Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme)

01Já nas primeiras cenas de Uma Juíza Sem Juízo, somos capazes de descobrir muito a respeito de sua protagonista. Ariane Feldier é uma juíza comprometida e extremamente rígida em seus julgamentos, com grandes perspectivas de crescimento no tribunal onde atua. Além disso, aos 40 anos de idade, ela é solteira, não tem filhos, trabalha muito, se diverte pouco, não acha prazer em quase nada, inclusive nos homens – que troca facilmente por uma dança. Não que haja uma questão de ausência de libido aí, mas talvez sua experiência traumática com a principal figura masculina em sua vida (o pai que abandonou a esposa quando Ariane era pequena – e a seguida morte da mãe, que fez com que a garota ficasse sozinha no mundo) tenha lhe trazido certa desconfiança com relação ao sexo oposto.

Na véspera de ano novo, em meio a uma animada festa em seu local de trabalho, Ariane bebe uns goles a mais e não se recorda de nada do que aconteceu na noite anterior. Alguns meses depois, ela recebe a notícia de que está grávida, mas não faz ideia de como isso pode ter acontecido – e, principalmente, quem é o pai da criança. A partir daí, Ariane começa uma investigação para descobrir os detalhes da história – e, para sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai do filho que espera é um perigoso agressor.

Uma Juíza Sem Juízo é um filme despretensioso, mas que agradou ao público e crítica em geral – tanto que a comédia ganhou o Prêmio Cesar de melhor roteiro (segundo maior festival francês) e foi um sucesso de bilheteria na França. Não tem grandes ambições e seu apelo absurdo consegue arrancar boas risadas da plateia.  Porém, o tom exagerado desta comédia não a torna apelativa. Na verdade, por mais que escolha alguns tipos absurdos e estereotipados, o roteiro ágil (que não deixa o espectador bocejar na poltrona) aliado à trama envolvente e inventiva é o que mais chama a atenção neste filme onde tudo é bastante previsível (mas nem por isso você perde o interesse na trama). A comédia absurda de Uma Juíza sem Juízo, por vezes até mesmo boba, lembra muito os primeiros trabalhos de Woody Allen (obviamente sem toda aquela firula existencial do cineasta).

Mas a comédia também pode render bons frutos, e Uma Juíza Sem Juízo aborda alguns temas contemporâneos que podem render boas discussões. O primeiro, estampado logo nas cenas iniciais, é a visão moderna da mulher na nossa sociedade – independente, workaholic e que não precisa de homem para nada. Depois, a desestruturação da família nos dias atuais é algo frequente. Ambos os protagonistas são frutos de lares problemáticos – e a ideia da formação de uma nova e perfeita “família” (segundo o conceito clássico) é o que mais assusta Ariane. Finalmente, há também uma questão ética aqui: vale a pena assumir um segredo vergonhoso para salvar outra pessoa? Como proceder diante desta questão, tomando ciência da situação vexatória à qual estaremos fatalmente expostos?

02

Outro ponto que deve ser elogiado é a ótima interação entre os protagonistas. Sandrine Kiberlian e Albert Dupontel (este último que assina o roteiro e a direção do longa) estão ótimos em seus respectivos papéis e mesmo individualmente tem atuações excelentes. Sandrine consegue lidar bem com as alterações de humor de sua personagem – o que lhe rendeu o Cesar de melhor atriz – , enquanto Albert vive um tipo alucinado que é engraçadíssimo. Da parte técnica, vale ainda destacar a simpática (e divertida) trilha sonora de Christophe Julien (que acentua todo o tom escrachado da comédia).

Em alguns momentos, é bom dar uma pausa em filmes “sérios” e arriscar produções menos badaladas e que exijam um pouco menos de nós como espectadores. Isto não implica em assistir a filmes ruins, mas sim trabalhos menos pretensiosos que podem nos render bons momentos de distração e entretenimento. Uma Juíza sem Juízo não é uma verdadeira pérola cinematográfica, mas funciona bem como comédia, sem forçar a barra. Uma opção divertida para quem gosta de dar umas escapulidas uma vez ou outra das comédias hollywoodianas recheadas de estereótipos, apelações e preconceitos.

Amor Sem Fim (Endless Love)

Da série “remakes desnecessários”, chega aos cinemas brasileiros o longa Amor Sem Fim, nova versão de um clássico “água com açúcar” da década de 80. 03Classifiquei aqui como um remake desnecessário porque, vamos admitir: Amor Sem Limites, de Franco Zefirelli, não chega a ser um grande filme. Okay, marcou o início da década de 80, trazia a estonteante Brooke Shields como protagonista (no auge da carreira, capa de inúmeras revistas e referência de beleza), eternizou a canção Endless Love (dueto entre Lionel Richie e Diane Ross), mas… deixava a desejar como “cinema”. Sequer foi um sucesso de bilheteria. Enfim, não foi nada demais. Talvez por isso, na expectativa de superar o original, gerou-se certo burburinho quando a notícia do remake foi anunciada, lá por volta de 2012.

Em Amor Sem Fim, acompanhamos Jade Butterfield (Gabriella Wilde, de Os Três Mosquiteiros), uma jovem sem amigos e superprotegida pelos pais, que se apaixona por seu antigo colega de classe, o problemático David Elliot (Alex Pettyfer, de Magic Mike), para quem ela nunca havia dado bola. No entanto, o relacionamento não é aprovado pelo pai de Jade, que tenta impedir a todo custo o envolvimento entre os dois. Ou seja, uma típica história de “amor proibido”, tema batido no cinema, mas que aqui ganha um nível de decadência muito maior do que se podia esperar, pois o longa peca – e peca demais. A começar pelo roteiro que não ajuda. Não apenas por ser clichê, com um início, meio e fim já esperados e previsíveis, mas por não ter um rumo definido: não se sabe se é um “romance” mesmo, se é um filme teen, se é um filme mais “família”. O roteiro atira para todos os lados, mas não há um alvo certo e tudo é tratado com muita superficialidade. O romance não é romance por completo; as relações familiares são tratadas de forma grotesca e caricatas; os dramas adolescentes são abordados sob uma ótica muito mais próxima à leitura de revistas do tipo Capricho e Atrevida.

01

Quanto às atuações, é um desgosto ver um filme de cinema com um elenco como o que encontramos aqui. Há atores na novelinha global Malhação com muito mais talento (e isso se estende para o casting mais “experiente”). Talvez isso seja resultado do péssimo desenvolvimento das personagens, que oscilam constantemente e não tem a menor “personalidade”. David, por exemplo, é um jovem que teve problemas no passado, com um suposto comportamento agressivo e obsessivo – porém, é tão boa praça e doce quanto um favo de mel (mas depois, agride o pai da amada; depois se arrepende; e depois…). Jade, então… no início é apontada como uma garota deslocada e tímida (provavelmente por conta de uma perda familiar), que nunca conheceu rapazes. Mas aí ela se apaixona e passa a lutar pelo seu grande amor, depois desacredita, depois acredita novamente… Totalmente confuso, não? Talvez o melhor exemplo da oscilação de personalidade entre esses personagens principais se dê na sequência da festa de formatura de Jade, quando David (que sempre foi apaixonado por ela, desde os tempos do colégio) dá uma de difícil e tenta se esquivar enquanto Jade o ataca – para dois minutos depois, a situação se inverter e David confessar que morria de vontade de beija-la. Não, é muita bipolaridade em um único filme…

Com quase 2 horas de duração, Amor Sem Fim é um daqueles típicos produtos que baterão cartão em sessões de filmes vespertinas e levarão adolescentes às salas de cinema. No entanto – e por incrível que pareça – não há nenhuma versão (ainda que piorada, tudo bem…) de Endless Love, um tema incrível que poderia, talvez, fazer Amor Sem Fim valer realmente a pena.

Uma Vida Comum (Still Life)

Nas artes plásticas e na fotografia, define-se como natureza morta o gênero artístico que reproduza objetos inanimados, sejam estes quais forem. Talvez o título original para o filme de Uberto Pasolini (“Still Life”), que estreia esta semana nos cinemas nacionais, seja o mais propício para Uma Vida Comum – um drama existencial que, ao final de seus oitenta e poucos minutos, deixa o espectador com aquele nó na garganta e se perguntando “qual é o sentido da vida?” de  uma forma simples e, talvez por isso, tocante.

02

John May é um funcionário inglês encarregado de organizar funerais para as pessoas mortas que foram abandonadas por seus familiares. Mais do que isso: além de preparar as cerimônias, John analisa as histórias, coleta fotos, procura parentes e amigos, faz os discursos religiosos, escolhe as músicas que serão executadas e também é, geralmente, a única presença na despedida. No entanto, em sua vida pessoal, nada de novo acontece: seus dias seguem a mesma rotina – seja no terno impecável com o qual se veste ou no cardápio que segue à risca (uma lata de atum com uma torrada e uma fruta, descascada sempre da mesma forma). Pouco se sabe a seu respeito; apenas o que vemos em cena são sequências que ajudam a compor o perfil de nosso protagonista: metódico, centrado, organizado, solitário, previsível.

John está vivo. O fato de estar “vivo” (biologicamente falando) é a única diferença entre ele e as pessoas que ajuda, pois em sua essência John já está morto. Sua vida solitária, totalmente ausente de aspirações, sonhos ou projetos o colocam no mesmo patamar daqueles que morrem sozinhos e desamparados. Esse perfil é bem delineado na total inexpressividade do personagem (vivido pelo britânico Eddie Marsan) e na direção de Pasolini, que não pesa a mão no sentimento, tratando tudo em um limite de superficialidade que permite ao espectador desejar ir cada vez mais fundo na história. O cineasta ainda utiliza a bela fotografia (com cores quase dessaturadas), abusando de planos que se repetem ao longo do filme e que aumentam a inexpressividade de John diante do mundo.

01

No entanto, algo na vida de John começa a mudar a partir da morte inesperada de seu vizinho alcoólatra (também ele uma vítima da solidão) – e também da descoberta de que este seria seu último caso, afinal ele acaba de receber a notícia de que será dispensado. Talvez aí é que John se dê conta de que, inevitavelmente, pode se tornar o mesmo tipo de pessoa com as quais “lida” diariamente. Com isso, John parte em uma busca frenética vasculhando a vida de seu vizinho como se fosse a sua própria. Pela primeira vez, John dá sinais de sua existência, deixando de ser um mero espectador para se tornar um protagonista (ainda que tímido) de sua própria história. Chega até mesmo a arriscar um tímido sorriso – o que, em sua situação, é um grande êxito.

Um fato incontestável: a morte chegará para todos, não importa a história que você tenha vivido. Uma Vida Comum não é um filme que inova como cinema e chega até mesmo a ser cansativo em alguns trechos (devido suas repetidas sequencias). No entanto, é impossível ficar indiferente à trajetória de John e, principalmente, à nossa própria história. Com Uma Vida Comum, Uberto Pasolini consegue fazer seu público, de certa forma, questionar como será o fim de nossos dias, através da visão de um homem que escolhe viver mesmo sabendo que sua natureza já está morta – demonstrando que nunca é tarde para começar a viver a vida.

Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August)

04Uma música famosa da cantora Pitty já dizia: “Memórias não são só memórias: são fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu nem quero saber…”. Talvez este pequeno trecho seja o que melhor ilustre toda a essência de Oslo, 31 de Agosto, novo filme de Joaquim Trier – lançado inicialmente em 2011 e que chega aos cinemas nacionais nesta semana.

Oslo, 31 de Agosto narra um dia na vida de Anders, ex-dependente químico à beira da desintoxicação total e que, como parte do programa de reabilitação, é liberado da clínica de tratamento para ir a Oslo, capital norueguesa, para participar de uma entrevista de emprego. Anders, no entanto, aproveita as horas livres para andar pelas ruas da cidade, reencontrando-se com pessoas e lembranças que fizeram parte de sua vida.

A dependência química já é um tema quase batido no cinema. Há muitos clássicos que tratam o assunto (sob diferentes abordagens, claro), como Trainspotting – Sem Limites, de Danny Boyle; Boogie Nights – Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson; ou ainda Réquiem Para um Sonho, obra máxima de Darren Aronofsky. Oslo, 31 de Agosto, por sua vez, passa longe da catarse abordada nesses filmes. Não há uma veia enérgica que elucide o comportamento das personagens sob o efeito de drogas. Na contramão, o filme de Trier é muito mais lento e minimalista, delineando a personagem principal enquanto sóbrio, limpo e, aparentemente, livre do vício.

A jornada de Anders durante seu dia livre transcorre pela cidade de Oslo, passando por suas ruas, casas, edifícios e outros lugares que fazem parte das memórias do protagonista. Agora, Anders não luta simplesmente para não sucumbir ao vício, mas também contra os fantasmas do passado que o atormentam. Aos 34 anos, Anders é jovem, tem boa aparência, é inteligente, tem uma família. Apesar disso, algo não se encaixa em sua existência e ele não sabe ainda o que é. Isso reflete um quase desgosto pela vida, um traço marcante da depressão. Pessimista, o filme introduz um olhar na frustração de Anders não com a vida, mas consigo mesmo: a sensação de tempo perdido, o fato de desapontar as pessoas que tanto amava ou mesmo na perda de seu grande amor. Anders claramente demonstra não possuir mais forças para recomeçar pois, além de tudo, o jovem se sente agora inadequado, em um mundo que não parou assim como ele. Anders Danielsen Lie, ator norueguês, tem um ótimo desempenho e que consegue transmitir toda a angústia e melancolia com a qual o jovem tenta retornar à sua vida “normal”. Sob o ponto de vista da personagem principal, a silhueta do ator é essencial ainda para acentuar a vulnerabilidade do ex-dependente diante do mundo que o cerca e que agora é muito diferente de sua época.

02

A data do título não é uma escolha á toa: é final do verão norueguês – e a grande metáfora aqui é que Anders pode recomeçar tudo novamente ao início de um novo tempo. Obviamente, a grande curiosidade do público é: Anders conseguirá resistir e abandonar de vez o vício? No final, o espectador retorna aos lugares que Anders visitou ao longo dos 90 minutos de duração do filme – mas agora vazios, provocando uma incrível sensação de nostalgia. O impacto causado é doloroso, mas absolutamente bem vindo. Oslo, 31 de Agosto é um grande trunfo de um diretor cujo currículo é muito mais modesto do que o de outros grandes cineastas – e, talvez por isso mesmo, altamente apreciável.

Eu, Mamãe e os Meninos (Les Garçons et Guillaume, à Table!)

A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Meninos e Guillaume, na mesa!”.

É com esta frase arrebatadora que Guillaume Gallienne introduz seu filme autobiográfico Eu, Mamãe e os Meninos – considerado a comédia francesa do ano e que foi o grande vencedor do César 2014 (o Oscar francês), incluindo melhor filme e melhor ator – desbancando títulos como Azul é a Cor Mais Quente, O Passado e A Pele de Vênus, último trabalho de Roman Polanski.

02Galliene, elogiado comediante francês, é o diretor, roteirista e protagonista desta incrível comédia – praticamente um grito de libertação de todos os traumas e questões mal resolvidas da infância e adolescência do artista. Desde cedo, o jovem nutre uma admiração incomum pela figura feminina – especialmente, por sua mãe, por quem tem verdadeira adoração e devoção –, chegando ao ponto até mesmo de referir a si mesmo como um ser feminino, uma mulher (em determinado momento, o protagonista aparentemente se descobre apaixonado por um colega do colégio, mas declara à mãe “não ser homossexual, pois é sua filha”). Isso leva a família a acreditar firmemente que Guillaume é homossexual e mais do que isso: a encorajar o garoto a se afirmar como tal.

O grande trunfo de Eu, Mamãe e os Meninos está na inovação de sua estrutura narrativa. De início, somos apresentados a um Guillaume nos palcos, se preparando para sua grande encenação teatral. Seu monólogo, no entanto, é entrecortado pela constituição dos episódios que o jovem narra. Dessa forma, o espectador está diante de duas narrativas que se completam: na primeira, nosso protagonista conta sua história; na segunda, Guillaume vive o que narra. Essa inovação ganha força através da utilização de um elemento já conhecido nas comédias escrachadas norte-americanas: a interpretação de vários papéis. Guillaume vive a si mesmo e também sua mãe – e, travestido como tal, é tão impagável quanto vestido de menininho que quer ser menininha.

No entanto, pouco se discute a respeito da homossexualidade de Guillaume – o que vemos é um protagonista que enfrenta suas questões sexuais sem, necessariamente, se preocupar em descobrir-se homossexual ou não. Já de início, Guillaume percebe que não apenas é ligado à figura materna, como também é parecido com ela – e cada vez mais tenta emular a mãe. Isso o leva a se enxergar “menina” e buscar imitar as demais mulheres à sua volta – mas não apenas pelo desejo de “ser uma mulher”, mas também porque admira o sexo oposto. Isto fica explícito no certo “receio” que tem do sexo masculino – chegando a abandonar uma orgia gay ou mesmo dispensar uma transa por se assustar com o tamanho do pênis do indivíduo.

01

Na visão de Guillaume, sua feminilidade advém não de uma possível homossexualidade – mas simplesmente da admiração que mantém pelo sexo oposto. Ou seja, sua feminilidade não o torna homossexual (olha a quebra do estereótipo!) – apesar de, ao que tudo indica, estar preparado para aceitar esta condição caso se confirme. Aqui, nosso protagonista não luta para assumir sua sexualidade – e, consequentemente, sofrer com todos os problemas decorrentes de tal ação (como as brincadeiras dos irmãos ou o desprezo do pai). Contrariando o que se podia esperar de um filme com esta temática, a luta de Guillaume não é para sair do “armário” – mas sim para mostrar quem realmente é, mesmo quando todos dizem o contrário. E ele só consegue isso quando, finalmente, encara sua mãe: é justamente aí que ele descobre que o grande problema de sua progenitora foi transferir seus medos, suas angustias, ansiedades e insegurança para ele.

Comédia deliciosa (ainda que recorra a alguns momentos pastelões para fazer chegar ao riso), Eu, Mamãe e os Meninos também apresenta um excelente trabalho estético em sua direção de arte – o que torna o filme visualmente impecável. Ainda aproveita praticamente cada locação, recorrendo a uma vasta paleta de cores em sua fotografia (ora fria, nos momentos introspectivos do personagem; ora quente, nos demais). De longe, Guillaume consegue criar uma obra à altura de sua bela história – que nos faz pensar que o medo é o que nos impede, na maior parte das vezes, de nos aceitarmos como realmente somos, independente do que somos. Eu, Mamãe e os Meninos trata seu tema com a honestidade que é totalmente condizente à necessidade dele. Assim sendo, palmas para o cinema francês.

A Recompensa (Dom Hemingway)

A Recompensa não é um filme de ação, aventura, drama, comédia ou qualquer outro gênero cinematográfico bem definido. É a história de um único personagem. No caso, trata-se Dom Hemingway, um famoso arrombador de cofres que após 12 anos de prisão, é solto e busca sua “recompensa” por não ter delatado seus comparsas. Nessa empreitada, entre altos e baixos, Dom tenta também se reconciliar com a filha – já que perdera sua mulher com câncer enquanto estava na cadeia.

Apesar de o título brasileiro ser condizente com a proposta do filme, o título original (Dom Hemingway) é o que mais reflete a necessidade de autoafirmação do personagem principal. Dom é um sujeito egocêntrico, explosivo (por vezes, violento) e sem o menor tipo de refinamento – mas com estima suficiente para se autoproclamar “o melhor arrombador de cofres de Londres”. Isso fica claro já na cena inicial do longa, um monólogo de três minutos, onde Hemingway recita uma verdadeira ode a seu pênis (comparando-o a obras de arte de Picasso a Renoir) enquanto recebe sexo oral de outro homem. Talvez essa arrogância e prepotência da personagem se deve ao fato de que Dom parece não se dar conta de que, após mais de uma década enclausurado, os tempos mudaram. Não existe mais ética entre criminosos, cumplicidade ou mesmo gratidão – e esta é uma nova realidade que Hemingway deverá encarar.

01

Law é a escolha perfeita no papel principal. É uma das melhores atuações de sua carreira: insano, exagerado e verborrágico, o ator está totalmente de acordo com a proposta do filme, com um controle total das cenas. Richard E. Grant também tem um ótimo desempenho no papel de Dickie, o companheiro de Dom e totalmente oposto ao personagem título – nas ações e temperamento, o que traz justamente as melhores linhas cômicas do longa.

No entanto, A Recompensa não consegue ir além de um filme mediano – e há alguns elementos que evidenciam isso. A trilha sonora (com músicas do Motörhead, Pixies, entre outros artistas) não é totalmente bem explorada, já que surge ou desaparece em momentos muito aleatórios – e isso contribui muito com o ritmo da trama. Falta ainda um roteiro mais estruturado: embora a ideia seja boa, é nítido sua inconsistência, principalmente a partir da segunda metade do longa, quando repentinamente o foco narrativo passa a ser as tentativas de Dom em se aproximar da filha. Embora possua uma constituição visual suficientemente bem elaborada, temos a impressão de que o filme poderia ser melhor em mãos mais experientes, já que a direção de Richard Shepard claramente não dá conta do recado. Infelizmente, A Recompensa é uma produção cujo protagonista é maior do que o próprio filme.

Versos de um Crime (Kill Your Darlings)

Ao que parece, a geração beat nunca esteve tão em alta no meio artístico desde seu surgimento. Seja na literatura, na música ou no cinema – só nos últimos anos, tivemos filmes como Uivo (2010), Na Estrada (2012) e Big Sur (2013) –, a contracultura repercutida por nomes como Allen Ginsberg e Jack Kerouac virou uma espécie de tendência (ou talvez, mera casualidade), sendo revisitada em diversas obras. Versos de um Crime, do novato John Krokidas, nos traz um pouco do universo beatnik, em um filme que flerta com o suspense e biografias não muito bem construídas daqueles que foram os precursores de um movimento que influenciou toda uma geração.

03

O filme acompanha o jovem Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe) a partir de seu ingresso na Columbia University, em 1944, quando conhece Lucien Carr – um simpático e misterioso colega de universidade por quem Allen fica deslumbrado. Lucien é quem apresenta Ginsberg a William Burroughs e Jack Kerouac, dois jovens aspirantes a escritores. O assassinato do amante de Lucien, no entanto, acaba impactando a amizade do grupo – mas dando início a geração beat, do qual Ginsberg, Burroughs e Kerouac foram os principais expoentes.

Boa parte do roteiro do longa se dedica à construção de suas personagens através de situações avulsas e, em muitos momentos, desconexas. Em uma época marcada pelo conservadorismo, os personagens principais são mostrados como um grupo de adolescentes mimados sem nenhuma motivação para seus atos. O próprio Ginsberg é retratado na maior parte do filme como um jovem altamente influenciável – ao ponto de abandonar a mãe em troca de uma noite de farra com o amigo de sexualidade “duvidosa”. O grupo, aparentemente comandado pelo carismático Lucien, é retratado como a versão imatura de uma geração que luta pelo fim de tabus, pela queda do conservadorismo – mas não sabe o porquê de tudo isso.

Ainda que o roteiro sofra com algumas falhas, Versos de um Crime proporciona ótimas atuações, com um elenco jovem e carismático que revive com competência esses grandes nomes da contracultura. Daniel Radcliffe, numa tentativa visível de se libertar de seu Harry Potter (personagem teen que marcou sua carreira) tem aqui ótimos momentos na pele de Allen Ginsberg. O próprio Radcliffe já havia declarado inclusive que pela primeira vez se sentiu satisfeito e orgulhoso ao se ver na tela – mérito do ator e também do diretor que, além da boa escolhe de elenco, orientou o grupo em todas as cenas. Protagonizando uma modesta sequência de sexo gay (sob orientação de Krokidas, homossexual assumido, para que a cena parecesse ainda mais real), Daniel só não consegue ser mais intenso do que Dane DeHaan, excelente como o jovem Lucien – a mais grata surpresa no longa. DeHaan, talento em ascensão, e Radcliffe mostram uma química adorável durante o filme, fazendo quase com que o espectador torça pela união dos dois (ainda que Lucien seja volúvel e seu caráter altamente reprovável).

02

A bela fotografia em sépia ajuda na reconstituição de época, trazendo certo estilo ao filme. Com a trilha sonora assinada pelo jovem Nico Muhly (de O Leitor, de Stephen Daldry), Versos de um Crime é um filme que talvez, em mãos mais experientes, poderia ter tido seu bom material melhor aproveitado – o que fica evidente na falta de ritmo da narrativa. Versos de um Crime é incapaz de agradar a todo tipo de público, devido sua temática deveras complicada, sua falta de apelo comercial e por retratar um movimento de contracultura que não é conhecido por todos. Entretanto, os bons aspectos técnicos e as atuações inspiradas do elenco (incluindo Radcliffe sem os trajes de bruxo) são motivos suficientes para se assistir ao longa – ainda que lhe falte uma abordagem que seja digna dos personagens envolvidos e de toda sua contribuição às gerações seguintes.

A Pele de Vênus (La Vénus à la Fourrure)

Gosto muito de filmes com diálogos rápidos, inteligentes e longas sequências, pois acredito que é justamente ali que um cineasta pode demonstrar ao público uma das habilidades que mais admiro no ofício da direção: dirigir pessoas. Redundante? Talvez, mas dirigir atores não é uma tarefa fácil. O consagrado Roman Polanski já havia mostrado que sabe como fazer isso em Deus da Carnificina, de 2011, quando colocou dois casais dentro de um apartamento e os fizeram trocar acusações até os ânimos se alterarem. Em A Pele de Vênus, Polanski retoma a ideia, mas com um grau de erudição e erotismo muito acima de seus trabalhos anteriores.

04

Assim como Deus da Carnificina, A Pele de Vênus também é a adaptação de uma peça teatral homônima, apresentando a história de Thomas (Mathieu Amalric), um jovem dramaturgo que está à beira dos nervos por não conseguir encontrar a atriz principal para sua nova peça – uma releitura do livro La Venus à La Fourrure, de 1870 (um clássico da literatura mundial). Prestes a sair do teatro após uma série de audições fracassadas, Thomas recebe a inesperada visita de Vanda (Emmanuelle Seigner), uma bela atriz com quem o dramaturgo se envolve em um relacionamento de submissão, dominação e perversão.

Polanski repete aqui o esquema “teatro filmado”, conseguindo arrancar ótimas atuações de seu pequeno elenco. Mathieu (substituindo Louis Garrel, ator fetiche francês que abandonou o projeto devido sua agenda) e Emmanuelle dão um show à parte. A dupla, que já havia se encontrado no elogiado O Escafandro e a Borboleta, tem uma química incrível ao longo de mais de noventa minutos de película e cada um é bem explorado, desempenhando de forma pra lá de satisfatória sua função dentro da proposta daqueles personagens. Mas quem surpreende é Emmanuelle, esposa do diretor que, aos 46 anos, consegue ser incrivelmente atraente e deslumbrante em cena. A sexualidade que Emmanuelle exprime  é o que faz com que ela roube o filme para si, tornando sua personagem quase uma extensão (com um nível de maturidade acima) de seu papel em Lua de Fel, de 1992 (também dirigido por Polanski).

01

Apesar de ter sua atuação bastante questionada na época, Emmanuelle protagonizou ali uma das cenas mais eróticas do cinema de Polanski. Hoje, mais de vinte anos depois, Emmanuelle é uma atriz muito mais madura e sua Vanda é prova irrefutável de que ela não é apenas a esposa de Roman Polanski. Aqui, Seigner tem em mãos um papel à altura de sua figura: Vanda é misteriosa e dosa o papel de vítima e algoz, invertendo-o com um tragicômico Thomas. E Polanski, que não é bobo e sabe como provocar, usa bem a imagem e talento de Seigner. Com uma câmera excepcional (que coloca o espectador sob o ponto de vista praticamente de um voyeur), é nítido o quanto Polanski busca capturar tudo o que sua musa inspiradora pode oferecer, quase que com um certo prazer.

Com um roteiro primoroso, recheado de referências à cultura clássica, a fita é verborrágica – e por tal razão pode parecer um pouco cansativa em diversos momentos. No entanto, os diálogos rápidos e inteligentes velam uma crítica implícita ao papel da mulher na sociedade, à sua verdadeira atribuição como “fêmea”, em um mundo ainda dominado pelo machismo. É a inversão de papeis entre Thomas e Vanda que vai dando mais corpo ao filme, à medida que o dramaturgo se vê cada vez mais ligado à atriz – uma mulher aparentemente sem cultura ou conhecimento, mas que aos poucos se revela muito mais do que um corpo sensual. A variação entre realidade e fantasia, que se misturam ao longo da projeção, dá o tom cômico e nos fazem questionar se Thomas está atuando ou realmente se tornou um escravo de Vanda.

02

Há quem possa se incomodar com o estilo “teatral” com que Polanski filmou A Pele de Vênus. Não que essa seja a primeira incursão do diretor no gênero (aliás, Roman tem no currículo, além de Deus da Carnificina, o despercebido A Morte e a Donzela, de 1994, quando Polanski já flertava com o gênero), mas este não é um tipo fácil de filme (nem para quem faz, nem para quem assiste). Não devemos esquecer que, antes de tudo, é cinema e, como tal, o trabalho de Polanski como cineasta é louvável: ele entrega uma obra irresistivelmente atraente, com um “quê” de erotismo que funciona perfeitamente à proposta do longa. E por incrível que pareça, A Pele de Vênus é Polanski retornando às suas origens, já que tem todos os elementos que artista já utilizava em sua filmografia (erotismo, submissão, homoerotismo – aliás, em uma das cenas finais, temos Mathieu travestido com salto alto e batom, nos remetendo instantaneamente a Polanski vestido de mulher em O Inquilino, de 1976). A Pele de Vênus é muito mais requintado, culto e crítico do que Deus da Carnificina, que já era excelente – o que, certamente, representa um nível acima no trabalho do cineasta.

Estou Aqui (I’m Here)

Uma das coisas que mais gosto de fazer é descobrir artistas. Quando vejo o trabalho de um ator ou diretor e esse trabalho me impressiona, lá vou eu correr para pesquisar sua filmografia e confirmar o talento daquele meu novo ídolo. Assim foi com Andrew Garfield, que conheci em O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de 2010, e por quem caí de amores em Não Me Abandone Jamais, no mesmo ano. No entanto, um dos melhores títulos de sua carreira é o curta Estou Aqui.

02

Patrocinado pela marca de marca de vodca Absolut, Estou Aqui é um curta de pouco menos de trinta minutos dirigido por Spike Jonze (de Quero Ser John Malkovich, Onde Vivem os Monstros e o mais recente e elogiado Ela). A história se passa em uma Los Angeles habitada por humanos e robôs e narra a trajetória de Sheldon, um tímido robô bibliotecário, que vive sua existência pacata e praticamente despercebida, cuja rotina metódica inclui apenas o caminho de casa para o trabalho. Em um determinado momento, Sheldon conhece Francesca, um robô com aparência feminina cujo espírito de liberdade acaba fascinando o bibliotecário. Aos poucos, a amizade entre os dois se transforma em amor – amor capaz dos maiores sacrifícios para fazer o outro feliz.

Uma das características dos trabalhos de Spike é contar algo de nosso universo dentro de um universo “à parte”. Para o cineasta, nossa sociedade é vazia – e é isso que ele recria em sua Los Angeles surreal. O próprio apartamento do protagonista reflete esse vazio: é opaco, sem decoração, quase sem cores ou nada que estimule maior interesse. Assim também é o convívio entre robôs e humanos, este último grupo que pouco aparece na história e, apesar das críticas que fazem aos seres robóticos, aparentemente convive pacificamente com Sheldon e os demais de sua espécie. Estou Aqui recria, com uma história simplória e até mesmo “boba”, uma metáfora sobre a solidão do homem dentro de uma sociedade cada vez mais individualista – onde não há mais espaços para sentimentos, ofuscados pela correria cotidiana e avanços tecnológicos, por exemplo.

03

Estou Aqui possui uma bela fotografia que oscila entre a claridade do sol nos momentos mais alegres e românticos de Sheldon e seu par, e uma paleta mais acinzentada nas cenas mais solitárias, acentuando o vazio do protagonista. A delicada trilha sonora ajuda a tornar o filme ainda mais melancólico, assim como as atuações de Garfield – que mesmo caracterizado como um robô, consegue transmitir todo sentimento da personagem em seu retraído (mas exato) tom de voz. Muito bem recebido por onde passou, Estou Aqui é um projeto que funcionou devido sua estética cinematográfica latente e o primor com o qual foi concebido. Com Estou Aqui, Spike consegue recriar uma fábula sobre o amor – e, principalmente, o mais puro significado de “se doar por inteiro”.

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)

Lá no início da década de 90, o até então desconhecido Quentin Tarantino estreava como diretor com Cães de Aluguel. Ex-funcionário de uma locadora (fato que colaborou para seu vasto conhecimento cinematográfico), Tarantino criava ali uma obra que seria amplamente elogiada pela crítica e considerada por muitos o melhor filme do diretor – ou pelo menos, o precursor de um estilo que definiria Tarantino em toda sua carreira.

Cães de Aluguel é um filme simples e direto: Joe Cabot é um criminoso experiente que reúne um grupo de seis bandidos para um assalto a uma joalheria. Ninguém nesse grupo se conhece e cada um utiliza uma cor como codinome, evitando assim qualquer suposto “envolvimento” após assalto. Entretanto, as coisas não saem como o esperado: quando chegam ao local do crime, a suspeita já está à espera do grupo, o que levanta as suspeitas sobre um provável infiltrado entre eles. Após uma fuga desenfreada, os criminosos que sobrevivem se reúnem em um galpão, onde discutem sobre o acontecido e levantam hipóteses sobre quem poderia ser o traidor da trupe.

03

Muita gente considera Pulp Fiction, o filme seguinte do cineasta, como a obra-prima de Tarantino. Outros sugerem que o diretor se reinventou em Kill Bill, alguns anos após o subestimado Jackie Brown. Obviamente, dentro uma filmografia tão linear, é difícil para qualquer fã do diretor definir qual seria seu melhor trabalho. Mas é inegável que Cães de Aluguel é um belo exercício de estilo para um diretor de primeira viagem. Talvez o que mais torne Cães de Aluguel original seja a originalidade com que Tarantino apresenta ao público sua identidade, injetando características que definiriam suas obras posteriores em um filme aparentemente descompromissado (mas nem por isso de qualidade duvidosa).

Inovador e inquestionável, o roteiro torna tudo muito verossímil ao descrever seus personagens e suas ações com bastante clareza. Cada um tem sua personalidade revelada logo de cara, sem muita forçação de barra, e todos estão bem inseridos na história. Não há personagens descartáveis: todos são responsáveis por algum momento no longa. Quentin entrega um roteiro ágil, que não abre margens para situações desnecessárias ou redundantes – e apesar do filme se passar basicamente em um único cenário, não há monotonia. A ação é constante – e isso se deve muito mais pelos excelentes diálogos do que necessariamente por cenas de perseguição ou tiroteio. A cada conversa entre os bandidos, o expectador se depara com uma explosão de referências à cultura pop – como na antológica cena inicial, onde o grupo devaneia num restaurantes sobre o significado de Like a Virgin, de Madonna.

01

O filme também traz uma constante nos roteiros tarantinescos: a não linearidade. A história se intercala entre as sequências no galpão e os flashbacks do crime, que aos poucos ajudam a esclarecer a situação. Ousado para a época, Cães de Aluguel traz ainda cenas de violência exacerbada, que chocou muito os críticos – e, como não poderia ser diferente, levantou intermináveis debates sobre a questão da violência no cinema. Em um dos momentos mais fortes do longa, o personagem de Michael Madsen tortura um policial ao arrancar-lhe a orelha – tudo mostrado sem pudor.

São raros os casos no cinema em que um diretor estreia de forma tão magnífica e empolgante. Muito mais raro ainda é quando o primeiro filme de um cineasta diz tanto sobre ele como Cães de Aluguel fala sobre Tarantino. Tudo o que o diretor faria em suas próximas histórias estão ali presentes: os ótimos diálogos e teses tarantinescas, o humor ácido, a violência exagerada e explícita, a trilha sonora excepcional, a não-linearidade do roteiro, as referências à cultura pop e a outras obras de cinema (em certo momento, três dos bandidos se encaram nos remetendo à cena mais emocionante de Três Homens em Conflito, clássico de Sérgio Leoni – um grande ídolo de Tarantino) e, claro, a facilidade com que o cineasta consegue florear até mesmo os momentos mais eloquentes. Não à toa, a Empire definiu Cães de Aluguel como “o melhor filme independente da história”. Com competência difícil de se achar em um diretor iniciante, Tarantino conseguiu muito mais do que isso: fez de Cães de Aluguel uma cartilha de seu próprio gênero.