César Deve Morrer (Cesare Deve Morire)

Premiado em 2012 no Festival de Berlim como melhor filme, César Deve Morrer acompanha os ensaios para a encenação de uma versão livre da tragédia shakespeariana Júlio Cesar, onde os atores são detentos da área de segurança máxima da prisão de Rebibbia, nos arredores de Roma, na Itália. Utilizando-se de jogos cinematográficos bastante peculiares, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani (famosos por seus trabalhos com temas de alto cunho político) nos entregam uma obra experimental que, alem de outras propostas, disserta também sobre o papel da arte como instrumento de transformação do ser humano.

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A princípio tratado como um documentário, aos poucos percebemos que este gênero fica cada vez mais distante de César Deve Morrer. Apesar de alguns dos atores serem realmente presidiários daquele recinto, o filme não é um registro dos preparos para a montagem do espetáculo ou mesmo sobre algum projeto social que envolva os delinquentes locais. César Deve Morrer deixa de lado o tom documentarista para, pouco a pouco, dar espaço à própria trama do dramaturgo inglês, fazendo com que os dramas de cada indivíduo se confunda com a história shakespeariana. As cenas dos ensaios se misturam à rotina dentro daquela prisão, em uma mescla interessante de ficção e realidade que é acentuada pelo apelo teatral do longa. Nunca sabemos ao certo quando estamos diante da peça de Shakespeare ou do cotidiano daqueles homens – como nos momentos em que eles dialogam sobre traição, morte, liberdade (eles estão encenando ou apenas falam de si mesmos?).

Filmado predominantemente em preto e branco (o que torna a fotografia muito mais atraente, além de criar um aspecto claustrofóbico que é propício para aquele ambiente), César Deve Morrer se desenvolve sobre a linha tênue entre realidade e ficção, com um roteiro excepcional que faz com que o drama do espetáculo se torne o drama pessoal de cada um de seus protagonistas (muito bem em cena, diga-se de passagem). Para além da infindável discussão sobre a arte e seu papel social (“Desde que conheci a arte, esta cela virou uma prisão”, diz um dos personagens, diretamente para a câmera em um dos melhores instantes da fita), César Deve Morrer é o reflexo da Roma antiga clássica estampada nos rostos daqueles criminosos. Por coincidência ou não, a maior parte deles está cumprindo pena ali por crimes de formação de quadrilha ou ligação à máfia – o que promove também um debate inquietante sobre a criminalidade na atual Itália e seus viés político.

Mortdecai – A Arte da Trapaça (Mortdecai)

Logo nas cenas iniciais de Mortdecai – A Arte da Trapaça somos apresentados a nosso protagonista: Charlie Mortdecai, um negociador de arte com caráter duvidoso e que está à beira da falência. Para saldar uma dívida milionária, ele aceita a missão de recuperar uma obra de arte que teria uma senha para acesso a uma conta secreta cheia de ouro nazista.

02Detonado pela crítica, Mortdecai – A Arte da Trapaça também foi um fracasso de bilheteria – o terceiro seguido de Johnny Depp (precedido por Transcendence e O Cavaleiro Solitário). Mas o desprezo por Mortdecai não é mérito exclusivo de Depp. Está certo, convenhamos: Johnny Depp nunca foi um grande intérprete; a bem da verdade, ele é um artista mediano desde os tempos remotos. Para além disso, Johnny é um ator de tipos. Sabe aquele seu colega de trabalho que imita os demais e faz piada de si mesmo? Este é Johnny Depp atuando – infelizmente o público só percebeu isso após a franquia Piratas do Caribe. Mas ele não chega necessariamente a decepcionar e sua atuação até que flui razoavelmente bem – até porque ele está acostumado a fazer exatamente esse tipo de persona, então não há nada muito novo e ele parece até mesmo estar confortável em cena. O fato é que Mortdecai é ruim por si só.

Adaptado da obra de Kyril Bonfiglioli, Mortdecai – A Arte da Trapaça possui um elenco de peso – Gwyneth Patrow, Ewan McGregor e Paul Bettany também participam da fita. Mas todas as suas personagens beiram a canastrice, desde um mordomo ninfomaníaco a um inspetor de polícia bobão que disputa com o protagonista o amor de sua esposa insossa. O próprio Charlie é um tipo que não desperta a menor empatia: não se sabe se ele é um herói ou vilão, pois ele não faz nada relativamente grandioso para ser admirado ou odiado, oscilando entre esses dois extremos de forma irregular. Tudo é acentuado em um roteiro mal construído, que não deixa claro em nenhum momento qual é a proposta do filme: ora comédia, ora policial, Mortdecai falha em ambos já que a veia cômica não funciona e recorre a piadas culturais e artísticas sem o menor sentido, enquanto as tramas policiais não empolgam.

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Com uma trilha sonora previsível e todo seu ar caricatural, Mortdecai escancara apenas o desgaste da imagem de seu protagonista. Não há dúvidas: o público parece ter se cansado de Johnny Depp; sua carreira parece estar estagnada e seu talento esvanecendo. Mas como falei, ele não é o responsável direto por todo o estrago que é Mortdecai. O diretor David Koepp (que já dirigiu Depp em A Janela Secreta) tinha em mãos um material batido e sem muito charme e assim fica difícil para qualquer elenco fazer milagre. Mortdecai é um filme que até poderia ser um bom entretenimento – e pode até agradar um ou outro que vá ao cinema sem nenhuma expectativa. Culpar Johnny Depp? Acho injustiça. Fechando os olhos para Depp e considerando todo o restante, Mortdecai – A Arte da Trapaça é uma bomba com a presença do astro ou não.

O Amor é Estranho (Love is Strange)

John Lithgow e Alfred Molina são os protagonistas de O Amor é Estranho, novo filme de Ira Sachs (do ótimo Deixe a Luz Acesa, de 2012, início de uma trilogia), cuja trama gira em torno de um casal homossexual que, juntos há quatro décadas, decide oficializar a união. Isso faz com que um deles seja demitido da escola católica onde leciona música – apesar da relação não ser novidade para ninguém e, aparentemente, tampouco incomodar os alunos e suas famílias. Com problemas financeiros e dificuldades em manter o apartamento, eles são forçados a viver na casa de amigos e parentes enquanto acertam suas vidas.

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O Amor é Estranho se apoia totalmente nas ótimas atuações de seu elenco central. Equilibrado, O Amor é Estranho não possui cenas memoráveis, sendo um filme até anti-climático – o que pode causar certo desconforto em alguns momentos. No entanto, o cineasta acerta ao tratar as situações incômodas que são geradas no momento em que os dois amantes se separam. Em certo ponto, um dos personagens confessa: “Ao morar com as pessoas, você as conhece talvez mais do que gostaria”. Os problemas afetam a todos os envolvidos: enquanto um deles vai passar uma temporada com um casal de amigos mais jovens (cuja vida agitada perturba o sossego do hóspede), o outro vai viver com o sobrinho e sua família, incluindo a esposa escritora e o filho adolescente.

Apesar de ser bem feito tecnicamente (trilha sonora pontual e uma fotografia e design de produção bastante agradáveis), O Amor é Estranho não consegue passar disso. Já tem algum tempo que Hollywood abre espaço para tramas que envolvam personagens homossexuais, tentando tratar com a maior naturalidade possível uma parcela da população que sempre foi marginalizada ou mal representada no cinema. E é isso que ocorre em O Amor é Estranho: sua naturalidade, simplicidade e generosidade em abordar um problema que pode ser comum a qualquer casal (sem abusar do melodrama) são seus maiores méritos. Seu equilíbrio é o que, talvez, cause certo marasmo – algo que não diminui o filme, mas o limita consideravelmente.

O Homem Elefante (Elephant Man)

01Confesso que conhecia David Lynch apenas de ouvir falar e ainda não tinha tido a oportunidade de assistir a nenhum de seus filmes (ao menos, não me senti muito interessado em sua filmografia, para ser honesto). Quando recebi o desafio de escrever sobre um de seus longas, questionei a um amigo (um fã inveterado do diretor) qual seria um bom ponto de partida para mim – e, de prontidão, obtive a resposta: “Assista e escreva sobre O Homem Elefante“. E a sugestão não poderia ter sido melhor.

Baseado em uma história real, a trama de O Homem Elefante nos leva a Inglaterra vitoriana do século XIX e retrata o drama de John Merrick (John Hurt), um homem que sofria de uma doença grave (um tipo raro de neurofibromatose múltipla) que deformava quase todo o seu corpo – e, por conta disso, era tratado como uma aberração. Após ser exibido durante anos em “circos de horrores” pela capital inglesa (os famosos freak shows, uma febre na época), John é descoberto por um médico do hospital de Londres, o renomado Frederick Treves (Anthony Hopkins) – que, com o passar dos dias, fica cada vez mais fascinado com a figura de Merrick.

Como não tive nenhum contato anterior com a obra de Lynch, não tenho muitos parâmetros para comparar O Homem Elefante com nada que ele já tenha feito. De certa forma, isso foi saudável pois pude absorver o filme individualmente, sem referências – e nessa empreitada, me deparei com uma narrativa de extremo requinte, especialmente em seu roteiro, que não apressa os fatos e paulatinamente vai surpreendendo o espectador com o progresso da personagem título. Se no início da trama Merrick nos é apresentado como uma aberração humana e desde sempre diagnosticado como um doente mental, aos poucos ele se revela um indivíduo com plena normalidade intelectual. Mais do que isso: Merrick é uma pessoa amistosa, amável e digna de afeto. O espectador acompanha esta descoberta junto com Merrick e Frederick – porém, diferente deste último, o público não tem o poder de agir sobre os acontecimentos, sendo meros observadores.

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Outro ponto que merece destaque em O Homem Elefante é a fotografia em preto e branco que, junto a bela direção de arte, contribui muito para transportar o espectador diretamente para a Londres do século XIX, em plena efervescência da Revolução Industrial, causando um clima mais opressivo ao longa. É ainda interessante notar que toda esta ambientação nos remete de imediato ao expressionismo alemão e, de certa forma, também aos filmes de terror britânicos das décadas de 40 e 50 – escolas que são referências até hoje na linguagem cinematográfica. A maquiagem também é primordial para a caracterização do protagonista, sendo indispensável para o ótimo desempenho de John Hurt – que inclusive foi indicado ao Oscar de melhor ator naquele ano. Se o público é capaz de se solidarizar com Merrick, Hurt tem todos os méritos pois o desenvolvimento de sua personagem é louvável (desde as expressões corporais desengonçadas do início da fita até a doçura e mansidão que aquele ser deformado demonstra ter por todos).

Com uma trilha sonora um tanto “pesada” que ressalta o ar dramático (e que, a seu modo, é puro “circense”), O Homem Elefante promove alguns debates importantes, sendo que o principal deles é a crítica precisa à sociedade do espetáculo: mesmo fora dos palcos, John continua a ser um mero objeto “espetáculo”, não muito diferente de sua condição anterior. No melhor estilo “fera” (feio por fora, mas belo por dentro), John nunca deixa de chamar a atenção e ser um tipo que desperta curiosidade. O que é impressionante (e também é um tema a ser discutido aqui) é o quanto o “diferente”, o “novo” acabam por chocar as pessoas e causar preconceito. Esse talvez seja o grande êxito do cineasta: David utiliza o passado para criticar o seu presente – fazendo com que O Homem Elefante sobreviva aos tempo e seja atemporal em sua proposta.

Bem Perto de Buenos Aires (Historia del Miedo)

Estamos em um condomínio próximo à cidade de Buenos Aires, em um bairro aparentemente de classe média. É nesse cenário que alguns fatos isolados (inclusive um blackout) começam a acontecer e abalar a tranquilidade dos moradores daquela região.

01Esta é a sinopse de Bem Perto de Buenos Aires, produção argentina com pouco menos de uma hora e meia que chegou esta semana às salas de cinema do país. O longa de estreia de Benjamín Naishtat, no entanto, se revela um filme enfadonho, cansativo e desestimulante, à medida que trabalha em uma espécie de loop infinito onde nada significativamente importante acontece. Ou melhor: o cineasta foge da receita tradicional “começo, meio e fim” dos acontecimentos – e, como consequência, o espectador se sente perdido, tentando a todo momento encontrar sentido no que vê em tela. É como se a proposta não fosse explicar os fatos, mas apenas mostrar o comportamento dos personagens em relação a eles e, assim, o suspense é frustrado a todo instante.

Confesso que procurei na rede algumas críticas sobre o longa – pois tive todas as dificuldades possíveis para digerir a narrativa estendida do cineasta. Apesar de muitos veículos fazerem mil teorias a respeito, confesso que não me senti nem um pouco à vontade com a fita. Os diálogos são pequenos mas estendidos, como se para criar um falso clima “culto” – mas sem a menor profundidade. O diretor recorre a inúmeros pontos onde o silêncio predomina – e, dessa forma, também o marasmo, que permeia todo o filme, acentuado por uma fotografia muito pouco atraente e uma trilha sonora fraca.

Assisti a Bem Perto de Buenos Aires em sua noite de estreia, em um cinema de rua razoavelmente bem frequentado, em uma sessão com pouco mais de 20 pessoas. Antes do fim da primeira parte da projeção, metade delas já havia desistido e deixado o recinto. Eu continuei lá, firme e forte, esperando que algo acontecesse na película – mas nada interessante realmente aconteceu e isso me frustrou. Bem Perto de Buenos Aires pode ter todas suas falsas pretensões – o próprio título original (Historia del Miedo) é muito mais sugestivo do que sua péssima tradução – , mas falha ao tentar trabalha-las, entregando um filme totalmente descartável e que não desperta qualquer interesse.

Para Sempre Alice (Still Alice)

A trama de Para Sempre Alice acompanha uma renomada doutora de linguística e mãe de família exemplar que é diagnosticada com uma espécie precoce de Alzheimer. Ao longo da fita, o público acompanha a luta diária de Alice contra sua doença, o abandono de suas funções acadêmicas e a busca de apoio no relacionamento com o esposo e os filhos.

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Para Sempre Alice é um drama que gira em torno da atuação de sua protagonista, a sempre competente Julianne Moore – não à toa, seu trabalho lhe rendeu sua quinta indicação ao Oscar e Moore é apontada como a favorita ao prêmio deste ano. Julianne carrega no olhar todo o sofrimento de sua personagem (aliás, é incrível a capacidade da intérprete de se comunicar com o olhar), que se vê gradativamente perdendo tudo aquilo que conquistou: Para Sempre Alice é um filme sobre as perdas irreparáveis da vida. Curiosamente, no entanto, Alice não me parece a melhor performance de Moore; particularmente, acredito que a atriz já teve outros momentos tão ou mais empolgantes quanto este (Julianne passou desapercebida, por exemplo, com seu ótimo papel em Mapas Para as Estrelas). A parte disso, os demais nomes do elenco são competentes, desde o veterano Alec Baldwin até Kristen Stewart, que desponta como uma grata surpresa no longa. Arriscaria dizer que, em um ano em que Emma Stone ganhou uma indicação ao Oscar de melhor coadjuvante com um tipo morno em Birdman, Kristen poderia facilmente estar na disputa.

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Com um roteiro que foge de soluções fáceis ou melodramáticas, Para Sempre Alice é, no entanto, até mesmo anticlimático: talvez por sua abordagem deveras delicada, não há grandes momentos de explosão dramática capazes de arrebatar o público. É um filme que constrói sua narrativa aos poucos, à medida que acompanhamos a trajetória de nossa heroína – o que inevitavelmente causa alguns instantes de monotonia. A direção objetiva e razoavelmente simples da dupla Wash Westmoreland e Richard Glatzer (este último que também sofre uma doença degenerativa) entrega uma obra apenas mediana, que só fica maior por conta de Julianne Moore, que é o centro de tudo o que acontece aqui – até mais do que sua própria personagem.

Caminhos da Floresta (Into The Woods)

O império de Walt Disney foi construído ao longo dos anos a partir de suas histórias baseadas em diversos contos de fadas. Os maiores clássicos do estúdio provêm deste tipo de narrativa – e, queira você ou não, estes filmes mudaram a forma de se fazer “animação” no cinema. Mas, é claro: o público mudou. Hoje, Branca de Neve e os Sete Anões não teria o mesmo impacto que em 1937; tampouco Pinóquio seria o herói ideal dos meninos como o foi em 1940. Muito esperta, a Disney sacou isso há alguns anos – e começou-se um processo de desconstrução dessas grandes tramas, através de refilmagens, adaptações e outras firulas com a intenção explicita de trazer o espectador ao cinema. Caminhos da Floresta é mais uma produção dessa leva.

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Caminhos da Floresta (Into The Woods) é o aguardado musical Disney, baseado na homônima peça da Broadway que faz sucesso desde a década de 80. A proposta aqui é bem simples: reunir os mais diversos personagens de contos de fadas em uma mesma trama. Dirigido por Rob Marshall (do oscarizado Chicago e também do último filme da franquia Piratas do Caribe), o fio central de Caminhos da Floresta é o drama do casal formado por um padeiro e sua esposa que, por conta de uma antiga maldição, não pode ter filhos. Desesperados, eles aceitam a ajuda de uma bruxa e partem floresta adentro em busca dos ingredientes para a poção capaz de quebrar o feitiço. A partir daí, personagens de diferentes fábulas são inseridos na trama, como Cinderela, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e o tal João (aquele do pé de feijão).

É desnecessário falar que, assim como todas as produções Disney, Caminhos da Floresta é um espetáculo que no que se refere aos aspectos técnicos – desde o figurino (assinado por Colleen Atwood) até sua ótima fotografia, abusando de cores frias para criar uma atmosfera sombria. Outro ponto fortíssimo aqui são suas músicas e a forma como são conduzidas, valorizando a performance de seu elenco afiado e em boa sintonia. Meryl Streep, que há muito tempo já não precisa provar mais nada, está absurdamente bem caracterizada como a bruxa má – e, olha, no início achei que não mas sua indicação ao Oscar de melhor coadjuvante é válida. James Corden e Emily Blunt também demonstram excelente química – o primeiro surpreendendo na cantoria. Outro que aparece rapidamente (mas o suficiente para apresentar um número deveras divertido) é Johnny Depp, caracterizado como o Lobo; além de Chris Pine e Billy Magnussen, os dois príncipes que performam uma das cenas mais hilárias do filme.

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Caminhos da Floresta poderia ter sido um grande momento na carreira de Rob Marshall e seus atores. Apesar de ser um filme tecnicamente atraente, o maior pecado (talvez o único) da produção é a quebra brusca no roteiro, que praticamente divide o musical em dois atos distintos e estende em demasia a película. Assim, Caminhos da Floresta perde sua consistência e acaba sendo um tanto cansativo, fazendo com que o espectador perca o interesse pela história. Caminhos da Floresta poderia ter sido uma ótima experiência, mas é incapaz de seduzir totalmente seu público e acaba se tornando apenas um ótimo entretenimento visual.

Grandes Olhos (Big Eyes)

04Há aqueles que o amam, há os que o detestam, mas não há como negar que Tim Burton é um cineasta, no mínimo, pop. Em suas estreias, sempre é possível ver as salas de cinemas carregadas, tanto por aqueles que o veneram quanto pelos haters que aguardam o menor deslize do diretor. Por mais que não se queira admitir, todos esperam alguma coisa de Tim Burton (seja boa ou ruim). Não à toa, Burton, apesar de ter uma obra um tanto irregular mas facilmente identificável, é um dos nomes do cinema mais populares de sua geração. Grandes Olhos, seu mais recente trabalho, é seu filme mais “sério” em anos (após uma sequência de fiascos e produções questionáveis) e também o que mais se distancia do universo que o artista criou e se tornou uma marca de sua filmografia.

Não sei dizer ao certo o quanto isso é bom – afinal, Burton nos apresentou a um mundo muito particular, cheio de fantasia, terror e imaginação, com seus personagens problemáticos, onde grotesco e belo se fundem. E é justamente isso que os fãs esperam quando assistem a um filme burtoniano. Portanto, é de se surpreender ver Burton dirigir a biografia de Margaret Keane, a artista plástica responsável por uma série de pinturas que foi uma das maiores sensações no mundo da arte durante os anos 50 e 60. No entanto, durante muito tempo a autoria dos quadros foi creditada a seu esposo – que também cuidava da divulgação e distribuição da obra. Anos depois, já separada de Walter, Margaret resolve processar o antigo companheiro e dar um fim às mentiras que carregou durante mais de uma década.

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Com um orçamento modesto, estimado em míseros 10 milhões de dólares (uma ninharia perto dos 200 milhões de Alice in Wonderland, uma das maiores bilheterias do diretor – e por isso, há quem diga que isso é impossível conhecendo as extravagâncias de Burton), Grandes Olhos não é um longa burtoniano tradicional: tem um “Q” de filme alternativo, independente – muito diferente das megalomaníacas produções do cineasta. Grandes Olhos é o menos Tim Burton dos filmes de Tim Burton: é o mais maduro e, consequentemente, o menos extravagante de sua carreira. O universo burtoniano até está ali, mas em menor escala. A própria personagem principal é uma espécie de alter-ego de Tim: insegura, avessa à imprensa, tímida – um perfeito tipo burtoniano, ou seja, gente fora dos padrões convencionais (a cena em que Margaret fica constrangida ao ver seus desenhos sendo vendidos no supermercado é o mesmo que enxergar Burton retraído nas premiações em que participa, por exemplo). Margaret é tão insegura ao ponto de permitir que o marido assine suas pinturas – o que lhe asseguraria um bom casamento e a possibilidade de um futuro melhor para a filha (uma vez que Margaret já vinha de um relacionamento frustrado). Além disso, a história se passa nas décadas de 50 e 60 – e vale lembrar que, naquela época, “mulher” não tinha voz nem autonomia para nada e servia apenas para procriar e cuidar da casa e família. Logo, obra “de mulher” não vendia.

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Enquanto Amy Adams é de uma sutileza incrível seja na voz e nos gestos (o que lhe rendeu um Globo de Ouro), Christoph Waltz, em uma desnecessária abordagem cômica, acaba aparecendo mais do que devia sem ter um personagem tão interessante quanto o de Amy. Em diversas vezes, era possível visualizar em sua performance resquícios de seu Hans Landa (de Bastardos Inglórios), com seu sarcasmo e humor ácido aflorando em trechos inoportunos. A tão comentada cena do tribunal poderia – e deveria! – ser incrível, não fosse o tom exacerbado de Waltz.

Costumo dizer que Burton tem três tipos de filmes: os ruins (Planetas dos Macacos, Sombras da Noite), os bons (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, Marte Ataca!) e os ótimos (Ed Wood, Peixe Grande, Edward – Mãos de Tesoura). Grandes Olhos está, a meu ver, na linha tênue entre o bom e o ótimo, com propensão ao primeiro. Possui um belo design de produção, fotografia e reconstituição de época, incluindo o figurino de Colleen Atwood. A trilha sonora do parceiro de longa data de Tim, Danny Elfman, também é precisa, apesar de nenhum trecho excepcional (PS.: se houve um grande momento musical na história, este se deve a Lana Del Rey, com sua incrível Big Eyes). Apesar de certas irregularidades (onde os defeitos de Burton como diretor ficam mais evidentes), Grandes Olhos é Burton fazendo cinema de “gente grande”, como Hollywood tanto prega. Nas mãos de qualquer outro cineasta, Grandes Olhos seria apenas mais uma história; com Tim, o filme se torna um curioso caso de superação e reconhecimento, provando que Burton sabe, sim, fazer cinema como qualquer outro e o faz quando e como quiser. Faltou pouco para Grandes Olhos ser uma obra-prima – talvez justamente aquele toque burtoniano que todo fã esperava…

Cássia Eller (Cássia Eller)

Confesso que fui assistir à pré-estreia de Cássia Eller com um certo receio. Primeiro, por se tratar de um documentário. Não que eu esperasse uma obra de ficção pura (até mesmo porque eu não enxergo nenhum ser humano capaz de viver o furacão Cássia Eller nos palcos ou à frente das câmeras), mas porque eu não sou um grande admirador desse gênero de narrativa cinematográfica. Segundo, me deparei com a longa duração do projeto. Eu estou em uma fase com pouca paciência para filmes muito extensos – e pensei o quanto seria difícil aturar duas horas de um tipo de cinema da qual não sou muito fã. Mas admito: fiquei com um nó na garganta ao final da exibição.

Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, Cássia Eller retrata a trajetória pessoal e artística de uma das maiores intérpretes da música brasileira da década de 90, até sua precoce morte, em 2001. O cineasta trata questões polêmicas sobre a cantora, como sua sexualidade, o uso abusivo de álcool e drogas e a relação com sua companheira de anos, Maria Eugênia, e o filho, Chicão – aliás, spoiler: o garoto faz um belo depoimento nos minutos finais do longa. A abordagem natural do documentário é imprescindível para tornar Cássia uma homenagem devida a esta grande artista, que durante muitos anos foi uma vítima da imprensa – mesmo após seu falecimento, as notícias sobre ela pipocavam nas mídias e quase sempre eram de extrema maldade e desrespeito.

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O roteiro segue uma linha temporal bem definida, com uma seleção de material impecável – incluindo trechos sonoros inseridos no decorrer da fita e que servem de trilha para o ótimo conteúdo. Os depoimentos de familiares e amigos são honestos, sem pudor: tudo é tratado às claras. O filme já se inicia com declarações expressivas de que sim, Cássia era homossexual, sim, ela usava drogas, sim, ela mantinha casos extraconjugais com outras mulheres . Em outras palavras, o documentário é sem rodeios, expondo tudo de forma direta ao público. No entanto, apesar de todos esses prós, Cássia Eller possui uma montagem bastante fraca e efeitos especiais que soam tão artificiais quanto vinhetas de programas globais. Além disso, muitas vezes o que se via na tela servia apenas para preencher o áudio – o que a estendeu muito e fez parecer que a película foi feita não para cinema, mas para a televisão (inclui-se ainda a narração de Malu Mader em algumas sequências).

Cássia Eller, visto como obra de cinema, talvez tenha lá seus defeitos e não seja tecnicamente impecável. Cássia Eller é muito mais interessante por conta de sua própria protagonista. Por essa razão, as duas horas do documentário passarão em dez minutos para os fãs da cantora, que encontrarão aqui um excelente canal para matar as saudades da artista e conhecer o lado humano a qual poucos tinham acesso. Cássia Eller é esclarecedor como poucas produções do tipo, mas é muito mais apaixonante por conta de seu objeto de estudo do que como cinema.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance))

O último álbum de Lady Gaga flopou – mas eis uma verdade que a cantora pop clamou em uma das músicas de trabalho do disco e que resume bem a sociedade midiática em que vivemos: “I live for the applause!”. Mas por que iniciei meu texto sobre Birdman com esta afirmação? Então, vamos lá…

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é o novo e empolgante projeto do diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu (dos elogiados Babel, Biutiful e Amores Brutos) e uma das maiores apostas ao Oscar 2015, concorrendo em 9 categorias. Na trama, que se passa nos bastidores da Broadway, acompanhamos Riggan, um ator famoso na década de 90 por interpretar um herói de sucesso no cinema (o tal “Birdman” do título), mas que caiu no esquecimento do público nos anos seguintes após rejeitar filmar uma sequência da franquia. Em decadência, Riggan decide montar uma peça de teatro para recuperar os tempos de glória e também para ter seu talento (sempre questionado) finalmente reconhecido.

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Ao mesmo tempo em que acompanha o antigo astro de cinema em sua empreitada de retornar aos holofotes, Birdman também nos apresenta subtramas e personagens tão incríveis quanto nosso protagonista – e que geram todos os percalços enfrentados por Riggan para recuperar o prestígio perdido. E aqui temos alguns dos momentos mais interessantes da fita: a luta com seu alter-ego (na verdade, o próprio herói que um dia interpretou), a reaproximação com a filha, o relacionamento com um produtor que só visa lucros ou mesmo os desentendimentos com um ator surtado e cheio de extravagâncias. Através dessas histórias, o cineasta faz uma crítica implacável e com um humor inteligentemente sarcástico à indústria da fama e a todos os meios aos quais nós nos submetemos para mantermos nossa imagem sempre em evidência.

Com um elenco estelar, o destaque inevitavelmente fica por conta de Michael Keaton, nosso protagonista – curiosamente com uma história de carreira bastante similar à de sua personagem, mas deixemos isso em off. Arriscaria dizer que este é seu melhor trabalho em anos. Outro que aparece e quase ofusca Keaton é Edward Norton – uma explosão de variadas emoções e é simplesmente hilário.

Iñárritu ainda dá um show de técnica, com uma fotografia que fica ainda melhor com os longos planos-sequências – chegando até a enganar o espectador com a ilusão de que as ações da trama se desenrolam sem cortes, o que agrega muito ao roteiro inteligente e ágil escrito pelo cineasta em parceria com alguns amigos. Junta-se ainda a frenética trilha sonora (com muita percussão) assinada por Antonio Sanchez e os diálogos (profundos, mas sem soar “cafona”), que dão ritmo à história e tornam a produção dinâmica – apesar de algumas irregularidades causadas por sequências menos “agitadas” mas nem por isso descartáveis. No fim, Birdman não é um filme fácil – e pode até causar certo estranhamento à primeira vista. Repleto de metáforas, Birdman é um longa onde tudo funciona direito, criando uma obra que durante muito tempo vai ficar na mente do público.