Os Olhos Amarelos dos Crocodilos (Les Yeux Jaunes des Crocodiles)

Iris e Joséphine são irmãs, mas vivem em realidades opostas. Iris é a primogênita e preferida da mãe: linda, loira, aparentemente bem casada e financeiramente estável, ela leva uma vida luxuosa e fútil. Estudou cinema quando jovem e hoje está na expectativa de uma grande obra, que parece nunca chegar. Joséphine, por sua vez, sempre foi o “patinho feio” da família: desprezada, ela trabalha como pesquisadora e tradutora, ganha pouco e tem duas filhas – incluindo uma adolescente insuportável. A situação fica ainda mais crítica quando o marido sai de casa, deixando-a com uma grande dívida no banco.

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Baseado no best-seller escrito por Katherine Pancol (que esteve na lista dos mais vendidos na França em 2006, quando foi lançado) e dirigido por Cécile Telerman, Os Olhos Amarelos dos Crocodilos é uma comédia dramática que nos apresenta duas protagonistas que, apesar de próximas, estão cada vez mais distantes entre si. As irmãs são diferentes em todos aspectos: como profissionais, esposas, mães, mulheres. São essas diferenças que pontuam o relacionamento entre elas, porém elas se completam de certa forma – e isso fica claro quando Iris convence Joséphine a escrever um romance e permitir que ela leve os créditos: enquanto a primeira fica com as glórias do livro, a segunda recebe o dinheiro das vendas (que vai tira-la da crise financeira) e assim os vazios de ambas ficam preenchidos.

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O roteiro deixa explícito esses dois mundos. Poderia, no entanto, abolir tramas paralelas que não acrescentam nada ao desenvolvimento das protagonistas – ou, pelo menos, troca-las por histórias que agregassem mais, como o relacionamento das irmãs com a mãe ou o casamento de Iris. Outros personagens poderiam ser melhor explorados, como Luca (o misterioso estudante que desperta a atenção de Joséphine) ou Philippe (o marido que tenta salvar o casamento mas se depara com a futilidade da esposa rica). Já as atuações de Emmanuelle Béart e Julie Depardieu não chegam a ser memoráveis – na verdade, em alguns instantes elas até incomodam um pouco (mas isto deve ser reflexo da maneira como suas personagens são tratadas). Por sua vez, o elenco masculino está em dia com o proposto: Patrick Bruel tem uma performance concisa e madura, enquanto o espanhol Quim Gutiérrez traz muita introspecção e mistério ao seu tipo. A trilha sonora ajuda a fita, assim como a fotografia que aposta em tons pastéis e acerta na sobreposição de cores.

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Talvez o desfecho pudesse ser resumido com aquele velho ditado do “aqui se faz, aqui se paga” – e isso torna as ações previsíveis demais. Apesar do bom argumento, Os Olhos Amarelos dos Crocodilos não nos entrega nada além de um filme mediano, que poderia ser mais profundo em seus dramas. Ao invés disso, fica-se uma história rasa, superficial. Com muito potencial, o filme é bom à sua maneira: há seus momentos interessantes, mas não passa disso. O que não deixa de ser uma pena: Os Olhos Amarelos dos Crocodilos é mais um daqueles casos em que a obra literária é infinitamente melhor que o cinema.

De Cabeça Erguida (La Tête Haute)

De Cabeça Erguida, novo filme de Emmanuelle Bercot, abriu a 68ª edição do Festival de Cannes, em maio deste ano. O longa foi a primeira produção de uma mulher a abrir o evento em 30 anos e, apesar de não ter provocado muito entusiasmo em sua exibição para a imprensa, trata-se de um projeto ambicioso que mistura documental e ficção, resultando um trabalho indispensável na filmografia de seus idealizadores.

A trama acompanha a vida do jovem Malony, dos 6 aos 18 anos de idade. Com um histórico familiar totalmente desfavorável, Malony se torna um delinquente juvenil com temperamento desequilibrado, dividindo seu tempo entre pequenos crimes e internações em centros de correção e reformatórios, onde cumpre pena por seus atos. Nesse período, o adolescente é acompanhado por uma juíza e um professor, que tentam ajudar o garoto a buscar um novo (e melhor) rumo em sua vida.

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O roteiro basicamente se estende sob as inúmeras tentativas da juíza e o tutor em apoiar o rapaz. Malony comete um delito, recebe uma punição e um novo ciclo se inicia – e isso acontece várias vezes ao longo do filme. Dessa forma, não existe nenhum clímax na história – mas sim pequenos episódios, todos praticamente com essa mesma estrutura. No entanto, é interessante notar que, ainda assim, a narrativa não se torna entediante. Pelo contrário: conforme o filme avança, o espectador se sensibiliza com o protagonista, mesmo detestando seus atos. É como se ele próprio estivesse disposto a dar uma nova chance ao problemático Malony. Talvez isso se dê também por conta da atuação competente do novato Rod Paradot, uma explosão de sentimentos em cena. Ele chora, xinga, sente raiva de tudo e todos, esbraveja, tem ataques de histeria – mas desperta a comoção do público, como se quem assistisse quisesse lhe estender a mão, pois sabe que ele realmente precisa de uma mudança.

A personagem da juíza, no entanto, deixa um tanto a desejar. Interpretada pela musa francesa Catherine Deneuve, sua construção não me pareceu muito firme. Talvez essa lacuna no desenvolvimento dessa persona seja uma forma de manter um certo distanciamento entre ela e Malony – afinal, ela é uma juíza e tem de ser racional, não importam as circunstâncias. Por sua vez, Sara Forestier consegue dar bastante humanidade à mãe do garoto, uma viciada em drogas incapaz de cuidar dos filhos e que não tem a menor noção da realidade perigosa em que ele está inserido. É ela quem ajuda a pontuar na trama a vida destrutiva de Malony: o universo do menino é inteiramente perdido, devastado, sem perspectivas; ele é apenas um produto do seu meio.

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Apesar de ter momentos sombrios, o filme nos propicia sempre uma ponta de esperança – e o desfecho, a cena final em si, tem uma beleza e significado ímpares. Apesar de não ser impecável, De Cabeça Erguida proporciona uma visão crítica da criminalidade na juventude, ressaltando o papel dos educadores na transformação dessas vidas e sugerindo também a importância da família na construção da personalidade do indivíduo. De Cabeça Erguida chega aos cinemas como um filme capaz de gerar bons debates e fazer pensar – em suma, uma produção necessária que há anos não tínhamos.

Sexo, Amor e Terapia (Tu Veux ou Tu Veux pas)

Dirigido por Tonie Marshall, Sexo, Amor e Terapia é uma comédia que narra o curioso encontro entre Judith e Lambert: ela, uma mulher à frente de seu tempo, que vive sua sexualidade sem medo e mantém casos com os homens que desejar; ele, um viciado em sexo que está passando por um período de abstinência. No entanto, quando os dois passam a trabalhar no mesmo consultório como terapeutas de casais, a situação vai se tornar cada vez mais difícil para eles. 01 Poderíamos dizer que Sexo, Amor e Terapia é a história de duas pessoas que simplesmente se conheceram na hora errada: uma ninfomaníaca e um abstêmio sexual. E talvez é justamente isso que temos para falar sobre este filme porque, de fato, nada além disso acontece na trama ao longo de sua projeção. Durante quase uma hora e meia, a narrativa se sustenta totalmente na tensão sexual entre os dois personagens principais (com flerte, joguinhos e outras firulas, de soluções fáceis e previsíveis) e também nos enfadonhos diálogos terapêuticos, que nada agregam à fita. Resumindo: não há um clímax ou um grande momento e com isso os poucos minutos de fita se tornam intermináveis. O filme não sai do lugar e quase termina da mesma forma como começou: sem despertar o menor interesse do público.

Para completar, parece que a química entre os protagonistas não funciona. Patrick Bruel tem cara de “homem maduro”, um tanto quanto incompatível para o papel (o tom cômico pode ter atrapalhado sua caracterização), enquanto Sophie Marceau faz caras e bocas – qualquer homem fugiria de uma mulher que agisse como ela, cá entre nós. O humor dá certo em alguns raros trechos, com piadas de caráter sexual que, sinceramente, não arrancam muitas risadas. Como comédia, é fato que Sexo, Amor e Terapia tem uma ótima proposta; é uma pena que na execução faltaram esses três ingredientes e todos os outros necessários para se fazer um bom filme.

Samba (Samba)

Eric Toledano e Olivier Nakache encantaram plateias em todo o mundo quando, em 2011, lançaram o praticamente unânime Intocáveis – filme que logo se tornaria a maior bilheteria francesa de todos os tempos. A história da improvável amizade entre um milionário tetraplégico e seu auxiliar de enfermagem negro emocionou o público e levantou, ainda que timidamente, uma questão problemática: a situação de inúmeros imigrantes na França, que batalham diariamente por sua sobrevivência. Samba é a nova produção da dupla de cineastas e aprofunda um pouco mais este tema polêmico, que parece estar em evidência nos últimos dias.

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Samba (Omar Sy) é um imigrante senegalês que vive na França há 10 anos – e desde então vem se mantendo no país com a ajuda do tio idoso (com quem divide moradia) e trabalhando em lugares que pagam pouco e não oferecem a ele muitas oportunidades. Para encontrar um emprego melhor, a solução seria conseguir os documentos necessários para se estabelecer definitivamente no país – mas este sonho está a cada dia mais distante. O destino, no entanto, lhe reserva uma fortuita surpresa: seu encontro com Alice (Charlotte Gainsbourg), uma executiva que devido ao estresse, tenta reconstruir sua vida e saúde como voluntária em uma espécie de ONG.

Samba é um filme necessário – principalmente em um momento em que a França escancara ao mundo seu desprezo pelos imigrantes. Samba, assim como seu antecessor Intocáveis, procura estabelecer sua narrativa a partir das diferenças sociais que dividem (e corrompem) a capital francesa. Os dois protagonistas são símbolos desses contrapontos: ele, um imigrante à procura de um lugar ao sol, mas vê seu mundo cair a cada dia diante de sua rotina, seja nos empregos precários ou na hipocrisia da justiça parisiense; ela, por sua vez, é representante típica da classe média ocidental, esgotada por conta de um capitalismo famigerado, as jornadas de trabalho estafantes e seus consequentes malefícios.

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Os protagonistas de Samba se completam sob certa forma. É interessante notar, porém, que o roteiro nos conduz a todo instante ao desenvolvimento de uma tensão romântica que nunca chega, de fato, a acontecer; o espectador aguarda o grande momento mas, do contrário do que se poderia imaginar, ele não se frustra quando o mesmo não ocorre justamente porque cada personagem é desenvolvido e acompanhado dentro do seu meio de forma bastante particular. Além disso, há alguns alívios cômicos que, se não chegam a arrancar gargalhadas do público, ao menos servem para pontuar sequências mais leves e descontraídas.

As comparações entre Samba e Intocáveis seriam inevitáveis. Talvez o único grande problema de Samba é nitidamente a maneira como o filme tenta nos levar a compra-lo como uma excelente obra, enquanto Intocáveis, por sua vez, era grandioso naturalmente, sem forçar a barra. Com atuações que não chegam a ser memoráveis e algumas cenas com reconhecido valor, Samba funciona mais como cinema para debater do que necessariamente para entreter. Resumindo: o filme é capaz de promover algumas discussões mas está longe de ser algo memorável para o público comum.

Gemma Bovery: A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery)

Filmes que dialogam com a literatura costumam ser atraentes. François Ozon, por exemplo, entregou em 2013 sua obra-prima Dentro da Casa, amplamente elogiado pela crítica e considerado uma das melhores produções daquele ano. Estrelado por Fabrice Luchini, o longa de Ozon flertava com a narrativa literária ao abordar o caso de um professor de língua francesa obcecado pelos textos de um de seus alunos. Com um personagem com caráter voyeurístico bastante próximo, Luchini é um dos protagonistas de Gemma Bovery: A Vida Imita a Arte, comédia dramática da cineasta Anne Fontaine que, como o título sugere, faz uma referência à obra máxima de Gustave Flaubert.

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Quem narra os acontecimentos do longa é Martin Joubert (Luchini), padeiro local que vive tranquilamente com sua família em uma pequena e pacata região da Normandia. Preso a um relacionamento morno e sem muitas novidades, a vida de Martin ganha mais sentido com a chegada de Gemma Bovery (a atriz Gemma Arterton), uma decoradora inglesa que muda-se para a vizinhança com seu marido Charles, um restaurador de peças de arte. Entediada com a rotina do casamento, não demora muito para que Emma se lance aos braços de outro homem – enquanto Martin (em um misto de voyeurismo e paixão) acompanha de longe os passos da jovem.

Gemma Bovery propõe a união entre cinema e literatura através dos destinos de suas personagens, uma alusão óbvia à leitura de Madame Bovary, prosa escrita por Flaubert em 1857 e que foi um escândalo na época de sua publicação. É interessante a forma como a trama é conduzida: por um lado, os acontecimentos nos levam a imaginar um possível romance entre Emma e Joubert – e chega a ser quase frustrante o surgimento de uma terceira pessoa; por outro lado, o argumento não é capaz de desenvolver muito bem seus personagens – com exceção do próprio Joubert. O espectador que não conhece o romance talvez sinta-se um tanto perdido com as referências lançadas ao longo da película; no entanto, Gemma Bovery nos oferece, enquanto cinema, um ótimo trabalho de direção de arte e fotografia, que contribui muito para criar alguns bons momentos, que vão do sensual (não exagerado) ao cômico. Com um desfecho incomum, o tom leve e delicado fazem de Gemma Bovery um filme que está longe de ser impecável, mas não deixa de ter seu valor como produto cinematográfico.

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World)

Eu, particularmente, tenho certa cisma com Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros. Em outras ocasiões, já critiquei os milhões gastos em computação gráfica para criar apenas cerca de 15 minutos de dinossauros na tela, nos fazendo engolir mais de duas horas de um roteiro questionável. Mas tenho que admitir que Jurassic Park foi um filme sem precedentes, um marco do gênero “pipoca” – como boa parte (e provavelmente a melhor) da obra de Steven Spielberg. Lançado há mais de vinte anos, é esse grande sucesso de bilheteria que serve de impulso a Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros.

A premissa básica de Jurassic World é a mesma do filme de 1993. Poderíamos até ser bonzinhos e dizer que se trata de uma “homenagem” ou mesmo uma referência livre à fita de Spielberg, porém Jurassic World não chega a ser isso. Na verdade, esse longa recria praticamente todos os passos de seu antecessor – e isso não chega a ser necessariamente ruim. A trama acontece dentro de um novo parque temático, na Costa Rica, onde dinossauros ganham vida através das maravilhas da ciência moderna. Tudo vai bem até que o mais temido entre eles (e que foi modificado geneticamente) escapa de seu abrigo e causa o terror entre os visitantes. Agora, vamos analisar os itens utilizados na história: um par de crianças que se perde na ilha, tem sim; tensão romântica entre dois protagonistas, confere; cientistas que adoram brincar de deuses, certo; vilão infiltrado na equipe principal, beleza. Então, fica a questão: esse novo filme vale a pena?

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A resposta é categórica: sim; Não vou tentar comparar muito as duas fitas. Jurassic Park foi um marco em sua época, um divisor de águas em Hollywood, título obrigatório independente do tipo de cinema que você curta. Perto dele, Jurassic World, o novo, é quase uma mera cópia, mas que se destaca por ser tão empolgante quanto o primeiro. Se a obra de Spielberg conquistou pela originalidade, pela novidade do projeto, Jurassic World deve ser elogiado pelo seu valor como blockbuster atual. O cineasta Colin Trevorrow (que substitui Spielberg, que agora assina apenas a produção executiva) faz um apanhado de tudo o que Steven fez lá atrás, deu uma potencializada no material e criou um filme eletrizante, que durante 120 minutos não faz você desgrudar o olho da tela. Os saudosistas podem (e vão) se desesperar, mas Jurassic World é ótimo. É repleto de ação, tem piadas que rendem boas risadas e agrada todo mundo – enfim, cumpre sua proposta enquanto entretenimento.

Há quem diga que Jurassic World não tem o charme, magia e emoção que o longa de Spielberg. De fato, o filme não é isento de pequenos defeitos, como o desenvolvimento de certos personagens, a narrativa que não foge dos clichês e soluções fáceis e até os efeitos especiais, que não são excepcionais (Spielberg fez muito, mas muito melhor há duas décadas atrás, em uma época em que os recursos eram limitados e menos sofisticados – os dinossauros do cineasta veterano são muito mais reais e assustadores). O roteiro ainda tenta propor alguma reflexão, novamente apostando na velha tese que discute os limites da ciência e a ganância do ser humano, mas é superficial nesta empreitada. Mas se você não quiser esquentar a cabeça e estiver procurando um filme para toda a família, que seja capaz de entreter e divertir, vá por mim e adentre este fantástico mundo dos dinossauros.

Que Mal Fiz Eu a Deus? (Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu?)

O casal Claude e Marie Verneuil tem quatro filhas e, como todos os pais, eles sempre desejaram o melhor para elas – inclusive um bom casamento (que para eles está intimamente ligado à união com parceiros franceses e católicos, assim como o restante da família). Mas nem tudo é perfeito e o que mais se teme é geralmente o que acontece: as três primeiras meninas casam-se com homens de diferentes etnias. E como tudo sempre pode piorar um pouco, a caçula (e última esperança) decide se unir a um jovem que também não possui o perfil idealizado pelos pais. Não resta muitas opções a Claude e Marie: alem de suportar os genros, eles se veem obrigados a tentar restabelecer a paz familiar.

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Que Mal Fiz eu a Deus? foi um sucesso na França em 2014. Comédia deliciosa, o humor da fita é quase todo feito a partir da xenofobia do cidadão francês com relação aos estrangeiros, como o filme sugere. No entanto, é interessante analisar que isto não é uma condição restrita exclusivamente à população francesa. Se de fato muitos veem os franceses como pessoas antipáticas, orgulhosas e pouco abertas às amizades, o longa propõe na verdade que todos nós, em menor ou maior ponto, somos da mesma forma. Todos nós mantemos certa aversão ao novo, ao desconhecido – e os conflitos causados por diferenças sociais e culturais comprovam isso.

Philippe de Chauveron, em seu segundo trabalho como diretor, nos entrega um filme redondo. Que Mal Fiz eu a Deus?, apesar de até recorrer a alguns poucos clichês e soluções fáceis, nunca cai no ridículo e o humor é refinado, pautado com muita inteligência, oscilando momentos mais sutis (onde você pode até perder a piada, caso pisque) com sequências mais escrachadas. O roteiro abusa das questões culturais para provocar o cômico: as diferentes formas de pensar, as tradições (a sequência da circuncisão de um menino é, no mínimo, hilária), as religiões, as culinárias e até mesmo os estereótipos – inclusive o possível estereótipo francês, totalmente averso à nova realidade de nossa sociedade multicultural.

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Simplesmente imperdível, Que Mal Fiz eu a Deus? é uma prova de que o gênero comédia pode ser excelente, sim. Com muita inteligência, o longa diverte como poucos, apostando em um narrativa irreverente, atuações convincentes e um argumento que, além de fazer rir, faz também pensar e refletir: até que ponto as diferenças são capazes de gerar conflitos? Que Mal Fiz Eu a Deus? é, sem sombra de dúvidas, um grande filme e uma das melhores comédias francesas nos últimos anos.

Deixa Rolar (Playing it Cool)

Ele é um roteirista que precisa entregar urgentemente o texto para uma comédia romântica (estrelada pelos astros Ashley Tisdale e Matthew Morrison, que fazem uma ponta na fita), porém está passando por um bloqueio criativo. Jovem, bonito e bem sucedido, ele troca de mulheres com a mesma facilidade com que muda de roupa e evita a todo custo se envolver mais profundamente. Então, algo inesperado acontece: ele se apaixona quase à primeira vista por uma moça já comprometida. Como o sentimento aparentemente é recíproco, os dois decidem continuar o contato apenas como amigos – e, obviamente, isso não é tão simples como o casal pensava.

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Algumas fórmulas do cinema são batidas – aí temos os clichês. E alguns dizem sobre clichês: “ruim com eles, pior sem eles”. A verdade é que Deixa Rolar, comédia romântica do estreante Justin Reardon, é um poço interminável dos mais conhecidos e utilizados recursos deste gênero. Não que o filme seja totalmente ruim – e seria injustiça de minha parte dizer isto. Deixa Rolar entrega justamente aquilo que se propõe: uma comédia leve, sem muita pretensão, que não demonstra muita disposição para ir além de seu status quo.

Deixemos claro: Deixa Rolar talvez tenha até um mérito, que é a sua honestidade. O filme não tem a menor intensão de ser inovador; ele descaradamente é uma colcha de retalhos de várias outras produções do gênero, recorrendo até mesmo a recursos visuais para tornar a película mais “fofa” e atrativa (como efeitos especiais banais ou uma sequência rodada em animação). Este emaranhado de clichês, no entanto, não é o grande problema do filme, que chega até a despertar certo interesse no início. Falta charme, falta aquela “pegada”, aquele “algo mais” que você tenta a todo custo descobrir exatamente o que é mas nunca consegue identificar.

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Talvez seja a química inexistente entre o casal de protagonistas. Apesar de Chris Evans estar interessante em tela (é bom vê-lo despido do uniforme de Capitão América), não rola bom entrosamento com Michelle Monaghan – com uma personagem que, definitivamente, não desce. O núcleo de amigos de Chris também é pouco inspirador (um desperdício de atores, especialmente Luke Wilson – que entrou e saiu da trama do mesmo jeito), não acrescentando nenhum momento marcante à narrativa. Fica impossível ao público sentir algum tipo de conexão com quem quer que seja.

Mas nem tudo é perdido: Deixa Rolar chega por aqui em 11 de junho – um dia antes do Dia dos Namorados. O que isso quer dizer? Bom, é capaz que você passe no cinema e veja filas de garotas com seus respectivos pares, todas querendo acompanhar uma história água-com-açúcar, bobinha e sem muita dificuldade. E nisso Deixa Rolar cumpre bem seu papel. Você pode até não sair do cinema surpreendido com uma grande produção, mas também não deixará a sessão totalmente decepcionado porque, afinal, vai ter exatamente aquilo que procura ao entrar nela.

Kung Fury (Kung Fury)

Eu sou um fã incondicional do cinema trash – e, neste caso, quanto mais ruim, melhor! Não à toa, um dos meus artistas preferidos é Robert Rodriguez, cineasta por trás de “bobeiras” como a saga Machete, Planeta Terror ou o aclamado Um Drink no Inferno – mas isso é uma outra história. Só fiz essa pequena introdução para que você, leitor, entenda minha empolgação com o projeto Kung Fury, do sueco David Sandberg, que estreia na direção cinematográfica com uma pérola em formato de curta-metragem que é uma ode de amor à cultura dos anos 80.

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A história central de Kung Fury se passa na Miami da década oitentista e acompanha o detetive Kung Fury – um policial que ganha super poderes após ser atingido por um raio e mordido por uma cobra (oi?). Lá pelas tantas, Adolf Hitler (aqui também sob a alcunha de “Kung Führer”) invade o presente e ataca a delegacia em que o nosso herói atua. Com isso, Kung Fury decide viajar no tempo até a Alemanha, em plena Segunda Guerra Mundial, para liquidar de vez o líder nazista.

A sinopse não poderia ser mais surreal. Quer assistir algo despretensioso apenas para passar o tempo e se divertir? Kung Fury é uma ótima pedida. Na verdade, sob o ponto de vista narrativo, cá entre nós, o filme é até “bobinho” – como se o roteiro fosse apenas uma motivo para o diretor inserir o maior conteúdo possível de referências à década de 80. E é nisso que o curta se sobressai: Kung Fury é pura nostalgia! A ideia é justamente essa: homenagear os anos 80 e toda sua cultura através de uma comédia que procura satirizar/parodiar os filmes policiais e de artes marciais desse período.

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São inúmeras as referências da fita – e é admirável como David consegue condensar todo este arsenal em pouco mais de 30 minutos de projeção. A estética visual é altamente atraente, seja nos figurinos e na fotografia (com a imagem repleta de defeitos, como os bons filmes “ruins” devem ser), além da ótima trilha sonora – que ficou por conta do ator, cantor e produtor David Hasselhoff, que nos transporta ao synthpop do início da década de 80, com todos seus sintetizadores predominando em alto e bom som. Os efeitos especiais, por sua vez, são bastante competentes (principalmente se levarmos em conta que se trata de uma produção independente), com cenários feitos totalmente em chroma key – acentuando a atmosfera de amadorismo da película. Kung Fury possui ainda um humor fantástico: é cheio piadas inteligentes, lançadas nos momentos mais oportunos por personagens adoráveis, como nosso protagonista – o próprio David Sandberg, absolutamente hilário. Além dele, vale também mencionar o policial Triceracop, as “vikings” gostosonas Katana e Barbarianna, Hackerman (nome óbvio) e até mesmo o icônico Thor (que com seu peitoral “épico”, segundo o próprio Kung Fury, atua melhor que o insosso Chris Hemsworth).

Ainda se fosse um fiasco, Kung Fury renderia assunto: o filme foi rodado através de financiamento coletivo, pelo site Kickstarter, conseguindo arrecadar mais de US$ 600 mil – dinheiro muito bem empregado, diga-se de passagem. Kung Fury é divertido e inteligente e prova que não há limites para a criatividade – independente se você é um produtor hollywoodiano de sucesso ou simplesmente um nerd apaixonado por cinema.

Os Últimos Cangaceiros (Os Últimos Cangaceiros)

01Imagine você descobrir depois de décadas que seus pais foram integrantes do bando de Virgulino Ferreira, o temido Lampião? Os filhos do casal José Antonio Souto e Jovina Maria da Conceição passaram exatamente por esta experiência quando os pais, quase centenários, revelaram à família suas verdadeiras identidades: Antonio Inácio da Silva e Durvalina Gomes de Sá – ou melhor, Moreno e Durvinha, sobreviventes do grupo do matador nordestino.

Este é o fio condutor de Os Últimos Cangaceiros, o ótimo documentário do cineasta Wolney Oliveira que, muito mais do que contar a saga de um simples casal de “bandidos”, traz à tona também um pedaço da história do país, cujo cenário é o cangaço na região nordestina na primeira metade do século XX. Recorrendo a um rico acervo, formado por depoimentos inéditos e trechos de filmes famosos do nosso cinema (como O Cangaceiro, de Lima Barreto, A Mulher no Cangaço e Baile Perfumado), o diretor amplia as revelações do casal, estendendo seus segredos familiares e retornando a um importante período histórico brasileiro.

Moreno, que faleceu em 2010 aos 100 anos, foi um dos últimos homens do bando de Lampião, assim como Durvinha, que faleceu dois anos antes do esposo. O filme retrata como os dois ingressaram na trupe de Virgulino: ele, optou se bandear após ser humilhado por policiais locais; ela, cansada do pai, decidiu ir atrás de um outro cangaceiro. Após uma vida de crimes hediondos (que não são amenizados no documentário), os dois adotaram novas identidades e foram viver na capital mineira. Os Últimos Cangaceiros percorre ainda vários estados (Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo), o que enriquece o registro.

É interessante analisar o casal no decorrer da fita: se os dois fugiram escorraçados quando jovens, os ex-cangaceiros retornaram às terras por onde andaram e foram saudados como heróis, inclusive reencontrando um filho que abandonaram ainda criança. Os Últimos Cangaceiros é um registro rico em detalhes, cujo maior mérito é a boa utilização de seu material. Isso torna o documentário muito mais do que um registro pessoal, mas também um documento importante de nossa história.