O Conto dos Contos (Il Racconto dei Racconti)

Geralmente, os contos de fadas se iniciam com a expressão “Era uma vez…” e se despedem com o célebre “…e viveram felizes para sempre”. Ao menos, foi assim que nossa cultura “cinematográfica” nos ensinou. Repare, por exemplo, na influência de Walt Disney: suas obras mais memoráveis são justamente os contos que povoaram a imaginação de crianças e adultos ao longo das últimas décadas – o que contribuiu (e muito) para a criação de seu império. Mas as histórias Disney, definitivamente, estão muito longe de referenciar como deveriam o material que as originou. Princesas fofas? Heróis valentes? Animais antropomorfizados? Deixe isso de lado – e talvez assim você será capaz de apreciar como se deve o longa O Conto dos Contos.

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O filme do italiano Matteo Garrone (Gomorra, de 2008) narra três tramas paralelas que envolvem os monarcas de três reinos diferentes. Na primeira delas, um rei mata um monstro marinho para roubar o coração da criatura e fazer sua esposa estéril engravidar. No segundo núcleo, um rei libertino se apaixona pela bela voz de uma camponesa, sem saber que na realidade sua amada é uma idosa. Finalmente no terceiro segmento, um rei viúvo cria sua filha adolescente, que deseja se casar e sair além dos muros do castelo.

Essas histórias são unidas apenas pela época em que ocorrem. Isso até chega, no início, a dificultar ligeiramente a compreensão do espectador que for ao cinema sem antes ter lido a sinopse, porque toda a ambientação parece muito igual. No entanto, conforme o filme caminha, cada um destes “contos” mantém sua estrutura própria e, consequentemente, seu devido clímax. Para além disso, há um certo equilíbrio entre as narrativas: em alguns momentos, é visível que algumas perdem um pouco o foco, dispersando a atenção do público; em compensação, outras começam a crescer (e mesmo surpreender) durante seu desenvolvimento.

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Mas há ainda um upgrade: O Conto dos Contos é visualmente encantador. A fotografia do veterano polonês Peter Suschitzky já impressiona nos primeiros instantes, bem como toda a direção de arte do projeto. A trilha assinada pelo sempre competente Alexandre Desplat agrega bastante à atmosfera da fita, indo de pontos discretos a outros mais intensos. Quanto à decupagem do cineasta, é importante observar uma coisa: diferente do que acontece nas tradicionais produções fantasiosas (vide O Senhor dos Anéis, por exemplo), que optam pelos constantes planos abertos de forma a destacar cenários exuberantes, O Conto dos Contos recorre a enquadramentos menores, o que valoriza a construção psicológica de seus personagens e, consequentemente, a atuação do elenco estelar (com nomes como Salma Hayek, Toby Jones, Vincent Cassel e John C. Reilly).

A única ressalva de O Conto dos Contos é sua última parte. Fica evidente que uma história ganha maior tempo em seu desfecho, enquanto as demais ficam à deriva. A cena final soa apressada e com isso algumas brechas surgem (o que se resolveria com quinze minutos a mais de projeção), mas nada que estrague a ótima experiência que é O Conto dos Contos. O filme é uma aventura cheia de fantasia que certamente agrada aqueles que apreciam o gênero, especialmente por escolher apresentar uma visão mais adulta, grotesca e surreal de histórias que nos são entregues, em sua maioria, de maneira tão infantilizada. Esse é um dos grandes méritos de O Conto dos Contos, o que por si só já o torna um dos melhores filmes do ano.

Angry Birds: O Filme (The Angry Birds Movie)

Nunca fui muito fã de videogames, seja a plataforma que for. É um entretenimento que não me agrada por questões particulares, mas é inegável o sucesso de alguns games inclusive para a cultura pop. Talvez um dos exemplos mais interessantes dos últimos anos seja a série Angry Birds, desenvolvida pela Rovio Entertainment no final da década passada e que hoje já soma mais de 3 bilhões de downloads. O jogo foi absoluto – daí o frenesi com a notícia da adaptação de Angry Birds para os cinemas. Uma pena que, diferente do jogo, Angry Birds não funciona como filme.

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Angry Birds – O Filme é uma animação (da Sony Pictures Imageworks) que parte de uma premissa já batida em produções voltadas ao público infantil: um herói rejeitado percebe uma “ameaça” e, com o auxílio de amigos, salva os demais e vira o queridinho do momento. No caso do longa dirigido pela dupla Clay Kaytis e Fergal Reilly, o hostilizado da vez é Red, um pássaro ranzinza que vive em uma ilha onde a alegria é praticamente uma lei. Após dar um “chilique” com os moradores do local, Red é enviado a uma espécie de sessão de terapia, para aprender a controlar seu temperamento. Lá, ele conhece outros pássaros “esquentadinhos” que ajudarão Red a resgatar os ovos das famílias daquela comunidade, que foram “sequestrados” por porcos verdes.

A verdade é que, exceto em sua terceira e última parte, pouco do material que o originou é referenciado em Angry Birds – O Filme. O conflito que gera a “narrativa” do game é restrita praticamente a um curto intervalo de tempo. Isso é ruim? Não seria se o argumento soubesse aproveitar o restante da fita com uma história realmente boa. Ao invés disso, o roteiro se perde em tipos clichês (quando não mal aproveitados), piadas sem ritmo e uma trilha sonora para lá de fraca. Salva-se apenas a excelente estética: os cenários são primorosos e os personagens são graficamente bem desenvolvidos. Mas isso não é suficiente: Angry Birds não convence como animação. Talvez se a proposta fosse mais incisiva na caracterização dos “angry birds” reais, a coisa fluiria melhor. Pelo contrário: a trama nonsense e infantilizada de Angry Birds – O Filme o torna um passatempo passageiro assim como o jogo (que há muito perdeu o fôlego).

Zelig (Zelig)

Escrito e dirigido por Woody Allen, Zelig é, sem sombra de dúvidas, um dos trabalhos mais interessantes de sua carreira – infelizmente esnobado pelo público e ofuscado por outras de suas obras mais “famosas” (porém superestimadas, a meu ver). Propositalmente estruturado como um documentário, o filme narra a história de Leonard Zelig (o próprio Woody), um homem comum com uma característica bastante peculiar: ele tem a incrível capacidade de transformar sua aparência, bem como suas maneiras e até seu intelecto, de forma a adaptar-se ao ambiente ao seu redor. Internado em um hospital em Manhattan, seu caso chama a atenção da doutora Eudora Fletcher (Mia Farrow), que acaba se apaixonando pelo paciente.

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O que faz Zelig ser um filme tão genial é a segurança com a qual Woody brinca com a narrativa. Se o próprio estilo pseudo-documentário já lhe traz possibilidades cômicas, Allen potencializa esta perspectiva com a ironia recorrente em sua filmografia. O cineasta segue firmemente o padrão “documentário” tradicional, inserindo elementos como as filmagens em preto e branco e os depoimentos de pessoas que teriam conhecido o protagonista, por exemplo. Para além disso, as técnicas de manipulação de imagens são bastante convincentes para a época (o longa é do início da década de 80): Zelig é visto em fotos ao lado de personalidades, como Al Capone, Charles Chaplin, F. Scott Fitzgerald e, pasmem, Adolf Hitler.

Mas Zelig não é apenas uma comédia crua e sem propósito. Zelig é também uma fábula atemporal sobre a inútil necessidade do ser humano de aceitação. Para Leonard, se adaptar aos demais ao seu redor era se sentir “aceito”, era estar “seguro” – daí sua transformação. Ser “igual” era para ele um instinto de sobrevivência, uma maneira de estar integrado ao todo. Cá entre nós: pouca coisa mudou deste então. Ainda hoje, é possível encontrar milhões de “Zeligs” sem personalidade, sedentos de atenção, tentando ser apenas mais um na multidão – as redes sociais estão aí para comprovar. Zelig consegue criticar esse comportamento através de uma trama repleta de humor, que ironiza até mesmo o sensacionalismo da imprensa e o culto às celebridades. É Woody Allen em grande forma – mais até do que em seus supostos momentos mais inspirados.

Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) (Everything You Always Wanted to Know About Sex (But Were Afraid to Ask))

O sexo ainda hoje é um tabu – mas é curioso como muitos nomes, ao longo da história, já tentaram desmitificar esse assunto. Talvez Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) não traga muita profundidade ao tema, até mesmo se levarmos em consideração que se trata de uma obra cômica (não que a comédia não possa ser um excelente veículo de comunicação). Entretanto, é interessante analisar a narrativa de um Woody Allen em início de carreira, trazendo às telas alguns elementos que seriam marca impressa de sua extensa, cultuada e controversa filmografia.

Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é composto por sete esquetes, baseadas em seções do livro homônimo de David Reuben – e, definitivamente, é a tentativa de Allen de esclarecer supostas dúvidas do público em relação ao sexo (a julgar pelo título óbvio e pela estrutura narrativa). Cada “segmento” é iniciado com um questionamento e Allen utiliza-se de histórias distintas para responder cada um deles.

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O que mais impressiona é o fato de que estamos diante de um filme do início dos anos 70. O que isso quer dizer? Bem, naquela época esta produção pode ter funcionado até que bem – mas, é claro, talvez hoje já não cause tamanho impacto. No entanto, vale a pena acompanhar a habilidade de Allen em fundir o nonsense dentro do cotidiano para explorar de forma quase surreal o quão ridículo é a visão que o ser humano, ainda hoje, tem acerca do sexo. Assim, algumas sequências são irrepreensíveis, como o núcleo do médico que se apaixona por uma ovelha ou até mesmo o bom velhinho Woody Allen caracterizado como um espermatozoide. Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é Woody Allen parodiando a tudo e a todos: Shakespeare, filmes antigos de terror, cinema italiano, programas de TV – mas principalmente a imbecilidade humana, daquele jeitinho que só ele sabe fazer. Só isso já faz com que o longa tenha seus créditos (e devido destaque) na obra alleniana.

O Tesouro (Comoara)

O Tesouro, produção romena que chega às salas de cinema nacionais esta semana, é um filme sem “firulas”. Simples e direto, o longa de Corneliu Porumboiu está longe de ser uma obra-prima cinematográfica, mas talvez sua pouca pretensão é que o torna interessante. A trama acompanha Costi, um jovem pai de família que leva uma vida relativamente comum e ordinária na capital romena, Bucareste. Ele vive sem luxo – na verdade, é com muito custo que Costi dá conta das despesas da casa e não deixa faltar nada ao filho, um garotinho de seis anos que gosta de dormir ouvindo as histórias que o pai conta, principalmente a de Robin Hood. Em uma noite inesperada, seu vizinho Adrian convence Costi a lhe ajudar a procurar um suposto tesouro no quintal da casa de sua família no interior, escondido por seu avô na época da ascensão comunista.

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A partir daí, uma série de fatos tragicômicos se sucede, amparados por um timing de humor bastante sutil, seco e sem parvoíce. Toda a mise-en-scène da película é pautada nisso e na simplicidade da narrativa – do cotidiano das personagens à escolha dos planos, por exemplo. Não há nenhum tipo de “estilização”: ao que parece, o único propósito do diretor é expor sua história de forma bastante objetiva – e é exatamente isso que ele consegue, apesar do filme ganhar alguns contornos visivelmente “absurdos” (deixando de ser um medíocre conto realista para cair em um quase surrealismo moderno). Apesar de ter seu argumento construído em torno da relação entre pai e filho, o grande antagonista de O Tesouro, no entanto, é o poder público, praticamente um vilão: todo e qualquer artigo precioso encontrado deve ser entregue ao governo para futura avaliação, podendo ou não ser ressarcida ao dono da descoberta – e este é apenas uma das pedras no caminho de Costi, um herói comum, próximo a todos nós. Com um desfecho ótimo e diferente, O Tesouro vai muito além de uma simples “caça ao tesouro” tradicional: a riqueza nem sempre fala mais alto quando o que se está em jogo é o reconhecimento daqueles que a gente ama.

O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice)

É comum ouvirmos por aí que a genialidade sempre vem carregada de uma dose de loucura. E, de fato, essa afirmação não é totalmente inválida – seja para o bem ou para o mal. E é essa ideia que podemos acompanhar em O Dono do Jogo, novo filme de Edward Zwick (de Lendas da Paixão e Diamante de Sangue) estrelado por Tobey Maguire. Na trama, baseada em acontecimentos reais e ambientada na década de 70 em plena Guerra Fria, conhecemos o jovem fenômeno Bobby Fischer, um enxadrista norte-americano que tenta levar seu país a conquistar o seu primeiro título no Campeonato Mundial, desafiando o então vencedor, o russo Boris Spassky.

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O Dono do Jogo é previsível do início ao fim. Talvez por se tratar de uma biografia, sabemos exatamente o que esperamos de sua narrativa e é justamente isso que o seu diretor nos entrega – com bastante sobriedade, sem grandes surpresas ao longo de sua projeção. Seu desenvolvimento é feito sem pressas e a condução é significativamente equilibrada. Todavia, isso não diminui esta produção. Pelo contrário: com isso, conseguimos construir (ou melhor, desconstruir) nosso protagonista: conforme o argumento se intensifica, os distúrbios psicológicos de Fischer se agravam. Seus ataques de insanidade se tornam frequentes à medida que sua lucidez se esvaece e o cineasta já consegue prender a atenção do espectador nos instantes iniciais do filme. Ainda que Tobey não tenha um desempenho tão satisfatório (é visível que o ator está desconfortável em algumas sequências), a tensão criada na história ganha traços de um thriller – mesmo com as escolhas “fáceis” ao qual seu diretor recorre.

O longa cresce ainda mais a partir de sua segunda parte, onde a disputa entre Fischer e Spassky fica cada vez mais acirrada. Porém, esta disputa entre eles é meramente simbólica – a batalha aqui é patriota: EUA e União Soviética conflitavam entre si para conquistar a hegemonia política, econômica e militar no mundo. O xadrez apenas disfarçou aquilo que todos já sabiam. Assim, O Dono do Jogo vai muito além de um thriller psicológico, indo muito mais a fundo e se tornando um filme que, definitivamente, merece ser conferido.

Amor Por Direito (Freeheld)

Na trama de Amor Por Direito, escrita por Ron Nyswaner (de Filadélfia), acompanhamos a luta da detetive Lauren Hester e sua companheira Stacie Andree para conquistar os benefícios da pensão de Hester, após a policial ser diagnosticada com um câncer no pulmão. O diretor Peter Sollett, no entanto, é um artista de filmografia modesta até aqui – mas foi ousado ao escolher como protagonistas de seu filme a dupla Julianne Moore e Ellen Page. Moore, recém-oscarizada por seu brilhante trabalho em Para Sempre Alice, é sem dúvida uma das atrizes mais interessantes de sua geração. Page, por sua vez até então menos cultuada, se assumiu homossexual no início de 2014. Mais do que isso: Amor Por Direito chegou aos EUA pouco depois que o país, em uma decisão histórica, legalizou o casamento gay (resultado de anos de ativismo e incontentáveis batalhas judiciais de movimentos a favor dos direitos civis dos homossexuais).

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Infelizmente, Amor Por Direito não consegue ser tão intenso quanto a magnitude de sua história. Baseado em fatos reais, Amor Por Direito se limita a um melodrama por vezes eloquente, exagerado. Nyswaner não consegue recriar um roteiro tão envolvente quanto em Filadélfia: o argumento fica perdido no dramalhão convencional, apelativo em alguns instantes e sem muito charme. Tampouco Moore está em sua melhor performance. Tudo bem, sua transformação física é impressionante – e é um delírio ver o quanto Julianne se despe de toda vaidade para compor suas personagens. Mas o excesso de carga dramática de seu tipo nos soa um tanto artificial e, consequentemente, cansativo, fazendo com que a atuação de Moore sirva apenas de “escada” para Page. Sua Stacie se resume a poucas cenas inspiradas, visivelmente à sombra da grande suposta “estrela” do filme. A “desculpa” seria de que Stacie seria tímida demais na vida real, mas a verdade é que o talento da novata não se sobressai.

Mas Amor Por Direito não é totalmente descartável, rendendo até mesmo algumas boas cenas – principalmente as sequências durante as sessões de vereadores, que mostram toda a hipocrisia e arrogância da classe política (mas até esses momentos são inflamados de discursos tendenciosos, perceba). Em suma, todas as soluções são fáceis e talvez seja este o termo que melhor defina Amor Por Direito. Logo, se você quiser derramar umas lágrimas e não se importar de ser quase que forçado a isso, eis um filme que não vai te decepcionar. Apenas esteja ciente: carregue o lenço no bolso, mas prepare-se para sair do cinema vazio.

Gwen Stefani Mostra Falta de Identidade Musical em “This Is What The Truth Feels Like”

E lá se vão dez anos desde que Gwen Stefani lançava o segundo disco de sua carreira solo, The Sweet Escape. Desde então, muita coisa se passou na vida da loira: o fim do casamento com Gavin Rossdale, uma ponta como jurada do The Voice EUA (substituindo Christina Aguilera) e até mesmo um retorno inesperado de sua antiga banda, No Doubt. Enquanto tudo isso acontecia em sua vida privada, a indústria fonográfica seguia seus passos. Neste período, a música mudou bastante e artistas surgiam e desapareciam num piscar de olhos. E foi só agora, uma década depois, que a cantora norte-americana decidiu lançar seu terceiro álbum: This is What The Truth Feels Like.

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A verdade é que This is What The Truth Feels Like mantém a mesma fórmula de seus antecessores: a abrangência de sua música pop. É evidente ao ouvir o disco que a artista tenta abraçar de tudo, se aventurando por várias possibilidades. Não que o registro não tenha lá seus méritos. TIWTTFL foi bem recebido pela crítica e concedeu à sua criadora o primeiro número um solo na parada americana da Billboard (antes disso, Gwen só teria chegado ao topo com Tragic Kingdom, em 1996 – lançamento do No Doubt). TIWTTFL tenta incluir em seu repertório tudo aquilo que o pop permite, mostrando a versatilidade de Stefani. Entretanto, ainda que as canções individualmente sejam agradáveis de se ouvir, elas não são coerentes enquanto formato “álbum” – dificultando ainda mais a inútil tarefa de determinar qual é realmente a identidade sonora de Stefani.

This is What The Truth Feels Like é um caldeirão dos mais diversos estilos musicais. Há algumas boas apostas no R&B e hip-hop, como em Red Flag, a excelente Naughty e Asking 4 It (essa última tão genérica que parece uma reciclagem de várias ideias já usadas anteriormente neste cenário). Where Would I Be? já de cara remete aos tempos de No Doubt por conta da batida reggae carregada. As baladas também ganham espaço, como em Truth (que carrega no refrão o título do disco e será uma ótima opção ao vivo com voz e violão), Used to Love You (primeiro single deste registro e que ajudou a alavancar o projeto, após inúmeras tentativas frustradas de retorno com músicas menos inspiradas) e a deliciosa Send Me a Picture, minimalista em seu estilo verão. Sem parecer muito “farofa”, Obsessed é obviamente a canção mais “pista”, repleta de sintetizadores que tornam este um dos melhores instrumentais até aqui. Misery, You’re my Favorite e Me Without You são exemplos do “menos é mais” e apesar de não serem memoráveis são bastante convidativas. Já a chiclete Make me Like You (segundo single que ganhou um clipe improvável) não revoluciona, mas é bem agradável de se ouvir devido ao seu ar despretensioso.

Talvez o maior erro de Gwen como cantora seja este: falta uma identidade musical a ela. Sabe quando você grava várias faixas em seu celular para ouvir aleatoriamente? This is What The Truth Feels Like é justamente isso: várias canções que funcionam bem individualmente, mas juntas não tem qualquer propósito. Não há estética definida em TIWTTFL – o que não é necessariamente ruim, mas apenas impede Stefani de ser uma referência por si só dentro da cultura pop.

Especialista em Crise (Our Brand is Crisis)

Baseado em fatos reais ocorridos na Bolívia no início dos anos 2000, Especialista em Crise segue a jornada de um grupo de assessores norte-americanos em atividade no país sul-americano durante uma eleição presidencial. O candidato Pedro Castillo vai de mal a pior nas pesquisas e para reverter a situação a consultora política Jane (Sandra Bullock) é convocada às pressas. Jane, que está afastada das campanhas políticas depois de uma derrota esmagadora e agora leva uma vida pacata longe da agitação da cidade grande, aceita o desafio – que fica ainda maior quando ela descobre que terá que enfrentar novamente seu principal adversário, o inescrupuloso Pat Candy (Billy Bob Thornton).

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É um fato que a melhor parte de Especialista em Crise é sua protagonista, a queridinha Bullock. De resto, tudo parece incomodar bastante em um filme que tinha tudo para ser interessante, mas infelizmente deixa a desejar. É perceptível a falta de “personalidade” da narrativa: é uma mescla de comédia descompassada, dramas superficiais, sequências desestimulantes, em um roteiro tão raso que parece estar por um fio a todo momento. O diretor David Gordon Green (que não tem nada muito relevante em sua filmografia) evidentemente perde a mão no tom da obra e desperdiça, assim, um elenco amistoso (Sandra chegou até a ser cogitada à uma indicação ao Oscar de melhor atriz), uma história com potencial e uma proposta que poderia ser muito melhor aproveitada caso houvesse um argumento mais bem definido. O longa começa em uma atmosfera mais “séria”, com um certo teor político, mas muda de tema, depois volta nele, vai para outro, retorna – e tudo vai caminhando em uma espiral sem qualquer interesse. Nisso, nem a simpatia de Bullock consegue fazer milagre: Especialista em Crise é, literalmente, uma crise do início ao fim.

A Juventude (La Giovinezza)

O tempo passa para todos e o que fica são as lembranças. Esta afirmação pode parecer um tanto óbvia, é verdade, e está intimamente ligada ao conceito de “idade” – que, para muitos, é bem particular: nada impede uma pessoa idosa de ser jovem, como é possível que um adolescente carregue a exaustão que esperaríamos de alguém mais ao fim da vida. A Juventude, do italiano Paolo Sorrentino (de A Grande Beleza, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013) é uma reflexão sobre os dias e, principalmente, a passagem do tempo – criando, a partir dela, uma ode à juventude e à vida.

01Em um requintado hotel situado nos Alpes, dois amigos na casa dos 80 anos passam suas férias. Fred Ballinger (Michael Caine) é um maestro e compositor aposentado desde que sua esposa passou a viver em um asilo, após ser diagnosticada com Alzheimer. Mick Boyle (Harvey Keitel), por sua vez, é um cineasta em atividade, porém em crise criativa após uma série de trabalhos fracassados. Juntos, eles confrontam o passado e relembram suas histórias de vida, das aspirações da infância às paixões da juventude – enquanto lutam cada um contra os fantasmas do presente que os atormenta: Mick tenta finalizar aquele que será seu último roteiro e Fred resiste em retornar aos palcos para executar sua obra-prima, a convite da rainha.

Esteticamente impecável, A Juventude não é um filme tradicional, com começo, meio e fim muito bem definidos; A Juventude é feito de sequências que se completam – imperfeitas até certo ponto, mas que por isso mesmo torna esse panorama tão humano. É a típica produção que, ao final de sua projeção, o público não sabe exatamente o que pensar: há inúmeras perspectivas que podem ser contempladas e isso enriquece muito o trabalho de seu idealizador. Para além desse fato, tem-se um elenco que engrandece a obra. Caine e Keitel conferem bastante competência a seus respectivos papéis, seja lado a lado ou em cenas individuais. Por outro lado, Jane Fonda surge em um único momento da trama, mas reproduz aquele que é um dos melhores diálogos da narrativa – promovendo um debate inquietante sobre a “morte” da sétima arte e o crescimento da TV no futuro.

É irônico que em A Juventude a palavra “youth” apareça sobre as imagens de corpos enrugados e é ainda mais curioso que ela ressurja nos instantes finais, na gloriosa sequência musical onde ouvimos um número da majestosa The Simple Songs (que concorreu ao Oscar de melhor canção original, perdendo para a insossa música de Sam Smith para 007 Contra Spectre) – aliás, a trilha sonora de David Lang é um item à parte, bem como a impressionante fotografia de Luca Bigazzi, que unidos criam um balé estético que merece ser contemplado. Dividindo opiniões (em Cannes, o longa foi aplaudido e também vaiado), A Juventude foi considerado o melhor filme europeu pela Academia Europeia de Cinema, em 2015. Inspirador, A Juventude é rico na magnitude de seu tema, cumprindo sua proposta de saudar a vida como ela é.