Sobre Amigos, Amor e Vinho (Barbecue)

01Filmes sobre amizades parecem ter caído no gosto dos idealizadores do cinema francês. Esta espécie de “subgênero” permite várias abordagens, das simples comédias ou homenagens às pessoas queridas até sátiras sociais e reflexões sobre o caráter humano – afinal de contas, cá entre nós: todo mundo tem aquele grupo de amigos com o qual se reúne uma ou outra vez para dar risada, tomar um café ou apenas trocar ideia. Sobre Amigos, Amor e Vinho é o mais novo título desta safra, um sucesso na França que chegou recentemente às salas nacionais.

No centro da narrativa de Sobre Amigos, Amor e Vinho está Antoine. Sua vida não podia ser melhor: situação financeira estável, uma rotina saudável, um casamento bem estruturado, emprego bem conceituado, muitos e fiéis amigos que o acompanham desde a época da faculdade – enfim, tudo vai bem para o bonitão. Apesar disso, Antoine não está feliz – ou como ele mesmo narra, “está de saco cheio”. Tudo o aborrece. Até que o destino lhe dá uma surpresa: às vésperas de seu aniversário de 50 anos, Antoine sofre um ataque cardíaco enquanto está participando de uma corrida com seus companheiros. Esta visita antecipada e inesperada ao hospital (justamente quando acreditava estar em seu melhor shape) faz com que Antoine reveja sua própria existência e decida mudar suas atitudes – inclusive com relação aos colegas.

A premissa não é necessariamente “original” – essa história do tipo que passa por alguma situação que o faz repensar a vida já é batida. Entretanto, Sobre Amigos, Amor e Vinho se sobressai graças à sua trama bem escrita, que desenvolve suas personagens de maneira tão carismática que, ao final do longa, já nos sentimos íntimos deles, como se fossem nossos próprios conhecidos. Além disso, ainda que algumas figuras sejam caricatas (e certamente já tenham sido vistas em outras produções do gênero), é impossível ao espectador não se identificar com seus dramas. O grupo é variado: Baptiste é o desempregado que quer reatar com a ex-esposa; Laurent passa por problemas financeiros, mas não abandona a pose e nem se abre com ninguém; Yves é o “almofadinha” que se acha o dono da razão; Jean-Michel é o gordinho menosprezado – que só está ali porque conheceu os demais enquanto trabalhava no refeitório da universidade. E claro, o próprio Antoine, o líder da turma que mantém um casamento aparentemente perfeito – mas que é pura fachada.

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Os conflitos são causados no momento em que o grupo decide passar as férias em uma isolada casa de verão. É comum ouvirmos que intimidade não é uma coisa muito legal, certo? Aos poucos, a convivência entre eles se torna mais difícil – algo natural, pois com a idade, costumamos ficar mais francos e sinceros e pequenos defeitos alheios que antes aceitávamos com maior facilidade começam a incomodar. Mas também é quando conhecemos quem realmente são nossos amigos, aqueles que podem até se irritar de vez em quando, mas nos aceitarão como somos. É o que acontece naquele círculo: apesar de suas diferenças, eles se amam – e o público sente isso graças ao ótimo desempenho do elenco – especialmente o de Lambert Wilson, nosso protagonista, em um papel mais verossímil do que aquilo estamos habituados a vê-lo e, talvez por isso, seja a grande atração do filme.

Com uma direção segura de Éric Lavaine, Sobre Amigos, Amor e Vinho ainda nos delicia com sua arte impecável, que valoriza a suavidade das cores e uma fotografia que funciona muito bem em sua simplicidade. Apesar do roteiro previsível até certo ponto, ele não se utiliza da piadas escrachadas ou verborragia barata; pelo contrário: com um humor sutil e inserido oportunamente ao longo da projeção, a forma leve como o longa é conduzido faz com que Sobre Amigos, Amor e Vinho seja um filme agradável de se assistir. Portanto, chame os amigos e abra seu coração – só não se esqueça de uma boa garrafa de vinho para acompanhar…

Hitman: Agente 47″ (Hitman)

A trama de Hitman: Agente 47, adaptada de uma franquia de games, acompanha o personagem título, chamado assim por ser um humano geneticamente modificado, fruto de um experimento cujo principal objetivo é criar máquinas para matar. Como não seria muito diferente em filmes deste gênero, a experiência sai do controle e apenas seu idealizador, dr. Delriego, sabe como resolver a situação, porém seu paradeiro é desconhecido. Determinado a conseguir tal informação, o agente recorre à filha do cientista, que está à procura do pai e também de sua própria identidade.

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Hitman: Agente 47 sofre de erros básicos que comprometem praticamente toda a obra. Não que o filme seja ruim por isso ou aquilo: em seu conjunto, tudo favorece para que Hitman esteja longe de ser algo memorável para o público. Logo de início, deve-se destacar a escolha de casting: Rupert Friend, o protagonista, não tem necessariamente aquele porte físico que esperávamos. Com um cacoete irritante, Rupert mantém um rosto de paisagem durante toda sua trajetória. Zachary Quinto é outro que também é prejudicado e pouco convence como o suposto vilão da fita. A mocinha vivida por Hannah Ware, então, nem se fala: não tem atrativo nem motivações. Concordo que muito do péssimo desempenho do elenco pode ser resultado do inadequado desenvolvimento de suas personagens e, principalmente, da direção insegura do estreante Aleksander Bach; mas não dá fechar os olhos e simplesmente ignorar o fato de que os atores não entregam suas melhores performances.

02Outro erro perceptível é o roteiro. Com muito tiro e pancadaria, quase todo o longa é baseado no ritmo frenético de fugas e perseguições e isto fica ainda mais acentuado por conta da edição atropelada de Nicolas De Toth. Assim, Hitman: Agente 47 é repleto de reviravoltas sem muita lógica, que impedem que o espectador efetivamente abrace a ideia. O motivo: no cinema não ocorre a mesma interatividade que nos jogos eletrônicos. Você fica ali diante da tela sem poder fazer nada, quase se sentindo um “pamonha” – pois é exatamente assim que o argumento de Hitman faz com que você se sinta. Apesar de uma fotografia que até emule (e bem) o gráfico de um game, Hitman: Agente 47 peca em pontos essenciais – e isso, sendo adaptação ou não, é algo que não dá pra gente engolir.

Expresso do Amanhã (Snowpiercer)

Baseada em uma HQ francesa (Le Transperceneige), a trama de Expresso do Amanhã se passa em um cenário apocalíptico dominado por uma nova era glacial (gerada após um experimento fracassado que visava interromper o aquecimento global), onde os poucos e últimos humanos sobreviventes se refugiam a bordo de um trem que vive em constante movimento ao redor da Terra. Comandada pelo milionário Wilford (Ed Harris), esta locomotiva é totalmente autossustentável e possui uma divisão de classes: nos últimos vagões, se amontoam os menos favorecidos, que vivem há anos em condições precárias; enquanto mais à frente outros desfilam seus luxos e privilégios. Insatisfeita com a situação e liderada por Curtis (Chris Evans), a galera do fundão arquiteta uma rebelião para tomar o vagão dianteiro e, assim, assumir o controle da grande máquina.

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Dirigido de forma competente por Joon-ho Bong (que também assina o inteligente roteiro em parceria com Kelly Masterson), Expresso do Amanhã é um filme que funciona em duas pontas. Na primeira, o longa acerta como blockbuster – e aí se destacam elementos técnicos, como figurino, maquiagem, direção de arte e efeitos especiais (que apesar de não serem tão refinados, cumprem bem sua função dentro da proposta). Se sobressai, no entanto, a ótima fotografia: ela é imprescindível para fazer com que o espectador abrace a história – desde os cenários mais decadentes e sombrios dos últimos compartimentos até à exuberância das cabines a frente, repletas de cores e luzes. É importante ainda elogiar o bom trabalho do elenco estelar: Chris Evans mostra um carisma irradiante na tela (mostrando que é muito mais do que o corpo bonito do Capitão América) e segura a missão de ser o protagonista. Dentre os coadjuvantes, menção especial a Octavia Spencer, Jamie Bell, John Hurt e a sempre eficiente Tilda Swinton – em uma composição grotesca e quase irreconhecível.

Mas não se engane: Expresso da Amanhã está longe de ser apenas um blockbuster tradicional – e é nessa segunda ponta onde o filme ganha seu devido valor. Com um argumento muito bem desenvolvido e um roteiro com reviravoltas interessantes, Expresso do Amanhã é uma produção excessivamente crítica, enquanto utiliza sua narrativa para falar sobre os abismos existentes entre as classes sociais. O cineasta consegue explorar os conflitos humanos decorrentes dessas diferenças – e os vagões aqui são meras alegorias que, infelizmente, escancaram uma triste realidade em nosso mundo contemporâneo. Oscilando cenas mais reflexivas e outras com violência gráfica mais expressiva (mas nunca desnecessárias ou gratuitas), Expresso do Amanhã é instigante do início ao fim, recebendo seu devido destaque na filmografia de seu cineasta.

Homem Irracional (Irrational Man)

Em Homem Irracional, novo filme de Woody Allen, o protagonista é Abe Lucas, um intelectual que acaba de se mudar para uma cidade universitária no interior dos EUA para lecionar filosofia em um campus local. Muito prestigiado, sua chegada gera mil comentários e especulações, tanto entre os alunos quanto entre seus colegas de profissão – até mesmo por conta de sua fama com as mulheres. No entanto, a realidade de Abe é um pouco mais cruel: o docente é um retrato do que podemos chamar de “frustração”. Desiludido com a vida, Abe perdeu o interesse por tudo e por todos e está à beira da depressão total. Fisicamente, então, nem se fala: com uns quilos a mais, o outrora galã sedutor não passa de um quarentão que sofre de impotência. Ainda assim, ele desperta a atenção da jovem estudante Jill, que fica fascinada pelo professor.

Inicialmente, Abe recusa as investidas de Jill, alegando querer apenas a amizade entre os dois. Um dia enquanto estão em um restaurante, os dois escutam ao acaso uma conversa aleatória: em processo de divórcio, uma mulher desesperada pode perder a guarda de seu filho, uma vez que o juiz responsável pelo caso é amigo de seu ex-marido. Neste momento, Abe redescobre a vontade de viver e ganha um propósito de vida: acreditando firmemente que as ações são melhores do que o medíocre ato de “pensar”, o professor decide assassinar o magistrado, convicto de que assim fará um bem à comunidade e, consequentemente, tornará o mundo um lugar melhor.

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Homem Irracional é um filme ligeiramente menos cômico – segundo o próprio artista, Homem Irracional é “sério do começo ao fim”. Allen abandona sua comédia tradicional e embarca numa narrativa até mesmo “mórbida”, acompanhando a preparação de Abe para a execução do crime perfeito. Utilizando-se intensamente da narração dos personagens principais (Abe e Jill), o diretor reproduz os sentimentos, dúvidas e angústias desse casal enquanto as ações de Abe se desdobram. Com isso, Allen se apresenta aqui mais sombrio (e menos engraçado também, claro), abandonando seu velho humor e quase adentrando no suspense (há até quem enxergue traços hitchcockianos no argumento).

Joaquin Phoenix, embora não tenha o perfil mais adequado para um tipo “alleniano”, surpreende de forma positiva. Ele é a decadência em pessoa, tanto na aparência largada (com direito à barriguinha saliente) quanto emocionalmente (sua construção de Abe é bastante convincente). Emma Stone, por sua vez, faz jus ao título de “nova musa de Woody Allen” (posto já ocupado por Diane Keaton e Scarlett Johansson) e, apesar da ingenuidade de sua personagem, transmite paixão no olhar. Phoenix e Stone mantém ótima química e isso é importante para o drama que se desenrola.

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O que talvez possa atrapalhar a experiência de Homem Irracional é seu ritmo lento, que, por vezes gera certo enfado – a primeira parte do filme, por exemplo, é pura verborragia. Outra situação incômoda é a presença de alguns personagens pouco ou mal explorados, como o namorado pateta de Jill ou a professora alcoólatra que não larga do pé de Abe. O desfecho também é um tanto quanto “nonsense”, além de algumas situações inverossímeis que não podem ser sustentadas. Homem Irracional é um filme bom, não excepcional – mas que vale a pena ser conferido justamente por ser uma produção atípica de um diretor como Allen. Algumas de suas marcas estão ali, como as inúmeras discussões filosóficas (referências e citações pipocam na tela) e existencialistas. Homem Irracional recorre a um suspense relativamente simples para questionar a ética e moralidade do ser humano – e embora possua um tom “ameno” não deixa de ter seu devido valor na filmografia do cineasta.

Ted 2 (Ted 2)

Cá entre nós: Ted, de 2012, nunca foi lá um grande filme. Ok, tinha umas piadas bem sacadas, um elenco razoavelmente em sintonia e até um bom argumento – mas seu sucesso se deve muito mais à novidade do projeto (e do personagem principal, obviamente) do que pelo longa em si. Por isso, admito que me surpreendi quando anunciaram uma continuação para a história. E assim, estréia essa semana Ted 2 – mais um título que figura na lista de sequências desnecessárias.

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Ted (o ursinho de pelúcia politicamente incorreto e viciado em maconha, para citar algumas de suas “qualidades”) está casado com Tami-Lynn, porém o casamento vai de mal a pior. Para salvar a relação, os dois decidem adotar uma criança (já que, como brinquedo que é, Ted não pode engravidar sua esposa – e mesmo se o pudesse fazer, Tami é estéril). A ideia esbarra em um problema: aos olhos da lei, Ted é apenas um “objeto”, daí ser considerado uma propriedade. Diante disso, o boneco crava uma acirrada disputa judicial para provar que não é um simples brinquedo e conquistar seus direitos civis.

A verdade é que Ted 2 tem potencial, utilizando-se de todos os mesmos recursos de seu antecessor. Já de cara, há inúmeras referências à cultura pop, especialmente sobre séries e filmes (Star Wars versus Star Trek – boa!), todas revestidas de um humor ácido que já imperava na fita anterior. Visualmente, é ainda admirável o fato de que esta é uma das produções onde realidade e animação são os mais próximos possíveis: Ted parece real – e, por incrível que pareça, Mark Wahlberg tem uma química bacana em cena com o urso. Os dois, definitivamente, são melhores amigos e isso contribui para que o Ted se torne um personagem cada vez mais “humano”.

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No entanto, tudo o que o filme podia ser não foi – e ao longo de quase duas extensas horas, o espectador se cansa do roteiro arrastado e sem rumo definido. Outras escolhas acabam não sendo muito interessantes também, como o uso do mesmo vilão e a personagem de Amanda Seyfried – chatíssima e muito longe de ter a presença feminina da estonteante Mila Kunis. Mas talvez o maior erro do filme de Seth MacFarlane seja ter sido produzido. O impacto não se repetiu aqui e a originalidade, é claro, já não existe. A comédia falha: as piadas ficam escassas, fracas e pouco atrativas – e por mais que o longa seja “bonitinho”, ele já não tem aquele poder de chocar o público. É como se Ted 2 ficasse mais “sério” – o que faz com que ele perca ligeiramente o encanto inicial.

O Julgamento de Viviane Amsalem (Gett)

O Julgamento de Viviane Amsalem é um filme relativamente simples. Indicado ao Globo de Ouro 2015 na categoria de melhor produção estrangeira, a trama acompanha Viviane, uma mulher israelense que luta desesperadamente na justiça para conquistar o divórcio. O problema é que para que um casamento possa ser desfeito naquele país, ambos os lados precisam concordar com o fato – e como o marido se nega veementemente a conceder a liberdade a Viviane, o caso vai parar em um tribunal de rabinos (composto exclusivamente por homens), que tem o poder de validar ou não o divórcio.

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O maior trunfo de O Julgamento de Viviane Amsalem está na competência de um roteiro que prende o espectador do início ao fim – apesar das quase duas horas de projeção e da história se passar quase que inteiramente em um único ambiente: toda a narrativa se desenvolve dentro da pequena sala do tribunal, entre as idas e vindas de um julgamento que durou mais de cinco anos. Não há tomadas externas, não há planos sequência ou nenhuma extravagância: de forma direta, o filme aposta em bons diálogos (que até criam momentos ligeiramente cômicos) e as interpretações de um elenco comprometido – com destaque inevitável para a protagonista vivida por Ronit Elkabetz (que também divide a direção do longa com Shlomi Elkabetz). É interessante notar o quanto a atriz consegue transmitir todo o sofrimento, cansaço e opressão de sua personagem conforme o tempo passa e sua situação não chega a nenhum desfecho. Simon Abkarian, por sua vez, é o cônjuge irredutível, capaz até mesmo de nos irritar com tamanha obsessão por Viviane.

Outro ponto que deve ser mencionado ainda é que o argumento não se preocupa em trazer muitas razões de nenhum dos personagens. Quando Elisha se recusa a dar o divórcio, não sabemos suas reais motivações – ele apenas diz que ama a esposa e pronto. Quando Viviane diz que não deseja mais viver junto aquele homem, não há circunstâncias claras – ela somente admite que os gênios são incompatíveis e ele não a faz feliz (o que já seria suficiente para o casamento ser anulado, cá entre nós). Estamos em pleno século XXI e é inadmissível que a mulher tenha que brigar por algo que é seu por direito: a liberdade. Mas veja bem: O Julgamento de Viviane Amsalem estende o significado da palavra “liberdade”: ainda hoje, as mulheres recebem salários inferiores aos dos homens; possuem menos cargos políticos; são vistas como o sexo “frágil” ou constantemente ridicularizadas e estereotipadas em humorísticos televisivos. É difícil admitir, mas existem milhares de “Vivianes” pelo mundo afora, precisando ser ouvidas e devidamente respeitadas. O Julgamento de Viviane Amsalem escancara uma triste realidade da nossa contemporaneidade, proporcionando ao público um instante de reflexão e tornando-o muito além de um mero produto cinematográfico.

Na Próxima, Acerto no Coração (La Prochaine Fois je Viserai le Coeur)

02Ninguém dava bola para Guillaume Canet, quando lá no início dos anos 2000, o rapaz atuou ao lado de Leonardo DiCaprio em A Praia, de Danny Boyle. Em começo de carreira, Guillaume não era lá um grande intérprete – mas o tempo passou e foi generoso: com muita dedicação, o bonitão se tornou um dos mais promissores atores franceses de sua geração (além de diretor e roteirista). Agora, o quarentão é o nome principal de Na Próxima, Acerto no Coração, thriller dirigido por Cédric Anger inspirado em acontecimentos reais que chocaram uma pequena comunidade na França no final da década de 70. A trama acompanha um policial extremamente rígido em suas funções, designado junto com sua equipe a investigar uma série de crimes brutais cometidos contra jovens mulheres. Na verdade, o serial killer em questão é o próprio militar.

O argumento de Na Próxima, Acerto no Coração foge do convencional estilo “investigativo”: já de cara, a identidade do assassino é revelada. Isso não diminui o filme; pelo contrário: a narrativa se concentra praticamente na construção de seu protagonista da forma mais abrangente possível. O roteiro não se lança sobre a investigação, mas sim sobre Franck: sua rotina, seus sentimentos, trejeitos e comportamento diante dos fatos. O personagem tem consciência do que é moralmente certo ou errado; ele pratica autoflagelação, apesar de não ser um fanático religioso; vem de uma família aparentemente amorosa, mas trata suas vítimas com total frieza; tem nojo de sujeira e se incomoda com o sangue das mulheres que mata, mas passa horas caminhando por florestas inóspitas. Enfim, cada detalhe é importante para que a personalidade de Franck seja bem definida.

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Canet é competente em sua atuação. Seu tipo misógino (apesar do filme não escancarar uma possível homossexualidade de Franck) é acompanhado por uma constante expressão de insatisfação. Com uma fotografia que preza as cores frias e uma trilha sonora inquietante, Na Próxima, Acerto no Coração é um longa que não oferece pistas muito fáceis ao espectador –  até mesmo porque a história não se debruça sobre os fatos, mas sim sobre seu protagonista. Sabemos que Franck será capturado em algum momento, mas queremos seguir seus passos, aguardando seu próximo crime. Na Próxima, Acerto no Coração pode não ser memorável, é verdade, mas acerta em cheio ao abandonar os clichês do gênero e explorar com propriedade a mente de um assassino.

O Pequeno Príncipe (The Little Prince)

Quando soube da adaptação de Mark Osborne (Kung Fu Panda) para O Pequeno Príncipe, confesso que tive um misto de sensações. Por um lado, fiquei deveras assustado – afinal, adaptar uma obra literária para os cinemas será sempre uma tarefa difícil, especialmente quando se trata de uma leitura unânime como o clássico de Saint-Exupéry. Por outro lado, no entanto, a empolgação tomou conta de mim – afinal, assim como a milhares de pessoas, O Pequeno Príncipe marcou realmente minha vida. Mais do que isso: O Pequeno Príncipe não é apenas um livro infantil: é praticamente um retorno à nossa infância.

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O Pequeno Príncipe não tenta apenas recriar na tela a história original como a conhecemos. Na verdade, o cineasta escreve  uma nova trama a partir, aparentemente, de sua própria experiência com o livro (experiência que é compartilhada por muitos, a bem da verdade). Nessa versão, acompanhamos uma menina (sem nome e que teria sido inspirada na filha do diretor) que desde cedo é preparada pela mãe para ser uma adulta de sucesso. Para tanto, seu dia é cuidadosamente dividido, cronometrado e ajustado para ajudá-la a ser aceita em um colégio renomado. É óbvio que, apesar das ótimas intenções, a mãe não consegue enxergar que, com tudo isso, a garota há tempos deixou de ser uma criança comum. Rejeitado pelos moradores do bairro por ser um verdadeiro sonhador, surge neste instante a figura do aviador, que narra à pequena vizinha seu encontro com um garoto especial, o nosso Pequeno Príncipe.

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Essas duas narrativas são contadas paralelamente e utilizando técnicas diferentes de animação: enquanto no plano “real” a história é recriada em CGI, o universo do principezinho é todo pontuado em stop motion (e, em ambos os casos, tudo é feito com bastante esmero e sofisticação). Para além das duas tramas, entretanto, este O Pequeno Príncipe é ousado em dar um passo além daquilo que já conhecemos, nos apresentando uma variação do conto. Essa forma inteligente de condução do argumento é importante para fazer com que o filme funcione tanto para os que já tiveram algum contato com o livro como para aqueles que o desconhecem. O cineasta ainda é competente ao dosar os momentos de humor e drama, não sendo caricato demais nem pesado demais. Ainda com bons planos que valorizam as cores e nuances de cada personagem, O Pequeno Príncipe também acerta na trilha sonora comandada pelo experiente Hans Zimmer, que contribui muito na construção do produto final.

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Se há um “porém” nisso tudo, devo deixá-lo claro: o nosso Príncipe é um mero coadjuvante. Isto é um problema? Bem, depende de cada um. Qualquer espectador que assistir a O Pequeno Príncipe com certa atenção vai perceber que a intenção de Mark não foi reproduzir o livro como ele é, mas sim captar sua essência – e é um fato que ele conseguiu cumprir sua missão. O Pequeno Príncipe transborda sensibilidade e é interessante a crítica que o longa faz à perda da inocência em um mundo cada vez mais veloz, que clama por um crescimento “padrão” e um comportamento pré-estabelecido (“isto é certo, aquilo é errado”). Isto quer dizer que se você espera um filme fiel à trama de Exupéry, nem vá ao cinema. O Pequeno Príncipe é capaz de emocionar e ser marcante tanto para crianças quanto para adultos, sim – mas consegue isso ao resgatar aquilo que constitui a natureza de seu universo e não recontando sua literatura.

A Dama Dourada (Woman in Gold)

A sequência inicial de A Dama Dourada acompanha uma mulher posando para uma pintura – mais tarde, descobrimos que trata-se do retrato de Adele Bloch-Bauer, feito pelo artista simbolista Gustav Klimt. Em seguida, somos levados para o ano de 1998 e acompanhamos os esforços de Maria Altmann (Helen Mirren), uma judia sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, para recuperar o referido quadro, que teria sido roubado de sua família pelos nazistas durante o período de ocupação alemã na Áustria. Para tanto, Altmann enfrenta uma batalha acirrada contra o governo austríaco para reaver a obra de arte  que, na ocasião, estaria exposta em um museu na cidade de Viena.

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Dirigido por Simon Curtis (de Sete Dias Com Marilyn, de 2011), A Dama Dourada é uma boa cinebiografia (até mesmo melhor do que a de Norma Jeane, do mesmo cineasta, vamos admitir), aos moldes das produções britânicas mais tradicionais, que se desenvolve sobre dois eixos distintos: o primeiro, atual, que refaz a busca pessoal da protagonista para reaver o que é seu por direito; e o segundo que transporta a narrativa aos cruéis anos do Holocausto, recorrendo a flashbacks para recriar os acontecimentos do passado.

No entanto, A Dama Dourada não se aprofunda em nenhum destes eixos: não chega a emergir no drama dos personagens diante dos horrores da guerra, mas tampouco cria muita expectativa com as cenas de tribunal. Compensa praticamente toda essa deficiência na ótima atuação de Helen Mirren – que, apesar de não ser austríaca, claro, consegue compor um tipo curioso com seu sotaque arrastado e seu grau de cultura e refinamento. Ryan Reynolds, por sua vez, faz um personagem pouco carismático, aquele meio atrapalhado e que devido ao seu péssimo desenvolvimento, não consegue convencer como bom moço.

É fato que A Dama Dourada tinha um grande potencial, mas perdeu muito de sua força por não ter um propósito maior exceto apenas contar os fatos. Em determinado instante no final da trama, um dos personagens suplica à filha “Lembre-se de nós”, em uma curta porém bela cena – como se o diretor também fizesse esse apelo ao público com relação ao filme. Mas será que A Dama Dourada é capaz de despertar isso?

Adeus à Linguagem (Adieu au Langage)

Há filmes que não são feitos para ser entendidos. Eles são produzidos não para contar uma história, informar ou mesmo trazer algum tipo de questionamento; eles apenas existem para ser contemplados, pelo prazer exclusivo da arte. Se o espectador buscar alguma compreensão, as chances de sair do cinema frustrado serão grandes, pois a película está ali na tela para se admirar. É exatamente assim que vejo Adeus à Linguagem, novo filme do mestre da nouvelle vague Jean-Luc Godard.

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Ao longo de pouco mais de uma hora de duração, Adeus à Linguagem apresenta a trama de um homem e uma mulher, um casal cujo maior desconforto na relação é a falta de comunicação. Eles não se compreendem – e o cachorro é o símbolo deste relacionamento. É interessante, no entanto, analisar a forma como Godard conduz este argumento. A comunicação do filme é totalmente visual – e é justamente isso que dificulta um entendimento maior da fita. Em determinado momento, Godard diz que “as duas maiores invenções são o zero e o infinito” – frase que traduz bem a proposta do artista de nos fazer entender algo que, na realidade, não está ao nosso alcance.

Conforme o próprio título sugere, Godard quebra a narrativa convencional e constrói uma nova linguagem, cuja força reside na mistura competente de som e imagem. O admirável aqui é o domínio de Godard como cineasta: sua destreza é impecável. Como uma criança com um brinquedo na mão, assim é Godard como diretor, buscando os mais diferentes recursos e manejando-os com total desenvoltura e simplicidade (para se ter noção, até mesmo uma câmera de celular é material de trabalho para Godard). Para tornar a experiência ainda mais agradável, o uso do 3D é excepcional – e, para um profissional que nunca utilizou tal técnica, Godard proporciona algo bastante satisfatória.

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Infelizmente, no entanto, Adeus à Linguagem é ainda um filme de Jean-Luc Godard. E o que isso quer dizer? Bom, se o cineasta sempre foi sinônimo de um cinema “difícil”, é fato que Adeus à Linguagem não é um de seus trabalhos mais fáceis. De longe, Adeus à Linguagem é um de seus filmes mais experimentais, ousados e emotivos, apesar de conter vários elementos comuns à sua filmografia (como a trilha descontinuada, os personagens que conversam fora de enquadramento ou os diálogos cheios de reflexões). Não à toa, Adeus à Linguagem foi considerado a melhor produção de 2014 pelos críticos norte-americanos, além de ser ovacionado em Cannes. Mas a verdade é que o público “comum” tende, com toda razão, a desprezar uma obra como esta. Para os cinéfilos, entretanto, Adeus à Linguagem comprova a maestria de um Godard que merece ser apreciado.