O Vale do Amor (Valley of Love)

Sutilmente protagonizado pelos astros franceses Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, O Vale do Amor acompanha um pai e uma mãe, divorciados, que se reencontram após muito tempo em uma viagem ao Death Valey, nos EUA, a pedido do filho que lhes escrevera uma carta antes de se suicidar. Durante a estadia, eles discutem a relação e refletem sobre o passado, enquanto enfrentam no presente a própria dor causada pela morte do filho.

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Dirigido por Guillaume Nicloux (do elogiado A Religiosa, de 2013), O Vale do Amor não é um filme para qualquer um. Com um desenvolvimento lento e angustiante, porém preciso, o longa parece, a princípio, ser tão “desnorteado” quanto seus protagonistas: eles estão ali à procura de respostas para seu sofrimento. Cada um deles, entretanto, reage de uma forma particular: suas razões não são as mesmas e os conflitos nascem daí, através de diálogos emocionalmente carregados que nos fazem sentir a dor destes personagens como se fôssemos nós mesmos quem tivéssemos perdidos um ente próximo, ou pelo menos nos colocar no lugar deles, mas mantendo certa distância.

Triste, poético, etéreo – esses podem ser alguns dos adjetivos que me vêm à cabeça quando penso em O Vale do Amor. É um filme sobre o luto, mas não sua superação e sim sua dor. Ela não passa facilmente (quando passa), ela machuca, corrói e, na maioria das vezes, não tem explicação, como boa parte das coisas em nossa existência. As feridas nem sempre podem ser saradas, mas o tempo não para e a vida continua. É estranho pensar assim? Sim, mas é provavelmente por isso que O Vale do Amor não tenha um final feliz. Com atuações acima da média e uma fotografia bastante atraente, O Vale do Amor nos convida à uma interessante reflexão sobre os traumas do luto, com um argumento rico e competente para tornar este um filme melancolicamente necessário.

Nosso Fiel Traidor (Our Kind of Traitor)

Durante uma viagem com a esposa ao Marrocos, o professor universitário Perry conhece o carismático Dima, membro do alto escalão da máfia russa e responsável por comandar um poderoso esquema internacional de lavagem de dinheiro. Buscando proteger sua integridade e a de sua família, Dima pede ajuda a Perry para entregar informações confidenciais ao MI6 (Serviço Secreto Britânico), em troca de asilo político na Inglaterra – envolvendo o docente e sua companheira em um perigoso jogo de espionagem internacional.

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O prólogo de Nosso Fiel Traidor desperta certa curiosidade, sim – pena que o restante do filme não acompanha a boa introdução. Adaptado do best-seller homônimo escrito por John le Carré, Nosso Fiel Traidor sofre por sua falta de originalidade: tudo o que se vê ao longo de quase duas horas de fita é mais do mesmo, uma reciclagem batida de elementos já usados a exaustão no cinema. O thriller flerta com o cinema hitchcockiano (é inevitável a comparação com o clássico O Homem Que Sabia Demais) e também com o gênero noir de outrora – mas as escolhas equivocadas da diretora Susanna White fazem com que a atenção do público logo se esvaeça. A história tenta, a todo custo, forçar um clima de mistério e suspense (principalmente através da eficiente trilha de Marcelo Zarvos) e até o consegue em determinados instantes. O roteiro, entretanto, se revela confuso e Nosso Fiel Traidor definitivamente não avança, se tornando um produto para lá de enfadonho.

Mas Nosso Fiel Traidor não é, de tudo, um desperdício. Amparado por uma fotografia caprichada e um elenco competente (Ewan McGregor é o protagonista, enquanto Stellan Skarsgard dá vida a um Dima extravagante), sua trama não deixa de ter seus atrativos para aqueles que se propuserem a acompanha-la – e tiverem paciência, é claro. Filme fácil, Nosso Fiel Traidor parece ter sido encomendado como um grande presente: envolto a uma embalagem de primeira, seu conteúdo, no entanto, não chega a surpreender.

Meu Amigo, O Dragão (Pete’s Dragon)

01A Disney escancarou mesmo a temporada de readaptações de seus clássicos – e agora, chega aos cinemas Meu Amigo, o Dragão, nova versão do filme dirigido por Don Chaffey, em 1977. Ao contrário do original, que se utilizava da mesma técnica do consagrado Mary Poppins (misturar personagens reais com elementos animados), este Meu Amigo, o Dragão é rodado predominantemente em live action, com a tal criatura do título feita através de computação gráfica, dando uma nova roupagem à uma história já conhecida do público saudosista.

Quer dizer, parcialmente conhecida – já que o argumento deste novo filme é ligeiramente diferente do anterior. A trama se passa nos dias atuais e acompanha uma família, que sofre um acidente de carro durante um passeio em meio a floresta. O único sobrevivente é Pete, o filho do casal que, à deriva naquele ambiente hostil, encontra Elliot – um dragão gigante com a incrível habilidade de ficar invisível. Os anos se passam: Pete está vivendo na floresta ao lado de Elliot e a amizade entre os dois se torna cada vez mais forte – já que agora eles só têm um ao outro. No entanto, o relacionamento entre eles fica ameaçado quando o pequeno Pete é descoberto por uma guarda florestal e levado à cidade. Desolado, Elliot não medirá esforços para resgatar seu companheiro, ainda que para isso ele mesmo tenha que correr alguns riscos.

Meu Amigo, o Dragão é, na verdade, um típico longa-metragem Disney e praticamente recicla todos os itens básicos de suas produções. O visual é rico e a fotografia serve muito bem à proposta. Os tons de verde são exuberantes – inclusive os de Elliot, que aqui chama a atenção pelo excelente trabalho de computação gráfica. Outro ponto favorável de Meu Amigo, o Dragão é sua trilha sonora: apesar de abandonar totalmente o gênero musical do primeiro filme, a música é marcante, inserida em momentos oportunos que ora acentuam a carga dramática da cena, ora traduzem o tom leve da narrativa. Os personagens, por sua vez, apesar de não muito bem desenvolvidos, são carismáticos (talvez por conta do bom desempenho do elenco, que conta com nomes como Bryce Dallas Howard, Wes Bentley e Robert Redford). Entretanto, curiosamente nenhum deles consegue ser tão interessante quanto o próprio Elliot. Ele recua no tom “brincalhão” da primeira fita, apresentando uma postura quase humanizada. Sua relação com Pete é invertida: é o garoto quem quase assume o papel de bicho de estimação.

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Cativante do início ao fim e repleto de aventura e fantasia, Meu Amigo, o Dragão trata de vários temas, como a amizade e família. No entanto, também critica a interferência do ser humano na natureza e como as consequências podem ser catastróficas. Mesmo com um roteiro fácil e previsível (escrito pelo próprio diretor David Lowery em parceria com Toby Halbrooks), Meu Amigo, o Dragão consegue reinventar toda a magia Disney que durante anos tem encantado a milhares de pessoas – e prova que a empresa ainda é capaz de conquistar uma nova audiência mesmo ao apresentar personagens que já amamos e já fazem parte de nossas vidas.

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (Everybody Wants Some!!)

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!, como seu próprio idealizador sugeriu, é uma “sequência espiritual” de Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, no original) – hoje um clássico dos anos 90, que ajudou a alavancar a carreira do então iniciante Richard Linklater. Mas não se deixe levar por isso: Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, por si só, tem méritos suficientes para ganhar o devido destaque na filmografia do cineasta.

Se no filme de 1993 Linklater acompanha o último dia de colégio de uma turma de adolescentes a caminho do que seria nosso Ensino Médio, nos anos 70, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes narra os primeiros dias de um grupo de universitários às vésperas do início das aulas, em 1980. Eles são jogadores de uma equipe de baseball, moram em uma espécie de república estudantil e estão naquela fase da vida em que acreditam ser capazes de tudo. E realmente o são.

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Jovens, Loucos e Mais Rebeldes nos traz uma ambientação perfeita dos anos 80 em vários aspectos, o que nos transporta para aquele período. E são os detalhes que impressionam: cabelo, maquiagem, figurino e cenários são cuidadosamente bem recriando, nos trazendo uma sensação de nostalgia que se acentua a cada minuto da fita por conta da ótima trilha sonora. A seleção musical de Jovens, Loucos e Mais Rebeldes é excepcional, percorrendo vários gêneros que caracterizam a época. Para mim, é o ponto alto do filme.

O roteiro, por sua vez, não decepciona. Aparentemente, os diálogos são puramente despretensiosos, mas em sua totalidade são repletos de significados. Apesar de não ter necessariamente um conflito muito bem estabelecido, seu humor e dinamismo tornam as quase duas horas de fita muito leves, como se o tempo não passasse (assim como para seus personagens). A primeira parte do filme, por exemplo, parece praticamente não sair do lugar, mas é incrível o quanto a história consegue diferenciar cada um dos tipos. Apesar de todos terem um interesse em comum (o esporte), cada um deles mantém sua individualidade. Cada estereótipo está ali, inclusive aquele que é, talvez, o protagonista da trama, Jake – o ponto de equilíbrio entre seus colegas.

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Infelizmente, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes sofre por seus antecessores: o da década de 90 (que gera comparações inevitáveis porém injustas) e Boyhood – Da Infância à Juventude, obra-prima de Linklater que fatalmente aumenta as expectativas com relação à esta nova produção. No entanto, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes é um filme que, em sua simplicidade, se mostra indiscutivelmente inteligente, nostálgico e divertido. O longa não perde seu tempo justificando ou mesmo julgando as ações de suas personagens; pelo contrário, ele se prende ao relato de situações e momentos típicos daquela geração. É a história de um grupo de amigos e suas aspirações, desejos e sonhos, narradas com a nostalgia capaz de nos fazer sentir saudades de uma época que nem mesmo vivenciamos.

Demônio de Neon (The Neon Demon)

Jesse é uma jovem repleta de vida. Recém-chegada em Los Angeles, a bela órfã sonha em ser uma modelo profissional. Após ser contratada por uma conceituada agência, Jesse chama a atenção de um designer que fecha o desfile de sua grife com a menina, despertando a inveja de outras moças que também batalham para crescer na carreira.

01Demônio de Neon é o clássico caso de filme com muita estética e pouco conteúdo. Visual e tecnicamente, Demônio de Neon impressiona desde os primeiros minutos – a sequência inicial, por exemplo, é de uma beleza plástica interessantíssima e quase nos engana com relação ao que virá no decorrer da fita. A fotografia de Natasha Braier é deslumbrante, abusando da paleta de cores, especialmente com seus contrastes. Os enquadramentos também são bastante precisos, centralizados, com uma edição que torna a obra quase um longo videoclipe. Aliás, talvez seja essa a grande proposta de Demônio de Neon: ser um produto sensorial, seja nos frames requintados, na simbologia de suas imagens ou na trilha sonora arrebatadora de Cliff Martinez. A banda musical é justamente o que faz o espectador emergir ainda mais na história, recorrendo ao uso intenso de sintetizadores, que criam uma atmosfera de tensão que se encaixa como uma luva ao que temos diante da tela.

Entretanto, assim como Demônio de Neon tenta criticar a superficialidade do mundo da moda e da ditadura da beleza, o filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn também é raso em seu argumento. Dizer que isso foi proposital é uma saída no mínimo fácil para justificar uma deficiência do roteiro que é escancarada. Mesmo com as atuações competentes de seu elenco (inclusive sua protagonista, a inspirada Elle Fanning), fica evidente que o longa tinha muito mais potencial a ser explorado em sua intenção de chocar o público. Infelizmente, Demônio de Neon se limita exclusivamente à sua estética irrepreensível – resumindo: o que sobra de beleza falta-lhe em conteúdo.

Últimos Dias no Deserto (Last Days in The Desert)

Livremente inspirado em uma passagem do Velho Testamento, Últimos Dias no Deserto acompanha Jesus Cristo (Ewan McGregor) em sua peregrinação de 40 dias de jejum e oração pelo deserto. Nessa jornada, além de enfrentar as provações impostas pela personificação do Diabo, Yeshua (nome do filho de Deus em hebraico) encontra uma família que, apesar da aparente tranquilidade, vive em crise: um pai (Ciarán Hinds), que insiste que eles devem permanecer naquele ambiente hostil e ali sobreviver; a mãe (Ayelet Zurer), que está à beira da morte; e o filho (Tye Sheridan), cuja maior ambição é partir rumo a Jerusalém.

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Foram muitas as obras que revisitaram a vida de Cristo ao longo dos anos, desde seu nascimento até a sua morte e posterior ressurreição. Todavia, poucas produções se concentram em um texto tão específico quanto Últimos Dias No Deserto. As citações bíblicas referentes a este capítulo, entretanto, são pequenas – ou pelo menos não são suficientes para sustentar uma película como esta, mesmo que sua duração seja razoavelmente curta. Logo, para “compensar” a história, para além da introdução de prováveis personagens, a narrativa nos brinda com um espetáculo visual amparado pela fotografia ímpar do mexicano Emmanuel Lubezki. Assim como fez em O Regresso, Lubezki faz uso exclusivo da luz natural da Califórnia (onde o filme foi rodado) – e este é, de longe, o ponto mais favorável do longa, ajudando a criar uma identidade poética bem interessante. Além disso, Jesus Cristo é retratado como um ser humano “comum”. Essa visão mais humanizada, sem a roupagem “cristã” com a qual estamos acostumados, de certa forma aproxima o espectador: é como se o filme contasse a trajetória de um homem qualquer, que vaga naquele cenário desértico em busca de um encontro consigo mesmo e não simplesmente um teste de sua fé e amor a Deus.

Contando com atuações competentes por parte de todo elenco, infelizmente Últimos Dias no Deserto se arrasta demais. Embora seja tecnicamente impecável, falta provocação à fita – e mesmo oferecendo quadros de tirar o fôlego como se para promover algum tipo de reflexão (coisa que Lubezki sabe fazer como ninguém), o público não é capaz de se sensibilizar tanto com a trama quanto ela pretende. A direção e o argumento de Rodrigo Garcia nos entrega, portanto, um produto que é visualmente atraente, mas com uma proposta e conteúdo confusos independente de qualquer religiosidade.

Britney Spears Mostra Vitalidade Pop em “Glory”

Britney Spears há tempos já não precisa provar nada para ninguém. Esta é uma verdade absoluta. Mas é fato também que seu último registro, Britney Jean, não foi lá essas coisas. Sejamos honestos: na realidade, Britney nunca foi reconhecida por lançar ótimos álbuns, mas sim por suas polêmicas e seus singles extraordinários – não à toa, a loira é considerada a “princesinha do pop” (sendo Madonna a eterna rainha). Durante anos, a intérprete foi criticada por sua voz – ou a ausência dela, como alguns alegam – e após inúmeros problemas em sua vida pessoal, poucos acreditavam que Spears voltaria ao que era no início de sua emblemática carreira. E eis que surge Glory.

01Glory  não é seu melhor trabalho, mas aponta para uma evolução que ainda pode surpreender lá na frente. Definitivamente, Britney melhorou e muito. Glory  é, até aqui, seu álbum mais “coeso”, ainda que a cantora tenha atirado em várias direções. Há evidentemente uma diversidade de tendências aqui, mas é admirável o quanto Britney consegue dar uma “uniformidade” ao todo, entregando um disco que soa interessante do início ao fim. Mesmo que algumas faixas não sejam excepcionais, cada uma delas possui identidade própria e isso enriquece muito sua proposta. Vê-se claramente que o desejo de Spears é experimentar, brincar, se divertir com o que está fazendo.

Com uma melodia etérea, Invitation abre o disco com propriedade, sendo quase um prólogo repleto de sensualidade para o primeiro single dessa nova era, a já conhecida Make Me, em parceria com o rapper G-Easy. Aqui, Brit embarca numa pegada mais upbeat, sem deixar de lado seu pop já conhecido. Private Show  tem um instrumental bem gostoso de ouvir, com uma batida quase hip-hop, porém minimalista. Em seguida, Man on The Moon  traz uma sonoridade teen deliciosa, bem diferente do que ocorre em Just Luv Me, onde a artista abraça novamente o minimalismo em uma música que parece ter sido retirada de Purpose, de Justin Bieber. Tudo isso vai preparando o ouvinte para as duas canções que, de cara, mais chamam a atenção na pista: Clumsy  e Do You Wanna Come Over – esta última com uma atmosfera anos 90 e um violão de base que poderíamos chamar de “pervertido” de tanto que agrega à música.

Com gemidinhos que se tornaram uma de suas marcas registradas, Slumber Party  vem carregada no reggae  e é aqui onde encontramos a letra mais provocante desta obra onde o sexo parece ser um de seus temas principais. Com uma levada de violão e sintetizadores no refrão, Just Like Me  é o mais próximo de uma balada até então. Longe de incorporar uma espécie de Nicki Minaj da vida, Britney apresenta vocais quase falados nos principais trechos de Love Me Down – isso sem mencionar a semelhança com um estilo No Doubt lá na década passada. Hard To Forget Ya  e a ótima What You Need  encerram a versão física de Glory – na “deluxe”, outras cinco canções são adicionadas, com destaque para Change Your Mind (No Seas Cortés), Liar  e a estranha mas sensacional If I’m Dancing.

Contando com o apoio de um extenso time de produtores, Glory  não chega a ser uma obra definitiva do pop ou mesmo de sua idealizadora, mas tem um grande mérito: escancarar ao mundo que Britney 1) sim, está viva; 2) está de volta; e 3) é uma artista incrível. O álbum dificilmente vai torna-la maior do que ela já é (uma hitmaker por excelência, não?) e tampouco representará algo inovador dentro do universo pop ou de sua própria discografia, mas nos entrega aquilo que ela sabe muito bem fazer: música pop comercial e facilmente acessível – e não é exatamente isso o que esperamos dela?

A Comunidade (Kollektivet)

Copenhague, década de 70. Erik (Ulrich Thomsen) é um professor universitário e sua mulher Anna (Trine Dyrholm) é âncora em um telejornal local. Pais da adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansen)eles recebem de herança uma mansão na qual Erik passou parte de sua infância. Com os altos custos de manutenção, o marido está disposto a vender o imóvel, até que Anna o convence a montar ali algo que ela sempre sonhou em vivenciar: uma comunidade. Apesar da recusa inicial, logo Erik concorda com a ideia da esposa – e a partir daí os dois saem à procura de amigos e conhecidos para dividir a comuna.

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O novo filme de Thomas Vinterberg (de Festa de Família e A Caça), ainda que conte com vários personagens, é muito objetivo no núcleo central de sua narrativa, composto pela família principal da trama. Cada um dos três tem seu “drama” desenvolvido – os demais moradores ali representados não possuem um objetivo individual definido, mas sim o “todo”. Ou seja, para o diretor de nada importam as características de cada um deles, mas sim o quanto a união daquele grupo afeta a família. Mais interessante ainda é observar que quanto mais o senso de “coletivismo” do grupo cresce, mais aumentam os conflitos de Erik, Anna e Freja – especialmente a partir do momento em que o marido se apaixona por uma aluna anos mais nova do que ele e a comunidade decide que ela também passará a compartilhar o mesmo teto.

Se o título sugere o coletivo, A Comunidade é muito particular à essa família, nos apresentando exatamente o ponto de vista deste trio – e é incrível a construção desses tipos ao longo da fita. Erik, inicialmente um simpático e visionário docente, se torna aos poucos um homem rude e frio, incapaz de lidar com os problemas que estão à sua volta (a cena em que conta a verdade para a cônjuge, após uma noite de sexo, é perplexamente dura). Anna é aquela que busca trazer valores ao meio em que está inserida, porém sofre com isso mais do que todos os outros. Freja, por sua vez, na efervescência da juventude, reage a tudo que acontece ao seu redor com muito equilíbrio, mesmo em sua imaturidade.

A Comunidade consegue captar com precisão todo o charme da capital dinamarquesa de então. E mais do que isso: o longa retrata de maneira muito honesta este cenário da primeira metade dos anos 70, principalmente na proposta pós-libertária que influenciou uma geração, nas ideias, pensamentos, ideologias. Com um desfecho cabível, porém pessimista, A Comunidade atesta o talento de Vinterberg como um dos maiores cineastas de seu país em todos os tempos – além de ser um filme que, por si só, já tem todos os méritos.

Cruzada (Kingdom of Heaven)

Gladiador foi, sem dúvida, um sucesso inigualável, capaz de ressuscitar um gênero: o épico. De fato, o longa dirigido por Ridley Scott desencadeou uma sucessão de outros filmes da mesma espécie (como Tróia, Alexandre, entre outros – apesar de nenhum deles ter obtido tamanho êxito), além de dar carta branca a seu idealizador para embarcar em um projeto adormecido há anos: Cruzada.

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Este épico medieval narra a disputa entre muçulmanos e cristãos pela posse de Jerusalém, no século XII. Na versão romanceada destes acontecimentos reais, acompanhamos Balian (Orlando Bloom, muito antes de aparecer como veio ao mundo curtindo uma praia com Katy Perry), um jovem ferreiro francês que guarda luto pela morte da esposa e do filho. Temente a Deus, logo o viúvo descobre que seu pai é o nobre Godfrey de Ibelin (Liam Neeson), um lorde e valente soldado do rei Baldwin. Levado por Godfrey à Terra Santa, aos poucos Balian ascende na corte e, mesmo fazendo alguns inimigos entre a nobreza, ele conquista a simpatia do rei e seu conselheiro.

Ridley Scott está acostumado a superproduções – e em Cruzada ele faz uso de quase tudo o que reproduziu (com maestria) em Gladiador. O design de produção é, no mínimo, espetacular. As pesquisas e referências visuais foram extensas, sendo imprescindíveis para a recriação de cenários, figurinos e objetos com absoluto domínio. Filmado no Marrocos, Scott dá uma aula de técnica: a cena do ataque de Saladino a Jerusalém é riquíssima em detalhes, sendo mostrada dos mais diversos ângulos possíveis – algo que apenas um cineasta com o gabarito de Scott seria capaz de fazer. A exemplo do que fez em Gladiador (inclusive alguns planos são praticamente os mesmos), o diretor utiliza artifícios como a câmera tremida e cortes rápidos para recriar as sequencias de batalhas.

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Mesclando tipos reais com fictícios (com total licença poética), Cruzada tem um resultado “técnico” que impressiona, porém não inova. Fica claro que Scott usa seu ego para fazer uma cópia quase fiel de sua obra antecessora, o que incomoda em alguns instantes. A narrativa, no entanto, é bastante equilibrada do ponto de vista ideológico: diferente do que é comum acontecer no cinema (onde o Islã é frequentemente associado ao terrorismo, produzindo uma série de estereótipos nada palpáveis), Cruzada  vai claramente contra o fanatismo religioso. Não há um vilão ou mocinho: existe uma certa uniformidade entre os personagens – e, em tempos de discursos acirrados de ódio religioso pelo mundo afora, uma proposta como esta sempre é interessante.

Ventre (Womb)

Ventre, drama alemão do diretor Benedek Fliegauf, sob certo aspecto propõe a discussão de dois temas polêmicos: a engenharia genética e o incesto. Na trama, Eva Green é Rebecca, uma moça que esperou por doze longos anos sua grande paixão de infância, Thomas (Matt Smith). Quando finalmente o reencontra, o jovem morre fatalmente em um acidente de trânsito. Desconsolada, Rebecca decide fazer uma fertilização artificial com o DNA de Thomas, gerando um clone do falecido. O tempo passa e a cada dia Rebecca sente mais dificuldade para esconder a verdade do filho, além de conviver constantemente com o desejo de consumar seu amor por Thomas.

01Amparado por uma bela fotografia em cores frias (predominantemente em tons azulados, acentuando toda a melancolia da fita), Ventre é um filme contemplativo. Esteticamente, tudo é muito bem articulado: os planos são cuidadosamente captados, dos panorâmicos aos mais fechados (estes últimos exprimindo com perfeição as dúvidas de suas personagens). A produção ainda conta com um ótimo trabalho de som, da edição e mixagem à trilha sonora minimalista. Além disso, o casal de protagonistas demonstra muito empenho, com destaque para Green, em um tipo perturbado que já lhe é bastante comum. No auge de sua beleza, a atriz é excessivamente atraente e faz de sua Rebecca uma mulher visivelmente dividida – fato que lhe é reforçado especialmente a partir da segunda metade do longa.

Mas principalmente, Ventre é silencioso. A ausência de diálogos predomina durante a fita, sendo estes substituídos pelos olhares angustiados (e a troca deles, claro) de seus personagens. Um clima de incerteza permeia toda narrativa, uma tensão abrupta se instaura a todo momento – como se algo estivesse prestes a acontecer e nunca, de fato, acontece. O espectador fica nesta aflição até o desfecho da história, que ocorre sem um clímax devido, como se apenas para “compensar” o público (ou choca-lo, como alguns podem alegar). Para além disso, os debates propostos ficam à beira da superficialidade e nunca são aprofundados. Ventre é um filme para poucos: esteticamente belo por um lado, pelo outro infelizmente lhe faltou ousadia e é isso que o impede de ser um cinema memorável.