Mapas Para as Estrelas (Maps to the Stars)

Não sou um conhecedor do cinema de David Cronenberg. Para ser bastante honesto, meu único contato com sua obra foi em Cosmópolis, um filme enfadonho, cansativo, sem pé nem cabeça e que me irritou profundamente. Exatamente por isso (e por não ter conhecimento de sua filmografia), a única coisa que me chamou a atenção em Mapas Para as Estrelas é a presença de Julianne Moore – atriz por quem nutro uma admiração ímpar. Mas, frustrando minhas expectativas, me deparei com uma fita bastante singular e que, dentro de sua proposta, me agradou e me fez repensar meus conceitos sobre o diretor.

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Tudo bem, Mapas Para as Estrelas não é um primor cinematográfico – tampouco é a obra-prima de seu idealizador, pelo que tenho reparado nas críticas que busquei. Pelo contrário: tem alguns que o consideram até mesmo um filme “fraco” na carreira de Cronenberg. Na trama, somos transportados a uma Hollywood quase surreal (para alguns, “nua e crua” – aliás, vi esses adjetivos em quase todos os textos que li sobre a obra, mas acredito que esteja bastante longe disto), onde somos apresentados a alguns personagens icônicos: temos um ator mirim em ascensão que está voltando da reabilitação; uma atriz de meia idade em decadência, cuja carreira sobrevive apenas de glórias passadas e escândalos atuais; um psicólogo que fez fortuna com livros de autoajuda e sua esposa, que passa a maior parte do tempo cuidando da carreira do filho; um motorista de limusine que tenta a sorte como ator; e, ligando todos estes tipos, uma jovem distante de todo este universo, que chega a Los Angeles trazendo nas malas um mistério que pode afetar a vida de todos.

As tramas destes personagens se desenvolvem em meio a histórias de sexo, fantasmas, loucura – em uma mistura frenética e inusitada que cai como uma luva para a Hollywood tão decadente de Cronenberg. Sua visão do mundo das celebridades é avassaladora, mostrando toda perversão e crueldade de uma realidade que é desconhecida para muitos. O cineasta não economiza no choque: é como se qualquer situação, por mais comum que seja, tome proporções gigantescas. O excesso é simplesmente natural, já faz parte da vida de cada um dos personagens, que vivem em um eterno clima de tensão e círculo vicioso: todos se conhecem e possuem, a seu modo, os mesmos problemas – até, obviamente, a chegada de Agatha, a garota misteriosa a quem nos referimos anteriormente.

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A atuação do elenco em Mapas Para as Estrelas é, no mínimo, extraordinária. Já de cara, digo: Julianne Moore toma o filme para si. Por mais que os demais se esforcem, é Julianne que atrai os holofotes a cada aparição. Arrisco dizer que esta seja sua melhor performance em anos. Moore consegue ser atordoante em cena e mesmo fazendo um tipo arrogante, o espectador é capaz de torcer por ela (sua personagem é uma atriz que não consegue lidar muito bem com a idade e com os fantasmas do passado, que inclui a morte da mãe em um incêndio). Mia Wasikowska há muito se desvencilhou de sua apática Alice burtoniana e já pode ser considerada uma das melhores intérpretes de sua geração. Mia cresce gradualmente no decorrer da fita, sendo a responsável pelo grande clímax da história e pelo desfecho lírico. Outro destaque fica com Evan Bird, que agarrou bem a responsabilidade de viver uma celebridade adolescente em crise, com todas suas irritações causadas, sobretudo, pelas privações que deve enfrentar.

Com uma trilha sonora confusa e atordoante, montagem vaga em certos momentos e fotografia pontual, Mapas Para as Estrelas é um filme onde se consegue ver o desejo do diretor em chocar o público e pronto. O mundo nefasto das celebridades é visto aqui sob uma ótica que preza pela “estranheza”, pelo “anormal”. pelo “repulsivo”. Mapas Para as Estrelas não é uma pérola do cinema, mas perturba, incomoda, constrange, enoja e é indigesto mesmo horas depois que o assistimos.

O Ciúme (La Jalousie)

03É difícil compreender as escolhas de Philippe Garrel. O diretor é talvez o mais próximo que temos na atualidade da nouvelle vague – uma das mais interessantes estéticas cinematográficas, que muitos tentam recriar, mas raros o conseguem. Mais do que isso: Philippe é um dos poucos que conseguem exprimir a tradição do amor no cinema francês, que se converte em filmes introspectivos que retratam relacionamentos amorosos e conflitos humanos. Seu mais novo longa, O Ciúme, segue esta linha e mantém este clima delicioso das tradicionais produções francesas – se tornando uma das melhores obras de Garrel.

Com 77 minutos de duração, o filme foge do óbvio e se sustenta na visão de que o homem (como um todo) é um ser complicado e as relações entre eles mais ainda (algo que não é necessariamente novo, porém o cinema carece de uma abordagem mais direta, simples, adulta – contrariando os clichês romantizados hollywoodianos de hoje). Na narrativa, acompanhamos a derrocada amorosa de Louis (Louis Garrel), um ator por volta dos trinta anos que tenta arranjar um emprego para sua nova companheira, a também atriz Claudia (Anna Mouglalis). A filha de Louis (Olga Milshtein) tem um relacionamento saudável com os dois, o que acaba provocando certo ciúmes na mãe da garota, que foi abandonada por Louis tempos atrás. Mais tarde, decepcionada com o fracasso do amante, Claudia o trai com um homem que pode lhe dar a independência financeira que tanto precisa.

O ponto alto de O Ciúme é, obviamente, sua fotografia em preto e branco, que cria uma atmosfera melancólica capaz de acentuar os conflitos de suas personagens. Aqui, é importante citar a ótima escolha de Garrel por filmar a película manualmente (o que justifica alguns momentos tremidos) e também o brilhante trabalho do diretor de fotografia Willy Kurant (que já colaborara com o cineasta anteriormente e também foi parceiro do gênio Godard). A trilha de Jean-Louis Aubert é bem executada e variada, indo do íntimo ao eloquente com muita naturalidade. Quanto às atuações, todo o elenco é razoavelmente suficiente e sem grandes destaques – exceto pela atriz mirim Olga Milshtein, encantadora como a filha do protagonista. Aliás, protagonista que já é nosso velho conhecido Louis Garrel – filho do Philippe e que é capaz de levar no rosto todo o ar descompromissado de sua personagem. É engraçado, no entanto, quando dizem que Garrel (filho) tem a mesma cara em suas atuações. Eu vou um pouco mais alem: Louis parece sempre fazer o mesmo papel, como se ele mesmo fosse uma personagem e seus filmes fossem apenas continuações de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, Louis consegue ser arrebatador em cena.

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O Ciúme foge do título clichê e se revela uma obra inspirada cuja poesia não reside apenas nas imagens, mas também em seu argumento que, antes de tudo, trata sobre relações: pais e filhos, irmãos, homem e mulher, amigos. Não há um modelo perfeito de relacionamento, não existe uma receita pronta – e talvez por isso, o título do filme pode confundir a percepção por parte do público. Com cenas inquietantes (que demonstram que a felicidade pode ser encontrada nos simples momentos da vida, como uma conversa com o professor ou um passeio ao parque), O Ciúme leva o espectador a confrontar as complexidades da interação entre os homens.

Saint Laurent (Saint Laurent)

Saint Laurent, de Bertrand Bonello, é a segunda produção francesa – no curto espaço de um ano – a tratar a biografia de um dos maiores artistas da moda de todos os tempos. Nesta fita, contudo, a difícil tarefa de encarnar o icônico estilista fica por conta do também francês Gaspard Ulliel, que com notável semelhança física a Laurent, consegue entregar um dos trabalhos mais significativos de sua filmografia.

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Saint Laurent concentra sua narrativa, de forma não linear, entre os anos de 1967 e 1976 – não à toa, o período mais importante da carreira de Yves. O filme retrata o lado profissional do artista e sua equipe, embora o fio condutor da trama seja a relação de Yves com Pierre Berger, parceiro e sócio responsável por grande parte do sucesso comercial da marca YSL. Aborda-se ainda a tórrida relação do estilista com Jacques de Bascher (que o levou a conhecer de perto o submundo parisiense, regado a álcool, drogas e sexo). Consequentemente, é aqui que encontramos os melhores e mais atraentes trechos do longa. Fugindo das cinebiografias convencionais (contadas, em sua maioria, linearmente), Bonello opta por mostrar esses diferentes momentos da vida de Yves, consequentemente quebrando a relação entre os fatos (causa/efeito). Já ao final, no entanto, o diretor escolhe filmar Yves em seus últimos dias (vivido aqui pelo talentoso Helmut Berger), já recluso como celebridade que era e envolto a todo império que criou.

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Gaspard Ulliel, incrivelmente parecido com o original (e aqui se destaca a ótima maquiagem), é excelente em sua atuação. Seus gestos e olhares são precisos, transmitindo melancolia, discrição e a sofisticação tão comum a Yves. Mesmo nos momentos mais “darks”, Ulliel tem um comportamento elegante em cena, nunca perdendo sua pose aristocrática. Jeremie Renier também é sóbrio e conciso na construção de Pierre Barger – estranhamente, o filme não mostra os dois como um “casal”, muito menos aborda o rompimento entre eles, no auge do sucesso, em 1976. Léa Seydoux e Aymeline Valade abrilhantam o elenco feminino, vivendo duas das belas musas inspiradoras do artista – respectivamente, Loulou de La Falaise e Betty Catroux. Enquanto a primeira traz luz à cada aparição devido ao encantador charme de sua intérprete, Valade consegue ser excessivamente sensual em cena – protagonizando  uma das sequências de dança mais interessantes que já pude assistir. Quem surpreende, no entanto, é Louis Garrel – o ator fetiche francês que, após uma série de personagens enfadonhos e com a mesma “cara”, empresta um charme (caricato por vezes, mas irresistível) a Jaccques de Bascher.

Saint Laurent foi escolhido como representante francês – e forte candidato – a uma vaga entre os cinco finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar. Saint Laurent peca, talvez, por sua duração que acaba cansando e por ser totalmente fechado na figura do estilista, deixando de lados alguns momentos e personalidades que poderiam trazer mais profundidade à história. Saint Laurent é realista, o que se percebe claramente no vestuário, na reconstituição de cenários, na fotografia, na música que ajudam a evocar todo espírito da época. Curiosamente, a obra de Bonello tira o primeiro nome do artista e se inicia com “Saint”, que em francês pode ser traduzido por “santo” – justamente o oposto da personalidade implacável de Yves.

Elephant Song (Elephant Song)

Sala de cinema razoavelmente cheia para uma noite de quarta. Reparei certo alvoroço entre os espectadores. Pesquei alguns comentários ao acaso e todos apontavam para um único nome: Xavier Dolan – diretor canadense considerado o garoto prodígio do cinema na atualidade, que decidiu ficar à frente das câmeras no novo filme do cineasta Charles Binamé.

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Elephant Song é uma mistura de drama e suspense, cuja história passada na década de 70 gira em torno do desaparecimento repentino de um psiquiatra em um hospital às vésperas do Natal. O diretor da instituição decide interrogar um dos pacientes, Michael, que fora a última pessoa vista com o médico, na tentativa de descobrir alguma pista que leve ao paradeiro de seu colega. No entanto, o interno se mostra um jovem intelectual e manipulador, que faz um jogo psicológico que dificulta o interrogatório e põe em dúvida sua sanidade.

A narrativa é concentrada apenas nas conversas entre médico e paciente, apesar de recorrer em inúmeros momentos a flashbacks. O roteiro flui com clareza, apesar de ser previsível em alguns pontos – a certa altura do filme, o próprio médico sugere ao interno que suas brincadeiras seriam melhores se fossem mais surpreendentes (o que não deixa de revelar também a sensação do público diante dos artifícios aos quais o diretor recorre para atenuar o clima de suspense do longa). A fotografia de Elephant Song cumpre bem sua proposta, com tons frios que preenchem a tela durante quase todo o filme e um bom uso da iluminação.

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A química entre os dois nomes principais parece funcionar. Bruce Greenwood mantém uma atuação firme no papel do diretor do hospital, enquanto Dolan segurar os trejeitos e, ironicamente, empresta muito menos loucura a seu personagem do que em suas outras atuações (eu, particularmente, nunca tive bons olhos para Dolan como ator – apesar de apreciar suas obras como cineasta). No entanto, seu Michael tem muito menos “força” ou “personalidade” do que o filme sugere (dois funcionários do local perguntam “Você conhece o Michael?”, como se fosse um indivíduo acima da média – algo que Xavier, apesar de tentar, não consegue passar com seu desempenho).

O título faz referência à canção que Michael ouvia de sua mãe quando criança – e é símbolo também de todos os problemas pelos quais Michael passou ao longo de sua juventude. Baseado na peça de Nicolas Billon, Elephant Song é uma boa produção, porém abaixo do que realmente tenta ser. Apesar da premissa interessante, o diretor Charles Binamé pouco arrisca, limitando seu trabalho a um título esquecível. Definitivamente, Elephant Song tem como único “grande” atrativo o nome de Xavier Dolan nos créditos – e nada muito além disso.

Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood)

01Boyhood – Da Infância à Juventude, último trabalho do cineasta Richard Linklater (da trilogia Before), já chamava a atenção do público antes mesmo de seu lançamento – e isso é resultado da proposta atípica pela qual o diretor optou produzir sua história. O filme narra as transformações de vida de Mason, um garoto norte-americano comum entre tantos outros, especialmente entre seus 6 e 18 anos – mostrando suas visões de mundo, seus medos, dúvidas, ansiedades. Para tal feito, Richard passou os últimos doze anos acompanhando de perto o cotidiano de Ellar Coltrane, de seus dias na escola até seu ingresso na faculdade. E não apenas Ellar: todo o elenco acompanhou o artista durante esse período, se reunindo com a equipe anualmente para adicionar novas cenas à fita, apenas durante três ou quatro dias de gravações anuais.

Com um elenco em ótima sintonia (entre os nomes, temos Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater – esta última, filha do diretor), o pequeno Coltrane é excelente na construção de sua personagem – ou seria o reflexo de seu próprio crescimento? Coltrane oscila bem as nuances de Mason e carrega no olhar todas as experiências pelas quais o nosso protagonista passa. Mas se engana quem pensa que Boyhood traz apenas a história de um garoto. Na verdade, o filme conta muito menos sobre Mason e muito mais sobre a vida e as mudanças que passamos ao longo do tempo. Apesar de a narrativa se estender sobre uma perspectiva americana, é certo que Boyhood é puramente universal, alcançando qualquer espectador, ainda que de forma diferente. Muito longe dos melodramas convencionais, Boyhood nos leva de volta às nossas memórias, pessoas, lugares e, principalmente, momentos, sejam eles bons ou ruins, mas que em sua totalidade ajudam a formar nossa identidade. De forma simples, mas nunca ordinária, o cineasta insere temas que são comuns em todas as sociedades, como infância, casamento, separações, superações.

O espectador literalmente vê Mason crescer diante de seus olhos, vivenciando todos os dramas rotineiros da adolescência até chegar à fase adulta da vida – quando deve assumir uma postura mais “séria”, assim como responsabilidades. Exatamente por isso, a narrativa é de um realismo incomparável, até mesmo pela habilidade natural de Linklater em conduzir a trama. O roteiro e a edição contribuem muito para a ação da película, até mesmo se levarmos em consideração o fato de que não há uma “história” propriamente dita, com começo, meio e fim – pois aqui, a história é adaptada com o passar dos anos na vida real. A própria trilha sonora (excelente, por sinal) faz uma marcação concisa de tempo cronológico, iniciando-se com a inconfundível Yellow, do Coldplay, e passeando por Arcade Fire, Daft Punk, entre outros artistas – além também das inúmeras referências à cultura pop, com menções a Lady Gaga, Harry Potter e outros elementos da última década (incluindo impressões sobre o ataque às Torres Gêmeas e a candidatura de Barack Obama). Em suma, Boyhood é um filme também sobre a passagem do tempo.

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Com quase três horas de duração (mas, ironicamente, você nem sente o tempo passar), Boyhood é grandioso em sua simplicidade. Apesar de ficcional, Boyhood é uma obra que traz para a discussão a vida de todos nós: os desafios, os altos e baixos, a instabilidade do mundo, as primeiras experiências. Boyhood está longe de ser um filme sobre Mason: é também um retrato da existência de Davi, de Maria, Alberto, Regina – enfim, de todos. Não à toa, o longa de Richard Linklater (que custou pouco mais de 2 milhões de dólares – quase nada em comparação a outras produções norte-americanas – e demorou menos de quarenta dias de gravação) vem sido amplamente elogiado pela crítica e pelo público. No site Rotten Tomatoes, por exemplo, Boyhood tem cerca de 99% de aprovação da crítica e 89% do público. Boyhood é, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de seu diretor e, provavelmente, um dos mais intensos filmes do ano.

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit)

Sandra é uma mãe de família que está prestes a retornar ao trabalho após um período afastada tratando uma depressão. Seu emprego, porém, está ameaçado uma vez que, como medida de contensão de gastos, seu chefe ofereceu aos demais membros da equipe um bônus em dinheiro, desde que Sandra fosse dispensada. A maioria dos funcionários aceita a oferta, mesmo que isso implique na demissão da colega. No entanto, uma das funcionárias consegue convencer o patrão a fazer uma nova votação – e Sandra tem um curto espaço de tempo para bater de porta em porta atrás de votos a seu favor e tentar salvar seu posto.

Dois Dias, Uma Noite é o representante belga pré-indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. Com direção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (de O Garoto da Bicicleta), o longa é quase uma espécie de road-movie, onde a protagonista faz uma verdadeira peregrinação buscando salvar seu emprego. Durante a empreitada, com a ajuda do esposo Manu, Sandra se depara com as mais distintas reações, das mais solidárias às mais violentas. Nesse ponto, o filme coloca em pauta duas questões fundamentais em nossa sociedade atual: a solidariedade e o egoísmo. Afinal, até onde eu posso pedir que uma pessoa abra mão de seu direito por um direito meu? Todos os empregados precisam do bônus – cada um por um motivo especifico, mas além desta necessidade existe aqui também a questão do direito: ninguém pediu o bônus; ele foi ofertado em troca da demissão de Sandra.

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O roteiro, também escrito pelos irmãos, é equilibrado, sem altos e baixos, porém bem desenvolvido, proporcionando alguns momentos comoventes (talvez pelo excesso de “vitimização” concedido a Sandra). A montagem quase sugere uma espécie de “documentário”, o que de certa maneira aproxima o público do drama de nossa protagonista. Marion Cotillard, por sua vez, está despida aqui de qualquer glamour, requinte ou sofisticação. Já há muito tempo, Marion vem mostrando sua versatilidade diante das câmeras, se consagrando como uma das mais talentosas atrizes francesas de sua geração. Não à toa, ela empresta muita suavidade a Sandra e, embora carregue demais no tom dramático de sua personagem em certos instantes, arriscaria dizer que esta é sua melhor atuação desde Piaf – Um Hino ao Amor. Fabrizio Rigone (o esposo da protagonista) e os demais nomes do elenco (que interpretam os colegas de Sandra – logo, fazem pequenas mas intensas participações) são competentes o suficiente para preencher o quadro concisamente – apesar do filme ser exclusivamente de Cotillard.

Dois Dias, Uma Noite é um filme honesto, direto e silencioso – mas nem por isso perde sua riqueza e profundidade ao longo de sua uma hora e meia. Apesar de não apresentar um gênero muito bem definido, Dois Dias, Uma Noite proporciona uma reflexão sobre o mundo corporativo, que obriga até mesmo o mais moral dos seres humanos a perder sua dignidade diante da busca pelos seus interesses. Como é de se esperar, não há um happy ending. Não à toa, a trama se passa na Bélgica – um dos países mais “perfeitos” do mundo ocidental, mas ainda assim com seus problemas e deficiências sociais.

Atirem no Pianista (Tirez sur le Pianiste)

Na primeira sequencia de Atirem no Pianista, François Truffaut nos mostra um sujeito sendo perseguido por dois homens. Não sabemos nada a respeito da perseguição ou mesmo quem são os envolvidos (a fotografia escura deste trecho da fita dificulta bastante a identificação). Na correria, o homem esbarra em um poste e cai meio desacordado no chão. Um transeunte passa e, após certificar-se de que o outro está bem, ajuda-o a se levantar e ambos saem caminhando pelas ruas, desenfreando uma conversa natural, como se fossem velhos amigos.

Esta, claro, é apenas a ótima introdução de Atirem no Pianista, segundo filme do cineasta francês conhecido por ser um dos fundadores da “nouvelle vague”. Escrito pelo próprio Truffaut, em parceria com Marcel Moussy (que se tornaria um colaborador constante do diretor), o roteiro segue Charlie Kohler, um outrora pianista famoso que hoje trabalha tocando em um bar de segunda classe qualquer da cidade, longe dos holofotes e escondendo sua verdadeira identidade: Edouard Saroyan. Enquanto foge de sua família e do seu passado (incluindo o suicídio de sua esposa), Charlie reencontra um de seus irmãos, que está envolvido com a máfia.

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Atirem no Pianista tem uma incômoda posição na filmografia de Truffaut: foi produzido entre os amplamente elogiados Os Incompreendidos e Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois, de 1959 e 1963, respectivamente. Talvez por isso, este não seja um filme unânime na carreira do cineasta, que se tornaria um dos nomes mais citados da história do cinema. A crítica só reconheceu a fita anos após seu lançamento, enquanto o público esnobou a ideia nas bilheterias. De fato, Atirem no Pianista escorrega em sua narrativa desfragmentada e irregular: flerta-se com o romance, o humor, o mistério, a tragédia e, apesar de isso até ser “charmoso” em determinados momentos, faz com que não haja uma espécie de “fio lógico” muito consistente – afinal, faltava a Truffaut naquela época a maturidade suficiente para trabalhar com essa alternância de forma elegante. Talvez isso seja resultado da forma como Truffaut e Moussy optaram por desenvolver o roteiro, que era escrito conforme as filmagens avançavam – algo que pode ter atrapalhado o resultado final.

Mas se o pecado de Atirem no Pianista está em sua narrativa desnorteada, o mesmo não pode se dizer do protagonista vivido por Charles Aznavour – que compensa cada minuto em cena com seu tipo franzino, calado e tímido. Um dos maiores intérpretes da música francesa de todos os tempos, Aznavour é impecável em sua construção de personagem, um homem com evidentes (mas modestos) desvios de personalidades e que trava ótimos diálogos imaginários consigo mesmo, explicitados em uma narração voice over. Sem outros grandes destaques, o elenco ainda é formado por artistas como a belíssima Marie Dubois, Albert Rémy, Serge Davri e Nicole Berger.

Atirem no Pianista talvez funcionasse melhor se fosse um filme noir, alguns dizem. Com a ótima fotografia em preto e branco de Raoul Cotard (que se tornaria um dos nomes mais importantes na fotografia da nouvelle vague), o longa abusa de sombras e planos escuros, recorrendo a inúmeros elementos típicos do cinema norte-americano. Com uma trilha incidental firme e um argumento baseado em um romance policial, Truffaut se perde um pouco na direção, nos entregando uma obra que não apresenta nenhuma intriga ou suspense próprios do cinema hollywoodiano (aos moldes de Hitchcock, por exemplo, um ídolo do cineasta), mas também não tem o realismo psicológico de uma produção francesa clássica. Resumindo: não sabe muito bem para onde vai e nem de onde veio – mas cumpre bem seu papel de mostrar tudo aquilo que Truffaut ainda seria capaz de fazer ao longo de sua curta existência.

O Duplo (The Double)

Simon é um rapaz tímido e recatado, sem muitas aspirações e cuja existência se resume apenas a… existir. Trabalha há anos na mesma empresa, mas apesar de ser um bom funcionário, sequer é notado. Não leva muito jeito com as mulheres e mal sabe agir quando está diante da garota de seus sonhos, a inconstante Hannah. Mora sozinho, já que a mãe está internada em uma espécie de sanatório e quase não o reconhece. Sua rotina é perturbada com a chegada de um novo colega de trabalho, James, fisicamente idêntico a Simon, mas com uma personalidade completamente diferente: dinâmico, confiante, carismático, sedutor – enfim, tudo aquilo que Simon não é e (aparentemente) pouco faz questão de ser. Aos poucos, James se aproxima de Simon e passa a invadir sua vida, assumindo o papel do nosso protagonista.

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O Duplo, que chega aos cinemas brasileiros daqui a algumas semanas, parte de uma premissa que já foi abordada em outras ocasiões – recentemente, por exemplo, uma sinopse bastante similar pode ser conferida em O Homem Duplicado, filme estrelado por Jake Gyllenhaal baseado na obra de José Saramago. O Duplo, por sua vez, busca inspiração no texto de Dostoievski, publicado originalmente em 1846, que trata sobre a dualidade do indivíduo: afinal, o ser humano é único e especial ou existe realmente seu duplo?

Particularmente, devo confessar que gostei mais de O Duplo do que O Homem Duplicado e a razão é simples: a fita de Denis Villeneuve se debruça sobre várias teorias e referências, despejando uma enxurrada de informações que muitas vezes são desnecessárias e abrindo espaço para inúmeras interpretações, claramente querendo parecer um longa “difícil”. O Duplo também tem lá suas teorias, porem ele flerta diretamente com o suspense, construindo uma narrativa muito mais ágil (o que alguns críticos dizem que prejudicou o produto final, mas a meu ver contribui muito para não deixar a trama cansativa, já que o tema não é tão fácil). O roteiro, ainda que meio perdido em alguns momentos, apresenta lampejos de humor ácido, que muitas vezes aliviam a tensão dos fatos e rendem boas e singelas risadas.

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No entanto, é tecnicamente que o longa de Richard Ayoade mais pode nos impressionar. A paleta de cores e o trabalho de iluminação (com seu uso constante de sombras, abusando do contraste claro-escuro) compõem uma ótima fotografia, ajudando muito na recriação de ambientes sombrios e claustrofóbicos. A trilha sonora de Andrew Hewitt é assustadoramente desconcertante, capaz de deixar o espectador inquieto durante as sequências mais explosivas. O diretor recorre também a canções japonesas que, em conjunto com a música incidental, provocam uma interessante experiência. Quanto às atuações, o destaque curiosamente fica por conta da cada vez mais à vontade Mia Wasikowska, que empresta toda sua esquisitice a Hannah (e que com seus cabelos claros e roupas com cores vivas, destoa completamente do restante dos objetos de cena). Já o protagonista vivido por Jesse Eisenberg é até passível de certa compaixão – apesar de Jesse aparentar ter uma metralhadora no lugar da língua, o que deve ser um problema para qualquer dublador. Jesse parece sempre interpretar a si próprio em todos os filmes em que atua – e aqui não é diferente. No entanto, é até mesmo estranho argumentar que sua versão tímida e opressiva é mais carismática do que seu duplo, o que justamente deveria ser o contrário. Ou seja, reforça-se a tese de que Jesse é ator de um único tipo.

Muito mais pelo suspense e pelos alívios cômicos do que por todas as discussões que possa criar, O Duplo é um filme que surpreende e é agradável de acompanhar. O diretor visivelmente não procura se aprofundar em inúmeras teorias ou inovar na técnica, mas contenta-se em montar sua história dentro de um universo sufocante capaz de prender o espectador. Não é uma obra que pode te fazer pensar por muito tempo, até mesmo pela rapidez da narrativa que não te deixa concluir muitos pensamentos ou levantar quaisquer questões, mas funciona como um bom entretenimento, apesar das deficiências de seu roteiro. Resumindo, é um filme que poderia ser mais do que é, mas contenta-se em ficar como sua personagem central: em um status quo, que o impede de ser uma grande obra.

A Lenda de Oz (Legends of Oz: Dorothy’s Return)

O título original Legends of Oz: Dorothy’s Return entrega exatamente o que podemos esperar de A Lenda de Oz, que chega aos cinemas brasileiros nesta semana – e deixa claro também que se trata da continuação do clássico O Mágico de Oz. Nesta releitura do livro homônimo de Roger Stanton Baum, a garota Dorothy é levada de volta a Oz, que está em um estado de decadência por conta de um novo perigo: o Bobo da Corte, que deseja tomar conta deste mundo mágico transformando todos os principais representantes do local em marionetes. Com a ajuda de seus antigos companheiros (Espantalho, Homem de Lata e o Leão Covarde), Dorothy tem a missão de salvar Oz das garras deste novo vilão.

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Para começar, falemos de A Lenda de Oz enquanto animação – e aqui já te digo: fuja. A animação (de responsabilidade da Prana Animation Studios) não é apenas “simples”, mas “medíocre”, nos remetendo logo de cara à qualquer série televisiva (sabe aqueles filmes que passam nas manhãs globais de sábado? Então…). As expressões dos principais personagens são visivelmente limitadas – assim como os recursos usados que realçam todo o estilo “amador” do projeto. O roteiro, por sua vez, é uma confusão só, desenvolvendo os personagens principais de maneira superficial, apesar do grande potencial de alguns deles (como o soldado Marshal Mallow ou a boneca de porcelana). Para boa parte dos pequenos (que em nossos dias atuais desconhece a trama original), a história pode até gerar estranhamento porque não há qualquer identificação com os personagens.

Outro ponto negativo são as músicas inseridas em momentos não muito oportunos, chegando quase a “atrapalhar” o andamento da narrativa – além da duvidosa qualidade das canções. Nesse quesito, salva-se apenas a performance dos dubladores, que não chega a ser primorosa mas é suficiente diante de todo o resto. Aliás, o time de dublagem é formado por nomes como Lea Michele (da série Glee, na voz de Dorothy), Dan Aykroyd, James Belushi e Patrick Stewart – um elenco, sob certo aspecto, “de peso”, mas que não foi capaz de salvar a produção.

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Não espere muito de A Lenda de Oz. Sequer compare-o com o filme de 1939 porque aí é que a coisa fica pior. Com a proximidade do Dia das Crianças, talvez o longa de Daniel St. Pierre possa ser um programa divertido para se fazer com o filho, o sobrinho, o primo, o afilhado…, até porque estamos diante de uma animação excessivamente “infantil”. A Lenda de Oz não é totalmente péssimo, mas está anos-luz daquilo que podemos esperar de uma boa animação. Vai funcionar como uma alternativa “barata” de entretenimento e para aqueles eventuais dias em que você está muito ocupado e quer manter seu pequeno quietinho enquanto faz suas atividades. Isso, é claro, se sua criança conseguir assistir isso por muito tempo…

Grace de Mônaco (Grace of Monaco)

Não há dúvidas de que Grace Kelly é uma das figuras mais celebradas do cinema em todos os tempos, cercada por inúmeras histórias e lendas. Faltava, no entanto, uma cinebiografia que fizesse jus a tudo aquilo que Grace realmente foi ao longo de sua curta existência (afinal, a atriz faleceu precocemente aos 52 anos, em um trágico acidente automobilístico). Coube ao francês Olivier Dahan (do irretocável Piaf – Um Hino ao Amor) a árdua missão de transportar para as telas de cinema a biografia deste ícone mundial – e assim surge Grace de Mônaco, filme de abertura do 67º Festival de Cannes e que arrebatou as mais duras críticas da imprensa.

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Diferente de Piaf – Um Hino ao Amor, cuja protagonista era acompanhada da infância até sua morte, Grace de Mônaco concentra sua narrativa nos primeiros anos do casamento de Grace e o príncipe Rainier III (união considerada por muitos um “conto de fadas”), quando a artista abandonou sua próspera carreira de atriz para dedicar-se à realeza de Mônaco. Desiludida com o casório (em especial, com o distanciamento do esposo e o formalismo de seu novo mundo), a princesa aceita o convite do amigo Alfred Hitchcock para estrelar seu novo projeto (Marnie – Confissão de uma Ladra, que mais tarde seria protagonizado por Tippi Hedren) – que marcaria seu retorno triunfal a Hollywood, mesmo contra a vontade de Rainier. No entanto, Mônaco passa pela iminência de uma guerra e Grace fica dividida entre retomar sua carreira ou lutar ao lado do esposo pelo Principado.

Apesar do bom material disponível, o maior problema de Grace de Mônaco está em seu argumento, desenvolvido por Arash Amel: a ambição de Grace de Mônaco, ao que parece, desde o início é ser “grandioso”, “épico”, recorrendo a frases de efeitos, mas que não há nada além de diálogos rasos e superficiais que poderiam ter sido tirados de qualquer livro de autoajuda. A impressão que temos é a de que não estamos necessariamente diante de um filme “sério”, pois há quase um certo apelo televisivo na obra – a prova irrefutável é a de que em sua exibição em Cannes, jornalistas e demais especialistas chegaram a rir em diversas sequências, conforme foi noticiado por alguns veículos.

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Além das evidentes falhas na narrativa, o elenco não demonstrou o menor interesse pelo projeto. Se em Piaf – Um Hino ao Amor, Marion Cotillard foi, no mínimo, unânime, Nicole Kidman só consegue, no máximo, emprestar certa classe e sofisticação à sua personagem. Sua atuação é caricata, teatral e forçada, tornando sua Grace uma mulher insegura e dependente. É quase cômica (não fosse ruim) a cena em que Grace tem aulas de francês, com o péssimo sotaque de Kidman (que está quase inexpressiva). Tim Roth também está quase no automático – aliás, não, Tim está muito abaixo de seu talento, pois até mesmo o modo “automático” do ator seria aceitável. Se o casal de protagonistas não impressiona, o restante do elenco não tem muito que fazer – e o único bom retrato dentro de um filme repleto de tipos insuportáveis é o do veterano Frank Langella, no papel do padre Tucker, confidente de Grace (e que demonstra ótima química com Kidman). De resto, tudo soa tão artificial que beira o satírico – o que, obviamente, não me pareceu ser a proposta aqui.

Detonado pela crítica, Grace de Mônaco funcionou muito melhor fora do cinema: antes mesmo do filme ser lançado, a família de Grace Kelly já havia se manifestado, acusando a fita de ser “baseada em referências históricas erradas e dúbias”, conforme nota oficial. Apesar de até ser pontual tecnicamente falando (há uma boa fotografia, figurino e design de produção, em contrapartida da péssima e lastimosa trilha sonora), Grace de Mônaco peca na estrutura de seu roteiro – um grave erro que se sobrepõe a todo restante da obra. Mas não apenas isso: Olivier Dahan falha ao tentar retratar um nome tão importante com tamanha superficialidade, explorando pouco da vida de Grace e tendo como cenário o conturbado conflito diplomático entre Mônaco e a França. Dessa forma, falta credibilidade, falta respeito e, principalmente, falta amor. Grace Kelly, nossa eterna e queridíssima Grace Kelly, merecia algo infinitamente melhor.