“Death of a Bachelor”: P!ATD se Reinventa em Novo Álbum

Há mais de uma década, o Panic! At The Disco surgia e, dentre os vários artistas de sua época (que dominaram o que podemos chamar de “onda emo” dos anos 2000) a banda liderada por Brendon Urie facilmente se destacava. Seja por suas apresentações pomposas, pela versatilidade das canções e discos ou simplesmente pela irreverência de seu frontman, é fato que o P!ATD foi uma das poucas e gratas surpresas daquele período que ainda continua sendo relevante no cenário fonográfico atual, ao ponto de lançar um álbum que há tempos esperávamos: o elogiado Death of a Bachelor.

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A impressão que temos ao ouvir aos trabalhos do Panic em sua ordem cronológica é a de que os rapazes estão sempre “à procura da batida perfeita”. Único integrante remanescente da formação original, Brendon hoje parece se sentir à vontade para criar aquele que é, provavelmente, o disco mais redondo da banda desde seu debut. Não que aquilo que veio após o inigualável A Fever You Can’t Sweat Out não tenha qualidade ou sua devida importância na carreira dos caras. Muito pelo contrário: todos foram necessários para criar a identidade do grupo que, sem sombra de dúvidas, é um caleidoscópio de referências e citações – e exatamente por isso tão preciosa. Mas Death of a Bachelor, ainda que (bem) diferente do primeiro registro do Panic, chega como título definitivo na imprevisível trajetória dos roqueiros.

De forma energética, o álbum se inicia com a poderosa Victorious, onde a batida eletrônica é marcante e ousada – sem mencionar o refrão “Tonight we are victorious / Champagne pouring over us / All my friends were glorious / Tonight we are victorious”, grudento ao ponto de fazer você querer ouvi-la inúmeras vezes sem cansar. Cheia de camadas, Victorious é uma combinação perfeita de guitarras, sintetizadores, agudos – tudo junto e misturado mas em ótima harmonia. Don’t Threaten Me With a Good Time chega com sua melodia hip-hop e um tanto retro e uma base de guitarra bastante propícia. Velha conhecida dos fãs, a balada quase-gospel Hallelujah estranha um bocado à primeira audição, mas vai ganhando seu devido espaço no todo. Emperor’s New Clothes é dançante, mas peca talvez no excesso de informação – e assim como a faixa anterior, precisa ser ouvida mais algumas vezes até você se acostumar.

Título deste registro, Death of a Bachelor vai ser, para muitos, o momento mais incrível até aqui – e realmente o é. Trafegando os limites do pop e R&B e com excelentes arranjos de metais (que dão um charme muito peculiar e ela), é de longe a interpretação mais consciente de Brendon até então: seu vocal é potente e seus falsetes são inteligentes e inseridos oportunamente. E se você ama A Fever You Can’t Sweat Out, impossível não balançar ao som da deliciosa Crazy = Genius, praticamente um musical da Broadway. Grande balada do disco, LA Devotee cresce bastante com seu aumento de tom na parte final (após um intermezzo muito bem vindo). Em Golden Days, é a guitarra base que fala mais alto, além da boa performance de Urie. The Good, The Bad and The Dirty não chega a empolgar demais, apesar de bem executada. House of Memories possui uma boa melodia, mas por algum motivo não carrega o mesmo brilho das demais – embora haja uma quebra de ritmo interessante. Encerrando o álbum com grandiosidade, é em Impossible Year que enxergamos até as influências de – pasmem – Frank Sinatra na formação musical da banda. É aqui também que temos um dos melhores desempenhos de Brendon em anos, através de uma composição que aposta na sutileza da combinação piano e voz – vale lembrar que, em alguns casos, menos é mais e isso fica evidente nesta faixa irrepreensível.

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A verdade é que o P!ATD nunca teve medo de inovar e explorar a si mesmo, tentando ao máximo inventar e reinventar idéias. Com arranjos inesperados (mas não totalmente surpreendentes), Death of a Bachelor deu a Brendon seu primeiro número 1 na parada norte-americana da Billboard 200, além de inúmeras e amistosas críticas. Para os fãs, um disco que exibe toda a monstruosidade que é o vocal de Brendon e sua criatividade ao compor música pop que, ainda que previsível e com certa estrutura já montada (introdução tímida e explosão no refrão), consegue funcionar pela sua diversificação. É como se, finalmente após tanto tempo, a banda – ou melhor, seu vocalista – soubesse o que quer fazer e como fazer. E isso, meu amigo, não tem Billboard que pague…

Cinco Graças (Mustang)

O ponto de vista de Cinco Graças se dá a partir de Lale, a caçula de cinco irmãs órfãs, que moram com a avó e tio em um pacato vilarejo turco, afastado da capital Istambul. Em uma manhã, ao sair da escola para comemorar o início das férias com os garotos da região, as meninas acabam provocando um pequeno “escândalo” naquela comunidade. A família decide, então, mantê-las sob rédea curta, impondo sobre elas os costumes mais conservadores de sua religião e preparando-as para o casamento, ainda que precocemente.

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Talvez Cinco Graças possa não parecer tão significativo para nós, da cultura ocidental – mas em países com regimes religiosos mais conservadores, a proposta se abrange de maneira contundente (apesar que, a meu ver, o Brasil parece ter regredido cinco décadas nos últimos anos). Cinco Graças é um filme que traz à luz um debate profundo sobre a opressão sofrida pelas mulheres – não apenas na Turquia, mas em muitos lugares do mundo. Infelizmente, para alguns, ser mulher se reduz apenas a “ser esposa”, “ser dona de casa” – e nada mais. Para além disso, Cinco Graças também promove uma reflexão aguda acerca da influência de crenças religiosas em nossa sociedade. Embora algumas tradições ligadas à religião estejam cada vez mais presentes no nosso cotidiano, é interessante notar que nossa geração está inserida em um novo “modelo” de mundo. Dizer “não” simplesmente não basta; é preciso ter argumentos para que não haja contestação – e as cinco protagonistas dessa história são retratadas aqui exatamente com este perfil questionador, contestador (o que acaba por gerar os grandes conflitos da trama).

Mas talvez a maior reflexão de Cinco Graças se dê ao mostrar o quanto a transição da infância para a fase adolescente pode ser difícil, cruel, dolorosa. Crescer não é fácil – e é aqui que Cinco Graças nos oferece um pouco dos excessos da rebeldia juvenil, apostando no talento de seu jovem elenco, que entrega atuações naturais e consistentes. Deixando de lado o happy ending, Cinco Graças é um filme que fala sobre liberdade de forma bastante sensível, o que nos permite discutir, refletir e, quem sabe, até mesmo mudar um pouco nossos conceitos a respeito da situação de nossas mulheres no cenário contemporâneo.

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)

O cineasta londrino Tom Hooper não é uma unanimidade. Para alguns um gênio, para outros superestimado, é fato, entretanto, que Hooper demonstra total domínio de sua obra no gênero que, definitivamente, é a sua praia: o cinema de época. Não à toa, O Discurso do Rei, de 2010, recebeu 12 indicações ao Oscar, vencendo em quatro delas (incluindo melhor filme e diretor); Os Miseráveis, adaptação do romance francês escrito por Victor Hugo, foi lançado dois anos depois e concorreu em oito categorias, faturando três prêmios. Em suma, Hooper sabe fazer bem aquilo que se propõe a fazer. A Garota Dinamarquesa, seu novo longa-metragem, provavelmente não será muito diferente de seus anteriores: um filme caprichado com ótimas chances de despontar nas premiações da temporada.

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Inspirado no livro de David Ebershoff, A Garota Dinamarquesa se passa na década de 20, na cidade de Copenhagen. O filme é a cinebiografia de Lili Elbe, nascido Einar Mogens Wegener, um artista plástico dinamarquês que teria sido a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. A trama foca o relacionamento do artista com sua esposa Gerda e sua descoberta como mulher.

Fazendo jus aos demais títulos de sua filmografia, Hooper confere bastante sensibilidade à história e, principalmente, um esmero técnico inigualável. Brilhantemente fotografado por Danny Cohen, A Garota Dinamarquesa  é uma aula de cinema – desde a direção de arte impecável (que recria com maestria o período e nos faz mergulhar na narrativa) à trilha poética de Alexandre Desplat. Para além disso, os trabalhos de maquiagem e o figurino de Paco Delgado (parceiro de Hooper em Os Miseráveis) agregam muito à produção.

No entanto, A Garota Dinamarquesa pertence inteiramente à sua dupla de protagonistas. Eddie Redmayne se entrega com propriedade à construção (mais uma vez) de um personagem difícil, que passa por inúmeras oscilações no decorrer da fita. De uma sutileza ímpar, sua atuação é tão genial quanto em A Teoria de Tudo (filme que lhe deu, precocemente talvez, o Oscar de melhor ator em 2015). Em determinado momento, não enxergamos mais Einar, apenas Lili. No entanto, é Alicia Vikander quem mais surpreende: é sua personagem quem enxerga pela primeira vez a feminilidade do esposo e é nela que Einar busca a força para sua transformação. E isso, é claro, não deixa de ser doloroso a Gerda: encorar o marido a ser quem realmente é, enquanto convive com a solidão de perder o homem que ama.

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Humano, A Garota Dinamarquesa é um filme que talvez não consiga emocionar por completo, uma vez que a condição de Lili para com o mundo à sua volta é explorada de forma um tanto superficial. Todavia, em tempos em que a comunidade LGBTQIAP+ luta com intensidade contra o preconceito, é relevante a produção de obras como esta, que trazem à tona questões que devem ser discutidas – e o cinema está aí para fazer este papel social. A Garota Dinamarquesa é cinematograficamente arrebatador e socialmente interessante – perde apenas na ausência de ousadia, que provavelmente geraria um debate maior e mais profundo sobre o tema. Até mesmo porque, infelizmente, os tempos mudam mas muitos pensamentos retrógrados ainda permanecem, né?

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

Uma diligência surge na paisagem invernal de Wyoming e nela vemos John Hurt (Kurt Russell) levando sua fugitiva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para ser enforcada em Red Rock. No caminho, eles se deparam com dois sujeitos: o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um caçador de recompensas, e Chris Mannix (Walton Goggins), um piadista que alega ser o novo xerife da cidade. Surpreendido por uma nevasca, o grupo é forçado a se abrigar em um pequeno armazém no meio da estrada – local este ocupado por outros quatro homens: o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o vaqueiro Joe Gage (Michael Madsen), o general Sanford Smithers (Bruce Dern) e Bob (Demian Bichir), um mexicano que cuida do estabelecimento na ausência dos donos.

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Ambientado alguns anos após o fim da Guerra Civil norte-americana, Os Oito Odiados é, curiosamente, o oitavo filme de Quentin Tarantino (sim, porque Kill Bill é uma única obra) – seu antepenúltimo trabalho, já que Tarantino afirma que sua carreira como cineasta será composta apenas por dez filmes. Assim como seu antecessor, Django Livre, pode também ser encarado como um western – apesar das semelhanças com ele pararem por aí. Na verdade, da filmografia do diretor, o único “comparável” a Os Oito Odiados pode ser Cães de Aluguel – afinal, a premissa é basicamente a mesma: um bando de sujeitos pouco confiáveis que são confinados em um mesmo recinto.

O que, talvez, prejudique Os Oito Odiados quando comparado a Cães de Aluguel é sua duração: enquanto o primeiro trabalho de Tarantino tinha pouco mais de uma hora e meia de projeção, Os Oito Odiados sofre com quase três horas de fita. Conhecido por seus longos e memoráveis diálogos, a verdade é que Tarantino exagerou um bocado em Os 8 Odiados, especialmente na primeira parte da película – e o que era para ser apenas mais uma de suas marcas registradas acabou se tornando pura verborragia. Até entendo que isso foi importante para desenvolver bem cada um dos personagens ali retratados, mas reduzisse certas conversas paralelas à trama principal ou algumas tomadas mais extensas, certamente o resultado seria melhor.

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Se o espectador disperso pode dormir na primeira hora, a segunda parte do filme é bem mais interessante: é onde os conflitos surgem e a narrativa passa a se desenrolar, apesar dos exageros usados por Quentin. É como se o diretor estivesse se esforçando para chocar o público, mas a pergunta que fica no ar é “pra quê?”. Em Os Oito Odiados, não basta ter violência: é preciso aproximar a câmera para vermos nitidamente uma cabeça sendo explodida. Não basta, assim como em Django Livre, abordar uma história de “vingança racial” – o negro é transformado em um tipo quase sádico tamanho ódio pelos brancos. Em suma: os excessos que em seus filmes anteriores criavam um sarcasmo “sadio” acabam parecendo uma falta de equilíbrio do cineasta aqui – algo desnecessário, para alguns.

No mais, restam as boas atuações por parte de todo elenco (sem grandes destaques, com exceção de Tim Roth e Jennifer Jason Leigh), a direção de arte caprichada e a trilha original de Ennio Morricone (que já recebeu 5 indicações ao Oscar nesta categoria), que acrescentam muito ao filme. Ah, claro: imprescindível assisti-lo no cinema. Vá por mim: Os Oito Odiados, em tela grande, é uma experiência imperdível para quem ama cinema, já que Tarantino rodou seu longa em Ultra Panavision 70 – um formato que revolucionou o cinema da década de 50 e, infelizmente, foi abandonado nos anos 60. Só isso valeria todo o ingresso, acredite. É uma pena que, como um todo, Os Oito Odiados não seja tão grandioso quanto esperávamos. Talvez uma edição mais “enxuta” contribuiria para tornar o ritmo mais “equilibrado” e menos “cansativo”. Tarantino perdeu a mão? Creio que não: Os Oito Odiados, ainda com suas deficiências, atesta o talento de Tarantino e responde o porquê de ele ser um dos artistas mais celebrado dos últimos tempos. Este apenas não é, digamos, um de seus momentos mais célebres…

Carol (Carol)

Baseado no romance The Price of Salt, de Patricia Highsmith (publicado originalmente em 1952), Carol se passa nos Estados Unidos da década de 50 e acompanha a trajetória de Carol Aird, uma mulher da alta sociedade nova-iorquina que vive um casamento de aparências com Harge Aird, um rico e influente banqueiro local. A situação entra em colapso quando Carol decide consumar o divórcio, embarcando em um relacionamento com Therese Belivet, uma jovem aspirante a fotógrafa com quem viverá uma intensa história de amor.

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O cineasta Todd Haynes (de Não Estou Lá e da série Mildred Pierce) acerta no estilo sofisticado, o que torna Carol um deleite visual tamanho requinte da produção. Com uma direção de arte primorosa e belas locações, a ambientação de época é impecável – e fica bem acentuada com a os ótimos figurinos (de Sandy Powell, ganhadora de 3 estatuetas do Oscar nesta categoria das 10 indicações que recebeu) e maquiagem. Para além disso, o roteirista estreante Phyllis Nagy faz um excelente trabalho de construção das personagens, cuidadosamente retratados de forma com que o público realmente se solidarize com elas. Obviamente, as atuações das protagonistas Cate Blanchett e Rooney Mara contribuem muito para isso. Apesar das atenções estarem voltadas todas para a primeira, é difícil dizer qual delas está melhor, uma vez que ambas se entregam completamente às suas personagens – Rooney chega, inclusive, a roubar a cena em várias ocasiões tamanha a sutileza com que faz sua Therese. Juntas, então, Blanchett e Mara são fulminantes: a cumplicidade que transmitem através dos olhares furtivos e dos gestos contidos dão ainda maior acalanto ao relacionamento das duas.

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Aplaudido em Cannes, Carol está longe de ser apenas um “romance lésbico com Cate Blanchett” – como muitos o têm reduzido (e, particularmente, acho que este tipo de “associação” vem prejudicando bastante os filmes lançados neste período ‘pré-Oscar’, pois limitam consideravelmente a perspectiva do espectador). Carol é muito maior: é uma elegante produção que escancara os obstáculos vividos pelas mulheres daquela época. E mais do que isso: a trama nos oferece um pequeno panorama da hipocrisia humana, fruto do preconceito de uma época onde o amor entre duas pessoas do mesmo sexo era considerado “ilícito”, “imoral”. Infelizmente, pouca coisa mudou desde então – portanto, Carol vai muito além de uma obra de cinema para trazer à tona uma discussão socialmente necessária.

O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur)

A primeira pergunta que passou pela minha cabeça após assistir a O Bom Dinossauro foi “Esse filme é realmente necessário?” – e esta questão me perturbou durante um tempo. Sim, porque sejamos honestos: após entregar uma de suas melhores animações em todos os tempos (Divertida Mente), a Pixar não precisava – nem nunca precisou, na verdade – provar nada a ninguém. Mais do que isso: é sempre com muita expectativa que aguardamos qualquer projeto do estúdio, afinal sempre somos surpreendidos, certo? Bem…

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O Bom Dinossauro não é ruim, entenda – mas deixou a desejar. E muito. A trama parte de um conceito clássico do cinema: um herói que precisa buscar coragem para conquistar algo. Assim, conhecemos Arlo, o caçula dos três filhos de uma família de dinossauros. Diferente dos irmãos, Arlo é um desastre nos afazeres cotidianos por conta do medo que possui de tudo e de todos, apesar da ajuda e incentivo dos pais. Após uma série de fracassos, Arlo tem a chance de matar a criatura que está roubando a comida que sua família armazenara para o inverno – mas descobre que o ladrão é um menino humano primitivo e, por pena, deixa-o escapar. Mais tarde, tentando consertar a situação, Arlo se afasta de seu lar e reencontra o garotinho, de quem acaba se aproximando.

Embora comece de forma promissora (questionando o espectador sobre como seria a relação entre humanos e dinossauros caso o asteroide que teria dizimado os grandes répteis não tivesse atingido a Terra), O Bom Dinossauro é um filme que não empolga e, principalmente, não surpreende. Pior: a narrativa é uma cópia de várias outras fitas infantis. Para começar, a abordagem sobre amizade nos remete imediatamente a Toy Story, com dois personagens que não se dão muito bem mas, devido às circunstancias, precisam se “suportar” para sobreviver. É possível também nos lembrarmos de Procurando Nemo na jornada que o protagonista faz em busca de seu objetivo – com quebras narrativas para apresentar outros personagens (com a diferença aqui que nenhum deles é engraçado). Ainda conseguimos enxergar certa referência a Mogli na forma como Spot, o pequeno humano, é retratado. Mas nenhuma associação é tão descarada quanto ao clássico Disney O Rei Leão – inclusive com sequências que são praticamente idênticas ao filme de 1994. O grande problema é que em O Bom Dinossauro não se trata de uma homenagem – aqui, estamos falando de um punhado de ideias já vistas que soam batidas, previsíveis e, mais do que tudo, manipuladoras.

Assim, O Bom Dinossauro se torna deveras cansativo ao longo de sua uma hora e meia de projeção – quase uma eternidade – , o que faz com que o público mais adulto não consiga se enternecer. Para as crianças, faltam personagens mais cativantes (além de uma dose de humor que chame a atenção dos pequenos). O Bom Dinossauro é até bem feito tecnicamente (os frames são bem executados, mostrando a excelência tecnológica Pixar, capaz de produzir cenários exuberantes), mas carece de uma história, digamos, mais original. Não é o caso de dizer que estamos diante do pior filme da Pixar, até porque temos Carros 2 e Valente aí para competir. Mas é fato que O Bom Dinossauro não chega a ser um marco no estúdio. Definitivamente, O Bom Dinossauro é legal, porém desnecessário.

O Regresso (The Revenant)

Não faz um ano que vimos o mexicano Alejandro González Iñárritu subir ao palco para receber das mãos de Ben Affleck o Oscar de melhor diretor – e, minutos depois, voltar lá e faturar o prêmio mais disputado da noite (desbancando o favorito da ocasião, Boyhood – Da Infância à Juventude). Ali, Iñarritu atestava seu talento incontestável como cineasta – e, por essas razões, as expectativas quanto ao seu novo filme, O Regresso, são altas. Dos inúmeros boatos envolvendo as extravagâncias de Alejandro às declarações de DiCaprio de que este seria “o trabalho mais difícil de sua carreira”, O Regresso chega como um dos mais fortes concorrentes ao Oscar do próximo ano.

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Baseado na obra homônima de Michael Punke e roteirizado pelo próprio Iñarritu em parceria com Mark L. Smith, O Regresso nos traz a história real do famoso explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que após escapar de um ataque de índios durante uma expedição no inóspito interior norte-americano, é atacado por um urso e abandonado como morto pelos membros de sua equipe. Guiado pelo amor de sua família e um instinto de vingança contra John Fitzgerald (Tom Hardy), que assassinara seu único filho a sangue frio, Glass vai enfrentar a natureza selvagem e um inverno brutal em busca da sobrevivência – e também de sua própria redenção.

O Regresso é absolutamente impressionante visualmente – e o maior êxito do longa é a primorosa fotografia de Emmanuel Lubezki (de A Árvore da Vida, Gravidade e Birdman). Se muitos já ficaram de boca aberta por seus trabalhos anteriores (especialmente em A Árvore da Vida – para mim, um dos filmes mais belos de todos os tempos), certamente é em O Regresso que o diretor assina sua obra-prima. É claro que as ótimas locações (do Canadá à Patagônia argentina) ajudaram muito, mas sua técnica aqui é soberba: praticamente cada frame é um vislumbre visual – isso sem falar nos estonteantes planos sequências, principalmente nas cenas de perseguição e no ataque indígena no início da fita. Vale ainda ressaltar que o filme foi rodado exclusivamente com luz natural, o que favoreceu muito a performance de Lubezki – bem como a montagem de Stephen Mirrione, primordial para o ritmo da narrativa (para uma película com mais de duas horas e meia de duração), a tornando menos cansativa do que se pode esperar.

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Quanto a DiCaprio, pouco há a se dizer exceto “magnífico”. Sempre fui um tanto avesso ao ator – na realidade, nunca o achei um intérprete acima da média; apenas um bom profissional na escolha de suas personagens. Mas devo reconhecer que já há alguns anos o não mais Jack vem se tornando um excelente artista. Não fosse por Eddie Redmayne (em A Garota Dinamarquesa), Leonardo seria meu favorito. Ele se entrega de corpo e alma (literalmente, afinal O Regresso flerta em alguns instantes com algumas questões espiritualistas – em uma vaga e singela lembrança à Dead Man, de Jim Jarmusch). Para além disso, o desenvolvimento de sua personagem se dá de forma gradual – prendendo a atenção do público até o grande clímax. Não menos inspirado, Tom Hardy também se mostra sóbrio na construção do vilão da trama: um homem egoísta, cuja ambição parece estar acima de tudo. Hardy é outro que merece ser olhado com mais carinho nos próximos anos.

Não menos importante, outros pontos se destacam em O Regresso, desde a caprichosa direção de arte à discreta (mas não medíocre) trilha sonora, que se mostra presente de forma bastante pontual – aliás, todo o trabalho de som da projeção é admirável, capaz de dar ao espectador a possibilidade de imergir na narrativa como poucas vezes no cinema. Com isso, O Regresso é quase uma experiência sensorial. Seu grande “porém” é, talvez, seu próprio protagonista: na ânsia por premiar Leonardo DiCaprio, o público reduz o filme apenas a ele – o que é um erro terrível, visto a qualidade inegável de todo o projeto. Uma pena: O Regresso é único em sua totalidade e, ganhando prêmios ou não, já é um marco para quem sabe apreciar cinema.

Coldplay Equilibra Melancolia e Energia em “A Head Full of Dreams”

O maior problema de uma banda de identidade única é evoluir ao longo da carreira sem perder esta identidade – afinal, é ela que torna um artista especial para os fãs. Isso sempre acaba gerando polêmicas. É impossível para qualquer nome de sucesso permanecer na inércia do primeiro álbum; geralmente, eles evoluem (para melhor ou pior) e algumas mudanças são muito transparentes. Os britânicos do Coldplay sofreram com isso. Oriundos de uma época em que se faltava novidade na indústria fonográfica, o grupo liderado por Chris Martin já não acompanha o mesmo estilo dos primeiros discos – como a obra-prima do britpop Parachutes, berço de pérolas como Yellow ou Trouble. A Head Full of Dreams, novo registro do Coldplay, traz de uma forma positiva um pouco de todas as fases anteriores da banda.

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A faixa-título já abre o álbum com o clima lá em cima: é super empolgação e nos remete instantaneamente a Mylo Xyloto, com seu instrumental carregado e eletrônico – ditando praticamente a primeira parte do novo trabalho. Com uma interessante batida indie chega Birds, lembrando vagamente coisas do tipo Two Door Cinema Club ou, surpreendentemente, Radiohead. Com participação discreta de Beyoncé, temos Hymn For The Weekend – talvez o momento mais pop deste disco. Sem muita inovação, no entanto, a música até tenta trazer uma pretensiosa atmosfera dançante, mas tudo o que resta é Chris Martin soltando os pulmões para dizer que “a vida é uma bebida e o amor é uma droga”. Everglow distoa de todo as demais devido à sua melancolia, mas não chega a ser uma má escolha – inclusive, já dá pra imaginar Chris interpretando-a ao vivo com seu piano colorido.

O primeiro single é Adventure of a Lifetime e tem a batida mais dançante até aqui, com uma guitarra à la Daft Punk que a deixa muito mais empolgante e alguns momentos em que não se sabe se quem está no microfone é Chris Martin ou Adam Levine. Tove Lo dá o ar da graça na ótima Fun, com seus incríveis arranjos pop – mas uma pegada mais “crua” a faria ainda melhor. Kaleidoscope é a transição das duas partes do álbum – e poderia passar despercebida, não fosse pela belíssima melodia de piano enquanto ocorre a leitura de um poema antigo e, pasmem, um trecho da tradicional Amazing Grace, cantada por ninguém menos que Barack Obama. Aí vem Army of One – uma faixa que demora para acontecer, mas tem um incrível potencial em apresentações ao vivo. Com voz grave, X Marks The Spot tem um toque meio R&B e é bem diferente das demais – acabando com um fade-out totalmente desnecessário. Daí chegamos a uma das melhores composições do grupo em tempos: Amazing Day, menos eletrônica e, talvez por isso, grandiosa. Encerrando A Head Full of Dreams, temos Up & Up – canção que, claro, cai como uma luva para encerrar também os shows dos rapazes, com um incrível solo de guitarra (cortesia de Noel Gallagher).

Boatos dizem que A Head Full of Dreams será o último CD do Coldplay – os mesmos sugeriram isso diversas vezes. Se é verdade, não sabemos. Mas pode-se afirmar que as experiências advindas dos discos anteriores (a energia pop exacerbada de Mylo Xyloto e a melancolia pungente de Ghost Stories) fundiram-se aqui para criar um registro equilibrado. Percebe-se que as canções foram produzidas com cuidado e capricho, como nos velhos tempos – ainda que faltasse aquela identidade, que só é percebida em certos instantes. Ainda assim, A Head Full of Dreams encerraria a era Coldplay de maneira categórica – não grandiosa como eles merecem, mas ao menos com a vitalidade que tanto precisam.

Não é Domingo, Mas é Dia de Alegria: os 85 Anos de Silvio Santos!

Hoje ainda não é domingo, mas o dia também é de alegria – afinal, é o 85º aniversário daquele que é, provavelmente, o maior ícone da TV brasileira em todos os tempos: Silvio Santos.

Não é puxação de saco, como alguns podem sugerir. É um fato: Silvio é o maior animador do Brasil há anos. Não tem para ninguém: surgem uns ou outros que até conquistam o público – mas todos temem Silvio que, aos 85 anos de idade, ainda é um terror no Ibope, competindo inclusive com a toda poderosa Globo aos domingos, quando seu tradicional Programa Silvio Santos disputa ponto a ponto a audiência no horário.

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Nascido lá em 1930, na cidade do Rio de Janeiro, Senor Abravanel ascendeu de um humilde vendedor ambulante para a consagração como criador de um dos maiores impérios empresariais do Brasil – além de entreter os brasileiros ao longo de mais de 50 anos de carreira na TV. Aliás, a história da TV brasileira é pontuada pela presença de Silvio – não apenas no SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) como também na Record e na Rede Globo, as três maiores emissoras do país.

Com uma vida pública repleta de polêmicas (candidatura política, sequestro, doença nas cordas vocais, rombo no Banco PanAmericano, entre outras), Silvio continua em plena atividade, à frente da emissora que fundou lá no início da década de 80. Admirado pelos profissionais da área e querido entre suas colegas de trabalho (como chama as mulheres que frequentam a plateia de seus programas), Silvio ainda surpreende pela vitalidade que demonstra – e, claro, também pelas piadas loucas e insanas que lança durante suas gravações. Praticamente um personagem na TV (e também na Internet, onde seus vídeos bombam), Silvio foi um dos responsáveis por modelar o formato da TV como a conhecemos hoje – assim, não poderia ser diferente: Silvio é mito! O cara já foi até tema de escola de carnaval, chegando a desfilar com o elenco do SBT em peso.

Sendo assim, nada mais justo: o dia é dele! E por isso, decidi listar os 5 programas mais expressivos do homem do baú:

  1. TOPA TUDO POR DINHEIRO – exibido durante a década de 90 no horário nobre de domingo, popularizou o jargão “Quem quer dinheiro?”. Com o conhecido auditório do patrão, era repleto de atrações, gincanas e provas – e também as conhecidas pegadinhas e câmeras escondidas (que nos apresentaram aos atores Ivo Holanda, Gibe, Carlinhos Aguiar e outros).
  2. SHOW DO MILHÃO – programa de perguntas que foi uma sensação na década de 2000. O participante tinha a oportunidade de ganhar até 1 milhão de reais em barras de ouro, que valem mais do que dinheiro – é dinheiro ou não é?
  3. SHOW DE CALOUROS – durante mais de 20 anos, foi o programa mais relevante da carreira de Silvio e seguia o formato básico do gênero no rádio: candidatos a artistas que se apresentavam para um júri.
  4. QUAL É A MÚSICA? – gincana musical originalmente exibida nos anos 70 e que voltou no final dos 90. Entre os vários artistas que participaram da atração, vale citar o “príncipe” Ronnie Von , Sílvio Brito e a rainha do bumbum Gretchen (oi?).
  5. PORTA DA ESPERANÇA – iniciando lá nos anos 80, foi considerado o primeiro programa “assistencialista” da TV aberta, onde espectadores enviavam cartas contando suas necessidades ou desejos e tinham a oportunidade de terem seus pedidos atendidos.

Troye Sivan: a Voz Por Trás de “Blue Neighbourhood”

A menos que você não acompanhe nada de música, será difícil você ainda não ter ouvido falar em Troye Sivan – cantor sul-africano (mas que reside na Austrália) e oriundo da geração vlogger que vem chamando a atenção da crítica especializada. Após uma série de EPs bem sucedidos, chega às lojas o seu disco de estreia Blue Neighbourhood – um trabalho que, apesar de não conter nada excepcionalmente novo, atesta o talento do jovem artista de apenas 20 anos.

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E quando digo que Blue Neighbourhood não traz nada relativamente inédito não estou sendo desfavorável ao álbum. É apenas uma constatação. A verdade é que Troye, como intérprete, é consideravelmente muito bom. Com voz delicada e bastante suavidade nos vocais (e isso empresta certa melancolia às suas interpretações), o garoto não poderia passar despercebido por onde fosse. Não à toa, seus singles são sucesso – o que revela as sábias escolhas de sua equipe.

Apesar disso, no entanto, Blue Neighbourhood não inova – e pior: não se arrisca. Ao longo de suas 16 músicas (da versão deluxe), o ouvinte tem a impressão de que tudo é, na verdade, uma grande faixa subdividida pois todas elas tem, aparentemente, a mesma “cara”, quase o mesmo “formato” e “batida”. Recorrendo a pegada mais eletropop, são poucas as canções que se destacam das demais – veja bem, não estou dizendo que por essa razão elas sejam ruins; pelo contrário: as faixas são muito bem produzidas e interpretadas, mas musicalmente são muito próximas, explorando pouco as letras compostas pelo garoto. Talvez isso possa até criar uma identidade ao trabalho de Troye – mas há quem possa se sentir um pouco frustrado.

De cara, os melhores momentos do disco ficam por conta de Wild, Fools e Talk Me Down – músicas que já ganharam vídeos e formam, nesta ordem, a trilogia Blue Neighbourhood. Nela, Troye conta a história de dois amigos de infância que acabam se apaixonando e tendo um relacionamento conturbado (uma espécie de “biografia” do próprio Troye, homossexual assumido). Mas há outras boas seleções no álbum, como Youth, onde o eu lírico disserta sobre as diversas possibilidades de seu amor, ou The Quiet, com seu instrumental caprichado. Há também espaço para algumas baladas interessantes, como a nostálgica Cool ou a romântica for him.Suburbia também tem seu lugar, bem como Too Good (com arranjos de piano e cordas discretas) e Ease. Heaven, por sua vez uma parceria com Betty Who, é, de longe, uma das mais incríveis canções do disco – e relata quando Troye descobre a sua sexualidade.

Como um todo, Blue Neighbourhood representa um bom debut para um artista que tem tudo para crescer ainda mais na indústria fonográfica, que com a atual falta de criatividade e o advento da internet, vem sofrendo uma crise sem precedentes. Troye, como muitos outros youtubers, criou sua fanbase na internet – e isso é ótimo, pois abre oportunidades a todos. Mas a realidade é que são poucos que merecem realmente ser observados de perto – e Troye está nesta lista. Com muito potencial, o cantor já é queridinho do público. É esperar pra ver seus próximos passos e torcer para que ele amadureça e perceba logo tudo o que pode fazer na música.