Coração e Alma (Réparer les Vivants)

Coração e Alma, novo filme de Katell Quillévéré, é estruturado em três segmentos. No primeiro deles, acompanhamos Marianne e Vincent, casal que acaba de receber a notícia de que o filho Simon sofrera morte cerebral, após um grave acidente automobilístico. Angustiados, eles devem decidir se autorizam ou não a doação dos órgãos do garoto. No segundo ato, não muito longe dali, Claire aguarda por um transplante de coração que pode salvar a sua vida.

Algumas diferenças podem ser observadas no desenvolvimento destas duas partes. O núcleo inicial sofre, a princípio, com o acúmulo de antagonistas que não agregam muito à narrativa. A construção destes personagens é rasa: é como se estivéssemos em um episódio de uma série, pois o roteiro parece ter sido “moldado” para nos fazer acreditar que já conhecemos essas pessoas e estamos familiarizados com seus traumas. Algumas sequências poderiam facilmente ser descartadas da película já que pouco falam ao espectador. Assim, o drama familiar acaba ofuscado, mesmo com as boas atuações do elenco – Emmanuelle Seigner, por exemplo, está ótima no papel da mãe desconsolada pela perda do filho (a intérprete há muito tempo deixou de ser simplesmente “a esposa de Polanski”, colecionando títulos e atuações que merecem ser elogiadas).

O segundo núcleo, no entanto, é mais curto, porém mais eficiente. Anne Dorval é sutil na composição de Claire – no olhar, nos gestos, no tom de voz. A relação da mãe com os dois filhos, os graciosos Finnegan Oldfield e Théo Cholbi, é ligeiramente mais conflituosa, o que rende momentos mais interessantes – o mesmo vale para o relacionamento entre Claire e a pianista Alice, que estende o arco dramático para novas possibilidades. Na terceira e última parte, os dois núcleos anteriores se cruzam. Então, Coração e Alma adentra uma atmosfera de maior tensão, preparando o espectador para o desfecho (previsível) da história.

Coração e Alma é um longa executado de forma competente: da fotografia à carismática trilha assinada por Alexandre Desplat, o filme da idealizadora costa-marfinense fala sobre escolhas – e, principalmente, sobre aceitação – para tratar um tema atual que, por mais difícil que seja, deve ser discutido. No entanto, sua abordagem é deveras prática, direta, sem rodeios; não há espaço para o melodrama e talvez seja isso que torne Coração e Alma uma obra que pode significar muito para alguns e dizer pouco para outros.

Colossal (Colossal)

Gloria é uma jovem desempregada, alcóolatra e que acaba de levar um pé na bunda do namorado (com quem divide um apartamento em Nova York), o que a obriga a voltar para a casa da família no interior dos EUA. Do outro lado do planeta, um monstro gigante ataca a capital da Coréia do Sul, causando pânico e medo à toda população. Mas será que existe alguma ligação entre estes fatos aparentemente isolados?

Dirigido por Nacho Vigalondo, Colossal é uma mistura interessante dos mais variados gêneros, como a comédia romântica, ação e o drama; mas é evidente que o longa se sobressai muito mais como uma ficção cientifica disfarçada de thriller psicológico, uma vez que o argumento do próprio cineasta constrói uma interessante alegoria sobre os conflitos internos que todos nós possuímos. Com ares de produção independente, o filme é estruturado em volta de sua protagonista: o monstro que aterroriza um país e o coloca em ruínas é a representação clara de uma pessoa que está emocionalmente destruída, desequilibrada e sem controle, praticamente à beira do caos. Assim, Colossal metaforiza questões como o alcoolismo e relacionamentos abusivos, problemas tão comuns no nosso cotidiano, mas de uma maneira menos indigesta daquilo que estaríamos acostumados a ver. A abordagem é muito sutil, camuflada por um roteiro que faz referência aos filmes sci-fi de outrora sem perder sua contemporaneidade.

Apesar da excelente ideia original, Colossal escorrega, entretanto, em sua execução, prejudicada pelo desenvolvimento de suas personagens. A protagonista de Anne Hathaway pouco cativa – e, quando o faz, é simplesmente porque não há um único tipo masculino na história que não seja minimamente babaca. Alguns arcos dramáticos ficam perdidos e sem nexo, o que enfraquece aos poucos a inusitada premissa. O desfecho ocorre de forma apressada, fazendo você pensar “peralá, era só isso que precisava acontecer?”. No final, temos uma produção que ainda não sabe ao certo qual é o seu propósito, muito menos seu público alvo.

Esteros (Esteros)

Matias e Jeronimo são amigos que cresceram juntos em Paso de Los Libres (região argentina que faz fronteira com o Rio Grande do Sul). Mais do que isso: eles são melhores amigos e se amam, mesmo que ainda não o saibam – isso é evidente desde a primeira aparição dos dois em Esteros, filme do estreante Papu Curotto. Mas o destino se encarregou de separa-los: enquanto Jeronimo permaneceu no país, onde estudou cinema e vive hoje uma vida simples, Matias se mudou para o Brasil, onde trabalha com pesquisas voltadas à área de biologia. Durante um feriado de carnaval, Matias retorna à cidade acompanhado de sua noiva (com quem está prestes a casar) e o reencontro entre ele e seu antigo companheiro é inevitável.

O argumento de Andi Nachon constrói, entre flashbacks e cenas do presente, a reaproximação entre estes dois amantes, de maneira excessivamente previsível, com soluções fáceis já vistas em inúmeras outras produções (a pessoa que não pode acompanhar o par, o uso de filtro solar que obriga o toque, a chuva que os confina a uma casa vazia no meio do nada, etc.). Tudo parece acontecer com o propósito de facilitar a jornada daqueles personagens e, com isso, aquele que seria o grande clímax da história não tem muito impacto, afinal sabemos desde o início que, hora ou outra, aquilo vai acontecer. Há também uma tentativa vã do roteiro em reafirmar o amor entre seus protagonistas através de diálogos que não soam naturais ou sequências que pouco acrescentam à narrativa.

Há ainda um certo tom melodramático, algo próximo aos romances mais convencionais, que talvez possa até produzir um efeito positivo para aquele adolescente em fase de descoberta que se vê apaixonado pelo amigo do colégio ou esteja experimentando a fase do primeiro amor. Mas cinematograficamente falando, Esteros pouco impressiona em sua proposta. Apesar da excelente fotografia e da trilha sonora muito bem executada, fica-se a impressão de que o longa poderia ter rendido muito mais caso fosse mais ousado e trouxesse maiores surpresas. Talvez tenha sido apenas estratégia de seu idealizador para tornar seu filme mais digerível ao público comum, nunca se sabe. Ao assistir Esteros, a sensação que fica é a de que você já viu isso em algum lugar. Uma pena que não é somente uma sensação, mas um fato.

Amanhã (Demain)

Em 2012, os cientistas Anthony Barnosky e Elizabeth Hadly divulgaram um estudo na revista Nature, onde argumentavam sobre um possível desaparecimento de parte da raça humana até 2100, baseando-se em estudos e observações sobre os intensos problemas ecológicos, econômicos, políticos e sociais pelos quais a maior parte dos países passa. Partindo da tese levantada por esta publicação, a dupla Mélanie Laurent e Cyril Dion decidiram fazer as malas e viajar pelo mundo para entender os motivos que poderiam de fato provocar este evento catastrófico – e o que nós podemos fazer para evita-lo. Assim, surgiu o documentário Amanhã, um sucesso de público e crítica que busca explorar alternativas imediatas para melhorar o cenário atual e definir o nosso futuro.

Estruturado em cinco capítulos, o filme acompanha a viagem da equipe de cineastas e seu encontro  com pioneiros que criaram soluções ligadas às mais variadas áreas, como a agricultura, energia, economia, democracia e educação. Trata-se, na verdade, de um conjunto de iniciativas realizadas por pessoas comuns que contribuem para a construção de um futuro melhor. Mais que isso: são ações que devem ser implementadas urgentemente para garantir a sobrevivência da espécie humana nas próximas décadas.

É interessante analisar que muitas dessas ações podem parecer, a princípio, não fazer muito sentido. O roteiro, no entanto, vai traçando a conexão entre suas variáveis – às vezes de forma até didática – permitindo que o público enxergue a dimensão que simples atitudes cotidianas podem alcançar. Assim, o documentário defende suas propostas apresentando cases de sucesso, como a criação de moedas locais (como em Bristol, na Inglaterra) ou complementares (como na Suíça, com seu franco wir), que diminui a cadeia de fornecedores; a crise na Islândia, em 2009, sugerindo aqui uma participação mais efetiva da comunidade nas decisões políticas, criando “um governo do povo para o povo”; a revolução na educação na Finlândia, que é um modelo para outras nações; ou mesmo o crescimento da agroecologia e da permacultura.

Obviamente, Amanhã é muito mais rico em seu discurso do que por seus méritos quanto “cinema”. O excesso de didatismo auxilia na assimilação do tema, mas o que torna Amanhã uma obra agradável (e importante) é o seu otimismo. O documentário não se debruça em teorias catastróficas, mas oferece respostas plausíveis para problemas atuais que precisam ser discutidos, reforçando a ideia de que todos podem ajudar a melhorar o planeta. O tom é de positivismo e isso nos dá um fio de esperança, mesmo diante do caos em que vivemos. Em outras palavras, o futuro está em nossas mãos – basta arregaçarmos as mangas e começarmos a trabalhar já.

Na Vertical (Rester Vertical)

Alain Guiraudie é um dos nomes mais “alternativos” – e queridinhos – do atual cenário cinematográfico francês. Na Vertical, seu novo longa, é mais um típico produto de sua filmografia, se assemelhando até certo ponto aos trabalhos anteriores do diretor, O Rei da Volta e Um Estranho no Lago – este último, ovacionado em Cannes em 2013 e em outros festivais mundo afora, escandalizando a todos com suas cenas de nudez e sexo explícito. Com sua já marcada estética naturalista e suas situações pitorescas que beiram o absurdo, Guiraudie aposta suas fichas na história de Léo (Damien Bonnard), um cineasta com dificuldades para finalizar seu próximo roteiro, que, em viagem pelo interior da França, é surpreendido com a chegada inesperada de uma criança.

A estranheza de Na Vertical vai surgindo cena a cena. A princípio, isso se dá já na interação do protagonista com os demais personagens da trama: um idoso rabugento e seu neto malandro (que Léo insiste em tornar ator devido às suas feições); uma mãe solteira que vive com os filhos e o pai esquisitão; ou o mendigo que Léo encontra ocasionalmente pelas ruas. Aos poucos, a “bizarrice” vai se notando ainda mais à medida que os fatos vão se desenrolando. Alguns momentos nonsenses se sobressaem, como uma perseguição de barco em meio a um pântano ou mesmo a – já polêmica – sequência do suicídio assistido. Todos estes eventos ocorrem em meio à uma paisagem rural, captada em planos abertos, lançando quase uma nova França diante dos nossos olhos – afinal, Guiraudie é um dos poucos artistas franceses que filmam hoje fora de Paris.

Na Vertical escorrega, entretanto, na visível falta de foco de seu argumento. Se por um lado Guiraudie volta a tratar a solidão do indivíduo, algumas escolhas não contribuem com aquilo que o artista pretende (ou demonstra querer) abordar. É como se Guiraudie mirasse em todas as direções, mas sem um alvo bem definido – e as inúmeras camadas construídas acabam se perdendo, já que não há conexões muito bem estabelecidas entre elas. Algumas saídas parecem significar algo, quando na verdade pouco dizem, refletindo um vazio na narrativa que só pode, talvez, ser comparado ao de seu protagonista. Apesar do desfecho interessante e cabível, Na Vertical resulta-se um filme que não funciona para todo tipo de público, não apenas por algumas de suas cenas impactantes ou da difícil categorização de seu gênero, mas principalmente por sua tênue linha entre o realismo e onirismo – que, apesar de reforçar o estilo de seu idealizador, está longe de ser totalmente marcante.

Na Cama Com Victoria (Victoria)

Victoria é uma bela e jovem advogada parisiense, cuja sanidade mental está por um fio. Workaholic e egocêntrica, ela recorre ao sexo para fugir das pressões que sofre por todos os lados. Mas as coisas, quando estão ruins, sempre podem piorar um pouco: seu ex-marido e pai de suas filhas, David, está difamando sua carreira. Além disso, Victoria reencontra Sam, um estagiário de direito que outrora ela inocentara por tráfico de drogas e agora insiste em ser seu baby-sitter. Para completar, ela aceita defender o caso de seu amigo Vincent, que está sendo acusado de um homicídio cuja única testemunha é o cachorro da vítima.

Na Cama Com Victoria (título extremamente apelativo quando comparado ao material original) é a prova de que os franceses descobriram recentemente o gosto pelas comédias. Abusando de inúmeras referências (há quem cite, por exemplo, semelhanças com obras de Billy Wilder, Blake Edwards e até Woody Allen), a cineasta Justine Triet apresenta uma mise-en-scène caprichada, recorrendo a planos bem trabalhados que criam um ritmo equilibrado e que jamais sai da linha. A direção de atores também é competente e Triet sabe como valorizar a performance extraordinária de Virginie Efira, que é engraçada e sóbria com a mesma proporção e tem ótimos momentos em cena (sua atuação lhe rendeu inclusive uma indicação ao César 2017 de melhor atriz). Vincent Lacoste, o lunático Sam, é adorável e é muito gratificante vê-lo em fase de amadurecimento (este provavelmente é o personagem mais “adulto” de sua filmografia – e o ator não decepciona).

Entretanto, é nítido que a superficialidade do argumento não permite que Na Cama Com Victoria vá além de uma simples comédia popular. Aquele que talvez fosse o tema central da película – e um dos maiores males de nosso século – é tratado de forma rasa: a depressão. Percebe-se que o filme fica em cima do muro: não é totalmente cômico, tampouco aprofunda-se na exploração das relações humanas entre seus personagens. O tom de comédia romântica é o indício mais claro de que Na Cama com Victoria não se propõe necessariamente a promover algum debate, sendo direcionado exclusivamente ao entretenimento do público comum e, óbvio, à possibilidade de uma bilheteria polpuda.

Um Instante de Amor (Mal de Pierres)

Gabrielle nasceu e cresceu em uma pequena aldeia francesa, em  uma época em que ser mulher limitava-se apenas a abandonar a família e unir-se ao marido – mas este não era o destino que a moça queria para si. Temendo pela reputação da filha rebelde, os pais resolvem casa-la com o pedreiro José que, mesmo com toda dedicação, pouco consegue agradar a esposa. Algum tempo depois, Gabrielle é internada em uma estância termal nos Alpes para tratar de suas fortes dores renais, o que marcará para sempre sua vida.

Adaptado do best-seller de Milena Agus, Um Instante de Amor instiga o público a discutir a emancipação feminina, em especial naquilo que tange à sua sexualidade. Para isto, o início da trama apresenta certa tensão sexual, com algumas sequências que transbordam erotismo (como quando Gabrielle está deitada em sua cama, folheando – e lambendo – o livro do amado). A narrativa ainda ganha uma reviravolta interessante com a chegada de André Sauvage, um tenente à beira da morte por quem Gabrielle irá se apaixonar durante o tratamento. É neste homem em que a jovem infeliz irá encontrar o amor e a paixão que nunca enxergou no cônjuge.

A direção “clássica” de Nicole Garcia, todavia, prejudica um tanto a obra. É nítido que o roteiro carecia de algo a mais, enquanto a cineasta faz escolhas que funcionam, mas não trazem brilho algum à história. Mesmo com a bela fotografia de Christophe Beaucarne, a diretora arrisca pouco, optando por uma mise-en-scène tradicional, sem qualquer identidade própria. O tom “romântico” passa a predominar, em especial a partir da segunda metade da fita, e com isso o argumento repleto de potencial para novos debates se limita a um romance simples, com um desfecho até mesmo inquietante mas um desenvolvimento mediano.

É na performance do elenco que Um Instante de Amor certamente irá agradar ao público. A protagonista de Marion Cotillard é construída com muito empenho por uma atriz que se entrega de forma absoluta. Marion vai de um extremo ao outro com total sutileza, de forma quase imperceptível, mostrando que, sem dúvidas, é uma das intérpretes mais extraordinárias de nossa geração. Seu par romântico, Louis Garrel, vai se distanciando cada vez mais do símbolo sexual a que todos insistem em o rotular. Com uma caracterização surpreendente, Garrel se despe de qualquer vaidade para a composição de sua personagem, que embora apareça pouco, é fundamental para o desenrolar da trama. A dupla, definitivamente, é o maior atrativo de Um Instante de Amor – um filme eficiente, sim; bonito e bem feito, é verdade; mas que, devido à fraca direção, reduz-se apenas a um drama que não sai de seu “quadrado” mesmo com todo o universo ao redor a ser explorado.

Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort)

Às vésperas de uma feira de fim de semana, a pequena cidade de Rochefort é povoada pelos tipos mais distintos: as belíssimas irmãs gêmeas Delphine e Solange Garnier, respectivamente uma professora de balé e uma instrumentista e compositora; um marinheiro em busca da mulher de seus sonhos; a dona de um simpático bar à beira-mar que deseja reencontrar o homem com quem viveu um romance no passado; um recém chegado, que acabara de se apaixonar por uma jovem desconhecida; entre tantos outros personagens que, cada qual à sua maneira, vivem momentos diferentes de um mesmo sentimento: o amor.

Duas Garotas Românticas é um daqueles filmes que te deixam com um sorriso de uma orelha à outra. Por duas horas, o musical de Jacques Demy consegue exprimir um intenso clima de felicidade, sem soar piegas ou cansar o expectador. Com um exagero de cores, sempre saturadas, os quadros expressam completa vivacidade e exuberância, mesmo nas poucas sequências mais tristes da história (um contraste que não incomoda em instante algum). A paleta contribui à narrativa com excepcionalidade e há uma harmonia interessantíssima entre figurinos e cenários, o que podemos observar amplamente com os planos empregados. Há escolhas que impressionam, como alguns planos sequências, todos filmados com bastante precisão – em especial, há um no início da narrativa que captura toda a movimentação da praça da cidade, com suas inúmeras pessoas ao redor para, aos poucos, fazer um zoom em direção à janela de um edifício, terminando em uma ampla sala onde vemos as deslumbrantes Catherine Deneuve e Françoise Dorléac em cena.

Praticamente fazendo par a Guarda-Chuvas do Amor, de 1964, Duas Garotas Românticas é, sobretudo, um filme que narra com beleza e alegria os encontros e desencontros da vida. Amparado pela competente fotografia de Ghislain Cloquet (um dos maiores fotógrafos do cinema europeu na década de 60), que é um visual à parte, Demy cria um mundo mágico e multicolorido – palco onde seus personagens desfilam, dançam e cantarolam suavemente suas melodias em um tom irradiante de êxtase, que transborda da tela e atinge o público em cheio. Se há quem defenda que assistir bons filmes nos tornam pessoas melhores, Duas Garotas Românticas é certamente aquele que vai te deixar de bem com a vida.

Frantz (Frantz)

Françoiz Ozon é um cineasta que transita por qualquer gênero, porém sempre com um estilo instigante, com uma certa dose de tensão e suspense que tornam seus filmes, no mínimo, agradáveis. Com isso, é muito comum ouvirmos por aí que Ozon é um diretor “confiável”, que mesmo em seus momentos menos inspirados erra pouco. Todavia, ao acertar, o realizador francês entrega obras interessantíssimas, como 8 Mulheres, Dentro da Casa e seu mais recente trabalho, Frantz.

Ambientado em uma pequena cidade alemã após a Primeira Guerra Mundial, Frantz narra inicialmente o luto de Anna (Paula Beer) após a perda de seu noivo, morto em uma batalha na França. Um dia, ao levar flores ao túmulo de seu amado, Anna percebe a presença de um jovem francês, Adrien (Pierre Niney), soldado que se apresenta como amigo de Frantz durante o período em que este esteve na capital francesa. No entanto, qual seria a real natureza do relacionamento de Frantz e Adrien?

A rivalidade entre Alemanha e França é o pano de fundo deste conto – e também é fundamental para o desenvolvimento da película. Adrien, como francês, se torna cada vez mais íntimo de Anna e da família de Frantz, estes alemães. Aos poucos, porém, as revelações (e algumas reviravoltas no roteiro) acabam modificando a relação inicial entre estes personagens – algo que Ozon consegue manipular muito bem, fazendo com que o espectador pense uma coisa quando mais a frente a situação tomará outro rumo.

Com total controle em sua mise-en-scène, Ozon constrói sua trama adequadamente, com uma estética visual impecável que recria a época e é primordial para a imersão do público. Direção de arte e design de produção são responsáveis pelo contraste entre a fria e quieta cidadezinha alemã e a efervescência parisiense do início do século XX (que acentua, inclusive, o conflito de Anna com relação à sua terra natal). A fotografia, por sua vez, desempenha um papel importante na narrativa: predominantemente em preto e branco, ela recorre a alguns artifícios pontuais como a mudança brusca para o colorido – onde Ozon ignora algumas regras do cinema tradicional para trazer maior destaque para os acontecimentos.

Frantz, apesar disso, é um dos filmes mais “formais” de Ozon. Sério, econômico porém elegante, o longa acaba cansando em sua segunda metade, muito prejudicada pela extensão da fita. Ainda assim, dado sua rica cinematografia, Frantz é um trabalho de apreço, uma obra incisiva que trata sobre a culpa do indivíduo e a omissão da verdade, temas contemporâneos que promovem discussões necessárias.

O Dia do Atentado (Patriots Day)

Em 2013, durante sua famosa Maratona de Boston, no feriado do Dia do Patriota, os EUA sofriam seu maior ataque terrorista desde o 11 de Setembro. Este triste acontecimento serve de material para O Dia do Atentado, novo filme do cineasta Peter Berg, que se utiliza de relatos policiais, reportagens investigativas e registros reais para documentar as horas seguintes ao atentado que chocou todo o mundo.

Talvez seja difícil para nós, brasileiros, entendermos o real significado e amplitude de uma produção como esta, afinal ainda que enfrentemos diariamente inúmeros problemas sociais, temos o privilégio de vivermos em um país “pacífico”, ao menos em relação ao cenário externo. Hoje, os EUA é uma nação que vive a iminência de uma nova tragédia a todo instante – especialmente nos últimos dias, com a crescente tensão decorrente dos conflitos ocorridos na Síria. Portanto, nos colocarmos na posição de uma população tomada pelo medo seria fundamental para compreendermos o que é O Dia do Atentado.

Infelizmente não é preciso tanto. Assim como tantos outros longas do gênero, O Dia do Atentado mantém seu foco no heroísmo, no brilhantismo norte-americano e sua supremacia ao invés de se aprofundar em uma discussão que nos permita entender o contexto social em que esses acontecimentos estão inseridos. Em um estilo quase documental, o filme se concentra nas artimanhas policiais em busca dos responsáveis pelo crime, exaltando seus heróis “anônimos” e, principalmente, o sentimento de união e solidariedade do povo norte-americano (algo que, para mim, é louvável e deveria ser imitado por todos). Para além disso, falta à narrativa um elemento novo: quem acompanhou a repercussão do caso à época sabe exatamente o que esperar. Apesar de ser competente em sua proposta, apostando suas fichas em um elenco de peso (Mark Wahlberg, em sua terceira parceria com Berg, divide a tela com Kevin Bacon e o recém oscarizado J.K. Simmons), O Dia do Atentado se limita apenas a um simples registro deste fatídico e triste dia na história norte-americana, incapaz de nos fazer envolver pela produção enquanto obra cinematográfica.