O Dia do Atentado (Patriots Day)

Em 2013, durante sua famosa Maratona de Boston, no feriado do Dia do Patriota, os EUA sofriam seu maior ataque terrorista desde o 11 de Setembro. Este triste acontecimento serve de material para O Dia do Atentado, novo filme do cineasta Peter Berg, que se utiliza de relatos policiais, reportagens investigativas e registros reais para documentar as horas seguintes ao atentado que chocou todo o mundo.

Talvez seja difícil para nós, brasileiros, entendermos o real significado e amplitude de uma produção como esta, afinal ainda que enfrentemos diariamente inúmeros problemas sociais, temos o privilégio de vivermos em um país “pacífico”, ao menos em relação ao cenário externo. Hoje, os EUA é uma nação que vive a iminência de uma nova tragédia a todo instante – especialmente nos últimos dias, com a crescente tensão decorrente dos conflitos ocorridos na Síria. Portanto, nos colocarmos na posição de uma população tomada pelo medo seria fundamental para compreendermos o que é O Dia do Atentado.

Infelizmente não é preciso tanto. Assim como tantos outros longas do gênero, O Dia do Atentado mantém seu foco no heroísmo, no brilhantismo norte-americano e sua supremacia ao invés de se aprofundar em uma discussão que nos permita entender o contexto social em que esses acontecimentos estão inseridos. Em um estilo quase documental, o filme se concentra nas artimanhas policiais em busca dos responsáveis pelo crime, exaltando seus heróis “anônimos” e, principalmente, o sentimento de união e solidariedade do povo norte-americano (algo que, para mim, é louvável e deveria ser imitado por todos). Para além disso, falta à narrativa um elemento novo: quem acompanhou a repercussão do caso à época sabe exatamente o que esperar. Apesar de ser competente em sua proposta, apostando suas fichas em um elenco de peso (Mark Wahlberg, em sua terceira parceria com Berg, divide a tela com Kevin Bacon e o recém oscarizado J.K. Simmons), O Dia do Atentado se limita apenas a um simples registro deste fatídico e triste dia na história norte-americana, incapaz de nos fazer envolver pela produção enquanto obra cinematográfica.

Paterson (Paterson)

A vida de Paterson é uma constante rotina. Ele acorda diariamente por volta das seis da manhã (sem despertador ou celular – este último que ele se recusa a usar), passa um tempo na cama com sua mulher, toma seu café e sai para o trabalho. Passa pelos mesmos lugares até chegar à garagem onde está estacionado seu ônibus, que ele calmamente dirige pelas ruas de sua cidade, com quem divide o mesmo nome. Ao retornar para casa, arruma a caixa de correios, troca algumas palavras durante o jantar e sai para passear com seu buldogue inglês, até fechar a noite entre conversas e divagações com um amigo em um bar vizinho.

E assim, Paterson, novo filme de Jim Jarmusch, é construído a partir de suas aliterações, em que inúmeros elementos se repetem no decorrer da fita nos permitindo acompanhar a vida de seu personagem título durante sete dias. Entretanto, nosso protagonista tem um talento incomum (principalmente se posto ao lado da profissão que exerce, motorista de ônibus): entre observações de seu cotidiano, diálogos aleatórios e rotas percorridas, ele escreve versos em um modesto caderno que leva sempre consigo, sem muitas ambições. É sua excêntrica esposa quem o encoraja a continuar escrevendo e publicar seus textos.

Tentar resumir Paterson à uma sinopse “tradicional” é um exercício relativamente difícil, já que muito pouco acontece na história. Ou melhor, nada acontece que promova uma reviravolta na trama. No entanto, é interessante notar a maestria com que Jarmusch conduz seu filme: apesar da estrutura rígida e circular (refletida na excelente montagem do brasileiro Affonso Gonçalves), há um sentido rítmico na narrativa, como se ela toda fosse também uma poesia. Além disso, seu protagonista é construído com cuidado, praticamente uma antítese do clichê de “poeta” tão difundido em nossa cultura: um gênio incompreendido, boêmio e com propensão à melancolia – enquanto Paterson, por sua vez, é um homem comum, cujo cotidiano se limita apenas a existir.

Estrelado por um Adam Driver em ótima performance (nunca antes o intérprete esteve tão “belo” em cena), Paterson é um filme sobre as coisas comuns da vida. Existe beleza e encanto no “simples”; o que nos falta muitas vezes é a sensibilidade necessária para percebe-los. Jim Jarmusch nos delicia com uma obra que celebra o banal, nos levando a encarar a vida e a nós mesmos com outros olhos, o que realmente torna nossa existência tão profunda.

Um Limite Entre Nós (Fences)

Um Limite Entre Nós não possui exatamente uma trama em formato “tradicional”, com começo, meio e fim. No decorrer de suas mais de duas horas de duração, acompanhamos a vida do truculento Troy Maxson (Denzel Washington), um lixeiro negro na Pittsburgh da década de 50, cuja maior ambição naquele instante é deixar a traseira do caminhão de lixo para se tornar motorista – cargo que naquela época era destinado exclusivamente aos brancos.

Mas Troy é um homem ressentido – e aos poucos vamos descobrindo alguns fatos de seu passado não muito distante que contribuíram para isso. Quando tinha seus 30 e tantos anos, o protagonista viu o sonho de se tornar um jogador de beisebol profissional fugir de suas mãos – e hoje ele reprime o desejo de seu caçula em seguir carreira no esporte, além de desprezar a profissão do filho mais velho: um musicista de jazz falido. A única pessoa que parece se divertir com suas histórias é Rose Lee (Viola Davis), sua esposa devotada que além de cuidar da casa é capaz de fazer o marido voltar atrás em suas atitudes mais explosivas ou não pensadas.

Dirigido pelo próprio Denzel, Um Limite Entre Nós é a adaptação da peça Fences, de August Wilson – um sucesso na Broadway que o próprio ator chegou a encenar há alguns anos. O longa, de fato, é quase uma extensão do texto teatral: rodado praticamente em um único cenário e com longos diálogos. A impressão que o público tem a todo momento é a de que está vendo ali uma peça de teatro filmada, o que pode dispersar a atenção do espectador menos acostumado com este tipo de narrativa – especialmente em seu primeiro ato, onde há muita verborragia e monólogos que, a princípio, não agregam tanto à história.

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Entretanto, é aos poucos que Um Limite Entre Nós se desenvolve: o filme cresce com intensidade, às vezes de forma até mesmo cruel e dolorosa – e é aí que a câmera do cineasta se torna ainda mais discreta, com uma edição que prioriza muito o desempenho brilhante de seu elenco. Denzel é soberbo na pele de Troy, nos entregando uma de suas performances mais espetaculares (e não fosse a supremacia de Casey Affleck por seu Manchester à Beira Mar, certamente o Oscar de melhor ator seria dele). Viola Davis, por sua vez, faz jus ao prêmio de melhor coadjuvante: com uma personagem completa de sentimentos contidos, a entrega da atriz é impressionante. É interessante observar o contraponto entre as duas atuações: enquanto o ator impõe sua voz potente ao soltar cada palavra, Viola traz emoção. Em seu olhar, em seus gestos e expressões, nas lágrimas que surgem – Viola nos despeja todos os sentimentos de Rose sem medo ou pudor. E novamente a edição da fita se aproveita disso a favor do filme, deixando as cenas fluírem de maneira tão natural como se, de fato, estivéssemos observando essas pessoas como se em uma quarta parede.

Assim, amparado quase que completamente pelo irretocável trabalho de seu casting, Um Limite Entre Nós é um retrato cru da comunidade negra norte-americana dos anos 50, delineado em um drama que não mede esforços para realçar todo o aspecto teatral do material que o originou. E este pode ser um de seus problemas: ao tentar aproximar o filme daquilo que seria uma peça de teatro, Um Limite Entre Nós pode se tornar monótono ao longo de seu desenvolvimento, afinal teatro e cinema não são a mesma coisa. Com isso, é no carisma de seu elenco que a obra encontra seu maior triunfo, tornando Um Limite Entre Nós um filme poderoso como trabalho cinematográfico e necessário como estudo social.

Internet: O Filme (Internet: O Filme)

Podem me acusar de tudo, exceto ter preconceito com qualquer tipo de arte. Para mim, a arte é democrática e pode atingir o público de inúmeras formas. Principalmente no cinema. Eu sempre procuro deixar de lado as opiniões alheias para embarcar sem medo em umaprodução, buscando tirar minhas próprias conclusões e evitar, assim, qualquer tipo de julgamento anterior (e, quem sabe, sair surpreendido da sessão). Isto posto, fui de braços abertos ao cinema para assistir Internet: O Filme e até agora eu não consigo achar uma resposta convincente para uma única pergunta que me faço a todo instante: por quê?

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Idealizado e roteirizado por Rafinha Bastos (aquele da piada com Wanessa Ex-Camargo) e dirigido por Filippo Capuzzi Lapietra, Internet: O Filme é composto por uma série de pequenas esquetes, desenvolvidas paralelamente, que acontecem em um hotel onde centenas de youtubers estão reunidos para um evento. Com isso, encontramos vários arquétipos deste universo (inclusive os próprios youtubers, que estão ali desempenhando estes papéis): o tipo que se acha a maior webcelebridade; o gamer campeão de torneios; o casal oportunista que ganha dinheiro postando vídeos de seu animal de estimação; a garota fútil que critica a cultura webstar; até os fãs enlouquecidos por uma selfie ou um stalker maníaco que possui um altar de adoração ao seu ídolo.

Internet: O Filme é soberbamente absurdo. A proposta inicial, ao que parece, era utilizar a linguagem estética e narrativa das grandes produções do YouTube nas telonas. Infelizmente, este objetivo não é alcançado nem de perto: o filme é exagerado demais. Assim como os protagonistas de alguns destes canais, o longa sofre com o excesso: força-se muito para transformar a trama em algo nonsense e o resultado é uma obra que, definitivamente, nada agrega. As poucas piadas são de extremo mal gosto, além de escatológicas, gordofóbicas e machistas – isso sem mencionar o uso abusivo de palavrões que não produz qualquer efeito.

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Para piorar, a performance do casting não ajuda. Tenho total consciência de que boa parte do elenco é formada por youtubers que não são, necessariamente, atores profissionais (aliás, estar diante de uma câmera para milhares de pessoas e atuar são coisas completamente diferentes, não diminuindo uma nem engrandecendo a outra); mas poderia haver um pouco de esforço da galera para que suas atuações não fossem uma extensão de seus vídeos na rede. Victor Meyniel parece ter uma mesma cara não importa qual seja a situação (apesar de aparecer somente no fim da fita); Lucas Olioti, o T3ddy, não faz outra coisa a não ser tirar a franja do rosto, enquanto mesmo os veteranos Paulinho Serra e Rafinha Bastos pouco convencem.

Recentemente, saí do cinema muito satisfeito com Eu Fico Loko, filme que contava a vida do youtuber Christian Figueiredo – e apesar de não ser excepcional, me diverti muito com a história e dei altas risadas. Exatamente como mencionei acima, fui assistir sem expectativa e me surpreendi positivamente. O mesmo não aconteceu com Internet: O Filme, que realmente é ruim. O longa serve, no máximo, como um passatempo barato que não levará mais do que alguns adolescentes alucinados por este tipo de cultura ao cinema, provando como nunca antes que a inclusão digital tem lá seus aspectos negativos…

A Lei da Noite (Live by Night)

Escrito, dirigido e protagonizado por Ben Affleck (por quem eu assumidamente não mantenho a menor simpatia), A Lei da Noite é, para alguns, um dos maiores esnobados das principais premiações em 2017. Lançado nos EUA no final de dezembro do ano passado, o filme, entretanto, foi um fiasco de bilheteria – uma das menores da carreira de Affleck, o que lhe custou um prejuízo de mais de U$ 70 milhões e deixou uma dúvida no ar com relação ao sempre questionável talento de seu idealizador (que, definitivamente, é muito melhor cineasta do que ator, apesar de lhe faltar certo brilhantismo em qualquer uma dessas áreas).

Narrado em primeira pessoa com um desnecessário recurso off, A Lei da Noite conta a história de Joe Coughlin, um veterano de guerra e filho de um capitão de polícia que acaba se envolvendo com o crime organizado. Após ser traído por sua amante e ficar à beira da morte, Joe pede proteção para o chefe da máfia italiana, Maso Pescatore, que o incube de comandar as atividades de um cartel na costa da Flórida. Motivado por um profundo desejo de vingança contra o mafioso Albert White, Joe recomeça sua vida ao lado de Graciela, enquanto tenta administrar seus negócios oriundos de atividades ilegais e as rivalidades que o ameaçam.

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Talvez o que mais prejudica A Lei da Noite é a falta de objetivo em seu roteiro. É um filme sobre máfia, mas falta se aprofundar no tema, apesar de todos os elementos inerentes a ele estarem presentes. Flerta depois com um romance que poderia facilmente ser descartado, já que não faria a menor diferença na trama. Poderíamos até embarcar em um drama sobre vingança, mas a obsessão do protagonista por seu rival se esvaece ao longo das duas longas horas de produção – e quando os inimigos estão frente a frente não há um clímax à altura. A Lei da Noite se apoia basicamente na velha disputa da máfia para consolidar seu território, mas o ritmo da narrativa é muito comprometido pelo excesso de diálogos. Muita fala, pouca ação – e isso para quem espera um filme “alucinante” é quase uma decepção.

Dizer que o filme é ruim é ser muito cruel com Ben Affleck, que visivelmente se esforça e entrega uma obra que não chega a ser tudo aquilo que propõe, mas quase chega lá. Apesar do incômodo causado pelo uso de CGI para dar uma rejuvenescida em Affleck (que aqui parece ligado no modo automático – mas quando não?), o filme não é um fiasco por completo – pelo contrário, é um entretenimento mediano para quem encara-lo sem muita expectativa. Do contrário, a decepção pode ser inevitável…

Sangue Pela Glória (Bleed for This)

Escrito e dirigido por Ben Younger, um cineasta de currículo modesto até o momento, Sangue Pela Glória acompanha a incrível história real do pugilista Vinny Pazienza, campeão mundial que, após um grave acidente de carro que o deixou à beira da morte, teve uma das reviravoltas mais inspiradoras do mundo dos esportes.

Definitivamente, Sangue Pela Glória não é o melhor filme do gênero, apesar do incrível potencial de sua trama. Seus principais personagens sofrem de uma visível falta de desenvolvimento, refletindo diretamente as falhas de seu argumento. Tudo acontece de forma muito rápida: o roteiro é direto e seco, sem muito espaço para aprofundar algumas situações – como a última luta de Vinny, provavelmente a disputa mais importante de sua carreira, mas que recebeu pouco espaço de cena.

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No entanto, são as performances sólidas de Miles Teller e Aaron Eckhart (este último, quase irreconhecível) que seguram as quase duas horas de filme. Ambos estão muito bons, especialmente o jovem Miles – é estimulante ver o quanto o ator vem progredindo, apesar das escolhas recentes um tanto desastrosas. Este certamente poderia ser o papel de sua vida e Miles, literalmente, dá seu sangue, sendo praticamente o responsável por toda empatia que nutrimos por Vinny – mas é uma pena que a produção não colabora para fazer este um grande projeto. Com produção executiva de Martin Scorsese, Sangue Pela Glória é o tipo de filme que você de imediato percebe que poderia ser muito maior, mas fica limitado a ser apenas mediano.

Silêncio (Silence)

Falar sobre religião não é fácil. No cinema, este tema, por mais bem tratado que seja, sempre levanta infindáveis debates e discussões – e isso não seria diferente ao falarmos de Silêncio, filme de Martin Scorsese, um cineasta cuja maior parte de sua filmografia foi amparada em seu catolicismo (ainda que não fosse o objeto primário de seus principais títulos). Imersiva em sua plenitude, esta obra do diretor de Taxi Driver e Touro Indomável é um dos projetos mais pessoais de Scorsese, que aqui deixa de lado o crime e a máfia (presente em seus melhores longas) para falar sobre a fé e seu questionamento.

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Silêncio é a adaptação do livro homônimo escrito por Shūsaku Endō em1966, apontado como um dos melhores romances históricos do século XX (apesar de pouco conhecido no Brasil) e abertamente uma das obras literárias mais relidas por Scorsese. A história acompanha a viagem de dois padres portugueses ao Japão, durante o século XVII, para reencontrar seu mestre que, segundo informações, teria renunciado sua fé cristã e estaria vivendo conforme os costumes locais (em uma região onde a prática do cristianismo era severamente repreendida pelas autoridades).

Amparado pela bela fotografia de Rodrigo Prieto que, em conjunto com o competente design de produção de Dante Ferretti, emprega um tom clássico à toda narrativa (onde cada plano aberto pode ser visto como uma pintura antiga), Silêncio é visual e tecnicamente impecável. As cores dos quadros são ofuscadas por um profundo aspecto de neblina, um recurso que reafirma toda a morbidez da trama. Sonoramente, Scorsese abandona praticamente o uso de qualquer trilha musical, abusando dos sons (revelando um ótimo trabalho de edição e mixagem) e, como sugere o título, do silêncio – como se para estender a tensão do momento e permitir que o espectador possa refletir sobre aquilo que vê na tela. É importante ainda ressaltar que a direção de Scorsese vai além, se mostrando principalmente na performance espetacular de todo o elenco, em especial do protagonista vivido por Andrew Garfield. É interessante analisar o quanto Garfield se doa a esta personagem, nos entregando uma de suas mais surpreendentes atuações até então. Inegavelmente, o intérprete está em sua melhor fase.

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Mas é no desenvolvimento de seu drama que Silêncio se torna o que é: um grande filme. A história caminha sem pressa, dando tempo necessário ao longo de quase três horas de duração para que tudo transcorra de forma abrangente. Apesar do possível tom xenófobo que alguns possam alegar (quando a cultura japonesa é um tanto “vilanizada”, enquanto o catolicismo é glorificado), Silêncio é um filme que incomoda e faz o público sair de sua zona de conforto para refletir. Em uma época de discursos religiosos inflamados de ódio, Silêncio convida o espectador a questionar sua fé, independente de religiosidade. A fé não está apenas nas atitudes; ela está presente dentre de nós.

Em produção por mais de 20 anos, Silêncio é um filme que nos oferece uma experiência cinematográfica única de contemplação e reflexão. É verdade que não é uma obra para todo o público, mas é certo que é o projeto da vida seu idealizador, ainda que não seja completamente entendido. Esnobado pela Academia, talvez hoje seja difícil enxergar a dimensão de Silêncio dentro da filmografia de Scorsese, mas certamente ele se perpetuará em um futuro não muito distante como um dos momentos mais importantes da carreira de um dos maiores artistas de cinema em todos os tempos.

Lady Gaga Aposenta o Visual Pomposo e Solta a Voz Como Nunca em “Joanne”

Desde o subestimado Artpop (um trabalho incompreendido, que pecava pelo excesso de ideias – ainda que algumas geniais) e um passeio pelo jazz ao lado do sempre competente Tony Bennett, os little monsters aguardavam ansiosamente pelo triunfal retorno de Lady Gaga ao pop. Mesmo os que não simpatizavam com ela também tinham lá suas expectativas, afinal algumas de suas maiores “divas” haviam assumido um tom mais conceitual em seus últimos álbuns (vide Rihanna ou Beyoncé, por exemplo). Logo, há tempos faltava um bom disco pop com músicas para fazer a galera ir até o chão nas boates por aí. Para o bem ou para o mal, Joanne, novo registro de Gaga, chega recentemente às lojas dividindo opiniões, mas mostrando seu indiscutível amadurecimento como artista.

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Sim, Gaga ultrapassou o status de “diva pop” para se tornar uma intérprete respeitada, com liberdade artística para fazer exatamente aquilo com a qual se sente confortável – e a verdade é que os figurinos extravagantes de outrora já não são tão interessantes, fazendo com que Stefani Germanotta aposente o vestido de carne e vista as botas e chapéu rosa que são os símbolos desta sua nova fase. Joanne é, provavelmente, o seu disco mais pessoal, onde Gaga solta a voz (e como) para falar de seus “demônios” internos que a apavoram e já fazem parte de sua rotina.

Apoiada em uma base composta por guitarra, baixo e bateria, Diamond Heart abre este registro sem o peso de sintetizadores, mas nem por isso menos pop. De cara, é capaz de agradar aos fãs iniciais da cantora. Faixa mais radiofônica de todo o conjunto, A-Yo segue a linha pop de sua antecessora, um hit pronto para as pistas (mesmo que não tenha o vigor de nenhum de seus clássicos anteriores). Com simplicidade e abandonando praticamente qualquer “acabamento” vocal, Joanne é de uma beleza musical única com sua percussão tímida e seu violão dedilhado. É uma calmaria que contrapõe à sequência de canções que segue: John Wayne, com sua batida diferente de tudo o que se ouviu até aqui; Dancin’ in Circles, com sua levada reggaeton que remete à era The Fame Monster; e Perfect Illusion, primeiro single que, embora não seja explosivo e nem faça tanto sentido quando ouvido individualmente, chega se firmando como um dos momentos mais coesos de Joanne.

Million Reasons é a faixa com os mais fortes elementos que referenciam ao estilo country de Joanne. Balada poderosa, aqui você é obrigado a admitir que, sim, Lady Gaga canta muito. Nos remetendo aos filmes tarantinescos que Gaga aparenta admirar bastante, Sinner’s Prayer é uma mistura experimental entre pop e country e, talvez por isso, soe tão curiosa à primeira audição. Com ótimos arranjos de metais e vocais, Come to Mama tem uma melodia incomum e é deliciosa de se ouvir – até agora não entendo às críticas a ela, para ser bem honesto. Em parceria com Florence Welch, Hey Girl traz suavidade e minimalismo, com uma letra feminista que agrega muito à proposta do álbum. Angel Down fecha a versão comum de Joanne, com uma atmosfera soturna e uma interpretação potente de Gaga, isso sem mencionar a parte instrumental muito peculiar.

Ame ou odeie, até o menos é mais quando falamos de Lady Gaga. Goste ou não, a cada dia que passa ela deixa de lado o rótulo de “esquisita” e se consagra como uma das artistas mais completas de sua era. Ainda que Joanne não seja o alívio pop que esperávamos, encontramos aqui uma Lady Gaga sem medo de retornar às suas raízes. Pelo contrário: ela busca valoriza-las, entregando um disco que, entre altos e baixos, tem seus méritos dentro da carreira da cantora. Talvez nunca mais escutaremos algo tão estrondoso quando um Bad Romance ou Pokerface, é verdade, mas é válido o esforço de Gaga em tirar as máscaras e mostrar sua verdadeira face – e já que isso pode ser inevitável, que tal aproveitarmos?

Seremos História? (The Turning Point)

Desde o início de sua carreira, Leonardo DiCaprio sempre se mostrou um árduo defensor das causas ambientais. Elogiado por inúmeros grupos ambientalistas devido ao trabalho que promove desde então, o intérprete foi nomeado pela ONU, em 2014, seu mensageiro da paz e representante das alterações climáticas no mundo – o que o tornou gabaritado para estrelar o potente documentário Seremos História?.

Com produção executiva de Martin Scorsese e direção de Fisher Stevens, Seremos História? acompanha a jornada de três anos do astro hollywoodiano em busca de respostas às ameaças ao meio ambiente. Durante o período, o ator rodou o planeta, visitando locais onde as mudanças climáticas são mais evidentes e causam maior impacto – como a Flórida, nos EUA, que sofre todos os anos com inundações; a Groenlândia, cujas geleiras se derretem mais rapidamente a cada dia; ou mesmo algumas ilhas do Pacífico, prestes a desaparecer com o aumento do nível do mar.

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A proposta do documentário é simples: alertar o público de que a situação é crítica e tem de ser discutida com urgência. O texto de Mark Monroe argumenta que os governos mundiais precisam tomar ações imediatas para preservar o meio ambiente. Entre elas, a cobrança de impostos sobre combustíveis que emitem dióxido de carbono; o incentivo ao uso de energias renováveis (como a eólica, por exemplo); e até mesmo uma nova dieta alimentar. A dificuldade, segundo a obra, reside inicialmente no fato de que as informações sobre as alterações do clima são bastante controversas: se por um lado há quem defenda que o aumento da temperatura mundial não é nada perto da evolução da humanidade nos últimos anos, os mais pessimistas acreditam que o momento é crucial: por mais que não possamos frear as consequências, devemos desde já arregaçar as mangas e buscar soluções que ajudem a minimizar os impactos causados.

Uma nação informada é uma nação empoderada.

DiCaprio discute o tema com os tipos mais variados: entre líderes políticos, cientistas e outros, Leonardo entrevista nomes como o presidente norte-americano, Barack Obama, o secretário-geral da ONU e o Papa Francisco, primeiro pontífice a se pronunciar acerca do aquecimento global. Apesar de sua visível falta de domínio do assunto, o ator é corajoso ao expor na tela aqueles que, de acordo com o roteiro, seriam os grandes vilões – incluindo nomes de políticos e empresas do ramo alimentício. Além disso, ele não se intimida ao dizer que o Acordo de Paris (assinado por líderes de vários cantos do mundo) não pode ficar restrito apenas ao papel; pelo contrário, ele deve abranger medidas concretas que precisam ser implementadas o quanto antes.

Já disponibilizado no National Geographic Channel, além de outras plataformas, Seremos História? é, antes de um documentário muito bem produzido, um poderoso alerta a todos nós: cada um é responsável, em menor ou maior escala, pelo que acontece no mundo e todos podemos fazer a nossa parte. A conscientização aqui é fundamental. A pergunta do título é interessante e é justamente o que esta produção deseja: nos fazer refletir se, afinal, seremos capazes de salvar o planeta (e a nós mesmos) ou nos deixaremos ser consumidos por nossa própria arrogância.

Terra Estranha (Strangerland)

A família Parker acaba de se mudar para o deserto australiano de Nathgari. Eles não aparentam estar muito felizes com a nova casa, mas a princípio o espectador não enxerga ali nada fora do comum: um pai autoritário, uma mãe condescendente, a adolescente rebelde que implica com o irmão menor – enfim, a estrutura familiar “típica” de tantas outras histórias que vemos por aí. Aos poucos, no entanto, percebemos que algo estranho acontece entre eles – sensação que se potencializa quando os filhos do casal desaparecem subitamente e sem deixar rastros.

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Terra Estranha é a estreia de Kim Farrant na direção de um longa-metragem. Amparada pela boa fotografia de P.J. Dillon (responsável pela captação de ótimas panorâmicas) e a trilha perturbadora de Keefus Ciancia, Terra Estranha não chega, entretanto, a empolgar e despertar atenção. O argumento tenta escapar da tradicional narrativa que acompanha um desaparecimento, porém muito da trama é comprometido pelo fato de o roteiro não nos fornece respostas, mas insinuações acerca das personagens. Inúmeras pontas soltas surgem fazendo com que a história visivelmente perca seu fôlego e nem mesmo os protagonistas vividos por Nicole Kidman e Joseph Fiennes parecem ter qualquer sintonia. Para completar, o filme recorre a vários clichês para provocar um suspense que não convence (um objeto da pessoa desaparecida que é encontrado, uma ligação silenciosa, uma mão que bate no vidro do carro inesperadamente, etc.). Em uma única cena de maior comoção, vê-se a silhueta de Kidman na penumbra da noite, em meio ao deserto, ecoando aquele grito que só uma pessoa em desespero é capaz de ouvir. A mãe está em busca de uma solução – e é realmente frustrante ver que Terra Estranha se encerra sem fornecê-la.