Sin City: A Dama Faltal (Sin City: A Dame to Kill For)

E lá se foram quase dez anos desde que Sin City – A Cidade do Pecado chegava às salas de cinema ao redor do mundo. Na época, o longa se tornou uma febre e virou, digamos, uma espécie de clássico instantâneo. Não que seja uma obra imaculada – a bem da verdade, Sin City é um filme como outro qualquer, com algumas peculiaridades, sim (como sua excepcional fotografia em preto e branco e suas inúmeras tramas irresistíveis), mas que não apresentava nada muito grandioso. Enfim, era uma novidade naquele momento – mas nada muito eloquente.

Mas se em 2005 Sin City – A Cidade do Pecado causou certo burburinho entre os cinéfilos, o mesmo não se pode dizer sobre Sin City: A Dama Fatal, segundo filme da série baseada nas HQs do artista Frank Miller (que divide os créditos de direção com Robert Rodriguez) e que chega hoje aos cinemas brasileiros. Não que esta continuação não tenha sido aguardada – principalmente depois dos inúmeros adiamentos, que deixaram os fãs dos quadrinhos de Miller apreensivos. Mas talvez esse hiato entre os dois filmes tenha diminuído um pouco o frisson deste universo – e como consequência inevitável, Sin City: A Dama Fatal vem tendo um desempenho satisfatório, mas levemente inferior ao seu predecessor. Em outras palavras, este Sin City mantém o bom visual e apelo técnico, mas perde aquele impacto causado anteriormente.

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O cenário ainda é Basin City e segue, basicamente, a linha de Sin City – A Cidade do Pecado: narrativas independentes que se cruzam e se passam nas ruas, becos e vielas de uma cidade dominada pela corrupção, violência e impunidade (e qualquer semelhança com nossa realidade é mera coincidência). Aqui, temos o encontro de velhos conhecidos (como a stripper Nancy, o brutamontes Marv, o detetive Hartigan e o anti-herói Dwight) com novos rostos (como o ambicioso jogador de pôquer Johnny, o empresário Joey e a sensualíssima Ava Lord – a tal dama fatal do título), que se misturam ao longo de três contos, alguns inéditos.

A primeira das três histórias centrais é estrelada por Joseph-Gordon Levitt na pele de Johnny, um jovem que desafia o poderoso senador Roark em uma partida de pôquer com o evidente interesse de humilha-lo – o que coloca sua vida em risco. Na segunda (e melhor) parte, temos Eva Green como a sedutora Ava, uma mulher ambiciosa e que faz uso de todo seu charme (e suas belas curvas) para colocar as mãos na fortuna do marido – recorrendo até mesmo a Dwight, seu antigo e ressentido amor. Com menos força, a última trama apresentada é a de Nancy (protagonista de sensuais danças sobre o balcão de um dos bares mais badalados de Sin City), que, totalmente atormentada, busca se vingar da morte de seu amado Hartigan – que se suicidara no filme anterior.

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Sin City: A Dama Fatal não apresenta nada novo em relação ao primeiro da série. Se em 2005 tudo era novidade (inclusive o uso constante de tela verde – algo inédito na época e que se tornou moda nos anos seguintes, sendo utilizado até os dias atuais), hoje é certo dizer que este projeto é apenas mais do mesmo e inova pouco – inclusive na criação dos ótimos cenários digitais. Mas isso, por incrível que pareça, já é um mérito: o visual de Sin City: A Dama Fatal é impecável. A fotografia em preto e branco é impressionante e fica ainda melhor quando os diretores apostam em alguns pontos específicos para destacar outras cores (como o “acinturado” casaco azul de Ava, o sangue vermelhíssimo que escorre ou o púrpura vivo de um veículo em movimento). Esse recurso é imprescindível para deixar o filme muito mais apreciável a aproxima-lo a um estilo meio neo-noir, que é acentuado ainda mais pelo tom escuro e as constantes utilizações de sombra e luz. A tórrida cena de sexo entre Ava e Dwight, por exemplo, é de uma plasticidade ímpar – arriscaria dizer uma das mais bem dirigidas sequências de sexo que já assisti. A fotografia é essencial para emular os quadrinhos de Miller.

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O elenco desta fita também foi muito bem escalado. Mickey Rourke, apesar de não ser um personagem “chave” em nenhuma das histórias, é sempre um alívio quando aparece na tela devido, sobretudo, à sua frieza que o torna, até mesmo, cômico (um perfeito tipo tarantinesco). Joseph empresta todo seu perfil cativante para Johnny – e isso faz com que fiquemos indignados quando Roark o esnoba. Josh Brolin, por sua vez, é infinitamente melhor que Clive Owen no papel de Dwight – um autêntico morador de Sin City. Já Eva Green, claro, é quem brilha verdadeiramente aqui. A escolha de Green foi a mais correta – e chega a ser ultrajante pensar que, em algum momento, a insossa Angelina Jolie foi cotada para o papel de Ava Lord. Eva ofusca qualquer um a cada aparição não apenas pelo belo corpo (aliás, fica a dica: Green está nua em quase 80% do tempo em que aparece), mas principalmente por sua ótima atuação, totalmente segura e natural.

Sin City: A Dama Fatal é equilibrado e, a meu ver, totalmente nivelado ao primeiro filme da franquia – ou seja, tecnicamente bem produzido (fotografia, edição, design, figurino, maquiagem) e visualmente arrebatador. O único “porém” é que, como mencionado, hoje nada do que se vê é uma novidade (com exceção do 3D, mas que também não chega a impressionar). Há, obviamente, de se reconhecer que desde 2005 também pouca coisa realmente do gênero foi feita (ou bem feita, melhor dizendo), mas a verdade é que Sin City: A Dama Fatal é mais daquilo que já tínhamos visto e tanto gostamos de ver – e, por essa razão, se torna um programa indispensável para quem curte cinema e também para os fãs de HQs (afinal, como adaptação, deve-se mencionar que todo o universo dos quadrinhos de Miller foi brilhantemente transportado para as telonas). Em outras palavras, Sin City: A Dama Fatal é apenas mais uma noite escura, fria e solitária nos cantos dessa cidade que tanto amamos: diverte, vale a pena mas, ainda assim, é apenas mais uma noite. Apenas mais uma noite…

Mil Vezes Boa Noite (Tusen Ganger God Natt)

Ainda há poucos dias atrás, conversava com alguns amigos sobre carreiras, empregos, vocações e coisas do gênero. Na ocasião, comentei que acredito firmemente que toda pessoa nasce para fazer alguma coisa, todos tem um dom particular que, na maioria das vezes, nunca é descoberto ao longo da vida (devido a inúmeras situações ou problemas que não vou explorar aqui). Argumentei ainda que admiro muito as pessoas que conseguem seguir uma carreira de sucesso fazendo aquilo que realmente gostam – afinal, existe um grande abismo entre gostar do que se faz e se acostumar a fazer. Mais ainda: às vezes, deixamos de lado nossos sonhos para nos lançarmos em projetos que, apesar de não nos satisfazer por completo, garantem o nosso sustento ou nosso padrão de vida elevado – ou por várias razões, tentamos conciliar as duas coisas mas acabamos sempre optando por uma e abandonando a outra.

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Todos estes pensamentos, veja você, me vieram à tona ao assistir Mil Vezes Boa Noite, novo filme de Erik Poppe (elogiado por seu longa anterior, Águas Turvas, de 2008) que chega aos cinemas nacionais nesta semana. Na trama, acompanhamos o drama da fotógrafa de guerra Rebecca, uma das mais renomadas profissionais neste ramo no mundo, que após sobreviver a um ataque durante um conflito em uma região perigosa, volta para casa e reencontra sua família. O dilema da artista começa quando ela tem de decidir continuar seu bem sucedido trabalho ou dedicar-se apenas aos seus familiares (esposo e as duas filhas), que vivem cada dia temendo perdê-la devido aos riscos de sua profissão.

Juliette Binoche dá vida à nossa protagonista, através de uma atuação segura, sóbria e intensa, oscilando de forma tocante cada nuance de sua personagem. Sua dor é latente; seu sentimento é real e o turbilhão de emoções de Rebecca atinge o espectador em cheio. O roteiro (parceria do cineasta com Harald Rosenløw-Eeg) também apresenta alguns momentos de silêncio e outros mais conturbados, onde o diretor faz uso de uma sonoplastia poderosa, marcada principalmente por sua trilha pontual – que acentua, sob certo ângulo, o sofrimento de Rebecca. Dessa forma, Mil Vezes Boa Noite se torna, por vezes, um filme angustiante, dolorido.

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Mil Vezes Boa Noite escancara, ainda, uma realidade cruel que muitos ignoram ao mostrar a situação de milhares de pessoas residentes em áreas em constantes conflitos mundo afora – e que, muitas vezes, são ignoradas. Além desta crítica social, o filme toca na ferida ao mostrar o drama da mulher moderna, que mesmo no século XXI ainda tem de escolher entre carreira e família (e, quase sempre, é apenas um dos lados que sai vencedor) – ser uma profissional brilhante ou escolher cuidar da casa e da família, uma tradição cultural que ainda domina muitos países ocidentais. Levanta também um profundo debate sobre a ética da profissão, ao questionar quais são os limites a que deve se expor um trabalhador para conseguir bons resultados, assim como o papel da imprensa diante da censura governamental (se é que podemos chamar dessa forma), que tem o poder de selecionar aquilo que vai ou não ser  informado. Com tantas reflexões, Mil Vezes Boa Noite é um filme que vale a pena até mesmo para pautas e conversas posteriores. Apesar de não ser totalmente marcante, o longa de Erik Poppe cumpre muito mais do que sua proposta, se tornando uma obra indispensável para quem curte o cinema e todas as suas discussões.

A Bela e a Fera (La Belle et la Bête)

Desde 2010, com o sucesso épico do burtoniano Alice no País das Maravilhas, o cinema não parou mais de produzir novas versões (especialmente em live action) de alguns clássicos infantis. De lá para cá, podemos citar a trama dos irmãos João e Maria (João e Maria: Caçadores de Bruxas, 2013), a história da sofrida Branca de Neve (que ganhou os filmes Branca de Neve e o Caçador e Espelho, Espelho Meu, lançados quase simultaneamente, em 2012), as aventuras de João e seu pé de feijão mágico (com Jack, o Caçador de Gigantes, de 2013) e as maldades da madrasta de Cinderela (no mais recente Malévola, de 2014). No entanto, com exceção deste último, todas essas versões (que em geral faturaram muito em bilheteria) não receberam críticas muito amistosas – e dessa forma, a releitura francesa para A Bela e a Fera veio como um tapa certeiro na cara de Hollywood.

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Neste novo filme (baseado no original que, pouca gente sabe, é francês – escrito no século XVIII por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve), Bela é uma dos seis filhos de um próspero comerciante que, de uma hora para outra, perde toda sua fortuna por conta de um desastre marítimo. A família se vê obrigada a mudar para uma casa menor, longe da agitação da cidade grande, onde vivem modestamente apesar dos constantes protestos das irmãs mesquinhas de Bela. O pai, em uma tentativa de alavancar os negócios da família, se perde em uma tempestade e vai parar em um castelo, onde se torna refém de um terrível monstro após “roubar” uma rosa para sua filha mais querida – obviamente, Bela. Quando o pai retorna à casa da família apenas para se despedir dos filhos, Bela decide se oferecer como prisioneira no lugar do pai – e daí pra frente é tudo aquilo que já conhecemos.

A direção fica por conta do competente Christophe Gans, do elogiado O Pacto dos Lobos, de 2001. Gans (que também assina o roteiro) apresenta um trabalho bastante equilibrado e homogêneo, sem altos ou baixos que mereçam ser destacados – com exceção, talvez, do tom fabular que em determinados momentos são exagerados, mas que não comprometem o resultado final. A trama é envolvente e a narrativa se desdobra muito bem no decorrer de suas quase duas horas. Além disso, tecnicamente a produção é caprichada: do belíssimo design de produção aos figurinos e cenários (quase todos digitais, é verdade, porém magníficos), tudo contribui para um filme visualmente atrativo.

Léa, a nova “queridinha” do cinema francês (principalmente após o polêmico Azul é a Cor Mais Quente) está encantadora diante das telas – apesar da estranha sensação que tenho de que ela sempre tem a mesma expressão. Já o veterano Cassel é competente e mostra boa forma para um quase cinquentão. Juntos, no entanto, me pareceu faltar carisma ao casal – ao menos, a química entre eles não me convenceu. Os demais nomes do elenco cumprem bem a proposta exigida – inclusive as criaturas “fofas” que Bela encontra no castelo (uma tentativa clara de suprir a falta dos simpáticos personagens mágicos da versão Disney).

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De forma geral, este A Bela e a Fera não é uma obra-prima – e está muito longe de ser. Mas é um filme que funciona bem para o seu propósito, surpreendendo por se igualar a qualquer superprodução norte-americana do gênero. Se compararmos esta refilmagem com as outras que citamos no início (ou mesmo outras que deixamos de lado), chegaremos ao fatídico fato de que ela não perde em nenhum aspecto. Pelo contrário: A Bela e a Fera demonstra a total maturidade que só o cinema francês possui, com um texto bem escrito, um trabalho técnico impecável e, claro, uma identidade única. Alguns podem argumentar que este A Bela e a Fera foge um pouco do “padrão francês de se fazer filme” e escorrega ali e aqui em seu tom – e eu posso até concordar, mas de forma positiva. A Bela e a Fera de Christophe Gans não é uma típica produção francesa, mas acerta em cheio ao tentar fazer cinema como Hollywood achava que só ela sabia fazer.

Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (A Million Ways to Die in the West)

03Estamos no Arizona e o ano é 1882. Em um pacato vilarejo vive Albert, um fracassado e covarde pastor de ovelhas que, após fugir de um duelo, é abandonado por sua namorada Louise (que trocara o rapaz por um próspero – e bigodudo – comerciante local). Enquanto lamenta o término de seu noivado para o seu melhor amigo Edward (um cristão virgem que, ironicamente, namora uma prostituta do saloon da cidade), Albert se aproxima da bela e misteriosa Anna, que acabara de chegar ao povoado e se propõe a ajudar o desajeitado fazendeiro a manejar uma arma – e mais do que isso: encontrar a coragem que tanto precisa para ser um “homem de verdade”. O que Albert não sabe, no entanto, é que Anna é a esposa de Clinch, um perigoso fora-da-lei.

Esta é a sinopse de Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (péssima tradução para um título interessante – A Million Ways to Die in the West), novo longa-metragem de Seth Macfarlane – conhecido, principalmente, por ser criador das séries animadas Family Guy e American Dad. Seth teve uma ascensão admirável em Hollywood nos últimos tempos: com a notoriedade gerada pelos seriados que criou, dirigiu em 2012 seu primeiro filme, Ted – protagonizado por Mark Wahlberg e que, apesar do tímido sucesso de bilheteria, dividiu a opinião dos especialistas. Também, em 2013, foi o apresentador da cerimônia do Oscar – recebendo uma enxurrada de críticas pouco favoráveis.

Abertamente, trata-se de uma paródia ao gênero que talvez mais tenha influenciado o cinema norte-americano: o western – e, a julgar pela história, Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola tinha um imenso potencial, infelizmente desperdiçado em suas duas longas e desnecessárias horas em um produto cheio de promessas não cumpridas. A proposta é satirizar os filmes de velho oeste? Falhou. A proposta é fazer rir? Falhou de novo. Quer entreter pelo menos? Falhou mais uma vez. O material, a ideia, o conceito são muito bom – mas a execução deixa a desejar. Um Milhão de maneiras de Pegar na Pistola não é engraçado e ponto. Salvo um ou outro momento, não há boas piadas. Eu entendo que “humor” é subjetivo: o que faz graça para mim, pode não fazer para você. Então, vou mudar minha teoria: a narrativa até apresenta uma ou outra anedota – o que gera desconforto é o enorme abismo entre elas causado, sobretudo, pela duração da fita que prejudica (e muito) o ritmo da trama. Junta-se a isso as inúmeras piadas escatológicas (que promovem momentos vergonhosos ao elenco) e o resultado é um produto muito abaixo da capacidade de seu idealizador.

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Para piorar a situação, nem no tom satírico o filme acerta. O Velho Oeste de Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola é tão vago, caricato e pobre quanto aquele recriado por Mário Prata em seu fiasco Bang Bang (novela global exibida entre 2005 e 2006 e que foi responsável por afundar o horário das sete à época). Seth pesa a mão ainda ao tentar vender a ideia de um velho oeste violento e blá bla blá, mas essa premissa se repete tantas vezes que é impossível ao espectador atura-la durante muito tempo. Para compensar, o diretor (responsável também pela produção e roteiro) recorre a momentos gratuitos e dispensáveis – como a vergonhosa cena em que um personagem usa um chapéu para aliviar sua diarreia ou na sequência em que Albert é capturado por um grupo indígena que utiliza drogas e fala como jovens urbanos.

Seth, na pele de Albert, está também muito abaixo em atuação dos demais nomes do elenco (que inclui Charlize Theron e Liam Neeson nos principais papéis, além de Amanda Seyfried e Neil Patrick Harris – que protagoniza um curioso mais divertido número musical), mas isso é até justificável visto sua pouca experiência à frente das câmeras. Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola é até agradável tecnicamente: tem uma boa fotografia e há ótimos planos e sets, isso sem mencionar a trilha divertida e bem executada. Há inúmeras referências à cultura pop e aos filmes de outrora (de Django a De Volta Para o Futuro, veja você…) – o próprio nome do vilão da trama, Clinch, faz certa alusão a um dos maiores atores do gênero western, Clint Eastwood. Puro desperdício, pois não há nada que justifique tanto investimento assim. Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola peca na premissa de satirizar e fazer rir e não conseguir nenhuma das duas. Seth, um gênio na telinha, está nos devendo algo melhor na telona.

Cortina Rasgada (Torn Curtain)

Acho engraçado quando leio por aí que os últimos trabalhos de Hitchcock não foram muito empolgantes. Tudo bem, depois de Os Pássaros, de 1963, o cineasta não criou nada muito original ou grandioso, mas ainda assim temos que admitir que seus filmes subsequentes não são, de fato, ruins como a maioria argumenta – apenas um entretenimento menor. Cortina Rasgada, lançado três anos após o clássico hitchcockiano citado anteriormente, pode não ser o melhor exemplar da carreira de Alfred mas, se analisado isoladamente, consegue agradar ao público muito mais que grande parte dos “pipocões” americanos da atualidade.

01O cenário político nunca foi uma temática muito presente na filmografia de Hitchcock, que só destacou essa vertente em seus filmes “propaganda” realizados durante a Segunda Guerra Mundial. Mas mesmo nessas obras, o tom político das histórias soava muito raso, dando maior espaço para os dramas e, claro, o suspense que consagraram o mestre. Em Cortina Rasgada, o cenário da Guerra Fria só se manifesta para que Hitchcock crie seu tradicional estilo, através da trama do cientista americano Armstrong, em viagem a Copenhagen para um congresso de físicos ao lado de sua noiva e assistente Sarah. Em território dinamarquês, Sarah descobre que o noivo está de malas prontas para a Alemanha Oriental, atrás da Cortina de Ferro (durante o período da Guerra Fria, trata-se da divisão da Europa em duas partes: Europa ocidental e oriental, com influências políticas divergentes), na tentativa de levantar fundos para um projeto rejeitado pelos EUA. Mesmo frustrada com a traição do futuro marido ao seu país, Sarah não pensa duas vezes e decide seguir o amado.

Vou fazer uma confissão: já tentei assistir a fita por três vezes – e dormi logo nos primeiros quinze minutos. Talvez, por uma grande coincidência, eu estivesse apenas cansado ou passando por dias ruins, mas é um fato: Cortina Rasgada é um filme lento e arrastado. Apesar de promover algumas boas ideias, não há como negar que o ritmo da história e sua duração prejudicam um pouco o resultado final. Outro ponto que também colabora para a sensação de morosidade da narrativa é o casal de protagonistas, vividos por Paul Newman e Julie Andrews. Seus personagens são totalmente desestimulantes: enquanto Armstrong trata sua parceira com total indiferença e arrogância, Sarah é ainda mais irritante ao abaixar a cabeça diante do tratamento grosseiro do noivo, seguindo-o para todo lado e considerando-o o homem mais incrível do mundo. Ou seja, a empatia com o público não se cria – e é o excelente trabalho de direção de Alfred que salva Cortina Rasgada do fiasco total.

Hitch consegue despertar o interesse pela narrativa, acertando na divisão do filme em três atos, cada um mostrado através de uma perspectiva distinta. O primeiro momento, sob a visão de Sarah, onde o mistério predomina – já que ela não sabe os planos de Armstrong. O segundo ato, quando descobrimos que o personagem de Newman está traindo sua pátria é marcado pelo suspense característico de Hitch, tomando conta de toda a história. E, finalmente, a ação que se desenvolve já na última parte da fita. Essa construção é fundamental para que o público não se disperse por inteiro, apesar de alguns quadros monótonos que ameaçam o roteiro e só são suportáveis porque Hitchcock nos presenteia com algumas cenas formidáveis. Entre elas, é obrigatório citar a sequência do assassinato, tão verdadeira que é lembrada até hoje como um dos pontos mais brilhantes da carreira do diretor – que argumentava que “tirar a vida de alguém é algo muito difícil”, diferente do que se via em Hollywood. Outra cena de tirar o fôlego é a longa perseguição, já na última parte, onde Hitchcock com total destreza manipula a narrativa para aumentar ainda mais a tensão da fuga dos protagonistas – especialmente a sequência dos ônibus (que merece simplesmente ser vista e não apenas comentada aqui).

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Cortina Rasgada é um bom thriller de espionagem e perseguição, mas com qualidade inferior a que estamos acostumados quando mencionamos o nome Hitchcock. Tecnicamente, a produção continua sendo eficiente, com exceção, talvez, da trilha de John Addison, que substituiu o velho Bernard Hermann (conta-se que Hermann teria escrito o roteiro original do filme que, após inúmeras alterações, marcou o fim da parceria entre o compositor e Alfred). Apesar de possuir os protagonistas mais insossos da carreira do cineasta, Cortina Rasgada mostra (assim como os grandes clássicos de outrora) o domínio do diretor em sua mise-en-scène, carregando muitos artifícios que são indispensáveis na obra hitchcockiana.

Belle e Sebastian (Belle et Sébastien)

Em uma vila nos Alpes Franceses, em 1943, um garoto de seis anos chamado Sebastian vive solitário, com a esperança de um dia reencontrar sua mãe. Ele não frequenta o colégio e ajuda a jovem Angelina e o rabugento César, que cuidam do menino, em pequenas tarefas diárias, como apascentar os animais do rebanho. Em meio ao terror da ocupação nazista naquela região durante a Segunda Guerra Mundial, Sebastian encontra nas montanhas um cão selvagem, com quem irá estabelecer fortes laços de amizade. No entanto, o cão é acusado injustamente de atacar os animais dos pastores da região e Sebastian terá de proteger seu amigo das mãos dos demais moradores. Esta é a premissa do comovente Belle e Sebastian.

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Sebastian é um excluído não pelas demais crianças, mas por si mesmo. Sua frustração é nunca ter conhecido sua mãe e viver na constante promessa de César de que um dia ela virá. Bell, por sua vez, é um cão maltratado (evidentemente), que tenta cuidar de si mesmo. Ambos os personagens vivem em um ambiente hostil – e talvez a necessidade um do outro é que torna o vínculo entre os dois tão forte. A cena do primeiro encontro entre eles é crucial para exemplificar isso: se no início ambos são inseguros e demonstram medo um do outro, um simples ato de bondade entre eles é capaz de torna-los próximos. Mais tarde, a sequência em que estão se banhando no rio é intensamente bela, representando a nova vida que ambos terão pela frente.

A fotografia da produção é, no mínimo, exuberante e o espectador é quase transportado àquela época. As locações são primorosas e os ótimos planos da câmera de Vanier conseguem captar a beleza de cada ponto da região através de suas lentes. Da mesma forma, a doce trilha sonora (por vezes um pouco “melosa” demais) contribui para o andamento da narrativa, sendo indispensável em todos os momentos em que está inserida na trama. Quanto às atuações, poucos destaques – com exceção de Félix Bossuet, simplesmente uma fofura de criança na pele do pequeno Sebastian, transmitindo todas as nuances de sua personagem e com uma ótima interação com o animal.

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Bell e Sebastian é inspirado em um dos maiores clássicos da literatura europeia, o livro de Cécile Aubry, que já foi adaptado para a TV na década de 60 e também virou animação japonesa em 1981. Com muita sensibilidade, a trama ainda abre espaço para outros personagens, com dramas menores, mas ainda assim interessantes (como o médico que arrisca sua vida para ajudar judeus a cruzarem a fronteira, um homem defrontando seu passado ou o militar alemão que tenta mostrar seu “lado humano” e ser perdoado). Mas não tem jeito: em um cenário como este, é a amizade entre o cão e a criança que acaba se sobressaindo e emocionando a plateia.

Frenesi (Frenzy)

Londres, década de 70. Uma série de crimes inquieta a polícia local: mulheres são estupradas e assassinadas por um maníaco sexual que as asfixia com uma gravata. Após o assassinato de sua ex-esposa, o fracassado Richard Blaney passa a ser o principal suspeito dos crimes. Preso injustamente, sua missão agora é provar sua inocência e incriminar o verdadeiro culpado.

01Esta é a sinopse de Frenesi, o penúltimo filme de Alfred Hitchcock, lançado em 1972 – após uma sequencia de películas que dividiram o público e a crítica (na ordem, Marnie, Confissões de Uma Ladra; Cortina Rasgada; e Topázio – este último amargando duras críticas e considerado por muitos o seu trabalho mais irregular). Não que estes títulos sejam ruins; de fato, há de se admitir que todos eles são superiores a muita coisa produzida na época. Mas faltava certa dose da identidade do cineasta. Talvez por essa razão, Frenesi foi recebido como o retorno de Hitchcock ao gênero que o consagrou. Frenesi também marca seu retorno a Inglaterra, sua terra natal (aliás, o longa já se inicia com uma ótima tomada aérea de Londres por cima do rio, aterrissando no mercado da cidade). O tema, por sua vez, já foi amplamente explorado por Hitchcock: um homem acusado de um crime que não cometeu.

Frenesi é, de longe, o filme mais violento da carreira de Hitchcock. Muito mais cru do que em seus trabalhos anteriores, a violência em Frenesi é mais explicita. A sequência do assassinato (e estupro) de Brenda Blaney, para a época, poderia ser comparada a qualquer cena de pancadaria tarantinesca hoje. Há, além disso, inúmeras cenas de nudez, que o diretor filma com bastante destreza, mas não chega necessariamente a “chocar” (já que o espectador entende que a nudez é importante dentro daquele contexto). Frenesi também apresenta um roteiro muito bem humorado – aliás, o humor quase se mistura ao suspense devido aos inúmeros percalços pelos quais seus personagens passam. O humor aqui trafega por vários tipos, do mais “bobo” (as comidas intragáveis que o inspetor de polícia é obrigado a provar para agradar a esposa) ao mais ácido (um corpo boiando no Tâmisa enquanto um político londrino discursa sobre a limpeza do rio).

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Curiosamente, o roteiro aposta em algo inusitado: diferente dos suspenses tradicionais (onde o culpado só é revelado geralmente ao final da trama), Frenesi apresenta o criminoso antes da metade da projeção – mas nem por isso o filme perde interesse. Pelo contrário: o público anseia pelo desfecho da história, torcendo para que o verdadeiro assassino pague por seus crimes. Isso é reflexo do excelente trabalho de direção de Hitchcock, que consegue despertar a simpatia do público por um protagonista que sequer é muito simpático – interpretado por Jon Finch (que um ano antes estrelou o polêmico Macbeth, de Roman Polanski). A condução do diretor é primordial para que, mesmo não caindo de amores por Richard (um sujeitinho medíocre), o público torça para que ele prove sua inocência e se vingue de Robert Rusk, o comerciante vivido por Barry Foster (um tipo detestável já nas cenas iniciais, com todo seu ar de “amigão, camarada” que soa, de cara, falso e forçado).

Recorrendo a inúmeros de seus próprios clichês, Hitchcock entrega um filme claramente mais popular (a começar pela trilha sonora de Ron Goodwin, muito mais comercial do que qualquer coisa já feita por Bernard Herrman, velho companheiro de Alfred). Talvez isso tenha sido culpa dos próprios estúdios, que participavam efetivamente da produção do longa e, de certa maneira, “engessavam” a criatividade do artista (algo do qual o diretor reclamou algumas vezes). É notória a impressão de que Frenesi é uma espécie de apanhado geral de ideias e recursos já vistos incansavelmente na filmografia do cineasta. Frenesi aposta em algumas velhas receitas batidas para criar um filme que, apesar de não inovar, funciona bem para o seu propósito, se tornando indispensável para os fãs do cinema hitchcockiano.

Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive)

01Histórias vampirescas parecem ter saturado o público. Desde a adaptação da série de livros de Stephenie Meyer (a saga Crepúsculo, produto com ótimo apelo lucrativo e popular, mas qualidade duvidosa), a cultura pop tem rejeitado as tramas que envolvam estes seres soturnos. Por esta razão, é sempre um alívio receber um filme com esta temática das mãos de um cineasta competente como Jim Jarmusch – que faz com que Amantes Eternos seja uma agradável surpresa para os admiradores do gênero.

A trama de Amantes Eternos acompanha a solitária existência de um casal de vampiros, Adam e Eve, juntos há vários séculos e que, por algum motivo, vivem os dias atuais distantes um do outro – mas regularmente se comunicando pela internet, trocando juras de amor e relembrando os velhos tempos em que viviam o ápice de suas vidas (oi?). Os amantes decidem se reencontrar, porém os conflitos começam a surgir quando Eva, irmã mais nova de Eve, aparece na casa de Adam e questiona os atuais hábitos do casal mórbido.

Amantes Eternos é um filme que aprofunda sua narrativa na intimidade do casal de protagonistas, dando um tom infinitamente mais humano aos dois seres. Apesar de terem características semelhantes às outras criaturas já vistas no cinema (a melancolia, a sede por sangue, o estado de morbidez constante, o apreço pela escuridão), essas personagens são desenvolvidas sob uma perspectiva romântica idealizada. Ambos são indivíduos lendários, sim, mas não estão inseridos nem no passado nem no presente: eles não se situam em tempo algum – apesar de, eventualmente, tentar se encaixar na sociedade atual. O único contato com o presente são eles mesmos – a companhia um do outro, que tanto amam e tanto prezam.

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Eles sentem prazer em estar juntos e se complementam: enquanto Adam é o tipo nostálgico, que glorifica os tempos de outrora e despreza os dias atuais, vivendo em uma monotonia interminável, Eve argumenta haver esperança na humanidade – mesmo que ela viva um constante vazio existencial (este, por sua vez, só preenchido ao lado do amado). Na verdade, ambos reconhecem que a humanidade hoje não é a mesma e talvez isso os faça se sentir tão deslocados. Uma boa amostra disso é o fato de que, diferente do que vemos em outros filmes do gênero, os vampiros aqui não saem atacando humanos por aí e sugando seu sangue. Adam compra “sangue puro” de um hospital, pois a comida hoje estaria “contaminada” (inclusive, uma personagem chega a passar mal após ingerir sangue humano comum). Mas entre o casal há um equilíbrio – e esse equilíbrio é constante, como um yin-yang (sugerido até mesmo pelo figurino e maquiagem dos dois). É aqui que o cineasta exprime uma verdadeira ode ao ideal romântico: o amor é imortal, é cúmplice, não é passageiro, sobrevive a tudo.

O casal de protagonistas é, no mínimo, sensacional. Tom Hiddleston, na pele de Adam, consegue transmitir todo o estado de espírito de sua personagem (melancólico, triste e muito mais introspectivo, com certo desprezo por sua existência e sua atual condição), assim como Tilda Swinton,  a escolha perfeita para o papel. Muito contribui para suas atuações a boa caracterização e maquiagem, que deixam os atores com um visual gótico, pálido e lânguido (em estilo quase pós-punk, com seus cabelos desarrumados, seus óculos escuros e figurino intimista). A direção de arte também é louvável, tornando o filme rico visualmente, mas sem comprometer sua estética. Prova disso é o acúmulo de objetos na casa de Adam, que faz uma alusão direta ao grande conhecimento histórico que o sujeito acumulou durante os anos – mesclando artefatos antigos com objetos mais atuais. Rodado em uma cenário que remete à uma Detroit em decadência (referência explícita à própria decadência cultural que Adam tanto lamenta), a falta de iluminação da película – o longa se passa praticamente todo à noite – faz com que a fotografia pareça granulada, o que aumenta o apelo estético do filme.

Apesar do ritmo lento ao longo de mais de duas horas, Amantes Eternos ainda conta com uma belíssima trilha sonora, que honra outros títulos do diretor e percorre várias vertentes, como o blues, o rock de garagem e até mesmo a música árabe, abusando de guitarras distorcidas que favorecem a atmosfera criada pelo cineasta. Jarmusch, que também assina o roteiro, acerta em cheio ao apostar em inúmeras metáforas para recriar o drama de suas personagens que, apesar de viverem o presente, parecem a todo o momento estar presos no tempo, tendo como única válvula de escape a companhia e cumplicidade um do outro. Amantes Eternos é um filme com estética primorosa, uma narrativa densa e uma plasticidade poderosa, que foge do apelo popular e discursa sobre a beleza do amor – romântico e idealizado.

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower)

Charlie é um adolescente cuja vida é marcada por inúmeros traumas: o suicídio do melhor – e, aparentemente, único – amigo; o acidente de carro que matou sua tia no dia do aniversário do garoto; e o abuso sexual que sofrera quando criança. Após se recuperar de uma depressão (que o deixara com fortes tendências suicidas), Charlie retorna ao colégio – agora como calouro do ensino médio – e tem a difícil tarefa de se socializar com os demais. Não demora muito para que Charlie caia de amores pelos irmãos Sam e Patrick – dois alunos tão deslocados quanto ele (Sam, uma veterana que coleciona relacionamentos fracassados com caras mais velhos; Patrick, um jovem homossexual cujo namorado enrustido o esnoba na escola). Aos poucos, a amizade inesperada deste trio toma forma e Charlie tem a possibilidade de explorar as mais diversas fases de sua adolescência (incluindo o uso de drogas, a descoberta da sexualidade e do primeiro amor e a formação de uma identidade musical), enquanto escreve suas experiências em uma série de cartas para uma pessoa anônima.

As Vantagens de Ser Invisível é um dos raros casos de filmes que se tornam clássico instantâneo. Em seu debut na direção de longas-metragens, Stephen Chbosky (que assina também o roteiro adaptado do livro que ele mesmo escreveu) abandona qualquer recurso muito sofisticado (até mesmo porque a produção pouco exige isso) e aposta na simplicidade de um roteiro muito bem escrito que trata suas personagens com delicadeza, valorizando cada momento vivido por elas. Eles não são julgados: apenas estão lá para viver seus dramas e tentar superar essa fase tão difícil na vida – ainda que estejam inseguros com tudo aquilo que o futuro lhes reserva. Para quem leu o livro (um dos best-sellers em seu ano de publicação), é nítido que a essência da história escrita foi transportada sem dificuldades para a tela, o que ajuda o filme a manter a mesma força do material que o originou.

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Parte desta força está centrada também na atuação de um elenco inspirado – e inspirador. Logan Lerman, como Charlie, é encantador nas inúmeras oscilações emocionais de sua personagem – o que, de certa forma, faz com que qualquer um se identifique com ele (mesmo aqueles que já passaram há muito tempo essa fase da vida). Ezra Miller, que um ano antes foi amplamente elogiado por seu trabalho em Precisamos Falar Sobre o Kevin, hipnotiza a cada aparição, com toda sua energia em cena. Apesar de ficar meio de lado na narrativa em alguns instantes, seu Patrick é uma das mais gratas surpresas no filme – aliás, Logan e Ezra, juntos, são excelentes em suas sequências. Já Emma Watson (cuja primeira aparição não poderia ser mais “mágica”) se desvencilha de qualquer resíduo do papel que a consagrou, a bruxinha Hermione da saga Harry Potter. Sem dúvida, Emma é a escolha certa para viver essa garota tão complexa quanto os dramas que a acompanham.

As Vantagens de Ser Invisível deixa de lado os convencionais efeitos especiais e explorações gratuitas, construindo sua narrativa através dos ricos diálogos que dão ao espectador a oportunidade de se colocar no lugar desses personagens. Sem soar pretensioso, o diretor insere frases de efeito, como “Nós aceitamos o amor que acreditamos merecer” ou “Nós somos infinito” – duas principais expressões que tomam conta de boa parte do filme, acompanhado de uma bela trilha sonora, que abusa de referências aos anos 80 e 90. Temos New Order, Sonic Youth, The Smiths, David Bowie – este último cuja canção “Heroes” aparece em dois momentos do longa. As Vantagens de Ser Invisível fica longe das tramas clichês sobre a adolescência, concentrando sua essência nas histórias de amor, amizade, descobertas, expectativas pelas quais, inevitavelmente, todos nós passamos. Com isso, As Vantagens de Ser Invisível consegue ser tão emocionante e vibrante quanto uma paixão.

Apenas Uma Chance (One Chance)

Histórias de superação costumam comover. Trata-se de um recurso batido na ficção, mas que pode render algumas boas surpresas – como é o caso de Apenas Uma Chance, novo filme dirigido por David Frankel (de O Diabo Veste Prada e Marley e Eu), que conta a incrível jornada de Paul Potts rumo à realização de seu sonho e seu consequente estrelato em 2007, quando se tornou o primeiro vencedor do programa Britain’s Got Talent.

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Paul teve um único desejo durante toda sua vida: ser um cantor de ópera. Quando pequeno, o galês cantava no coral da igreja local e se destacava facilmente dos outros garotos – mas sofria também com alguns problemas de saúde que o impediam de investir mais na profissão. Acabou se tornando um vendedor de celulares na loja de um amigo de infância, mas sempre mantendo a chama de seu sonho acesa. Ainda adulto, era constantemente agredido física e verbalmente por antigos “parceiros” do colégio – o que lhe rendeu um dente quebrado, deixando sua fisionomia ainda mais “prejudicada” e, consequentemente, sua autoestima. Além disso, Paul não recebia o devido incentivo do pai – fazendo com que o jovem se sentisse um peixe fora d’água dentro da própria família. Após uma temporada estudando ópera na Itália (período no qual se apresentou diretamente para o tenor Luciano Pavarotti), entre altos e (muitos) baixos, Paul tem a possibilidade de realizar seu sonho, ao emocionar milhares de pessoas com sua apresentação da ária “Nessun Dorma”, de Puccini, na primeira edição de um programa que se tornaria uma febre mundial.

Ainda que o diretor recorra a alguns inevitáveis clichês para contar essa história real, Apenas Uma Chance é um filme redondo, onde tudo está em seu devido lugar. O roteiro tem de tudo um pouco: humor, drama, romance, música – mas todos estes elementos são utilizados na medida certa. Vivendo o protagonista, James Corden tem uma excelente atuação: o ator (que está confirmado no elenco do aguardado musical Into The Woods) oscila bem as cargas dramáticas e cômicas de sua personagem e forma uma dupla “fofa” com Alexandra Roach, na pele de Julz – paquera de internet que mais tarde se tornaria o grande amor da vida de Paul. Outras boas atuações ficam por conta de Julie Waters e Colm Meaney, os pais do artista – ela, a mãe que sempre esteve ao lado do filho; ele, o pai que nunca apoiou e achava que o garoto deveria ter uma profissão “séria”.

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Apenas Uma Chance (ironicamente ou não, produzido por Simon Cowell – jurado da atração que consagrou Paul) é uma cinebiografia cujo maior êxito está em transcrever tanto as conquistas quanto os fracassos de seu protagonista de forma equilibrada – o que, de certa maneira, ajuda o telespectador a se sensibilizar com a história e se aproximar dos dramas de seus personagens. Na cena em que Paul tem um péssimo êxito ao se apresentar para Pavarotti, por exemplo, o público sente aquele aperto no peito ao observar o cantor derrotado em cima do palco – mas também brota um sorriso no rosto de cada um ao ver Paul se desvencilhando das dificuldades que tanto o rodeiam, como o desprezo de alguns, os problemas de saúde, o bullying, a desmotivação do pai e, principalmente, sua própria insegurança e baixa estima. Ao final, é difícil segurar o choro ao ver o artista tendo seu momento de glória. Apesar de soar em alguns momentos como um dramalhão, Apenas Uma Chance é um filme que consegue emocionar sem forçar a barra, nos dando a certeza de que todo e qualquer sonho pode se tornar realidade, ainda que tardiamente.