Caminhos da Floresta (Into The Woods)

O império de Walt Disney foi construído ao longo dos anos a partir de suas histórias baseadas em diversos contos de fadas. Os maiores clássicos do estúdio provêm deste tipo de narrativa – e, queira você ou não, estes filmes mudaram a forma de se fazer “animação” no cinema. Mas, é claro: o público mudou. Hoje, Branca de Neve e os Sete Anões não teria o mesmo impacto que em 1937; tampouco Pinóquio seria o herói ideal dos meninos como o foi em 1940. Muito esperta, a Disney sacou isso há alguns anos – e começou-se um processo de desconstrução dessas grandes tramas, através de refilmagens, adaptações e outras firulas com a intenção explicita de trazer o espectador ao cinema. Caminhos da Floresta é mais uma produção dessa leva.

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Caminhos da Floresta (Into The Woods) é o aguardado musical Disney, baseado na homônima peça da Broadway que faz sucesso desde a década de 80. A proposta aqui é bem simples: reunir os mais diversos personagens de contos de fadas em uma mesma trama. Dirigido por Rob Marshall (do oscarizado Chicago e também do último filme da franquia Piratas do Caribe), o fio central de Caminhos da Floresta é o drama do casal formado por um padeiro e sua esposa que, por conta de uma antiga maldição, não pode ter filhos. Desesperados, eles aceitam a ajuda de uma bruxa e partem floresta adentro em busca dos ingredientes para a poção capaz de quebrar o feitiço. A partir daí, personagens de diferentes fábulas são inseridos na trama, como Cinderela, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e o tal João (aquele do pé de feijão).

É desnecessário falar que, assim como todas as produções Disney, Caminhos da Floresta é um espetáculo que no que se refere aos aspectos técnicos – desde o figurino (assinado por Colleen Atwood) até sua ótima fotografia, abusando de cores frias para criar uma atmosfera sombria. Outro ponto fortíssimo aqui são suas músicas e a forma como são conduzidas, valorizando a performance de seu elenco afiado e em boa sintonia. Meryl Streep, que há muito tempo já não precisa provar mais nada, está absurdamente bem caracterizada como a bruxa má – e, olha, no início achei que não mas sua indicação ao Oscar de melhor coadjuvante é válida. James Corden e Emily Blunt também demonstram excelente química – o primeiro surpreendendo na cantoria. Outro que aparece rapidamente (mas o suficiente para apresentar um número deveras divertido) é Johnny Depp, caracterizado como o Lobo; além de Chris Pine e Billy Magnussen, os dois príncipes que performam uma das cenas mais hilárias do filme.

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Caminhos da Floresta poderia ter sido um grande momento na carreira de Rob Marshall e seus atores. Apesar de ser um filme tecnicamente atraente, o maior pecado (talvez o único) da produção é a quebra brusca no roteiro, que praticamente divide o musical em dois atos distintos e estende em demasia a película. Assim, Caminhos da Floresta perde sua consistência e acaba sendo um tanto cansativo, fazendo com que o espectador perca o interesse pela história. Caminhos da Floresta poderia ter sido uma ótima experiência, mas é incapaz de seduzir totalmente seu público e acaba se tornando apenas um ótimo entretenimento visual.

Grandes Olhos (Big Eyes)

04Há aqueles que o amam, há os que o detestam, mas não há como negar que Tim Burton é um cineasta, no mínimo, pop. Em suas estreias, sempre é possível ver as salas de cinemas carregadas, tanto por aqueles que o veneram quanto pelos haters que aguardam o menor deslize do diretor. Por mais que não se queira admitir, todos esperam alguma coisa de Tim Burton (seja boa ou ruim). Não à toa, Burton, apesar de ter uma obra um tanto irregular mas facilmente identificável, é um dos nomes do cinema mais populares de sua geração. Grandes Olhos, seu mais recente trabalho, é seu filme mais “sério” em anos (após uma sequência de fiascos e produções questionáveis) e também o que mais se distancia do universo que o artista criou e se tornou uma marca de sua filmografia.

Não sei dizer ao certo o quanto isso é bom – afinal, Burton nos apresentou a um mundo muito particular, cheio de fantasia, terror e imaginação, com seus personagens problemáticos, onde grotesco e belo se fundem. E é justamente isso que os fãs esperam quando assistem a um filme burtoniano. Portanto, é de se surpreender ver Burton dirigir a biografia de Margaret Keane, a artista plástica responsável por uma série de pinturas que foi uma das maiores sensações no mundo da arte durante os anos 50 e 60. No entanto, durante muito tempo a autoria dos quadros foi creditada a seu esposo – que também cuidava da divulgação e distribuição da obra. Anos depois, já separada de Walter, Margaret resolve processar o antigo companheiro e dar um fim às mentiras que carregou durante mais de uma década.

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Com um orçamento modesto, estimado em míseros 10 milhões de dólares (uma ninharia perto dos 200 milhões de Alice in Wonderland, uma das maiores bilheterias do diretor – e por isso, há quem diga que isso é impossível conhecendo as extravagâncias de Burton), Grandes Olhos não é um longa burtoniano tradicional: tem um “Q” de filme alternativo, independente – muito diferente das megalomaníacas produções do cineasta. Grandes Olhos é o menos Tim Burton dos filmes de Tim Burton: é o mais maduro e, consequentemente, o menos extravagante de sua carreira. O universo burtoniano até está ali, mas em menor escala. A própria personagem principal é uma espécie de alter-ego de Tim: insegura, avessa à imprensa, tímida – um perfeito tipo burtoniano, ou seja, gente fora dos padrões convencionais (a cena em que Margaret fica constrangida ao ver seus desenhos sendo vendidos no supermercado é o mesmo que enxergar Burton retraído nas premiações em que participa, por exemplo). Margaret é tão insegura ao ponto de permitir que o marido assine suas pinturas – o que lhe asseguraria um bom casamento e a possibilidade de um futuro melhor para a filha (uma vez que Margaret já vinha de um relacionamento frustrado). Além disso, a história se passa nas décadas de 50 e 60 – e vale lembrar que, naquela época, “mulher” não tinha voz nem autonomia para nada e servia apenas para procriar e cuidar da casa e família. Logo, obra “de mulher” não vendia.

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Enquanto Amy Adams é de uma sutileza incrível seja na voz e nos gestos (o que lhe rendeu um Globo de Ouro), Christoph Waltz, em uma desnecessária abordagem cômica, acaba aparecendo mais do que devia sem ter um personagem tão interessante quanto o de Amy. Em diversas vezes, era possível visualizar em sua performance resquícios de seu Hans Landa (de Bastardos Inglórios), com seu sarcasmo e humor ácido aflorando em trechos inoportunos. A tão comentada cena do tribunal poderia – e deveria! – ser incrível, não fosse o tom exacerbado de Waltz.

Costumo dizer que Burton tem três tipos de filmes: os ruins (Planetas dos Macacos, Sombras da Noite), os bons (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, Marte Ataca!) e os ótimos (Ed Wood, Peixe Grande, Edward – Mãos de Tesoura). Grandes Olhos está, a meu ver, na linha tênue entre o bom e o ótimo, com propensão ao primeiro. Possui um belo design de produção, fotografia e reconstituição de época, incluindo o figurino de Colleen Atwood. A trilha sonora do parceiro de longa data de Tim, Danny Elfman, também é precisa, apesar de nenhum trecho excepcional (PS.: se houve um grande momento musical na história, este se deve a Lana Del Rey, com sua incrível Big Eyes). Apesar de certas irregularidades (onde os defeitos de Burton como diretor ficam mais evidentes), Grandes Olhos é Burton fazendo cinema de “gente grande”, como Hollywood tanto prega. Nas mãos de qualquer outro cineasta, Grandes Olhos seria apenas mais uma história; com Tim, o filme se torna um curioso caso de superação e reconhecimento, provando que Burton sabe, sim, fazer cinema como qualquer outro e o faz quando e como quiser. Faltou pouco para Grandes Olhos ser uma obra-prima – talvez justamente aquele toque burtoniano que todo fã esperava…

Cássia Eller (Cássia Eller)

Confesso que fui assistir à pré-estreia de Cássia Eller com um certo receio. Primeiro, por se tratar de um documentário. Não que eu esperasse uma obra de ficção pura (até mesmo porque eu não enxergo nenhum ser humano capaz de viver o furacão Cássia Eller nos palcos ou à frente das câmeras), mas porque eu não sou um grande admirador desse gênero de narrativa cinematográfica. Segundo, me deparei com a longa duração do projeto. Eu estou em uma fase com pouca paciência para filmes muito extensos – e pensei o quanto seria difícil aturar duas horas de um tipo de cinema da qual não sou muito fã. Mas admito: fiquei com um nó na garganta ao final da exibição.

Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, Cássia Eller retrata a trajetória pessoal e artística de uma das maiores intérpretes da música brasileira da década de 90, até sua precoce morte, em 2001. O cineasta trata questões polêmicas sobre a cantora, como sua sexualidade, o uso abusivo de álcool e drogas e a relação com sua companheira de anos, Maria Eugênia, e o filho, Chicão – aliás, spoiler: o garoto faz um belo depoimento nos minutos finais do longa. A abordagem natural do documentário é imprescindível para tornar Cássia uma homenagem devida a esta grande artista, que durante muitos anos foi uma vítima da imprensa – mesmo após seu falecimento, as notícias sobre ela pipocavam nas mídias e quase sempre eram de extrema maldade e desrespeito.

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O roteiro segue uma linha temporal bem definida, com uma seleção de material impecável – incluindo trechos sonoros inseridos no decorrer da fita e que servem de trilha para o ótimo conteúdo. Os depoimentos de familiares e amigos são honestos, sem pudor: tudo é tratado às claras. O filme já se inicia com declarações expressivas de que sim, Cássia era homossexual, sim, ela usava drogas, sim, ela mantinha casos extraconjugais com outras mulheres . Em outras palavras, o documentário é sem rodeios, expondo tudo de forma direta ao público. No entanto, apesar de todos esses prós, Cássia Eller possui uma montagem bastante fraca e efeitos especiais que soam tão artificiais quanto vinhetas de programas globais. Além disso, muitas vezes o que se via na tela servia apenas para preencher o áudio – o que a estendeu muito e fez parecer que a película foi feita não para cinema, mas para a televisão (inclui-se ainda a narração de Malu Mader em algumas sequências).

Cássia Eller, visto como obra de cinema, talvez tenha lá seus defeitos e não seja tecnicamente impecável. Cássia Eller é muito mais interessante por conta de sua própria protagonista. Por essa razão, as duas horas do documentário passarão em dez minutos para os fãs da cantora, que encontrarão aqui um excelente canal para matar as saudades da artista e conhecer o lado humano a qual poucos tinham acesso. Cássia Eller é esclarecedor como poucas produções do tipo, mas é muito mais apaixonante por conta de seu objeto de estudo do que como cinema.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance))

O último álbum de Lady Gaga flopou – mas eis uma verdade que a cantora pop clamou em uma das músicas de trabalho do disco e que resume bem a sociedade midiática em que vivemos: “I live for the applause!”. Mas por que iniciei meu texto sobre Birdman com esta afirmação? Então, vamos lá…

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é o novo e empolgante projeto do diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu (dos elogiados Babel, Biutiful e Amores Brutos) e uma das maiores apostas ao Oscar 2015, concorrendo em 9 categorias. Na trama, que se passa nos bastidores da Broadway, acompanhamos Riggan, um ator famoso na década de 90 por interpretar um herói de sucesso no cinema (o tal “Birdman” do título), mas que caiu no esquecimento do público nos anos seguintes após rejeitar filmar uma sequência da franquia. Em decadência, Riggan decide montar uma peça de teatro para recuperar os tempos de glória e também para ter seu talento (sempre questionado) finalmente reconhecido.

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Ao mesmo tempo em que acompanha o antigo astro de cinema em sua empreitada de retornar aos holofotes, Birdman também nos apresenta subtramas e personagens tão incríveis quanto nosso protagonista – e que geram todos os percalços enfrentados por Riggan para recuperar o prestígio perdido. E aqui temos alguns dos momentos mais interessantes da fita: a luta com seu alter-ego (na verdade, o próprio herói que um dia interpretou), a reaproximação com a filha, o relacionamento com um produtor que só visa lucros ou mesmo os desentendimentos com um ator surtado e cheio de extravagâncias. Através dessas histórias, o cineasta faz uma crítica implacável e com um humor inteligentemente sarcástico à indústria da fama e a todos os meios aos quais nós nos submetemos para mantermos nossa imagem sempre em evidência.

Com um elenco estelar, o destaque inevitavelmente fica por conta de Michael Keaton, nosso protagonista – curiosamente com uma história de carreira bastante similar à de sua personagem, mas deixemos isso em off. Arriscaria dizer que este é seu melhor trabalho em anos. Outro que aparece e quase ofusca Keaton é Edward Norton – uma explosão de variadas emoções e é simplesmente hilário.

Iñárritu ainda dá um show de técnica, com uma fotografia que fica ainda melhor com os longos planos-sequências – chegando até a enganar o espectador com a ilusão de que as ações da trama se desenrolam sem cortes, o que agrega muito ao roteiro inteligente e ágil escrito pelo cineasta em parceria com alguns amigos. Junta-se ainda a frenética trilha sonora (com muita percussão) assinada por Antonio Sanchez e os diálogos (profundos, mas sem soar “cafona”), que dão ritmo à história e tornam a produção dinâmica – apesar de algumas irregularidades causadas por sequências menos “agitadas” mas nem por isso descartáveis. No fim, Birdman não é um filme fácil – e pode até causar certo estranhamento à primeira vista. Repleto de metáforas, Birdman é um longa onde tudo funciona direito, criando uma obra que durante muito tempo vai ficar na mente do público.

Tangerinas (Mandariinid)

No início da década de 90, eclodiu-se uma disputa entre os povos chechenos e georgianos pela posse das terras da região da Abecásia – uma guerra civil que devastou milhares de vidas e destruiu a economia local. Neste cenário caótico, a população estoniana que vivia ali se dividiu em dois grupos: aqueles que retornaram à sua terra natal e os demais (e poucos) que decidiram permanecer em seus lares, enfrentando a crise que se instalava. Dentre eles, está Ivo, um senhor de meia-idade que passa os dias em sua pequena e modesta oficina, fabricando caixas de madeiras utilizadas para transportar as tangerinas que são colhidas por um de seus vizinhos. É quando o trágico acontece: um confronto armado deixa dois feridos às portas de Ivo, que decide cuidar dos homens em sua casa, sem imaginar que esses sobreviventes são inimigos.

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Tangerinas é, provavelmente, a produção mais intimista e humana entre as concorrentes ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira de 2015. Representante da Estônia, a obra do cineasta Zaza Urushadze é uma verdadeira ode ao amor ao próximo, ao respeito ao ser humano e, principalmente, à vida. Dentro daquelas paredes, ao longo dos dias, esses personagens convivem entre si, com suas diferenças e traumas mas com um ponto em comum: são seres humanos – e, como tais, estão sujeitos a quaisquer sentimentos e dores que atingem a todos nós. O desfecho da história (trágico e arrebatador) mexe com o espectador e produz aquela sensação otimista diante da vida, nos dando uma ponta de esperança na humanidade. Tecnicamente, Tangerinas é ainda de um esmero absurdo – seja na ótima ambientação (que traduz muito bem o vazio de uma guerra e torna todo o filme muito mais real) até o roteiro, que flui naturalmente e se desenvolve através de atuações muito convincentes e uma trilha sonora muito agradável.

Não bastasse isso, Tangerinas também levanta um debate inquietante: qual é o sentido de uma guerra? Afinal, existem realmente vencedores e perdedores ou estamos todos em um mesmo patamar? Dentro do lar de Ivo, aqueles dois inimigos a todo momento se enfrentam e juram morte certa ao seu oponente, alimentando um ódio que nenhum deles sabe muito bem a razão – como se lutassem por algo que, definitivamente, não conhecem ou acreditam. E é esta a maior beleza de Tangerinas: um filme que impressiona por sua simplicidade, mas que surpreende muito mais por sua incrível capacidade de ser humano sem ser piegas.

Mapas Para as Estrelas (Maps to the Stars)

Não sou um conhecedor do cinema de David Cronenberg. Para ser bastante honesto, meu único contato com sua obra foi em Cosmópolis, um filme enfadonho, cansativo, sem pé nem cabeça e que me irritou profundamente. Exatamente por isso (e por não ter conhecimento de sua filmografia), a única coisa que me chamou a atenção em Mapas Para as Estrelas é a presença de Julianne Moore – atriz por quem nutro uma admiração ímpar. Mas, frustrando minhas expectativas, me deparei com uma fita bastante singular e que, dentro de sua proposta, me agradou e me fez repensar meus conceitos sobre o diretor.

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Tudo bem, Mapas Para as Estrelas não é um primor cinematográfico – tampouco é a obra-prima de seu idealizador, pelo que tenho reparado nas críticas que busquei. Pelo contrário: tem alguns que o consideram até mesmo um filme “fraco” na carreira de Cronenberg. Na trama, somos transportados a uma Hollywood quase surreal (para alguns, “nua e crua” – aliás, vi esses adjetivos em quase todos os textos que li sobre a obra, mas acredito que esteja bastante longe disto), onde somos apresentados a alguns personagens icônicos: temos um ator mirim em ascensão que está voltando da reabilitação; uma atriz de meia idade em decadência, cuja carreira sobrevive apenas de glórias passadas e escândalos atuais; um psicólogo que fez fortuna com livros de autoajuda e sua esposa, que passa a maior parte do tempo cuidando da carreira do filho; um motorista de limusine que tenta a sorte como ator; e, ligando todos estes tipos, uma jovem distante de todo este universo, que chega a Los Angeles trazendo nas malas um mistério que pode afetar a vida de todos.

As tramas destes personagens se desenvolvem em meio a histórias de sexo, fantasmas, loucura – em uma mistura frenética e inusitada que cai como uma luva para a Hollywood tão decadente de Cronenberg. Sua visão do mundo das celebridades é avassaladora, mostrando toda perversão e crueldade de uma realidade que é desconhecida para muitos. O cineasta não economiza no choque: é como se qualquer situação, por mais comum que seja, tome proporções gigantescas. O excesso é simplesmente natural, já faz parte da vida de cada um dos personagens, que vivem em um eterno clima de tensão e círculo vicioso: todos se conhecem e possuem, a seu modo, os mesmos problemas – até, obviamente, a chegada de Agatha, a garota misteriosa a quem nos referimos anteriormente.

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A atuação do elenco em Mapas Para as Estrelas é, no mínimo, extraordinária. Já de cara, digo: Julianne Moore toma o filme para si. Por mais que os demais se esforcem, é Julianne que atrai os holofotes a cada aparição. Arrisco dizer que esta seja sua melhor performance em anos. Moore consegue ser atordoante em cena e mesmo fazendo um tipo arrogante, o espectador é capaz de torcer por ela (sua personagem é uma atriz que não consegue lidar muito bem com a idade e com os fantasmas do passado, que inclui a morte da mãe em um incêndio). Mia Wasikowska há muito se desvencilhou de sua apática Alice burtoniana e já pode ser considerada uma das melhores intérpretes de sua geração. Mia cresce gradualmente no decorrer da fita, sendo a responsável pelo grande clímax da história e pelo desfecho lírico. Outro destaque fica com Evan Bird, que agarrou bem a responsabilidade de viver uma celebridade adolescente em crise, com todas suas irritações causadas, sobretudo, pelas privações que deve enfrentar.

Com uma trilha sonora confusa e atordoante, montagem vaga em certos momentos e fotografia pontual, Mapas Para as Estrelas é um filme onde se consegue ver o desejo do diretor em chocar o público e pronto. O mundo nefasto das celebridades é visto aqui sob uma ótica que preza pela “estranheza”, pelo “anormal”. pelo “repulsivo”. Mapas Para as Estrelas não é uma pérola do cinema, mas perturba, incomoda, constrange, enoja e é indigesto mesmo horas depois que o assistimos.

O Ciúme (La Jalousie)

03É difícil compreender as escolhas de Philippe Garrel. O diretor é talvez o mais próximo que temos na atualidade da nouvelle vague – uma das mais interessantes estéticas cinematográficas, que muitos tentam recriar, mas raros o conseguem. Mais do que isso: Philippe é um dos poucos que conseguem exprimir a tradição do amor no cinema francês, que se converte em filmes introspectivos que retratam relacionamentos amorosos e conflitos humanos. Seu mais novo longa, O Ciúme, segue esta linha e mantém este clima delicioso das tradicionais produções francesas – se tornando uma das melhores obras de Garrel.

Com 77 minutos de duração, o filme foge do óbvio e se sustenta na visão de que o homem (como um todo) é um ser complicado e as relações entre eles mais ainda (algo que não é necessariamente novo, porém o cinema carece de uma abordagem mais direta, simples, adulta – contrariando os clichês romantizados hollywoodianos de hoje). Na narrativa, acompanhamos a derrocada amorosa de Louis (Louis Garrel), um ator por volta dos trinta anos que tenta arranjar um emprego para sua nova companheira, a também atriz Claudia (Anna Mouglalis). A filha de Louis (Olga Milshtein) tem um relacionamento saudável com os dois, o que acaba provocando certo ciúmes na mãe da garota, que foi abandonada por Louis tempos atrás. Mais tarde, decepcionada com o fracasso do amante, Claudia o trai com um homem que pode lhe dar a independência financeira que tanto precisa.

O ponto alto de O Ciúme é, obviamente, sua fotografia em preto e branco, que cria uma atmosfera melancólica capaz de acentuar os conflitos de suas personagens. Aqui, é importante citar a ótima escolha de Garrel por filmar a película manualmente (o que justifica alguns momentos tremidos) e também o brilhante trabalho do diretor de fotografia Willy Kurant (que já colaborara com o cineasta anteriormente e também foi parceiro do gênio Godard). A trilha de Jean-Louis Aubert é bem executada e variada, indo do íntimo ao eloquente com muita naturalidade. Quanto às atuações, todo o elenco é razoavelmente suficiente e sem grandes destaques – exceto pela atriz mirim Olga Milshtein, encantadora como a filha do protagonista. Aliás, protagonista que já é nosso velho conhecido Louis Garrel – filho do Philippe e que é capaz de levar no rosto todo o ar descompromissado de sua personagem. É engraçado, no entanto, quando dizem que Garrel (filho) tem a mesma cara em suas atuações. Eu vou um pouco mais alem: Louis parece sempre fazer o mesmo papel, como se ele mesmo fosse uma personagem e seus filmes fossem apenas continuações de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, Louis consegue ser arrebatador em cena.

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O Ciúme foge do título clichê e se revela uma obra inspirada cuja poesia não reside apenas nas imagens, mas também em seu argumento que, antes de tudo, trata sobre relações: pais e filhos, irmãos, homem e mulher, amigos. Não há um modelo perfeito de relacionamento, não existe uma receita pronta – e talvez por isso, o título do filme pode confundir a percepção por parte do público. Com cenas inquietantes (que demonstram que a felicidade pode ser encontrada nos simples momentos da vida, como uma conversa com o professor ou um passeio ao parque), O Ciúme leva o espectador a confrontar as complexidades da interação entre os homens.

Saint Laurent (Saint Laurent)

Saint Laurent, de Bertrand Bonello, é a segunda produção francesa – no curto espaço de um ano – a tratar a biografia de um dos maiores artistas da moda de todos os tempos. Nesta fita, contudo, a difícil tarefa de encarnar o icônico estilista fica por conta do também francês Gaspard Ulliel, que com notável semelhança física a Laurent, consegue entregar um dos trabalhos mais significativos de sua filmografia.

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Saint Laurent concentra sua narrativa, de forma não linear, entre os anos de 1967 e 1976 – não à toa, o período mais importante da carreira de Yves. O filme retrata o lado profissional do artista e sua equipe, embora o fio condutor da trama seja a relação de Yves com Pierre Berger, parceiro e sócio responsável por grande parte do sucesso comercial da marca YSL. Aborda-se ainda a tórrida relação do estilista com Jacques de Bascher (que o levou a conhecer de perto o submundo parisiense, regado a álcool, drogas e sexo). Consequentemente, é aqui que encontramos os melhores e mais atraentes trechos do longa. Fugindo das cinebiografias convencionais (contadas, em sua maioria, linearmente), Bonello opta por mostrar esses diferentes momentos da vida de Yves, consequentemente quebrando a relação entre os fatos (causa/efeito). Já ao final, no entanto, o diretor escolhe filmar Yves em seus últimos dias (vivido aqui pelo talentoso Helmut Berger), já recluso como celebridade que era e envolto a todo império que criou.

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Gaspard Ulliel, incrivelmente parecido com o original (e aqui se destaca a ótima maquiagem), é excelente em sua atuação. Seus gestos e olhares são precisos, transmitindo melancolia, discrição e a sofisticação tão comum a Yves. Mesmo nos momentos mais “darks”, Ulliel tem um comportamento elegante em cena, nunca perdendo sua pose aristocrática. Jeremie Renier também é sóbrio e conciso na construção de Pierre Barger – estranhamente, o filme não mostra os dois como um “casal”, muito menos aborda o rompimento entre eles, no auge do sucesso, em 1976. Léa Seydoux e Aymeline Valade abrilhantam o elenco feminino, vivendo duas das belas musas inspiradoras do artista – respectivamente, Loulou de La Falaise e Betty Catroux. Enquanto a primeira traz luz à cada aparição devido ao encantador charme de sua intérprete, Valade consegue ser excessivamente sensual em cena – protagonizando  uma das sequências de dança mais interessantes que já pude assistir. Quem surpreende, no entanto, é Louis Garrel – o ator fetiche francês que, após uma série de personagens enfadonhos e com a mesma “cara”, empresta um charme (caricato por vezes, mas irresistível) a Jaccques de Bascher.

Saint Laurent foi escolhido como representante francês – e forte candidato – a uma vaga entre os cinco finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar. Saint Laurent peca, talvez, por sua duração que acaba cansando e por ser totalmente fechado na figura do estilista, deixando de lados alguns momentos e personalidades que poderiam trazer mais profundidade à história. Saint Laurent é realista, o que se percebe claramente no vestuário, na reconstituição de cenários, na fotografia, na música que ajudam a evocar todo espírito da época. Curiosamente, a obra de Bonello tira o primeiro nome do artista e se inicia com “Saint”, que em francês pode ser traduzido por “santo” – justamente o oposto da personalidade implacável de Yves.

Exposição Homenageia Leonardo da Vinci em São Paulo

E os paulistanos terão um programa imperdível para os próximos meses. Trata-se da exposição Leonardo da Vinci: a Natureza da Invenção, que estreou no último dia 11 e fica até 10 de maio de 2015 no Centro Cultural Fiesp.

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Com curadoria de Eric Lapie, a mostra faz parte de um projeto que irá celebrar o quinto centenário de nascimento do mestre renascentista e, certamente, um dos maiores gênios da história. Da Vinci (1452-1519), ao contrário do que a grande massa acredita, não foi apenas o autor do célebre e mundialmente aclamado quadro Mona Lisa (também conhecido como La Gioconda) – um dos mais notáveis e respeitados trabalhos de pintura a óleo de todos os tempos. Leonardo também foi um importante estudioso que, através de sua constante observação da realidade que o cercava, analisou os fenômenos naturais e criou ideias que até hoje são referências para muitas das invenções que foram imprescindíveis para o progresso da humanidade.

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Leonardo da Vinci: a Natureza da Invenção (pela primeira vez na América Latina) reúne mais de 40 objetos produzidos por engenheiros e pesquisadores no ano de 1952. O público poderá ver de perto projetos, maquetes e desenhos que foram reinterpretados dos manuscritos originais de Da Vinci e apresentados pela primeira vez no ano seguinte – e ainda podem ser vistas no Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci, em Milão, na Itália. A exposição conta também com recursos audiovisuais que explicam as mais diversas obras do artista, alem de alguns protótipos onde o público pode interagir e visualizar os temas propostos.

Muito mais do que a simples exibição sobre um artista, Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção proporciona um olhar reflexivo sobre um gênio que contribuiu significativamente em vários campos do conhecimento humano, como a engenharia, a matemática, a física, as artes, entre tantos outros. A mostra nos permite entender como a obra de Da Vinci foi revolucionária para sua época e como influenciou milhares de estudos seguintes, sendo de vital importância para muitas tecnologias que temos na atualidade. Dessa forma, Leonardo da Vinci: A Natureza da Invenção é um passeio obrigatório.

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LEONARDO DA VINCI: A NATUREZA DA INVENÇÃO
Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso (Galeria de Arte do Sesi-SP) – Avenida Paulista, 1313 – São Paulo-SP

Data: de 11/11/2014 a 10/05/2015
Horário: Segunda a domingo, das 10h às 20h (entrada permitida até 19h40)
Classificação: Livre
Entrada Gratuita
Informações: http://www.sesisp.org.br/cultura/

Foo Fighters Comemora 20 Anos com “Sonic Highways”

Lá se vão 20 anos de carreira de uma das bandas de rock mais influentes dos últimos tempos: Foo Fighters. Duas décadas de sucesso e reconhecimento por parte do público e crítica tornaram o grupo um referencial para novos artistas – e, certamente por isso, vimos Sonic Highways, último registro de estúdio dos caras, despontar como um dos álbuns de rock mais aguardados do ano.

01Sonic Highways precede Wasting Light, de 2011 – trabalho que faturou o Grammy de Melhor Álbum de Rock e que foi o primeiro do Foo Fighters a alcançar o número um nos EUA, recebendo muitos elogios da crítica. Sonic Highways, apesar de não ganhar um título numérico, é totalmente trabalhado em torno do número “8” – é o oitavo disco da banda e traz apenas oito faixas (no total, o álbum tem pouco mais de quarenta minutos). Alem das obviedades, o “8” também serve como uma espécie de metáfora ao “infinito” – que é explícito na capa e na arte oficial do registro.

A faixa de abertura é Something From Nothing – um dos singles deste trabalho que possui uma das melhores melodias da banda em anos (apesar da letra parecer meio descuidada, mas ainda assim é uma ótima experiência), recheada com guitarras distorcidas. The Feast and the Famine chega em seguida, com muita rapidez que, de cara, já nos mostra que o grupo liderado por Grohl sabe fazer rock – aliás, esta é a canção que mais nos remete à linha sonora do disco anterior e onde Dave mais gasta seus dotes vocais (unânimes, diga-se de passagem). Congregation é outra boa pedida, mas que peca por sua duração (são cinco minutos de pouca inspiração musical ou nada muito novo ou grandioso) e por sua sonoridade bem próxima ao pop rock, com versos melódicos e riffs bem executados.

What Did I Go? / God As My Witness, como a própria formação do título sugere, poderia se dividir em duas partes: começa lentamente e depois explode em uma melodia mais carregada, com um guitarra e bateria em sintonia profunda – e terminando com um fade out que a deixa com um misto de nostalgia. Outside é a faixa pop, digamos – ao menos, percebe-se um maior apelo “popular” e moderno na composição, mas que é incapaz de fazer você pular (talvez pelo excesso de instrumental, que acaba cansando um pouco). In The Clear é música obrigatória, com ótimos arranjos mas que também sofre com uma letra pouco inspirada. Subterranean é uma balada que tem um ar meio obscuro que nos lembra alguma coisa feita por Ozzy Osbourne. Fechando o disco, Grohl nos delicia com I Am a River, belíssima e, de longe, a mais bem trabalhada canção, mesmo com seus sete minutos (a guitarra inicial e o desfecho são épicos).

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Sonic Highways não é um álbum totalmente excepcional e desprovido de defeitos – e o principal é a duração de algumas canções e seu toque experimental, que fizeram com que a banda perdesse um bocado de sua personalidade. No entanto, há de se admitir que é um registro conciso, redondo em sua proposta e bem equilibrado, com músicas boas mas não tudo aquilo que esperávamos de um grupo como Foo Fighters. Talvez o maior atrativo desta fase seja a série Foo Fighters: Sonic Highways, exibida pela HBO e dirigida pelo próprio Dave Grohl. São documentários que acompanham as gravações do disco ao longo das oito diferentes cidades onde as faixas foram produzidas (respectivamente, Chicago, Washington D.C., Nashville, Austin, Los Angeles, New Orleans, Seattle e Nova York) – e vem sendo bem recebida pela crítica. Talvez Sonic Highways possa não parecer neste momento uma obra grandiosa, talvez ela sobreviva ao tempo, quem sabe Dave e companhia façam coisas melhores nos próximos anos. Mas uma coisa é certa: Sonic Highways não é infinito em sua concepção.