American Ultra: Armados e Alucinados (American Ultra)

Mike Howell leva uma rotina normal na pacata cidade em que vive. O jovem trabalha como caixa em uma loja de conveniências (apesar de gastar boa parte de seu tempo desenhando atrás do balcão), utiliza drogas e tem um relacionamento com Phoebe – aliás, o sonho do rapaz é pedir a namorada em casamento no Havaí, mas os constantes ataques de pânico toda vez que ameaça deixar sua terra natal o impedem até mesmo de entrar em um avião. Tudo corre razoavelmente bem até o dia em que uma mulher misteriosa aparece em sua vida e Mike passa a ser perseguido sem nenhum motivo aparente.

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Confesso que não entendi até agora o porquê de American Ultra: Armados e Alucionados ser veiculado como uma “comédia” – porque engraçado o filme não é. Dirigido por Nima Nourizadeh (cujo currículo inclui apenas o título Projeto X – Uma Festa Fora de Controle), American Ultra se sairia melhor se vendido como um filme de ação porque, afinal, não há humor na fita. Não que não haja algumas tentativas cômicas aqui e ali. São poucas, na verdade – mas ainda quando estão presentes, elas simplesmente não funcionam. American Ultra se destaca mais em suas sequências de ação: correria, luta, tiro, sangue (algumas cenas até com certa violência gráfica), mas nada muito excepcional porque este “chove-não-molha” não ajuda o roteiro a se definir dentro de um gênero específico.

Então, talvez visto como “ação”, American Ultra possa ser até digerível, mas não muito. As coisas começam a degringolar quando o protagonista descobre que é um agente da CIA altamente treinado. Enquanto suas lembranças vêm à tona, ele se vê inserido cada vez mais em uma operação do governo, que praticamente pôs sua cabeça a prêmio. O problema é que o argumento não convence muito, a narrativa soa confusa, com muitas informações e personagens pouco interessantes – e aí, American Ultra vira uma bagunça (no sentido negativo da palavra). Nem o elenco consegue amenizar: Jesse Eisenberg é um bom ator, mas precisa urgentemente se reciclar. Suas caras e bocas já são manjadas – e isso para um artista em início de carreira não é muito legal, apesar de seu carisma. Já Kristen Stewart, que eu mesmo já elogiei em outras ocasiões, retornou aqui ao seu estado Bella Swan, concedendo uma dramaticidade à sua personagem que me pareceu desnecessária.

No geral, American Ultra está muito longe de ser um filme recomendado. Não diverte, não emociona, não te deixa perdendo o fôlego na poltrona – então, por que assisti-lo? Bem, pode-se até mencionar a boa edição, que consegue criar certa tensão no decorrer da fita ou mesmo a trilha sonora que contribui para a ação. Mas não se deve esperar muito: American Ultra não faz você comprar a proposta do longa porque não sabe qual é. Faltou muita coisa – e principalmente respeito por parte do diretor, que chegou a acreditar que o público se contentaria só com dois rostos bonitos em tela.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)

Há muito que se falar sobre a extensa filmografia de Martin Scorsese, mas o que mais chama a atenção é sua versatilidade. O cineasta já trafegou por vários gêneros, mas faltava-lhe ainda um filme que pudesse ser assistido por seus filhos – como o próprio argumentou. Este foi o ponto de partida para a concepção de A Invenção de Hugo Cabret – uma requintada produção que atende aos anseios do diretor tanto como pai quanto, principalmente, como cinéfilo que é.

Paris, 1930. Após a morte de seu pai relojoeiro, o jovem e inocente Hugo vai viver na Gare Du Nord, a famosa e exuberante estação de trem da capital francesa – e lá, o órfão passa seus dias acertando os relógios do local e sobrevivendo de pequenos furtos. Além do talento com as engrenagens, Hugo também herdou do pai um misterioso autômato, que ele tenta remontar com as peças roubadas da loja de brinquedos da estação. Um dia, pego em flagrante, Hugo é obrigado a trabalhar no local e lá acaba se tornando amigo da enteada de seu chefe. O que as duas crianças não imaginam é que o dono do comércio é o velho cineasta George Méliès – e entre muitas aventuras, os dois vão se aprofundando cada vez mais no passado daquele homem.

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Uma característica que me encanta em Scorsese é seu pleno domínio da linguagem cinematográfica. Isto, é claro, só pode ser fruto das incontáveis horas que o diretor passou estudando cinema – Scorsese é sinônimo de erudição cinematográfica, todos sabem disso (não à toa, ele é fundador da The Film Foundation, organização responsável pela restauração de filmes antigos e raros). Perito na área, Martin consegue explorar com propriedade várias vertentes – e em A Invenção de Hugo Cabret não é muito diferente: ele tem pleno poder sobre o que está em suas mãos, mesmo que esta linguagem para ele seja “nova” (afinal, é a primeira incursão de Martin em um filme infantil e rodado em 3D). Contrariando os que duvidavam de sua capacidade de estar à frente de um projeto juvenil, bastam alguns poucos minutos de sua película para entendermos o quão genial é Scorsese.

“O cinema era nosso lugar especial…”

Visualmente arrebatador, A Invenção de Hugo Cabret faturou os principais prêmios técnicos do Oscar. E não é conversa: o longa é realmente majestoso. Com uma fotografia primorosa, dourada e cheia de luz (recriando bem a Paris da época), alguns movimentos de câmera improváveis surgem a todo instante, revelando cenários de tirar o fôlego, que são valorizados com a ótima montagem. Repare, por exemplo, na profundidade da câmera ao capturar a plataforma da estação parisiense. O 3D aqui é fundamental. É interessante analisar que Scorsese o utiliza de forma coerente, não apenas depara ornamentar sua fita, mas principalmente como instrumento indispensável para sua história, o que a enriquece muito mais.

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Mas, apesar de ser um filme com crianças, A Invenção de Hugo Cabret não é exclusivamente para elas – e é aqui que entendemos sua dimensão. Apaixonado por cinema, Martin Scorsese faz uma bela homenagem aos primórdios desta arte através da figura de Méliès. Quem não o conhece, terá a oportunidade de ser introduzido ao universo deste fantástico artista. Enquanto os irmãos Lumière (os criadores do cinematógrafo, que Méliès tentaria inutilmente adquirir) filmavam banalidades rotineiras, Méliès era um velho conhecido do teatro de variedades – e isto foi essencial para que ele levasse às telas o ilusionismo. Por esta razão, até hoje George Mélièr é considerado o pai dos efeitos especiais. Infelizmente, sua produção de mais de 500 obras se perdeu com o tempo e pouca coisa foi recuperada – mas sua memória ainda vive. Scorsese junta todo este material e cria um filme que engrandece o cinema como arte. Embora existam algumas oscilações no roteiro (que ora foca o garoto, ora foca Méliès – e isso acaba o deixando um tanto desconexo), A Invenção de Hugo Cabret é, de longe, um dos momentos mais inspirados de Martin, repleto de significados e que se revela uma verdadeira ode à sétima arte.

Paz Para Nós em Nossos Sonhos (Peace to us in Our Dreams)

A primeira cena de Paz Para Nós em Nossos Sonhos nos transporta à uma típica igreja lituana, onde um concerto musical acontece sob os olhares atentos de uma elegante platéia. Aos poucos, entretanto, a harmonia do número musical se esvaece enquanto a violinista tem uma crise nervosa, tocando fora do compasso e rindo compulsivamente até chegar às lágrimas.

Silencioso, Paz Para Nós em Nossos Sonhos não é muito esclarecedor. O público desconhece os personagens (sequer seus nomes são revelados) e seus respectivos dramas. No entanto, é interessante notar o quanto a narrativa instiga a curiosidade do espectador (Quem são essas pessoas? Qual a ligação entre elas? O que aconteceu para chegarem a este estado?). Quanto menos sabemos, mais emergimos na história – e por essa razão, o filme de Sharunas Bartas se torna cada vez mais subjetivo, proporcionando inúmeras suposições que nunca são totalmente elucidadas.

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O que contribui muito para tornar o filme ainda mais agradável é o primor técnico com o qual foi concebido. Logo de início, fiquei fascinado com a exuberante fotografia do longa e a forma como o diretor se utiliza dela. Enquanto os planos detalhes capturam com certa agonia os rostos e silhuetas dos personagens, os planos abertos esboçam com propriedade a estonteante paisagem local, com um eficiente trabalho de som que consegue completar todo o vazio da narrativa – que, aliás, merece um destaque devido ao seu minimalismo. Paz Para Nós em Nossos Sonhos pode até ser dividido em duas partes. Na primeira dela, mais lenta, o silêncio predomina e o som e edição da fita são imprescindíveis para a história. Você praticamente ouve o vento batendo nas folhas das árvores ou sente a chuva cair sobre o seu rosto. Já na segunda metade, os diálogos são ligeiramente mais extensos, especialmente na construção de um dos tipos masculinos, que parece ser uma espécie de “oráculo” das figuras femininas à sua volta – a musicista, uma adolescente, uma visita inesperada. Ele ouve com certo pesar todas as lamúrias dessas mulheres e embora a conversa não provoque um resultado prático, parece que só isso é necessário – como se apenas o fato de nos “abrirmos” com alguém pudesse nos acalmar.

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Então, Paz Para Nós em Nossos Sonhos cresce ainda mais. O ser humano não consegue encarar muito bem algumas verdades inevitáveis. Nossa vida é construída pelo que já passamos e o que ainda vamos passar – e é preciso enfrentar isso com certa lucidez, dar nossas caras à tapa, assumir nosso passado. Pautado pela sutileza, se Paz Para Nós em Nossos Sonhos é minimalista em sua essência, o filme é grandioso nas reflexões que concede ao espectador. Esteticamente belo, Paz Para Nós em Nossos Dias é uma das experiências mais incríveis que o cinema produziu nos últimos anos, se revelando assim uma verdadeira obra-prima.

Love (Love)

Em uma cena de Love, o estudante de cinema Murphy disserta sobre suas ambições na carreira: fã de Stanley Kubrick (ao ponto de ficar abismado ao descobrir que sua paquera nunca assistiu 2001 – Uma Odisséia no Espaço), ele argumenta que o cinema “tradicional” é estranhamente dividido em dois gêneros. De um lado, os “romances” convencionais, filmes de amor sem sexo; do outro, o pornô, filmes de sexo sem amor. Sua maior aspiração como cineasta é, portanto, criar um filme de “amor e sexo” – uma clara mensagem do que é o novo trabalho de Gaspar Noé.

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Sim, porque Love é justamente isso: uma obra que se vendeu com a “promessa” das sequências de sexo explícito em 3D, mas que, em seu contexto geral, não é simplesmente isso. E o título não engana: amor. O amor que Murphy só reconhece quando recebe uma ligação da mãe de sua ex-namorada, Electra, dizendo que está sem notícias da filha há meses. Desconfiado que a garota possa ter cometido suicídio, Murphy resgata seu passado com Electra – e entre as lembranças carregadas de remorsos, devaneios e frustrações, vamos conhecendo de forma não-linear a vida (sobretudo sexual) do casal.

Apesar de o sexo poder ser encarado na história quase como um novo personagem – ora traduz a idealização do amor ou sua concretização, ora visto de forma animalesca, apenas pelo prazer do ato – , ele não é a “causa” de tudo o que se acompanha na tela. O relacionamento dos protagonistas vai ladeira abaixo por conta dos ciúmes da mulher e das atitudes descontroladas do homem. Em suma, Love é muito mais um filme sobre “discutir a relação” do que “sexo por sexo”, revelando um tom ligeiramente conservador, moralista.

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Há ainda um problema: a extensa duração da fita. Narrado quase completamente em flashbacks, Gaspar Noé parece querer tornar sua obra maior do que é. Resultado: é difícil segurar o espectador na poltrona ao longo de mais de duas horas de projeção – ainda mais quando o elenco, cá entre nós, não colabora. O que vale a pena, então? A boa experiência em 3D que, sob certo aspecto, denota bem o isolamento de Murphy ou a eficiente trilha sonora, especialmente nas sequências de sexo.  No geral, faltou um pouco da ousadia prometida – afinal, se o sexo em si ainda é um tabu, não vamos tratá-lo como tal, certo? Love é até razoável – mas é o tipo de filme cuja propaganda é mais interessante do que o produto em si.

Walter (Walter)

Aos dez anos, Walter Gary Benjamin perdeu o pai em decorrência de um câncer – mas o garoto não conseguiu lidar muito bem com essa perda. Desde então, ele é criado pela mãe super protetora em uma pacata cidadezinha norte-americana, onde ele executa uma missão que acredita ter recebido de Deus: determinar o destino das pessoas após a morte, enviando-as para o céu ou o inferno. Para facilitar as coisas, ele é o bilheteiro de um cinema local, onde centenas de indivíduos passam diariamente – e onde ele se apaixona por uma colega de trabalho.

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Walter é um daqueles filmes que pertencem à safra de produções “fofas”, cult – que a galera indie adora. De fato, o debut da cineasta Anna Mastro é leve e agradável de se assistir – em parte, isto é causado pela ótima fotografia da obra, repleta de luz e cores, favorecendo sua ambientação. O argumento, por sua vez, é devidamente desenvolvido ao longo da fita, delineando bem suas personagens – o que permite ao elenco nos entregar boas atuações. Andrew J. West (da série The Walking Dead) mostra competência como protagonista, concedendo bastante doçura e sensibilidade a Walter – aliás, Andrew é um rosto a ser observado mais de perto a partir de agora. O veterano William H. Macy também apresenta uma boa performance como o psiquiatra de Walter (aquele tipo que é mais estranho do que o próprio paciente), enquanto Virginia Madsen segura as pontas na pele da mãe do personagem título.

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Se há os que encarem Walter apenas como um filme “bonitinho”, é fato que o longa vai um pouco mais além: ele trata com delicadeza o drama daqueles que não conseguem superar o luto. Viver o luto é um mal necessário, mas não deixa de ser um grande desafio para algumas pessoas. Os conflitos da trama surgem no momento em que Walter passa a ser perseguido por Greg, um espírito que ainda perambula pela Terra por não ter sido enviado ao seu destino final – e isso fará com que Walter questione sua vida e seu futuro. Ligeiramente cômico e com alguns momentos de pura emoção, Walter não é memorável – e, a bem da verdade, está longe de ter a magnitude de outras produções do gênero. Mas isso não o diminui: para o trabalho de uma estreante, Walter tem seus méritos, tanto técnicos quanto como entretenimento – e isto o torna um filme que você deve conferir.

O Rei da Comédia (The King of Comedy)

Menosprezado pela crítica e esquecido pelo público, O Rei da Comédia abriu o Festival de Cannes em 1983, mas logo foi ofuscado pelos demais clássicos de Martin Scorsese. De fato, lançado logo após Touro Indomável (pelo qual Robert De Niro faturou o segundo Oscar de sua carreira), esta tragicomédia hoje pode ser encarada como um curioso e cruel retrato do mundo das celebridades e a corrida pela fama – o que leva o espectador a se questionar a razão do filme não ser tão celebrado quanto outras obras de seu idealizador.

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De forma enérgica e inspirada, De Niro encarna o papel de Rupert Pupkin, um aspirante a comediante que deseja ingressar no show business, mesmo não possuindo o talento que acredita. Entre seus devaneios e os gritos da mãe no porão de casa, seu maior sonho é ser o novo “rei da comédia”. Determinado a isso, ele tenta se aproximar de Jerry Langford (Jerry Lewis), um famoso artista do horário nobre, para conseguir lhe apresentar seu número. Aos poucos, Rupert se torna mais obsessivo, ao ponto de sequestrar seu ídolo, exigindo uma aparição em seu programa.

Talvez dois fatos tenham contribuído para que O Rei da Comédia não tenha sido um sucesso instantâneo. O primeiro é que o longa foi rodado logo após o presidente norte-americano Ronald Reagan levar um tiro de um jovem que teria assumido ser fã de Taxi Driver, realizado pouco tempo antes. Em segundo lugar, é verdade que o título engana: O Rei da Comédia não é filme totalmente cômico. Ou sejamos honestos: nas mãos de outros cineastas, talvez até fosse uma produção que buscasse o riso fácil, mas não é o que acontece aqui. Apesar de ter um humor ácido, sim, e gerar algumas risadas no decorrer da fita, O Rei da Comédia não é engraçado. Scorsese se utiliza da comicidade para gerar uma reflexão sobre a rejeição – e isso dá a O Rei da Comédia um tom melancólico, perturbador, sinistro.

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Com uma belíssima fotografia (que recria de maneira competente a Nova York da época, com seus talk-shows e luzes que atraem qualquer indivíduo) e uma trilha sonora pra lá de eficiente, Scorsese dá outros rumos ao roteiro bem escrito de Paul D. Zimmerman, tornando O Rei da Comédia um filme repleto de detalhes que o engrandecem à medida que você presta mais atenção na narrativa. Apesar de não ter a comédia que o título sugere e também não possuir a violência das produções anteriores do diretor (que sequer recorre a técnicas extravagantes aqui), O Rei da Comédia é uma implacável sátira ao culto às celebridades e a busca pelo sucesso, que tornam o ser humano refém de suas próprias bizarrices.

Longe Deste Insensato Mundo (Far From The Madding Crowd)

Qualquer garota gostaria de ser desejada por três belos rapazes – principalmente quando os pretendentes são Matthias Schoenaerts (Ferrugem e Osso, Um Pouco de Caos), Michael Sheen (Alice no País das Maravilhas, saga Crepúsculo) e Tom Sturridge (Na Estrada). A sortuda da vez é Carey Mulligan, cuja personagem no drama Longe Deste Insensato Mundo é disputada por um pastor de ovelhas, um próspero fazendeiro e um capitão do exército. Adaptação do romance Far From The Madding Crowd, escrito em 1874 por Thomas Hardy, a trama de Longe Deste Insensato Mundo acompanha a heroína Bathsheba Everdene, uma jovem camponesa de espírito independente e livre que sonha em ascender na vida. Após receber uma herança, Bathsheba passa a se dedicar ainda mais à agricultura, causando muita influência em sua região e despertando a paixão de três homens com personalidades bastante distintas – o que fará com que Everdene questione suas emoções e sentimentos.

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Dirigido por Thomas Vinterberg (do ótimo A Caça), Longe Deste Insensato Mundo é um longa tecnicamente impecável. Dentre estes aspectos, ganha destaque especial a excelente fotografia, que valoriza os exuberantes cenários externos. A natureza é capturada com bastante sensibilidade – e o tom épico é ainda mais acentuado pela boa trilha romântica, orquestrada de forma competente por Craig Armstrong. É interessante analisar que tanto a fotografia quanto a música são essenciais para reforçar a atmosfera bucólica da fita, a simplicidade da vida no campo e o passar do tempo.

Infelizmente, Longe Deste Insensato Mundo padece de algo que pode atrapalhar sua experiência: seu apelo novelesco, estendido pela duração exagerada do filme. Com quase duas horas, Longe Deste Insensato Mundo é cheio de reviravoltas, idas e vindas, altos e baixos – mas, no fim das contas, os personagens não chegam a lugar nenhum. Apesar de algumas surpresas na narrativa, o espectador não consegue comprar muito bem a história nem mesmo sua protagonista – uma mulher que não sabe exatamente o que quer e, por esta razão, causa certa repulsa no público, ainda que Mulligan tenha um bom desempenho. Longe Deste Insensato Mundo é um épico muito bem feito, mas cuja condução talvez deixe a desejar em alguns instantes – nada que o torne indigesto, mas tampouco excepcional.

Que Horas Ela Volta? (Que Horas Ela Volta?)

Que Horas Ela Volta?, filme nacional dirigido por Anna Muylaert, foi ovacionado nos festivais internacionais em que participou. Apontado como o grande favorito brasileiro para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro no próximo ano, o longa tupiniquim se utiliza da relação empregado-patrão para construir uma crônica sobre os abismos existentes entre as classes sociais do país.

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Regina Casé constrói uma protagonista próxima à realidade de muitas famílias brasileiras. Ela é Val, uma nordestina que abandona sua cidade natal e parte rumo a São Paulo, deixando para trás a filha pequena e indo trabalhar como empregada em  uma mansão de classe média alta. Mais do que isso: ela se torna quase um novo membro da família, especialmente por conta do relacionamento que desenvolve com Fabinho, o filho único do casal, por quem Val tem um carinho imensurável (e é recíproco). A doméstica é praticamente a segunda mãe do rapaz – aconselhando-o, ouvindo suas queixas ou simplesmente lhe fazendo um cafuné. Ainda assim, Val sabe exatamente qual é o seu lugar na casa: há uma hierarquia e para garantir o bom convívio cada um respeita seu espaço.

Os conflitos surgem com a chegada de Jéssica, a filha que Val não vê há mais de uma década. De início, tudo vai às mil maravilhas (apesar das caras e bocas da patroa), mas aos poucos a situação criada no ambiente se torna insustentável: a garota, que veio à capital paulista para prestar vestibular, não consegue entender a submissão da mãe e o porquê ela deve seguir os mesmos passos (uma vez que ela não trabalha no local); a mãe, por sua vez, não admite ver Jéssica invadindo a intimidade dos patrões, como se fosse uma hóspede qualquer. Assim, quanto mais a harmonia se esvaeça mais o desconforto é causado.

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Embora o roteiro seja deveras interessante (mesmo que trivial), é na dinâmica entre Casé e a novata Camila Márdila (como Jéssica) que a fita ganha seus devidos méritos. Enquanto Márdila mostra potencial atuando como uma adolescente que não se conforma com sua condição, a veterana esbanja naturalidade em sua interpretação. Apesar de todos os pesares (a distância dos parentes, a condição financeira inferior, a saudade de sua terra), Val transmite esperança em seu olhar, o que contrasta com todo o restante da casa. Ressaltada por uma fotografia sem cores muito fortes, aquele lar é frio, impessoal, pouco convidativo – uma metáfora para como seus habitantes interagem. Ainda que estejam sob o mesmo teto, eles são distantes e vivem em completo isolamento. Em determinada cena, todos estão sentados à mesa com seus respectivos smartphones, conectados ao mundo mas incapazes de esboçar qualquer comunicação entre si.

Que Horas Ela Volta? apresenta uma crítica social bastante contundente, que nos leva a questionar não apenas as desigualdades entre classes, mas também nossos valores e papéis como “família”. Além disso, como excelente produto cinematográfico que é, Que Horas Ela Volta? tem a capacidade de fomentar um profundo momento de mudança do nosso cinema. Com uma dramaturgia envolvente e aspectos técnicos competentes, o longa é um alívio para o cenário cinematográfico nacional, provando que o país pode fazer obras de muita qualidade. Oscar? Se vier, será bem vindo. Se não, Que Horas Ela Volta? por si já é um feito memorável – e nos faz até mesmo perdoar a Regina por todos os domingos de Esquenta!

Você Acredita? (Do You Believe?)

Há pouco mais de um ano, eu escrevia uma das críticas mais acessadas do site para o filme Deus Não Está Morto – uma produção de caráter religioso que, como sugeri, não passava de uma proposta tendenciosa de propagação da fé cristã. Muitos na época me questionaram se, afinal de contas, eu acreditava ou não em Deus – e, sim, acredito. Mas quando estou escrevendo, procuro deixar minhas convicções pessoais de lado e ser o mais imparcial possível. Por isso, confesso que fiquei surpreso quando vi que Você Acredita? estava sendo exibido em salas de cinema mais “comerciais” no país.

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A trama desta nova produção segue um pastor que, após se comover com a pregação de um morador de rua a respeito da cruz, decide colocar sua fé em ação para ajudar as demais pessoas. Figura central na história, a partir dele outras personagens se encontram no decorrer da narrativa – e elas são convidadas a ter um contato mais intimo com o poder divino. Em outras palavras, estamos diante de uma sinopse que nos lembra vagamente uma novela da Record ou algum programa da madrugada da emissora do bispo Macedo.

Há duas coisas que realmente me incomodam neste gênero. A primeira delas são os estereótipos que somos obrigados a engolir. Repare: há uma constante vitimização dos tipos mais “religiosos”, enquanto aqueles que não propagam a mesma fé são comumente “vilanizados”. O segundo ponto que me irrita é o excesso de dramalhão a qual estes roteiros costumam recorrer. Em Você Acredita?, essas duas características são potencializadas pelo tom catequético da obra – onde todas as ações são determinadas pela fé cristã. Se você é um “escolhido”, você terá direito à vida. Do contrário, você está condenado – e isso é certo e indiscutível. Não há espaço para um debate saudável ou uma discussão inteligente, o que reduz o filme simplesmente a um discurso religioso inflamado de julgamentos.

02Voltado abertamente ao público cristão, Você Acredita? não conseguiu ser salvo nem mesmo pelas atuações competentes do elenco (tem até Mira Sorvino!) ,que se reveza em uma infinidade de núcleos paralelos – o que prejudica bastante o andamento do filme e o trabalho de montagem (atropelado, como se o editor estivesse correndo contra o tempo). Com uma trilha sonora que acentua a carga melodramática, Você Acredita? poderia até render um bom resultado e é até evidentemente melhor do que Deus Não Está Morto (o que já é um ótimo sinal para o gênero), mas limita seu potencial apenas a um método de evangelismo que, no cinema, nem sempre é bem vindo. Você Acredita? pode até fazer você se render ao poder da cruz, mas como produto cinematográfico deixa lá as suas dúvidas…

Shaun: O Carneiro – O Filme (Shaun the Sheep)

Shaun: O Carneiro – O Filme é um longa de animação britânico em stop-motion, baseado na série homônima produzida pela Aardman Animations (de A Fuga das Galinhas e Wallace e Gromit) e criada por Nick Park. Com um tom de comédia pastelão, o filme narra as aventuras do personagem título, um carneiro que vive em uma fazenda com seu dono (simplesmente o Fazendeiro) e Bitzer, um cachorro que participa das tarefas cotidianas. Cansado da rotina do local, tudo o que Shaun mais deseja é um dia de descanso. Com a ajuda de seus companheiros, Shaun distrai Bitzer e adormece o Fazendeiro, mas algo não sai como o planejado: devido a um acidente, o Fazendeiro vai parar na cidade grande e, para complicar, acaba perdendo a memória. Sem muitas opções, Shaun, Bitzer e os outros animais juntam forças para enfrentar o caos urbano e salvar seu dono.

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O que chama a atenção em Shaun: O Carneiro é sua objetividade. O filme é direto, sem enrolação ou aquele senso de repetição comum em produções voltadas para o público infantil (a fita dura menos de uma hora e meia). A animação também é muito eficiente – e eu fico me perguntando a todo instante porque o stop-motion é uma técnica quase em desuso na atualidade, já que o resultado final costuma ser satisfatório. O roteiro, por sua vez, é redondo, com suas doses de humor infantil, ação e drama, o que traz um equilíbrio bastante agradável. Por não apresentar falas “concretas”, é incrível como sua linguagem funciona de forma genial: os personagens só se comunicam através de ruídos ininteligíveis ou murmurinhos – o que acentua a ótima trilha sonora e mostra aquilo em que o filme mais se destaca: suas referências cinematográficas.

Shaun: O Carneiro é sutil em sua homenagem à arte do cinema, desde as “bobagens” cômicas da década de 1920 até o cinema mudo de Buster Keaton ou Charles Chaplin. Até mesmo O Silêncio dos Inocentes é referenciado em uma das sequências em que os animais estão na prisão – e é hilária! Exatamente por isso e por ser tão bem executado em sua proposta, Shaun: O Carneiro é um filme que não decepciona – e apesar de utilizar muito da estrutura original da série, pode ser visto como um versão estendida dela ou um simples produto avulso (e isso não o diminui em nenhum sentido). Delicioso de se acompanhar, Shaun: O Carneiro vai agradar tanto as crianças mais novas como os pais – principalmente aqueles apaixonados por cinema. A diversão está garantida!