Um Fim de Semana em Paris (Le Week-end)

Nick e Meg formam um casal de professores universitários de meia-idade que estão naquela difícil fase da vida: vivem juntos há muito tempo e, consequentemente, a relação entre os dois já não tem a mesma intensidade. Para tentar resgatar um pouco do romance desvanecido ao longo dos anos, os dois decidem passar um final de semana na capital francesa, Paris – mas desde a chegada nada parece dar muito certo e, aos poucos, eles vão se dando conta de que as coisas entre eles estão piores do que imaginavam. No meia da história surge Morgan, um galante ex-pupilo de Nick, que com seu tipo charmoso encanta a esposa em crise.

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Um Fim de Semana em Paris, dirigido por Roger Michell (de Um Lugar Chamado Notting Hill e Um Final de Semana em Hyde Park), é uma comédia romântica simples, sem apelações e com um toque sutil de nostalgia (o que, fatalmente, poderá agradar um público mais maduro – especialmente aqueles que passam pela crítica fase do relacionamento em que o desgaste é natural). O filme acerta em cheio ao trazer à luz uma relação longeva, com todos os seus percalços, tristezas, angústias, desejos – até mesmo o sexo na terceira idade é pincelado brevemente na película. Entretanto, o longa escorrega no roteiro bastante vago, em alguns momentos até mesmo perdido – sem ser totalmente engraçado para considera-lo uma comédia e muito menos profundo no quesito “drama”. Dessa forma, Um Fim de Semana em Paris começa bem, com alguns trechos interessantes e levemente cômicos, mas se perde em uma falsa profundidade que acaba entediando o espectador.

Apesar do ótimo trabalho da dupla de atores (Jim Broadbent e Lindsay Duncan demonstram boa química em cena), Um Fim de Semana em Paris não consegue ser tão empolgante quanto a Cidade Luz. O espectador até enxerga umas referências a Godard ou sente um certo charme tal qual Woody Allen em suas tramas (a trilha sonora, por exemplo, funciona muito bem por sua delicadeza), mas é inegável que Um Fim de Semana em Paris não é tão intenso, apesar de ter potencial. Coincidentemente ou não, o filme é como seu título sugere: um final de semana em Paris – passa rápido para tudo o que se tem a fazer e na pressa você acaba fazendo de tudo sem aproveitar nada.

O Garoto da Casa ao Lado (The Boy Next Door)

Se há um clichê notável no cinema é a história de um homem e uma mulher que se envolvem sexualmente e, após um deles não desejar mais levar a relação adiante, a outra parte desenvolve certa obsessão pela primeira. A partir daí, começa aquele velho jogo de assédio e perseguição – até que um fim trágico aconteça.

Esse tipo de premissa já ganhou muitas variações – e, ainda assim, sempre nos deparamos com mais alguma história do gênero. Dessa vez, trata-se de O Garoto da Casa ao Lado, thriller estrelado pela popstar Jennifer Lopez – aqui, no papel de Claire, uma professora de literatura que está à beira do divórcio. Após uma noite de sexo com Noah (Ryan Guzman), seu novo vizinho, Claire decide acabar com o curto “romance” – o jovem é amigo de seu filho e ainda estudante do colégio onde leciona. No entanto, Noah logo se revela um rapaz violento, possessivo e psicótico, fazendo de tudo para ter Claire ao seu lado e colocando em risco a vida de todos.

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Obviamente, o grande “problema” de O Garoto da Casa ao Lado é sua falta de originalidade. Tudo ali parece ser retirado de outras produções e a todo instante o espectador tem aquela sensação de dejavú, como se já tivesse visto aquilo em algum lugar (e, de fato, é provável que ele já tenha visto aquilo em algum lugar antes). Não há nada novo ou original na fita e a impressão que se tem é que estamos diante de um filme “pré-moldado”, feito exclusivamente para ser uma mistura de todas as outras tramas similares. Com um roteiro previsível, onde tudo ocorre propositalmente, a narrativa é limitada de forma absurda, quase que com um ar de produção barata – mesmo que a protagonista seja uma beldade do porte de Jennifer Lopez. É fato: Jennifer está exuberante em cena – um furacão – e chega até a entregar uma boa performance. O que atrapalha sua personagem é justamente a vaidade da artista, que não permite que a atriz seja crível no papel de uma professora suburbana. Na verdade, o elenco em si é bastante atrativo e funciona muito bem, mas é prejudicado pelo status quo do filme – o que não deixa de ser lamentável.

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Dirigido por Rob Cohen – um cineasta mediano, mas que já esteve à frente de produções para a massa (Daylight, Velozes e Furiosos e A Múmia: Tumba do Imperador Dragão) – , O Garoto da Casa ao Lado vai, aparentemente, na contramão de seus trabalhos anteriores e, dessa forma, é descartável. Pode render, no máximo, alguma audiência na TV aberta sobretudo pelo elenco. Talvez a única coisa realmente boa de O Garoto da Casa ao Lado seja mesmo Jennifer Lopez – é uma pena o filme não ser tão atraente quanto ela…

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right)

Nic e Jules (respectivamente, Annette Bening e Julianne Moore) estão casadas há anos e tem dois filhos, concebidos por inseminação artificial a partir da doação de esperma de um desconhecido. As crianças crescem e decidem encontrar o doador do sêmen que os gerou – descobrindo, então, o boa praça Paul (Mark Ruffalo), o que colocará em risco a paz domiciliar.

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Se no início de Minhas Mães e Meu Pai o público chega a pensar estar diante de uma comédia descartável, aos poucos o filme de Lisa Cholodenko cresce até se tornar uma narrativa de gênero não definido, mas nem por isso desinteressante. O roteiro bem construído deixa de lado o tom cômico para trilhar um caminho mais propenso ao drama, mas fugindo dos clichês característicos do gênero e focando principalmente as relações entre os personagens. Minhas Mães e Meu Pai não é uma trama sobre um casal homossexual: é uma história sobre pessoas e relacionamentos (tanto que o longa funcionaria da mesma forma se os protagonistas fossem um casal formado por um homem e uma mulher).

Bening e Moore abrilhantam a película com suas atuações. Enquanto a primeira está ótima em sua composição da lésbica masculinizada (mas em nenhum momento estereotipada, como poderíamos esperar), Julianne empresta suavidade e leveza ímpares para a segunda mãe. Fica claro quem é quem na história: a mãe crítica que pega no pé e preza pelo futuro das crianças e aquela que é mais carinhosa e se preocupa com a felicidade dos filhos independente de suas escolhas. Ruffalo também desempenha bem sua tarefa na trama, assim como os promissores Josh Hutcherson e Mia Wasikowska – que parecem muito a vontade em cena e mantêm ótima interação com os veteranos.

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Apesar de não apresentar nenhum grande clímax, Minhas Mães e Meu Pai é um filme sobre uma família incomum – ou melhor, sobre um novo e moderno modelo de “família”. Não procura promover muitos debates, tampouco trazer algum tipo de ruptura ao abordar um casamento gay ou levantar questões sobre preconceito – o que seria o esperado ao lermos a sinopse superficialmente. Com um ar de cinema independente, Minhas Mães e Meu Pai é leve, redondo e bem feito, mérito não somente do ótimo trabalho do elenco mas também da direção de Lisa, que faz uma obra que apesar de não ser tão grandiosa quanto cinema “social”, é um entretenimento para se apreciar sem medo.

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)

Uma coisa que eu gosto é assistir a uma estreia de filme, ou ler um livro novo ou ouvir um álbum recém-lançado de um artista que eu curto sem criar expectativas. Motivo óbvio, mas real: quando não se espera nada (ou se espera pouco) não há decepções e, em alguns casos, é possível até se surpreender. Finalmente, depois de muito tempo, assisti ao comentadíssimo Cinquenta Tons de Cinza, adaptação cinematográfica da ficção homônima escrita por Erika Leonard James – e início de uma trilogia, seguida por Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade (todos best-sellers, sendo o primeiro o romance britânico mais vendido de todos os tempos). Como não conferi a obra literária (logo, não tenho nenhum referencial para comparação), tudo o que vou dizer a seguir se refere à produção como “cinema” – e já posso adiantar: Cinquenta Tons de Cinza é ruim.

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Simples assim, não há muito o que falar. Com honestidade, demorei para assistir porque nunca me interessei pela trama. Não procurei nenhuma crítica prévia, não vi a avaliação do filme em redes sociais e tudo o que sabia sobre o longa era o que via amigos comentarem – e até aqui as opiniões eram mistas. Haviam aqueles que gostaram (geralmente, mulheres – e isso me assustou, como explicarei mais adiante) e os que desprezaram (normalmente os homens e cinéfilos mais chatos). Logo, concluí que Cinquenta Tons de Cinza poderia não ser uma grande obra cinematográfica, mas funcionaria como entretenimento. Engano meu. Cinquenta Tons de Cinza é ruim, sim.

Eis a sinopse: um milionário com tendências sádicas que se envolve com uma virgem de 20 e poucos anos que estuda literatura. Entre transas e caretas, a relação entre os dois vai se fortalecendo – o que, consequentemente, acaba confundindo os sentimentos do casal. Mas até tudo isso se desenvolver ao longo de mais de duas horas, Cinquenta Tons de Cinza é um festival de clichês em todos os aspectos: do roteiro com cenas previsíveis e soluções prontas à direção amadora de Sam Taylor-Johnson, visivelmente insegura e com medo de arriscar. Por esta razão, é difícil acreditar nos personagens, no drama e em qualquer coisa que se vê em cena. Até mesmo a edição e fotografia parecem “prontas”, além da trilha sonora de Danny Elfman que está ligada literalmente no modo automático e chega a ser quase vergonhosa.

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Para agravar a situação, os protagonistas não colaboram. Se a proposta era retratar uma personagem feminina insossa e apática, não há dúvidas de que este objetivo foi alcançado porque Dakota Johnson é irritantemente sem vida. É quase impossível imaginar, por mais esforço que se faça, que um magnata que pode ter qualquer mulher a seus pés vá se apaixonar por um tipo tão sem graça. Já o galã Jamie Dornan está muito distante daquilo que esperamos de um Christian Grey. Após inúmeros nomes serem cotados para o papel, é triste ver que a diretora optou pelo mais fraco. Dornan pesa a mão para criar o perfil sexy do ricaço. Em diversos momentos, inclusive, é possível enxergar nele alguns trejeitos que remetem vagamente a um outro protagonista masculino que muita gente despreza. Em outras palavras, o Christian Grey de Dornan é quase uma versão humana de Edward Cullen.

Se durante muito tempo os longas da série Crepúsculo foram referência ao falarmos de filmes “ruins”, facilmente Cinquenta Tons de Cinza passa a ser o novo campeão do pódio – e leva a melhor porque a saga de Stephenie Meyer era destinada, sobretudo a um público juvenil, enquanto Cinquenta Tons de Cinza tem a suposta premissa de ser veiculado a um espectador adulto, com certo apelo erótico e tudo mais. Falhou. Para além de tudo o que falamos, Cinquenta Tons de Cinza peca na forma arcaica e machista como trata suas personagens femininas, meros objetos de uma sociedade que as oprime e ainda as vê como seres inferiores. Há a exploração barata do corpo e, principalmente, da figura do sexo feminino – e me surpreende saber que há mulheres que compartilham e admiram esta abordagem, tratando como “ideal masculino” um tipo totalmente medíocre e que em nenhum momento se importa com ninguém a não ser consigo mesmo e seu prazer. Cinquenta Tons de Cinza, longe de excitar ou promover alguma discussão, é um triste caso de cinema desnecessário, descartável e, principalmente, desprezível.

César Deve Morrer (Cesare Deve Morire)

Premiado em 2012 no Festival de Berlim como melhor filme, César Deve Morrer acompanha os ensaios para a encenação de uma versão livre da tragédia shakespeariana Júlio Cesar, onde os atores são detentos da área de segurança máxima da prisão de Rebibbia, nos arredores de Roma, na Itália. Utilizando-se de jogos cinematográficos bastante peculiares, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani (famosos por seus trabalhos com temas de alto cunho político) nos entregam uma obra experimental que, alem de outras propostas, disserta também sobre o papel da arte como instrumento de transformação do ser humano.

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A princípio tratado como um documentário, aos poucos percebemos que este gênero fica cada vez mais distante de César Deve Morrer. Apesar de alguns dos atores serem realmente presidiários daquele recinto, o filme não é um registro dos preparos para a montagem do espetáculo ou mesmo sobre algum projeto social que envolva os delinquentes locais. César Deve Morrer deixa de lado o tom documentarista para, pouco a pouco, dar espaço à própria trama do dramaturgo inglês, fazendo com que os dramas de cada indivíduo se confunda com a história shakespeariana. As cenas dos ensaios se misturam à rotina dentro daquela prisão, em uma mescla interessante de ficção e realidade que é acentuada pelo apelo teatral do longa. Nunca sabemos ao certo quando estamos diante da peça de Shakespeare ou do cotidiano daqueles homens – como nos momentos em que eles dialogam sobre traição, morte, liberdade (eles estão encenando ou apenas falam de si mesmos?).

Filmado predominantemente em preto e branco (o que torna a fotografia muito mais atraente, além de criar um aspecto claustrofóbico que é propício para aquele ambiente), César Deve Morrer se desenvolve sobre a linha tênue entre realidade e ficção, com um roteiro excepcional que faz com que o drama do espetáculo se torne o drama pessoal de cada um de seus protagonistas (muito bem em cena, diga-se de passagem). Para além da infindável discussão sobre a arte e seu papel social (“Desde que conheci a arte, esta cela virou uma prisão”, diz um dos personagens, diretamente para a câmera em um dos melhores instantes da fita), César Deve Morrer é o reflexo da Roma antiga clássica estampada nos rostos daqueles criminosos. Por coincidência ou não, a maior parte deles está cumprindo pena ali por crimes de formação de quadrilha ou ligação à máfia – o que promove também um debate inquietante sobre a criminalidade na atual Itália e seus viés político.

Mortdecai – A Arte da Trapaça (Mortdecai)

Logo nas cenas iniciais de Mortdecai – A Arte da Trapaça somos apresentados a nosso protagonista: Charlie Mortdecai, um negociador de arte com caráter duvidoso e que está à beira da falência. Para saldar uma dívida milionária, ele aceita a missão de recuperar uma obra de arte que teria uma senha para acesso a uma conta secreta cheia de ouro nazista.

02Detonado pela crítica, Mortdecai – A Arte da Trapaça também foi um fracasso de bilheteria – o terceiro seguido de Johnny Depp (precedido por Transcendence e O Cavaleiro Solitário). Mas o desprezo por Mortdecai não é mérito exclusivo de Depp. Está certo, convenhamos: Johnny Depp nunca foi um grande intérprete; a bem da verdade, ele é um artista mediano desde os tempos remotos. Para além disso, Johnny é um ator de tipos. Sabe aquele seu colega de trabalho que imita os demais e faz piada de si mesmo? Este é Johnny Depp atuando – infelizmente o público só percebeu isso após a franquia Piratas do Caribe. Mas ele não chega necessariamente a decepcionar e sua atuação até que flui razoavelmente bem – até porque ele está acostumado a fazer exatamente esse tipo de persona, então não há nada muito novo e ele parece até mesmo estar confortável em cena. O fato é que Mortdecai é ruim por si só.

Adaptado da obra de Kyril Bonfiglioli, Mortdecai – A Arte da Trapaça possui um elenco de peso – Gwyneth Patrow, Ewan McGregor e Paul Bettany também participam da fita. Mas todas as suas personagens beiram a canastrice, desde um mordomo ninfomaníaco a um inspetor de polícia bobão que disputa com o protagonista o amor de sua esposa insossa. O próprio Charlie é um tipo que não desperta a menor empatia: não se sabe se ele é um herói ou vilão, pois ele não faz nada relativamente grandioso para ser admirado ou odiado, oscilando entre esses dois extremos de forma irregular. Tudo é acentuado em um roteiro mal construído, que não deixa claro em nenhum momento qual é a proposta do filme: ora comédia, ora policial, Mortdecai falha em ambos já que a veia cômica não funciona e recorre a piadas culturais e artísticas sem o menor sentido, enquanto as tramas policiais não empolgam.

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Com uma trilha sonora previsível e todo seu ar caricatural, Mortdecai escancara apenas o desgaste da imagem de seu protagonista. Não há dúvidas: o público parece ter se cansado de Johnny Depp; sua carreira parece estar estagnada e seu talento esvanecendo. Mas como falei, ele não é o responsável direto por todo o estrago que é Mortdecai. O diretor David Koepp (que já dirigiu Depp em A Janela Secreta) tinha em mãos um material batido e sem muito charme e assim fica difícil para qualquer elenco fazer milagre. Mortdecai é um filme que até poderia ser um bom entretenimento – e pode até agradar um ou outro que vá ao cinema sem nenhuma expectativa. Culpar Johnny Depp? Acho injustiça. Fechando os olhos para Depp e considerando todo o restante, Mortdecai – A Arte da Trapaça é uma bomba com a presença do astro ou não.

O Amor é Estranho (Love is Strange)

John Lithgow e Alfred Molina são os protagonistas de O Amor é Estranho, novo filme de Ira Sachs (do ótimo Deixe a Luz Acesa, de 2012, início de uma trilogia), cuja trama gira em torno de um casal homossexual que, juntos há quatro décadas, decide oficializar a união. Isso faz com que um deles seja demitido da escola católica onde leciona música – apesar da relação não ser novidade para ninguém e, aparentemente, tampouco incomodar os alunos e suas famílias. Com problemas financeiros e dificuldades em manter o apartamento, eles são forçados a viver na casa de amigos e parentes enquanto acertam suas vidas.

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O Amor é Estranho se apoia totalmente nas ótimas atuações de seu elenco central. Equilibrado, O Amor é Estranho não possui cenas memoráveis, sendo um filme até anti-climático – o que pode causar certo desconforto em alguns momentos. No entanto, o cineasta acerta ao tratar as situações incômodas que são geradas no momento em que os dois amantes se separam. Em certo ponto, um dos personagens confessa: “Ao morar com as pessoas, você as conhece talvez mais do que gostaria”. Os problemas afetam a todos os envolvidos: enquanto um deles vai passar uma temporada com um casal de amigos mais jovens (cuja vida agitada perturba o sossego do hóspede), o outro vai viver com o sobrinho e sua família, incluindo a esposa escritora e o filho adolescente.

Apesar de ser bem feito tecnicamente (trilha sonora pontual e uma fotografia e design de produção bastante agradáveis), O Amor é Estranho não consegue passar disso. Já tem algum tempo que Hollywood abre espaço para tramas que envolvam personagens homossexuais, tentando tratar com a maior naturalidade possível uma parcela da população que sempre foi marginalizada ou mal representada no cinema. E é isso que ocorre em O Amor é Estranho: sua naturalidade, simplicidade e generosidade em abordar um problema que pode ser comum a qualquer casal (sem abusar do melodrama) são seus maiores méritos. Seu equilíbrio é o que, talvez, cause certo marasmo – algo que não diminui o filme, mas o limita consideravelmente.

O Homem Elefante (Elephant Man)

01Confesso que conhecia David Lynch apenas de ouvir falar e ainda não tinha tido a oportunidade de assistir a nenhum de seus filmes (ao menos, não me senti muito interessado em sua filmografia, para ser honesto). Quando recebi o desafio de escrever sobre um de seus longas, questionei a um amigo (um fã inveterado do diretor) qual seria um bom ponto de partida para mim – e, de prontidão, obtive a resposta: “Assista e escreva sobre O Homem Elefante“. E a sugestão não poderia ter sido melhor.

Baseado em uma história real, a trama de O Homem Elefante nos leva a Inglaterra vitoriana do século XIX e retrata o drama de John Merrick (John Hurt), um homem que sofria de uma doença grave (um tipo raro de neurofibromatose múltipla) que deformava quase todo o seu corpo – e, por conta disso, era tratado como uma aberração. Após ser exibido durante anos em “circos de horrores” pela capital inglesa (os famosos freak shows, uma febre na época), John é descoberto por um médico do hospital de Londres, o renomado Frederick Treves (Anthony Hopkins) – que, com o passar dos dias, fica cada vez mais fascinado com a figura de Merrick.

Como não tive nenhum contato anterior com a obra de Lynch, não tenho muitos parâmetros para comparar O Homem Elefante com nada que ele já tenha feito. De certa forma, isso foi saudável pois pude absorver o filme individualmente, sem referências – e nessa empreitada, me deparei com uma narrativa de extremo requinte, especialmente em seu roteiro, que não apressa os fatos e paulatinamente vai surpreendendo o espectador com o progresso da personagem título. Se no início da trama Merrick nos é apresentado como uma aberração humana e desde sempre diagnosticado como um doente mental, aos poucos ele se revela um indivíduo com plena normalidade intelectual. Mais do que isso: Merrick é uma pessoa amistosa, amável e digna de afeto. O espectador acompanha esta descoberta junto com Merrick e Frederick – porém, diferente deste último, o público não tem o poder de agir sobre os acontecimentos, sendo meros observadores.

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Outro ponto que merece destaque em O Homem Elefante é a fotografia em preto e branco que, junto a bela direção de arte, contribui muito para transportar o espectador diretamente para a Londres do século XIX, em plena efervescência da Revolução Industrial, causando um clima mais opressivo ao longa. É ainda interessante notar que toda esta ambientação nos remete de imediato ao expressionismo alemão e, de certa forma, também aos filmes de terror britânicos das décadas de 40 e 50 – escolas que são referências até hoje na linguagem cinematográfica. A maquiagem também é primordial para a caracterização do protagonista, sendo indispensável para o ótimo desempenho de John Hurt – que inclusive foi indicado ao Oscar de melhor ator naquele ano. Se o público é capaz de se solidarizar com Merrick, Hurt tem todos os méritos pois o desenvolvimento de sua personagem é louvável (desde as expressões corporais desengonçadas do início da fita até a doçura e mansidão que aquele ser deformado demonstra ter por todos).

Com uma trilha sonora um tanto “pesada” que ressalta o ar dramático (e que, a seu modo, é puro “circense”), O Homem Elefante promove alguns debates importantes, sendo que o principal deles é a crítica precisa à sociedade do espetáculo: mesmo fora dos palcos, John continua a ser um mero objeto “espetáculo”, não muito diferente de sua condição anterior. No melhor estilo “fera” (feio por fora, mas belo por dentro), John nunca deixa de chamar a atenção e ser um tipo que desperta curiosidade. O que é impressionante (e também é um tema a ser discutido aqui) é o quanto o “diferente”, o “novo” acabam por chocar as pessoas e causar preconceito. Esse talvez seja o grande êxito do cineasta: David utiliza o passado para criticar o seu presente – fazendo com que O Homem Elefante sobreviva aos tempo e seja atemporal em sua proposta.

Bem Perto de Buenos Aires (Historia del Miedo)

Estamos em um condomínio próximo à cidade de Buenos Aires, em um bairro aparentemente de classe média. É nesse cenário que alguns fatos isolados (inclusive um blackout) começam a acontecer e abalar a tranquilidade dos moradores daquela região.

01Esta é a sinopse de Bem Perto de Buenos Aires, produção argentina com pouco menos de uma hora e meia que chegou esta semana às salas de cinema do país. O longa de estreia de Benjamín Naishtat, no entanto, se revela um filme enfadonho, cansativo e desestimulante, à medida que trabalha em uma espécie de loop infinito onde nada significativamente importante acontece. Ou melhor: o cineasta foge da receita tradicional “começo, meio e fim” dos acontecimentos – e, como consequência, o espectador se sente perdido, tentando a todo momento encontrar sentido no que vê em tela. É como se a proposta não fosse explicar os fatos, mas apenas mostrar o comportamento dos personagens em relação a eles e, assim, o suspense é frustrado a todo instante.

Confesso que procurei na rede algumas críticas sobre o longa – pois tive todas as dificuldades possíveis para digerir a narrativa estendida do cineasta. Apesar de muitos veículos fazerem mil teorias a respeito, confesso que não me senti nem um pouco à vontade com a fita. Os diálogos são pequenos mas estendidos, como se para criar um falso clima “culto” – mas sem a menor profundidade. O diretor recorre a inúmeros pontos onde o silêncio predomina – e, dessa forma, também o marasmo, que permeia todo o filme, acentuado por uma fotografia muito pouco atraente e uma trilha sonora fraca.

Assisti a Bem Perto de Buenos Aires em sua noite de estreia, em um cinema de rua razoavelmente bem frequentado, em uma sessão com pouco mais de 20 pessoas. Antes do fim da primeira parte da projeção, metade delas já havia desistido e deixado o recinto. Eu continuei lá, firme e forte, esperando que algo acontecesse na película – mas nada interessante realmente aconteceu e isso me frustrou. Bem Perto de Buenos Aires pode ter todas suas falsas pretensões – o próprio título original (Historia del Miedo) é muito mais sugestivo do que sua péssima tradução – , mas falha ao tentar trabalha-las, entregando um filme totalmente descartável e que não desperta qualquer interesse.

Para Sempre Alice (Still Alice)

A trama de Para Sempre Alice acompanha uma renomada doutora de linguística e mãe de família exemplar que é diagnosticada com uma espécie precoce de Alzheimer. Ao longo da fita, o público acompanha a luta diária de Alice contra sua doença, o abandono de suas funções acadêmicas e a busca de apoio no relacionamento com o esposo e os filhos.

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Para Sempre Alice é um drama que gira em torno da atuação de sua protagonista, a sempre competente Julianne Moore – não à toa, seu trabalho lhe rendeu sua quinta indicação ao Oscar e Moore é apontada como a favorita ao prêmio deste ano. Julianne carrega no olhar todo o sofrimento de sua personagem (aliás, é incrível a capacidade da intérprete de se comunicar com o olhar), que se vê gradativamente perdendo tudo aquilo que conquistou: Para Sempre Alice é um filme sobre as perdas irreparáveis da vida. Curiosamente, no entanto, Alice não me parece a melhor performance de Moore; particularmente, acredito que a atriz já teve outros momentos tão ou mais empolgantes quanto este (Julianne passou desapercebida, por exemplo, com seu ótimo papel em Mapas Para as Estrelas). A parte disso, os demais nomes do elenco são competentes, desde o veterano Alec Baldwin até Kristen Stewart, que desponta como uma grata surpresa no longa. Arriscaria dizer que, em um ano em que Emma Stone ganhou uma indicação ao Oscar de melhor coadjuvante com um tipo morno em Birdman, Kristen poderia facilmente estar na disputa.

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Com um roteiro que foge de soluções fáceis ou melodramáticas, Para Sempre Alice é, no entanto, até mesmo anticlimático: talvez por sua abordagem deveras delicada, não há grandes momentos de explosão dramática capazes de arrebatar o público. É um filme que constrói sua narrativa aos poucos, à medida que acompanhamos a trajetória de nossa heroína – o que inevitavelmente causa alguns instantes de monotonia. A direção objetiva e razoavelmente simples da dupla Wash Westmoreland e Richard Glatzer (este último que também sofre uma doença degenerativa) entrega uma obra apenas mediana, que só fica maior por conta de Julianne Moore, que é o centro de tudo o que acontece aqui – até mais do que sua própria personagem.