Jessabelle: O Passado Nunca Morre (Jessabelle)

Após perder o noivo em um trágico acidente automobilístico e ficar confinada temporariamente à uma cadeira de rodas, Jessie se vê obrigada a retornar à casa de seu mórbido e distante pai para um período de recuperação. Ao revirar o quarto em que está instalada (e que pertenceu à sua mãe, antes da mesma falecer em decorrência de um câncer, logo após o nascimento da menina), Jessie descobre algumas fitas que a mãe gravara antes de morrer e, ao assisti-las, começa a sentir uma presença sobrenatural dentro da moradia.

01

Jessabelle: O Passado Nunca Morre, dirigido por Kevin Greutert (que em seu currículo não teria nada muito expressivo além de dois filmes da franquia Jogos Mortais), é uma produção de terror que procura flertar com o ocultismo ao longo de pouco menos de uma hora e meia de projeção – mas carece de suspense suficiente para empolgar o espectador. Apesar do argumento aparentemente inovador (ou pelo menos que se mostra interessante, à primeira leitura), falta ousadia do cineasta para apostar em cenas com sustos ou temas sobrenaturais mais atraentes, desperdiçando um bom material em sequências sem impacto, com tensão pouca ou quase nula – isso sem mencionar o final anticlimático que, embora abra espaço para uma continuação, não consegue ser marcante.

De tudo, Jessabelle não é totalmente descartável. As cenas em quase found footage (os vídeos da mãe de Jessie) são até passíveis de elogio, assim como a boa atuação da protagonista, Sarah Snook, que se desdobra – literalmente – na cadeira de rodas e nas caras e bocas para se fazer assustar e tornar a narrativa mais horripilante. Pena que faltou mais e o filme não evolui de maneira alguma. Jessabelle: O Passado Nunca Morre não apresenta nada novo e pode até ser conferido sem muita expectativa mas, com sua quantidade de clichês do gênero, não passa de uma produção que será fatalmente esquecida.

A Mão Que Balança o Berço (The Hand That Rocks The Cradle)

Rebecca De Mornay não faria nada tão expressivo em sua carreira após o sucesso de A Mão Que Balança o Berço, um thriller de Curtis Hanson (de Los Angeles – Cidade Proibida) que foi amplamente elogiado pelo público e crítica na época de seu lançamento. Na trama, Rebecca dá vida a Peyton Flanders, uma babá que passa a atormentar a vida de uma família para vingar a morte de seu esposo.

01

Com um roteiro simples mas conciso, que vai nos dando pistas sobre os atos de Peyton mas sem se perder no meio-campo tentando explicar suas motivações, Hanson é competente ao transpor o argumento para a tela sem grandezas ou inventices. Do ponto de vista técnico, inclusive, A Mão que Balança o Berço é um filme que não chega a ser brilhante – na verdade, é bem mediano em diversos momentos. Porém é nítido o talento do cineasta para as sequências de suspense, que cresce à medida que a fita se desenrola e quase chega a alcançar o terror psicológico – não em nível tão requintado, é verdade, mas o suficiente para proporcionar um ótimo entretenimento.

Rebecca faz uma atuação coerente e bem articulada, sendo a escolha perfeita para o papel. Seu talento é imprescindível para a construção de Peyton, que ora é pura inocência, ora é pura maldade – o anjo e o demônio na mesma pessoa. As nuances de Peyton são bem delineadas por De Mornay, que recebeu bastante atenção na época. Soma-se ao elenco Annabella Sciorra, a dona de casa tranquila, porém frágil, alheia a todos atos da babá – a mocinha ideal, que ainda tem crises de asma, aumentando sua fraqueza diante das telas; e também uma Julianne Moore em início de carreira, com um tipo extravagante e esperto que chega a ter seu devido ponto alto na narrativa.

Apesar de a história não apresentar nada significativamente novo, A Mão que Balança o Berço nos traz personagens que são verossímeis – e isso é importante para que o público se identifique com o núcleo central. Trata-se de um filme bem feito e redondo, com um roteiro bem construído que pode até não marcar a vida do espectador, mas é suficiente para prender sua atenção durante a projeção.

Velozes e Furiosos 7 (Furious 7)

03Hoje percebi que as coisas mudaram mesmo: levei minha sobrinha de 11 anos ao cinema. Enquanto eu queria assistir a versão live-action de Cinderela, a guria preferiu o sétimo filme da franquia Velozes e Furiosos. Banquei de bom tio, fiz um esforço e, para minha surpresa, me deparei com uma produção que, apesar de não ser um primor cinematográfico, foi um ótimo entretenimento – o que é, na verdade, a sua verdadeira proposta.

Fato: Velozes e Furiosos 7 é o melhor filme de uma série que, cá entre nós, nunca foi lá essas coisas. Não desmereço produções com esta “pegada”, não mesmo – porque, como mencionei acima, a proposta aqui é o entretenimento. Porém há de se admitir que Velozes e Furiosos há muito tempo deixou de ser uma história sobre carros e rachas nas ruas e se tornou uma franquia de ação, com direito a tudo o que é próprio do gênero: tiro, porrada e bomba. E aqui não é muito diferente: Velozes e Furiosos 7 é justamente isso, mas com um agravante: a insensatez do roteiro de Chris Morgan e Gary Scott Thompson.

Okay, não vamos esperar que um longa como este tenha algum compromisso com a realidade. Sabemos que os mocinhos vão apanhar e nunca sentir dor, que eles vão desviar de todas as balas em meio aos tiroteios, que eles cairão do penhasco, sofrerão acidentes de carros e tudo mais e sairão ilesos, sim, é verdade. Mas Velozes e Furiosos 7 é, disparado, o filme mais exagerado, absurdo e insano de todos. Nós sabemos que é justamente isso que fez a fama deste projeto – mas não há o menor senso de realismo aqui. Gravidade? Leis da física? Esqueça, meu amigo! Nada do que você aprendeu no colégio serve para alguma coisa.

01

Há cenas de diversos tipos, como se o diretor quisesse extrair tudo de todos os lugares: tem sequências na floresta, no deserto, no ar, nas ruas, internas – tudo com seus excessos e anabolizantes. Todas elas, claro, com muita pancadaria, perseguição e alguma dose de humor. Mas há também os momentos “ternura” da trama, com espaço para romance, amostras grátis de fidelidade e amor aos amigos e, claro, à família – lema do personagem de Vin Diesel desde sempre. Aliás, em Velozes e Furiosos 7, a equipe de Dom é ameaçada por um novo vilão, Shaw (o ótimo Jason Statham, estreando na série), que chega na história para vingar a morte do irmão, vilão do filme anterior. Daí, obviamente, Dom convoca a turma toda (juntamente com Kurt Russell, mais uma boa adição ao elenco) e parte pra vingança. Ou seja, tudo o que o povo gosta!

Velozes e Furiosos 7 foi bem recebido pelos fãs e pela crítica – e seu sucesso é justo. Dentro deste universo “testosterona” (carros “tunados”, mulheres seminuas, brigas de rua e etc.), Velozes e Furiosos 7 se encontra em uma confortável posição, pois é repleto de ação de tirar o fôlego e cenas com pura adrenalina, que escondem até mesmo seus pequenos defeitos (como a fotografia escura e a edição meio atropelada, mas está valendo). De quebra, ainda traz uma homenagem a Paul Walker, ator que morreu durante as filmagens da fita (ironicamente, em um acidente de carro). Velozes e Furiosos 7 é entretenimento na medida certa para o público e emoção garantida para os fãs da saga.

Um Fim de Semana em Paris (Le Week-end)

Nick e Meg formam um casal de professores universitários de meia-idade que estão naquela difícil fase da vida: vivem juntos há muito tempo e, consequentemente, a relação entre os dois já não tem a mesma intensidade. Para tentar resgatar um pouco do romance desvanecido ao longo dos anos, os dois decidem passar um final de semana na capital francesa, Paris – mas desde a chegada nada parece dar muito certo e, aos poucos, eles vão se dando conta de que as coisas entre eles estão piores do que imaginavam. No meia da história surge Morgan, um galante ex-pupilo de Nick, que com seu tipo charmoso encanta a esposa em crise.

01

Um Fim de Semana em Paris, dirigido por Roger Michell (de Um Lugar Chamado Notting Hill e Um Final de Semana em Hyde Park), é uma comédia romântica simples, sem apelações e com um toque sutil de nostalgia (o que, fatalmente, poderá agradar um público mais maduro – especialmente aqueles que passam pela crítica fase do relacionamento em que o desgaste é natural). O filme acerta em cheio ao trazer à luz uma relação longeva, com todos os seus percalços, tristezas, angústias, desejos – até mesmo o sexo na terceira idade é pincelado brevemente na película. Entretanto, o longa escorrega no roteiro bastante vago, em alguns momentos até mesmo perdido – sem ser totalmente engraçado para considera-lo uma comédia e muito menos profundo no quesito “drama”. Dessa forma, Um Fim de Semana em Paris começa bem, com alguns trechos interessantes e levemente cômicos, mas se perde em uma falsa profundidade que acaba entediando o espectador.

Apesar do ótimo trabalho da dupla de atores (Jim Broadbent e Lindsay Duncan demonstram boa química em cena), Um Fim de Semana em Paris não consegue ser tão empolgante quanto a Cidade Luz. O espectador até enxerga umas referências a Godard ou sente um certo charme tal qual Woody Allen em suas tramas (a trilha sonora, por exemplo, funciona muito bem por sua delicadeza), mas é inegável que Um Fim de Semana em Paris não é tão intenso, apesar de ter potencial. Coincidentemente ou não, o filme é como seu título sugere: um final de semana em Paris – passa rápido para tudo o que se tem a fazer e na pressa você acaba fazendo de tudo sem aproveitar nada.

O Garoto da Casa ao Lado (The Boy Next Door)

Se há um clichê notável no cinema é a história de um homem e uma mulher que se envolvem sexualmente e, após um deles não desejar mais levar a relação adiante, a outra parte desenvolve certa obsessão pela primeira. A partir daí, começa aquele velho jogo de assédio e perseguição – até que um fim trágico aconteça.

Esse tipo de premissa já ganhou muitas variações – e, ainda assim, sempre nos deparamos com mais alguma história do gênero. Dessa vez, trata-se de O Garoto da Casa ao Lado, thriller estrelado pela popstar Jennifer Lopez – aqui, no papel de Claire, uma professora de literatura que está à beira do divórcio. Após uma noite de sexo com Noah (Ryan Guzman), seu novo vizinho, Claire decide acabar com o curto “romance” – o jovem é amigo de seu filho e ainda estudante do colégio onde leciona. No entanto, Noah logo se revela um rapaz violento, possessivo e psicótico, fazendo de tudo para ter Claire ao seu lado e colocando em risco a vida de todos.

01

Obviamente, o grande “problema” de O Garoto da Casa ao Lado é sua falta de originalidade. Tudo ali parece ser retirado de outras produções e a todo instante o espectador tem aquela sensação de dejavú, como se já tivesse visto aquilo em algum lugar (e, de fato, é provável que ele já tenha visto aquilo em algum lugar antes). Não há nada novo ou original na fita e a impressão que se tem é que estamos diante de um filme “pré-moldado”, feito exclusivamente para ser uma mistura de todas as outras tramas similares. Com um roteiro previsível, onde tudo ocorre propositalmente, a narrativa é limitada de forma absurda, quase que com um ar de produção barata – mesmo que a protagonista seja uma beldade do porte de Jennifer Lopez. É fato: Jennifer está exuberante em cena – um furacão – e chega até a entregar uma boa performance. O que atrapalha sua personagem é justamente a vaidade da artista, que não permite que a atriz seja crível no papel de uma professora suburbana. Na verdade, o elenco em si é bastante atrativo e funciona muito bem, mas é prejudicado pelo status quo do filme – o que não deixa de ser lamentável.

02

Dirigido por Rob Cohen – um cineasta mediano, mas que já esteve à frente de produções para a massa (Daylight, Velozes e Furiosos e A Múmia: Tumba do Imperador Dragão) – , O Garoto da Casa ao Lado vai, aparentemente, na contramão de seus trabalhos anteriores e, dessa forma, é descartável. Pode render, no máximo, alguma audiência na TV aberta sobretudo pelo elenco. Talvez a única coisa realmente boa de O Garoto da Casa ao Lado seja mesmo Jennifer Lopez – é uma pena o filme não ser tão atraente quanto ela…

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right)

Nic e Jules (respectivamente, Annette Bening e Julianne Moore) estão casadas há anos e tem dois filhos, concebidos por inseminação artificial a partir da doação de esperma de um desconhecido. As crianças crescem e decidem encontrar o doador do sêmen que os gerou – descobrindo, então, o boa praça Paul (Mark Ruffalo), o que colocará em risco a paz domiciliar.

Sem 02

Se no início de Minhas Mães e Meu Pai o público chega a pensar estar diante de uma comédia descartável, aos poucos o filme de Lisa Cholodenko cresce até se tornar uma narrativa de gênero não definido, mas nem por isso desinteressante. O roteiro bem construído deixa de lado o tom cômico para trilhar um caminho mais propenso ao drama, mas fugindo dos clichês característicos do gênero e focando principalmente as relações entre os personagens. Minhas Mães e Meu Pai não é uma trama sobre um casal homossexual: é uma história sobre pessoas e relacionamentos (tanto que o longa funcionaria da mesma forma se os protagonistas fossem um casal formado por um homem e uma mulher).

Bening e Moore abrilhantam a película com suas atuações. Enquanto a primeira está ótima em sua composição da lésbica masculinizada (mas em nenhum momento estereotipada, como poderíamos esperar), Julianne empresta suavidade e leveza ímpares para a segunda mãe. Fica claro quem é quem na história: a mãe crítica que pega no pé e preza pelo futuro das crianças e aquela que é mais carinhosa e se preocupa com a felicidade dos filhos independente de suas escolhas. Ruffalo também desempenha bem sua tarefa na trama, assim como os promissores Josh Hutcherson e Mia Wasikowska – que parecem muito a vontade em cena e mantêm ótima interação com os veteranos.

02

Apesar de não apresentar nenhum grande clímax, Minhas Mães e Meu Pai é um filme sobre uma família incomum – ou melhor, sobre um novo e moderno modelo de “família”. Não procura promover muitos debates, tampouco trazer algum tipo de ruptura ao abordar um casamento gay ou levantar questões sobre preconceito – o que seria o esperado ao lermos a sinopse superficialmente. Com um ar de cinema independente, Minhas Mães e Meu Pai é leve, redondo e bem feito, mérito não somente do ótimo trabalho do elenco mas também da direção de Lisa, que faz uma obra que apesar de não ser tão grandiosa quanto cinema “social”, é um entretenimento para se apreciar sem medo.

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)

Uma coisa que eu gosto é assistir a uma estreia de filme, ou ler um livro novo ou ouvir um álbum recém-lançado de um artista que eu curto sem criar expectativas. Motivo óbvio, mas real: quando não se espera nada (ou se espera pouco) não há decepções e, em alguns casos, é possível até se surpreender. Finalmente, depois de muito tempo, assisti ao comentadíssimo Cinquenta Tons de Cinza, adaptação cinematográfica da ficção homônima escrita por Erika Leonard James – e início de uma trilogia, seguida por Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade (todos best-sellers, sendo o primeiro o romance britânico mais vendido de todos os tempos). Como não conferi a obra literária (logo, não tenho nenhum referencial para comparação), tudo o que vou dizer a seguir se refere à produção como “cinema” – e já posso adiantar: Cinquenta Tons de Cinza é ruim.

03

Simples assim, não há muito o que falar. Com honestidade, demorei para assistir porque nunca me interessei pela trama. Não procurei nenhuma crítica prévia, não vi a avaliação do filme em redes sociais e tudo o que sabia sobre o longa era o que via amigos comentarem – e até aqui as opiniões eram mistas. Haviam aqueles que gostaram (geralmente, mulheres – e isso me assustou, como explicarei mais adiante) e os que desprezaram (normalmente os homens e cinéfilos mais chatos). Logo, concluí que Cinquenta Tons de Cinza poderia não ser uma grande obra cinematográfica, mas funcionaria como entretenimento. Engano meu. Cinquenta Tons de Cinza é ruim, sim.

Eis a sinopse: um milionário com tendências sádicas que se envolve com uma virgem de 20 e poucos anos que estuda literatura. Entre transas e caretas, a relação entre os dois vai se fortalecendo – o que, consequentemente, acaba confundindo os sentimentos do casal. Mas até tudo isso se desenvolver ao longo de mais de duas horas, Cinquenta Tons de Cinza é um festival de clichês em todos os aspectos: do roteiro com cenas previsíveis e soluções prontas à direção amadora de Sam Taylor-Johnson, visivelmente insegura e com medo de arriscar. Por esta razão, é difícil acreditar nos personagens, no drama e em qualquer coisa que se vê em cena. Até mesmo a edição e fotografia parecem “prontas”, além da trilha sonora de Danny Elfman que está ligada literalmente no modo automático e chega a ser quase vergonhosa.

01

Para agravar a situação, os protagonistas não colaboram. Se a proposta era retratar uma personagem feminina insossa e apática, não há dúvidas de que este objetivo foi alcançado porque Dakota Johnson é irritantemente sem vida. É quase impossível imaginar, por mais esforço que se faça, que um magnata que pode ter qualquer mulher a seus pés vá se apaixonar por um tipo tão sem graça. Já o galã Jamie Dornan está muito distante daquilo que esperamos de um Christian Grey. Após inúmeros nomes serem cotados para o papel, é triste ver que a diretora optou pelo mais fraco. Dornan pesa a mão para criar o perfil sexy do ricaço. Em diversos momentos, inclusive, é possível enxergar nele alguns trejeitos que remetem vagamente a um outro protagonista masculino que muita gente despreza. Em outras palavras, o Christian Grey de Dornan é quase uma versão humana de Edward Cullen.

Se durante muito tempo os longas da série Crepúsculo foram referência ao falarmos de filmes “ruins”, facilmente Cinquenta Tons de Cinza passa a ser o novo campeão do pódio – e leva a melhor porque a saga de Stephenie Meyer era destinada, sobretudo a um público juvenil, enquanto Cinquenta Tons de Cinza tem a suposta premissa de ser veiculado a um espectador adulto, com certo apelo erótico e tudo mais. Falhou. Para além de tudo o que falamos, Cinquenta Tons de Cinza peca na forma arcaica e machista como trata suas personagens femininas, meros objetos de uma sociedade que as oprime e ainda as vê como seres inferiores. Há a exploração barata do corpo e, principalmente, da figura do sexo feminino – e me surpreende saber que há mulheres que compartilham e admiram esta abordagem, tratando como “ideal masculino” um tipo totalmente medíocre e que em nenhum momento se importa com ninguém a não ser consigo mesmo e seu prazer. Cinquenta Tons de Cinza, longe de excitar ou promover alguma discussão, é um triste caso de cinema desnecessário, descartável e, principalmente, desprezível.

César Deve Morrer (Cesare Deve Morire)

Premiado em 2012 no Festival de Berlim como melhor filme, César Deve Morrer acompanha os ensaios para a encenação de uma versão livre da tragédia shakespeariana Júlio Cesar, onde os atores são detentos da área de segurança máxima da prisão de Rebibbia, nos arredores de Roma, na Itália. Utilizando-se de jogos cinematográficos bastante peculiares, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani (famosos por seus trabalhos com temas de alto cunho político) nos entregam uma obra experimental que, alem de outras propostas, disserta também sobre o papel da arte como instrumento de transformação do ser humano.

cesar

A princípio tratado como um documentário, aos poucos percebemos que este gênero fica cada vez mais distante de César Deve Morrer. Apesar de alguns dos atores serem realmente presidiários daquele recinto, o filme não é um registro dos preparos para a montagem do espetáculo ou mesmo sobre algum projeto social que envolva os delinquentes locais. César Deve Morrer deixa de lado o tom documentarista para, pouco a pouco, dar espaço à própria trama do dramaturgo inglês, fazendo com que os dramas de cada indivíduo se confunda com a história shakespeariana. As cenas dos ensaios se misturam à rotina dentro daquela prisão, em uma mescla interessante de ficção e realidade que é acentuada pelo apelo teatral do longa. Nunca sabemos ao certo quando estamos diante da peça de Shakespeare ou do cotidiano daqueles homens – como nos momentos em que eles dialogam sobre traição, morte, liberdade (eles estão encenando ou apenas falam de si mesmos?).

Filmado predominantemente em preto e branco (o que torna a fotografia muito mais atraente, além de criar um aspecto claustrofóbico que é propício para aquele ambiente), César Deve Morrer se desenvolve sobre a linha tênue entre realidade e ficção, com um roteiro excepcional que faz com que o drama do espetáculo se torne o drama pessoal de cada um de seus protagonistas (muito bem em cena, diga-se de passagem). Para além da infindável discussão sobre a arte e seu papel social (“Desde que conheci a arte, esta cela virou uma prisão”, diz um dos personagens, diretamente para a câmera em um dos melhores instantes da fita), César Deve Morrer é o reflexo da Roma antiga clássica estampada nos rostos daqueles criminosos. Por coincidência ou não, a maior parte deles está cumprindo pena ali por crimes de formação de quadrilha ou ligação à máfia – o que promove também um debate inquietante sobre a criminalidade na atual Itália e seus viés político.

Mortdecai – A Arte da Trapaça (Mortdecai)

Logo nas cenas iniciais de Mortdecai – A Arte da Trapaça somos apresentados a nosso protagonista: Charlie Mortdecai, um negociador de arte com caráter duvidoso e que está à beira da falência. Para saldar uma dívida milionária, ele aceita a missão de recuperar uma obra de arte que teria uma senha para acesso a uma conta secreta cheia de ouro nazista.

02Detonado pela crítica, Mortdecai – A Arte da Trapaça também foi um fracasso de bilheteria – o terceiro seguido de Johnny Depp (precedido por Transcendence e O Cavaleiro Solitário). Mas o desprezo por Mortdecai não é mérito exclusivo de Depp. Está certo, convenhamos: Johnny Depp nunca foi um grande intérprete; a bem da verdade, ele é um artista mediano desde os tempos remotos. Para além disso, Johnny é um ator de tipos. Sabe aquele seu colega de trabalho que imita os demais e faz piada de si mesmo? Este é Johnny Depp atuando – infelizmente o público só percebeu isso após a franquia Piratas do Caribe. Mas ele não chega necessariamente a decepcionar e sua atuação até que flui razoavelmente bem – até porque ele está acostumado a fazer exatamente esse tipo de persona, então não há nada muito novo e ele parece até mesmo estar confortável em cena. O fato é que Mortdecai é ruim por si só.

Adaptado da obra de Kyril Bonfiglioli, Mortdecai – A Arte da Trapaça possui um elenco de peso – Gwyneth Patrow, Ewan McGregor e Paul Bettany também participam da fita. Mas todas as suas personagens beiram a canastrice, desde um mordomo ninfomaníaco a um inspetor de polícia bobão que disputa com o protagonista o amor de sua esposa insossa. O próprio Charlie é um tipo que não desperta a menor empatia: não se sabe se ele é um herói ou vilão, pois ele não faz nada relativamente grandioso para ser admirado ou odiado, oscilando entre esses dois extremos de forma irregular. Tudo é acentuado em um roteiro mal construído, que não deixa claro em nenhum momento qual é a proposta do filme: ora comédia, ora policial, Mortdecai falha em ambos já que a veia cômica não funciona e recorre a piadas culturais e artísticas sem o menor sentido, enquanto as tramas policiais não empolgam.

01

Com uma trilha sonora previsível e todo seu ar caricatural, Mortdecai escancara apenas o desgaste da imagem de seu protagonista. Não há dúvidas: o público parece ter se cansado de Johnny Depp; sua carreira parece estar estagnada e seu talento esvanecendo. Mas como falei, ele não é o responsável direto por todo o estrago que é Mortdecai. O diretor David Koepp (que já dirigiu Depp em A Janela Secreta) tinha em mãos um material batido e sem muito charme e assim fica difícil para qualquer elenco fazer milagre. Mortdecai é um filme que até poderia ser um bom entretenimento – e pode até agradar um ou outro que vá ao cinema sem nenhuma expectativa. Culpar Johnny Depp? Acho injustiça. Fechando os olhos para Depp e considerando todo o restante, Mortdecai – A Arte da Trapaça é uma bomba com a presença do astro ou não.

O Amor é Estranho (Love is Strange)

John Lithgow e Alfred Molina são os protagonistas de O Amor é Estranho, novo filme de Ira Sachs (do ótimo Deixe a Luz Acesa, de 2012, início de uma trilogia), cuja trama gira em torno de um casal homossexual que, juntos há quatro décadas, decide oficializar a união. Isso faz com que um deles seja demitido da escola católica onde leciona música – apesar da relação não ser novidade para ninguém e, aparentemente, tampouco incomodar os alunos e suas famílias. Com problemas financeiros e dificuldades em manter o apartamento, eles são forçados a viver na casa de amigos e parentes enquanto acertam suas vidas.

01

O Amor é Estranho se apoia totalmente nas ótimas atuações de seu elenco central. Equilibrado, O Amor é Estranho não possui cenas memoráveis, sendo um filme até anti-climático – o que pode causar certo desconforto em alguns momentos. No entanto, o cineasta acerta ao tratar as situações incômodas que são geradas no momento em que os dois amantes se separam. Em certo ponto, um dos personagens confessa: “Ao morar com as pessoas, você as conhece talvez mais do que gostaria”. Os problemas afetam a todos os envolvidos: enquanto um deles vai passar uma temporada com um casal de amigos mais jovens (cuja vida agitada perturba o sossego do hóspede), o outro vai viver com o sobrinho e sua família, incluindo a esposa escritora e o filho adolescente.

Apesar de ser bem feito tecnicamente (trilha sonora pontual e uma fotografia e design de produção bastante agradáveis), O Amor é Estranho não consegue passar disso. Já tem algum tempo que Hollywood abre espaço para tramas que envolvam personagens homossexuais, tentando tratar com a maior naturalidade possível uma parcela da população que sempre foi marginalizada ou mal representada no cinema. E é isso que ocorre em O Amor é Estranho: sua naturalidade, simplicidade e generosidade em abordar um problema que pode ser comum a qualquer casal (sem abusar do melodrama) são seus maiores méritos. Seu equilíbrio é o que, talvez, cause certo marasmo – algo que não diminui o filme, mas o limita consideravelmente.