Troye Sivan: a Voz Por Trás de “Blue Neighbourhood”

A menos que você não acompanhe nada de música, será difícil você ainda não ter ouvido falar em Troye Sivan – cantor sul-africano (mas que reside na Austrália) e oriundo da geração vlogger que vem chamando a atenção da crítica especializada. Após uma série de EPs bem sucedidos, chega às lojas o seu disco de estreia Blue Neighbourhood – um trabalho que, apesar de não conter nada excepcionalmente novo, atesta o talento do jovem artista de apenas 20 anos.

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E quando digo que Blue Neighbourhood não traz nada relativamente inédito não estou sendo desfavorável ao álbum. É apenas uma constatação. A verdade é que Troye, como intérprete, é consideravelmente muito bom. Com voz delicada e bastante suavidade nos vocais (e isso empresta certa melancolia às suas interpretações), o garoto não poderia passar despercebido por onde fosse. Não à toa, seus singles são sucesso – o que revela as sábias escolhas de sua equipe.

Apesar disso, no entanto, Blue Neighbourhood não inova – e pior: não se arrisca. Ao longo de suas 16 músicas (da versão deluxe), o ouvinte tem a impressão de que tudo é, na verdade, uma grande faixa subdividida pois todas elas tem, aparentemente, a mesma “cara”, quase o mesmo “formato” e “batida”. Recorrendo a pegada mais eletropop, são poucas as canções que se destacam das demais – veja bem, não estou dizendo que por essa razão elas sejam ruins; pelo contrário: as faixas são muito bem produzidas e interpretadas, mas musicalmente são muito próximas, explorando pouco as letras compostas pelo garoto. Talvez isso possa até criar uma identidade ao trabalho de Troye – mas há quem possa se sentir um pouco frustrado.

De cara, os melhores momentos do disco ficam por conta de Wild, Fools e Talk Me Down – músicas que já ganharam vídeos e formam, nesta ordem, a trilogia Blue Neighbourhood. Nela, Troye conta a história de dois amigos de infância que acabam se apaixonando e tendo um relacionamento conturbado (uma espécie de “biografia” do próprio Troye, homossexual assumido). Mas há outras boas seleções no álbum, como Youth, onde o eu lírico disserta sobre as diversas possibilidades de seu amor, ou The Quiet, com seu instrumental caprichado. Há também espaço para algumas baladas interessantes, como a nostálgica Cool ou a romântica for him.Suburbia também tem seu lugar, bem como Too Good (com arranjos de piano e cordas discretas) e Ease. Heaven, por sua vez uma parceria com Betty Who, é, de longe, uma das mais incríveis canções do disco – e relata quando Troye descobre a sua sexualidade.

Como um todo, Blue Neighbourhood representa um bom debut para um artista que tem tudo para crescer ainda mais na indústria fonográfica, que com a atual falta de criatividade e o advento da internet, vem sofrendo uma crise sem precedentes. Troye, como muitos outros youtubers, criou sua fanbase na internet – e isso é ótimo, pois abre oportunidades a todos. Mas a realidade é que são poucos que merecem realmente ser observados de perto – e Troye está nesta lista. Com muito potencial, o cantor já é queridinho do público. É esperar pra ver seus próximos passos e torcer para que ele amadureça e perceba logo tudo o que pode fazer na música.

Dois Amigos (Les Deux Amis)

Um dos intérprete francês mais badalados na atualidade, Louis Garrel esteve por esses dias no Brasil para a pré-estreia de seu primeiro longa-metragem como diretor, Dois Amigos, baseado na peça Les Caprices de Marianne, de Alfred de Musset. Selecionado para a semana da crítica no Festival de Cannes desse ano e aplaudido no Lisbon & Estoril Film Festival 2015, quando foi apresentado, Dois Amigos revela o potencial de Garrel por trás das câmeras, partindo de uma premissa já manjada no cinema: a história de dois homens que se apaixonam pela mesma mulher.

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Mas isso não é, necessariamente, um problema. Hitchcock, inspiradíssimo, uma vez afirmou que, no cinema, não faz mal partir do clichê – o ruim é ficar nele, como o próprio Garrel teria citado. Garrel parece ter seguido a receita à risca: parte de um tema recorrente, mas cria uma narrativa, no mínimo, instigante. A trama gira em torno de um complicado triângulo amoroso formado por Mona (Golshifteh Farahani), uma presidiária que trabalha durante o dia em uma cafeteria para reduzir sua pena, e os melhores amigos Clément (Vincent Macaigne) e Abel (o próprio Louis). Quando o primeiro é “dispensado” por Mona, ele recorre ao companheiro para reconquistar a amada.

Conhecido por atuar em filmes de caráter cult (e também por suas aparições como veio ao mundo na maior parte de seus trabalhos), Garrel não faz aqui uma obra tão sofisticada, cinematograficamente falando. Na verdade, sob o ponto de vista cinematográfico, Dois Amigos é um longa relativamente “simples”, sem grandes surpresas e até mesmo previsível em alguns momentos. O roteiro de Garrel em parceria com seu amigo Christophe Honoré (com quem Louis já trabalhou em diversas ocasiões) é uma espécie de “bromance à francesa”, arrancando risadas do público com algumas situações inusitadas de seus protagonistas, apesar de não ser necessariamente uma “comédia” convencional com muito escracho. É na leveza da condução de sua mise-en-scène que Dois Amigos tem méritos, sobretudo nas escolhas estéticas de Garrel, como na excelente trilha sonora e na fotografia modesta mas enquadrada na proposta, bem como o figurino urbano que aposta na casualidade e agrega certo charme ao todo.

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É talvez na construção de suas personagens, entretanto, que Garrel ganha maiores créditos como cineasta. Logo de cara é possível identificar bem cada um dos tipos, pois Louis acerta no tempo certo que concede a cada um deles. Clément é o típico “último romântico”: acredita no amor e, consequentemente, sempre se frustra diante de um acontecimento que o impeça de alcançá-lo – além de sua insegurança natural que o faz admirar ainda mais Abel, o amigo bon vivant que arranca suspiros das mulheres (e alguns homens). Juntos, no entanto, eles não passam de dois indivíduos imaturos que não fazem a menor questão de se tornarem maduros. Frágeis, esses dois personagens precisam um do outro a todo instante, mesmo que não se deem conta disso – e são reflexos de uma geração que se recusa a assumir responsabilidades. Mona, por sua vez, é sempre retratada com certo ar de mistério: nunca descobrimos qual o motivo de sua prisão ou qual ato reprovável ela possa ter feito – e a beleza exótica de sua intérprete aguça nossa curiosidade. É ela a responsável por protagonista um número de dança que, em minha opinião, é uma das melhores cenas do cinema francês nesta temporada.

Dois Amigos, em determinadas ocasiões, até nos remete a Truffaut (Jules e Jim) ou Godard (Uma Mulher é Uma Mulher) – especialmente este último, no tom leve da narrativa. Não, não há intenção aqui de comparar Louis Garrel a qualquer um desses grandes cineastas. No entanto, Dois Amigos é um excelente debut para um artista que, injustamente, ficou marcado sobretudo por sua beleza irradiante ou por ser filho de quem é – e não pelo talento (e muito) que possui. Dois Amigos é o princípio da libertação de Garrel – e a julgar por seu desempenho aqui e em outros curtas, tudo nos leva a crer que Garrel ainda vai dar muito que falar…

Garota Sombria Caminha Pela Noite (A Girl Walks Home Alone at Night)

Estamos em Bad City, uma cidade iraniana vazia em suas locações e sentimentos e reduto das figuras mais ordinárias: um traficante que abusa do poder, uma prostituta arruinada, um viciado sórdido, um menino que pede esmolas, entre outros tipos repulsivos. Bad City é o retrato de uma sociedade sem esperança, perdida dentro de sua própria decadência, um cenário perfeito para o aparecimento de uma estranha garota que passa a seguir de perto as almas mais repugnantes daquele local. No entanto, o encontro dessa misteriosa personagem com um rapaz solitário fará florescer uma inusitada história de amor.

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Com roteiro e direção de Ana Lily Amirpou, Garota Sombria Caminha Pela Noite é uma trama vampiresca incomum, saudada inclusive como uma das melhores produções do gênero nos últimos anos. Para o espectador mais atento, o longa é repleto de alegorias – como a própria Bad City, praticamente uma cidade “fantasma”. Seus poucos moradores vivem em uma incrível sensação de isolamento. Arash, o jovem que sofre com o pai viciado e endividado, é o mais puro exemplo disso: ele aparenta estar isolado a todo instante, como se não se encaixasse naquele ambiente, como se pertencesse a outro lugar – o que pode justificar sua inexplicável aproximação com a intrigante vampira (que parece estar ali com o único pretexto de alimentar-se daquelas pessoas problemáticas).

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A narrativa lenta (que flerta com o suspense, mas sem muito causar a tensão deste gênero) perde sua força no decorrer da fita, funcionando apenas na primeira parte da produção. A partir disso, o público acompanha o desenrolar da história apenas pela curiosidade, afinal Garota Sombria Caminha Pela Noite não deixa de ser uma obra, no mínimo, instigante – e isso se deve muito ao seu excelente apelo estético-sonoro. Enquanto a fotografia em preto-e-branco já chama a atenção logo nos minutos iniciais (que nos remete em alguns momentos aos quadros expressionistas de outrora), a seleção musical incomum enriquece bastante o filme, mesclando variados estilos que se encaixam perfeitamente à trama. E são esses pontos que tornam Garota Sombria Caminha Pela Noite uma experiência cinematográfica interessante, mesmo que o argumento em si não tenha muito vigor.

One Direction Acerta com “Made in The A.M.”

Cá entre nós: os britânicos da One Direction nunca lançaram obras tão memoráveis assim. Na verdade, seu maior mérito foi estar à frente de canções adolescentes com refrões pegajosos – além de protagonizar estripulias no palco que deixavam seu público alvoroçado. Mas sabe como é: eles cresceram (não muito, claro) e seus fãs puderam acompanhar diante de seus próprios olhos as mudanças que acompanharam os garotos. Made in The A.M., quinto CD do grupo, parece refletir um grau acima da transformação artística do agora quarteto, ainda que alguns elementos que contribuíram para fazer com que a banda atingisse seu atual patamar estejam presentes.

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Ok, Made in The A.M. está muito longe de se consagrar como um marco pop; mas é provavelmente o melhor registro da 1D até hoje e, é claro, não vai desapontar aos fãs. Ao longo de treze músicas (além de bônus da versão luxo), Made in The A.M. é menos “infantilizado” que os discos anteriores dos rapazes. Também é menos “eletrônico” – o ouvinte é capaz até de identificar cada instrumento utilizado, algo que incomodava muita gente lá atrás. Mesmo vocalmente, os integrantes parecem ter melhorado bastante – e fica até mais difícil definir qual deles se sobressai, pois há uma boa harmonia entre suas vozes.

Made in The A.M. abre com a interessante Hey Angel. Desprezada por muitos por conta da letra “fácil”, esteticamente ela tem sua importância dentro do álbum. É seguida por Drag me Down e Perfect, músicas radiofônicas e pop que foram excelentes escolhas como singles iniciais. Há espaço para algumas boas baladas, como If I Could Fly e Long Way Down, além de Love You Goodbye, com sua ótima melodia, e I Want to Write You a Song, com o minimalismo de um violão e vocais modestos mas eficientes. Destaca-se também End of The Day, cuja mudança de ritmo a faz soar estranha à primeira audição, mas depois é capaz de agradar aos ouvidos; e What a Feeling, com sua batida meio retrô e diferente de tudo o que os caras faziam até o momento. Menos empolgantes, entretanto, são Infinity (apesar de ter cara de música de trabalho, provavelmente), a surpreendente Olivia e History, que encerra o disco, mas de forma apenas “morna”, com uma frase pra lá de clichê (“nós podemos fazer mais, nós podemos viver para sempre”).

Sob um panorama geral, Made in The A.M. ganha certa relevância na carreira da One Direction por ser seu disco mais “redondo”, com canções mais equilibradas e que somam ao todo. Não à toa, a ausência de Zayn Malik (que deixou os amigos no início deste ano) nem é percebida, pois os demais conseguem suprir sua falta com tranqüilidade. Além disso, a maioria das faixas foi escrita pelos próprios integrantes, diferente do que acontecia anteriormente – e isso é essencial para tornar este registro mais “pessoal”, único. Made in The A.M. supera até mesmo Four, último álbum que já demonstrava certo amadurecimento. Resta saber se eles conseguirão amadurecer totalmente e fazer música pop com um nível de qualidade acima. A banda já anunciou um hiato para os próximos anos – torçamos, então, para que eles possam voltar melhores e crescidos.

O Presente (The Gift)

Simon retorna à sua antiga cidade junto com a esposa Robyn após receber uma irrecusável oportunidade na empresa em que trabalha. Após a chegada do casal na nova casa, Simon reencontra Gordo, um amigo da época de escola que logo se aproxima dos pombinhos. Em pouco tempo, este misterioso homem se infiltra na vida da família, se tornando uma indesejada presença.

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Tudo bem, a premissa de O Presente não é necessariamente inovadora: uma pessoa inconveniente que passa a “perseguir” outra – receita batida em filmes de suspense. O que talvez diferencie um pouco a trama de estreia de Joel Edgerton é que, aos poucos, um segredo comum do passado de Gordo e Simon vem à tona – e aí descobrimos que Simon pode não ser tão “bacana” quanto se mostra, nem Gordo o “monstro” que o primeiro o faz parecer. Assim, a narrativa se desenrola a partir das incertezas de Robyn com relação ao seu marido. Afinal, é possível voltar a confiar em alguém após uma série de mentiras mal explicadas e não resolvidas? E mais: quem são, na realidade, estes dois homens e o que aconteceu entre eles? Mas estes questionamentos não impedem que O Presente seja apenas um filme “morno”, que não desperta muita empatia ou interesse do público.

Talvez isso se dê pelo trio de protagonistas não tão competentes. O próprio Joel Edgerton, como Gordo, não convence – dando a impressão de que tem uma batata quente na boca em todas as cenas; Jason Bateman mantém um semblante de paisagem durante toda a fita, enquanto Rebecca Hall é bastante prejudicada por seu tipo mal desenvolvido. Logo, O Presente não passa de uma produção sem tanto glamour que dificilmente gerará muito burburinho por aqui, apesar de sua proposta interessante. Mal executada e recorrendo a recursos fáceis (como a câmera que dá ao espectador a visão de quem observa os personagens, os sustos previsíveis ou a música quase automática), a história ainda peca por um desfecho, no mínimo, incompatível com a proposta do filme. O Presente até tinha potencial, mas é fato que a direção inexperiente de Edgerton contribuiu muito para torná-lo apenas um passatempo dispensável.

Como Sobreviver a um Ataque Zumbi (Scouts Guide to the Zombie Apocalypse)

Costumo dizer que, para mim, uma das melhores coisas após um longo período assistindo filmes “sérios” é embarcar em alguma produção sem nenhum compromisso e que não me exija muito – justamente para não ter que me doar por completo com e para até, quem sabe, ser surpreendido. Chega até a ser prazeroso – não à toa, o termo guilty pleasure é comumente associado a esse tipo de filme “ruim” mas que, por algum motivo, acaba nos agradando. Como Sobreviver a um Ataque Zumbi se encaixa perfeitamente nessa categoria.

A trama gira em torno de três amigos adolescentes, escoteiros desde crianças, que estão passando pela difícil fase do “amadurecimento” – e aqui, já encontramos os estereótipos mais comuns nessas comédias: o garoto que só pensa em mulher e sexo; o gordinho desajeitado que parece não amadurecer jamais; e um jovem tímido apaixonado pela irmã do outro companheiro. Enquanto dois deles já se cansaram do escotismo e pensam em abandonar a atividade, o outro se sente traído – e, é claro: a amizade do trio fica abalada. No entanto, as diferenças entre eles são postas de lado quando a cidade em que vivem é infestada por uma epidemia zumbi.

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Sim, Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é um típico besteirol norte-americano, mas está longe de ser assim tão péssimo quanto pode parecer à primeira vista. Para começar, um ponto que favorece muito o longa de Christopher Landon é o fato de a projeção não ser extensa: apenas uma hora e meia é o bastante para o desenrolar da história. Está certo que o roteiro recorre a um punhado de clichês narrativos; entretanto, há alguns momentos que valem o ingresso e é possível até esboçar algumas boas risadas (por exemplo, você conseguiria imaginar um morto-vivo cantando Britney Spears? Pois é, isso acontece aqui!).

Também temos que entender que a trama não exige atuações espetaculares. Na verdade, ela até sobrevive de performances bizarras que dão todo o tom de “insanidade” que é a proposta da fita. Nesse ponto, vale a pena observar o carisma e a boa química do elenco formado por Tye Sheridan, Logan Miller e Joey Morgan. De resto, tirando o uso abusivo de piadas de caráter sexual ou escatológico (às vezes desnecessárias), Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é o tipo de filme que centraliza sua força justamente ao abordar o grotesco, o bizarro, o escroto. Então, se você for ao cinema com alguma pretensão, esqueça: não é indicado para você. Do contrário, não tem jeito: embarque no absurdo e tenha alguns instantes de risadas garantidas com um filme que é ruim – e por isso mesmo, a gente gosta…

Labirinto de Mentiras (Im Labyrinth des Schweigens)

Frankfurt, 1958. Johann Radmann é um jovem promotor de justiça que está iniciando sua carreira, cuidando de processos pouco expressivos e sem grandes perspectivas. A situação muda quando Johann descobre que um ex-oficial da SS está trabalhando como professor em uma escola infantil. Ao analisar a situação, Johann descobre também outros nazistas que, assim como o docente, levam uma vida normal, sem terem sido punidos pelos crimes que cometeram no passado. Com a ajuda de um repórter, Johann consegue carta branca em seu departamento para investigar os casos e reunir provas que possam incriminar os culpados – uma busca que se torna quase uma obsessão para ele.

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É interessante notar que vira e mexe surge um filme que traz alguma história relacionada aos fatídicos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Desta vez, é a Alemanha que tenta ressuscitar seus próprios fantasmas recriando o processo jurídico que ficou conhecido como “O Julgamento de Auschwitz” que, com o depoimento de mais de 200 vítimas, condenou 17 nazistas por crimes contra a humanidade. Este drama alemão pós-guerra, no entanto, trata sobre um período em que o próprio país se recusava a admitir sua “responsabilidade” pelos seus atos. Duas décadas após o fim da guerra, boa parte dos alemães sequer tinha noção daquele bárbaro evento – quando não, encobria criminosos que saíram impunes. Era uma espécie de negação de seu próprio passado, como se nada houvesse ocorrido.

Representante oficial da Alemanha na categoria de melhor filme estrangeiro na próxima edição do Oscar, Labirinto de Mentiras levanta um questionamento inquietante: quem são os verdadeiros culpados por aqueles crimes? Afinal, enquanto soldados, estariam aqueles homens apenas cumprindo ordens? Ou há uma ponta de sadismo que faz com que ajam por vontade própria? Com atuação competente do protagonista Alexander Fehling, o ponto alto de Labirinto de Mentiras fica por conta de sua bela fotografia (com bastante luz e contraste de cores), uma direção de arte responsável por uma ambientação impecável e uma trilha sonora executada com maestria. Apesar disso, o roteiro não apresenta nenhum grande clímax e se mantém estável durante as duas horas de fita, o que pode ser cansativo para o espectador e fazer parecer que Labirinto de Mentiras foi feito exclusivamente para narrar fatos, quando claramente tinha muito mais potencial que isso.

Capital Humano (Il Capitale Umano)

01Na sequência inicial de Capital Humano, já se estabelece o conflito que será desenvolvido no decorrer de toda a narrativa: um trabalhador comum é atropelado à beira da estrada ao voltar para casa à noite e é abandonado pelo motorista responsável pelo acidente. A partir daí, vamos revisitar a história sob a perspectiva de três personagens distintos: Dino, um agente imobiliário que busca ascensão social, hipotecando sua casa para conseguir dinheiro e aplicá-lo em um fundo de investimento de alto risco; Carla, a esposa que vive às custas do marido milionário e que não dá a mínima para a mulher; e Serena, uma adolescente que, apesar de estar apaixonada por um garoto sem muitas perspectivas, vive um namoro de fachada com Massi, filho rico e mimado de Carla que sofre com o desprezo e pressão do pai.

Com um roteiro surpreendente e que não deixa o público desgrudar os olhos da tela com suas ótimas reviravoltas, Capital Humano conta uma mesma história, mas sob olhares distintos. Dividido em capítulos, cada um deles apresenta suas versões do fato, mas todos se complementam, formando um inteligente quebra-cabeça. A trama, que se inicia com certo apelo tragicômico, vai aos poucos criando um clima de suspense interessante à medida que as situações vão sendo dissecadas. Além disso, as atuações são muito acima da média e o cineasta Paolo Virzì sabe como explorar seu elenco da melhor maneira possível. Fabrizio Bentivoglio é grandioso na pele do “malandro, mas não tanto assim” Dino, que fica desolado após descobrir que perdeu todo o dinheiro investido. A bela Valeria Bruni Tedeschi desperta bastante compaixão como Carla, uma personagem desajustada e perdida que não sabe muito bem qual é o seu lugar no mundo, estando sempre à sombra do esposo Giovanni Bernaschi, vivido por Fabrizio Gifuni – de longe, uma das melhores performances da película. Frio, preconceituoso e arrogante, seu tipo é a perfeita definição do “modo capitalista de ser”.

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Há quem diga que Capital Humano critica a decadência da Itália contemporânea – uma nação com ares de arrogância, pretensão, sarcasmo. Acredito que Capital Humano vá um pouco mais além. Em menor ou maior escala, o filme se estende à figura humana como um todo e disserta sobre o desajuste social e a decadência das relações humanas, que hoje são movidas por interesse e ambições, apenas isso. Todos querem pensar apenas no melhor para si, nem que para isso muitos valores morais simples sejam desprezados – e aí, chantagens, favores pessoais, jogos de poder acabam sendo utilizados como uma espécie de moeda de troca. Algo do tipo “não me importo em estar ao seu lado, contanto que isso seja vantajoso para mim”. A pergunta que fica é qual o valor da vida humana nesta sociedade. Tecnicamente impecável (seja na fotografia que preza os contrastes de cores ou na requintada trilha sonora), Capital Humano é um soco bem no meio do estômago do espectador – mas é uma dor que vale a pena encarar para que possamos refletir mais tarde.

Aliança do Crime (Black Mass)

Década de 1970, sul de Boston. A região é controlada por James ‘Whitey’ Bulger, um criminoso comum de origem irlandesa, irmão de um recém eleito senador estadual. A zona norte da cidade, por sua vez, é dominada por ítalo-americanos chefiados por Gennaro Angiulo. Para combater este último grupo, o agente do FBI John Connolly, também criado na parte sul da região, faz um acordo com Bulger, seu amigo de infância (e por quem nutre uma profunda gratidão), transformando-o em um informante protegido da polícia norte-americana. Entretanto, essa aliança entre o bandido e o FBI permite que Bulger não apenas elimine a concorrência, mas também se torne um dos maiores chefões do crime da história dos EUA.

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Dirigido por Scott Cooper (de Coração Louco e Tudo Por Justiça), Aliança do Crime pode parecer mais uma típica produção americana sobre a máfia – um gênero que hora ou outra aparece por aí (talvez devido à relação de extremo amor e ódio do americano com seus criminosos, vai saber…). O longa de Cooper, na verdade, é até “genérico”: pouco inova no tema, ousa ainda menos e nem é tão grandioso tecnicamente. Enfim, Aliança do Crime seria apenas “suficiente”, não fosse Johnny Depp, que realmente carrega quase que completamente o filme nas costas. Há tempos nos devendo uma atuação à altura de seu talento, parece que Depp voltou à sua boa forma, nos entregando uma performance contida, sinistra e ameaçadora – sendo aclamado no último Festival de Veneza.

E devo admitir, não apenas como um fã inveterado do ator, que Depp fez sim um excelente trabalho, até mesmo se levarmos em consideração o quão confuso é o roteiro de Mark Mallouk e Jez Butterworth. Afinal, quem é Bulger? O que ele fez para ser tão “fantástico” assim como mafioso? Ele trafica drogas? Faz falcatrua em jogos clandestinos? Lava dinheiro? Isso nunca fica claro e assim o público não consegue digerir muito bem a ideia de que ele é o “todo poderoso” do crime – só vemos seus comparsas falando isso a todo instante, mas não sabemos o que ele efetivamente executa para merecer tal alcunha; só ouvimos dizer que ele se tornou pior após a morte do filho ou da mãe, mas ele não demonstra nenhuma grande oscilação de comportamento ao longo da película.

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Sua relação com a família também é estranha: se por um lado ele demonstra um amor incondicional pelo filho e pela mãe, o mesmo não se pode dizer do sentimento de Bulger pela esposa e pelo irmão. Enquanto a primeira sai de cena de uma hora para outra sem nenhuma explicação, o relacionamento com irmão é ainda mais complicado e deveria ter sido melhor explorado – aproveitando mais Benedict Cumberbatch, inteiramente ignorado. Talvez o único ponto positivo a ser tirado de tudo isso é que, dessa forma, o personagem não cria empatia, mas sim medo. Sua presença causa certa tensão no ar. Diferente de outros bandidos, ele não é carismático, mas um psicopata intimidante – o que faz com que o público se sinta desconfortável com sua presença.

Apesar de ter um ritmo bacana (por conta, sobretudo, da excepcional trilha sonora de Tom Holkenborg, que deixa um clima de apreensão a todo minuto), Aliança do Crime procura delinear sua trama de forma mais intimista, pisando em “terreno firme”, sem reinventar a roda. Mas o que mais fica evidente é a falta de emoção da trama – talvez proposital, talvez não, mas é um fato que Aliança do Crime não é capaz de despertar muitos sentimentos no espectador, tornando-se assim um título mediano e incapaz de marcar a filmografia de seu astro principal.

Beira-Mar (Beira-Mar)

Beira-Mar é o primeiro longa dos diretores Felipe Matzembacher e Marcio Reolon, que chega hoje aos cinemas brasileiros após ser ovacionado em algumas exibições internacionais, como na 65ª edição do Festival de Berlim. A trama segue o adolescente Martin, em uma viagem ao litoral do Rio Grande do Sul para resolver uma situação familiar, acompanhado de seu melhor amigo, Tomaz. Imersos em um universo particular, o confinamento será essencial para reaproximar os dois e permitir que eles descubram um pouco mais de si mesmos.

Na verdade, Beira-Mar é um singelo porém eficiente retrato de nossa juventude contemporânea: suas dúvidas, prazeres, descobertas, escolhas. Ou seja, não há nada ali que já não tenha sido explorado em outras produções do gênero, inclusive nacionais – aliás, à primeira vista, pode parecer que Beira-Mar é um típico filme a tratar um romance adolescente gay (até porque a sinopse pode enganar um pouco). O que faz com que Beira-Mar se sobressaia é sua narrativa intimista, equilibrada (por vezes um tanto lenta), praticamente sem nenhum grande clímax. Isso distancia Beira-Mar de um mero filme adolescente, tornando-o uma experiência cinematográfica interessante e necessária – apesar também de afastar o público mais jovem que, fatalmente, pode se cansar com o tom introspectivo da obra (especialmente aqueles que esperam apenas uma sucessão de episódios homoeróticos ou sexuais sem fundamento – o que, felizmente, não acontece aqui).

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Os planos, em geral, são mais abertos, valorizando a fotografia predominantemente em cores frias e proporcionando um estado contemplativo à obra; por sua vez, os planos mais fechados são essenciais para ressaltar o intimismo daqueles personagens. O ritmo que segue também contribui para este estado de “contemplação”, uma vez que os diálogos são abertos – quando não, é o silêncio que comunica com bastante sutileza (e é responsável pelas melhores sequências da fita). Esse ritmo (ou a falta dele) é importante para transmitir toda a inquietação dos dois amigos, como se algo estivesse pra acontecer a qualquer momento entre eles, em uma visível tensão homoerótica que é logo estendida ao público. A escolha dos atores não poderia ter sido melhor: Mateus Almada e Maurício José Barcellos estão ótimos em seus papéis, passando segurança e intimidade em suas performances. Enquanto o primeiro carrega pungemente no olhar as incertezas em relação a tudo que está à volta de seu personagem, o segundo é de uma delicadeza ímpar, sem cair no estereótipo. Talvez é justamente ele quem passe por maiores nuanças ao longo da projeção e o crescimento de seu tipo é visível e muito bem vindo.

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No entanto, Beira-Mar não é isento de falhas e encontramos a maior delas no roteiro. Para além do didatismo de algumas cenas (por exemplo, ao explicitar que os garotos estão isolados em uma casa à beira-mar – pra quê?), o roteiro peca em alguns momentos que pouco acrescentam à história ou mesmo na trama paralela que envolve Martin e sua família, onde tudo soa um tanto confuso e sem explicação. Mas o que realmente diminuiu Beira-Mar, a meu ver, é seu desfecho. Eu diria que o filme possui três sequências finais bem definidas – a última, inclusive, que mostra Martin se banhando no mar, é riquíssima e puramente metafórica, assim como quando ocorre o pequeno grande clímax da película: o beijo entre os amigos. Mas entre essas duas, há um trecho que, sinceramente, é desnecessário e enriqueceria muito mais o filme se fosse extinto, pois permitiria que o público criasse hipóteses devido ao grau de subjetivismo que proporcionaria (apesar de a cena ser visualmente impecável e bem executada). A dupla de jovens cineastas optou por encerrar a narrativa com uma solução, no mínimo, fácil – e, não, isso não é moralismo de minha parte, mas uma opinião baseada nas emoções que o filme me despertou. Assim, Beira-Mar perde muito da magnitude que poderia alcançar, tornando-se uma obra de valor inestimável, porém incapaz de ser memorável.