A Marca do Medo (The Quiet Ones)

03A Hammer Film Productions é uma produtora britânica fundada em 1934 e especializada em cinema de terror. Durante os anos 50 e 70, a companhia foi absoluta no gênero, alcançando seu auge na década de 60, quando realizou diversas produções sobre Drácula, Frankstein e outros monstros – imortalizando astros como Christopher Lee e Peter Cushing. Durante a década de 80, a empresa passou a produzir séries de terror para a televisão, não muito bem recebidas pela crítica, até sua total decadência. Recentemente, a Hammer voltou à ativa, com filmes como A Mulher de Preto (com Daniel Radcliffe) e Deixe-me Entrar (versão norte-americana para o original sueco de Tomas Alfredson).

Toda essa introdução é importante para que você, leitor, entenda as expectativas em torno de A Marca do Medo, que chega essa semana aos cinemas nacionais. Provavelmente, A Marca do Medo era um dos filmes mais aguardados pelos fãs do gênero – e a julgar pelo trailer, a produção realmente prometia. Mas como nem sempre o trailer é capaz de expor a qualidade real de um filme, A Marca do Medo se tornou uma das maiores decepções do ano.

A Marca do Medo é baseado em uma história real dos anos 70, que ficou conhecida como “O Experimento Philip”. Na trama, o professor universitário Joseph Coupland (vivido por Jared Harris) reúne uma equipe para fazer um experimento com o objetivo de provar a existência de fantasmas. Após sua universidade cortar os recursos do projeto, o professor e seus alunos se instalam em uma desolada mansão em um lugar distante, onde Joseph utiliza seus métodos pouco ortodoxos para “destruir” um fantasma que perturba a adolescente Jane Harper (Olivia Cooke) – mesmo que para isso ele coloque em risco a integridade física de sua cobaia. Conforme a pesquisa avança, uma estranha força maligna se torna cada vez mais presente, provocando situações incomuns e aterrorizantes.

Aparentemente, A Marca do Medo tinha tudo para ser ótimo exemplar para os admiradores do gênero: tem um bom elenco, tem boas condições e a trama desperta uma curiosidade. Mas o maior pecado do longa está em sua falta de foco: afinal, é um filme de assombração ou possessão? O diretor John Pogue se estende na tática (falha) de deixar em aberto várias possibilidades e a impressão é que temos duas histórias em uma. Como resultado, A Marca do Medo se perde na vã tentativa de ser uma coisa e outra – e acaba não sendo nenhuma delas.

Outro quesito em que o diretor fica em cima do muro é a alternância de sequências de película tradicional e o conhecido found footage (que dá a sensação de falso documentário). Mas a transição entre um recurso e outro não funciona e dá ainda menos credibilidade à narrativa, sustentada por um roteiro frouxo e que não ajuda no desenvolvimento de suas personagens (recheado de estereótipos típicos dos filmes de terror, do bonitão obcecado pelo poder à loira vadia). O mesmo roteiro desleixado é o responsável por uma sequencia de cenas desnecessárias, forçando susto onde não há – o que cansa o espectador, pois as cenas se tornam até mesmo repetitivas. Nem mesmo o elenco parece colaborar – com exceção da competente Olivia Cooke, excelente no papel da psicótica Jane – com ótimos momentos de drama e sofrimento que são fundamentais para fazer com que o público se compadeça de sua personagem. Sua boa atuação também contribui para a boa química entre sua personagem e Brian (Sam Claflin, da saga Jogos Vorazes), que até arriscam um romance meio distorcido. Considerando o enredo, Sam e Olivia fazem milagre.

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A Marca do Medo perde a oportunidade de se tornar um grande filme de terror, desperdiçando uma história com potencial em um roteiro bastante falho. Apesar de conseguir dar alguns pouquíssimos sustos, o longa até que ganha certo charme com sua boa trilha sonora e um design de produção equilibrado (que retrata bem os anos 70 norte-americanos daquela região), mas perde a chance de abusar um pouco mais da violência gráfica – aliás, os efeitos visuais, especialmente na cena final, machucam os olhos de tão ruins que são, mas deixa pra lá. Isso não é nada se comparado à incansável crise de identidade que A Marca do Medo sofre: não sabe quem é e muito menos para que veio.

3 Dias Para Matar (3 Days to Kill)

Há um momento na vida em que os anos passam, a idade chega e é inútil lutar contra o tempo. Em Hollywood, não é muito diferente. Grandes astros vêm e vão, alguns ficam mais em evidência do que outros, mas conforme o tempo vai passando aqueles que viviam de glórias passadas acabam dando espaço para os rostos mais jovens. Kevin Costner, quase uma unanimidade na década de 90 (e que devido ao seu ego inflado teve sua imagem desgastada nos anos seguintes) tem hoje a difícil tarefa de se manter na indústria cinematográfica – e 3 Dias Para Matar vem aí para provar que o ainda há espaço para os “tiozinhos” no cinema – mas não muito.

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A trama de 3 Dias Para Matar acompanha o agente da CIA Ethan Renner, que após uma missão fracassada, descobre que tem um câncer cerebral, o que lhe dá uma estimativa de vida de cerca de três meses. De volta a Paris para tentar reatar os laços com sua ex-esposa e, principalmente, sua filha adolescente, Ethan é abordado por Vivi Delay, uma funcionária do alto escalão da CIA, que lhe oferece uma droga alternativa capaz de lhe dar algum tempo a mais de vida. No entanto, em troca do tratamento, a mulher exige que Ethan aceite uma última missão.

Dirigido por McG (da sequência As Panteras e do mais recente Guerra é Guerra) e com o roteiro escrito por Luc Besson (um especialista do gênero de ação), 3 Dias Para Matar é um filme que nos dá uma sensação de “eu já vi isso em algum lugar…” a todo o momento – e a razão é simples: é um filme repleto de clichês, onde tudo parece favorecer uma narrativa pra lá de previsível.

Alternando entre ação, drama familiar e comédia, ironicamente o filme se sai melhor neste último quesito. Não que seja de um humor muito apreciável: o problema está nas cenas de ação nada empolgantes ou no drama que nunca é aprofundado e serve apenas como pretexto da história. As atuações também não colaboram e o próprio protagonista da trama não possui muita empatia. Kevin Costner parece estar com uma batata quente na boca, visivelmente pouco à vontade com o que acontece a sua volta. Amber Heard, a agente misteriosa e sexy que aparece do nada e sai de cena da mesma forma que entrou, é só uma justificativa para se colocar uma “loira boazuda” na produção.

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Mas em meio a tudo isso, é preciso admitir: 3 Dias Para Matar, ainda assim, é um filme que agrada – e agrada porque é despretensioso, é leve e se revela um bom entretenimento para a grande massa. Não à toa, 3 Dias Para Matar tem se saído muito bem nas bilheterias norte-americanas (o suficiente pelo menos para se pagar, o que nos dias atuais já é um grande trunfo). Com uma qualidade inferior a outras grandes produções do gênero, para um espectador mais “cinéfilo”, 3 Dias Para Matar peca principalmente em dois pontos: em sua duração, prejudicada por um excesso de cenas desnecessárias e que não trazem nenhum significado à trama, sendo totalmente dispensáveis; e, principalmente, sua falta de rumo – como já mencionado, o filme oscila entre diversos gêneros, mas sem obter grande êxito em nenhum deles.

O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel)

Wes Anderson é um diretor exótico – e as opiniões sobre ele e sua obra são ambíguas. Há quem goste e há quem não goste, simples assim. Porém, mesmo aqueles que não se identificam com o estilo tão particular do cineasta são capazes de admitir que o homem por trás de Moonrise Kingdom e O Fantástico Sr. Raposo sabe como contar uma história. Com O Grande Hotel Budapeste, seu novo longa, Anderson só comprova esta certeza – e mais do que isso: mostra que tem capacidade para expor sua visão cinematográfica original com total liberdade, realizando, provavelmente, o melhor trabalho de sua filmografia até então.

O Grande Hotel Budapeste é ambientado na Europa da década de 30, em um país fictício conhecido como República de Zubrowka. À beira da guerra, a narrativa principal é focada na figura do conciérge do luxuoso hotel que dá nome ao título, o caprichoso Gustave, figura simpática, adorado por seus empregados e admirado pelas clientes do local. Em determinado momento da película, Gustave é acusado do assassinato de uma de suas hóspedes preferidas (com quem mantinha um relacionamento) que, em seu aguardado testamento, deixa a maior parte de sua fortuna para o conciérge, revoltando toda a família da falecida. A partir daí, começa a luta de Gustave para provar sua inocência e descobrir o verdadeiro culpado do crime, recebendo a ajuda de Zero Moustafa, mensageiro do hotel com quem Gustave desenvolve uma bela relação de amizade.

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Todo o universo lúdico de Anderson se desenvolve sobre um design de produção sem defeitos, assim como todos os demais aspectos técnicos do filme. A fotografia em tom nostálgico aproveita muito bem os já conhecidos travellings de câmera do diretor, que passa pelas paredes, objetos, figurinos e personagens de forma perfeita e simétrica. Os cenários irregulares e coloridos parecem casas de bonecas e dão um tom quase de fábula à história. Até mesmo os figurinos extravagantes (que acentuam o humor da narrativa) e a maquiagem contribuem na construção da trama, embalada pela excelente trilha de Alexandre Desplat – tão encantadora quanto às imagens que acompanha e que soa perfeita em todos os instantes.

Quanto ao elenco, é inegável o fato de que temos aqui uma reunião de astros do mais alto gabarito. Ralph Fiennes na pele de Gustave é sensacional e transmite um carisma sem igual através de seu personagem, provavelmente em uma de suas melhores atuações no cinema. Chega quase a ser ultrajante pensarmos que Johnny Depp foi cotado para o papel, pois Fiennes é o próprio Gustave. Outras boas surpresas ficam por conta do estreante Tony Revolori, como o fiel escudeiro do personagem principal, e também do oscarizado Adrien Brody, como o filho da hóspede assassinada, um dos vilões da trama que tenta a todo custo receber a herança da mãe. Outros nomes como Jude Law, Edward Norton (como um atrapalhado policial), Mathieu Amalric, Tilda Swinton, Willem Dafoe e Harvey Keitel abrilhantam ainda mais o filme, todos com performances competentes.

Com um roteiro primorosamente bem desenvolvido, O Grande Hotel Budapeste vem colecionando ótimas críticas por onde passa. Com uma direção brilhante, Anderson retrata aqui seu próprio e fértil imaginário, através de uma trama que encanta por seu tom lúdico. Divertidíssimo do início ao fim, o filme apresenta um humor de excelente bom gosto, até mesmo ingênuo em alguns momentos, mas com aquele tom de melancolia que é tão presente no restante da obra do cineasta. Com sua receita já conhecida (que inclui o humor ácido, clima descontraído, personagens excêntricos, fotografia primorosa), Wes Anderson faz de O Grande Hotel Budapeste uma fábula sobre a amizade em tempos difíceis, que se torna mais forte à medida que a esperança se renova. O Grande Hotel Budapeste é a prova definitiva de que ainda há espaço para bons filmes e de que a comédia no cinema pode ser inteligente e abordada com muito refinamento e classe.

Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme)

01Já nas primeiras cenas de Uma Juíza Sem Juízo, somos capazes de descobrir muito a respeito de sua protagonista. Ariane Feldier é uma juíza comprometida e extremamente rígida em seus julgamentos, com grandes perspectivas de crescimento no tribunal onde atua. Além disso, aos 40 anos de idade, ela é solteira, não tem filhos, trabalha muito, se diverte pouco, não acha prazer em quase nada, inclusive nos homens – que troca facilmente por uma dança. Não que haja uma questão de ausência de libido aí, mas talvez sua experiência traumática com a principal figura masculina em sua vida (o pai que abandonou a esposa quando Ariane era pequena – e a seguida morte da mãe, que fez com que a garota ficasse sozinha no mundo) tenha lhe trazido certa desconfiança com relação ao sexo oposto.

Na véspera de ano novo, em meio a uma animada festa em seu local de trabalho, Ariane bebe uns goles a mais e não se recorda de nada do que aconteceu na noite anterior. Alguns meses depois, ela recebe a notícia de que está grávida, mas não faz ideia de como isso pode ter acontecido – e, principalmente, quem é o pai da criança. A partir daí, Ariane começa uma investigação para descobrir os detalhes da história – e, para sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai do filho que espera é um perigoso agressor.

Uma Juíza Sem Juízo é um filme despretensioso, mas que agradou ao público e crítica em geral – tanto que a comédia ganhou o Prêmio Cesar de melhor roteiro (segundo maior festival francês) e foi um sucesso de bilheteria na França. Não tem grandes ambições e seu apelo absurdo consegue arrancar boas risadas da plateia.  Porém, o tom exagerado desta comédia não a torna apelativa. Na verdade, por mais que escolha alguns tipos absurdos e estereotipados, o roteiro ágil (que não deixa o espectador bocejar na poltrona) aliado à trama envolvente e inventiva é o que mais chama a atenção neste filme onde tudo é bastante previsível (mas nem por isso você perde o interesse na trama). A comédia absurda de Uma Juíza sem Juízo, por vezes até mesmo boba, lembra muito os primeiros trabalhos de Woody Allen (obviamente sem toda aquela firula existencial do cineasta).

Mas a comédia também pode render bons frutos, e Uma Juíza Sem Juízo aborda alguns temas contemporâneos que podem render boas discussões. O primeiro, estampado logo nas cenas iniciais, é a visão moderna da mulher na nossa sociedade – independente, workaholic e que não precisa de homem para nada. Depois, a desestruturação da família nos dias atuais é algo frequente. Ambos os protagonistas são frutos de lares problemáticos – e a ideia da formação de uma nova e perfeita “família” (segundo o conceito clássico) é o que mais assusta Ariane. Finalmente, há também uma questão ética aqui: vale a pena assumir um segredo vergonhoso para salvar outra pessoa? Como proceder diante desta questão, tomando ciência da situação vexatória à qual estaremos fatalmente expostos?

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Outro ponto que deve ser elogiado é a ótima interação entre os protagonistas. Sandrine Kiberlian e Albert Dupontel (este último que assina o roteiro e a direção do longa) estão ótimos em seus respectivos papéis e mesmo individualmente tem atuações excelentes. Sandrine consegue lidar bem com as alterações de humor de sua personagem – o que lhe rendeu o Cesar de melhor atriz – , enquanto Albert vive um tipo alucinado que é engraçadíssimo. Da parte técnica, vale ainda destacar a simpática (e divertida) trilha sonora de Christophe Julien (que acentua todo o tom escrachado da comédia).

Em alguns momentos, é bom dar uma pausa em filmes “sérios” e arriscar produções menos badaladas e que exijam um pouco menos de nós como espectadores. Isto não implica em assistir a filmes ruins, mas sim trabalhos menos pretensiosos que podem nos render bons momentos de distração e entretenimento. Uma Juíza sem Juízo não é uma verdadeira pérola cinematográfica, mas funciona bem como comédia, sem forçar a barra. Uma opção divertida para quem gosta de dar umas escapulidas uma vez ou outra das comédias hollywoodianas recheadas de estereótipos, apelações e preconceitos.

Linkin Park Retorna Timidamente Às Origens Com o Ótimo “The Hunting Party”

Pode parecer que não, mas The Hunting Party é apenas o sexto álbum de estúdio da banda Linkin Park. Digo isso porque Hybrid Theory, o primeiro e aclamado registro do sexteto californiano, foi lançado no ano de 2000 – apresentando à indústria fonográfica um dos artistas mais influentes de todos os tempos. Três anos depois, Linkin Park lançava mais um disco clássico: Meteora, contendo os maiores hits – para muitos, hinos – do grupo (FaintSomewhere I BelongFrom The InsideNumb, citando apenas os mais conhecidos). Desde então, Mike, Chester e companhia não lançavam nada tão grandioso (com exceção de algumas faixas avulsas lançadas nos álbuns seguintes, mas que no conjunto de seus respectivos trabalhos não tinham tanta significância). E eis que surge The Hunting Party.

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Não que o Linkin Park pós Meteora fosse ruim. Era apenas diferente – muito diferente. Deixou-se o nu-metal e alternativo e as influências do hip-hop dos primeiros anos e apostou-se em canções mais mornas e carregadas de elementos eletrônicos, o que decepcionou boa parcela dos fãs. Apesar disso, os álbuns foram bem recebidos, estreando em primeiro lugar em vários países e tendo ótimas vendagens. Mas faltava algo. Faltava ainda aquela identidade que parecia estar meio perdida e que agora parece ter retornado com The Hunting Party, ainda que timidamente.

The Hunting Party abre com a ótima Keys To The Kingdom, onde o vocalista Chester (com voz gritante e distorcida) assume: “Eu sou minha própria vítima: eu acabo com tudo que vejo lutando na futilidade”. Já aí a banda entrega tudo o que está por vir: batidas incontroláveis, guitarras pesadas e os inconfundíveis berros de Chester – em boa fase para seus quase 40 anos. Segue-se com All For Nothing, parceria com Page Hamilton (vocalista do Helmet) e uma das melhores canções da carreira dos caras – a que mais traz a sonoridade do Linkin Park dos primeiros trabalhos. Alem do excelente instrumental e do vocal de Mike Shinoda (que é muito bem explorado aqui), a faixa é praticamente um “dedo no meio” que o grupo escancara para os críticos.

Guilt All The Same também é um ótimo momento em The Hunting Party. Com uma introdução de 1 minuto e meio, a música tem um ar dark e possui a melhor letra dessa demanda, encabeçada pelo refrão com a frase “Você são todos culpados da mesma forma, doentes demais para se envergonhar! Vocês querem apontar o dedo, mas não há mais ninguém para culpar”. Vale lembrar que Guilt All The Same foi escolhida como primeiro single – um presente para os fãs. Quebra-se o ritmo alucinante com a instrumental The Summoning, que abre caminho para War – música com fortes influências do mais autêntico punk. É impossível ouvir War e não imaginar uma banda de punk rock quebrando tudo com seus berros intermináveis e a platéia indo ao delírio. É praticamente um “Vocês queriam rock de verdade? Então está aí…”. Em seguida, temos Wasterlands, mais uma faixa com a pegada dos primeiros discos – tem Chester e Shinoda dividindo as atenções e fazendo ótimos vocais, alem de uma batida hip-hop meio quebrada com ótimos riffs de guitarra.

01Until It’s Gone começa com um sintetizador no melhor estilo Numb e tem ares épicos com seu forte cenário orquestral – uma balada para dar aquela acalmada. Daron Malakian, guitarrista do System of a Down, empresta seu talento na faixa Rebellion – e talvez por essa razão a canção parece ter saído do álbum ToxicityMark The Graves peca um pouco com sua longa introdução e, apesar de não ser ruim, se perde com seus altos e baixos e dá uma segurada nos ânimos mais afoitos. Drawbar é mais uma instrumental que põe o pé totalmente no breque, abrindo caminho para mais uma baladinha, Final Masquerade. Com os mesmos ares de grandeza de Until It’s Gone, tem grandes chances de virar single, representando uma espécie de “momento descanso”. Para finalizar, A Line In The Sand, canção mais longa deste trabalho, começa na mesma zona de relaxamento de Final Masquerade, e tem vários momentos de oscilação, mas não representa nada muito grandioso.

The Hunting Party é, provavelmente, o melhor registro do grupo desde Meteora. Para os fãs que sonhavam com um retorno às origens – mas que, devido aos discos anteriores, não tinham muita esperança – The Hunting Party vem como ótima surpresa, sendo um álbum que pode até não agradar completamente mas não decepciona em nada. Com uma ótima produção, The Hunting Party vai na contramão das tendências musicais da indústria – em entrevista à revista Kerrang, o líder da banda, Mike Shinoda, disse que o disco vinha “como uma resposta ao mercado da música atual”. Sobre isso, Mike foi categórico:

Eu li um post em um blog no ano passado sobre como a música é uma droga hoje em dia, e eu concordo. Há bandas como Arcade Fire e Mumford & Sons, que são legais se você gosta desse estilo, mas aí existem outras centenas de bandas tentando imitar essas duas.

Pois é, faz sentido. É um fato que atualmente tudo parece igual. Portanto, receber uma produção como The Hunting Party a essa altura (de uma banda que está em plena atividade e melhor do que nunca) é sempre um bom e refrescante alívio.

Amor Sem Fim (Endless Love)

Da série “remakes desnecessários”, chega aos cinemas brasileiros o longa Amor Sem Fim, nova versão de um clássico “água com açúcar” da década de 80. 03Classifiquei aqui como um remake desnecessário porque, vamos admitir: Amor Sem Limites, de Franco Zefirelli, não chega a ser um grande filme. Okay, marcou o início da década de 80, trazia a estonteante Brooke Shields como protagonista (no auge da carreira, capa de inúmeras revistas e referência de beleza), eternizou a canção Endless Love (dueto entre Lionel Richie e Diane Ross), mas… deixava a desejar como “cinema”. Sequer foi um sucesso de bilheteria. Enfim, não foi nada demais. Talvez por isso, na expectativa de superar o original, gerou-se certo burburinho quando a notícia do remake foi anunciada, lá por volta de 2012.

Em Amor Sem Fim, acompanhamos Jade Butterfield (Gabriella Wilde, de Os Três Mosquiteiros), uma jovem sem amigos e superprotegida pelos pais, que se apaixona por seu antigo colega de classe, o problemático David Elliot (Alex Pettyfer, de Magic Mike), para quem ela nunca havia dado bola. No entanto, o relacionamento não é aprovado pelo pai de Jade, que tenta impedir a todo custo o envolvimento entre os dois. Ou seja, uma típica história de “amor proibido”, tema batido no cinema, mas que aqui ganha um nível de decadência muito maior do que se podia esperar, pois o longa peca – e peca demais. A começar pelo roteiro que não ajuda. Não apenas por ser clichê, com um início, meio e fim já esperados e previsíveis, mas por não ter um rumo definido: não se sabe se é um “romance” mesmo, se é um filme teen, se é um filme mais “família”. O roteiro atira para todos os lados, mas não há um alvo certo e tudo é tratado com muita superficialidade. O romance não é romance por completo; as relações familiares são tratadas de forma grotesca e caricatas; os dramas adolescentes são abordados sob uma ótica muito mais próxima à leitura de revistas do tipo Capricho e Atrevida.

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Quanto às atuações, é um desgosto ver um filme de cinema com um elenco como o que encontramos aqui. Há atores na novelinha global Malhação com muito mais talento (e isso se estende para o casting mais “experiente”). Talvez isso seja resultado do péssimo desenvolvimento das personagens, que oscilam constantemente e não tem a menor “personalidade”. David, por exemplo, é um jovem que teve problemas no passado, com um suposto comportamento agressivo e obsessivo – porém, é tão boa praça e doce quanto um favo de mel (mas depois, agride o pai da amada; depois se arrepende; e depois…). Jade, então… no início é apontada como uma garota deslocada e tímida (provavelmente por conta de uma perda familiar), que nunca conheceu rapazes. Mas aí ela se apaixona e passa a lutar pelo seu grande amor, depois desacredita, depois acredita novamente… Totalmente confuso, não? Talvez o melhor exemplo da oscilação de personalidade entre esses personagens principais se dê na sequência da festa de formatura de Jade, quando David (que sempre foi apaixonado por ela, desde os tempos do colégio) dá uma de difícil e tenta se esquivar enquanto Jade o ataca – para dois minutos depois, a situação se inverter e David confessar que morria de vontade de beija-la. Não, é muita bipolaridade em um único filme…

Com quase 2 horas de duração, Amor Sem Fim é um daqueles típicos produtos que baterão cartão em sessões de filmes vespertinas e levarão adolescentes às salas de cinema. No entanto – e por incrível que pareça – não há nenhuma versão (ainda que piorada, tudo bem…) de Endless Love, um tema incrível que poderia, talvez, fazer Amor Sem Fim valer realmente a pena.

Uma Vida Comum (Still Life)

Nas artes plásticas e na fotografia, define-se como natureza morta o gênero artístico que reproduza objetos inanimados, sejam estes quais forem. Talvez o título original para o filme de Uberto Pasolini (“Still Life”), que estreia esta semana nos cinemas nacionais, seja o mais propício para Uma Vida Comum – um drama existencial que, ao final de seus oitenta e poucos minutos, deixa o espectador com aquele nó na garganta e se perguntando “qual é o sentido da vida?” de  uma forma simples e, talvez por isso, tocante.

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John May é um funcionário inglês encarregado de organizar funerais para as pessoas mortas que foram abandonadas por seus familiares. Mais do que isso: além de preparar as cerimônias, John analisa as histórias, coleta fotos, procura parentes e amigos, faz os discursos religiosos, escolhe as músicas que serão executadas e também é, geralmente, a única presença na despedida. No entanto, em sua vida pessoal, nada de novo acontece: seus dias seguem a mesma rotina – seja no terno impecável com o qual se veste ou no cardápio que segue à risca (uma lata de atum com uma torrada e uma fruta, descascada sempre da mesma forma). Pouco se sabe a seu respeito; apenas o que vemos em cena são sequências que ajudam a compor o perfil de nosso protagonista: metódico, centrado, organizado, solitário, previsível.

John está vivo. O fato de estar “vivo” (biologicamente falando) é a única diferença entre ele e as pessoas que ajuda, pois em sua essência John já está morto. Sua vida solitária, totalmente ausente de aspirações, sonhos ou projetos o colocam no mesmo patamar daqueles que morrem sozinhos e desamparados. Esse perfil é bem delineado na total inexpressividade do personagem (vivido pelo britânico Eddie Marsan) e na direção de Pasolini, que não pesa a mão no sentimento, tratando tudo em um limite de superficialidade que permite ao espectador desejar ir cada vez mais fundo na história. O cineasta ainda utiliza a bela fotografia (com cores quase dessaturadas), abusando de planos que se repetem ao longo do filme e que aumentam a inexpressividade de John diante do mundo.

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No entanto, algo na vida de John começa a mudar a partir da morte inesperada de seu vizinho alcoólatra (também ele uma vítima da solidão) – e também da descoberta de que este seria seu último caso, afinal ele acaba de receber a notícia de que será dispensado. Talvez aí é que John se dê conta de que, inevitavelmente, pode se tornar o mesmo tipo de pessoa com as quais “lida” diariamente. Com isso, John parte em uma busca frenética vasculhando a vida de seu vizinho como se fosse a sua própria. Pela primeira vez, John dá sinais de sua existência, deixando de ser um mero espectador para se tornar um protagonista (ainda que tímido) de sua própria história. Chega até mesmo a arriscar um tímido sorriso – o que, em sua situação, é um grande êxito.

Um fato incontestável: a morte chegará para todos, não importa a história que você tenha vivido. Uma Vida Comum não é um filme que inova como cinema e chega até mesmo a ser cansativo em alguns trechos (devido suas repetidas sequencias). No entanto, é impossível ficar indiferente à trajetória de John e, principalmente, à nossa própria história. Com Uma Vida Comum, Uberto Pasolini consegue fazer seu público, de certa forma, questionar como será o fim de nossos dias, através da visão de um homem que escolhe viver mesmo sabendo que sua natureza já está morta – demonstrando que nunca é tarde para começar a viver a vida.

Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August)

04Uma música famosa da cantora Pitty já dizia: “Memórias não são só memórias: são fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu nem quero saber…”. Talvez este pequeno trecho seja o que melhor ilustre toda a essência de Oslo, 31 de Agosto, novo filme de Joaquim Trier – lançado inicialmente em 2011 e que chega aos cinemas nacionais nesta semana.

Oslo, 31 de Agosto narra um dia na vida de Anders, ex-dependente químico à beira da desintoxicação total e que, como parte do programa de reabilitação, é liberado da clínica de tratamento para ir a Oslo, capital norueguesa, para participar de uma entrevista de emprego. Anders, no entanto, aproveita as horas livres para andar pelas ruas da cidade, reencontrando-se com pessoas e lembranças que fizeram parte de sua vida.

A dependência química já é um tema quase batido no cinema. Há muitos clássicos que tratam o assunto (sob diferentes abordagens, claro), como Trainspotting – Sem Limites, de Danny Boyle; Boogie Nights – Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson; ou ainda Réquiem Para um Sonho, obra máxima de Darren Aronofsky. Oslo, 31 de Agosto, por sua vez, passa longe da catarse abordada nesses filmes. Não há uma veia enérgica que elucide o comportamento das personagens sob o efeito de drogas. Na contramão, o filme de Trier é muito mais lento e minimalista, delineando a personagem principal enquanto sóbrio, limpo e, aparentemente, livre do vício.

A jornada de Anders durante seu dia livre transcorre pela cidade de Oslo, passando por suas ruas, casas, edifícios e outros lugares que fazem parte das memórias do protagonista. Agora, Anders não luta simplesmente para não sucumbir ao vício, mas também contra os fantasmas do passado que o atormentam. Aos 34 anos, Anders é jovem, tem boa aparência, é inteligente, tem uma família. Apesar disso, algo não se encaixa em sua existência e ele não sabe ainda o que é. Isso reflete um quase desgosto pela vida, um traço marcante da depressão. Pessimista, o filme introduz um olhar na frustração de Anders não com a vida, mas consigo mesmo: a sensação de tempo perdido, o fato de desapontar as pessoas que tanto amava ou mesmo na perda de seu grande amor. Anders claramente demonstra não possuir mais forças para recomeçar pois, além de tudo, o jovem se sente agora inadequado, em um mundo que não parou assim como ele. Anders Danielsen Lie, ator norueguês, tem um ótimo desempenho e que consegue transmitir toda a angústia e melancolia com a qual o jovem tenta retornar à sua vida “normal”. Sob o ponto de vista da personagem principal, a silhueta do ator é essencial ainda para acentuar a vulnerabilidade do ex-dependente diante do mundo que o cerca e que agora é muito diferente de sua época.

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A data do título não é uma escolha á toa: é final do verão norueguês – e a grande metáfora aqui é que Anders pode recomeçar tudo novamente ao início de um novo tempo. Obviamente, a grande curiosidade do público é: Anders conseguirá resistir e abandonar de vez o vício? No final, o espectador retorna aos lugares que Anders visitou ao longo dos 90 minutos de duração do filme – mas agora vazios, provocando uma incrível sensação de nostalgia. O impacto causado é doloroso, mas absolutamente bem vindo. Oslo, 31 de Agosto é um grande trunfo de um diretor cujo currículo é muito mais modesto do que o de outros grandes cineastas – e, talvez por isso mesmo, altamente apreciável.

Eu, Mamãe e os Meninos (Les Garçons et Guillaume, à Table!)

A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Meninos e Guillaume, na mesa!”.

É com esta frase arrebatadora que Guillaume Gallienne introduz seu filme autobiográfico Eu, Mamãe e os Meninos – considerado a comédia francesa do ano e que foi o grande vencedor do César 2014 (o Oscar francês), incluindo melhor filme e melhor ator – desbancando títulos como Azul é a Cor Mais Quente, O Passado e A Pele de Vênus, último trabalho de Roman Polanski.

02Galliene, elogiado comediante francês, é o diretor, roteirista e protagonista desta incrível comédia – praticamente um grito de libertação de todos os traumas e questões mal resolvidas da infância e adolescência do artista. Desde cedo, o jovem nutre uma admiração incomum pela figura feminina – especialmente, por sua mãe, por quem tem verdadeira adoração e devoção –, chegando ao ponto até mesmo de referir a si mesmo como um ser feminino, uma mulher (em determinado momento, o protagonista aparentemente se descobre apaixonado por um colega do colégio, mas declara à mãe “não ser homossexual, pois é sua filha”). Isso leva a família a acreditar firmemente que Guillaume é homossexual e mais do que isso: a encorajar o garoto a se afirmar como tal.

O grande trunfo de Eu, Mamãe e os Meninos está na inovação de sua estrutura narrativa. De início, somos apresentados a um Guillaume nos palcos, se preparando para sua grande encenação teatral. Seu monólogo, no entanto, é entrecortado pela constituição dos episódios que o jovem narra. Dessa forma, o espectador está diante de duas narrativas que se completam: na primeira, nosso protagonista conta sua história; na segunda, Guillaume vive o que narra. Essa inovação ganha força através da utilização de um elemento já conhecido nas comédias escrachadas norte-americanas: a interpretação de vários papéis. Guillaume vive a si mesmo e também sua mãe – e, travestido como tal, é tão impagável quanto vestido de menininho que quer ser menininha.

No entanto, pouco se discute a respeito da homossexualidade de Guillaume – o que vemos é um protagonista que enfrenta suas questões sexuais sem, necessariamente, se preocupar em descobrir-se homossexual ou não. Já de início, Guillaume percebe que não apenas é ligado à figura materna, como também é parecido com ela – e cada vez mais tenta emular a mãe. Isso o leva a se enxergar “menina” e buscar imitar as demais mulheres à sua volta – mas não apenas pelo desejo de “ser uma mulher”, mas também porque admira o sexo oposto. Isto fica explícito no certo “receio” que tem do sexo masculino – chegando a abandonar uma orgia gay ou mesmo dispensar uma transa por se assustar com o tamanho do pênis do indivíduo.

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Na visão de Guillaume, sua feminilidade advém não de uma possível homossexualidade – mas simplesmente da admiração que mantém pelo sexo oposto. Ou seja, sua feminilidade não o torna homossexual (olha a quebra do estereótipo!) – apesar de, ao que tudo indica, estar preparado para aceitar esta condição caso se confirme. Aqui, nosso protagonista não luta para assumir sua sexualidade – e, consequentemente, sofrer com todos os problemas decorrentes de tal ação (como as brincadeiras dos irmãos ou o desprezo do pai). Contrariando o que se podia esperar de um filme com esta temática, a luta de Guillaume não é para sair do “armário” – mas sim para mostrar quem realmente é, mesmo quando todos dizem o contrário. E ele só consegue isso quando, finalmente, encara sua mãe: é justamente aí que ele descobre que o grande problema de sua progenitora foi transferir seus medos, suas angustias, ansiedades e insegurança para ele.

Comédia deliciosa (ainda que recorra a alguns momentos pastelões para fazer chegar ao riso), Eu, Mamãe e os Meninos também apresenta um excelente trabalho estético em sua direção de arte – o que torna o filme visualmente impecável. Ainda aproveita praticamente cada locação, recorrendo a uma vasta paleta de cores em sua fotografia (ora fria, nos momentos introspectivos do personagem; ora quente, nos demais). De longe, Guillaume consegue criar uma obra à altura de sua bela história – que nos faz pensar que o medo é o que nos impede, na maior parte das vezes, de nos aceitarmos como realmente somos, independente do que somos. Eu, Mamãe e os Meninos trata seu tema com a honestidade que é totalmente condizente à necessidade dele. Assim sendo, palmas para o cinema francês.

A Recompensa (Dom Hemingway)

A Recompensa não é um filme de ação, aventura, drama, comédia ou qualquer outro gênero cinematográfico bem definido. É a história de um único personagem. No caso, trata-se Dom Hemingway, um famoso arrombador de cofres que após 12 anos de prisão, é solto e busca sua “recompensa” por não ter delatado seus comparsas. Nessa empreitada, entre altos e baixos, Dom tenta também se reconciliar com a filha – já que perdera sua mulher com câncer enquanto estava na cadeia.

Apesar de o título brasileiro ser condizente com a proposta do filme, o título original (Dom Hemingway) é o que mais reflete a necessidade de autoafirmação do personagem principal. Dom é um sujeito egocêntrico, explosivo (por vezes, violento) e sem o menor tipo de refinamento – mas com estima suficiente para se autoproclamar “o melhor arrombador de cofres de Londres”. Isso fica claro já na cena inicial do longa, um monólogo de três minutos, onde Hemingway recita uma verdadeira ode a seu pênis (comparando-o a obras de arte de Picasso a Renoir) enquanto recebe sexo oral de outro homem. Talvez essa arrogância e prepotência da personagem se deve ao fato de que Dom parece não se dar conta de que, após mais de uma década enclausurado, os tempos mudaram. Não existe mais ética entre criminosos, cumplicidade ou mesmo gratidão – e esta é uma nova realidade que Hemingway deverá encarar.

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Law é a escolha perfeita no papel principal. É uma das melhores atuações de sua carreira: insano, exagerado e verborrágico, o ator está totalmente de acordo com a proposta do filme, com um controle total das cenas. Richard E. Grant também tem um ótimo desempenho no papel de Dickie, o companheiro de Dom e totalmente oposto ao personagem título – nas ações e temperamento, o que traz justamente as melhores linhas cômicas do longa.

No entanto, A Recompensa não consegue ir além de um filme mediano – e há alguns elementos que evidenciam isso. A trilha sonora (com músicas do Motörhead, Pixies, entre outros artistas) não é totalmente bem explorada, já que surge ou desaparece em momentos muito aleatórios – e isso contribui muito com o ritmo da trama. Falta ainda um roteiro mais estruturado: embora a ideia seja boa, é nítido sua inconsistência, principalmente a partir da segunda metade do longa, quando repentinamente o foco narrativo passa a ser as tentativas de Dom em se aproximar da filha. Embora possua uma constituição visual suficientemente bem elaborada, temos a impressão de que o filme poderia ser melhor em mãos mais experientes, já que a direção de Richard Shepard claramente não dá conta do recado. Infelizmente, A Recompensa é uma produção cujo protagonista é maior do que o próprio filme.