Todo Dia (Every Day)

Não importa o lugar, gênero ou personalidade: “A” acorda todo dia em um corpo diferente e precisa se adaptar a este novo corpo, ainda que apenas por um dia. Após tanto tempo vivendo dessa maneira, “A” já sabe exatamente que não deve se envolver e muito menos interferir na vida destas pessoas. Tudo vai bem até o dia em que “A” amanhece no corpo do adolescente Justin e conhece sua namorada, Rhiannon, por quem acaba se apaixonando.

Baseado no best-seller de David Levithan e dirigido por Michael Sucsy, Todo Dia  tem uma premissa interessante e original, infelizmente prejudicada por um roteiro que não se aprofunda em questões que poderiam ser exploradas, como a importância de se viver intensamente como se fosse o último dia, por exemplo. O argumento meio que inverte o protagonismo da história em sua segunda parte – e isso reduz a trama a um simples romance adolescente. Com um incrível potencial, porém desperdiçado, Todo Dia  centra sua narrativa nas dificuldades de se amar alguém sem saber o que vai acontecer em seguida, enquanto faz alusão também aos relacionamentos baseados puramente em atração física – mas isso tudo muito superficialmente, fazendo com que Todo Dia  não vá além de um filme bonitinho pra Sessão da Tarde, mas sem muita relevância como a obra que o originou.

Custódia (Jusqu’à la Garde)

O amor é a coisa mais triste quando se desfaz…”, já dizia uma velha canção popular brasileira. De fato, quando o amor acaba sempre há um lado que sai machucado – ou vários. Para Miriam (Léa Drucker) e Antoine (Denis Ménochet), a separação é inevitável – o que resta agora é brigar na justiça pela guarda do filho Julien (Thomas Gioria).

Xavier Legrand tem dois grandes méritos com Custódia. O primeiro deles é ótimo roteiro, que abraça a ambiguidade para construir uma narrativa inquietante. “Eu não sei qual dos dois é o mais mentiroso…”, diz a juíza ao casal durante a audiência que determina a custódia compartilhada da criança. Esta afirmação, porém, é a mesma que fazemos: ficamos na dúvida se o depoimento do garoto foi manipulado pela mãe, como se ele estivesse sendo usado por ela para se vingar do ex-marido, ou se, de fato, estamos diante de um pai agressivo. Esta dúvida nos persegue durante as duas primeiras partes do filme, uma vez que não conseguimos definir de imediato quem é quem nesta história. Aos poucos, no entanto, vamos desnudando a verdadeira relação entre aqueles familiares, através de pequenas situações que revelam a natureza de cada um dos personagens.

O segundo acerto de Legrand é sua competente direção, em especial na terceira e última parte da fita. É interessante notar o desempenho do cineasta na manipulação do público, tanto na ambiguidade dos primeiros atos quanto na tensão que se estabelece ao final, quando as máscaras caem de vez e a agonia toma conta da tela. A cena da festa de aniversário é o melhor exemplo do talento do diretor: a pouca iluminação contrasta com a música que contagia os convidados; uma mensagem é recebida; do lado de fora, cônjuges discutem; pouco tempo depois, um jovem casal organiza o salão no fim da noite – enfim, ficamos sempre na expectativa de algo muito sério que está por vir. Seja nos usos eficientes da luz e trilha sonora ou na edição precisa do longa, Legrand se apropria destes elementos para estabelecer uma conexão com o espectador: ele se torna íntimo daqueles personagens, praticamente tendo as mesmas sensações que eles.

Particularmente, confesso que poucas vezes saí do cinema tão perturbado, mexido, transtornado como depois de assistir Custódia. Para um diretor relativamente inexperiente, Legrand nos entrega um filme marcado por um excelente rigor cinematográfico. Artifícios técnicos (e psicológicos) são precisamente empregados para abordar um tema incômodo e, mais do que nunca, universal: a violência doméstica. O final apoteótico, por si, já fala muito e nos faz ficar com o filme na cabeça por muito tempo depois.

O Último Suspiro (Dans la Brume)

Após um terremoto, uma enorme neblina misteriosamente invade Paris, dizimando grande parte da população. Aqueles que moram nos prédios mais altos têm a chance de sobreviver, já que a névoa pára a certa altura, formando uma espécie de teto que toma conta da cidade. Tudo o que resta é esperar por uma solução que parece estar longe de chegar. Neste cenário caótico, o casal Mathieu (Romain Duris) e Anna (Olga Kurylenko) luta pela sobrevivência e a vida de sua filha Sarah, uma jovem que, devido a uma doença genética, fica constantemente confinada a uma câmera estéril.

Dirigido por Daniel Roby, O Último Suspiro  é um daqueles filmes de definição imprecisa. Devido sua narrativa um tanto peculiar, é difícil situa-lo como uma ficção cientifica, um thriller, um drama pós-apocalíptico, uma fantasia ou o que quer que seja. É uma produção bastante moderada, que passa longe de qualquer blockbuster norte-americano, mas que também sofre com uma ausência de profundidade que o impede de se destacar como outros títulos franceses contemporâneos, como o recente A Noite Devorou o Mundo. Assim, O Último Suspiro  não conseguir ir muito além. Apesar das visíveis tentativas em criar um clima de tensão, o roteiro apresenta soluções que pouco convencem – isto sem mencionar o didatismo do mesmo em inúmeras passagens. O que vemos na tela são heróis que muito tentam, mas pouco conseguem fazer efetivamente, em uma corrida contra o tempo que se mostra desestimulante. Ainda que seja uma obra cheia de boas intenções, O Último Suspiro  peca por ficar em cima do muro, sendo prejudicado até mesmo pela falta da megalomania tão comum a outros filmes do gênero.

No Olho do Furacão (The Hurricane Heist)

Em meio à chegada de um furacão de proporções gigantescas, um grupo planeja um roubo milionário a uma unidade do Tesouro dos Estados Unidos. Para concretizar o plano, eles precisam do código de acesso ao sistema guardado por Casey (Maggie Grace), uma das agentes federais.  Ao lado dos irmãos Breeze (Ryan Kwanten) e Will (Toby Kebbell), cujo pai faleceu no passado em uma tragédia similar, a funcionária precisa não apenas impedir o assalto, mas também sobreviver à maior tempestade que está por vir.

Há filmes que são propositalmente ruins e há outros que são simplesmente ruins. No Olho do Furacão  se enquadra na segunda categoria anteriormente citada, já que o longa dirigido por Rob Cohen (de Velozes e Furiosos  e Triplo X ) parece realmente se levar a sério, não se dando conta do quão fraco é em sua totalidade. O roteiro confuso e sem nexo algum consegue piorar muito o absurdo da história e está cheio de passagens sem o menor sentido (a começar da ideia de realizar um roubo em meio à catástrofe natural que se anuncia).

As soluções fáceis do argumento também prejudicam a fita. O tal furacão, a título de exemplo, é capaz de jogar pelos ares quaisquer objetos, inclusive os bandidos – mas os mocinhos nunca são sugados por ele. Leis da física? Zero. Além disso, os personagens são extremamente mal construídos, desconhecendo suas próprias motivações e agindo de forma incoerente aos seus objetivos – haja vista os vilões que não perdem a oportunidade de metralhar Casey (mesmo precisando dela para conseguir a grana) ou os próprios protagonistas, que parecem desprovidos de qualquer senso de sobrevivência.

Em sua reta final, Rob abraça de vez aquilo que sabe fazer bem: perseguição em alta velocidade. Pena que esta cena não é capaz de salvar o restante da película, que ainda peca no exagero dos efeitos especiais (e, para muitos, na qualidade deles). Diferentes de outros filmes do gênero, que narram catástrofes naturais fazendo alusão a resposta da natureza à ação do homem sobre ela, No Olho do Furacão  não promove reflexão alguma sobre qualquer tema. Não há mensagem, nem coesão; apenas caos. Bem, não vou ser tão chato assim: se você curte produções como as da franquia Velozes e Furiosos e não se importa em sair do cinema com a mente completamente vazia, certamente não vai ficar tão decepcionado com No Olho do Furacão.

Marvin (Marvin)

Marvin nunca fora como os outros garotos de sua idade. Por conta de sua personalidade tímida e introspectiva, virou alvo fácil dos abusos e maus tratos dos colegas da escola; já em casa, é desprezado pela família pobre (social e culturalmente), que o considera muito efeminado. Inseguro, ele está naquela fase em que você sabe que alguma coisa está acontecendo, mas ainda não sabe muito bem o que é e muito menos como lidar com ela. Ao se juntar ao grupo teatral do colégio de sua pequena cidade, o adolescente descobre sua verdadeira vocação – e também uma válvula de escape para as situações que o atormentam. Mais tarde, ao atingir a maioridade, Marvin se muda para Paris com o sonho de tornar-se ator e, em meio à produção de seu espetáculo, o artista relembra trechos de sua tumultuada infância.

Inspirado na autobiografia escrita por Édouard Louis, Marvin  é um longa francês que vai muito além de um simples coming out. Com uma narrativa não linear (que vai e vem, através das memórias de seu protagonista), o filme dirigido por Anne Fontaine (Coco Antes de Chanel  e Agnus Dei) nos permite observar de perto os dramas de um indivíduo em busca não apenas de aceitação, mas sobretudo afirmação como o ser humano que é – e, portanto, igual a qualquer outro e digno de respeito. Ousada em sua condução, a cineasta nos apresenta inúmeros momentos fragmentados, porém significativos, que marcaram a trajetória de seu personagem principal, como as humilhações, agressões, os questionamentos, os desejos – enfim, tudo o que contribuiu na formação de Marvin, vivido por um Finnegan Oldfield irrepreensível. O ator consegue ir da total inexpressão a um turbilhão de sentimentos com muita naturalidade – Finnegan é um intérprete que se comunica demais através do olhar e isso agrega muito às suas atuações. A ausência de linearidade, contudo, não dificulta a compreensão desta poderosa obra (mesmo que algumas sequências possam parecer um pouco incoerentes ou soltas em seu contexto). Marvin  não deixa de tocar em pontos tão comuns a filmes deste gênero (aceitação, bullying, homofobia), mas seu lirismo e sensibilidade tornam a experiência muito mais agradável e enriquecedora.

Correndo Atrás (Correndo Atrás)

Assim como muitos brasileiros, o (nem tão) malandro Ventania se vira como pode: ele vive de pequenos bicos, pulando de emprego em emprego só para pagar as contas que se acumulam a cada dia (inclusive os meses de pensão atrasada do filho, os cortes de cabelo fiados no salão do Sr. Aníbal e os empréstimos com os amigos de sua pequena comunidade). Apesar disso, Ventania não perde o bom humor e a esperança, trazendo sempre um belo sorriso no rosto.

Baseado no livro Vai na Bola, Glanderson, de Hélio de La Peña (que assina o roteiro ao lado do diretor, Jeferson Dê), Correndo Atrás não é, necessariamente, um título muito relevante na filmografia tupiniquim – exceto pelo fato de ter um elenco composto quase exclusivamente por atores negros (quase, porque temos um Tonico Pereira e uma Dadá Coelho em participações especiais). Correndo Atrás  é uma daquelas típicas comédias nacionais, cuja cinematografia está longe de ser excepcional (embora o filme seja bem produzido, é verdade). A trama é simples em sua proposta, apresentando certa dose de previsibilidade e soluções um tanto fáceis em inúmeras cenas – principalmente a partir do momento em que Ventania decide “empresariar” o jovem Glanderson, um adolescente pobre com um incrível talento no futebol.

01

Não obstante, Correndo Atrás  é um longa deliciosamente divertido, daqueles em que você sai do cinema muito satisfeito. O humor funciona bem, as piadas são realmente engraçadas e somos presenteados com a ótima atuação de Ailton Graça, em seu primeiro protagonista. Ventania é um herói de fácil identificação: mesmo em meio às dificuldades da vida, ele nunca desiste (ou talvez não o faça justamente porque não o possa). Ventania é o retrato de muitos cidadãos brasileiros por aí e é certeza que você já deve ter ouvido alguma de suas histórias em uma mesa de bar com os amigos, uma conversa entre os vizinhos ou mesmo de algum parente mais distante. É esta fotografia do “homem brasileiro comum”  que torna Correndo Atrás  também uma crítica social (talvez não muito profunda, ok) à forma como enxergamos a negritude no país, em especial aquela pertencente às camadas menos favorecidas da população – e o humor é um excelente instrumento de crítica e reflexão, convenhamos. Não que o filme seja panfletário; longe disso, Correndo Atrás  é puro entretenimento. Mas é sempre gratificante ver o negro ganhando seu merecido espaço no cinema.

O Amante Duplo (L’Amant Double)

Da atual geração de diretores franceses, François Ozon é provavelmente o meu predileto. Eu particularmente sou apaixonado pela total destreza com a qual o cineasta consegue percorrer pelos mais diversos gêneros, fazendo com que em sua filmografia nenhum filme seja igual ao outro. Por este motivo, é sempre com muita expectativa que aguardo a uma nova obra do idealizador e dificilmente saio decepcionado. Com O Amante Duplo não foi diferente: neste thriller psicológico, Ozon transforma uma história banal (e digna de folhetim) em uma surpreendente trama repleta de suspense e erotismo.

Marine Vatch (que já foi protagonista de Ozon em Jovem e Bela) interpreta Chloé, uma mulher que procura a ajuda de um psicólogo, Paul (Jérémie Renier), para tratar das fortes dores que sente em seu ventre e que acredita ser de causa psicológica. Aos poucos, médico e paciente se aproximam e iniciam uma relação, que fica estremecida quando Chloé descobre um segredo do companheiro: Paul tem um irmão gêmeo, também psicólogo, mas com personalidade completamente oposta à sua. Cabe a Chloé agora achar a resposta para a pergunta: qual dos dois é o gêmeo dominante?

É certo dizer que o argumento de O Amante Duplo (que concorreu à Palma de Ouro em 2017) escorrega um tanto em seu mistério (principalmente em sua reta final, quando abraça de vez o suspense), já que, à medida que o filme avança, o enredo se torna um tanto confuso, carecendo um pouco de objetividade. François compensa essa deficiência, entretanto, com uma mise-en-scène  bastante firme e segura, com referências claras às obras de David Cronenberg e Brian de Palma – com relação a este último, Ozon se apropria até mesmo de um dos artifícios tradicionais de Brian, a tela dividida, para brincar com a questão do “duplo”. Na verdade, o “duplo” parece ser a grande proposta da película e é muito bem manuseado através da fotografia e direção de arte (como no intenso uso de espelhos nos ambientes, por exemplo, ou outros elementos visuais).

Somos surpreendidos, no entanto, com a extravagância de Ozon: propositalmente novelesco, O Amante Duplo é um filme que se assume como tal em muitos aspectos, seja na paleta cheia de cores, nas cenas carregadas de erotismo, nos inúmeros simbolismos, nas acentuadas diferenças entre os dois irmãos (algo quase como “gêmeo bom versus gêmeo mau”) ou, finalmente, no absurdo da trama. Felizmente, estes são itens que poderiam atrapalhar qualquer produção, mas a condução de Ozon (aliada às ótimas atuações do elenco e uma cinematografia caprichada) faz de O Amante Duplo um dos títulos mais interessantes do diretor.

Z (Z)

Adaptação do livro homônimo de Vassilis Vassilikos, lançado em 1967, Z  é a obra-prima de Costa-Gavras, cineasta grego (naturalizado francês) cuja filmografia é caracterizada por uma visão sócio-política muito apurada – que, infelizmente, não é conhecida pelo grande público. A trama básica é inspirada no famoso caso Lambrakis, ocorrido na Grécia no início dos anos 60, e narra o brutal assassinato de um político liberal (Yves Montand) após um discurso em uma manifestação de paz, crime este considerado inicialmente um simples acidente. Ao investigar o caso, um magistrado (Jean-Louis Trintignant) revela um poderoso esquema escandalosamente acobertado por uma rede de corrupção e ilegalidade na polícia.

Se considerarmos o atual cenário mundial, podemos chegar à conclusão que Z  não é somente atemporal, como também profético, não apenas em seu contexto histórico mas também em sua cinematografia, marcada pela fotografia perspicaz de Raoul Coutard (expoente da nouvelle vague) e por uma edição descontínua, extremamente moderna para a época. Estamos diante de uma descrição em estilo semidocumental (dado a frieza e objetividade do relato) em um ritmo eletrizante, que “melhora” muito o roteiro – já que este não é totalmente isento de pequenas falhas, principalmente quanto à ambientação da narrativa que confunde o contexto histórico de início. Felizmente, Z  ultrapassa barreiras culturais: o filme já se inicia com a advertência de que os fatos ali são intencionais, não há coincidências. É essa ousadia que faz com que seja impossível falar de cinema político sem referenciar Z.

EDIT: produzido em 1969, Z  foi censurado no Brasil durante a ditadura militar, estreando por aqui 10 anos após seu lançamento original.

Nos Vemos no Paraíso (Au Revoir Là-haut)

Adaptação do romance de Pierre Lemaître, Nos Vemos no Paraíso é narrado pelo protagonista Albert Maillard (Albert Dupontel) que, durante um depoimento à polícia, relata sua improvável amizade e parceria com Édouard Péricourt (Nahuel Pérez Biscayart). Os dois não têm nada em comum: Pierre é um simples escriturário, pertencente à classe proletária, enquanto o jovem Édouard é filho de um ricaço da cidade, com quem sempre teve uma relação um tanto conturbada. Os dois se conhecem em meio ao caos da guerra e são obrigados a lutar juntos pela sobrevivência. Mais tarde, com o fim do conflito, a dupla decide montar um esquema para fraudar a construção do memorial aos mortos da região, ao mesmo tempo em que Maillard tenta desmascarar o mercenário Tenente Pradelle, um oficial que fez fortuna com as centenas de corpos das vítimas da guerra.

O argumento de Nos Vemos no Paraíso é relativamente simples, é verdade; mas muito bem amarrado e seu maior mérito é desenvolver sua trama gradativamente, respondendo às indagações do espectador sem muita pressa – como se simplesmente estivesse contando uma história – e o fazendo muito bem. O filme é uma comédia dramática sensível e poética, conotando toda a delicadeza pertinente ao cinema francês e também às produções mudas de outrora – em especial, através de Édouard que, com parte do rosto desfigurada, é capaz de exprimir toda carga emotiva através de seus gestos e olhares. O roteiro também constrói seus personagens de maneira competente: todos mantém certa humanidade e não são perfeitos. Todos cometem seus deslizes – mas, curiosamente, conseguimos definir bem quem é o vilão e quem são nossos (anti) heróis e, como expectadores, torcemos pelo destino de cada um deles.

Ademais, Nos Vemos no Paraíso é uma produção muito bem executada. Da câmera em plano-sequência na abertura do longa (que acompanha um mísero cão em sua peregrinação no campo de guerra) às ótimas cenas de batalha, tudo é muito caprichado. O visual é esplêndido: fotografia, direção de arte e figurino se unem para trazer uma identidade única à uma obra que, apesar de ter suas reviravoltas, mantém um equilíbrio muito interessante, prendendo a atenção do público do começo ao fim. Seja para fazer rir ou emocionar, Nos Vemos no Paraíso é empolgante em sua essência e, claro, daqueles raros casos em que se é impossível sair do cinema indiferente.

A Noite Devorou o Mundo (La Nuit a Dévoré le Monde)

Sam chega um tanto apreensivo no apartamento daquela que parece ser sua ex-namorada, Fanny. É uma noite de festa, mas o rapaz não quer saber de papo: ele só deseja pegar suas coisas e dar o fora, apesar da insistência da moça para que ele fique e converse com ela. A contragosto, ele aceita tomar um drinque e ficar em um canto, sozinho. Quando esbarra em um dos convidados, Sam acaba adormecendo em um dos cômodos. Ao acordar na manhã seguinte, a surpresa: o prédio está destruído e a capital francesa foi tomada por zumbis.

Baseado no romance homônimo de Martin Page (que assina a obra sob o pseudônimo – e anagrama – Pit Agarmen), A Noite Devorou o Mundo é o longa de estreia de Dominique Rocher e vai muito além de um tradicional filme sobre zumbis. Na contramão dos seus colegas de gênero, A Noite Devorou o Mundo é um drama apocalíptico cuja trama é centralizada em seu protagonista: vivido pelo excelente Anders Danielsen Lie, Sam é um jovem solitário, introspectivo e que pouco interage com o mundo à sua volta. A princípio, ele acredita ser o único sobrevivente da catástrofe; assim, seu maior desafio é manter-se nesta nova realidade, sustentando sua humanidade.

A narrativa, entretanto, é quase nula dos clichês do gênero: não espere perseguições de tirar o fôlego, sangue jorrando para todo lado, vísceras e membros voando por aí (em alguns momentos, isso até ocorre, mas em uma intensidade muito menor). Com um argumento relativamente simples e sem muitas firulas, A Noite Devorou o Mundo é praticamente um manual de sobrevivência ao fim dos tempos, mas redigido com uma sensibilidade e melancolia que não são tão comuns a esta categoria cinematográfica. No lugar dos tiros, carnificinas e exposição gratuita, temos um protagonista que passa a maior parte do tempo produzindo música com o que tem à sua disposição; se exercitando; organizando a “despensa”; ou mesmo dialogando com Alfred (um morto-vivo que, por algum motivo, fica preso no elevador do prédio). Curiosamente, A Noite Devorou o Mundo pode ser encarado como uma profunda crítica à solidão do homem na nossa contemporaneidade – e a maior expressão dessa ideia pode ser encontrada no fato de Sam encerrar o filme da mesma forma como o iniciou: só. A frase eternizada por Tom Jobim (“É impossível ser feliz sozinho…”) é colocada em pauta: em uma sociedade cada dia mais individualista e egoísta, é possível viver sozinho?