Tiago Iorc Esbanja Alegria em “Troco Likes”

Quando surgiu com Let Yourself In, em 2008, Tiago Iorc era um jovem artista que buscava (ou não) apenas um lugar ao sol. Elogiado, o álbum de estréia rendeu-lhe ótimos singles (muitos viraram trilhas de novela, quase um “carma” para o brasiliense). A voz doce, a sonoridade pop leve e sem forçar a barra e as composições em inglês caíram no gosto do público, não apenas no Brasil, mas também no exterior – o que seria suficiente para Tiago impulsionar uma sólida carreira internacional. Mas isso, de fato, não aconteceu: Tiago fez turnês mundo afora (especialmente na Ásia), ganhou certa visibilidade mas fez no Brasil sua fanbase mais fiel, principalmente no ambiente virtual, onde Tiago é bastante querido.

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Esse pequeno panorama é interessante para que possamos entender o que Troco Likes representa na discografia de Tiago. Quarto álbum do cantor, Troco Likes é um Tiago Iorc revigorado, refletindo claramente as mudanças que o tempo lhe trouxe e que foram surgindo gradualmente no decorrer de sua curta carreira. Troco Likes, mais do que qualquer trabalho anterior (como Umbilical e Zeski, respectivamente de 2011 e 2013), é Tiago Iorc sendo Tiago Iorc, mostrando sua verdadeira faceta como artista e como ser humano. Dessa forma, Troco Likes apresenta um Tiago muito mais maduro e à vontade consigo mesmo, não apenas cantando, mas sobretudo interpretando, sentindo o que está dizendo a cada letra.

Tiago abandona quase por completo o inglês como idioma e abraça o português – o que pode sugerir que Troco Likes é uma invariável continuação de Zeski, mas não vamos pensar nisso. Todas as faixas são em sua língua nativa (exceto a bônus Till I’m Old and Gray, uma das mais gratas surpresas, apenas com voz e violão) e escancaram uma nova fase de Tiago: a felicidade. O cantor deixa de lado o tom soturno do último CD, as letras mais introspectivas e densas e aposta em uma pegada bem mais alegre. Não que as faixas mais tristonhas sejam inexistentes, como é o caso de Eu Errei, Cataflor e Liberdade ou Solidão – essas duas últimas com ótimos arranjos de cordas, acentuando bastante o clima melancólico. Apenas o disco é muito mais ensolarado, radiante, claro.

E é aí que conhecemos Tiago como ele é e para o que realmente veio. As canções aí se dividem quase em dois grupos: as mais românticas, como Amei Te Ver (de longe, a que mais nos remete ao estilo de Let Yourself In), a deliciosa De Todas as Coisas e Coisa Linda (primeira música de trabalho, uma ode ao amor e uma das melhores composições de Tiago); e as que possuem críticas sociais, como Bossa (onde Tiago já grita “Atenção: as pessoas não precisam ser iguais as outras!”) ou Sol Que Faltava, onde o intérprete cria um novo verbo (“instagramear”) para cutucar a “geração Whatsupp” e o universo das redes sociais – daí talvez se explique o curioso título Troco Likes, cuja capa nos traz um desenho de Tiago forçando um sorriso amarelo. Por sua vez, vocalmente o rapaz continua imbatível e arrisca a voz em faixas como Alexandria (que possui um refrão pegajoso, mas eficiente) e a simplesmente espetacular Mil Razões – a música mais ousada do disco, com corajosos arranjos de metais.

01Troco Likes é um dos melhores álbuns nacionais do ano até aqui. Apesar de se distanciar do estilo que o consagrou, Tiago ainda tem como ponto forte sua voz suave e os arranjos serenos e bem executados. Talvez Troco Likes esbanje tanta alegria e luz por refletir a boa fase amorosa do artista: Tiago namora há algum tempo a atriz Isabelle Drummond e frequentemente o casal é clicado por aí – e o público percebe que os dois estão super bem, obrigada. Ouvir Coisa Linda, por exemplo, é praticamente enxergar o cantor sussurrando a letra no ouvido da namorada apaixonada, pare para analisar. Pudera: afinal, Troco Likes é apaixonante.

Corrente do Mal (It Follows)

Apontado como uma das gratas surpresas do Festival de Sundance 2015, Corrente do Mal está sendo saudado pela crítica como um dos melhores filmes de terror dos últimos anos – e, considerando o gênero, não é algo que a gente encontre por aí todo dia. De fato, esta produção sobre fantasmas tem seus devidos méritos e pode agradar aos fãs do estilo, apesar de não ser um projeto memorável. A trama, passada no subúrbio de uma Detroit decadente (cinza e solitária, como uma verdadeira cidade fantasma), acompanha Jay, uma adolescente comum como tantas outras de sua idade. Após uma noite de sexo casual com Hugh, o rapaz com quem está saindo, Jay descobre algo improvável: Hugh transmitiu a ela uma maldição, que fará com que Jay seja perseguida por uma entidade que assume diversos corpos. Para se livrar desta criatura e salvar sua vida, Jay tem que passar esse mal adiante da mesma forma como o contraiu: transando com outra pessoa.

01 A princípio, alguns podem pensar que trata-se de uma analogia ao sexo sem proteção e a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, mas a verdade é que a metáfora pode estar muito mais ligada à perda da virgindade ainda na adolescência – e a “maldição” como uma punição que acompanhará o jovem (ou melhor, a jovem) durante toda sua vida. É como se fosse um peso que se tem a carregar, o que traz um caráter ligeiramente mais social à história. No entanto, são apenas teorias – que podem até mesmo ser jogadas por terra com o fato de que o “mal” em questão perde seu impacto quando passado adiante. A câmera do diretor David Robert Mitchell nos dá a interessante sensação de que estamos próximos da protagonista, uma vez que é como se os personagens estivessem sendo observados a todo instante. Além disso, as lentes percorrem todos os cantos, reproduzindo cenários que incluem uma casa minimamente decorada, uma praia deserta ou mesmo os bairros de um subúrbio deprimente, que agregam um ar de mistério à narrativa. No entanto, é a trilha sonora quem mais contribui para o clima macabro da fita: com uma pegada psicodélica e abstrata, o uso de sintetizadores nos leva de volta aos filmes de terror dos anos 80 e, de longe, é o ponto forte de Corrente do Mal.

Infelizmente, as atuações deixam a desejar: apesar de uma protagonista regular, o elenco de apoio é fraco – mas não tanto quanto o argumento. Na tentativa de aumentar o suspense, os personagens não são suficientemente desenvolvidos, muito menos a entidade. Nenhuma informação sobre qualquer coisa em Corrente do Mal é fornecida, como se o cineasta quisesse apenas retratar os fatos como são, dando ao espectador a oportunidade de tirar suas próprias conclusões. Infelizmente, o filme perde o fôlego em vários momentos, onde os poucos sustos são postos de lado e dramas não tão atraentes vem à tona, além da falta de terror gráfico. Corrente do Mal até consegue assustar aqui e ali e criar uma aura de tensão, mas se sai muito melhor em seu visual vintage, que reforça o mistério e gera uma identidade única para o filme. Pena que nem sempre beleza fala mais alto – às vezes, é importante ter um pouco de conteúdo…

O Que as Mulheres Querem (Sous Les Jupes Des Filles)

“O que as mulheres querem?” – está aí uma pergunta que você já deve ter ouvido centenas de vezes. A verdade é que esta é uma dúvida que nos aflige desde os primórdios da humanidade e já foi abordada em diversos momentos na ficção, tornando-se um tema quase trivial. Pois é exatamente isto que a cineasta Audrey Dana tenta responder em seu filme de estreia – e, levando em consideração que se trata de uma obra dirigida por uma mulher, poderíamos pensar que a forma como a questão foi explorada seria um pouco diferente. Engano o nosso…

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O Que as Mulheres Querem segue 11 mulheres parisienses buscando aquilo que desejam: amar e serem amadas. Os problemas, entretanto, se apresentam logo no início: uma repetição dos mesmos tipos já estereotipados em outras produções do gênero. Mas com um agravante: as mulheres de Audrey Dana não se bastam, necessitando sempre da figura masculina (nem que refletida em uma lésbica, para você ter noção do absurdo) para serem felizes e se realizarem por completo. Essa banalização do feminino se debruça sobre personagens superficialmente desenvolvidos, que por sua vez transitam um roteiro excessivamente caricatural que além de recorrer aos já citados estereótipos (a esposa infeliz que se apaixona por uma babá, a executiva que não tem vida social, a traída que inferniza o esposo e etc.) utiliza inúmeros clichês e fórmulas batidas com o intuito de produzir humor onde não há. Para piorar, este excesso de personagens acaba prejudicando também as narrativas individuais, com tramas que deixam pontas e desfechos indefinidos.

A diretora (que também atua) infelizmente entrega uma das piores produções francesas nos últimos anos, apostando em elementos utilizados à exaustão no cinema, sem se preocupar com mudar minimamente a receita (temos os mesmos tipos e a velha abordagem que vulgariza a mulher). Com isso, nem o bom elenco (que conta com a participação da premiada Isabelle Adjani e a ex de Johnny Depp, Vanessa Paradis) e a trilha sonora empolgante são capazes de fazer com que O Que as Mulheres Querem realmente valha a pena. Com pouca graça e um final pra lá de nonsense, O Que as Mulheres Querem é uma triste prova de que as mulheres no cinema ainda ficam um pouco perdidas quando o assunto são elas mesmas.

D.U.F.F. (The DUFF)

Imagine vários filmes de comédia adolescente da década de 90 pra cá, como As Patricinhas de Beverly Hills, Garotas Malvadas, 10 Coisas Que eu Odeio em Você ou Gatos, Fios Dentais e Amassos. Pense em tudo o que eles tem em comum – de recursos visuais a personagens. Selecione corretamente os melhores pontos, aqueles que você sabe que vão funcionar de forma certeira. Pois bem: isto é D.U.F.F.

D.U.F.F. conta a história de Bianca, uma típica adolescente às vésperas do fim do colégio. Ela não é a garota mais linda nem a mais estilosa, curte clássicos de terror, não é popular e muito menos esportista; por outro lado, compensa todas essas “particularidades” com seu bom humor e lealdade aos amigos. Até descobrir que é uma “DUFF” – do inglês designated ugly fat friend, expressão utilizada para se referir àquela menina não tão favorecida fisicamente que serve de intermédio entre as amigas e as demais pessoas. Revoltada, ela pede ao seu vizinho bonitão que a ajude a melhorar o visual e ser mais sociável – em troca disto, ela se dispõe a auxilia-lo a passar de ano.

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Essa sinopse (ou parte dela) poderia se encaixar em qualquer comédia adolescente que se preze. D.U.F.F. é puramente um emaranhado de todos os clichês comuns ao gênero, desde a narrativa completamente batida, a trilha sonora pop e efeitos especiais aos personagens do longa, como o atleta com o corpo escultural, a loira fútil que sonha em ser a rainha do baile e o amor platônico da protagonista (que, no final, se mostra um grande imbecil). Tudo ali produz a incrível sensação de “já vi isso em algum lugar” – e ela é real. De fato, não há nada minimamente original no filme. No entanto, D.U.F.F. possui um ritmo tão leve e despretensioso que o espectador não se incomoda tanto com isso. Pelo contrário: quanto mais o filme avança, mais o público embarca na história.

A minha velha defesa é de que os clichês, quando bem utilizados, podem render resultados satisfatórios. D.U.F.F. é prova disso. Com uma boa química entre o elenco (com destaque para o casal Mae Whitman e Robbie Amell) e um humor estrategicamente pontual, D.U.F.F. não é uma produção extraordinária, mas cumpre muito bem sua proposta de entreter. Boa surpresa para um filme repleto de clichês – que são muito bem-vindos quando sabiamente utilizados.

Carrossel: O Filme (Carrossel: O Filme)

02Durante a coletiva de imprensa de Carrossel: O Filme, a produtora Diane Maia utilizou uma expressão que me chamou a atenção – “a força da marca Carrossel”. É justamente isso: Carrossel é uma marca que se perpetua desde o final dos anos 80, quando a novela foi produzida pela Televisa (na época, já um remake de um programa da TV argentina), chegando ao Brasil pela primeira vez em 1991 através do SBT. Duas décadas depois, a emissora de Silvio Santos fez a sua própria versão da história – muito bem sucedida, não apenas pela qualidade da produção mas também pela quantidade de produtos licenciados. O folhetim assinado pela esposa do patrão, Iris Abravanel, não decepcionou e trouxe uma audiência excelente para o SBT – em um horário marcado por telejornais sensacionalistas, Carrossel criou uma legião de fãs e resgatou um público que era abandonado pelas demais redes. Diante disso, a novela foi reprisada, ganhou uma série menos badalada (a fraquíssima Patrulha Salvadora) e, agora, seu longa-metragem – que, definitivamente, não era necessário, mas é totalmente satisfatório.

A trama de Carrossel: O Filme é relativamente simples: os alunos da fictícia Escola Mundial estão em férias e viajam para um acampamento pertencente ao avô de uma das crianças do grupo. Sem a presença da querida professora Helena (Rosanne Mulholland, agora de volta ao casting da concorrente Globo) e acompanhados da diretora Olívia (Noemi Gerbelli) e da faxineira arretada Graça (Márcia de Oliveira), a turma é dividida em duas equipes para a disputa de uma gincana. No entanto, os times terão de unir forças para evitar que o sítio seja vendido para o vilão Gonzalez, que pretende transformar o local em uma fábrica poluente.

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Confesso que não é fácil assistir a Carrossel: O Filme sem ressalvas. A primeira já se apresenta no fato de que estamos diante de um filme voltado a um público infantil. Não que isso seja lá um grande problema ou que produções infantis não possam ser boas (um dos meus filmes preferidos, por exemplo, é o ótimo O Pequeno Nicolau, de Laurent Tirard), mas é difícil esquecer que a novela acabou há cerca de três anos e o elenco cresceu. Lucas Santos, o arteiro Paulo, engrossou bem a voz, por exemplo; Nicholas Torres, intérprete de Jaime, tem até barba; Fernanda Concon já é adolescente. Esta talvez tenha sido a maior tarefa dos diretores: fazer com que atores razoavelmente maduros consigam interpretar personagens tão infantilizados, cada um com características fortes e marcantes. Em alguns momentos, isso pesa bastante e o filme tropeça em um tom meio “bobo” ou caricato demais.

No entanto, o roteiro simples e direto é bem desenvolvido dentro de sua proposta, gerando situações engraçadas, apesar de poucas surpresas. O texto de Márcio Alemão e Mirna Nogueira consegue, em pouco menos de 1 hora e meia, valorizar cada um dos personagens e todos eles tem seu devido espaço (embora obviamente haja os destaques do grupo). E é interessante ver o time mirim em cena e constatar que alguns deles não amadureceram só no físico, mas sobretudo profissionalmente. Nomes como o já citado Lucas Santos, Thomaz Costa e Stefany Vaz dominam bem seus papéis, visivelmente mais seguros à frente das câmeras. O elenco adulto ganha bastante com a escalação de Orival Pessini (sim, o boneco Fofão) e Gabriel Calamari (pena que este último ficou reduzido apenas ao jovem gatinho que arranca suspiro das meninas mais novas). Para apimentar a narrativa, Paulo Miklos e Oscar Filho formam a dupla má da vez, no melhor estilo “vilão e ajudante atrapalhado”. No entanto, ambos são excessivamente extravagantes, estereotipados e previsíveis – mas tudo bem, a gente perdoa.

Com uma trilha sonora eclética, Carrossel: O Filme tem mais um pecado: o excesso de didatismo da direção de Alexandre Boury e Mauricio Eça, que não se contenta apenas em mostrar os fatos, mas explicá-los. O personagem tem que dizer que o acampamento é sua vida, o vilão necessita afirmar que odeia crianças, os pequenos precisam soltar (e cantar) aos quatro ventos que são amigos inseparáveis – os acontecimentos, por si, parecem não ser suficientes. Mas isso não atrapalha a película final. Apesar de não poder se comparar a grandes produções do gênero ou a um longa Disney, Carrossel: O Filme acerta ao levar para o cinema os melhores elementos da história na TV, com uma trama divertida, leve, sem apelação e números musicais que tem potencial para grudar na cabeça da garotada. Além disso, a fita traz lições valiosas sobre amizade e companheirismo e também reflexões sobre o respeito à natureza, ainda que todos esses temas sejam tratados de forma um tanto infantil. Boa opção para as férias, cabe ao espectador abandonar todos os preconceitos e embarcar nessa aventura.

“Sete Vidas”: Trama de Lícia Manzo se Despede Deixando Saudades

Quando 2015 se iniciou, todas as atenções estavam voltadas a Babilônia, trama de Gilberto Braga (autor de Vale Tudo e Dancin’ Days) em parceria com Ricardo Linhares e João Ximenes Braga. Contrariando as expectativas, Babilônia foi rejeitada pelo público, tendo o pior desempenho do horário em todos os tempos. Foi quando Lícia Manzo chegou timidamente com Sete Vidas, surpreendendo com uma produção que já pode ser considerada uma das melhores telenovelas globais em anos.

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A sinopse de Sete Vidas foi inicialmente apresentada para o horário das 11, com apenas 50 episódios. Isto explica uma de suas qualidades mais notáveis: Sete Vidas teve uma narrativa “enxuta”. Com pouco mais de 100 capítulos, não houve muita correria ou enrolação (algo comum em trabalhos mais longos), o que contribuiu muito para o ritmo de Sete Vidas. Esta duração é bem menor que a média das produções globais, que sempre sofrem com aquela desconfortável sensação de “extensão” desnecessária. Na contramão, Sete Vidas ficou com aquele incrível gostinho de “quero mais”. Talvez esta é a hora da emissora apostar em folhetins mais curtos como este.

Lícia Manzo também tem se mostrado uma autora de talento. Muitos comparam seu estilo ao do veterano Manoel Carlos (de Por Amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas) – e, sim, as semelhanças são evidentes. Ambos criam seus textos baseados em situações cotidianas. Apesar do foco ser obviamente famílias de classe média, os dramas levantados são universais, capazes de atingir os mais distintos públicos. Este humanismo provoca identificação e reflexão. Talvez a única diferença entre Lícia e Maneco é que enquanto o autor constrói suas personagens sob um olhar livre de julgamento, Lícia possui uma abordagem mais crítica. O tom de “DR” é quase predominante em toda sua obra, como se cada um de seus tipos estivessem debatendo suas ideias e sentimentos. Se para muitos isso pode soar “chato”, em Sete Vidas a escritora surpreendeu pela qualidade de seu texto, que nos proporcionou diálogos intensos.

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Com uma proposta original (que basicamente se estruturou a partir do atual conceito de família), Sete Vidas apresentou temas contemporâneos e importantes, como inseminação artificial, homossexualidade, adoção – todos tratados com total humanidade. Com conflitos plausíveis, a novela abandonou os exageros tão comuns nos folhetins e sequer trouxe os tradicionais vilões, até mesmo por conta de sua abordagem. Jayme Monjardim, diretor de núcleo, teria até abandonado o uso excessivo de maquiagem, buscando trazer maior realismo à história e ressaltando as expressões e atuações de um elenco inspirado. Bastante homogênea, a escalação de Sete Vidas foi elogiada, desde os rostos mais conhecidos (de Débora Bloch, Selma Egrei, Regina Duarte – esta última em um papel secundário que roubou a cena) até nomes mais novos e que merecem atenção, como os novatos Isabelle Drummond, Jayme Matarazzo e Thiago Rodrigues.

Com um desfecho que dispensou quaisquer clichês batidos em nossa teledramaturgia (não teve casamento, nem bebês nascendo ou gente má se dando mal), Sete Vidas se despede do espectador como uma das mais expressivas tramas globais dos últimos anos. Chegando de mansinho, a novela caiu no gosto popular, proporcionando debates necessários à hora do café, no happy hour com os amigos ou na sala com a família – o que não deixa de ser uma surpresa, haja visto seu formato. Apesar de não ter o melhor Ibope, Sete Vidas foi repleta de diálogos marcantes e cenas memoráveis, mostrando que o realismo pode ser muito mais interessante que o velho conflito entre mocinhos e vilões. Resta a nós torcermos para que a Globo olhe Lícia Manzo com mais carinho, concedendo-lhe logo um merecido espaço no horário nobre.

Uma Nova Amiga (Une Nouvelle Amie)

Claire e Laura se conheceram ainda no colégio e logo tornaram-se amigas. As duas cresceram inseparáveis, dividindo suas experiências da infância à idade adulta. Suas vidas tinham tudo para seguir seu curso normalmente até a morte prematura de Laura, após dar à luz a sua única filha. Devota à companheira, Claire se compromete firmemente a cuidar tanto da criança quanto de David, o viúvo – até o dia em que Claire é surpreendida com um fato completamente novo: David é flagrado vestindo as roupas da falecida. A situação é um tanto quanto “bizarra” – ou, pelo menos, inesperada. Mas aí vem a explicação: o rapaz sempre gostara de se vestir como mulher – e, segundo ele, sua própria esposa sabia de sua preferência, apesar de David ter aprisionado essa “personalidade” durante muito tempo para manter as conveniências do matrimônio. O problema é que com a morte de Claire, essa figura “feminina” interior agora quer se libertar.

01Uma Nova Amiga traz abertamente um tema que ainda é tabu: a questão de gênero. Confesso que fiquei surpreso com a trama (até mesmo porque o trailer pouco revela sobre a história) e logo me recordei de Laurence Anyways, de Xavier Dolan – longa de 2012 que também falava sobre o assunto. No entanto, a abordagem sobre gênero é o único ponto em comum com o filme do cineasta canadense, pois Uma Nova Amiga nos traz alguns elementos que nos remetem vagamente à obra do espanhol Pedro Almodóvar, especialmente na forma como Virgínia (a versão feminina de David) se desenvolve e, aos poucos, toma espaço, se tornando praticamente a personalidade dominante – tanto que chega um instante na fita em que Claire quase se convence de que o melhor meio de David lidar com o luto pela morte da esposa é através de Virgínia, assim como ela mesma, que encontra na nova amiga uma razão para sua existência abalada.

Com uma fotografia competente (cujas cores também nos transportam ao universo de Almodóvar) e uma boa cenografia, Uma Nova Amiga flerta de maneira bastante pontual com vários estilos, desde o drama intimista (como no irreparável prólogo, que apresenta todas as fases da amizade entre Claire e Laura), a comédia e também o suspense – principalmente nas sequências de sonhos eróticos de Claire). Além disso, a trilha sonora contribui muito para o desenvolvimento da narrativa, acentuando o tom dramático através de acordes de piano envolventes. Por sua vez, o elenco cumpre bem sua função: se Anaïs Demoustier é eficientemente sóbria na construção de Claire, Romain Duris é, no mínimo, excepcional, se entregando totalmente à personagem. Sua atuação é bastante expressiva, sobretudo no olhar do ator, capaz de trazer toda ternura tanto a David quanto a Virgínia.

É interessante analisar a capacidade de François Ozon em percorrer os mais diversos temas e gêneros com total desenvoltura. Um dos maiores expoentes do novo cinema francês e um dos mais ativos cineastas contemporâneos (com, no mínimo, uma produção por ano), sua obra não é unânime – o que é compreensível, haja visto o período entre seus projetos. Uma Nova Amiga, por exemplo, está longe de ser o momento mais inspirado do diretor, mas possui uma identidade marcante que o torna um título obrigatório na filmografia do artista. Apesar de faltar ousadia, Ozon não decepciona ao trazer à discussão um assunto ainda polêmico, mas tratando-o com muita delicadeza, valorizando a inocência da transformação de sua personagem principal. Uma Nova Amiga é um filme que celebra brilhantemente a diversidade – e, sobretudo, a autodescoberta do indivíduo.

Cidades de Papel (Paper Towns)

Ainda criança, Quentin se apaixonou à primeira vista por Margo, sua nova vizinha – com quem criou um forte laço de amizade. Apesar das claras diferenças entre eles, os dois amigos eram inseparáveis e passaram a infância praticamente juntos. No entanto, a adolescência não foi tão favorável: aos poucos, os antigos melhores amigos foram se afastando, criando novas amizades e tornando-se quase estranhos um para o outro. Às vésperas do fim do colégio, os dois se reaproximam por uma noite – enchendo Quentin de esperança, já que o garoto jamais esqueceu seu primeiro e único amor.

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Cidades de Papel é baseado no romance homônimo de John Green, mesmo autor de A Culpa é das Estrelas – um dramalhão água com açúcar que levou milhares de adolescentes às salas de cinema no ano passado e promoveu (para variar) a velha discussão sobre as adaptações de textos literárias para as telonas. Green, de fato, sabe como conversar com essa geração; o talento do escritor é inegável e o sucesso de sua obra está aí para comprovar (tanto que as produções de outros de seus títulos já foram anunciadas). Entretanto, irei concentrar minha crítica ao filme individualmente e não ao livro que o originou – e neste aspecto, Cidades de Papel não é lá um grande feito.

Há alguns motivos que impedem que Cidades de Papel seja um filme necessário, mas antes de tudo vale dizer que a ideia não é nova nem a forma como ela foi desenvolvida. É uma típica produção voltada ao público juvenil, com aquela abordagem repleta de sensibilidade para criar uma atmosfera “fofa” e até mesmo nostálgica. Tudo bem, o longa até consegue isso em algumas raras ocasiões, mas (sem querer levantar comparações) é um fato que o espectador tem na memória a imagem muito forte de As Vantagens de Ser Invisível – um drama praticamente unânime. Em alguns momentos, é impossível não associar os dois longas. Acompanhe: um protagonista tímido que tem uma paixão platônica por uma moça explosiva; os amigos que lamentam a fatídica separação; os bailes do colégio (com direito até mesmo a cena de dança descolada).

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Por mais que o público não queira associar, chega um instante em que a história quase pede isso – e quando o espectador é capaz de esquecer um pouco o “concorrente”, aparece o segundo problema de Cidades de Papel: o argumento. Apesar de começar bem e você até sentir que a narrativa vai decolar, o filme mergulha em uma busca sem sentido do nosso protagonista por Margo – e quanto mais ele avança, mais Cidades de Papel perde o charme, ficando quase desinteressante. Com algumas sequências que nos remetem quase a um road movie teen, a obsessão de Quentin por Margo não é crível e é aí que outras subtramas vão surgindo, junto com os estereótipos (um adolescente virgem dizendo que pegou todas, a loura gostosa, o colega nerd que nunca fez nenhuma loucura), alguns ali apenas para preencher o roteiro porque não acrescentam absolutamente nada ao conjunto da obra.

Tecnicamente bem feito, Cidades de Papel poderia se sair melhor se deixasse de lado a história entre Quentin e Margo (um tipo sem o menor atrativo – e por isso fica difícil entender o fascínio de Quentin por ela) e se aprofundasse mais nos dramas do grupo de amigos. Talvez a completa falta de química entre Cara Delevingne e Nat Wolff contribuiu para que este casal não seja tão memorável quanto os personagens de Logan Lerman e Emma Watson, apesar do bom desempenho de Wolff – tanto que o ator e seus companheiros se saem muito bem juntos, mostrando bastante sintonia (há cenas que parecem ser tiradas dos bastidores). O filme até se sai bem em alguns trechos de humor e com algumas referências à cultura pop, mas se perde na falta de profundidade onde realmente valia a pena. Talvez devesse ser vendido (e se desenvolvido) como uma celebração à amizade e à juventude – e não um romance adolescente barato. Dessa forma, fica a sensação de que alguma coisa faltou, apesar de Cidades de Papel não ser um desperdício. É apenas menor do que aquilo que tenta ser.

O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator Genisys)

Recentemente tive a oportunidade de assistir no cinema ao clássico O Exterminador do Futuro, filme originalmente lançado em 1984 e dirigido por James Cameron – na época, um sucesso de público, capaz de revitalizar a carreira do brutamontes Arnold Schwarzenegger e gerar uma continuação elogiada (na década seguinte, com O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, um dos poucos casos em que a sequência é superior ao primeiro longa). A experiência que tive, apesar de não ser grandiosa, foi curiosamente satisfatória – uma vez que eu particularmente não sou um fã deste gênero -, mas me preparou para encarar a difícil empreitada de conferir a estreia de O Exterminador do Futuro: Gênesis.

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Já de cara adianto: O Exterminador do Futuro: Gênesis é uma produção que tende a agradar o espectador comum. Falo isso assim porque quero me eximir de quaisquer comentários dos quais possa ser alvo ao questionar a qualidade do filme – porque a verdade é que Gênesis está longe de ser memorável. A trama nos leva ao ano de 2029, quando o líder da resistência humana John Connor envia o sargento Kyle Reese de volta a 1984 para proteger Sarah Connor e, consequentemente, salvaguardar o futuro (basicamente, a mesma premissa da primeira fita). No entanto, uma linha do tempo fragmentada é criada no meio deste percurso, transportando Kyle a uma versão desconhecida do passado e com uma nova missão nas costas: redefinir o futuro.

Gênesis se inicia razoavelmente bem, com uma sequência ótima de ação, devo admitir, que é visualmente empolgante e acerta em cheio ao recriar um futuro catastrófico e apocalíptico – a atmosfera apresentada é bastante convincente e consegue cumprir sua proposta. O problema é que a partir daí Gênesis gradualmente vai se perdendo, a narrativa vai ficando pouco crível e a única coisa realmente interessante são as referências aos dois primeiros filmes da franquia (em um visível esforço do roteiro em revisitar este universo). Com isso, é um vai-e-vem de timelines, personagens que ora são bons, ora são maus, muita história, muita enrolação… e Gênesis se enfraquece. E nem mesmo as cenas de adrenalina (com muito tiro, porrada e explosão) e os efeitos especiais bem elaborados (que geraram até mesmo um Schwarzenegger mais jovem, como há mais de trinta anos atrás) foram o suficiente para amenizar a barra que é engolir mais de duas horas de filme.

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Não que não haja alguns pequenos acertos isolados. O diretor Alan Taylor é competente nas cenas de ação (que não impressionam, mas sim, funcionam) e nos gags de humor – praticamente sob responsabilidade do carismático Arnold que, com quase setenta anos, mostra boa forma e desenvoltura diante das câmeras (apesar de sua personagem repetir exaustivamente a mesma piada, mas está valendo…). Emilia Clarke, com seu físico franzino, também consegue emular bem a saudosa Sarah Connor, mas nada que a faça competir com a eterna Linda Hamilton (ex-esposa de Cameron – que teria perdido os direitos da franquia junto com o divórcio). Mas uma coisa é certa: Alan Taylor não é James Cameron – e isso é crucial para o resultado final. O cineasta tem um currículo invejável na televisão: entre seus títulos, basta citar a oitava fase de Família Soprano e a primeira e segunda temporadas de Game of Thrones (provavelmente uma das melhores séries da atualidade). Porém, o cara ainda deixa a desejar no cinema. O Exterminador do Futuro: Gênesis tem lá suas qualidades, seus bons momentos – mas é nítido que uma direção mais experiente e segura fariam dele um filme melhor.

Parceiras Eternas (Life Partners)

Parceiras Eternas é o filme de estreia da cineasta Susanna Fogel, cuja trama apresenta duas amigas inseparáveis, de personalidade bastante distintas, cuja cumplicidade é colocada à prova quando uma delas se apaixona. Mais do que isso: as duas estão naquela difícil fase da vida em que algumas decisões devem ser tomadas – e, por mais que lutem contra isso, elas precisam amadurecer e assumir novas responsabilidades.

O tema pode não parecer muito novo ao espectador. Parceiras Eternas é um filme que, antes de tudo, fala sobre mudanças – e como nós lidamos com elas. A abordagem é leve, o que traz certo alívio para questões que, em outras circunstâncias, seriam tratadas com maior “seriedade”. Talvez o único “porém” é o fato de a narrativa não se aprofundar o suficiente, o que faz com que o drama permaneça na superficialidade; e tampouco tem aquele tom “fofo”, típico de filmes teens (as próprias protagonistas já são jovens em período de “maturidade”), embora traga certa identidade à obra.

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Vale destacar positivamente em Parceiras Eternas o bom trabalho do elenco. Leighton Meester, que ficou conhecida no seriado Gossip Girl, é excepcional no papel da lésbica que fica com ciúmes da amiga e não consegue manter nenhum relacionamento mais sério. Gillian Jacobs interpreta Paige, a companheira mais “centrada” da relação – aquela que sabe que precisa “crescer”, mesmo que isso não seja necessariamente o que mais deseja (a sequência em que a mãe se recusa a pagar a conta no restaurante exemplifica bem esse ponto). Ambas demonstram boa química juntas – a cena inicial é ótima! – e conseguem entregar boas performances, principalmente nos trechos de maiores alterações emocionais de suas personagens. O galã Adam Brody (que há muito tempo já demonstra ser mais que um rosto bonito) faz um tipo interessante, que começa meio estereotipado mas cresce ao longo da fita, se tornando crucial para o andamento da película e seu desfecho.

Como um todo, Parceiras Eternas é uma experiência que pode ser conferida sem medo – e dificilmente você sairá decepcionado do cinema. Mas é apenas um momento e nada além disso. O filme vai te trazer algumas sequências engraçadas e até te fazer pensar na vida em alguns instantes, mas infelizmente é incapaz de produzir uma reflexão mais expressiva porque a ideia não foi totalmente aprofundada. Uma pena. Há até quem diga que Parceiras Eternas poderia ter explorado mais a personagem de Meester e adentrar o universo LGBTQIAP+ – o que, honestamente, seria desnecessário se o argumento fosse melhor desenvolvido.