O Presente (The Gift)

Simon retorna à sua antiga cidade junto com a esposa Robyn após receber uma irrecusável oportunidade na empresa em que trabalha. Após a chegada do casal na nova casa, Simon reencontra Gordo, um amigo da época de escola que logo se aproxima dos pombinhos. Em pouco tempo, este misterioso homem se infiltra na vida da família, se tornando uma indesejada presença.

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Tudo bem, a premissa de O Presente não é necessariamente inovadora: uma pessoa inconveniente que passa a “perseguir” outra – receita batida em filmes de suspense. O que talvez diferencie um pouco a trama de estreia de Joel Edgerton é que, aos poucos, um segredo comum do passado de Gordo e Simon vem à tona – e aí descobrimos que Simon pode não ser tão “bacana” quanto se mostra, nem Gordo o “monstro” que o primeiro o faz parecer. Assim, a narrativa se desenrola a partir das incertezas de Robyn com relação ao seu marido. Afinal, é possível voltar a confiar em alguém após uma série de mentiras mal explicadas e não resolvidas? E mais: quem são, na realidade, estes dois homens e o que aconteceu entre eles? Mas estes questionamentos não impedem que O Presente seja apenas um filme “morno”, que não desperta muita empatia ou interesse do público.

Talvez isso se dê pelo trio de protagonistas não tão competentes. O próprio Joel Edgerton, como Gordo, não convence – dando a impressão de que tem uma batata quente na boca em todas as cenas; Jason Bateman mantém um semblante de paisagem durante toda a fita, enquanto Rebecca Hall é bastante prejudicada por seu tipo mal desenvolvido. Logo, O Presente não passa de uma produção sem tanto glamour que dificilmente gerará muito burburinho por aqui, apesar de sua proposta interessante. Mal executada e recorrendo a recursos fáceis (como a câmera que dá ao espectador a visão de quem observa os personagens, os sustos previsíveis ou a música quase automática), a história ainda peca por um desfecho, no mínimo, incompatível com a proposta do filme. O Presente até tinha potencial, mas é fato que a direção inexperiente de Edgerton contribuiu muito para torná-lo apenas um passatempo dispensável.

Como Sobreviver a um Ataque Zumbi (Scouts Guide to the Zombie Apocalypse)

Costumo dizer que, para mim, uma das melhores coisas após um longo período assistindo filmes “sérios” é embarcar em alguma produção sem nenhum compromisso e que não me exija muito – justamente para não ter que me doar por completo com e para até, quem sabe, ser surpreendido. Chega até a ser prazeroso – não à toa, o termo guilty pleasure é comumente associado a esse tipo de filme “ruim” mas que, por algum motivo, acaba nos agradando. Como Sobreviver a um Ataque Zumbi se encaixa perfeitamente nessa categoria.

A trama gira em torno de três amigos adolescentes, escoteiros desde crianças, que estão passando pela difícil fase do “amadurecimento” – e aqui, já encontramos os estereótipos mais comuns nessas comédias: o garoto que só pensa em mulher e sexo; o gordinho desajeitado que parece não amadurecer jamais; e um jovem tímido apaixonado pela irmã do outro companheiro. Enquanto dois deles já se cansaram do escotismo e pensam em abandonar a atividade, o outro se sente traído – e, é claro: a amizade do trio fica abalada. No entanto, as diferenças entre eles são postas de lado quando a cidade em que vivem é infestada por uma epidemia zumbi.

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Sim, Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é um típico besteirol norte-americano, mas está longe de ser assim tão péssimo quanto pode parecer à primeira vista. Para começar, um ponto que favorece muito o longa de Christopher Landon é o fato de a projeção não ser extensa: apenas uma hora e meia é o bastante para o desenrolar da história. Está certo que o roteiro recorre a um punhado de clichês narrativos; entretanto, há alguns momentos que valem o ingresso e é possível até esboçar algumas boas risadas (por exemplo, você conseguiria imaginar um morto-vivo cantando Britney Spears? Pois é, isso acontece aqui!).

Também temos que entender que a trama não exige atuações espetaculares. Na verdade, ela até sobrevive de performances bizarras que dão todo o tom de “insanidade” que é a proposta da fita. Nesse ponto, vale a pena observar o carisma e a boa química do elenco formado por Tye Sheridan, Logan Miller e Joey Morgan. De resto, tirando o uso abusivo de piadas de caráter sexual ou escatológico (às vezes desnecessárias), Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é o tipo de filme que centraliza sua força justamente ao abordar o grotesco, o bizarro, o escroto. Então, se você for ao cinema com alguma pretensão, esqueça: não é indicado para você. Do contrário, não tem jeito: embarque no absurdo e tenha alguns instantes de risadas garantidas com um filme que é ruim – e por isso mesmo, a gente gosta…

Labirinto de Mentiras (Im Labyrinth des Schweigens)

Frankfurt, 1958. Johann Radmann é um jovem promotor de justiça que está iniciando sua carreira, cuidando de processos pouco expressivos e sem grandes perspectivas. A situação muda quando Johann descobre que um ex-oficial da SS está trabalhando como professor em uma escola infantil. Ao analisar a situação, Johann descobre também outros nazistas que, assim como o docente, levam uma vida normal, sem terem sido punidos pelos crimes que cometeram no passado. Com a ajuda de um repórter, Johann consegue carta branca em seu departamento para investigar os casos e reunir provas que possam incriminar os culpados – uma busca que se torna quase uma obsessão para ele.

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É interessante notar que vira e mexe surge um filme que traz alguma história relacionada aos fatídicos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Desta vez, é a Alemanha que tenta ressuscitar seus próprios fantasmas recriando o processo jurídico que ficou conhecido como “O Julgamento de Auschwitz” que, com o depoimento de mais de 200 vítimas, condenou 17 nazistas por crimes contra a humanidade. Este drama alemão pós-guerra, no entanto, trata sobre um período em que o próprio país se recusava a admitir sua “responsabilidade” pelos seus atos. Duas décadas após o fim da guerra, boa parte dos alemães sequer tinha noção daquele bárbaro evento – quando não, encobria criminosos que saíram impunes. Era uma espécie de negação de seu próprio passado, como se nada houvesse ocorrido.

Representante oficial da Alemanha na categoria de melhor filme estrangeiro na próxima edição do Oscar, Labirinto de Mentiras levanta um questionamento inquietante: quem são os verdadeiros culpados por aqueles crimes? Afinal, enquanto soldados, estariam aqueles homens apenas cumprindo ordens? Ou há uma ponta de sadismo que faz com que ajam por vontade própria? Com atuação competente do protagonista Alexander Fehling, o ponto alto de Labirinto de Mentiras fica por conta de sua bela fotografia (com bastante luz e contraste de cores), uma direção de arte responsável por uma ambientação impecável e uma trilha sonora executada com maestria. Apesar disso, o roteiro não apresenta nenhum grande clímax e se mantém estável durante as duas horas de fita, o que pode ser cansativo para o espectador e fazer parecer que Labirinto de Mentiras foi feito exclusivamente para narrar fatos, quando claramente tinha muito mais potencial que isso.

Capital Humano (Il Capitale Umano)

01Na sequência inicial de Capital Humano, já se estabelece o conflito que será desenvolvido no decorrer de toda a narrativa: um trabalhador comum é atropelado à beira da estrada ao voltar para casa à noite e é abandonado pelo motorista responsável pelo acidente. A partir daí, vamos revisitar a história sob a perspectiva de três personagens distintos: Dino, um agente imobiliário que busca ascensão social, hipotecando sua casa para conseguir dinheiro e aplicá-lo em um fundo de investimento de alto risco; Carla, a esposa que vive às custas do marido milionário e que não dá a mínima para a mulher; e Serena, uma adolescente que, apesar de estar apaixonada por um garoto sem muitas perspectivas, vive um namoro de fachada com Massi, filho rico e mimado de Carla que sofre com o desprezo e pressão do pai.

Com um roteiro surpreendente e que não deixa o público desgrudar os olhos da tela com suas ótimas reviravoltas, Capital Humano conta uma mesma história, mas sob olhares distintos. Dividido em capítulos, cada um deles apresenta suas versões do fato, mas todos se complementam, formando um inteligente quebra-cabeça. A trama, que se inicia com certo apelo tragicômico, vai aos poucos criando um clima de suspense interessante à medida que as situações vão sendo dissecadas. Além disso, as atuações são muito acima da média e o cineasta Paolo Virzì sabe como explorar seu elenco da melhor maneira possível. Fabrizio Bentivoglio é grandioso na pele do “malandro, mas não tanto assim” Dino, que fica desolado após descobrir que perdeu todo o dinheiro investido. A bela Valeria Bruni Tedeschi desperta bastante compaixão como Carla, uma personagem desajustada e perdida que não sabe muito bem qual é o seu lugar no mundo, estando sempre à sombra do esposo Giovanni Bernaschi, vivido por Fabrizio Gifuni – de longe, uma das melhores performances da película. Frio, preconceituoso e arrogante, seu tipo é a perfeita definição do “modo capitalista de ser”.

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Há quem diga que Capital Humano critica a decadência da Itália contemporânea – uma nação com ares de arrogância, pretensão, sarcasmo. Acredito que Capital Humano vá um pouco mais além. Em menor ou maior escala, o filme se estende à figura humana como um todo e disserta sobre o desajuste social e a decadência das relações humanas, que hoje são movidas por interesse e ambições, apenas isso. Todos querem pensar apenas no melhor para si, nem que para isso muitos valores morais simples sejam desprezados – e aí, chantagens, favores pessoais, jogos de poder acabam sendo utilizados como uma espécie de moeda de troca. Algo do tipo “não me importo em estar ao seu lado, contanto que isso seja vantajoso para mim”. A pergunta que fica é qual o valor da vida humana nesta sociedade. Tecnicamente impecável (seja na fotografia que preza os contrastes de cores ou na requintada trilha sonora), Capital Humano é um soco bem no meio do estômago do espectador – mas é uma dor que vale a pena encarar para que possamos refletir mais tarde.

Aliança do Crime (Black Mass)

Década de 1970, sul de Boston. A região é controlada por James ‘Whitey’ Bulger, um criminoso comum de origem irlandesa, irmão de um recém eleito senador estadual. A zona norte da cidade, por sua vez, é dominada por ítalo-americanos chefiados por Gennaro Angiulo. Para combater este último grupo, o agente do FBI John Connolly, também criado na parte sul da região, faz um acordo com Bulger, seu amigo de infância (e por quem nutre uma profunda gratidão), transformando-o em um informante protegido da polícia norte-americana. Entretanto, essa aliança entre o bandido e o FBI permite que Bulger não apenas elimine a concorrência, mas também se torne um dos maiores chefões do crime da história dos EUA.

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Dirigido por Scott Cooper (de Coração Louco e Tudo Por Justiça), Aliança do Crime pode parecer mais uma típica produção americana sobre a máfia – um gênero que hora ou outra aparece por aí (talvez devido à relação de extremo amor e ódio do americano com seus criminosos, vai saber…). O longa de Cooper, na verdade, é até “genérico”: pouco inova no tema, ousa ainda menos e nem é tão grandioso tecnicamente. Enfim, Aliança do Crime seria apenas “suficiente”, não fosse Johnny Depp, que realmente carrega quase que completamente o filme nas costas. Há tempos nos devendo uma atuação à altura de seu talento, parece que Depp voltou à sua boa forma, nos entregando uma performance contida, sinistra e ameaçadora – sendo aclamado no último Festival de Veneza.

E devo admitir, não apenas como um fã inveterado do ator, que Depp fez sim um excelente trabalho, até mesmo se levarmos em consideração o quão confuso é o roteiro de Mark Mallouk e Jez Butterworth. Afinal, quem é Bulger? O que ele fez para ser tão “fantástico” assim como mafioso? Ele trafica drogas? Faz falcatrua em jogos clandestinos? Lava dinheiro? Isso nunca fica claro e assim o público não consegue digerir muito bem a ideia de que ele é o “todo poderoso” do crime – só vemos seus comparsas falando isso a todo instante, mas não sabemos o que ele efetivamente executa para merecer tal alcunha; só ouvimos dizer que ele se tornou pior após a morte do filho ou da mãe, mas ele não demonstra nenhuma grande oscilação de comportamento ao longo da película.

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Sua relação com a família também é estranha: se por um lado ele demonstra um amor incondicional pelo filho e pela mãe, o mesmo não se pode dizer do sentimento de Bulger pela esposa e pelo irmão. Enquanto a primeira sai de cena de uma hora para outra sem nenhuma explicação, o relacionamento com irmão é ainda mais complicado e deveria ter sido melhor explorado – aproveitando mais Benedict Cumberbatch, inteiramente ignorado. Talvez o único ponto positivo a ser tirado de tudo isso é que, dessa forma, o personagem não cria empatia, mas sim medo. Sua presença causa certa tensão no ar. Diferente de outros bandidos, ele não é carismático, mas um psicopata intimidante – o que faz com que o público se sinta desconfortável com sua presença.

Apesar de ter um ritmo bacana (por conta, sobretudo, da excepcional trilha sonora de Tom Holkenborg, que deixa um clima de apreensão a todo minuto), Aliança do Crime procura delinear sua trama de forma mais intimista, pisando em “terreno firme”, sem reinventar a roda. Mas o que mais fica evidente é a falta de emoção da trama – talvez proposital, talvez não, mas é um fato que Aliança do Crime não é capaz de despertar muitos sentimentos no espectador, tornando-se assim um título mediano e incapaz de marcar a filmografia de seu astro principal.

Beira-Mar (Beira-Mar)

Beira-Mar é o primeiro longa dos diretores Felipe Matzembacher e Marcio Reolon, que chega hoje aos cinemas brasileiros após ser ovacionado em algumas exibições internacionais, como na 65ª edição do Festival de Berlim. A trama segue o adolescente Martin, em uma viagem ao litoral do Rio Grande do Sul para resolver uma situação familiar, acompanhado de seu melhor amigo, Tomaz. Imersos em um universo particular, o confinamento será essencial para reaproximar os dois e permitir que eles descubram um pouco mais de si mesmos.

Na verdade, Beira-Mar é um singelo porém eficiente retrato de nossa juventude contemporânea: suas dúvidas, prazeres, descobertas, escolhas. Ou seja, não há nada ali que já não tenha sido explorado em outras produções do gênero, inclusive nacionais – aliás, à primeira vista, pode parecer que Beira-Mar é um típico filme a tratar um romance adolescente gay (até porque a sinopse pode enganar um pouco). O que faz com que Beira-Mar se sobressaia é sua narrativa intimista, equilibrada (por vezes um tanto lenta), praticamente sem nenhum grande clímax. Isso distancia Beira-Mar de um mero filme adolescente, tornando-o uma experiência cinematográfica interessante e necessária – apesar também de afastar o público mais jovem que, fatalmente, pode se cansar com o tom introspectivo da obra (especialmente aqueles que esperam apenas uma sucessão de episódios homoeróticos ou sexuais sem fundamento – o que, felizmente, não acontece aqui).

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Os planos, em geral, são mais abertos, valorizando a fotografia predominantemente em cores frias e proporcionando um estado contemplativo à obra; por sua vez, os planos mais fechados são essenciais para ressaltar o intimismo daqueles personagens. O ritmo que segue também contribui para este estado de “contemplação”, uma vez que os diálogos são abertos – quando não, é o silêncio que comunica com bastante sutileza (e é responsável pelas melhores sequências da fita). Esse ritmo (ou a falta dele) é importante para transmitir toda a inquietação dos dois amigos, como se algo estivesse pra acontecer a qualquer momento entre eles, em uma visível tensão homoerótica que é logo estendida ao público. A escolha dos atores não poderia ter sido melhor: Mateus Almada e Maurício José Barcellos estão ótimos em seus papéis, passando segurança e intimidade em suas performances. Enquanto o primeiro carrega pungemente no olhar as incertezas em relação a tudo que está à volta de seu personagem, o segundo é de uma delicadeza ímpar, sem cair no estereótipo. Talvez é justamente ele quem passe por maiores nuanças ao longo da projeção e o crescimento de seu tipo é visível e muito bem vindo.

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No entanto, Beira-Mar não é isento de falhas e encontramos a maior delas no roteiro. Para além do didatismo de algumas cenas (por exemplo, ao explicitar que os garotos estão isolados em uma casa à beira-mar – pra quê?), o roteiro peca em alguns momentos que pouco acrescentam à história ou mesmo na trama paralela que envolve Martin e sua família, onde tudo soa um tanto confuso e sem explicação. Mas o que realmente diminuiu Beira-Mar, a meu ver, é seu desfecho. Eu diria que o filme possui três sequências finais bem definidas – a última, inclusive, que mostra Martin se banhando no mar, é riquíssima e puramente metafórica, assim como quando ocorre o pequeno grande clímax da película: o beijo entre os amigos. Mas entre essas duas, há um trecho que, sinceramente, é desnecessário e enriqueceria muito mais o filme se fosse extinto, pois permitiria que o público criasse hipóteses devido ao grau de subjetivismo que proporcionaria (apesar de a cena ser visualmente impecável e bem executada). A dupla de jovens cineastas optou por encerrar a narrativa com uma solução, no mínimo, fácil – e, não, isso não é moralismo de minha parte, mas uma opinião baseada nas emoções que o filme me despertou. Assim, Beira-Mar perde muito da magnitude que poderia alcançar, tornando-se uma obra de valor inestimável, porém incapaz de ser memorável.

Ruth & Alex (5 Flights Up)

Todo artista reclama que, com a idade, as chances de conquistar bons papéis na TV, teatro ou cinema são cada vez mais escassas. No entanto, parece que os romances estrelados pelo pessoal da terceira idade vem ganhando maior espaço nos últimos anos – e Ruth & Alex é mais um destes exemplares que estreia nas salas nacionais esta semana.

Ruth & Alex acompanha o casal homônimo interpretado por Diane Keaton e Morgan Freeman. Os dois estão juntos há mais de quarenta anos e planejam vender o apartamento no Brooklin onde moraram durante toda sua vida. Com o auxílio de uma corretora imobiliária (e sobrinha de Ruth), eles organizam um dia de visitação para os possíveis compradores – e durante esse período, eles terão de conviver com a doença de seu animal de estimação, os lances e disputas dos interessados pelo imóvel e um possível ataque terrorista àquela região.

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Com uma trama leve e sem muitas aspirações, Ruth & Alex ganha pontos com a química entre os veteranos Freeman e Keaton. Não que os seus personagens ajudem muito – a bem da verdade, eles chegam até a ser mais do mesmo: enquanto Diane está fazendo o mesmo tipo que a acompanha durante boa parte de sua carreira, Morgan é um daqueles artistas desiludidos, que custa a acreditar que alguém possa se interessar por sua arte. O que acontece aqui é que a história não cativa. Apesar de algumas tramas paralelas, a narrativa não foge muito daquele núcleo “casal quer vender casa” e tudo gira em torno disso, em um excesso de situações que não provocam humor e nem emocionam o suficiente. Me incomodou profundamente os altos e baixos que acompanham a venda do imóvel do casal – e é justamente nisso que o filme se baseia e só. Apesar de até recorrer a alguns flashbacks para mostrar os acontecimentos da vida do casal (o primeiro encontro, o preconceito da família da noiva, a descoberta de que ela não poderia engravidar, etc.), eles são carregados ainda por uma narração off excessivamente didática do personagem masculino, que prejudica a forma como o longa é desenvolvido.

Ruth & Alex fala sim dos desafios do amor e da vida na terceira idade, mas não consegue aproveitar todo o potencial de seu elenco, que apesar de carismático não é capaz de sustentar roteiro desestimulante. Faltou sair um pouco do ambiente do apartamento, criando algum clímax que justificasse o filme em si. Equilibrado, Ruth & Alex não deixa de ter uma proposta interessante e até merece ser conferido, mas não se pode esperar muito dele. É como quando chegamos a uma determinada idade e, ao invés de encararmos novos desafios e vivermos, passamos apenas a aceitar os fatos passivamente. Ruth & Alex é um pouco assim: limitou sua proposta à rotina pacata de seus protagonistas e por isso faltou mais o que contar…

Espírito de Lobo (Wolf Totem)

A trama de Espírito de Lobo nos transporta para a Mongólia do final da década de 60, em plena revolução cultural maoísta, quando um jovem estudante é enviado para ensinar mandarim aos pastores mongóis residentes nas montanhas mais afastadas do país. Lá, ele irá presenciar o confronto entre os moradores e os lobos – que dizimam todo o rebanho de animais daquela população. Fascinado pelos seres selvagens, o professor decide criar um filhote de lobo na esperança de domesticá-lo.

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Espírito de Lobo possui uma fotografia competente, que abusa de planos abertos para capturar as belas paisagens locais. A edição também contribui bastante para as cenas de ação, nos causando até mesmo certa aflição em algumas sequências. A trilha sonora é pontual e essencial para a ambientação da trama, ainda que não possua nenhum momento grandioso. O roteiro, no entanto, se arrasta em alguns instantes ao longo de suas duas horas e peca, talvez, ao não desenvolver totalmente a relação entre lobos e humanos – a bem da verdade, o que parece é que a narrativa se concentra na vida selvagem das alcateias, tornando o homem quase um antagonista. Curiosamente, os melhores momentos de Espírito de Lobo são justamente suas cenas de ataque quase coreografadas.

Sucesso em seu país, Espírito de Lobo foi o pré-indicado da China à categoria de melhor filme em língua estrangeira na próxima edição do Oscar, mas foi substituído recentemente por outra produção. O motivo? Espírito de Lobo não tinha um número de “chineses” suficiente, a começar pelo diretor – o francês Jean-Jacques Annaud, cuja filmografia inclui títulos como Sete Anos no Tibet e Círculo de Fogo. Baseado em um best-seller homônimo e autobiográfico, Espírito de Lobo é visualmente impecável e tecnicamente bem executado – pena que faltou algo mais para torna-lo épico.

Xenia (Xenia)

Quando crianças, Danny e Odysseas foram abandonados pelo pai e criados pela mãe viciada. Assim, os dois cresceram com inúmeros traumas, inclusive o de ser estrangeiros em sua própria terra natal – já que a mãe era albanesa e o preconceito contra estes na Grécia é avassalador. Depois de anos separados, os irmãos se reencontram após a morte da mãe e embarcam em uma jornada para a realização de seus sonhos individuais: enquanto o mais novo (um garoto de 15 anos abertamente homossexual e problemático) quer reencontrar o pai e rapidamente resolver suas dificuldades financeiras e de cidadania, o mais velho quer tentar a sorte em um programa de TV e se tornar uma grande estrela da música.

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Xenia é um melodrama grego, com personagens que carregam nas costas inúmeras tragédias e, por isso, pode soar como um punhado de clichês em alguns momentos, com situações claramente inverossímeis quando não fáceis (um hotel abandonado que serve de moradia, um barco à espera dos viajantes, etc. – isso sem contar um coelho gigante, cuja intenção é criar alguma simbologia, mas que não consegue cumprir sua proposta). Danny, o irmão homossexual, é carregado de trejeitos e irritante como protagonista – e isso não é devido à sua condição sexual. Mimado e intrometido, é o tipo que não desperta muita empatia. Ody, por sua vez, é o típico heterossexual “não muito heterossexual”, sonho de consumo gay. No entanto, ambos os personagens perdem muito com as atuações de seus intérpretes: enquanto Nikos Gelia (Ody) mantém uma expressão uniforme em todo o filme, Kostas Nikouli (Danny) exagera nas caras e bocas, quase compensando o que faltou no primeiro.

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Representante da Grécia ao Oscar de melhor produção em língua estrangeira no próximo ano, Xenia é quase uma música da Katy Perry: praticamente um teenage dream, mas em versão gay. Não, isso não é o problema. O erro é o exagero de melodrama que, inevitavelmente, afasta o espectador. O roteiro também não colabora, nos dando a falsa ideia de que irá por um caminho quando acaba indo pelo outro (às vezes, parece um drama; depois um road movie; outra hora, uma aventura). Para completar a “tragédia” grega, a direção é amadora, enquanto a edição e fotografia são banais. Talvez o filme pudesse até ganhar certo atrativo se aprofundasse sua narrativa nas questões atuais de uma sociedade grega marcada pelo preconceito. Apesar de até esboçar uma tentativa nesse aspecto, Xenia não se estende – e, com isso, fica a sensação de que o filme é apenas um passatempo otimista em relação à vida.

1944 (1944)

Na última edição do Oscar, a Estônia esteve muito bem representada pelo irretocável Tangerinas – não à toa, a obra esteve entre as 5 indicadas finais da categoria de melhor filme em língua estrangeira (perdendo para o superestimado longa polonês Ida). Um ano depois, a Estônia tem seu novo representante na categoria: 1944, drama bélico considerado a maior produção já realizada no país (uma nação com um currículo cinematográfico modesto, é verdade, mas que desperta certa atenção ao ser observado de perto).

1944 concentra sua trama na batalha de Narva, ocorrida na Estônia da década de 1940, às vésperas do fim da Segunda Guerra Mundial. O país está dividido: de um lado, a maior parte da população, contrária ao regime de Stálin, apoia o führer alemão; do outro lado, muitos no país decidem lutar pela então União Soviética.

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Dirigido por Elmo Nüganen (que inclusive atuou em Tangerinas), 1944 apresenta um roteiro com histórias intercaladas e sem um protagonista direto – exceto o próprio conflito, o que faz com que muitos eventos isolados possam parecer confusos em alguns momentos. Individualmente, inúmeras cenas são elogiáveis, porém temos a impressão de que elas nem sempre se conversam dentro do conjunto da obra. Um dos méritos, no entanto, é o fato de que a narrativa não perde tempo com aqueles arrastados jogos psicológicos (que se tornaram febre em filmes de guerra norte-americanos); em suma, 1944 é um punhado de cenas de guerra com, aparentemente, um único propósito: mostrar o caos.

Vale destacar, no entanto, a boa edição e fotografia do longa. As cenas de conflito armado são muito reais – arriscaria dizer que, tecnicamente e dentro de suas limitações, 1944 é até superior a muitas grandes produções hollywoodianas (com seus efeitos mirabolantes). Ainda assim, o filme estoniano está longe de ser memorável: infelizmente, 1944 é uma produção bem feita, porém apática.