O Duplo (The Double)

Simon é um rapaz tímido e recatado, sem muitas aspirações e cuja existência se resume apenas a… existir. Trabalha há anos na mesma empresa, mas apesar de ser um bom funcionário, sequer é notado. Não leva muito jeito com as mulheres e mal sabe agir quando está diante da garota de seus sonhos, a inconstante Hannah. Mora sozinho, já que a mãe está internada em uma espécie de sanatório e quase não o reconhece. Sua rotina é perturbada com a chegada de um novo colega de trabalho, James, fisicamente idêntico a Simon, mas com uma personalidade completamente diferente: dinâmico, confiante, carismático, sedutor – enfim, tudo aquilo que Simon não é e (aparentemente) pouco faz questão de ser. Aos poucos, James se aproxima de Simon e passa a invadir sua vida, assumindo o papel do nosso protagonista.

01

O Duplo, que chega aos cinemas brasileiros daqui a algumas semanas, parte de uma premissa que já foi abordada em outras ocasiões – recentemente, por exemplo, uma sinopse bastante similar pode ser conferida em O Homem Duplicado, filme estrelado por Jake Gyllenhaal baseado na obra de José Saramago. O Duplo, por sua vez, busca inspiração no texto de Dostoievski, publicado originalmente em 1846, que trata sobre a dualidade do indivíduo: afinal, o ser humano é único e especial ou existe realmente seu duplo?

Particularmente, devo confessar que gostei mais de O Duplo do que O Homem Duplicado e a razão é simples: a fita de Denis Villeneuve se debruça sobre várias teorias e referências, despejando uma enxurrada de informações que muitas vezes são desnecessárias e abrindo espaço para inúmeras interpretações, claramente querendo parecer um longa “difícil”. O Duplo também tem lá suas teorias, porem ele flerta diretamente com o suspense, construindo uma narrativa muito mais ágil (o que alguns críticos dizem que prejudicou o produto final, mas a meu ver contribui muito para não deixar a trama cansativa, já que o tema não é tão fácil). O roteiro, ainda que meio perdido em alguns momentos, apresenta lampejos de humor ácido, que muitas vezes aliviam a tensão dos fatos e rendem boas e singelas risadas.

02

No entanto, é tecnicamente que o longa de Richard Ayoade mais pode nos impressionar. A paleta de cores e o trabalho de iluminação (com seu uso constante de sombras, abusando do contraste claro-escuro) compõem uma ótima fotografia, ajudando muito na recriação de ambientes sombrios e claustrofóbicos. A trilha sonora de Andrew Hewitt é assustadoramente desconcertante, capaz de deixar o espectador inquieto durante as sequências mais explosivas. O diretor recorre também a canções japonesas que, em conjunto com a música incidental, provocam uma interessante experiência. Quanto às atuações, o destaque curiosamente fica por conta da cada vez mais à vontade Mia Wasikowska, que empresta toda sua esquisitice a Hannah (e que com seus cabelos claros e roupas com cores vivas, destoa completamente do restante dos objetos de cena). Já o protagonista vivido por Jesse Eisenberg é até passível de certa compaixão – apesar de Jesse aparentar ter uma metralhadora no lugar da língua, o que deve ser um problema para qualquer dublador. Jesse parece sempre interpretar a si próprio em todos os filmes em que atua – e aqui não é diferente. No entanto, é até mesmo estranho argumentar que sua versão tímida e opressiva é mais carismática do que seu duplo, o que justamente deveria ser o contrário. Ou seja, reforça-se a tese de que Jesse é ator de um único tipo.

Muito mais pelo suspense e pelos alívios cômicos do que por todas as discussões que possa criar, O Duplo é um filme que surpreende e é agradável de acompanhar. O diretor visivelmente não procura se aprofundar em inúmeras teorias ou inovar na técnica, mas contenta-se em montar sua história dentro de um universo sufocante capaz de prender o espectador. Não é uma obra que pode te fazer pensar por muito tempo, até mesmo pela rapidez da narrativa que não te deixa concluir muitos pensamentos ou levantar quaisquer questões, mas funciona como um bom entretenimento, apesar das deficiências de seu roteiro. Resumindo, é um filme que poderia ser mais do que é, mas contenta-se em ficar como sua personagem central: em um status quo, que o impede de ser uma grande obra.

Música e Cinema São Homenageados em SP

Talvez o único defeito da exposição Música & Cinema: O Casamento do Século? seja o seu próprio título, que sugere um questionamento e não uma afirmação – afinal, música e cinema é uma combinação inigualável. A relação entre essas duas artes encanta pessoas em todo o mundo e se tornou uma das mais bem sucedidas parcerias em todo o tempo. Tente assistir a clássica cena do chuveiro de Psicose no mudo ou Dirty Dancing sem o número arrebatador de sua sequência final – ou mais amplamente: experimente assistir a um filme de suspense com o som desligado ou o beijo apaixonado de um casal de filme romântico sem uma trilha sonora melosa como fundo. Talvez aí você se dê conta da importância da música para o cinema e como essas duas artes se completam.

Processed with VSCOcam

Visual e auditivo se unem aqui para produzir sensações únicas – e é exatamente isso que o público pode vivenciar nesta mostra que está em cartaz na cidade de São Paulo desde o dia 19 de setembro. Trazida diretamente da Cité de la Musique, de Paris, a exposição chegou a ser vista por mais de 90 mil pessoas só na França e passeia pelos mais diversos gêneros: comédia, musicais, romance, suspense, entre outros. Aqui no Brasil, o projeto foi adaptado também para abranger as produções nacionais, dos clássicos regionais até as pornochanchadas.

Os ambientes da mostra procuram proporcionar ao espectador a oportunidade de vivenciar o mundo mágico da música e cinema. Para isso, recorremos à história da arte cinematográfica desde às primeiras produções mudas (onde a trilha sonora desempenhava um papel primordial para as narrativas) até aos clássicos mais atuais. A viagem por este universo é feita através da apresentação de documentos originais de outrora (como partituras, manuscritos, fotografias, cartazes), instrumentos da época e vídeos com entrevistas, documentários e testemunhos de diversos artistas.

Processed with VSCOcam

Entre algumas atrações, destaca-se o mural com algumas das parcerias mais famosas entre cineastas e compositores (algo do tipo Spielberg/John Williams, Burton/Danny Elfman, Hitchcock/Bernard Herrmann e outros). Há também uma projeção com pouco menos de 1 hora onde o público pode acompanhar alguns dos mais conhecidos créditos de aberturas de filmes conceituados, como Bonequinha de LuxoO Bebê de RosemaryEdward Mãos de Tesoura ou Drive. Em um dos espaços mais interativos, há um estúdio de mixagem onde o visitante pode manusear os níveis sonoros de diversas fitas, sentindo diretamente o impacto da banda sonora na cena.

Com curadoria de N. T. Binh, Música & Cinema: O Casamento do Século possui uma programação paralela, que envolve shows, oficinas e também a exibição de alguns filmes memoráveis. A exposição vai até dia 11 de janeiro de 2015.

————————————————————————————————————————————————————————-

MÚSICA & CINEMA: O CASAMENTO DO SÉCULO
Sesc Pinheiros (Espaço Expositivo – 2º andar) – Rua Paes Leme, 129 – São Paulo-SP

Data: de 19/09/2014 a 11/01/2015
Horário: Terça a sexta, das 10h30 às 21h30; sábados, das 10h às 21h; e domingos, das 10h30 às 18h30.
Classificação: Livre
Entrada Gratuita
Informações: http://www.sescsp.org.br/programacao

A Lenda de Oz (Legends of Oz: Dorothy’s Return)

O título original Legends of Oz: Dorothy’s Return entrega exatamente o que podemos esperar de A Lenda de Oz, que chega aos cinemas brasileiros nesta semana – e deixa claro também que se trata da continuação do clássico O Mágico de Oz. Nesta releitura do livro homônimo de Roger Stanton Baum, a garota Dorothy é levada de volta a Oz, que está em um estado de decadência por conta de um novo perigo: o Bobo da Corte, que deseja tomar conta deste mundo mágico transformando todos os principais representantes do local em marionetes. Com a ajuda de seus antigos companheiros (Espantalho, Homem de Lata e o Leão Covarde), Dorothy tem a missão de salvar Oz das garras deste novo vilão.

02

Para começar, falemos de A Lenda de Oz enquanto animação – e aqui já te digo: fuja. A animação (de responsabilidade da Prana Animation Studios) não é apenas “simples”, mas “medíocre”, nos remetendo logo de cara à qualquer série televisiva (sabe aqueles filmes que passam nas manhãs globais de sábado? Então…). As expressões dos principais personagens são visivelmente limitadas – assim como os recursos usados que realçam todo o estilo “amador” do projeto. O roteiro, por sua vez, é uma confusão só, desenvolvendo os personagens principais de maneira superficial, apesar do grande potencial de alguns deles (como o soldado Marshal Mallow ou a boneca de porcelana). Para boa parte dos pequenos (que em nossos dias atuais desconhece a trama original), a história pode até gerar estranhamento porque não há qualquer identificação com os personagens.

Outro ponto negativo são as músicas inseridas em momentos não muito oportunos, chegando quase a “atrapalhar” o andamento da narrativa – além da duvidosa qualidade das canções. Nesse quesito, salva-se apenas a performance dos dubladores, que não chega a ser primorosa mas é suficiente diante de todo o resto. Aliás, o time de dublagem é formado por nomes como Lea Michele (da série Glee, na voz de Dorothy), Dan Aykroyd, James Belushi e Patrick Stewart – um elenco, sob certo aspecto, “de peso”, mas que não foi capaz de salvar a produção.

03

Não espere muito de A Lenda de Oz. Sequer compare-o com o filme de 1939 porque aí é que a coisa fica pior. Com a proximidade do Dia das Crianças, talvez o longa de Daniel St. Pierre possa ser um programa divertido para se fazer com o filho, o sobrinho, o primo, o afilhado…, até porque estamos diante de uma animação excessivamente “infantil”. A Lenda de Oz não é totalmente péssimo, mas está anos-luz daquilo que podemos esperar de uma boa animação. Vai funcionar como uma alternativa “barata” de entretenimento e para aqueles eventuais dias em que você está muito ocupado e quer manter seu pequeno quietinho enquanto faz suas atividades. Isso, é claro, se sua criança conseguir assistir isso por muito tempo…

“Hesitant Alien”: Gerard Way e o Pós-MCR

02Há pouco mais de um ano, os integrantes da My Chemical Romance anunciavam o fim da banda. A notícia não foi uma grande surpresa – afinal, os caras vinham com alguns projetos paralelos e já demonstravam sinais de que mais cedo ou mais tarde um dos grupos mais populares do início dos anos 2000 se dissiparia. Daí em diante, muitos fãs ficaram se perguntando qual seria o futuro dos membros do quinteto e, principalmente, do vocalista Gerard Way – que lançou na última semana seu debut solo Hesitant Alien, um álbum que o distancia de seu extinto projeto mas não apresenta nenhuma inovação ao rock, mas sim à sua carreira.

Okay, o talento de Gerard Way como “cantor” pode ser questionado. Eu mesmo, fã inveterado da banda, já duvidei de seus dotes vocais em diversas ocasiões – especialmente em sua performance no disco The Black Parade (na minha opinião, o pior trabalho do grupo – o que contraria boa parte dos fãs). É um fato incontestável que Way nunca foi um grande intérprete – mas possuía presença no palco, fazia estripulias, agitava a galera e isso garantiu seu lugar ao sol. Talvez fosse o estilo do MCR que o impedisse de mostrar sua verdadeira faceta – feito que Way escancara em Hesitant Alien.

Hesitant Alien não provoca nada muito novo, é verdade, mas ainda é um disco muito acima da média – prova disso são as belas críticas que vem recebendo da imprensa (e todas muito bem merecidas). Deixando de lado o velho pop-rock e rock alternativo que marcaram sua carreira na extinta MCR, Gerard faz um retorno às décadas passadas, se lançando no britpop (de Jarvis Cocker ou Damon Albarn) dos anos 90, no pós-punk quebrado de 80 e, principalmente, no glam-rock de 70 (um gostinho de David Bowie). Essa mistura de gêneros contribui para criar uma sonoridade que remete nossos ouvidos a estilos quase alternativos – é possível fechar os olhos e enxergar uma banda dos anos 80 fazendo som na garagem de casa.

01

O disco abre de maneira categórica com a excepcional Bureau, engrandecida com uma guitarra generosa que torna a faixa uma ótima pedida. Segue-se com Action CatNo Shows – ambas já liberadas anteriormente (No Shows inclusive já ganhou videoclipe). Enquanto a primeira dividiu os fãs (pois não se via nada novo à primeira audição), a segunda tem o estilo “garagem” muito mais perceptível, seja pelo destaque das guitarras distorcidas como pelos vocais propositalmente mais baixos que o instrumental. BrotherDrugstore Perfume são claramente inspiradas no britpop que mencionamos acima e possuem ótimas melodias – Drugstore Perfume, por exemplo, pode ser comparável à qualquer pérola do Oasis em sua fase áurea. Já Zero Zero (cuja introdução lembra Blur de imediato) e Juarez são as canções mais barulhentas do álbum, sendo que esta última é a que mais pode remeter ao velho som do MCR, mas bem vagamente. How’s It Going To Be, particularmente, é a minha música preferida devido, sobretudo, à sua instrumentação que é deliciosa. Outras faixas como MillionsGet The Gang TogetherMaya The Psychic completam este registro e são tão boas isoladamente quanto inseridas dentro da proposta de Way para seu debut.

De forma geral e se ouvido com certa atenção, Hesitant Alien tem um tema “maior” que é ligado em temas menores através das onze faixas de um registro curto mas que não deixa a desejar. Way não renega seu passado “negro” em nenhum momento de Hesitant Alien, afinal a pegada punk de seu antigo projeto ainda está ali. Mas Gerard dá seu toque especial e particular a um trabalho que traz novos elementos à sua carreira, o que é capaz de cativar novos ouvintes que antes torciam o nariz para suas composições. Conceitualmente, Hesitant Alien possui méritos inquestionáveis, assim como tecnicamente – o disco foi produzido por Doug McKean, antigo companheiro de Rob Cavallo (um velho conhecido dos fãs de MCR). Hesitant Alien ainda tem a grande sorte de ser um álbum que funciona isolado (cada música por si é um “mini-drama” à parte) e em sua totalidade, equilibrado do início ao fim. Se por um lado Gerard Way não faz nada muito excepcional para a música como um todo, por outro lado dá um salto considerável em sua carreira como compositor, intérprete e arranjador. Não se pode dizer que Hesitant Alien é melhor do que qualquer coisa já lançada pelo My Chemical Romance – mas também para que comparar? Hesitant Alien, para um disco de estréia de um ex-vocalista de banda famosa, já tem sua luz própria – e, para seu idealizador, é uma boa oportunidade de se desvencilhar daquilo que o consagrou.

Grace de Mônaco (Grace of Monaco)

Não há dúvidas de que Grace Kelly é uma das figuras mais celebradas do cinema em todos os tempos, cercada por inúmeras histórias e lendas. Faltava, no entanto, uma cinebiografia que fizesse jus a tudo aquilo que Grace realmente foi ao longo de sua curta existência (afinal, a atriz faleceu precocemente aos 52 anos, em um trágico acidente automobilístico). Coube ao francês Olivier Dahan (do irretocável Piaf – Um Hino ao Amor) a árdua missão de transportar para as telas de cinema a biografia deste ícone mundial – e assim surge Grace de Mônaco, filme de abertura do 67º Festival de Cannes e que arrebatou as mais duras críticas da imprensa.

01

Diferente de Piaf – Um Hino ao Amor, cuja protagonista era acompanhada da infância até sua morte, Grace de Mônaco concentra sua narrativa nos primeiros anos do casamento de Grace e o príncipe Rainier III (união considerada por muitos um “conto de fadas”), quando a artista abandonou sua próspera carreira de atriz para dedicar-se à realeza de Mônaco. Desiludida com o casório (em especial, com o distanciamento do esposo e o formalismo de seu novo mundo), a princesa aceita o convite do amigo Alfred Hitchcock para estrelar seu novo projeto (Marnie – Confissão de uma Ladra, que mais tarde seria protagonizado por Tippi Hedren) – que marcaria seu retorno triunfal a Hollywood, mesmo contra a vontade de Rainier. No entanto, Mônaco passa pela iminência de uma guerra e Grace fica dividida entre retomar sua carreira ou lutar ao lado do esposo pelo Principado.

Apesar do bom material disponível, o maior problema de Grace de Mônaco está em seu argumento, desenvolvido por Arash Amel: a ambição de Grace de Mônaco, ao que parece, desde o início é ser “grandioso”, “épico”, recorrendo a frases de efeitos, mas que não há nada além de diálogos rasos e superficiais que poderiam ter sido tirados de qualquer livro de autoajuda. A impressão que temos é a de que não estamos necessariamente diante de um filme “sério”, pois há quase um certo apelo televisivo na obra – a prova irrefutável é a de que em sua exibição em Cannes, jornalistas e demais especialistas chegaram a rir em diversas sequências, conforme foi noticiado por alguns veículos.

04

Além das evidentes falhas na narrativa, o elenco não demonstrou o menor interesse pelo projeto. Se em Piaf – Um Hino ao Amor, Marion Cotillard foi, no mínimo, unânime, Nicole Kidman só consegue, no máximo, emprestar certa classe e sofisticação à sua personagem. Sua atuação é caricata, teatral e forçada, tornando sua Grace uma mulher insegura e dependente. É quase cômica (não fosse ruim) a cena em que Grace tem aulas de francês, com o péssimo sotaque de Kidman (que está quase inexpressiva). Tim Roth também está quase no automático – aliás, não, Tim está muito abaixo de seu talento, pois até mesmo o modo “automático” do ator seria aceitável. Se o casal de protagonistas não impressiona, o restante do elenco não tem muito que fazer – e o único bom retrato dentro de um filme repleto de tipos insuportáveis é o do veterano Frank Langella, no papel do padre Tucker, confidente de Grace (e que demonstra ótima química com Kidman). De resto, tudo soa tão artificial que beira o satírico – o que, obviamente, não me pareceu ser a proposta aqui.

Detonado pela crítica, Grace de Mônaco funcionou muito melhor fora do cinema: antes mesmo do filme ser lançado, a família de Grace Kelly já havia se manifestado, acusando a fita de ser “baseada em referências históricas erradas e dúbias”, conforme nota oficial. Apesar de até ser pontual tecnicamente falando (há uma boa fotografia, figurino e design de produção, em contrapartida da péssima e lastimosa trilha sonora), Grace de Mônaco peca na estrutura de seu roteiro – um grave erro que se sobrepõe a todo restante da obra. Mas não apenas isso: Olivier Dahan falha ao tentar retratar um nome tão importante com tamanha superficialidade, explorando pouco da vida de Grace e tendo como cenário o conturbado conflito diplomático entre Mônaco e a França. Dessa forma, falta credibilidade, falta respeito e, principalmente, falta amor. Grace Kelly, nossa eterna e queridíssima Grace Kelly, merecia algo infinitamente melhor.

Sin City: A Dama Faltal (Sin City: A Dame to Kill For)

E lá se foram quase dez anos desde que Sin City – A Cidade do Pecado chegava às salas de cinema ao redor do mundo. Na época, o longa se tornou uma febre e virou, digamos, uma espécie de clássico instantâneo. Não que seja uma obra imaculada – a bem da verdade, Sin City é um filme como outro qualquer, com algumas peculiaridades, sim (como sua excepcional fotografia em preto e branco e suas inúmeras tramas irresistíveis), mas que não apresentava nada muito grandioso. Enfim, era uma novidade naquele momento – mas nada muito eloquente.

Mas se em 2005 Sin City – A Cidade do Pecado causou certo burburinho entre os cinéfilos, o mesmo não se pode dizer sobre Sin City: A Dama Fatal, segundo filme da série baseada nas HQs do artista Frank Miller (que divide os créditos de direção com Robert Rodriguez) e que chega hoje aos cinemas brasileiros. Não que esta continuação não tenha sido aguardada – principalmente depois dos inúmeros adiamentos, que deixaram os fãs dos quadrinhos de Miller apreensivos. Mas talvez esse hiato entre os dois filmes tenha diminuído um pouco o frisson deste universo – e como consequência inevitável, Sin City: A Dama Fatal vem tendo um desempenho satisfatório, mas levemente inferior ao seu predecessor. Em outras palavras, este Sin City mantém o bom visual e apelo técnico, mas perde aquele impacto causado anteriormente.

03

O cenário ainda é Basin City e segue, basicamente, a linha de Sin City – A Cidade do Pecado: narrativas independentes que se cruzam e se passam nas ruas, becos e vielas de uma cidade dominada pela corrupção, violência e impunidade (e qualquer semelhança com nossa realidade é mera coincidência). Aqui, temos o encontro de velhos conhecidos (como a stripper Nancy, o brutamontes Marv, o detetive Hartigan e o anti-herói Dwight) com novos rostos (como o ambicioso jogador de pôquer Johnny, o empresário Joey e a sensualíssima Ava Lord – a tal dama fatal do título), que se misturam ao longo de três contos, alguns inéditos.

A primeira das três histórias centrais é estrelada por Joseph-Gordon Levitt na pele de Johnny, um jovem que desafia o poderoso senador Roark em uma partida de pôquer com o evidente interesse de humilha-lo – o que coloca sua vida em risco. Na segunda (e melhor) parte, temos Eva Green como a sedutora Ava, uma mulher ambiciosa e que faz uso de todo seu charme (e suas belas curvas) para colocar as mãos na fortuna do marido – recorrendo até mesmo a Dwight, seu antigo e ressentido amor. Com menos força, a última trama apresentada é a de Nancy (protagonista de sensuais danças sobre o balcão de um dos bares mais badalados de Sin City), que, totalmente atormentada, busca se vingar da morte de seu amado Hartigan – que se suicidara no filme anterior.

05

Sin City: A Dama Fatal não apresenta nada novo em relação ao primeiro da série. Se em 2005 tudo era novidade (inclusive o uso constante de tela verde – algo inédito na época e que se tornou moda nos anos seguintes, sendo utilizado até os dias atuais), hoje é certo dizer que este projeto é apenas mais do mesmo e inova pouco – inclusive na criação dos ótimos cenários digitais. Mas isso, por incrível que pareça, já é um mérito: o visual de Sin City: A Dama Fatal é impecável. A fotografia em preto e branco é impressionante e fica ainda melhor quando os diretores apostam em alguns pontos específicos para destacar outras cores (como o “acinturado” casaco azul de Ava, o sangue vermelhíssimo que escorre ou o púrpura vivo de um veículo em movimento). Esse recurso é imprescindível para deixar o filme muito mais apreciável a aproxima-lo a um estilo meio neo-noir, que é acentuado ainda mais pelo tom escuro e as constantes utilizações de sombra e luz. A tórrida cena de sexo entre Ava e Dwight, por exemplo, é de uma plasticidade ímpar – arriscaria dizer uma das mais bem dirigidas sequências de sexo que já assisti. A fotografia é essencial para emular os quadrinhos de Miller.

04

O elenco desta fita também foi muito bem escalado. Mickey Rourke, apesar de não ser um personagem “chave” em nenhuma das histórias, é sempre um alívio quando aparece na tela devido, sobretudo, à sua frieza que o torna, até mesmo, cômico (um perfeito tipo tarantinesco). Joseph empresta todo seu perfil cativante para Johnny – e isso faz com que fiquemos indignados quando Roark o esnoba. Josh Brolin, por sua vez, é infinitamente melhor que Clive Owen no papel de Dwight – um autêntico morador de Sin City. Já Eva Green, claro, é quem brilha verdadeiramente aqui. A escolha de Green foi a mais correta – e chega a ser ultrajante pensar que, em algum momento, a insossa Angelina Jolie foi cotada para o papel de Ava Lord. Eva ofusca qualquer um a cada aparição não apenas pelo belo corpo (aliás, fica a dica: Green está nua em quase 80% do tempo em que aparece), mas principalmente por sua ótima atuação, totalmente segura e natural.

Sin City: A Dama Fatal é equilibrado e, a meu ver, totalmente nivelado ao primeiro filme da franquia – ou seja, tecnicamente bem produzido (fotografia, edição, design, figurino, maquiagem) e visualmente arrebatador. O único “porém” é que, como mencionado, hoje nada do que se vê é uma novidade (com exceção do 3D, mas que também não chega a impressionar). Há, obviamente, de se reconhecer que desde 2005 também pouca coisa realmente do gênero foi feita (ou bem feita, melhor dizendo), mas a verdade é que Sin City: A Dama Fatal é mais daquilo que já tínhamos visto e tanto gostamos de ver – e, por essa razão, se torna um programa indispensável para quem curte cinema e também para os fãs de HQs (afinal, como adaptação, deve-se mencionar que todo o universo dos quadrinhos de Miller foi brilhantemente transportado para as telonas). Em outras palavras, Sin City: A Dama Fatal é apenas mais uma noite escura, fria e solitária nos cantos dessa cidade que tanto amamos: diverte, vale a pena mas, ainda assim, é apenas mais uma noite. Apenas mais uma noite…

Mil Vezes Boa Noite (Tusen Ganger God Natt)

Ainda há poucos dias atrás, conversava com alguns amigos sobre carreiras, empregos, vocações e coisas do gênero. Na ocasião, comentei que acredito firmemente que toda pessoa nasce para fazer alguma coisa, todos tem um dom particular que, na maioria das vezes, nunca é descoberto ao longo da vida (devido a inúmeras situações ou problemas que não vou explorar aqui). Argumentei ainda que admiro muito as pessoas que conseguem seguir uma carreira de sucesso fazendo aquilo que realmente gostam – afinal, existe um grande abismo entre gostar do que se faz e se acostumar a fazer. Mais ainda: às vezes, deixamos de lado nossos sonhos para nos lançarmos em projetos que, apesar de não nos satisfazer por completo, garantem o nosso sustento ou nosso padrão de vida elevado – ou por várias razões, tentamos conciliar as duas coisas mas acabamos sempre optando por uma e abandonando a outra.

02

Todos estes pensamentos, veja você, me vieram à tona ao assistir Mil Vezes Boa Noite, novo filme de Erik Poppe (elogiado por seu longa anterior, Águas Turvas, de 2008) que chega aos cinemas nacionais nesta semana. Na trama, acompanhamos o drama da fotógrafa de guerra Rebecca, uma das mais renomadas profissionais neste ramo no mundo, que após sobreviver a um ataque durante um conflito em uma região perigosa, volta para casa e reencontra sua família. O dilema da artista começa quando ela tem de decidir continuar seu bem sucedido trabalho ou dedicar-se apenas aos seus familiares (esposo e as duas filhas), que vivem cada dia temendo perdê-la devido aos riscos de sua profissão.

Juliette Binoche dá vida à nossa protagonista, através de uma atuação segura, sóbria e intensa, oscilando de forma tocante cada nuance de sua personagem. Sua dor é latente; seu sentimento é real e o turbilhão de emoções de Rebecca atinge o espectador em cheio. O roteiro (parceria do cineasta com Harald Rosenløw-Eeg) também apresenta alguns momentos de silêncio e outros mais conturbados, onde o diretor faz uso de uma sonoplastia poderosa, marcada principalmente por sua trilha pontual – que acentua, sob certo ângulo, o sofrimento de Rebecca. Dessa forma, Mil Vezes Boa Noite se torna, por vezes, um filme angustiante, dolorido.

01

Mil Vezes Boa Noite escancara, ainda, uma realidade cruel que muitos ignoram ao mostrar a situação de milhares de pessoas residentes em áreas em constantes conflitos mundo afora – e que, muitas vezes, são ignoradas. Além desta crítica social, o filme toca na ferida ao mostrar o drama da mulher moderna, que mesmo no século XXI ainda tem de escolher entre carreira e família (e, quase sempre, é apenas um dos lados que sai vencedor) – ser uma profissional brilhante ou escolher cuidar da casa e da família, uma tradição cultural que ainda domina muitos países ocidentais. Levanta também um profundo debate sobre a ética da profissão, ao questionar quais são os limites a que deve se expor um trabalhador para conseguir bons resultados, assim como o papel da imprensa diante da censura governamental (se é que podemos chamar dessa forma), que tem o poder de selecionar aquilo que vai ou não ser  informado. Com tantas reflexões, Mil Vezes Boa Noite é um filme que vale a pena até mesmo para pautas e conversas posteriores. Apesar de não ser totalmente marcante, o longa de Erik Poppe cumpre muito mais do que sua proposta, se tornando uma obra indispensável para quem curte o cinema e todas as suas discussões.

A Bela e a Fera (La Belle et la Bête)

Desde 2010, com o sucesso épico do burtoniano Alice no País das Maravilhas, o cinema não parou mais de produzir novas versões (especialmente em live action) de alguns clássicos infantis. De lá para cá, podemos citar a trama dos irmãos João e Maria (João e Maria: Caçadores de Bruxas, 2013), a história da sofrida Branca de Neve (que ganhou os filmes Branca de Neve e o Caçador e Espelho, Espelho Meu, lançados quase simultaneamente, em 2012), as aventuras de João e seu pé de feijão mágico (com Jack, o Caçador de Gigantes, de 2013) e as maldades da madrasta de Cinderela (no mais recente Malévola, de 2014). No entanto, com exceção deste último, todas essas versões (que em geral faturaram muito em bilheteria) não receberam críticas muito amistosas – e dessa forma, a releitura francesa para A Bela e a Fera veio como um tapa certeiro na cara de Hollywood.

01

Neste novo filme (baseado no original que, pouca gente sabe, é francês – escrito no século XVIII por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve), Bela é uma dos seis filhos de um próspero comerciante que, de uma hora para outra, perde toda sua fortuna por conta de um desastre marítimo. A família se vê obrigada a mudar para uma casa menor, longe da agitação da cidade grande, onde vivem modestamente apesar dos constantes protestos das irmãs mesquinhas de Bela. O pai, em uma tentativa de alavancar os negócios da família, se perde em uma tempestade e vai parar em um castelo, onde se torna refém de um terrível monstro após “roubar” uma rosa para sua filha mais querida – obviamente, Bela. Quando o pai retorna à casa da família apenas para se despedir dos filhos, Bela decide se oferecer como prisioneira no lugar do pai – e daí pra frente é tudo aquilo que já conhecemos.

A direção fica por conta do competente Christophe Gans, do elogiado O Pacto dos Lobos, de 2001. Gans (que também assina o roteiro) apresenta um trabalho bastante equilibrado e homogêneo, sem altos ou baixos que mereçam ser destacados – com exceção, talvez, do tom fabular que em determinados momentos são exagerados, mas que não comprometem o resultado final. A trama é envolvente e a narrativa se desdobra muito bem no decorrer de suas quase duas horas. Além disso, tecnicamente a produção é caprichada: do belíssimo design de produção aos figurinos e cenários (quase todos digitais, é verdade, porém magníficos), tudo contribui para um filme visualmente atrativo.

Léa, a nova “queridinha” do cinema francês (principalmente após o polêmico Azul é a Cor Mais Quente) está encantadora diante das telas – apesar da estranha sensação que tenho de que ela sempre tem a mesma expressão. Já o veterano Cassel é competente e mostra boa forma para um quase cinquentão. Juntos, no entanto, me pareceu faltar carisma ao casal – ao menos, a química entre eles não me convenceu. Os demais nomes do elenco cumprem bem a proposta exigida – inclusive as criaturas “fofas” que Bela encontra no castelo (uma tentativa clara de suprir a falta dos simpáticos personagens mágicos da versão Disney).

02

De forma geral, este A Bela e a Fera não é uma obra-prima – e está muito longe de ser. Mas é um filme que funciona bem para o seu propósito, surpreendendo por se igualar a qualquer superprodução norte-americana do gênero. Se compararmos esta refilmagem com as outras que citamos no início (ou mesmo outras que deixamos de lado), chegaremos ao fatídico fato de que ela não perde em nenhum aspecto. Pelo contrário: A Bela e a Fera demonstra a total maturidade que só o cinema francês possui, com um texto bem escrito, um trabalho técnico impecável e, claro, uma identidade única. Alguns podem argumentar que este A Bela e a Fera foge um pouco do “padrão francês de se fazer filme” e escorrega ali e aqui em seu tom – e eu posso até concordar, mas de forma positiva. A Bela e a Fera de Christophe Gans não é uma típica produção francesa, mas acerta em cheio ao tentar fazer cinema como Hollywood achava que só ela sabia fazer.

Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (A Million Ways to Die in the West)

03Estamos no Arizona e o ano é 1882. Em um pacato vilarejo vive Albert, um fracassado e covarde pastor de ovelhas que, após fugir de um duelo, é abandonado por sua namorada Louise (que trocara o rapaz por um próspero – e bigodudo – comerciante local). Enquanto lamenta o término de seu noivado para o seu melhor amigo Edward (um cristão virgem que, ironicamente, namora uma prostituta do saloon da cidade), Albert se aproxima da bela e misteriosa Anna, que acabara de chegar ao povoado e se propõe a ajudar o desajeitado fazendeiro a manejar uma arma – e mais do que isso: encontrar a coragem que tanto precisa para ser um “homem de verdade”. O que Albert não sabe, no entanto, é que Anna é a esposa de Clinch, um perigoso fora-da-lei.

Esta é a sinopse de Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (péssima tradução para um título interessante – A Million Ways to Die in the West), novo longa-metragem de Seth Macfarlane – conhecido, principalmente, por ser criador das séries animadas Family Guy e American Dad. Seth teve uma ascensão admirável em Hollywood nos últimos tempos: com a notoriedade gerada pelos seriados que criou, dirigiu em 2012 seu primeiro filme, Ted – protagonizado por Mark Wahlberg e que, apesar do tímido sucesso de bilheteria, dividiu a opinião dos especialistas. Também, em 2013, foi o apresentador da cerimônia do Oscar – recebendo uma enxurrada de críticas pouco favoráveis.

Abertamente, trata-se de uma paródia ao gênero que talvez mais tenha influenciado o cinema norte-americano: o western – e, a julgar pela história, Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola tinha um imenso potencial, infelizmente desperdiçado em suas duas longas e desnecessárias horas em um produto cheio de promessas não cumpridas. A proposta é satirizar os filmes de velho oeste? Falhou. A proposta é fazer rir? Falhou de novo. Quer entreter pelo menos? Falhou mais uma vez. O material, a ideia, o conceito são muito bom – mas a execução deixa a desejar. Um Milhão de maneiras de Pegar na Pistola não é engraçado e ponto. Salvo um ou outro momento, não há boas piadas. Eu entendo que “humor” é subjetivo: o que faz graça para mim, pode não fazer para você. Então, vou mudar minha teoria: a narrativa até apresenta uma ou outra anedota – o que gera desconforto é o enorme abismo entre elas causado, sobretudo, pela duração da fita que prejudica (e muito) o ritmo da trama. Junta-se a isso as inúmeras piadas escatológicas (que promovem momentos vergonhosos ao elenco) e o resultado é um produto muito abaixo da capacidade de seu idealizador.

01

Para piorar a situação, nem no tom satírico o filme acerta. O Velho Oeste de Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola é tão vago, caricato e pobre quanto aquele recriado por Mário Prata em seu fiasco Bang Bang (novela global exibida entre 2005 e 2006 e que foi responsável por afundar o horário das sete à época). Seth pesa a mão ainda ao tentar vender a ideia de um velho oeste violento e blá bla blá, mas essa premissa se repete tantas vezes que é impossível ao espectador atura-la durante muito tempo. Para compensar, o diretor (responsável também pela produção e roteiro) recorre a momentos gratuitos e dispensáveis – como a vergonhosa cena em que um personagem usa um chapéu para aliviar sua diarreia ou na sequência em que Albert é capturado por um grupo indígena que utiliza drogas e fala como jovens urbanos.

Seth, na pele de Albert, está também muito abaixo em atuação dos demais nomes do elenco (que inclui Charlize Theron e Liam Neeson nos principais papéis, além de Amanda Seyfried e Neil Patrick Harris – que protagoniza um curioso mais divertido número musical), mas isso é até justificável visto sua pouca experiência à frente das câmeras. Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola é até agradável tecnicamente: tem uma boa fotografia e há ótimos planos e sets, isso sem mencionar a trilha divertida e bem executada. Há inúmeras referências à cultura pop e aos filmes de outrora (de Django a De Volta Para o Futuro, veja você…) – o próprio nome do vilão da trama, Clinch, faz certa alusão a um dos maiores atores do gênero western, Clint Eastwood. Puro desperdício, pois não há nada que justifique tanto investimento assim. Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola peca na premissa de satirizar e fazer rir e não conseguir nenhuma das duas. Seth, um gênio na telinha, está nos devendo algo melhor na telona.

Cortina Rasgada (Torn Curtain)

Acho engraçado quando leio por aí que os últimos trabalhos de Hitchcock não foram muito empolgantes. Tudo bem, depois de Os Pássaros, de 1963, o cineasta não criou nada muito original ou grandioso, mas ainda assim temos que admitir que seus filmes subsequentes não são, de fato, ruins como a maioria argumenta – apenas um entretenimento menor. Cortina Rasgada, lançado três anos após o clássico hitchcockiano citado anteriormente, pode não ser o melhor exemplar da carreira de Alfred mas, se analisado isoladamente, consegue agradar ao público muito mais que grande parte dos “pipocões” americanos da atualidade.

01O cenário político nunca foi uma temática muito presente na filmografia de Hitchcock, que só destacou essa vertente em seus filmes “propaganda” realizados durante a Segunda Guerra Mundial. Mas mesmo nessas obras, o tom político das histórias soava muito raso, dando maior espaço para os dramas e, claro, o suspense que consagraram o mestre. Em Cortina Rasgada, o cenário da Guerra Fria só se manifesta para que Hitchcock crie seu tradicional estilo, através da trama do cientista americano Armstrong, em viagem a Copenhagen para um congresso de físicos ao lado de sua noiva e assistente Sarah. Em território dinamarquês, Sarah descobre que o noivo está de malas prontas para a Alemanha Oriental, atrás da Cortina de Ferro (durante o período da Guerra Fria, trata-se da divisão da Europa em duas partes: Europa ocidental e oriental, com influências políticas divergentes), na tentativa de levantar fundos para um projeto rejeitado pelos EUA. Mesmo frustrada com a traição do futuro marido ao seu país, Sarah não pensa duas vezes e decide seguir o amado.

Vou fazer uma confissão: já tentei assistir a fita por três vezes – e dormi logo nos primeiros quinze minutos. Talvez, por uma grande coincidência, eu estivesse apenas cansado ou passando por dias ruins, mas é um fato: Cortina Rasgada é um filme lento e arrastado. Apesar de promover algumas boas ideias, não há como negar que o ritmo da história e sua duração prejudicam um pouco o resultado final. Outro ponto que também colabora para a sensação de morosidade da narrativa é o casal de protagonistas, vividos por Paul Newman e Julie Andrews. Seus personagens são totalmente desestimulantes: enquanto Armstrong trata sua parceira com total indiferença e arrogância, Sarah é ainda mais irritante ao abaixar a cabeça diante do tratamento grosseiro do noivo, seguindo-o para todo lado e considerando-o o homem mais incrível do mundo. Ou seja, a empatia com o público não se cria – e é o excelente trabalho de direção de Alfred que salva Cortina Rasgada do fiasco total.

Hitch consegue despertar o interesse pela narrativa, acertando na divisão do filme em três atos, cada um mostrado através de uma perspectiva distinta. O primeiro momento, sob a visão de Sarah, onde o mistério predomina – já que ela não sabe os planos de Armstrong. O segundo ato, quando descobrimos que o personagem de Newman está traindo sua pátria é marcado pelo suspense característico de Hitch, tomando conta de toda a história. E, finalmente, a ação que se desenvolve já na última parte da fita. Essa construção é fundamental para que o público não se disperse por inteiro, apesar de alguns quadros monótonos que ameaçam o roteiro e só são suportáveis porque Hitchcock nos presenteia com algumas cenas formidáveis. Entre elas, é obrigatório citar a sequência do assassinato, tão verdadeira que é lembrada até hoje como um dos pontos mais brilhantes da carreira do diretor – que argumentava que “tirar a vida de alguém é algo muito difícil”, diferente do que se via em Hollywood. Outra cena de tirar o fôlego é a longa perseguição, já na última parte, onde Hitchcock com total destreza manipula a narrativa para aumentar ainda mais a tensão da fuga dos protagonistas – especialmente a sequência dos ônibus (que merece simplesmente ser vista e não apenas comentada aqui).

02

Cortina Rasgada é um bom thriller de espionagem e perseguição, mas com qualidade inferior a que estamos acostumados quando mencionamos o nome Hitchcock. Tecnicamente, a produção continua sendo eficiente, com exceção, talvez, da trilha de John Addison, que substituiu o velho Bernard Hermann (conta-se que Hermann teria escrito o roteiro original do filme que, após inúmeras alterações, marcou o fim da parceria entre o compositor e Alfred). Apesar de possuir os protagonistas mais insossos da carreira do cineasta, Cortina Rasgada mostra (assim como os grandes clássicos de outrora) o domínio do diretor em sua mise-en-scène, carregando muitos artifícios que são indispensáveis na obra hitchcockiana.