponto mais memorável de Tempo de Guerra, os filhos voltam para casa com uma maleta onde, dizem os rapazes, estão todas as riquezas acumuladas por eles durante a empreitada. Aqui ocorre a cena mais marcante de toda a projeção: dentro da mala, estão cartões postais com fotos do que eles acreditam serem títulos de propriedade. Tempo de Guerra é uma fita que se inicia aparentemente simples, mas expande seu significado, especialmente em seus instantes finais – quando Godard nos desperta inúmeras reflexões, mas não emoções. Godard nos propicia uma interessante denúncia sobre os absurdos dos conflitos armados e não a “romantização” deles, tão comum em produções deste gênero. Atual em sua plenitude, Tempo de Guerra é por vezes desprezado, mas sem dúvida, é um filme imprescindível.

Alphaville (Alphaville, une Étrange Aventure de Lemmy Caution)

É difícil imaginar um filme de ficção científica sem efeitos especiais soberbos, trilha sonora atordoante ou cenários exuberantes e excêntricos – mas é justamente isso que Godard, maior nome da nouvelle vague francesa, consegue fazer em Alphaville, obra de 1965. Abandonando os aspectos técnicos mais clichês deste gênero, o cineasta sabiamente recorre às locações de sua velha conhecida Paris, criando em tela a visão futurística de um sistema totalitário e que fica acentuada pela ótima fotografia em preto-e-branco de seu parceiro Raoul Coutard – valorizando a frieza de prédios comerciais, cômodos de hotel e as luzes de neón que enfeitam a cidade.

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Rodado em um futuro não especificado e com sequências que poderiam ser consideradas atemporais, a trama se passa em Alphaville, uma cidade (ou um planeta) governada por um computador que tornou crime capital toda e qualquer emoção verdadeira. Esta ditadura é responsável ainda por execuções em massa, realizadas de forma quase ritualística à beira de uma instigante piscina – onde as vítimas são lá jogadas à mercê da própria sorte. Se passando por um repórter, o agente secreto Lemmy Caution tem a missão de encontrar o cientista Von Braun e persuadi-lo a voltar aos “planetas exteriores” – mas neste meio tempo, Caution tenta destruir a super máquina (inserindo-lhe poesia, veja você…), enquanto seduz e desperta sentimentos adormecidos na frágil Natacha, a filha de Von Braun.

Inicialmente, Alphaville seria uma espécie de sátira ou paródia aos filmes de ficção científica da época – porém, é interessante notar como a obra de Godard é uma genuína produção do gênero, capaz inclusive de influenciar obras posteriores (como Fahrenheit 451, de Truffaut, ou o amplamente repercutido 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick). No entanto, Alphaville se estende ao longo de pouco mais de uma hora e meia de duração, como se a trama estivesse esgotada e nada mais nos restasse a não ser seus arrastados diálogos. O casal de protagonistas também não é dos mais carismáticos: Eddie Constantine é quase apático, enquanto Anna Karina perde muito de seu brilho natural na pele de Natacha Von Braun. Alphaville tem seus méritos quanto cinema devido, sobretudo, às sábias escolhas de Godard, mas está longe de ser algo memorável para o espectador comum.

Viver a Vida (Vivre sa Vie)

Nana é uma jovem parisiense como tantas outras na década de 60. Outrora casada e mãe de uma criança (por quem ela aparentemente pouco se importa), ela abandona a família para buscar o sonho de ser uma atriz de sucesso. Mas a nova vida não é fácil: para se sustentar, a moça tem de trabalhar como atendente em uma loja de discos. Com o salário pequeno e afundada em dívidas (chegando até a ser expulsa de casa por não pagar o aluguel), Nana precisa de dinheiro – e para conseguir a jovem decide se prostituir. É quando ela reencontra uma antiga amiga, que a apresenta a um homem que acaba se tornando seu cafetão, abrindo uma passagem progressiva e sem retorno ao mundo da prostituição.

01Com direção e roteiro assinados por Jean-Luc Godard, Viver a Vida é considerado um dos trabalhos mais fáceis do cineasta – praticamente um cartão de visita de um diretor que divide opiniões (há quem o considere um gênio, há os que o chamam de “chato” sem medo das críticas). Segmentado em doze atos distintos, cada um deles traz consigo as palavras-chaves do episódio em questão, o que ajuda a compor a narrativa e evitar surpresas nas ações (não que isso, obviamente, torne o filme previsível). Os diálogos, no entanto, são carregados de fundamentos filosóficos – nitidamente, por exemplo, é possível enxergar inúmeras referências a Bertold Brecht no decorrer da fita, além de diversas passagens com reflexões existencialistas sobre a percepção do homem sobre si mesmo diante da realidade que o cerca.

A caracterização de Anna Karina (que durante anos foi musa absoluta de Godard) é bastante peculiar. Ela é fria, seca, direta com tamanha precisão que é impossível criarmos qualquer tipo de compaixão por sua personagem. É interessante analisar seu perfil sedutor no decorrer da trama: quase uma femme fatale com tamanha frieza, porém carregando uma melancolia e tristeza no olhar que contrapõe tal imagem. Curiosamente, dizem as más línguas que a atriz não teria aprovado o produto final, chegando a afirmar que Godard a havia deixado propositalmente “feia” – o que, de longe, é pura fantasia, já que Anna está estonteante em cena e nós, como telespectadores, temos o mesmo olhar de Godard sobre sua musa: encanto e mistério, ambos lado a lado, tornando Nana um tipo deliciosamente indecifrável.

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A expressão francesa “vivre sa vie” (que dá título ao longa) é quase uma tradução literal do que temos à nossa frente. Há quem afirme que Godard não faz filme para os meros mortais – e, sim, isso fica explícito em alguns momentos, onde o cineasta traz suas arrastadas discussões filosóficas, seus atores fora do plano ou de costas para o público ou mesmo com o foco em um personagem enquanto o outro fala. Mas Viver a Vida é um retrato frio e indigesto da prostituição, com uma visão sob certo aspecto “voyeurística”, como se nós mesmos, espectadores, estivéssemos manejando a câmera – sensação estendida pela ótima fotografia em preto e branco de Raoul Coutard, velho parceiro de Godard. Em suma, Viver a Vida poderia ser um dramalhão daqueles, mas nas mãos de um gênio como Jean-Luc se tornou uma das obras mais significativas de sua vasta e cultuada carreira – um filme indispensável.

Cake – Uma Razão Para Viver (Cake)

01É sempre interessante ver um intérprete de um único gênero arriscar-se em um projeto diferente daquilo com o qual está acostumado, pois é aí que o artista tem a oportunidade de expandir seu trabalho e provar seu talento. Talvez por esta razão a crítica tem sido tão generosa com Jennifer Aniston por sua atuação em Cake – Uma Razão Para Viver. A atriz, que ficou conhecida no seriado Friends e por suas comédias românticas de qualidade duvidosa, nos entrega nesta fita uma performance segura, comovente e, de longe, a melhor de sua carreira – e, provavelmente, o ponto mais favorável em um filme sem muito brilho.

Na trama, Aniston (que abriu mão de toda sua vaidade, chegando até a ganhar uns quilos para compor sua personagem) é Claire Simmons, uma mulher depressiva e traumatizada, que sofre com dores crônicas por todo o corpo. Em determinado momento, Claire busca ajuda em um grupo de apoio para mulheres na mesma situação – e descobre o suicídio de Nina (a simpática Anna Kendrick), uma das integrantes daquele meio. Obcecada pela história da moça e assombrada por seu fantasma, Claire passa a investigar a vida da jovem suicida, se aproximando cada vez mais da família de Nina e desenvolvendo uma relação inesperada com seu marido (Sam Worthington).

O roteirista estreante Patrick Tobin acerta na construção de sua protagonista. Claire é uma personagem que vai se revelando aos poucos: a cada instante descobrimos algo novo sobre ela – e isso é importante para que possamos entender suas motivações. Se no início da fita ela é apenas uma mulher amargurada que destila veneno para tudo e todos, logo vamos juntando as peças do quebra-cabeça. Ela se entope de medicamentos para amenizar as dores físicas que tanto a incomodam; no entanto, as dores físicas não são nada perto das psicológicas: ela é divorciada, perdeu o filho anos atrás e não tem a menor motivação para viver. Falta apenas uma coisa para Claire seguir os mesmos passos de Nina: coragem – e talvez seja isso que a personagem tanto busque no decorrer do longa.

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A condução da trama, no entanto, é o que deixa a desejar: apesar de durar pouco mais de uma hora e meia, Cake é arrastado e sofre com sequências em que é visível a pretensão do cineasta Daniel Barnz em elevar a carga dramática do filme, como se para valorizar sua história. Fica evidente que o tiro sai pela culatra e nem mesmo a entrega de Aniston é capaz de fazer milagre. Cake carece ainda de uma identidade: previsível em alguns momentos, às vezes parece que o filme é uma compilação de vários outros dramas desfragmentados, que estão ali juntos com algum propósito que nunca fica muito claro. Com uma fotografia moderna (que me lembrou muito David Cronenberg em Mapas Para as Estrelas) e uma trilha sonora que merece certa atenção, o maior mérito de Cake é Jennifer Aniston – uma pena que o produto final não tenha o mesmo carisma de sua intérprete.

Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron)

03Quando a Disney anunciou que compraria a Marvel, lá no final da década passada, muita gente ficou com uma pulga atrás da orelha com relação ao futuro de ambas as empresas – o que era justificável. E aí, quando menos esperávamos, o estúdio do ratinho Mickey nos surpreendeu de forma insana com Os Vingadores, um sucesso de público e crítica, considerado por muitos na época como “o melhor filme de heróis de todos os tempos”. Não é tão difícil, dessa forma, explicar o frisson causado pela estreia da continuação da série, o aguardado Vingadores: Era de Ultron, que chegou aos cinemas brasileiros nesta semana.

Na gênese de Era de Ultron, encontramos o primeiro filme da saga, lançado em 2012 – e nada além disso. Se você, quando criança, acompanhava os desenhos de Tom e Jerry, vai entender bem o que quero dizer. A ideia era sempre a mesma: um gato que perseguia um rato incansavelmente – mudava-se apenas os meios, talvez o cenário, adicionava-se um ou outro personagem na trama (um cão valentão, uma passarinho amedrontado, uma gatinha charmosa), eventualmente eles se uniam para derrotar um inimigo em comum… Mas a premissa era a mesma. Assim é Vingadores: Era de Ultron: não uma continuação, mas um capítulo ligeiramente mais sombrio de tudo aquilo já assistimos anteriormente, sem absolutamente nada de inovador.

Não que isso seja ruim – afinal, foi justamente isso que encantou plateias no mundo inteiro e é exatamente o que esperamos ver em um filme de heróis: explosões de tirar o fôlego, a velha luta do bem contra o mal, batalhas épicas, efeitos especiais mirabolantes. E nestes quesitos, Era de Ultron é um prato cheio para os aficionados da série. Nesta aventura, no entanto, o grupo de heróis terá de salvar o planeta das ameaças de Ultron, um programa de inteligência artificial mantenedor da paz mundial (“criado” pelo próprio Tony Stark) que tomou a forma de um robô. Viu só? A mesma e passada história de sempre. Mas os problemas de Era de Ultron podem ser claramente percebidos ao longo de suas quase duas horas e meia de duração.

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O filme se estende demais, com cenas que poderiam muito bem ser eliminadas sem prejudicar o produto final. E, estranhamente, as sequências que não fariam muita falta foram aquelas que mais envolviam pancadaria e explosão – como o desfecho da narrativa, que é pura enrolação e computação, sem um clímax à sua altura. Outra situação questionável: o vilão Ultron, apesar de até despertar certa curiosidade no início, não consegue muito bem deixar claro para qual finalidade veio e nem quais são suas reais motivações – isso sem mencionar a ausência de carisma que encontrávamos de sobra em Tom Hiddleston, como Loki. Ultron só tem um grande mérito: é ele quem praticamente faz oscilar o tom do filme, alternando as batalhas catastróficas com momentos em que os dramas pessoais de nossos heróis são devidamente tratados (como o Gavião Arqueiro, que está em crise familiar, ou a Viúva Negra que já não esconde seu interesse pelo doutor Banner).

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Mas Vingadores: Era de Ultron está longe de ser um fiasco – e talvez muito da minha opinião seja influência do fato de que eu não gosto de filmes de heróis. Mas também devemos concordar que, como cinema, Era de Ultron tem suas falhas, sim, que talvez não fiquem tão evidentes porque a produção nos compensa com outros pontos favoravéis, como os ótimos efeitos especiais, a trilha sonora elétrica de Danny Elfman e até as piadinhas bem sacadas – que na verdade é mérito exclusivo de um elenco carismático (com exceção de um ou outro, como Aaron Taylor-Johnson que, na pele de Mercúrio, entrou mudo e saiu calado). Talvez o melhor de Vingadores: Era de Ultron é ver como a Marvel consolidou de vez seu universo, através de um roteiro de ação amarrado que é capaz de agradar mesmo aqueles que não conhecem muito de HQs. Era de Ultron é um filme que se sustenta sozinho, com um desfecho que, apesar de individual, abre pequenas pontas para futuras tramas, além de introduzir novos personagens e aposentar outros. Perde, todavia, em permanecer na mesma – nos dando a impressão de que nossos heróis já não tem o mesmo pique de antigamente…

O Dançarino do Deserto (Desert Dancer)

O Dançarino do Deserto é a biografia de Afshin Ghaffarian, um iraniano que convence seus colegas de faculdade a montar uma companhia de dança clandestina (uma vez que este tipo de manifestação artística é proibida em seu país). Enquanto luta contra a opressão de um governo que está às portas de um tumultuado período de eleição, Afshin encoraja seus amigos a se apresentarem – e também vela por sua namorada, uma jovem usuária de drogas que tenta inutilmente vencer o seu vício.

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Particularmente, eu tenho certa aversão a produções que envolvam a dança como tema principal (apesar de admirar muito esta expressão artística). No entanto, para alem de utilizar a dança como instrumento narrativo, O Dançarino do Deserto se faz cativar por tratar a arte como fonte de libertação do sofrimento causado pela dor, angústia, medo e repressão. Ambientado em Teerã, no período das conturbadas eleições presidenciais de 2009, o diretor estreante Richard Raymond nos revela a arte como elemento indispensável de resistência – através dela, é possível se rebelar, soltar a voz e clamar por justiça, igualdade e liberdade. Ela funciona aqui como uma ferramenta de inclusão política – ainda que forças externas tentem a combater.

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Infelizmente, o cineasta escorrega na busca de soluções não apenas previsíveis, mas fáceis – exagerando o tom melodramático da fita e deixando-a com cara de novelão mexicano. Talvez essa “limitação” possa ser causada por se tratar de uma história “real”, talvez o roteirista Jon Croker (cujo currículo não tem nada mais expressivo do que A Mulher de Preto 2: Anjo da Morte – o que não é nenhum ponto muito favorável no currículo) quisesse transcrever exatamente como tudo aconteceu – inclusive o próprio Afshin teria trabalhado em conjunto com Croker. O fato é que O Dançarino do Deserto possui boas cenas – a apresentação em meio às areias do deserto são curiosamente interessantes, assim como o desfecho da narrativa – , mas é impossível se apaixonar tanto pela obra. O Dançarino do Deserto pode até servir como uma referência a inevitáveis debates sobre o tema, mas nunca uma excelente experiência cinematográfica.

Frank (Frank)

02Jon é um jovem comum, como tantos outros de sua idade: ligado nas redes sociais, é aspirante a músico e compositor, mas sua realidade se limita ao pacato trabalho no escritório e a volta para casa. Em um desses dias de rotina, Jon é casualmente convidado a substituir o tecladista de uma banda de rock que está em sua cidade – banda esta liderada por Frank, um ser um tanto singular que vive o tempo todo com uma cabeça de papel machê, escondendo sua verdadeira identidade. O grupo decide se refugiar no campo para a gravação de seu novo disco – e é aí que os poucos conflitos da trama passam a acontecer.

A narrativa de Frank é feita sob a perspectiva de Jon: é interessante ver como sua visão daquele meio influencia a percepção do público. Quanto mais Jon se aproxima de Frank, mais o espectador o faz; quanto maior a admiração de Jon por Frank, mas admiramos também essa personagem – que desde o início é tratado como um ser cativante, um gênio incompreendido, dentro de um grupo de loucos que não sabem muito bem como lidar com a fama e o reconhecimento. Já na primeira cena, sem esforço algum, é possível simpatizar-se com Frank, sem sabermos exatamente quem ele é e o porquê de sua condição – ou seja, compramos um ídolo sem conhecermos, de fato, sua obra.

Talvez isso se dê também por conta da atuação magnânima de Michael Fassbender, baseada quase inteiramente em seu tom de voz e, principalmente, em suas expressões e movimentos corporais. É quase possível ver o rosto de Fassbender por trás da cabeçona, identificando precisamente seu temperamento – se calmo, tenso, feliz, pensativo. E essa performance cresce de forma marcante no decorrer da fita, especialmente em sua segunda parte – quando Frank se mostra inseguro com relação ao seu talento e não sabe como conviver com o sucesso precoce. Arriscaria dizer que, em um ano em que Bradley Cooper ganhou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho regular em Sniper Americano, não me pareceria mal ver Michael concorrer na mesma categoria.

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Se Michael está ótimo, os demais nomes do elenco não deixam a desejar. Domhnall Gleeson é bastante competente na pele de Jon – o contraponto da banda, o mais “sensato” e ao mesmo tempo o menos “artista”, por assim dizer. Seu papel é claramente bem delineado, ganhando as oscilações pertinentes à história. Maggie Gyllenhall também entrega uma boa performance como Clara, uma das musicistas cujo comportamento agressivo não tem sua origem muito definida, mas ajuda a pontuar alguns conflitos na trama. Os outros integrantes estão em boa sintonia, mostrando o perfil sensível e, por vezes, fadado à loucura de muitos artistas mundo afora.

Com uma trilha sonora espetacular, Frank é um tanto inconsistente em seu roteiro, que flerta com vários gêneros e, desta forma, traz uma certa imprevisibilidade na narrativa – que é particularmente bom, mas pode não agradar a todos e, consequentemente, produzir trechos menos interessantes. Em alguns momentos, isso torna o filme meio estagnado, sem saber exatamente para onde quer nos levar ou o que está querendo dizer. Há visíveis quebras de tom e ritmo, que não chegam a atrapalhar a obra, mas podem cansar quem não abraçar totalmente a ideia. De certa maneira, Frank retrata com delicadeza, humor sofisticado e bastante poesia o lado menos “glamouroso” do universo artístico – que muitas vezes é ignorado por simples mortais, como você e eu. No fim, assim como seu personagem título, Frank consegue ser apaixonante, louco e memorável.

Benny & Joon: Corações em Conflito (Benny & Joon)

Há quem diga que, após a saga Piratas do Caribe, Johnny Depp carrega os trejeitos de seu icônico Jack Sparrow em todos as produções em que atua. Tudo bem, não deixa de ser um pouco verdade – mas também é certo que Depp nunca foi um ator excepcional e desde muito cedo tinha “uma cara só”, apesar de ser um camaleão em cena com o poder de se transformar naquilo que bem quiser. Esse fato curioso me vem à mente toda vez em que assisto a algum filme do artista em início de carreira – como o elogiado Benny & Joon – Corações em Conflito.

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Não que aqui Depp faça um número expressivo de “caras e bocas”, mas é possível notar desde sempre as mesmas expressões e gestos (que mais tarde se tornariam marcas clássicas de sua personagem), ainda que de forma atenuada. Isso não diminui em nada o carisma de Johnny diante das câmeras, mas joga por terra a tese de que o ator se transformou neste pandemônio ambulante ao longo dos anos – apenas desenvolveu esta “arte”. Nem mesmo quero argumentar que Depp não tenha sido competente ao interpretar Sam, um jovem esquizofrênico que passa seu tempo imitando os comediantes Charles Chaplin e Buster Keaton – mas não há nada desconcertante em sua performance que sugira que Depp tenha se corrompido com o passar do tempo.

A trama de Benny & Joon segue os dois irmãos do título: Benny (Aidan Quinn) é um mecânico que, como irmão mais velho, tem a responsabilidade de cuidar de Joon (Mary Stuart Masterson), portadora de uma deficiência mental. Após perder uma aposta, Benny é obrigado a receber em sua casa o excêntrico Sam. Joon e o hóspede acabam se apaixonando e, com medo de perder a família, Benny passa a sentir ciúmes da irmã – lutando para aceitar a difícil realidade de que ela é uma pessoa como qualquer outra e, como tal, quer viver a sua própria vida. O roteiro, apesar de simplista, traz personagens cativantes, construindo uma atmosfera especial para tratar das relações interpessoais entre seres ditos como “diferentes”. Benny & Joon é um filme que narra o amor entre pessoas não “convencionais”, mas nem por isso inferiores – e é neste aspecto que se desenvolve o grande drama da fita: como Benny pode aceitar isso? Como entender que as pessoas, por mais dependentes que sejam de outras, tem seu livre arbítrio e desejam viver suas vidas no pleno exercício de uma liberdade que não pode ser comprada?

01Com boas atuações e uma banda musical exemplar (assinada por Rachel Portman, que foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor trilha sonora por Emma, de 1996), Benny & Joon é um daqueles filmes que são feitos com a intenção de serem “fofos”: o tipo de produção que não é grandiosa, aposta na abordagem delicada e sensível de uma história aparentemente simples e que, através disso, se torna grande aos olhos da crítica e, principalmente, do público – cujo coração fica apertado. Apesar de não ser totalmente regular em sua condução, Benny & Joon é um resgate da inocência – em uma época onde predominavam tiros e pancadaria no cinema. Benny & Joon começa até meio sem graça e chatinho, mas cresce de forma tão acolhedora que, sem sombra de dúvidas, pode ser considerado um dos pontos mais fortes do cinema da década de 90 e da carreira de Depp.

Cada Um Na Sua Casa (Home)

Os Boov’s fazem parte de uma raça alienígena que invade a Terra à procura de um novo lar, já que estão sendo perseguidos em toda a galáxia por seus inimigos, também seres intergalácticos. Enquanto todos estão preocupados em deslocar os humanos e reorganizar suas vidas no novo planeta, o divertido Oh coloca seu povo em risco ao enviar por engano sua localização aos rivais. Enquanto tenta consertar seu erro e se redimir, Oh ajuda uma terráquea desesperada a encontrar sua mãe perdida.

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Cada um na Sua Casa é a nova produção da Dreamworks, estúdio que desde 2008 nos entrega filmes dos mais diversos níveis de qualidade (em 2014, por exemplo, a empresa esteve à frente do ótimo Como Treinar Seu Dragão 2, que chegou inclusive a faturar uma indicação ao Oscar de melhor animação – perdendo para o favoritíssimo Operação Big Hero, da Disney). Entretanto, Cada um na Sua Casa é nitidamente mais “infantilizado” do que as fitas recentes da compania, o que pode comprometer a empatia do público adulto (devemos lembrar que atualmente animação deixou de ser um mero gênero infantil e passou a ser cultuado por cinéfilos das mais diferentes idades).

Para conquistar os pimpolhos, Cada um na Sua Casa aposta em tipos fofos: os Boov’s são incrivelmente simpáticos e divertidos – até mudam de cor a cada novo sentimento ou reação. Entretanto, não me parece que este seja o perfil de personagem pela qual as crianças possam criar muito apego: okay, eles são fofinhos, engraçadinhos mas… falta alguma coisa que eu não consegui identificar bem o que é. Talvez seja por conta do roteiro que, a meu ver , peca na forma como aborda a relação entre Boov’s e humanos – nunca fica muito claro como eles se relacionam, repare bem, como se algum pedaço da história estivesse fora do lugar. Mas isso não atrapalha totalmente a trama, até porque criança não se preocupa com argumentos bem desenvolvidos, mas sim o quanto aquele produto possa ser um bom entretenimento – e Cada um na Sua Casa cumpre bem essa proposta.

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A cantora Rihanna dá voz a uma das protagonistas do filme, enquanto a musa Jennifer Lopez dubla a mãe da primeira. Faltou, porém, desenvolver melhor a personagem de Rihanna – visivelmente inspirada nela mesma, nos dando a impressão de que foi criada simplesmente para ser uma versão animada da diva (a menina é até mesmo de Barbados, veja você). Jim Parsons (ator da série The Big Bang Theory) é responsável por Oh – e todos se saem bem nessa empreitada, apesar de que, no Brasil, a maioria das salas vai, inevitavelmente, trazer versões dubladas. As duas cantoras ainda colaboram com a trilha sonora, repleta de música pop, capaz de botar a molecada para cima.

Okay, Cada um na Sua Casa não é a melhor coisa que a Dreamworks já produziu ao longo de sua existência, tampouco traz algo necessariamente novo ao gênero. A animação funciona bem como filme voltado ao público mais jovem, até mesmo porque traz boas lições de moral – reforçando valores simples como a amizade, família e respeito ao próximo, com um visual charmoso e atraente. Entretanto, não chega a ser uma obra-prima ou um grande destaque. Cada um na Sua Casa diverte e entretém os pequenos e passa boas mensagens, mas não tem potencial para ser uma animação memorável.