Frank (Frank)

02Jon é um jovem comum, como tantos outros de sua idade: ligado nas redes sociais, é aspirante a músico e compositor, mas sua realidade se limita ao pacato trabalho no escritório e a volta para casa. Em um desses dias de rotina, Jon é casualmente convidado a substituir o tecladista de uma banda de rock que está em sua cidade – banda esta liderada por Frank, um ser um tanto singular que vive o tempo todo com uma cabeça de papel machê, escondendo sua verdadeira identidade. O grupo decide se refugiar no campo para a gravação de seu novo disco – e é aí que os poucos conflitos da trama passam a acontecer.

A narrativa de Frank é feita sob a perspectiva de Jon: é interessante ver como sua visão daquele meio influencia a percepção do público. Quanto mais Jon se aproxima de Frank, mais o espectador o faz; quanto maior a admiração de Jon por Frank, mas admiramos também essa personagem – que desde o início é tratado como um ser cativante, um gênio incompreendido, dentro de um grupo de loucos que não sabem muito bem como lidar com a fama e o reconhecimento. Já na primeira cena, sem esforço algum, é possível simpatizar-se com Frank, sem sabermos exatamente quem ele é e o porquê de sua condição – ou seja, compramos um ídolo sem conhecermos, de fato, sua obra.

Talvez isso se dê também por conta da atuação magnânima de Michael Fassbender, baseada quase inteiramente em seu tom de voz e, principalmente, em suas expressões e movimentos corporais. É quase possível ver o rosto de Fassbender por trás da cabeçona, identificando precisamente seu temperamento – se calmo, tenso, feliz, pensativo. E essa performance cresce de forma marcante no decorrer da fita, especialmente em sua segunda parte – quando Frank se mostra inseguro com relação ao seu talento e não sabe como conviver com o sucesso precoce. Arriscaria dizer que, em um ano em que Bradley Cooper ganhou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho regular em Sniper Americano, não me pareceria mal ver Michael concorrer na mesma categoria.

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Se Michael está ótimo, os demais nomes do elenco não deixam a desejar. Domhnall Gleeson é bastante competente na pele de Jon – o contraponto da banda, o mais “sensato” e ao mesmo tempo o menos “artista”, por assim dizer. Seu papel é claramente bem delineado, ganhando as oscilações pertinentes à história. Maggie Gyllenhall também entrega uma boa performance como Clara, uma das musicistas cujo comportamento agressivo não tem sua origem muito definida, mas ajuda a pontuar alguns conflitos na trama. Os outros integrantes estão em boa sintonia, mostrando o perfil sensível e, por vezes, fadado à loucura de muitos artistas mundo afora.

Com uma trilha sonora espetacular, Frank é um tanto inconsistente em seu roteiro, que flerta com vários gêneros e, desta forma, traz uma certa imprevisibilidade na narrativa – que é particularmente bom, mas pode não agradar a todos e, consequentemente, produzir trechos menos interessantes. Em alguns momentos, isso torna o filme meio estagnado, sem saber exatamente para onde quer nos levar ou o que está querendo dizer. Há visíveis quebras de tom e ritmo, que não chegam a atrapalhar a obra, mas podem cansar quem não abraçar totalmente a ideia. De certa maneira, Frank retrata com delicadeza, humor sofisticado e bastante poesia o lado menos “glamouroso” do universo artístico – que muitas vezes é ignorado por simples mortais, como você e eu. No fim, assim como seu personagem título, Frank consegue ser apaixonante, louco e memorável.

Benny & Joon: Corações em Conflito (Benny & Joon)

Há quem diga que, após a saga Piratas do Caribe, Johnny Depp carrega os trejeitos de seu icônico Jack Sparrow em todos as produções em que atua. Tudo bem, não deixa de ser um pouco verdade – mas também é certo que Depp nunca foi um ator excepcional e desde muito cedo tinha “uma cara só”, apesar de ser um camaleão em cena com o poder de se transformar naquilo que bem quiser. Esse fato curioso me vem à mente toda vez em que assisto a algum filme do artista em início de carreira – como o elogiado Benny & Joon – Corações em Conflito.

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Não que aqui Depp faça um número expressivo de “caras e bocas”, mas é possível notar desde sempre as mesmas expressões e gestos (que mais tarde se tornariam marcas clássicas de sua personagem), ainda que de forma atenuada. Isso não diminui em nada o carisma de Johnny diante das câmeras, mas joga por terra a tese de que o ator se transformou neste pandemônio ambulante ao longo dos anos – apenas desenvolveu esta “arte”. Nem mesmo quero argumentar que Depp não tenha sido competente ao interpretar Sam, um jovem esquizofrênico que passa seu tempo imitando os comediantes Charles Chaplin e Buster Keaton – mas não há nada desconcertante em sua performance que sugira que Depp tenha se corrompido com o passar do tempo.

A trama de Benny & Joon segue os dois irmãos do título: Benny (Aidan Quinn) é um mecânico que, como irmão mais velho, tem a responsabilidade de cuidar de Joon (Mary Stuart Masterson), portadora de uma deficiência mental. Após perder uma aposta, Benny é obrigado a receber em sua casa o excêntrico Sam. Joon e o hóspede acabam se apaixonando e, com medo de perder a família, Benny passa a sentir ciúmes da irmã – lutando para aceitar a difícil realidade de que ela é uma pessoa como qualquer outra e, como tal, quer viver a sua própria vida. O roteiro, apesar de simplista, traz personagens cativantes, construindo uma atmosfera especial para tratar das relações interpessoais entre seres ditos como “diferentes”. Benny & Joon é um filme que narra o amor entre pessoas não “convencionais”, mas nem por isso inferiores – e é neste aspecto que se desenvolve o grande drama da fita: como Benny pode aceitar isso? Como entender que as pessoas, por mais dependentes que sejam de outras, tem seu livre arbítrio e desejam viver suas vidas no pleno exercício de uma liberdade que não pode ser comprada?

01Com boas atuações e uma banda musical exemplar (assinada por Rachel Portman, que foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor trilha sonora por Emma, de 1996), Benny & Joon é um daqueles filmes que são feitos com a intenção de serem “fofos”: o tipo de produção que não é grandiosa, aposta na abordagem delicada e sensível de uma história aparentemente simples e que, através disso, se torna grande aos olhos da crítica e, principalmente, do público – cujo coração fica apertado. Apesar de não ser totalmente regular em sua condução, Benny & Joon é um resgate da inocência – em uma época onde predominavam tiros e pancadaria no cinema. Benny & Joon começa até meio sem graça e chatinho, mas cresce de forma tão acolhedora que, sem sombra de dúvidas, pode ser considerado um dos pontos mais fortes do cinema da década de 90 e da carreira de Depp.

Cada Um Na Sua Casa (Home)

Os Boov’s fazem parte de uma raça alienígena que invade a Terra à procura de um novo lar, já que estão sendo perseguidos em toda a galáxia por seus inimigos, também seres intergalácticos. Enquanto todos estão preocupados em deslocar os humanos e reorganizar suas vidas no novo planeta, o divertido Oh coloca seu povo em risco ao enviar por engano sua localização aos rivais. Enquanto tenta consertar seu erro e se redimir, Oh ajuda uma terráquea desesperada a encontrar sua mãe perdida.

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Cada um na Sua Casa é a nova produção da Dreamworks, estúdio que desde 2008 nos entrega filmes dos mais diversos níveis de qualidade (em 2014, por exemplo, a empresa esteve à frente do ótimo Como Treinar Seu Dragão 2, que chegou inclusive a faturar uma indicação ao Oscar de melhor animação – perdendo para o favoritíssimo Operação Big Hero, da Disney). Entretanto, Cada um na Sua Casa é nitidamente mais “infantilizado” do que as fitas recentes da compania, o que pode comprometer a empatia do público adulto (devemos lembrar que atualmente animação deixou de ser um mero gênero infantil e passou a ser cultuado por cinéfilos das mais diferentes idades).

Para conquistar os pimpolhos, Cada um na Sua Casa aposta em tipos fofos: os Boov’s são incrivelmente simpáticos e divertidos – até mudam de cor a cada novo sentimento ou reação. Entretanto, não me parece que este seja o perfil de personagem pela qual as crianças possam criar muito apego: okay, eles são fofinhos, engraçadinhos mas… falta alguma coisa que eu não consegui identificar bem o que é. Talvez seja por conta do roteiro que, a meu ver , peca na forma como aborda a relação entre Boov’s e humanos – nunca fica muito claro como eles se relacionam, repare bem, como se algum pedaço da história estivesse fora do lugar. Mas isso não atrapalha totalmente a trama, até porque criança não se preocupa com argumentos bem desenvolvidos, mas sim o quanto aquele produto possa ser um bom entretenimento – e Cada um na Sua Casa cumpre bem essa proposta.

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A cantora Rihanna dá voz a uma das protagonistas do filme, enquanto a musa Jennifer Lopez dubla a mãe da primeira. Faltou, porém, desenvolver melhor a personagem de Rihanna – visivelmente inspirada nela mesma, nos dando a impressão de que foi criada simplesmente para ser uma versão animada da diva (a menina é até mesmo de Barbados, veja você). Jim Parsons (ator da série The Big Bang Theory) é responsável por Oh – e todos se saem bem nessa empreitada, apesar de que, no Brasil, a maioria das salas vai, inevitavelmente, trazer versões dubladas. As duas cantoras ainda colaboram com a trilha sonora, repleta de música pop, capaz de botar a molecada para cima.

Okay, Cada um na Sua Casa não é a melhor coisa que a Dreamworks já produziu ao longo de sua existência, tampouco traz algo necessariamente novo ao gênero. A animação funciona bem como filme voltado ao público mais jovem, até mesmo porque traz boas lições de moral – reforçando valores simples como a amizade, família e respeito ao próximo, com um visual charmoso e atraente. Entretanto, não chega a ser uma obra-prima ou um grande destaque. Cada um na Sua Casa diverte e entretém os pequenos e passa boas mensagens, mas não tem potencial para ser uma animação memorável.

Jessabelle: O Passado Nunca Morre (Jessabelle)

Após perder o noivo em um trágico acidente automobilístico e ficar confinada temporariamente à uma cadeira de rodas, Jessie se vê obrigada a retornar à casa de seu mórbido e distante pai para um período de recuperação. Ao revirar o quarto em que está instalada (e que pertenceu à sua mãe, antes da mesma falecer em decorrência de um câncer, logo após o nascimento da menina), Jessie descobre algumas fitas que a mãe gravara antes de morrer e, ao assisti-las, começa a sentir uma presença sobrenatural dentro da moradia.

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Jessabelle: O Passado Nunca Morre, dirigido por Kevin Greutert (que em seu currículo não teria nada muito expressivo além de dois filmes da franquia Jogos Mortais), é uma produção de terror que procura flertar com o ocultismo ao longo de pouco menos de uma hora e meia de projeção – mas carece de suspense suficiente para empolgar o espectador. Apesar do argumento aparentemente inovador (ou pelo menos que se mostra interessante, à primeira leitura), falta ousadia do cineasta para apostar em cenas com sustos ou temas sobrenaturais mais atraentes, desperdiçando um bom material em sequências sem impacto, com tensão pouca ou quase nula – isso sem mencionar o final anticlimático que, embora abra espaço para uma continuação, não consegue ser marcante.

De tudo, Jessabelle não é totalmente descartável. As cenas em quase found footage (os vídeos da mãe de Jessie) são até passíveis de elogio, assim como a boa atuação da protagonista, Sarah Snook, que se desdobra – literalmente – na cadeira de rodas e nas caras e bocas para se fazer assustar e tornar a narrativa mais horripilante. Pena que faltou mais e o filme não evolui de maneira alguma. Jessabelle: O Passado Nunca Morre não apresenta nada novo e pode até ser conferido sem muita expectativa mas, com sua quantidade de clichês do gênero, não passa de uma produção que será fatalmente esquecida.

A Mão Que Balança o Berço (The Hand That Rocks The Cradle)

Rebecca De Mornay não faria nada tão expressivo em sua carreira após o sucesso de A Mão Que Balança o Berço, um thriller de Curtis Hanson (de Los Angeles – Cidade Proibida) que foi amplamente elogiado pelo público e crítica na época de seu lançamento. Na trama, Rebecca dá vida a Peyton Flanders, uma babá que passa a atormentar a vida de uma família para vingar a morte de seu esposo.

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Com um roteiro simples mas conciso, que vai nos dando pistas sobre os atos de Peyton mas sem se perder no meio-campo tentando explicar suas motivações, Hanson é competente ao transpor o argumento para a tela sem grandezas ou inventices. Do ponto de vista técnico, inclusive, A Mão que Balança o Berço é um filme que não chega a ser brilhante – na verdade, é bem mediano em diversos momentos. Porém é nítido o talento do cineasta para as sequências de suspense, que cresce à medida que a fita se desenrola e quase chega a alcançar o terror psicológico – não em nível tão requintado, é verdade, mas o suficiente para proporcionar um ótimo entretenimento.

Rebecca faz uma atuação coerente e bem articulada, sendo a escolha perfeita para o papel. Seu talento é imprescindível para a construção de Peyton, que ora é pura inocência, ora é pura maldade – o anjo e o demônio na mesma pessoa. As nuances de Peyton são bem delineadas por De Mornay, que recebeu bastante atenção na época. Soma-se ao elenco Annabella Sciorra, a dona de casa tranquila, porém frágil, alheia a todos atos da babá – a mocinha ideal, que ainda tem crises de asma, aumentando sua fraqueza diante das telas; e também uma Julianne Moore em início de carreira, com um tipo extravagante e esperto que chega a ter seu devido ponto alto na narrativa.

Apesar de a história não apresentar nada significativamente novo, A Mão que Balança o Berço nos traz personagens que são verossímeis – e isso é importante para que o público se identifique com o núcleo central. Trata-se de um filme bem feito e redondo, com um roteiro bem construído que pode até não marcar a vida do espectador, mas é suficiente para prender sua atenção durante a projeção.

Velozes e Furiosos 7 (Furious 7)

03Hoje percebi que as coisas mudaram mesmo: levei minha sobrinha de 11 anos ao cinema. Enquanto eu queria assistir a versão live-action de Cinderela, a guria preferiu o sétimo filme da franquia Velozes e Furiosos. Banquei de bom tio, fiz um esforço e, para minha surpresa, me deparei com uma produção que, apesar de não ser um primor cinematográfico, foi um ótimo entretenimento – o que é, na verdade, a sua verdadeira proposta.

Fato: Velozes e Furiosos 7 é o melhor filme de uma série que, cá entre nós, nunca foi lá essas coisas. Não desmereço produções com esta “pegada”, não mesmo – porque, como mencionei acima, a proposta aqui é o entretenimento. Porém há de se admitir que Velozes e Furiosos há muito tempo deixou de ser uma história sobre carros e rachas nas ruas e se tornou uma franquia de ação, com direito a tudo o que é próprio do gênero: tiro, porrada e bomba. E aqui não é muito diferente: Velozes e Furiosos 7 é justamente isso, mas com um agravante: a insensatez do roteiro de Chris Morgan e Gary Scott Thompson.

Okay, não vamos esperar que um longa como este tenha algum compromisso com a realidade. Sabemos que os mocinhos vão apanhar e nunca sentir dor, que eles vão desviar de todas as balas em meio aos tiroteios, que eles cairão do penhasco, sofrerão acidentes de carros e tudo mais e sairão ilesos, sim, é verdade. Mas Velozes e Furiosos 7 é, disparado, o filme mais exagerado, absurdo e insano de todos. Nós sabemos que é justamente isso que fez a fama deste projeto – mas não há o menor senso de realismo aqui. Gravidade? Leis da física? Esqueça, meu amigo! Nada do que você aprendeu no colégio serve para alguma coisa.

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Há cenas de diversos tipos, como se o diretor quisesse extrair tudo de todos os lugares: tem sequências na floresta, no deserto, no ar, nas ruas, internas – tudo com seus excessos e anabolizantes. Todas elas, claro, com muita pancadaria, perseguição e alguma dose de humor. Mas há também os momentos “ternura” da trama, com espaço para romance, amostras grátis de fidelidade e amor aos amigos e, claro, à família – lema do personagem de Vin Diesel desde sempre. Aliás, em Velozes e Furiosos 7, a equipe de Dom é ameaçada por um novo vilão, Shaw (o ótimo Jason Statham, estreando na série), que chega na história para vingar a morte do irmão, vilão do filme anterior. Daí, obviamente, Dom convoca a turma toda (juntamente com Kurt Russell, mais uma boa adição ao elenco) e parte pra vingança. Ou seja, tudo o que o povo gosta!

Velozes e Furiosos 7 foi bem recebido pelos fãs e pela crítica – e seu sucesso é justo. Dentro deste universo “testosterona” (carros “tunados”, mulheres seminuas, brigas de rua e etc.), Velozes e Furiosos 7 se encontra em uma confortável posição, pois é repleto de ação de tirar o fôlego e cenas com pura adrenalina, que escondem até mesmo seus pequenos defeitos (como a fotografia escura e a edição meio atropelada, mas está valendo). De quebra, ainda traz uma homenagem a Paul Walker, ator que morreu durante as filmagens da fita (ironicamente, em um acidente de carro). Velozes e Furiosos 7 é entretenimento na medida certa para o público e emoção garantida para os fãs da saga.

Um Fim de Semana em Paris (Le Week-end)

Nick e Meg formam um casal de professores universitários de meia-idade que estão naquela difícil fase da vida: vivem juntos há muito tempo e, consequentemente, a relação entre os dois já não tem a mesma intensidade. Para tentar resgatar um pouco do romance desvanecido ao longo dos anos, os dois decidem passar um final de semana na capital francesa, Paris – mas desde a chegada nada parece dar muito certo e, aos poucos, eles vão se dando conta de que as coisas entre eles estão piores do que imaginavam. No meia da história surge Morgan, um galante ex-pupilo de Nick, que com seu tipo charmoso encanta a esposa em crise.

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Um Fim de Semana em Paris, dirigido por Roger Michell (de Um Lugar Chamado Notting Hill e Um Final de Semana em Hyde Park), é uma comédia romântica simples, sem apelações e com um toque sutil de nostalgia (o que, fatalmente, poderá agradar um público mais maduro – especialmente aqueles que passam pela crítica fase do relacionamento em que o desgaste é natural). O filme acerta em cheio ao trazer à luz uma relação longeva, com todos os seus percalços, tristezas, angústias, desejos – até mesmo o sexo na terceira idade é pincelado brevemente na película. Entretanto, o longa escorrega no roteiro bastante vago, em alguns momentos até mesmo perdido – sem ser totalmente engraçado para considera-lo uma comédia e muito menos profundo no quesito “drama”. Dessa forma, Um Fim de Semana em Paris começa bem, com alguns trechos interessantes e levemente cômicos, mas se perde em uma falsa profundidade que acaba entediando o espectador.

Apesar do ótimo trabalho da dupla de atores (Jim Broadbent e Lindsay Duncan demonstram boa química em cena), Um Fim de Semana em Paris não consegue ser tão empolgante quanto a Cidade Luz. O espectador até enxerga umas referências a Godard ou sente um certo charme tal qual Woody Allen em suas tramas (a trilha sonora, por exemplo, funciona muito bem por sua delicadeza), mas é inegável que Um Fim de Semana em Paris não é tão intenso, apesar de ter potencial. Coincidentemente ou não, o filme é como seu título sugere: um final de semana em Paris – passa rápido para tudo o que se tem a fazer e na pressa você acaba fazendo de tudo sem aproveitar nada.

O Garoto da Casa ao Lado (The Boy Next Door)

Se há um clichê notável no cinema é a história de um homem e uma mulher que se envolvem sexualmente e, após um deles não desejar mais levar a relação adiante, a outra parte desenvolve certa obsessão pela primeira. A partir daí, começa aquele velho jogo de assédio e perseguição – até que um fim trágico aconteça.

Esse tipo de premissa já ganhou muitas variações – e, ainda assim, sempre nos deparamos com mais alguma história do gênero. Dessa vez, trata-se de O Garoto da Casa ao Lado, thriller estrelado pela popstar Jennifer Lopez – aqui, no papel de Claire, uma professora de literatura que está à beira do divórcio. Após uma noite de sexo com Noah (Ryan Guzman), seu novo vizinho, Claire decide acabar com o curto “romance” – o jovem é amigo de seu filho e ainda estudante do colégio onde leciona. No entanto, Noah logo se revela um rapaz violento, possessivo e psicótico, fazendo de tudo para ter Claire ao seu lado e colocando em risco a vida de todos.

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Obviamente, o grande “problema” de O Garoto da Casa ao Lado é sua falta de originalidade. Tudo ali parece ser retirado de outras produções e a todo instante o espectador tem aquela sensação de dejavú, como se já tivesse visto aquilo em algum lugar (e, de fato, é provável que ele já tenha visto aquilo em algum lugar antes). Não há nada novo ou original na fita e a impressão que se tem é que estamos diante de um filme “pré-moldado”, feito exclusivamente para ser uma mistura de todas as outras tramas similares. Com um roteiro previsível, onde tudo ocorre propositalmente, a narrativa é limitada de forma absurda, quase que com um ar de produção barata – mesmo que a protagonista seja uma beldade do porte de Jennifer Lopez. É fato: Jennifer está exuberante em cena – um furacão – e chega até a entregar uma boa performance. O que atrapalha sua personagem é justamente a vaidade da artista, que não permite que a atriz seja crível no papel de uma professora suburbana. Na verdade, o elenco em si é bastante atrativo e funciona muito bem, mas é prejudicado pelo status quo do filme – o que não deixa de ser lamentável.

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Dirigido por Rob Cohen – um cineasta mediano, mas que já esteve à frente de produções para a massa (Daylight, Velozes e Furiosos e A Múmia: Tumba do Imperador Dragão) – , O Garoto da Casa ao Lado vai, aparentemente, na contramão de seus trabalhos anteriores e, dessa forma, é descartável. Pode render, no máximo, alguma audiência na TV aberta sobretudo pelo elenco. Talvez a única coisa realmente boa de O Garoto da Casa ao Lado seja mesmo Jennifer Lopez – é uma pena o filme não ser tão atraente quanto ela…

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right)

Nic e Jules (respectivamente, Annette Bening e Julianne Moore) estão casadas há anos e tem dois filhos, concebidos por inseminação artificial a partir da doação de esperma de um desconhecido. As crianças crescem e decidem encontrar o doador do sêmen que os gerou – descobrindo, então, o boa praça Paul (Mark Ruffalo), o que colocará em risco a paz domiciliar.

Sem 02

Se no início de Minhas Mães e Meu Pai o público chega a pensar estar diante de uma comédia descartável, aos poucos o filme de Lisa Cholodenko cresce até se tornar uma narrativa de gênero não definido, mas nem por isso desinteressante. O roteiro bem construído deixa de lado o tom cômico para trilhar um caminho mais propenso ao drama, mas fugindo dos clichês característicos do gênero e focando principalmente as relações entre os personagens. Minhas Mães e Meu Pai não é uma trama sobre um casal homossexual: é uma história sobre pessoas e relacionamentos (tanto que o longa funcionaria da mesma forma se os protagonistas fossem um casal formado por um homem e uma mulher).

Bening e Moore abrilhantam a película com suas atuações. Enquanto a primeira está ótima em sua composição da lésbica masculinizada (mas em nenhum momento estereotipada, como poderíamos esperar), Julianne empresta suavidade e leveza ímpares para a segunda mãe. Fica claro quem é quem na história: a mãe crítica que pega no pé e preza pelo futuro das crianças e aquela que é mais carinhosa e se preocupa com a felicidade dos filhos independente de suas escolhas. Ruffalo também desempenha bem sua tarefa na trama, assim como os promissores Josh Hutcherson e Mia Wasikowska – que parecem muito a vontade em cena e mantêm ótima interação com os veteranos.

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Apesar de não apresentar nenhum grande clímax, Minhas Mães e Meu Pai é um filme sobre uma família incomum – ou melhor, sobre um novo e moderno modelo de “família”. Não procura promover muitos debates, tampouco trazer algum tipo de ruptura ao abordar um casamento gay ou levantar questões sobre preconceito – o que seria o esperado ao lermos a sinopse superficialmente. Com um ar de cinema independente, Minhas Mães e Meu Pai é leve, redondo e bem feito, mérito não somente do ótimo trabalho do elenco mas também da direção de Lisa, que faz uma obra que apesar de não ser tão grandiosa quanto cinema “social”, é um entretenimento para se apreciar sem medo.

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)

Uma coisa que eu gosto é assistir a uma estreia de filme, ou ler um livro novo ou ouvir um álbum recém-lançado de um artista que eu curto sem criar expectativas. Motivo óbvio, mas real: quando não se espera nada (ou se espera pouco) não há decepções e, em alguns casos, é possível até se surpreender. Finalmente, depois de muito tempo, assisti ao comentadíssimo Cinquenta Tons de Cinza, adaptação cinematográfica da ficção homônima escrita por Erika Leonard James – e início de uma trilogia, seguida por Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade (todos best-sellers, sendo o primeiro o romance britânico mais vendido de todos os tempos). Como não conferi a obra literária (logo, não tenho nenhum referencial para comparação), tudo o que vou dizer a seguir se refere à produção como “cinema” – e já posso adiantar: Cinquenta Tons de Cinza é ruim.

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Simples assim, não há muito o que falar. Com honestidade, demorei para assistir porque nunca me interessei pela trama. Não procurei nenhuma crítica prévia, não vi a avaliação do filme em redes sociais e tudo o que sabia sobre o longa era o que via amigos comentarem – e até aqui as opiniões eram mistas. Haviam aqueles que gostaram (geralmente, mulheres – e isso me assustou, como explicarei mais adiante) e os que desprezaram (normalmente os homens e cinéfilos mais chatos). Logo, concluí que Cinquenta Tons de Cinza poderia não ser uma grande obra cinematográfica, mas funcionaria como entretenimento. Engano meu. Cinquenta Tons de Cinza é ruim, sim.

Eis a sinopse: um milionário com tendências sádicas que se envolve com uma virgem de 20 e poucos anos que estuda literatura. Entre transas e caretas, a relação entre os dois vai se fortalecendo – o que, consequentemente, acaba confundindo os sentimentos do casal. Mas até tudo isso se desenvolver ao longo de mais de duas horas, Cinquenta Tons de Cinza é um festival de clichês em todos os aspectos: do roteiro com cenas previsíveis e soluções prontas à direção amadora de Sam Taylor-Johnson, visivelmente insegura e com medo de arriscar. Por esta razão, é difícil acreditar nos personagens, no drama e em qualquer coisa que se vê em cena. Até mesmo a edição e fotografia parecem “prontas”, além da trilha sonora de Danny Elfman que está ligada literalmente no modo automático e chega a ser quase vergonhosa.

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Para agravar a situação, os protagonistas não colaboram. Se a proposta era retratar uma personagem feminina insossa e apática, não há dúvidas de que este objetivo foi alcançado porque Dakota Johnson é irritantemente sem vida. É quase impossível imaginar, por mais esforço que se faça, que um magnata que pode ter qualquer mulher a seus pés vá se apaixonar por um tipo tão sem graça. Já o galã Jamie Dornan está muito distante daquilo que esperamos de um Christian Grey. Após inúmeros nomes serem cotados para o papel, é triste ver que a diretora optou pelo mais fraco. Dornan pesa a mão para criar o perfil sexy do ricaço. Em diversos momentos, inclusive, é possível enxergar nele alguns trejeitos que remetem vagamente a um outro protagonista masculino que muita gente despreza. Em outras palavras, o Christian Grey de Dornan é quase uma versão humana de Edward Cullen.

Se durante muito tempo os longas da série Crepúsculo foram referência ao falarmos de filmes “ruins”, facilmente Cinquenta Tons de Cinza passa a ser o novo campeão do pódio – e leva a melhor porque a saga de Stephenie Meyer era destinada, sobretudo a um público juvenil, enquanto Cinquenta Tons de Cinza tem a suposta premissa de ser veiculado a um espectador adulto, com certo apelo erótico e tudo mais. Falhou. Para além de tudo o que falamos, Cinquenta Tons de Cinza peca na forma arcaica e machista como trata suas personagens femininas, meros objetos de uma sociedade que as oprime e ainda as vê como seres inferiores. Há a exploração barata do corpo e, principalmente, da figura do sexo feminino – e me surpreende saber que há mulheres que compartilham e admiram esta abordagem, tratando como “ideal masculino” um tipo totalmente medíocre e que em nenhum momento se importa com ninguém a não ser consigo mesmo e seu prazer. Cinquenta Tons de Cinza, longe de excitar ou promover alguma discussão, é um triste caso de cinema desnecessário, descartável e, principalmente, desprezível.