Últimos Dias no Deserto (Last Days in The Desert)

Livremente inspirado em uma passagem do Velho Testamento, Últimos Dias no Deserto acompanha Jesus Cristo (Ewan McGregor) em sua peregrinação de 40 dias de jejum e oração pelo deserto. Nessa jornada, além de enfrentar as provações impostas pela personificação do Diabo, Yeshua (nome do filho de Deus em hebraico) encontra uma família que, apesar da aparente tranquilidade, vive em crise: um pai (Ciarán Hinds), que insiste que eles devem permanecer naquele ambiente hostil e ali sobreviver; a mãe (Ayelet Zurer), que está à beira da morte; e o filho (Tye Sheridan), cuja maior ambição é partir rumo a Jerusalém.

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Foram muitas as obras que revisitaram a vida de Cristo ao longo dos anos, desde seu nascimento até a sua morte e posterior ressurreição. Todavia, poucas produções se concentram em um texto tão específico quanto Últimos Dias No Deserto. As citações bíblicas referentes a este capítulo, entretanto, são pequenas – ou pelo menos não são suficientes para sustentar uma película como esta, mesmo que sua duração seja razoavelmente curta. Logo, para “compensar” a história, para além da introdução de prováveis personagens, a narrativa nos brinda com um espetáculo visual amparado pela fotografia ímpar do mexicano Emmanuel Lubezki. Assim como fez em O Regresso, Lubezki faz uso exclusivo da luz natural da Califórnia (onde o filme foi rodado) – e este é, de longe, o ponto mais favorável do longa, ajudando a criar uma identidade poética bem interessante. Além disso, Jesus Cristo é retratado como um ser humano “comum”. Essa visão mais humanizada, sem a roupagem “cristã” com a qual estamos acostumados, de certa forma aproxima o espectador: é como se o filme contasse a trajetória de um homem qualquer, que vaga naquele cenário desértico em busca de um encontro consigo mesmo e não simplesmente um teste de sua fé e amor a Deus.

Contando com atuações competentes por parte de todo elenco, infelizmente Últimos Dias no Deserto se arrasta demais. Embora seja tecnicamente impecável, falta provocação à fita – e mesmo oferecendo quadros de tirar o fôlego como se para promover algum tipo de reflexão (coisa que Lubezki sabe fazer como ninguém), o público não é capaz de se sensibilizar tanto com a trama quanto ela pretende. A direção e o argumento de Rodrigo Garcia nos entrega, portanto, um produto que é visualmente atraente, mas com uma proposta e conteúdo confusos independente de qualquer religiosidade.

A Comunidade (Kollektivet)

Copenhague, década de 70. Erik (Ulrich Thomsen) é um professor universitário e sua mulher Anna (Trine Dyrholm) é âncora em um telejornal local. Pais da adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansen)eles recebem de herança uma mansão na qual Erik passou parte de sua infância. Com os altos custos de manutenção, o marido está disposto a vender o imóvel, até que Anna o convence a montar ali algo que ela sempre sonhou em vivenciar: uma comunidade. Apesar da recusa inicial, logo Erik concorda com a ideia da esposa – e a partir daí os dois saem à procura de amigos e conhecidos para dividir a comuna.

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O novo filme de Thomas Vinterberg (de Festa de Família e A Caça), ainda que conte com vários personagens, é muito objetivo no núcleo central de sua narrativa, composto pela família principal da trama. Cada um dos três tem seu “drama” desenvolvido – os demais moradores ali representados não possuem um objetivo individual definido, mas sim o “todo”. Ou seja, para o diretor de nada importam as características de cada um deles, mas sim o quanto a união daquele grupo afeta a família. Mais interessante ainda é observar que quanto mais o senso de “coletivismo” do grupo cresce, mais aumentam os conflitos de Erik, Anna e Freja – especialmente a partir do momento em que o marido se apaixona por uma aluna anos mais nova do que ele e a comunidade decide que ela também passará a compartilhar o mesmo teto.

Se o título sugere o coletivo, A Comunidade é muito particular à essa família, nos apresentando exatamente o ponto de vista deste trio – e é incrível a construção desses tipos ao longo da fita. Erik, inicialmente um simpático e visionário docente, se torna aos poucos um homem rude e frio, incapaz de lidar com os problemas que estão à sua volta (a cena em que conta a verdade para a cônjuge, após uma noite de sexo, é perplexamente dura). Anna é aquela que busca trazer valores ao meio em que está inserida, porém sofre com isso mais do que todos os outros. Freja, por sua vez, na efervescência da juventude, reage a tudo que acontece ao seu redor com muito equilíbrio, mesmo em sua imaturidade.

A Comunidade consegue captar com precisão todo o charme da capital dinamarquesa de então. E mais do que isso: o longa retrata de maneira muito honesta este cenário da primeira metade dos anos 70, principalmente na proposta pós-libertária que influenciou uma geração, nas ideias, pensamentos, ideologias. Com um desfecho cabível, porém pessimista, A Comunidade atesta o talento de Vinterberg como um dos maiores cineastas de seu país em todos os tempos – além de ser um filme que, por si só, já tem todos os méritos.

Cruzada (Kingdom of Heaven)

Gladiador foi, sem dúvida, um sucesso inigualável, capaz de ressuscitar um gênero: o épico. De fato, o longa dirigido por Ridley Scott desencadeou uma sucessão de outros filmes da mesma espécie (como Tróia, Alexandre, entre outros – apesar de nenhum deles ter obtido tamanho êxito), além de dar carta branca a seu idealizador para embarcar em um projeto adormecido há anos: Cruzada.

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Este épico medieval narra a disputa entre muçulmanos e cristãos pela posse de Jerusalém, no século XII. Na versão romanceada destes acontecimentos reais, acompanhamos Balian (Orlando Bloom, muito antes de aparecer como veio ao mundo curtindo uma praia com Katy Perry), um jovem ferreiro francês que guarda luto pela morte da esposa e do filho. Temente a Deus, logo o viúvo descobre que seu pai é o nobre Godfrey de Ibelin (Liam Neeson), um lorde e valente soldado do rei Baldwin. Levado por Godfrey à Terra Santa, aos poucos Balian ascende na corte e, mesmo fazendo alguns inimigos entre a nobreza, ele conquista a simpatia do rei e seu conselheiro.

Ridley Scott está acostumado a superproduções – e em Cruzada ele faz uso de quase tudo o que reproduziu (com maestria) em Gladiador. O design de produção é, no mínimo, espetacular. As pesquisas e referências visuais foram extensas, sendo imprescindíveis para a recriação de cenários, figurinos e objetos com absoluto domínio. Filmado no Marrocos, Scott dá uma aula de técnica: a cena do ataque de Saladino a Jerusalém é riquíssima em detalhes, sendo mostrada dos mais diversos ângulos possíveis – algo que apenas um cineasta com o gabarito de Scott seria capaz de fazer. A exemplo do que fez em Gladiador (inclusive alguns planos são praticamente os mesmos), o diretor utiliza artifícios como a câmera tremida e cortes rápidos para recriar as sequencias de batalhas.

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Mesclando tipos reais com fictícios (com total licença poética), Cruzada tem um resultado “técnico” que impressiona, porém não inova. Fica claro que Scott usa seu ego para fazer uma cópia quase fiel de sua obra antecessora, o que incomoda em alguns instantes. A narrativa, no entanto, é bastante equilibrada do ponto de vista ideológico: diferente do que é comum acontecer no cinema (onde o Islã é frequentemente associado ao terrorismo, produzindo uma série de estereótipos nada palpáveis), Cruzada  vai claramente contra o fanatismo religioso. Não há um vilão ou mocinho: existe uma certa uniformidade entre os personagens – e, em tempos de discursos acirrados de ódio religioso pelo mundo afora, uma proposta como esta sempre é interessante.

Ventre (Womb)

Ventre, drama alemão do diretor Benedek Fliegauf, sob certo aspecto propõe a discussão de dois temas polêmicos: a engenharia genética e o incesto. Na trama, Eva Green é Rebecca, uma moça que esperou por doze longos anos sua grande paixão de infância, Thomas (Matt Smith). Quando finalmente o reencontra, o jovem morre fatalmente em um acidente de trânsito. Desconsolada, Rebecca decide fazer uma fertilização artificial com o DNA de Thomas, gerando um clone do falecido. O tempo passa e a cada dia Rebecca sente mais dificuldade para esconder a verdade do filho, além de conviver constantemente com o desejo de consumar seu amor por Thomas.

01Amparado por uma bela fotografia em cores frias (predominantemente em tons azulados, acentuando toda a melancolia da fita), Ventre é um filme contemplativo. Esteticamente, tudo é muito bem articulado: os planos são cuidadosamente captados, dos panorâmicos aos mais fechados (estes últimos exprimindo com perfeição as dúvidas de suas personagens). A produção ainda conta com um ótimo trabalho de som, da edição e mixagem à trilha sonora minimalista. Além disso, o casal de protagonistas demonstra muito empenho, com destaque para Green, em um tipo perturbado que já lhe é bastante comum. No auge de sua beleza, a atriz é excessivamente atraente e faz de sua Rebecca uma mulher visivelmente dividida – fato que lhe é reforçado especialmente a partir da segunda metade do longa.

Mas principalmente, Ventre é silencioso. A ausência de diálogos predomina durante a fita, sendo estes substituídos pelos olhares angustiados (e a troca deles, claro) de seus personagens. Um clima de incerteza permeia toda narrativa, uma tensão abrupta se instaura a todo momento – como se algo estivesse prestes a acontecer e nunca, de fato, acontece. O espectador fica nesta aflição até o desfecho da história, que ocorre sem um clímax devido, como se apenas para “compensar” o público (ou choca-lo, como alguns podem alegar). Para além disso, os debates propostos ficam à beira da superficialidade e nunca são aprofundados. Ventre é um filme para poucos: esteticamente belo por um lado, pelo outro infelizmente lhe faltou ousadia e é isso que o impede de ser um cinema memorável.

Café Society (Café Society)

Café Society  vem sendo saudado como um dos melhores filmes de Woody Allen nos últimos tempos – provavelmente o mais elogiado desde Meia Noite em Paris, em 2011. Não que o longa (que estreou em Cannes este ano) esteja na lista de suas obras mais primorosas ou que Allen tenha retornado à sua velha forma – mas, de fato, Café Society  é, no mínimo, um filme agradável de se ver.

A história, que se passa na década de 30 (na efervescência da chamada ‘era de ouro’ do cinema, com suas luzes e cores em technicolor) acompanha o judeu nova-iorquino Bobby (Jesse Eisenberg), que sai do Bronx para tentar ganhar a vida em Hollywood trabalhando com seu tio Phil (Steve Carell), um poderoso agente dos astros de cinema de então. Não demora muito para que o inocente Bobby se apaixone por Vonnie (Kristen Stewart), sem saber que a bela jovem é amante de Phil.

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Café Society  é apenas Woody Allen sendo ele mesmo. Todos os “ingredientes” de seus filmes estão ali: um protagonista que é seu próprio ego (aqui potencializado às alturas com a atuação de Eisenberg), um drama cotidiano discutido entre diálogos existencialistas e piadas com judeus, uma trilha sonora regada a jazz, enfim… Café Society  é uma típica produção de Allen, contando inclusive com a mesma identidade visual de suas obras mais recentes – mérito da ótima fotografia do veterano Vittorio Storaro, que trabalha com filtros de luz que favorecem muito o estilo garboso da época.

O elenco estelar agrega muito à narrativa. Steve Carell demonstra carisma na pele do ricaço Phil, enquanto Eisenberg cai como uma luva ao personagem Bobby. É incrível o quanto o ator está um verdadeiro protagonista de Allen. Mais: Jesse é praticamente o próprio Allen. Seja na calça acima do umbigo, nas mãos na cintura ou no falar cômico, o intérprete parece ter assistido a todos os filmes em que Woody atua porque ele é cópia fiel do cineasta. Já Stewart empresta bastante sobriedade à sua Vonnie. É interessante analisar o quão bem Woody desenvolve essa personagem: o que temos em cena é uma mulher que ama dois homens com a mesma intensidade, porém de maneiras distintas (e é óbvio que ela vai optar por aquele que lhe é mais conveniente). Allen, no entanto, não procura trazer nenhum debate moralista a esta trama; ele não discute as escolhas desta figura feminina, apenas suas consequências.

O amor não correspondido mata mais pessoas no ano do que tuberculose.

Assim, Café Society  se destaca. Com seu tom terno e acolhedor, ele nos faz rir em inúmeros momentos, nos emocionar em outros tantos, refletir com algumas de suas frases de efeito, como um bom filme de Woody Allen deve ser. Sua conclusão, todavia, não é muito feliz como uma produção mais “comercial” exigiria. Pelo contrário: seu desfecho é triste, duro, assim como a vida em algumas ocasiões. É um lado mais racional para se encarar nossa existência. Café Society  não é a obra máxima de Allen, mas por ainda estar acima da média, atesta a genialidade de seu diretor.

12 Horas Para Sobreviver – O Ano Da Eleição (The Purge: Election Year)

01Os dois primeiros filmes da franquia Uma Noite de Crime custaram juntos pouco mais de US$ 12 milhões – uma ninharia se comparado aos mais de US$ 200 milhões que arrecadaram pelo mundo desde sua estreia, em 2013. De fato, a premissa é intrigante: o “expurgo”, um evento anual do estado norte-americano onde todo e qualquer tipo de crime pode ser cometido sem intervenção do sistema judiciário. No Brasil, no entanto, a série parece não ter ido lá muito bem – e isso explica o título nacional que, à primeira vista, procura distanciar totalmente esta nova produção das anteriores: 12 Horas Para Sobreviver – O Ano da Eleição.

Verdade seja dita: não há nada original neste terceiro capítulo da saga e o roteiro segue a mesma fórmula de seus primeiros filmes: a noite do “expurgo” e como sobreviver a ela. Desta vez, acompanhamos Leo Barnes, chefe de segurança da equipe da senadora Charlie Roan, uma das mais fortes candidatas à presidência dos EUA. A campanha de Charlie, que já foi vítima do expurgo no passado, visa extinguir do calendário este evento que dizima continuamente milhares de pessoas a cada nova edição – em especial, as menos favorecidas. Com isso, ela compra briga com poderosos e se torna alvo óbvio da noite mais “aguardada” do ano.

Talvez o que mais tenha faltado a 12 Horas Para Sobreviver – O Ano da Eleição é ousadia. A proposta é interessante (principalmente se considerarmos que este é o ano de eleição presidencial nos EUA – e por lá a disputa está bastante polêmica e acirrada), mas o argumento pouco se utiliza dela, apostando na mesma receita batida das produções anteriores. O tema abre diversas possibilidades e muitas ideias poderiam ser exploradas, desde a própria questão política até mesmo o “turismo criminoso” (que até chegou a ser citado, mas sem qualquer profundidade) ou a segregação de classes. Além disso, 12 Horas Para Sobreviver apresenta uma leve alteração em sua natureza: se antes era o suspense que predominava em boa parte da fita, é visível que esta sequência tem muito mais cara de filme de ação. O próprio personagem de Frank Grillo é o típico protagonista do gênero: bom lutador, possui excelente mira, desconfia de tudo e todos. Isso não chega a ser um problema (até porque a direção de James DeMonaco dá conta do recado), mas torna este filme menos “sombrio” que seus antecessores.

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12 Horas Para Sobreviver peca ainda no seu desfecho apressado: a história termina e o espectador fica com aquele gostinho de “tá, mas e aí?”. O longa poderia ter expandido seu alcance, trazendo para debate uma crítica social necessária: até quando os interesses dos mais ricos vão afetar a vida da classe mais pobre? No entanto, 12 Horas Para Sobreviver se limita exclusivamente a um filme de ação clichê e fácil – desperdiçando seu potencial em algo apenas trivial.

O Funcionário do Mês (Quo Vado?)

Em época de crise, quem é que não almeja a estabilidade (e regalias) de um emprego público? Para Checco, que desde cedo sonhava em ser funcionário do governo assim como seu pai, o cargo no Departamento de Caça e Pesca é tudo o que ele pediu a Deus. Com um bom salário, solteiro, sem filhos e ainda morando na casa dos pais, ele tem seu posto ameaçado quando uma mudança política faz com que o governo tenha que cortar alguns gastos. Agora, resta ao egoísta Checco escolher entre uma demissão voluntária ou ser transferido para um lugar distante.

O Funcionário do Mês chega timidamente aos cinemas brasileiros, apesar das boas críticas ao redor do mundo e, principalmente, do título de maior bilheteria italiana de todos os tempos. Sob a direção de Gennaro Nunziante, esta comédia do absurdo explora os abusos do funcionalismo público na Itália. Além disso, o roteiro também critica de forma bem-humorada a arrogância do poder público, especialmente na construção da personagem Sironi, a advogada responsável por fazer Checco finalmente pedir as contas. Entre armadilhas e viagens para os locais mais improváveis, ela faz de tudo para que Checco ceda aos seus caprichos – a doutora só não imaginava que tudo o que Checco menos deseja é perder esta “mamata”.

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Em meios a risos provocados por piadas dos mais diversos gêneros, O Funcionário do Mês conta com boas atuações por grande parte do seu elenco. Inegavelmente, é o humorista Checco Zalone quem mais se destaca: seu tipo é divertidíssimo e o ator consegue ir de uma emoção à outra com muita fluidez e naturalidade. Ele faz com que, por mais que desaprovemos algumas de suas ações, realmente nos identifiquemos e torçamos pelo protagonista da história. O alívio da trama fica por conta de Eleonora Giovanardi, na pele de Valeria – é essa personagem quem trará à tona o lado mais “racional” de Checco, fazendo com que sua decisão se torne cada vez mais difícil.

Talvez devido à imigração europeia a partir do século XIX, Brasil e Itália são países que possuem muitas semelhanças entre si – e o cinema reflete um pouco dessas características, é verdade. O Funcionário do Mês até se parece com as nossas comédias nacionais, seja no tom pastelão, no desenvolvimento de seu protagonista ou mesmo nas situações absurdas que o argumento propõe. No entanto, mesmo com seus exageros e aos trancos e barrancos, O Funcionário do Mês diverte e muito o espectador que se propuser a conferir esta obra – que além de fazer rir faz com que o público se enxergue nela e ria de si mesmo. E é isso que esperamos de um humor inteligente.

O Sono da Morte (Before I Wake)

Confesso que mantenho certa apreensão com longas sem gênero muito bem definido ou que são vendidos de uma forma quando, na verdade, é outra. Este para mim foi o maior “deslize” de O Sono Da Morte. Distribuído erroneamente como um “filme de terror” (apesar dos protestos do diretor Mike Flanagan), as reviravoltas do roteiro incomodam um pouco: ora drama familiar, ora fantasia, daí vem um suspense para dar uma equilibrada, uns sustos básicos para fazer o espectador permanecer acordado – e tudo isso de maneira atabalhoada e sem muita preocupação com a coerência narrativa.

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Sejamos honestos: a ideia de trazer como pano de fundo o misterioso universo dos sonhos é boa. Aliás, o tema é constante em obras de terror – uma das melhores franquias do gênero, A Hora do Pesadelo, por exemplo, utiliza-se desta premissa. E O Sono da Morte vinha sendo bastante aguardado pelos fãs deste tipo de cinema, principalmente pela presença de Jacob Tremblay (de O Quarto de Jack) – na trama, o ator mirim é Cody, um garoto cujos sonhos e pesadelos se tornam reais enquanto ele dorme. Adotado por um jovem casal que acabara de perder o filho da mesma idade em um trágico acidente, Cody (que já tivera um passado turbulento) se adapta bem à nova família, mas seu dom poderá colocar a todos em risco.

O título nacional (e para lá de apelativo) engana: O Sono da Morte não é um terror. A trama é bem conduzida até certo momento, mas depois acaba se entregando aos vários clichês dos inúmeros gêneros que tenta abranger. Não existe equilíbrio: as mudanças no enredo são abruptas. Para além disso, os efeitos especiais quebram muito o clima da história. A concepção visual é interessante (valorizada muito pelos enquadramentos e movimentos de câmera), mas o CGI parece ser fruto de um orçamento curto ou mesmo uma pós-produção precária. Definitivamente, é o aspecto técnico que mais decepciona na obra.

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Com um péssimo marketing, O Sono da Morte não é totalmente descartável e merece, sim, ser conferido. Talvez o maior motivo seja realmente o encantador Jacob Tremblay – muito antes de arrancar suspiros em O Quarto de Jack. Torçamos para que ele não se perca ao longo de sua carreira, pois talento o pequeno tem e de sobra (não à toa, ele deixa os veteranos Thomas Jane e Kate Bosworth no chinelo a cada aparição). Só não espere assistir a um belo exemplar do cinema de terror porque você ficará decepcionado: O Sono da Morte é drama, emoção, fantasia, suspense, tudo isso – menos aquilo que ele se diz ser.

Pets: A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets)

Max é um cachorro que mora com sua dona em um apartamento em Nova York. Único habitante canino, ele é alvo de todo carinho e mimos possíveis até a chegada de Duke, um cão de rua que sua dona acabara de resgatar. Pronto! A rivalidade entre eles é imediata. Entretanto, quando os dois se perdem na cidade e são perseguidos por uma “gangue“ de bichos que vivem no esgoto, Max e Duke terão que se unir para encontrar o caminho de volta para casa, enquanto seus amigos da vizinhança saem à sua procura.

A premissa de Pets – A Vida Secreta dos Bichos, nova animação da Illumination Entertainment (empresa responsável por Meu Malvado Favorito e Minions), não é original. É escancarado o fato de que Pets praticamente recicla a história do primeiro filme da franquia Toy Story, da concorrente Pixar. Ou seja, Pets é uma versão “animal” de uma fábula que já estamos cansados de conhecer (inclusive pela proposta da trama de mostrar “o que os bichos de estimação fazem quando seus donos não estão por perto”), porém como muito menos requinte.

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Mas se por um lado falta originalidade ao argumento, Pets consegue ainda ser “diferente” por trazer um entretenimento muito mais exagerado, escrachado e até “bobo” – o suficiente para fazer com que o público se divirta de verdade. O humor é predominante, os personagens são bem explorados e é muito interessante ver a forma como a história “brinca” com os estereótipos animais – em muitos instantes, o espectador chega a pensar “É exatamente assim que o meu gato age!” ou “Nossa, igualzinho ao meu cão!”.

Ainda que esteja longe de ser um filme memorável (o trailer entrega muito da obra, infelizmente), Pets consegue cumprir aquilo que promete: divertir. Uma coisa é certa: Pets é uma verdadeira homenagem ao relacionamento dos humanos com seus animais de estimação – e isso é fruto de uma observação muito peculiar do comportamento de ambos. Ao sair da sessão, você que for levar sua criança e ainda não tiver um pet em casa, prepare-se: um novo morador pode estar a caminho.

Águas Rasas (The Shallows)

O cenário é estonteante: uma praia paradisíaca no México, com águas claras e um visual arrebatador. É para lá que a estudante Nancy viaja após perder sua mãe em decorrência de um câncer. Quando a jovem adentra o mar em sua prancha, ela esbarra em um cadáver de baleia encalhado, despertando assim a atenção de um tubarão que prontamente a ataca. Ferida e sem saída, Nancy se refugia em uma rocha no meio do oceano, iniciando uma luta desesperada por sobrevivência.

Já comentei em outras ocasiões que o terror não é um dos meus gêneros favoritos – e aqueles que se utilizam de animais como antagonistas muito menos. Simples questão de gosto. Mas isso não me impede de falar sobre Águas Rasas, novo longa do realizador espanhol Jaume Collet-Serra (de A Casa de Cera e A Órfã). Já de cara, um aviso: o filme não é nada inovador. Na realidade, Águas Rasas tem um argumento até mesmo questionável, que referencia escancaradamente dois clássicos do cinema: o próprio Tubarão, de Steven Spielberg em 1975, e Náufrago, estrelado por Tom Hanks em 2000. Entretanto, ainda que as referências sejam boas, o roteiro é nitidamente fraco. Poderíamos dividir a fita em duas partes: a primeira, destinada à apresentação de sua protagonista (algo que dura por volta da primeira meia hora de projeção e é uma sucessão de episódios que não ajudam o público a nutrir qualquer empatia por Nancy); e a segunda, onde acompanhamos a personagem em sua busca pela sobrevivência.

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Mas se o roteiro peca no desenvolvimento de uma história mais “palpável”, Águas Rasas acerta na escolha de Blake Lively. Dona de uma beleza invejável, a atriz é a personificação do “erotismo” em cena. Seja no loiro dos cabelos, nas curvas do corpo ou tentando uma ou outra palavra em espanhol, Lively é o típico padrão de beleza norte-americano. E mais do que isso: ainda que sua personagem não seja das melhores, ela consegue manter o espectador atento devido à aflição que transmite. Além disso, a fotografia de Águas Rasas é ótima e, com seus planos certeiros, valoriza bem as locações – recomendo que o filme seja assistido no cinema para que você, leitor, possa apreciar esse ponto altamente favorável da produção.

A crítica lá fora tem sido generosa com Águas Rasas (houve quem dissesse que o filme é o “Tubarão do século XXI”). Não vamos exagerar. Águas Rasas não é tudo isso, mas é uma obra competente em sua proposta de entreter – só o fato de ter uma curta duração já ajuda bastante. O longa ainda tem uma particularidade: ele está na linha tênue entre uma produção “séria” e o trash da década de 80 – logo, se você for fã deste estilo, é capaz de sair da sessão com um sorrisão no rosto.