Elephant Song (Elephant Song)

Sala de cinema razoavelmente cheia para uma noite de quarta. Reparei certo alvoroço entre os espectadores. Pesquei alguns comentários ao acaso e todos apontavam para um único nome: Xavier Dolan – diretor canadense considerado o garoto prodígio do cinema na atualidade, que decidiu ficar à frente das câmeras no novo filme do cineasta Charles Binamé.

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Elephant Song é uma mistura de drama e suspense, cuja história passada na década de 70 gira em torno do desaparecimento repentino de um psiquiatra em um hospital às vésperas do Natal. O diretor da instituição decide interrogar um dos pacientes, Michael, que fora a última pessoa vista com o médico, na tentativa de descobrir alguma pista que leve ao paradeiro de seu colega. No entanto, o interno se mostra um jovem intelectual e manipulador, que faz um jogo psicológico que dificulta o interrogatório e põe em dúvida sua sanidade.

A narrativa é concentrada apenas nas conversas entre médico e paciente, apesar de recorrer em inúmeros momentos a flashbacks. O roteiro flui com clareza, apesar de ser previsível em alguns pontos – a certa altura do filme, o próprio médico sugere ao interno que suas brincadeiras seriam melhores se fossem mais surpreendentes (o que não deixa de revelar também a sensação do público diante dos artifícios aos quais o diretor recorre para atenuar o clima de suspense do longa). A fotografia de Elephant Song cumpre bem sua proposta, com tons frios que preenchem a tela durante quase todo o filme e um bom uso da iluminação.

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A química entre os dois nomes principais parece funcionar. Bruce Greenwood mantém uma atuação firme no papel do diretor do hospital, enquanto Dolan segurar os trejeitos e, ironicamente, empresta muito menos loucura a seu personagem do que em suas outras atuações (eu, particularmente, nunca tive bons olhos para Dolan como ator – apesar de apreciar suas obras como cineasta). No entanto, seu Michael tem muito menos “força” ou “personalidade” do que o filme sugere (dois funcionários do local perguntam “Você conhece o Michael?”, como se fosse um indivíduo acima da média – algo que Xavier, apesar de tentar, não consegue passar com seu desempenho).

O título faz referência à canção que Michael ouvia de sua mãe quando criança – e é símbolo também de todos os problemas pelos quais Michael passou ao longo de sua juventude. Baseado na peça de Nicolas Billon, Elephant Song é uma boa produção, porém abaixo do que realmente tenta ser. Apesar da premissa interessante, o diretor Charles Binamé pouco arrisca, limitando seu trabalho a um título esquecível. Definitivamente, Elephant Song tem como único “grande” atrativo o nome de Xavier Dolan nos créditos – e nada muito além disso.

Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood)

01Boyhood – Da Infância à Juventude, último trabalho do cineasta Richard Linklater (da trilogia Before), já chamava a atenção do público antes mesmo de seu lançamento – e isso é resultado da proposta atípica pela qual o diretor optou produzir sua história. O filme narra as transformações de vida de Mason, um garoto norte-americano comum entre tantos outros, especialmente entre seus 6 e 18 anos – mostrando suas visões de mundo, seus medos, dúvidas, ansiedades. Para tal feito, Richard passou os últimos doze anos acompanhando de perto o cotidiano de Ellar Coltrane, de seus dias na escola até seu ingresso na faculdade. E não apenas Ellar: todo o elenco acompanhou o artista durante esse período, se reunindo com a equipe anualmente para adicionar novas cenas à fita, apenas durante três ou quatro dias de gravações anuais.

Com um elenco em ótima sintonia (entre os nomes, temos Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater – esta última, filha do diretor), o pequeno Coltrane é excelente na construção de sua personagem – ou seria o reflexo de seu próprio crescimento? Coltrane oscila bem as nuances de Mason e carrega no olhar todas as experiências pelas quais o nosso protagonista passa. Mas se engana quem pensa que Boyhood traz apenas a história de um garoto. Na verdade, o filme conta muito menos sobre Mason e muito mais sobre a vida e as mudanças que passamos ao longo do tempo. Apesar de a narrativa se estender sobre uma perspectiva americana, é certo que Boyhood é puramente universal, alcançando qualquer espectador, ainda que de forma diferente. Muito longe dos melodramas convencionais, Boyhood nos leva de volta às nossas memórias, pessoas, lugares e, principalmente, momentos, sejam eles bons ou ruins, mas que em sua totalidade ajudam a formar nossa identidade. De forma simples, mas nunca ordinária, o cineasta insere temas que são comuns em todas as sociedades, como infância, casamento, separações, superações.

O espectador literalmente vê Mason crescer diante de seus olhos, vivenciando todos os dramas rotineiros da adolescência até chegar à fase adulta da vida – quando deve assumir uma postura mais “séria”, assim como responsabilidades. Exatamente por isso, a narrativa é de um realismo incomparável, até mesmo pela habilidade natural de Linklater em conduzir a trama. O roteiro e a edição contribuem muito para a ação da película, até mesmo se levarmos em consideração o fato de que não há uma “história” propriamente dita, com começo, meio e fim – pois aqui, a história é adaptada com o passar dos anos na vida real. A própria trilha sonora (excelente, por sinal) faz uma marcação concisa de tempo cronológico, iniciando-se com a inconfundível Yellow, do Coldplay, e passeando por Arcade Fire, Daft Punk, entre outros artistas – além também das inúmeras referências à cultura pop, com menções a Lady Gaga, Harry Potter e outros elementos da última década (incluindo impressões sobre o ataque às Torres Gêmeas e a candidatura de Barack Obama). Em suma, Boyhood é um filme também sobre a passagem do tempo.

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Com quase três horas de duração (mas, ironicamente, você nem sente o tempo passar), Boyhood é grandioso em sua simplicidade. Apesar de ficcional, Boyhood é uma obra que traz para a discussão a vida de todos nós: os desafios, os altos e baixos, a instabilidade do mundo, as primeiras experiências. Boyhood está longe de ser um filme sobre Mason: é também um retrato da existência de Davi, de Maria, Alberto, Regina – enfim, de todos. Não à toa, o longa de Richard Linklater (que custou pouco mais de 2 milhões de dólares – quase nada em comparação a outras produções norte-americanas – e demorou menos de quarenta dias de gravação) vem sido amplamente elogiado pela crítica e pelo público. No site Rotten Tomatoes, por exemplo, Boyhood tem cerca de 99% de aprovação da crítica e 89% do público. Boyhood é, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de seu diretor e, provavelmente, um dos mais intensos filmes do ano.

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit)

Sandra é uma mãe de família que está prestes a retornar ao trabalho após um período afastada tratando uma depressão. Seu emprego, porém, está ameaçado uma vez que, como medida de contensão de gastos, seu chefe ofereceu aos demais membros da equipe um bônus em dinheiro, desde que Sandra fosse dispensada. A maioria dos funcionários aceita a oferta, mesmo que isso implique na demissão da colega. No entanto, uma das funcionárias consegue convencer o patrão a fazer uma nova votação – e Sandra tem um curto espaço de tempo para bater de porta em porta atrás de votos a seu favor e tentar salvar seu posto.

Dois Dias, Uma Noite é o representante belga pré-indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. Com direção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (de O Garoto da Bicicleta), o longa é quase uma espécie de road-movie, onde a protagonista faz uma verdadeira peregrinação buscando salvar seu emprego. Durante a empreitada, com a ajuda do esposo Manu, Sandra se depara com as mais distintas reações, das mais solidárias às mais violentas. Nesse ponto, o filme coloca em pauta duas questões fundamentais em nossa sociedade atual: a solidariedade e o egoísmo. Afinal, até onde eu posso pedir que uma pessoa abra mão de seu direito por um direito meu? Todos os empregados precisam do bônus – cada um por um motivo especifico, mas além desta necessidade existe aqui também a questão do direito: ninguém pediu o bônus; ele foi ofertado em troca da demissão de Sandra.

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O roteiro, também escrito pelos irmãos, é equilibrado, sem altos e baixos, porém bem desenvolvido, proporcionando alguns momentos comoventes (talvez pelo excesso de “vitimização” concedido a Sandra). A montagem quase sugere uma espécie de “documentário”, o que de certa maneira aproxima o público do drama de nossa protagonista. Marion Cotillard, por sua vez, está despida aqui de qualquer glamour, requinte ou sofisticação. Já há muito tempo, Marion vem mostrando sua versatilidade diante das câmeras, se consagrando como uma das mais talentosas atrizes francesas de sua geração. Não à toa, ela empresta muita suavidade a Sandra e, embora carregue demais no tom dramático de sua personagem em certos instantes, arriscaria dizer que esta é sua melhor atuação desde Piaf – Um Hino ao Amor. Fabrizio Rigone (o esposo da protagonista) e os demais nomes do elenco (que interpretam os colegas de Sandra – logo, fazem pequenas mas intensas participações) são competentes o suficiente para preencher o quadro concisamente – apesar do filme ser exclusivamente de Cotillard.

Dois Dias, Uma Noite é um filme honesto, direto e silencioso – mas nem por isso perde sua riqueza e profundidade ao longo de sua uma hora e meia. Apesar de não apresentar um gênero muito bem definido, Dois Dias, Uma Noite proporciona uma reflexão sobre o mundo corporativo, que obriga até mesmo o mais moral dos seres humanos a perder sua dignidade diante da busca pelos seus interesses. Como é de se esperar, não há um happy ending. Não à toa, a trama se passa na Bélgica – um dos países mais “perfeitos” do mundo ocidental, mas ainda assim com seus problemas e deficiências sociais.

Atirem no Pianista (Tirez sur le Pianiste)

Na primeira sequencia de Atirem no Pianista, François Truffaut nos mostra um sujeito sendo perseguido por dois homens. Não sabemos nada a respeito da perseguição ou mesmo quem são os envolvidos (a fotografia escura deste trecho da fita dificulta bastante a identificação). Na correria, o homem esbarra em um poste e cai meio desacordado no chão. Um transeunte passa e, após certificar-se de que o outro está bem, ajuda-o a se levantar e ambos saem caminhando pelas ruas, desenfreando uma conversa natural, como se fossem velhos amigos.

Esta, claro, é apenas a ótima introdução de Atirem no Pianista, segundo filme do cineasta francês conhecido por ser um dos fundadores da “nouvelle vague”. Escrito pelo próprio Truffaut, em parceria com Marcel Moussy (que se tornaria um colaborador constante do diretor), o roteiro segue Charlie Kohler, um outrora pianista famoso que hoje trabalha tocando em um bar de segunda classe qualquer da cidade, longe dos holofotes e escondendo sua verdadeira identidade: Edouard Saroyan. Enquanto foge de sua família e do seu passado (incluindo o suicídio de sua esposa), Charlie reencontra um de seus irmãos, que está envolvido com a máfia.

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Atirem no Pianista tem uma incômoda posição na filmografia de Truffaut: foi produzido entre os amplamente elogiados Os Incompreendidos e Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois, de 1959 e 1963, respectivamente. Talvez por isso, este não seja um filme unânime na carreira do cineasta, que se tornaria um dos nomes mais citados da história do cinema. A crítica só reconheceu a fita anos após seu lançamento, enquanto o público esnobou a ideia nas bilheterias. De fato, Atirem no Pianista escorrega em sua narrativa desfragmentada e irregular: flerta-se com o romance, o humor, o mistério, a tragédia e, apesar de isso até ser “charmoso” em determinados momentos, faz com que não haja uma espécie de “fio lógico” muito consistente – afinal, faltava a Truffaut naquela época a maturidade suficiente para trabalhar com essa alternância de forma elegante. Talvez isso seja resultado da forma como Truffaut e Moussy optaram por desenvolver o roteiro, que era escrito conforme as filmagens avançavam – algo que pode ter atrapalhado o resultado final.

Mas se o pecado de Atirem no Pianista está em sua narrativa desnorteada, o mesmo não pode se dizer do protagonista vivido por Charles Aznavour – que compensa cada minuto em cena com seu tipo franzino, calado e tímido. Um dos maiores intérpretes da música francesa de todos os tempos, Aznavour é impecável em sua construção de personagem, um homem com evidentes (mas modestos) desvios de personalidades e que trava ótimos diálogos imaginários consigo mesmo, explicitados em uma narração voice over. Sem outros grandes destaques, o elenco ainda é formado por artistas como a belíssima Marie Dubois, Albert Rémy, Serge Davri e Nicole Berger.

Atirem no Pianista talvez funcionasse melhor se fosse um filme noir, alguns dizem. Com a ótima fotografia em preto e branco de Raoul Cotard (que se tornaria um dos nomes mais importantes na fotografia da nouvelle vague), o longa abusa de sombras e planos escuros, recorrendo a inúmeros elementos típicos do cinema norte-americano. Com uma trilha incidental firme e um argumento baseado em um romance policial, Truffaut se perde um pouco na direção, nos entregando uma obra que não apresenta nenhuma intriga ou suspense próprios do cinema hollywoodiano (aos moldes de Hitchcock, por exemplo, um ídolo do cineasta), mas também não tem o realismo psicológico de uma produção francesa clássica. Resumindo: não sabe muito bem para onde vai e nem de onde veio – mas cumpre bem seu papel de mostrar tudo aquilo que Truffaut ainda seria capaz de fazer ao longo de sua curta existência.

O Duplo (The Double)

Simon é um rapaz tímido e recatado, sem muitas aspirações e cuja existência se resume apenas a… existir. Trabalha há anos na mesma empresa, mas apesar de ser um bom funcionário, sequer é notado. Não leva muito jeito com as mulheres e mal sabe agir quando está diante da garota de seus sonhos, a inconstante Hannah. Mora sozinho, já que a mãe está internada em uma espécie de sanatório e quase não o reconhece. Sua rotina é perturbada com a chegada de um novo colega de trabalho, James, fisicamente idêntico a Simon, mas com uma personalidade completamente diferente: dinâmico, confiante, carismático, sedutor – enfim, tudo aquilo que Simon não é e (aparentemente) pouco faz questão de ser. Aos poucos, James se aproxima de Simon e passa a invadir sua vida, assumindo o papel do nosso protagonista.

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O Duplo, que chega aos cinemas brasileiros daqui a algumas semanas, parte de uma premissa que já foi abordada em outras ocasiões – recentemente, por exemplo, uma sinopse bastante similar pode ser conferida em O Homem Duplicado, filme estrelado por Jake Gyllenhaal baseado na obra de José Saramago. O Duplo, por sua vez, busca inspiração no texto de Dostoievski, publicado originalmente em 1846, que trata sobre a dualidade do indivíduo: afinal, o ser humano é único e especial ou existe realmente seu duplo?

Particularmente, devo confessar que gostei mais de O Duplo do que O Homem Duplicado e a razão é simples: a fita de Denis Villeneuve se debruça sobre várias teorias e referências, despejando uma enxurrada de informações que muitas vezes são desnecessárias e abrindo espaço para inúmeras interpretações, claramente querendo parecer um longa “difícil”. O Duplo também tem lá suas teorias, porem ele flerta diretamente com o suspense, construindo uma narrativa muito mais ágil (o que alguns críticos dizem que prejudicou o produto final, mas a meu ver contribui muito para não deixar a trama cansativa, já que o tema não é tão fácil). O roteiro, ainda que meio perdido em alguns momentos, apresenta lampejos de humor ácido, que muitas vezes aliviam a tensão dos fatos e rendem boas e singelas risadas.

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No entanto, é tecnicamente que o longa de Richard Ayoade mais pode nos impressionar. A paleta de cores e o trabalho de iluminação (com seu uso constante de sombras, abusando do contraste claro-escuro) compõem uma ótima fotografia, ajudando muito na recriação de ambientes sombrios e claustrofóbicos. A trilha sonora de Andrew Hewitt é assustadoramente desconcertante, capaz de deixar o espectador inquieto durante as sequências mais explosivas. O diretor recorre também a canções japonesas que, em conjunto com a música incidental, provocam uma interessante experiência. Quanto às atuações, o destaque curiosamente fica por conta da cada vez mais à vontade Mia Wasikowska, que empresta toda sua esquisitice a Hannah (e que com seus cabelos claros e roupas com cores vivas, destoa completamente do restante dos objetos de cena). Já o protagonista vivido por Jesse Eisenberg é até passível de certa compaixão – apesar de Jesse aparentar ter uma metralhadora no lugar da língua, o que deve ser um problema para qualquer dublador. Jesse parece sempre interpretar a si próprio em todos os filmes em que atua – e aqui não é diferente. No entanto, é até mesmo estranho argumentar que sua versão tímida e opressiva é mais carismática do que seu duplo, o que justamente deveria ser o contrário. Ou seja, reforça-se a tese de que Jesse é ator de um único tipo.

Muito mais pelo suspense e pelos alívios cômicos do que por todas as discussões que possa criar, O Duplo é um filme que surpreende e é agradável de acompanhar. O diretor visivelmente não procura se aprofundar em inúmeras teorias ou inovar na técnica, mas contenta-se em montar sua história dentro de um universo sufocante capaz de prender o espectador. Não é uma obra que pode te fazer pensar por muito tempo, até mesmo pela rapidez da narrativa que não te deixa concluir muitos pensamentos ou levantar quaisquer questões, mas funciona como um bom entretenimento, apesar das deficiências de seu roteiro. Resumindo, é um filme que poderia ser mais do que é, mas contenta-se em ficar como sua personagem central: em um status quo, que o impede de ser uma grande obra.

Música e Cinema São Homenageados em SP

Talvez o único defeito da exposição Música & Cinema: O Casamento do Século? seja o seu próprio título, que sugere um questionamento e não uma afirmação – afinal, música e cinema é uma combinação inigualável. A relação entre essas duas artes encanta pessoas em todo o mundo e se tornou uma das mais bem sucedidas parcerias em todo o tempo. Tente assistir a clássica cena do chuveiro de Psicose no mudo ou Dirty Dancing sem o número arrebatador de sua sequência final – ou mais amplamente: experimente assistir a um filme de suspense com o som desligado ou o beijo apaixonado de um casal de filme romântico sem uma trilha sonora melosa como fundo. Talvez aí você se dê conta da importância da música para o cinema e como essas duas artes se completam.

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Visual e auditivo se unem aqui para produzir sensações únicas – e é exatamente isso que o público pode vivenciar nesta mostra que está em cartaz na cidade de São Paulo desde o dia 19 de setembro. Trazida diretamente da Cité de la Musique, de Paris, a exposição chegou a ser vista por mais de 90 mil pessoas só na França e passeia pelos mais diversos gêneros: comédia, musicais, romance, suspense, entre outros. Aqui no Brasil, o projeto foi adaptado também para abranger as produções nacionais, dos clássicos regionais até as pornochanchadas.

Os ambientes da mostra procuram proporcionar ao espectador a oportunidade de vivenciar o mundo mágico da música e cinema. Para isso, recorremos à história da arte cinematográfica desde às primeiras produções mudas (onde a trilha sonora desempenhava um papel primordial para as narrativas) até aos clássicos mais atuais. A viagem por este universo é feita através da apresentação de documentos originais de outrora (como partituras, manuscritos, fotografias, cartazes), instrumentos da época e vídeos com entrevistas, documentários e testemunhos de diversos artistas.

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Entre algumas atrações, destaca-se o mural com algumas das parcerias mais famosas entre cineastas e compositores (algo do tipo Spielberg/John Williams, Burton/Danny Elfman, Hitchcock/Bernard Herrmann e outros). Há também uma projeção com pouco menos de 1 hora onde o público pode acompanhar alguns dos mais conhecidos créditos de aberturas de filmes conceituados, como Bonequinha de LuxoO Bebê de RosemaryEdward Mãos de Tesoura ou Drive. Em um dos espaços mais interativos, há um estúdio de mixagem onde o visitante pode manusear os níveis sonoros de diversas fitas, sentindo diretamente o impacto da banda sonora na cena.

Com curadoria de N. T. Binh, Música & Cinema: O Casamento do Século possui uma programação paralela, que envolve shows, oficinas e também a exibição de alguns filmes memoráveis. A exposição vai até dia 11 de janeiro de 2015.

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MÚSICA & CINEMA: O CASAMENTO DO SÉCULO
Sesc Pinheiros (Espaço Expositivo – 2º andar) – Rua Paes Leme, 129 – São Paulo-SP

Data: de 19/09/2014 a 11/01/2015
Horário: Terça a sexta, das 10h30 às 21h30; sábados, das 10h às 21h; e domingos, das 10h30 às 18h30.
Classificação: Livre
Entrada Gratuita
Informações: http://www.sescsp.org.br/programacao

A Lenda de Oz (Legends of Oz: Dorothy’s Return)

O título original Legends of Oz: Dorothy’s Return entrega exatamente o que podemos esperar de A Lenda de Oz, que chega aos cinemas brasileiros nesta semana – e deixa claro também que se trata da continuação do clássico O Mágico de Oz. Nesta releitura do livro homônimo de Roger Stanton Baum, a garota Dorothy é levada de volta a Oz, que está em um estado de decadência por conta de um novo perigo: o Bobo da Corte, que deseja tomar conta deste mundo mágico transformando todos os principais representantes do local em marionetes. Com a ajuda de seus antigos companheiros (Espantalho, Homem de Lata e o Leão Covarde), Dorothy tem a missão de salvar Oz das garras deste novo vilão.

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Para começar, falemos de A Lenda de Oz enquanto animação – e aqui já te digo: fuja. A animação (de responsabilidade da Prana Animation Studios) não é apenas “simples”, mas “medíocre”, nos remetendo logo de cara à qualquer série televisiva (sabe aqueles filmes que passam nas manhãs globais de sábado? Então…). As expressões dos principais personagens são visivelmente limitadas – assim como os recursos usados que realçam todo o estilo “amador” do projeto. O roteiro, por sua vez, é uma confusão só, desenvolvendo os personagens principais de maneira superficial, apesar do grande potencial de alguns deles (como o soldado Marshal Mallow ou a boneca de porcelana). Para boa parte dos pequenos (que em nossos dias atuais desconhece a trama original), a história pode até gerar estranhamento porque não há qualquer identificação com os personagens.

Outro ponto negativo são as músicas inseridas em momentos não muito oportunos, chegando quase a “atrapalhar” o andamento da narrativa – além da duvidosa qualidade das canções. Nesse quesito, salva-se apenas a performance dos dubladores, que não chega a ser primorosa mas é suficiente diante de todo o resto. Aliás, o time de dublagem é formado por nomes como Lea Michele (da série Glee, na voz de Dorothy), Dan Aykroyd, James Belushi e Patrick Stewart – um elenco, sob certo aspecto, “de peso”, mas que não foi capaz de salvar a produção.

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Não espere muito de A Lenda de Oz. Sequer compare-o com o filme de 1939 porque aí é que a coisa fica pior. Com a proximidade do Dia das Crianças, talvez o longa de Daniel St. Pierre possa ser um programa divertido para se fazer com o filho, o sobrinho, o primo, o afilhado…, até porque estamos diante de uma animação excessivamente “infantil”. A Lenda de Oz não é totalmente péssimo, mas está anos-luz daquilo que podemos esperar de uma boa animação. Vai funcionar como uma alternativa “barata” de entretenimento e para aqueles eventuais dias em que você está muito ocupado e quer manter seu pequeno quietinho enquanto faz suas atividades. Isso, é claro, se sua criança conseguir assistir isso por muito tempo…

“Hesitant Alien”: Gerard Way e o Pós-MCR

02Há pouco mais de um ano, os integrantes da My Chemical Romance anunciavam o fim da banda. A notícia não foi uma grande surpresa – afinal, os caras vinham com alguns projetos paralelos e já demonstravam sinais de que mais cedo ou mais tarde um dos grupos mais populares do início dos anos 2000 se dissiparia. Daí em diante, muitos fãs ficaram se perguntando qual seria o futuro dos membros do quinteto e, principalmente, do vocalista Gerard Way – que lançou na última semana seu debut solo Hesitant Alien, um álbum que o distancia de seu extinto projeto mas não apresenta nenhuma inovação ao rock, mas sim à sua carreira.

Okay, o talento de Gerard Way como “cantor” pode ser questionado. Eu mesmo, fã inveterado da banda, já duvidei de seus dotes vocais em diversas ocasiões – especialmente em sua performance no disco The Black Parade (na minha opinião, o pior trabalho do grupo – o que contraria boa parte dos fãs). É um fato incontestável que Way nunca foi um grande intérprete – mas possuía presença no palco, fazia estripulias, agitava a galera e isso garantiu seu lugar ao sol. Talvez fosse o estilo do MCR que o impedisse de mostrar sua verdadeira faceta – feito que Way escancara em Hesitant Alien.

Hesitant Alien não provoca nada muito novo, é verdade, mas ainda é um disco muito acima da média – prova disso são as belas críticas que vem recebendo da imprensa (e todas muito bem merecidas). Deixando de lado o velho pop-rock e rock alternativo que marcaram sua carreira na extinta MCR, Gerard faz um retorno às décadas passadas, se lançando no britpop (de Jarvis Cocker ou Damon Albarn) dos anos 90, no pós-punk quebrado de 80 e, principalmente, no glam-rock de 70 (um gostinho de David Bowie). Essa mistura de gêneros contribui para criar uma sonoridade que remete nossos ouvidos a estilos quase alternativos – é possível fechar os olhos e enxergar uma banda dos anos 80 fazendo som na garagem de casa.

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O disco abre de maneira categórica com a excepcional Bureau, engrandecida com uma guitarra generosa que torna a faixa uma ótima pedida. Segue-se com Action CatNo Shows – ambas já liberadas anteriormente (No Shows inclusive já ganhou videoclipe). Enquanto a primeira dividiu os fãs (pois não se via nada novo à primeira audição), a segunda tem o estilo “garagem” muito mais perceptível, seja pelo destaque das guitarras distorcidas como pelos vocais propositalmente mais baixos que o instrumental. BrotherDrugstore Perfume são claramente inspiradas no britpop que mencionamos acima e possuem ótimas melodias – Drugstore Perfume, por exemplo, pode ser comparável à qualquer pérola do Oasis em sua fase áurea. Já Zero Zero (cuja introdução lembra Blur de imediato) e Juarez são as canções mais barulhentas do álbum, sendo que esta última é a que mais pode remeter ao velho som do MCR, mas bem vagamente. How’s It Going To Be, particularmente, é a minha música preferida devido, sobretudo, à sua instrumentação que é deliciosa. Outras faixas como MillionsGet The Gang TogetherMaya The Psychic completam este registro e são tão boas isoladamente quanto inseridas dentro da proposta de Way para seu debut.

De forma geral e se ouvido com certa atenção, Hesitant Alien tem um tema “maior” que é ligado em temas menores através das onze faixas de um registro curto mas que não deixa a desejar. Way não renega seu passado “negro” em nenhum momento de Hesitant Alien, afinal a pegada punk de seu antigo projeto ainda está ali. Mas Gerard dá seu toque especial e particular a um trabalho que traz novos elementos à sua carreira, o que é capaz de cativar novos ouvintes que antes torciam o nariz para suas composições. Conceitualmente, Hesitant Alien possui méritos inquestionáveis, assim como tecnicamente – o disco foi produzido por Doug McKean, antigo companheiro de Rob Cavallo (um velho conhecido dos fãs de MCR). Hesitant Alien ainda tem a grande sorte de ser um álbum que funciona isolado (cada música por si é um “mini-drama” à parte) e em sua totalidade, equilibrado do início ao fim. Se por um lado Gerard Way não faz nada muito excepcional para a música como um todo, por outro lado dá um salto considerável em sua carreira como compositor, intérprete e arranjador. Não se pode dizer que Hesitant Alien é melhor do que qualquer coisa já lançada pelo My Chemical Romance – mas também para que comparar? Hesitant Alien, para um disco de estréia de um ex-vocalista de banda famosa, já tem sua luz própria – e, para seu idealizador, é uma boa oportunidade de se desvencilhar daquilo que o consagrou.

Grace de Mônaco (Grace of Monaco)

Não há dúvidas de que Grace Kelly é uma das figuras mais celebradas do cinema em todos os tempos, cercada por inúmeras histórias e lendas. Faltava, no entanto, uma cinebiografia que fizesse jus a tudo aquilo que Grace realmente foi ao longo de sua curta existência (afinal, a atriz faleceu precocemente aos 52 anos, em um trágico acidente automobilístico). Coube ao francês Olivier Dahan (do irretocável Piaf – Um Hino ao Amor) a árdua missão de transportar para as telas de cinema a biografia deste ícone mundial – e assim surge Grace de Mônaco, filme de abertura do 67º Festival de Cannes e que arrebatou as mais duras críticas da imprensa.

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Diferente de Piaf – Um Hino ao Amor, cuja protagonista era acompanhada da infância até sua morte, Grace de Mônaco concentra sua narrativa nos primeiros anos do casamento de Grace e o príncipe Rainier III (união considerada por muitos um “conto de fadas”), quando a artista abandonou sua próspera carreira de atriz para dedicar-se à realeza de Mônaco. Desiludida com o casório (em especial, com o distanciamento do esposo e o formalismo de seu novo mundo), a princesa aceita o convite do amigo Alfred Hitchcock para estrelar seu novo projeto (Marnie – Confissão de uma Ladra, que mais tarde seria protagonizado por Tippi Hedren) – que marcaria seu retorno triunfal a Hollywood, mesmo contra a vontade de Rainier. No entanto, Mônaco passa pela iminência de uma guerra e Grace fica dividida entre retomar sua carreira ou lutar ao lado do esposo pelo Principado.

Apesar do bom material disponível, o maior problema de Grace de Mônaco está em seu argumento, desenvolvido por Arash Amel: a ambição de Grace de Mônaco, ao que parece, desde o início é ser “grandioso”, “épico”, recorrendo a frases de efeitos, mas que não há nada além de diálogos rasos e superficiais que poderiam ter sido tirados de qualquer livro de autoajuda. A impressão que temos é a de que não estamos necessariamente diante de um filme “sério”, pois há quase um certo apelo televisivo na obra – a prova irrefutável é a de que em sua exibição em Cannes, jornalistas e demais especialistas chegaram a rir em diversas sequências, conforme foi noticiado por alguns veículos.

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Além das evidentes falhas na narrativa, o elenco não demonstrou o menor interesse pelo projeto. Se em Piaf – Um Hino ao Amor, Marion Cotillard foi, no mínimo, unânime, Nicole Kidman só consegue, no máximo, emprestar certa classe e sofisticação à sua personagem. Sua atuação é caricata, teatral e forçada, tornando sua Grace uma mulher insegura e dependente. É quase cômica (não fosse ruim) a cena em que Grace tem aulas de francês, com o péssimo sotaque de Kidman (que está quase inexpressiva). Tim Roth também está quase no automático – aliás, não, Tim está muito abaixo de seu talento, pois até mesmo o modo “automático” do ator seria aceitável. Se o casal de protagonistas não impressiona, o restante do elenco não tem muito que fazer – e o único bom retrato dentro de um filme repleto de tipos insuportáveis é o do veterano Frank Langella, no papel do padre Tucker, confidente de Grace (e que demonstra ótima química com Kidman). De resto, tudo soa tão artificial que beira o satírico – o que, obviamente, não me pareceu ser a proposta aqui.

Detonado pela crítica, Grace de Mônaco funcionou muito melhor fora do cinema: antes mesmo do filme ser lançado, a família de Grace Kelly já havia se manifestado, acusando a fita de ser “baseada em referências históricas erradas e dúbias”, conforme nota oficial. Apesar de até ser pontual tecnicamente falando (há uma boa fotografia, figurino e design de produção, em contrapartida da péssima e lastimosa trilha sonora), Grace de Mônaco peca na estrutura de seu roteiro – um grave erro que se sobrepõe a todo restante da obra. Mas não apenas isso: Olivier Dahan falha ao tentar retratar um nome tão importante com tamanha superficialidade, explorando pouco da vida de Grace e tendo como cenário o conturbado conflito diplomático entre Mônaco e a França. Dessa forma, falta credibilidade, falta respeito e, principalmente, falta amor. Grace Kelly, nossa eterna e queridíssima Grace Kelly, merecia algo infinitamente melhor.

Sin City: A Dama Faltal (Sin City: A Dame to Kill For)

E lá se foram quase dez anos desde que Sin City – A Cidade do Pecado chegava às salas de cinema ao redor do mundo. Na época, o longa se tornou uma febre e virou, digamos, uma espécie de clássico instantâneo. Não que seja uma obra imaculada – a bem da verdade, Sin City é um filme como outro qualquer, com algumas peculiaridades, sim (como sua excepcional fotografia em preto e branco e suas inúmeras tramas irresistíveis), mas que não apresentava nada muito grandioso. Enfim, era uma novidade naquele momento – mas nada muito eloquente.

Mas se em 2005 Sin City – A Cidade do Pecado causou certo burburinho entre os cinéfilos, o mesmo não se pode dizer sobre Sin City: A Dama Fatal, segundo filme da série baseada nas HQs do artista Frank Miller (que divide os créditos de direção com Robert Rodriguez) e que chega hoje aos cinemas brasileiros. Não que esta continuação não tenha sido aguardada – principalmente depois dos inúmeros adiamentos, que deixaram os fãs dos quadrinhos de Miller apreensivos. Mas talvez esse hiato entre os dois filmes tenha diminuído um pouco o frisson deste universo – e como consequência inevitável, Sin City: A Dama Fatal vem tendo um desempenho satisfatório, mas levemente inferior ao seu predecessor. Em outras palavras, este Sin City mantém o bom visual e apelo técnico, mas perde aquele impacto causado anteriormente.

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O cenário ainda é Basin City e segue, basicamente, a linha de Sin City – A Cidade do Pecado: narrativas independentes que se cruzam e se passam nas ruas, becos e vielas de uma cidade dominada pela corrupção, violência e impunidade (e qualquer semelhança com nossa realidade é mera coincidência). Aqui, temos o encontro de velhos conhecidos (como a stripper Nancy, o brutamontes Marv, o detetive Hartigan e o anti-herói Dwight) com novos rostos (como o ambicioso jogador de pôquer Johnny, o empresário Joey e a sensualíssima Ava Lord – a tal dama fatal do título), que se misturam ao longo de três contos, alguns inéditos.

A primeira das três histórias centrais é estrelada por Joseph-Gordon Levitt na pele de Johnny, um jovem que desafia o poderoso senador Roark em uma partida de pôquer com o evidente interesse de humilha-lo – o que coloca sua vida em risco. Na segunda (e melhor) parte, temos Eva Green como a sedutora Ava, uma mulher ambiciosa e que faz uso de todo seu charme (e suas belas curvas) para colocar as mãos na fortuna do marido – recorrendo até mesmo a Dwight, seu antigo e ressentido amor. Com menos força, a última trama apresentada é a de Nancy (protagonista de sensuais danças sobre o balcão de um dos bares mais badalados de Sin City), que, totalmente atormentada, busca se vingar da morte de seu amado Hartigan – que se suicidara no filme anterior.

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Sin City: A Dama Fatal não apresenta nada novo em relação ao primeiro da série. Se em 2005 tudo era novidade (inclusive o uso constante de tela verde – algo inédito na época e que se tornou moda nos anos seguintes, sendo utilizado até os dias atuais), hoje é certo dizer que este projeto é apenas mais do mesmo e inova pouco – inclusive na criação dos ótimos cenários digitais. Mas isso, por incrível que pareça, já é um mérito: o visual de Sin City: A Dama Fatal é impecável. A fotografia em preto e branco é impressionante e fica ainda melhor quando os diretores apostam em alguns pontos específicos para destacar outras cores (como o “acinturado” casaco azul de Ava, o sangue vermelhíssimo que escorre ou o púrpura vivo de um veículo em movimento). Esse recurso é imprescindível para deixar o filme muito mais apreciável a aproxima-lo a um estilo meio neo-noir, que é acentuado ainda mais pelo tom escuro e as constantes utilizações de sombra e luz. A tórrida cena de sexo entre Ava e Dwight, por exemplo, é de uma plasticidade ímpar – arriscaria dizer uma das mais bem dirigidas sequências de sexo que já assisti. A fotografia é essencial para emular os quadrinhos de Miller.

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O elenco desta fita também foi muito bem escalado. Mickey Rourke, apesar de não ser um personagem “chave” em nenhuma das histórias, é sempre um alívio quando aparece na tela devido, sobretudo, à sua frieza que o torna, até mesmo, cômico (um perfeito tipo tarantinesco). Joseph empresta todo seu perfil cativante para Johnny – e isso faz com que fiquemos indignados quando Roark o esnoba. Josh Brolin, por sua vez, é infinitamente melhor que Clive Owen no papel de Dwight – um autêntico morador de Sin City. Já Eva Green, claro, é quem brilha verdadeiramente aqui. A escolha de Green foi a mais correta – e chega a ser ultrajante pensar que, em algum momento, a insossa Angelina Jolie foi cotada para o papel de Ava Lord. Eva ofusca qualquer um a cada aparição não apenas pelo belo corpo (aliás, fica a dica: Green está nua em quase 80% do tempo em que aparece), mas principalmente por sua ótima atuação, totalmente segura e natural.

Sin City: A Dama Fatal é equilibrado e, a meu ver, totalmente nivelado ao primeiro filme da franquia – ou seja, tecnicamente bem produzido (fotografia, edição, design, figurino, maquiagem) e visualmente arrebatador. O único “porém” é que, como mencionado, hoje nada do que se vê é uma novidade (com exceção do 3D, mas que também não chega a impressionar). Há, obviamente, de se reconhecer que desde 2005 também pouca coisa realmente do gênero foi feita (ou bem feita, melhor dizendo), mas a verdade é que Sin City: A Dama Fatal é mais daquilo que já tínhamos visto e tanto gostamos de ver – e, por essa razão, se torna um programa indispensável para quem curte cinema e também para os fãs de HQs (afinal, como adaptação, deve-se mencionar que todo o universo dos quadrinhos de Miller foi brilhantemente transportado para as telonas). Em outras palavras, Sin City: A Dama Fatal é apenas mais uma noite escura, fria e solitária nos cantos dessa cidade que tanto amamos: diverte, vale a pena mas, ainda assim, é apenas mais uma noite. Apenas mais uma noite…