Um Belo Verão (La Belle Saison)

França, início da década de 70. O país está passando pela efervescência da liberação sexual e o movimento feminista, por sua vez, atinge seu ápice. Neste contexto histórico, a trama de Um Belo Verão gira em torno de Delphine, uma camponesa que dedica sua vida aos serviços na fazenda de sua família no interior francês. Naquela região rural, a jovem mantém escondidos seus relacionamentos, já que não tem a liberdade de assumir sua sexualidade graças ao conservadorismo predominante naquele ambiente. Suas perspectivas mudam quando, em uma viagem a Paris, Delphine conhece um grupo de ativistas que lutam pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. Sentindo-se livre para ser quem realmente é, Delphine inicia um caso amoroso com Carole, uma mulher mais velha e casada, cuja personalidade influenciada por valores à frente de sua época acabam encantando a garota de costumes interioranos.

01

A relação entre elas, descompromissada inicialmente, se aprofunda com o tempo, especialmente quando Delphine é forçada a retornar ao campo para cuidar do pai com saúde debilitada. Carole, que não tem outra opção, decide acompanhar a amada, uma vez que o romance entre as duas já não é uma simples aventura. Delphine mostra força e maturidade ao liderar a fazenda, valorizando os ideais feministas pelos quais lutava na capital. Entretanto, a personagem é incapaz de conduzir sua relação com a companheira, limitando-a à clandestinidade – sobretudo por conta dos olhares desconfiados dos moradores locais e também da vigilância de sua mãe. Carole, que defende a liberdade acima de tudo, se sente incomodada com a situação e, claro, os conflitos são gerados a partir daí.

Não podemos voltar atrás. Só podemos ir em frente…

O ponto mais favorável do filme de Catherine Corsini, além de sua direção e da bela fotografia, é a atuação de suas atrizes. Existe, sim, uma química interessante entre Izïa Higelin e Cécile De France, evidenciado pela ótima construção das personagens – o que contribui para que o espectador abrace o drama dessas protagonistas e faz com que alguns problemas do longa sejam quase ignorados. No entanto, um deles chama a atenção e é a mudança do foco narrativo: a trama de caráter “social” é posta de lado em determinado momento, cedendo espaço apenas ao relacionamento entre as duas mulheres – e isso restringe Um Belo Verão apenas a um romance convencional, desperdiçando sua premissa inicial que certamente traria maior valor à obra.

Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass)

Já comentei outras vezes aqui sobre a importância do burtoniano Alice no País das Maravilhas à época de seu lançamento, em 2010. Apesar das críticas pouco amistosas, o longa foi um sucesso de bilheteria, alavancou a indústria do 3D nos cinemas e também iniciou a febre dos remakes de contos infantis. É até estranho que a Disney tenha demorado exatos seis anos para conceder uma sequência à história – desta vez com Tim Burton assumindo apenas a produção do projeto e deixando a claquete nas mãos de James Bobin (cujo currículo modesto não inclui nada além de dois filmes da série Muppets).

02

A narrativa desta nova aventura parte exatamente de onde terminou a primeira e segue basicamente a mesma premissa: Alice está em uma situação importante de sua vida “real” e é forçada a regressar ao mundo subterrâneo para resolver uma situação que só ela é capaz. Alice é agora a capitã do navio de seu falecido pai e, após uma extensa viagem de negócios, retorna a Londres e descobre que sua mãe está prestes a ceder a embarcação a Hamish Ascot (seu antigo noivo) em troca da hipoteca da casa da família. Seus amigos do País das Maravilhas, entretanto, estão preocupados com a vida do Chapeleiro Maluco – e para salva-lo, Alice terá que enfrentar o Tempo e resgatar todo o clã dos Cartolas.

É inegável que a primeira pergunta que se passa na cabeça de qualquer um ao assistir Alice Através do Espelho é: esta sequência é realmente necessária? Ao que tudo indica, a resposta é clara: não. A fórmula é saturada, não há novidades e, pior, repete praticamente os mesmos “moldes” do primeiro filme (que era repleto de erros – entre eles, o roteiro atropelado de Linda Woolverton, que demonstra não ter se importado com as críticas da fita anterior e aposta nas mesmas fichas). O argumento parou, literalmente, no tempo e não procurou corrigir as falhas de outrora, desperdiçando até boas tramas paralelas que poderiam trazer maior profundidade ao enredo.

01

O que ganha certo destaque agora é a protagonista: Alice, definitivamente, tem vida aqui. Existe uma temática de valorização e libertação da figura feminina que permeia o lado “real” da jornada de Alice, apesar de pouco explorada, é verdade. Para além disso, Mia Wasikowska parece estar muito mais à vontade com o papel, tomando às rédeas como protagonista – e, para falar a verdade, eu que já a critiquei muito devo admitir que ela apresenta uma das poucas boas atuações em um filme carregado de estrelas “apagadas”. Sacha Baron Cohen é o mesmo tresloucado de sempre; Anne Hathaway está bem menos carregada do que no longa anterior e isso tirou o charme de sua personagem; já Johnny Depp ainda dá sinais de não ter se achado. Além de Mia, o único “alívio” fica por conta de Helena Bonham Carter, que retorna como a Rainha Vermelha, rendendo divertidos momentos. Tecnicamente, é importante ainda salientar o bom uso do CGI, que criou cenários exuberantes em uma fotografia mais “clara”, “alegre”, “convidativa” – diferente da atmosfera um tanto “assustadora” da produção burtoniana.

Mas se você, leitor, quer uma dica, eu diria: vá assistir Alice Através do Espelho, sim. É óbvio que o longa vale a pena como entretenimento para a família, mesmo com suas deficiências. E é isso que muita gente procura indo ao cinema: se divertir. Talvez Alice Através do Espelho sequer tenha o mesmo desempenho do primeiro, uma vez que sua estreia coincide com a de X-Men: Apocalipse. Ou seja, Alice chegou de forma errada na hora mais errada ainda – mas mesmo assim, caso você não espere muito, Alice Através do Espelho cumpre muito bem sua proposta de ser um blockbuster. Descartável, sim, mas que funciona de algum jeito…

Os Anarquistas (Les Anarchistes)

“ANARQUIA” – segundo o Aurélio, “falta de chefe; desordem, confusão (motivada por falta de direção); sociedade constituída sem governo”. Na Wikipédia, “(…) uma ideologia política socialista e revolucionária baseada em uma crítica da dominação e em uma defesa da autogestão, e que defende uma transformação social fundamentada em estratégias que deverão permitir a substituição de um sistema de dominação estatista e capitalista por um sistema socialista e autogestionário”.

Os Anarquistas, novo filme de Élie Wajeman (de Aliyah, 2012), se passa no final do século XIX, precisamente no ano de 1899, onde Jean Albertini, um militar de origem humilde, é escolhido para se infiltrar em um grupo de anarquistas parisienses. Com a promessa de promoção caso a operação seja bem-sucedida, Jean fornece aos seus superiores informações sobre o cotidiano daquelas pessoas, enquanto se envolve fraternalmente com os membros do grupo – em especial, com a jovem Judith, uma das líderes da trupe de rebeldes.

01

Talvez o maior erro de Os Anarquistas seja repetir pela não-sei-qualésima vez a velha estrutura narrativa da fórmula “infiltrado versus dilema”. Por conta disso, a obra de Wajeman fica restrita a um filme de época visivelmente previsível. Os ideais anárquicos são tratados com superficialidade, sem força suficiente para fomentar uma analogia político-social com a nossa contemporaneidade. Para além disso, falta ritmo ao argumento devido, sobretudo, à montagem da fita e também ao próprio roteiro, que mantém um equilíbrio durante toda a projeção e que dificilmente prende a atenção do espectador. É como se você assistisse a uma cena já esperando o que vai acontecer porque tem a incrível sensação de já tê-la visto anteriormente dentro do mesmo projeto.

No entanto, deve-se elogiar o trabalho cenográfico, bem como os demais itens de direção de arte, que praticamente nos transportam para a Paris daquele período. A fotografia, predominantemente em cores frias, ganha bastante com a utilização de pontos de luz, o que contribui para dar um sentido de “distanciamento” daquele grupo com o restante do mundo – e é, a meu ver, um dos pontos mais favoráveis da película. Com relação ao elenco, Tahar Rahim convence no papel do homem dividido entre a obrigação e a lealdade, vivendo em constante tensão com o medo de ser descoberto – apesar de não ser excepcional, bom deixar isso claro. Filme de abertura da Semana da Crítica no Festival de Cannes em 2015, Os Anarquistas é esteticamente atraente, porém faltou mais ousadia – algo claramente necessário ao tratar o tema. Cadê o fogo?

O Conto dos Contos (Il Racconto dei Racconti)

Geralmente, os contos de fadas se iniciam com a expressão “Era uma vez…” e se despedem com o célebre “…e viveram felizes para sempre”. Ao menos, foi assim que nossa cultura “cinematográfica” nos ensinou. Repare, por exemplo, na influência de Walt Disney: suas obras mais memoráveis são justamente os contos que povoaram a imaginação de crianças e adultos ao longo das últimas décadas – o que contribuiu (e muito) para a criação de seu império. Mas as histórias Disney, definitivamente, estão muito longe de referenciar como deveriam o material que as originou. Princesas fofas? Heróis valentes? Animais antropomorfizados? Deixe isso de lado – e talvez assim você será capaz de apreciar como se deve o longa O Conto dos Contos.

01

O filme do italiano Matteo Garrone (Gomorra, de 2008) narra três tramas paralelas que envolvem os monarcas de três reinos diferentes. Na primeira delas, um rei mata um monstro marinho para roubar o coração da criatura e fazer sua esposa estéril engravidar. No segundo núcleo, um rei libertino se apaixona pela bela voz de uma camponesa, sem saber que na realidade sua amada é uma idosa. Finalmente no terceiro segmento, um rei viúvo cria sua filha adolescente, que deseja se casar e sair além dos muros do castelo.

Essas histórias são unidas apenas pela época em que ocorrem. Isso até chega, no início, a dificultar ligeiramente a compreensão do espectador que for ao cinema sem antes ter lido a sinopse, porque toda a ambientação parece muito igual. No entanto, conforme o filme caminha, cada um destes “contos” mantém sua estrutura própria e, consequentemente, seu devido clímax. Para além disso, há um certo equilíbrio entre as narrativas: em alguns momentos, é visível que algumas perdem um pouco o foco, dispersando a atenção do público; em compensação, outras começam a crescer (e mesmo surpreender) durante seu desenvolvimento.

02

Mas há ainda um upgrade: O Conto dos Contos é visualmente encantador. A fotografia do veterano polonês Peter Suschitzky já impressiona nos primeiros instantes, bem como toda a direção de arte do projeto. A trilha assinada pelo sempre competente Alexandre Desplat agrega bastante à atmosfera da fita, indo de pontos discretos a outros mais intensos. Quanto à decupagem do cineasta, é importante observar uma coisa: diferente do que acontece nas tradicionais produções fantasiosas (vide O Senhor dos Anéis, por exemplo), que optam pelos constantes planos abertos de forma a destacar cenários exuberantes, O Conto dos Contos recorre a enquadramentos menores, o que valoriza a construção psicológica de seus personagens e, consequentemente, a atuação do elenco estelar (com nomes como Salma Hayek, Toby Jones, Vincent Cassel e John C. Reilly).

A única ressalva de O Conto dos Contos é sua última parte. Fica evidente que uma história ganha maior tempo em seu desfecho, enquanto as demais ficam à deriva. A cena final soa apressada e com isso algumas brechas surgem (o que se resolveria com quinze minutos a mais de projeção), mas nada que estrague a ótima experiência que é O Conto dos Contos. O filme é uma aventura cheia de fantasia que certamente agrada aqueles que apreciam o gênero, especialmente por escolher apresentar uma visão mais adulta, grotesca e surreal de histórias que nos são entregues, em sua maioria, de maneira tão infantilizada. Esse é um dos grandes méritos de O Conto dos Contos, o que por si só já o torna um dos melhores filmes do ano.

Angry Birds: O Filme (The Angry Birds Movie)

Nunca fui muito fã de videogames, seja a plataforma que for. É um entretenimento que não me agrada por questões particulares, mas é inegável o sucesso de alguns games inclusive para a cultura pop. Talvez um dos exemplos mais interessantes dos últimos anos seja a série Angry Birds, desenvolvida pela Rovio Entertainment no final da década passada e que hoje já soma mais de 3 bilhões de downloads. O jogo foi absoluto – daí o frenesi com a notícia da adaptação de Angry Birds para os cinemas. Uma pena que, diferente do jogo, Angry Birds não funciona como filme.

01

Angry Birds – O Filme é uma animação (da Sony Pictures Imageworks) que parte de uma premissa já batida em produções voltadas ao público infantil: um herói rejeitado percebe uma “ameaça” e, com o auxílio de amigos, salva os demais e vira o queridinho do momento. No caso do longa dirigido pela dupla Clay Kaytis e Fergal Reilly, o hostilizado da vez é Red, um pássaro ranzinza que vive em uma ilha onde a alegria é praticamente uma lei. Após dar um “chilique” com os moradores do local, Red é enviado a uma espécie de sessão de terapia, para aprender a controlar seu temperamento. Lá, ele conhece outros pássaros “esquentadinhos” que ajudarão Red a resgatar os ovos das famílias daquela comunidade, que foram “sequestrados” por porcos verdes.

A verdade é que, exceto em sua terceira e última parte, pouco do material que o originou é referenciado em Angry Birds – O Filme. O conflito que gera a “narrativa” do game é restrita praticamente a um curto intervalo de tempo. Isso é ruim? Não seria se o argumento soubesse aproveitar o restante da fita com uma história realmente boa. Ao invés disso, o roteiro se perde em tipos clichês (quando não mal aproveitados), piadas sem ritmo e uma trilha sonora para lá de fraca. Salva-se apenas a excelente estética: os cenários são primorosos e os personagens são graficamente bem desenvolvidos. Mas isso não é suficiente: Angry Birds não convence como animação. Talvez se a proposta fosse mais incisiva na caracterização dos “angry birds” reais, a coisa fluiria melhor. Pelo contrário: a trama nonsense e infantilizada de Angry Birds – O Filme o torna um passatempo passageiro assim como o jogo (que há muito perdeu o fôlego).

Zelig (Zelig)

Escrito e dirigido por Woody Allen, Zelig é, sem sombra de dúvidas, um dos trabalhos mais interessantes de sua carreira – infelizmente esnobado pelo público e ofuscado por outras de suas obras mais “famosas” (porém superestimadas, a meu ver). Propositalmente estruturado como um documentário, o filme narra a história de Leonard Zelig (o próprio Woody), um homem comum com uma característica bastante peculiar: ele tem a incrível capacidade de transformar sua aparência, bem como suas maneiras e até seu intelecto, de forma a adaptar-se ao ambiente ao seu redor. Internado em um hospital em Manhattan, seu caso chama a atenção da doutora Eudora Fletcher (Mia Farrow), que acaba se apaixonando pelo paciente.

02

O que faz Zelig ser um filme tão genial é a segurança com a qual Woody brinca com a narrativa. Se o próprio estilo pseudo-documentário já lhe traz possibilidades cômicas, Allen potencializa esta perspectiva com a ironia recorrente em sua filmografia. O cineasta segue firmemente o padrão “documentário” tradicional, inserindo elementos como as filmagens em preto e branco e os depoimentos de pessoas que teriam conhecido o protagonista, por exemplo. Para além disso, as técnicas de manipulação de imagens são bastante convincentes para a época (o longa é do início da década de 80): Zelig é visto em fotos ao lado de personalidades, como Al Capone, Charles Chaplin, F. Scott Fitzgerald e, pasmem, Adolf Hitler.

Mas Zelig não é apenas uma comédia crua e sem propósito. Zelig é também uma fábula atemporal sobre a inútil necessidade do ser humano de aceitação. Para Leonard, se adaptar aos demais ao seu redor era se sentir “aceito”, era estar “seguro” – daí sua transformação. Ser “igual” era para ele um instinto de sobrevivência, uma maneira de estar integrado ao todo. Cá entre nós: pouca coisa mudou deste então. Ainda hoje, é possível encontrar milhões de “Zeligs” sem personalidade, sedentos de atenção, tentando ser apenas mais um na multidão – as redes sociais estão aí para comprovar. Zelig consegue criticar esse comportamento através de uma trama repleta de humor, que ironiza até mesmo o sensacionalismo da imprensa e o culto às celebridades. É Woody Allen em grande forma – mais até do que em seus supostos momentos mais inspirados.

Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) (Everything You Always Wanted to Know About Sex (But Were Afraid to Ask))

O sexo ainda hoje é um tabu – mas é curioso como muitos nomes, ao longo da história, já tentaram desmitificar esse assunto. Talvez Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) não traga muita profundidade ao tema, até mesmo se levarmos em consideração que se trata de uma obra cômica (não que a comédia não possa ser um excelente veículo de comunicação). Entretanto, é interessante analisar a narrativa de um Woody Allen em início de carreira, trazendo às telas alguns elementos que seriam marca impressa de sua extensa, cultuada e controversa filmografia.

Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é composto por sete esquetes, baseadas em seções do livro homônimo de David Reuben – e, definitivamente, é a tentativa de Allen de esclarecer supostas dúvidas do público em relação ao sexo (a julgar pelo título óbvio e pela estrutura narrativa). Cada “segmento” é iniciado com um questionamento e Allen utiliza-se de histórias distintas para responder cada um deles.

01

O que mais impressiona é o fato de que estamos diante de um filme do início dos anos 70. O que isso quer dizer? Bem, naquela época esta produção pode ter funcionado até que bem – mas, é claro, talvez hoje já não cause tamanho impacto. No entanto, vale a pena acompanhar a habilidade de Allen em fundir o nonsense dentro do cotidiano para explorar de forma quase surreal o quão ridículo é a visão que o ser humano, ainda hoje, tem acerca do sexo. Assim, algumas sequências são irrepreensíveis, como o núcleo do médico que se apaixona por uma ovelha ou até mesmo o bom velhinho Woody Allen caracterizado como um espermatozoide. Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é Woody Allen parodiando a tudo e a todos: Shakespeare, filmes antigos de terror, cinema italiano, programas de TV – mas principalmente a imbecilidade humana, daquele jeitinho que só ele sabe fazer. Só isso já faz com que o longa tenha seus créditos (e devido destaque) na obra alleniana.

O Tesouro (Comoara)

O Tesouro, produção romena que chega às salas de cinema nacionais esta semana, é um filme sem “firulas”. Simples e direto, o longa de Corneliu Porumboiu está longe de ser uma obra-prima cinematográfica, mas talvez sua pouca pretensão é que o torna interessante. A trama acompanha Costi, um jovem pai de família que leva uma vida relativamente comum e ordinária na capital romena, Bucareste. Ele vive sem luxo – na verdade, é com muito custo que Costi dá conta das despesas da casa e não deixa faltar nada ao filho, um garotinho de seis anos que gosta de dormir ouvindo as histórias que o pai conta, principalmente a de Robin Hood. Em uma noite inesperada, seu vizinho Adrian convence Costi a lhe ajudar a procurar um suposto tesouro no quintal da casa de sua família no interior, escondido por seu avô na época da ascensão comunista.

01

A partir daí, uma série de fatos tragicômicos se sucede, amparados por um timing de humor bastante sutil, seco e sem parvoíce. Toda a mise-en-scène da película é pautada nisso e na simplicidade da narrativa – do cotidiano das personagens à escolha dos planos, por exemplo. Não há nenhum tipo de “estilização”: ao que parece, o único propósito do diretor é expor sua história de forma bastante objetiva – e é exatamente isso que ele consegue, apesar do filme ganhar alguns contornos visivelmente “absurdos” (deixando de ser um medíocre conto realista para cair em um quase surrealismo moderno). Apesar de ter seu argumento construído em torno da relação entre pai e filho, o grande antagonista de O Tesouro, no entanto, é o poder público, praticamente um vilão: todo e qualquer artigo precioso encontrado deve ser entregue ao governo para futura avaliação, podendo ou não ser ressarcida ao dono da descoberta – e este é apenas uma das pedras no caminho de Costi, um herói comum, próximo a todos nós. Com um desfecho ótimo e diferente, O Tesouro vai muito além de uma simples “caça ao tesouro” tradicional: a riqueza nem sempre fala mais alto quando o que se está em jogo é o reconhecimento daqueles que a gente ama.

O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice)

É comum ouvirmos por aí que a genialidade sempre vem carregada de uma dose de loucura. E, de fato, essa afirmação não é totalmente inválida – seja para o bem ou para o mal. E é essa ideia que podemos acompanhar em O Dono do Jogo, novo filme de Edward Zwick (de Lendas da Paixão e Diamante de Sangue) estrelado por Tobey Maguire. Na trama, baseada em acontecimentos reais e ambientada na década de 70 em plena Guerra Fria, conhecemos o jovem fenômeno Bobby Fischer, um enxadrista norte-americano que tenta levar seu país a conquistar o seu primeiro título no Campeonato Mundial, desafiando o então vencedor, o russo Boris Spassky.

01

O Dono do Jogo é previsível do início ao fim. Talvez por se tratar de uma biografia, sabemos exatamente o que esperamos de sua narrativa e é justamente isso que o seu diretor nos entrega – com bastante sobriedade, sem grandes surpresas ao longo de sua projeção. Seu desenvolvimento é feito sem pressas e a condução é significativamente equilibrada. Todavia, isso não diminui esta produção. Pelo contrário: com isso, conseguimos construir (ou melhor, desconstruir) nosso protagonista: conforme o argumento se intensifica, os distúrbios psicológicos de Fischer se agravam. Seus ataques de insanidade se tornam frequentes à medida que sua lucidez se esvaece e o cineasta já consegue prender a atenção do espectador nos instantes iniciais do filme. Ainda que Tobey não tenha um desempenho tão satisfatório (é visível que o ator está desconfortável em algumas sequências), a tensão criada na história ganha traços de um thriller – mesmo com as escolhas “fáceis” ao qual seu diretor recorre.

O longa cresce ainda mais a partir de sua segunda parte, onde a disputa entre Fischer e Spassky fica cada vez mais acirrada. Porém, esta disputa entre eles é meramente simbólica – a batalha aqui é patriota: EUA e União Soviética conflitavam entre si para conquistar a hegemonia política, econômica e militar no mundo. O xadrez apenas disfarçou aquilo que todos já sabiam. Assim, O Dono do Jogo vai muito além de um thriller psicológico, indo muito mais a fundo e se tornando um filme que, definitivamente, merece ser conferido.

Amor Por Direito (Freeheld)

Na trama de Amor Por Direito, escrita por Ron Nyswaner (de Filadélfia), acompanhamos a luta da detetive Lauren Hester e sua companheira Stacie Andree para conquistar os benefícios da pensão de Hester, após a policial ser diagnosticada com um câncer no pulmão. O diretor Peter Sollett, no entanto, é um artista de filmografia modesta até aqui – mas foi ousado ao escolher como protagonistas de seu filme a dupla Julianne Moore e Ellen Page. Moore, recém-oscarizada por seu brilhante trabalho em Para Sempre Alice, é sem dúvida uma das atrizes mais interessantes de sua geração. Page, por sua vez até então menos cultuada, se assumiu homossexual no início de 2014. Mais do que isso: Amor Por Direito chegou aos EUA pouco depois que o país, em uma decisão histórica, legalizou o casamento gay (resultado de anos de ativismo e incontentáveis batalhas judiciais de movimentos a favor dos direitos civis dos homossexuais).

01

Infelizmente, Amor Por Direito não consegue ser tão intenso quanto a magnitude de sua história. Baseado em fatos reais, Amor Por Direito se limita a um melodrama por vezes eloquente, exagerado. Nyswaner não consegue recriar um roteiro tão envolvente quanto em Filadélfia: o argumento fica perdido no dramalhão convencional, apelativo em alguns instantes e sem muito charme. Tampouco Moore está em sua melhor performance. Tudo bem, sua transformação física é impressionante – e é um delírio ver o quanto Julianne se despe de toda vaidade para compor suas personagens. Mas o excesso de carga dramática de seu tipo nos soa um tanto artificial e, consequentemente, cansativo, fazendo com que a atuação de Moore sirva apenas de “escada” para Page. Sua Stacie se resume a poucas cenas inspiradas, visivelmente à sombra da grande suposta “estrela” do filme. A “desculpa” seria de que Stacie seria tímida demais na vida real, mas a verdade é que o talento da novata não se sobressai.

Mas Amor Por Direito não é totalmente descartável, rendendo até mesmo algumas boas cenas – principalmente as sequências durante as sessões de vereadores, que mostram toda a hipocrisia e arrogância da classe política (mas até esses momentos são inflamados de discursos tendenciosos, perceba). Em suma, todas as soluções são fáceis e talvez seja este o termo que melhor defina Amor Por Direito. Logo, se você quiser derramar umas lágrimas e não se importar de ser quase que forçado a isso, eis um filme que não vai te decepcionar. Apenas esteja ciente: carregue o lenço no bolso, mas prepare-se para sair do cinema vazio.