Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August)

04Uma música famosa da cantora Pitty já dizia: “Memórias não são só memórias: são fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu nem quero saber…”. Talvez este pequeno trecho seja o que melhor ilustre toda a essência de Oslo, 31 de Agosto, novo filme de Joaquim Trier – lançado inicialmente em 2011 e que chega aos cinemas nacionais nesta semana.

Oslo, 31 de Agosto narra um dia na vida de Anders, ex-dependente químico à beira da desintoxicação total e que, como parte do programa de reabilitação, é liberado da clínica de tratamento para ir a Oslo, capital norueguesa, para participar de uma entrevista de emprego. Anders, no entanto, aproveita as horas livres para andar pelas ruas da cidade, reencontrando-se com pessoas e lembranças que fizeram parte de sua vida.

A dependência química já é um tema quase batido no cinema. Há muitos clássicos que tratam o assunto (sob diferentes abordagens, claro), como Trainspotting – Sem Limites, de Danny Boyle; Boogie Nights – Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson; ou ainda Réquiem Para um Sonho, obra máxima de Darren Aronofsky. Oslo, 31 de Agosto, por sua vez, passa longe da catarse abordada nesses filmes. Não há uma veia enérgica que elucide o comportamento das personagens sob o efeito de drogas. Na contramão, o filme de Trier é muito mais lento e minimalista, delineando a personagem principal enquanto sóbrio, limpo e, aparentemente, livre do vício.

A jornada de Anders durante seu dia livre transcorre pela cidade de Oslo, passando por suas ruas, casas, edifícios e outros lugares que fazem parte das memórias do protagonista. Agora, Anders não luta simplesmente para não sucumbir ao vício, mas também contra os fantasmas do passado que o atormentam. Aos 34 anos, Anders é jovem, tem boa aparência, é inteligente, tem uma família. Apesar disso, algo não se encaixa em sua existência e ele não sabe ainda o que é. Isso reflete um quase desgosto pela vida, um traço marcante da depressão. Pessimista, o filme introduz um olhar na frustração de Anders não com a vida, mas consigo mesmo: a sensação de tempo perdido, o fato de desapontar as pessoas que tanto amava ou mesmo na perda de seu grande amor. Anders claramente demonstra não possuir mais forças para recomeçar pois, além de tudo, o jovem se sente agora inadequado, em um mundo que não parou assim como ele. Anders Danielsen Lie, ator norueguês, tem um ótimo desempenho e que consegue transmitir toda a angústia e melancolia com a qual o jovem tenta retornar à sua vida “normal”. Sob o ponto de vista da personagem principal, a silhueta do ator é essencial ainda para acentuar a vulnerabilidade do ex-dependente diante do mundo que o cerca e que agora é muito diferente de sua época.

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A data do título não é uma escolha á toa: é final do verão norueguês – e a grande metáfora aqui é que Anders pode recomeçar tudo novamente ao início de um novo tempo. Obviamente, a grande curiosidade do público é: Anders conseguirá resistir e abandonar de vez o vício? No final, o espectador retorna aos lugares que Anders visitou ao longo dos 90 minutos de duração do filme – mas agora vazios, provocando uma incrível sensação de nostalgia. O impacto causado é doloroso, mas absolutamente bem vindo. Oslo, 31 de Agosto é um grande trunfo de um diretor cujo currículo é muito mais modesto do que o de outros grandes cineastas – e, talvez por isso mesmo, altamente apreciável.

Eu, Mamãe e os Meninos (Les Garçons et Guillaume, à Table!)

A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Meninos e Guillaume, na mesa!”.

É com esta frase arrebatadora que Guillaume Gallienne introduz seu filme autobiográfico Eu, Mamãe e os Meninos – considerado a comédia francesa do ano e que foi o grande vencedor do César 2014 (o Oscar francês), incluindo melhor filme e melhor ator – desbancando títulos como Azul é a Cor Mais Quente, O Passado e A Pele de Vênus, último trabalho de Roman Polanski.

02Galliene, elogiado comediante francês, é o diretor, roteirista e protagonista desta incrível comédia – praticamente um grito de libertação de todos os traumas e questões mal resolvidas da infância e adolescência do artista. Desde cedo, o jovem nutre uma admiração incomum pela figura feminina – especialmente, por sua mãe, por quem tem verdadeira adoração e devoção –, chegando ao ponto até mesmo de referir a si mesmo como um ser feminino, uma mulher (em determinado momento, o protagonista aparentemente se descobre apaixonado por um colega do colégio, mas declara à mãe “não ser homossexual, pois é sua filha”). Isso leva a família a acreditar firmemente que Guillaume é homossexual e mais do que isso: a encorajar o garoto a se afirmar como tal.

O grande trunfo de Eu, Mamãe e os Meninos está na inovação de sua estrutura narrativa. De início, somos apresentados a um Guillaume nos palcos, se preparando para sua grande encenação teatral. Seu monólogo, no entanto, é entrecortado pela constituição dos episódios que o jovem narra. Dessa forma, o espectador está diante de duas narrativas que se completam: na primeira, nosso protagonista conta sua história; na segunda, Guillaume vive o que narra. Essa inovação ganha força através da utilização de um elemento já conhecido nas comédias escrachadas norte-americanas: a interpretação de vários papéis. Guillaume vive a si mesmo e também sua mãe – e, travestido como tal, é tão impagável quanto vestido de menininho que quer ser menininha.

No entanto, pouco se discute a respeito da homossexualidade de Guillaume – o que vemos é um protagonista que enfrenta suas questões sexuais sem, necessariamente, se preocupar em descobrir-se homossexual ou não. Já de início, Guillaume percebe que não apenas é ligado à figura materna, como também é parecido com ela – e cada vez mais tenta emular a mãe. Isso o leva a se enxergar “menina” e buscar imitar as demais mulheres à sua volta – mas não apenas pelo desejo de “ser uma mulher”, mas também porque admira o sexo oposto. Isto fica explícito no certo “receio” que tem do sexo masculino – chegando a abandonar uma orgia gay ou mesmo dispensar uma transa por se assustar com o tamanho do pênis do indivíduo.

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Na visão de Guillaume, sua feminilidade advém não de uma possível homossexualidade – mas simplesmente da admiração que mantém pelo sexo oposto. Ou seja, sua feminilidade não o torna homossexual (olha a quebra do estereótipo!) – apesar de, ao que tudo indica, estar preparado para aceitar esta condição caso se confirme. Aqui, nosso protagonista não luta para assumir sua sexualidade – e, consequentemente, sofrer com todos os problemas decorrentes de tal ação (como as brincadeiras dos irmãos ou o desprezo do pai). Contrariando o que se podia esperar de um filme com esta temática, a luta de Guillaume não é para sair do “armário” – mas sim para mostrar quem realmente é, mesmo quando todos dizem o contrário. E ele só consegue isso quando, finalmente, encara sua mãe: é justamente aí que ele descobre que o grande problema de sua progenitora foi transferir seus medos, suas angustias, ansiedades e insegurança para ele.

Comédia deliciosa (ainda que recorra a alguns momentos pastelões para fazer chegar ao riso), Eu, Mamãe e os Meninos também apresenta um excelente trabalho estético em sua direção de arte – o que torna o filme visualmente impecável. Ainda aproveita praticamente cada locação, recorrendo a uma vasta paleta de cores em sua fotografia (ora fria, nos momentos introspectivos do personagem; ora quente, nos demais). De longe, Guillaume consegue criar uma obra à altura de sua bela história – que nos faz pensar que o medo é o que nos impede, na maior parte das vezes, de nos aceitarmos como realmente somos, independente do que somos. Eu, Mamãe e os Meninos trata seu tema com a honestidade que é totalmente condizente à necessidade dele. Assim sendo, palmas para o cinema francês.

A Recompensa (Dom Hemingway)

A Recompensa não é um filme de ação, aventura, drama, comédia ou qualquer outro gênero cinematográfico bem definido. É a história de um único personagem. No caso, trata-se Dom Hemingway, um famoso arrombador de cofres que após 12 anos de prisão, é solto e busca sua “recompensa” por não ter delatado seus comparsas. Nessa empreitada, entre altos e baixos, Dom tenta também se reconciliar com a filha – já que perdera sua mulher com câncer enquanto estava na cadeia.

Apesar de o título brasileiro ser condizente com a proposta do filme, o título original (Dom Hemingway) é o que mais reflete a necessidade de autoafirmação do personagem principal. Dom é um sujeito egocêntrico, explosivo (por vezes, violento) e sem o menor tipo de refinamento – mas com estima suficiente para se autoproclamar “o melhor arrombador de cofres de Londres”. Isso fica claro já na cena inicial do longa, um monólogo de três minutos, onde Hemingway recita uma verdadeira ode a seu pênis (comparando-o a obras de arte de Picasso a Renoir) enquanto recebe sexo oral de outro homem. Talvez essa arrogância e prepotência da personagem se deve ao fato de que Dom parece não se dar conta de que, após mais de uma década enclausurado, os tempos mudaram. Não existe mais ética entre criminosos, cumplicidade ou mesmo gratidão – e esta é uma nova realidade que Hemingway deverá encarar.

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Law é a escolha perfeita no papel principal. É uma das melhores atuações de sua carreira: insano, exagerado e verborrágico, o ator está totalmente de acordo com a proposta do filme, com um controle total das cenas. Richard E. Grant também tem um ótimo desempenho no papel de Dickie, o companheiro de Dom e totalmente oposto ao personagem título – nas ações e temperamento, o que traz justamente as melhores linhas cômicas do longa.

No entanto, A Recompensa não consegue ir além de um filme mediano – e há alguns elementos que evidenciam isso. A trilha sonora (com músicas do Motörhead, Pixies, entre outros artistas) não é totalmente bem explorada, já que surge ou desaparece em momentos muito aleatórios – e isso contribui muito com o ritmo da trama. Falta ainda um roteiro mais estruturado: embora a ideia seja boa, é nítido sua inconsistência, principalmente a partir da segunda metade do longa, quando repentinamente o foco narrativo passa a ser as tentativas de Dom em se aproximar da filha. Embora possua uma constituição visual suficientemente bem elaborada, temos a impressão de que o filme poderia ser melhor em mãos mais experientes, já que a direção de Richard Shepard claramente não dá conta do recado. Infelizmente, A Recompensa é uma produção cujo protagonista é maior do que o próprio filme.

“Ghost Stories”: Coldplay Longe das Origens e Perto do Coração

A banda de rock britânica Coldplay pegou muita gente de surpresa quando anunciou, em março, o lançamento de seu sexto registro de estúdio, Ghost Stories, sucessor do questionável Mylo Xyloto, de 2011. Questionável porque Mylo Xyloto era um disco conceitual e experimental que, apesar das críticas mistas, não agradou totalmente aos fãs dos rapazes – que clamavam por uma volta do Coldplay às antigas e melancólicas composições de sucesso que consagraram o grupo  e não ao estilo “colorido” e animado (quase infantil) de MXGhost Stories chega as lojas ainda este mês, mas já foi disponibilizado no iTunes Radio – e, já à primeira audição, escancara as diferenças com o álbum que o antecedeu.

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Contando com a participação de vários produtores (como do DJ Avicii, Paul Epworth e Timbaland – este último que já trabalhou com Justin Timberlake, Madonna, Rihanna e 50 Cent, entre outros vários artistas de sucesso), Ghost Stories é um disco que, ao longo de suas nove faixas, mostra que o grupo liderado por Chris Martin parece não se arriscar muito. No entanto, a busca por novas sonoridades (principalmente eletrônicas) está presente no álbum, revelando um trabalho que, ainda que esteja distante daquilo que a banda fazia nos primeiros anos é capaz de agradar.

Ghost Stories abre com Always in My Head – com sua introdução sublime e seu refrão cativante, onde Chris declara que “você está sempre em minha cabeça”, ao som de uma guitarra deliciosa. De longe, uma das melhores músicas do disco. Em seguida, Magic (primeiro single já lançado anteriormente) sugere que não há nada mais mágico do que estar ao lado de quem se ama. A baladinha simplista não é nada próximo aos grandes sucessos de outrora, mas é totalmente amigável – e, ao vivo, com Chris ao piano, certamente ficará ainda melhor. Ink é outra baladinha experimental, que talvez executada por uma banda menor não teria a mesma felicidade e eficiência. Sem muita grandeza, é uma daquelas canções que cairiam bem em qualquer trilha sonora.

True Love vem carregada de elementos eletrônicos, que a deixa com um ar meio acústico, apesar dos belos arranjos de cordas e da guitarra que segura a música ao longo de sua execução. Midnight tem uma falsa pretensão melancólica e, apesar de não ser uma obra-prima, é a faixa cuja letra mais se aproxima das composições antigas do grupo. Nada alem disso. A canção tem uma pegada eletrônica bem minimalista, acentuada pelo uso explícito do autotune na voz de Chris – tornando-a quase experimental. Another’s Arms segue a mesma linha eletrônica-experimental de Midnight – mas menos minimalista (talvez pelos belos arranjos vocais femininos). Oceans é a música mais acústica do álbum, apesar de crescer ao longo de seus mais de cinco minutos – exceto por seu final sintetizado e, particularmente, desnecessário. Em seguida, A Sky Full of Stars, a aguardada composição produzida por Avicii, se traduz no momento mais dançante do trabalho até aqui, mesclando a agitação “disco” com o acústico de um violão que dá todo o ritmo – faltou apenas a Nicki Minaj fazendo um feat. para completar a situação (só que nunca). Fechando Ghost Stories, temos a bela introdução ao piano de O (sim, apenas “o”) – talvez a faixa que mais lembre a melancolia do Coldplay de Parachutes – um belo momento que encerra bem o disco.

02Ghost Stories é um grande ponto de interrogação na cabeça dos fãs da banda. Não é o disco que se esperava, porém é um trabalho bom que, ainda que um pouco engessado, absorve bem as novas experiências que o quarteto adquiriu ao longo de quase 20 anos de estrada. O que se percebe é que aos poucos o grupo britânico vem apresentando um novo conteúdo, distanciando-se de suas origens, mas sem perder por completo a essência que os fãs tanto amam. O maior distanciamento, à primeira audição, fica nas letras, pois Chris nunca esteve tão amante como aqui – o álbum é carregado de letras com frases clichês e talvez piegas, como “eu não quero ninguém mais alem de você”, “eu penso em você” ou (o ápice do amor romântico) “diga que me ama ou minta” – frases que em composições pop seriam amplamente satirizadas. Talvez seja reflexo do fim (surpresa!) do casamento entre Chris Martin e a atriz Gwyneth Paltrow – como dizem, até mesmo um pé na bunda serve para alguma coisa. Talvez seja o interesse repentino de Chris na boyband britânica One Direction e, especialmente, em seu frontman Harry Styles (amplamente elogiado pelo cantor de clássicos como YellowClocksTroubleFix YouThe Scientist e uma porrada de músicas boas). Fato é que Ghost Stories não traz uma inovação total ao som da banda, mas mostra que o Coldplay está em boa forma – suficiente para criar um projeto pensado, conceitual e focado na experimentação, capaz ainda de atingir o coração da crítica e do público.

Versos de um Crime (Kill Your Darlings)

Ao que parece, a geração beat nunca esteve tão em alta no meio artístico desde seu surgimento. Seja na literatura, na música ou no cinema – só nos últimos anos, tivemos filmes como Uivo (2010), Na Estrada (2012) e Big Sur (2013) –, a contracultura repercutida por nomes como Allen Ginsberg e Jack Kerouac virou uma espécie de tendência (ou talvez, mera casualidade), sendo revisitada em diversas obras. Versos de um Crime, do novato John Krokidas, nos traz um pouco do universo beatnik, em um filme que flerta com o suspense e biografias não muito bem construídas daqueles que foram os precursores de um movimento que influenciou toda uma geração.

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O filme acompanha o jovem Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe) a partir de seu ingresso na Columbia University, em 1944, quando conhece Lucien Carr – um simpático e misterioso colega de universidade por quem Allen fica deslumbrado. Lucien é quem apresenta Ginsberg a William Burroughs e Jack Kerouac, dois jovens aspirantes a escritores. O assassinato do amante de Lucien, no entanto, acaba impactando a amizade do grupo – mas dando início a geração beat, do qual Ginsberg, Burroughs e Kerouac foram os principais expoentes.

Boa parte do roteiro do longa se dedica à construção de suas personagens através de situações avulsas e, em muitos momentos, desconexas. Em uma época marcada pelo conservadorismo, os personagens principais são mostrados como um grupo de adolescentes mimados sem nenhuma motivação para seus atos. O próprio Ginsberg é retratado na maior parte do filme como um jovem altamente influenciável – ao ponto de abandonar a mãe em troca de uma noite de farra com o amigo de sexualidade “duvidosa”. O grupo, aparentemente comandado pelo carismático Lucien, é retratado como a versão imatura de uma geração que luta pelo fim de tabus, pela queda do conservadorismo – mas não sabe o porquê de tudo isso.

Ainda que o roteiro sofra com algumas falhas, Versos de um Crime proporciona ótimas atuações, com um elenco jovem e carismático que revive com competência esses grandes nomes da contracultura. Daniel Radcliffe, numa tentativa visível de se libertar de seu Harry Potter (personagem teen que marcou sua carreira) tem aqui ótimos momentos na pele de Allen Ginsberg. O próprio Radcliffe já havia declarado inclusive que pela primeira vez se sentiu satisfeito e orgulhoso ao se ver na tela – mérito do ator e também do diretor que, além da boa escolhe de elenco, orientou o grupo em todas as cenas. Protagonizando uma modesta sequência de sexo gay (sob orientação de Krokidas, homossexual assumido, para que a cena parecesse ainda mais real), Daniel só não consegue ser mais intenso do que Dane DeHaan, excelente como o jovem Lucien – a mais grata surpresa no longa. DeHaan, talento em ascensão, e Radcliffe mostram uma química adorável durante o filme, fazendo quase com que o espectador torça pela união dos dois (ainda que Lucien seja volúvel e seu caráter altamente reprovável).

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A bela fotografia em sépia ajuda na reconstituição de época, trazendo certo estilo ao filme. Com a trilha sonora assinada pelo jovem Nico Muhly (de O Leitor, de Stephen Daldry), Versos de um Crime é um filme que talvez, em mãos mais experientes, poderia ter tido seu bom material melhor aproveitado – o que fica evidente na falta de ritmo da narrativa. Versos de um Crime é incapaz de agradar a todo tipo de público, devido sua temática deveras complicada, sua falta de apelo comercial e por retratar um movimento de contracultura que não é conhecido por todos. Entretanto, os bons aspectos técnicos e as atuações inspiradas do elenco (incluindo Radcliffe sem os trajes de bruxo) são motivos suficientes para se assistir ao longa – ainda que lhe falte uma abordagem que seja digna dos personagens envolvidos e de toda sua contribuição às gerações seguintes.

Coletânea Encerra As Atividades do My Chemical Romance (Ou Não?)

Já não é novidade para ninguém que o quinteto norte-americano My Chemical Romance encerrou suas atividades há cerca de um ano. Após quatro álbuns e pouco mais de 12 anos na estrada, a banda ganhou uma notoriedade invejável dentro do universo rock atual, envolta a muitas polêmicas e sucessos que lhe garantiram um lugar cativo no coração de milhares de fãs ao redor do mundo. Mas como tudo na indústria fonográfica pode sempre render alguma coisa (afinal, sempre há espaço para discografias rentáveis, diga-se de passagem…), nem mesmo o fim do grupo foi capaz de brecar o lançamento de May Death Never Stop You, coletânea que reúne os grandes sucessos do conjunto ao longo de sua bem sucedida carreira fonográfica.

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May Death Never Stop You alinha, seguindo a ordem cronológica, faixas dos quatro álbuns de estúdio do My Chemical Romance: I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love (2002), Three Cheers For Sweet Revenge (2004), The Black Parade (2006) e Danger Days – The True Lives Of The Fabulous Killjoys (2010). Alem das faixas oficiais, há ainda outras três demos, originalmente lançadas em EPs do início da carreira. A surpresa fica por conta da inédita Fake Your Death, que abre o disco, totalizando 19 faixas.

Lançada pela Reprise Records e distribuída pela Warner, May Death Never Stop You sela o fim da banda de rock alternativo. A compilação, no entanto, é um bom motivo de comemoração para os fãs do grupo liderado  por Gerard Way (um verdadeiro camaleão que durante sua carreira já esteve irreconhecível sob suas várias facetas). Os fãs mais sortudos que adquiriram o álbum na pré-venda do site oficial ainda levaram para casa um DVD com cerca de 2 horas de material inédito (inclusive um clipe perdido da faixa Blood, que encerra o álbum The Black Parade – considerado por muitos a obra-prima do conjunto), alem de outros acessórios, como uma camiseta com a frase “Thank You For The Venom” – primeira camiseta da banda e referência a uma das melhores faixas do grupo, lançada no segundo disco e desprezada na coletânea.

Lançado há pouco mais de um mês atrás, May Death Never Stop You é um material que tende a agradar aos fãs devido à abrangência de sua compilação (apesar que verdadeiros hinos da banda foram definitivamente deixados de fora, como Demolition LoversDesert Song ou I Never Told You What I Do For a Living – faixas que são queridíssimas pelos fãs mas que a grande massa desconhece, em muitos casos). Dos quatro álbuns, o que ganha destaque explícito é The Black Parade – o grande divisor da carreira da banda. O primeiro álbum, para alguns (leia-se aqui: para mim e muitos outros fãs dos primeiros tempos) o melhor trabalho, rendeu apenas duas faixas (os singles Honey, This Mirror Isn’t Big Enough For The Two Of UsVampires Will Never Hurt You).

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May Death Never Stop You funciona como coletânea e, não vou ser chato e dizer o contrário, a seleção foi compatível – reunindo realmente aquilo que marcou o My Chemical Romance ao longo desse período. Para os fãs posers, a compilação é um ótimo presente. Para os mais excêntricos, é um material que comprova definitivamente toda a transformação pela qual o grupo passou ao longo destes 12 anos de estrada – muito mais perceptível aqui, com as supostas “melhores” faixas disponíveis juntas para audição. Há quem diga ainda que tudo isso é uma jogada de marketing para garantir um futuro retorno dos caras – leve-se em consideração o título Fake Your Death, que deixou muita gente com a pulga atrás da orelha. Será que rola uma volta? Bom, por ora, o que resta aos fãs é se deliciar com o disco e relembrar com carinho os bons momentos da banda. E, claro, por que não ficar na expectativa de um retorno? Vai que…

The Used e a Vitória Sobre Seus Inimigos Imaginários e Reais

Toda vez que alguma banda que eu curto (ou um artista que mereça ser comentado) lança um novo álbum, faço questão de fazer minha crítica sobre o novo trabalho. Assim, estava ansioso para vir aqui e falar sobre Imaginary Enemy, o 6º registro do agora quarteto norte-americano The Used que, desde 2001, vem sendo um dos meus artistas preferidos por diversas razões. Longe dos estúdios desde 2012, com o suficiente Vulnerable, a banda de Utah traz ao público um álbum conceitual, denso e equilibrado, representando provavelmente um dos melhores momentos do grupo nos últimos anos.

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Imaginary Enemy começa com força total com a batida enérgica de Revolution. A música abre em off com a frase Todas as revoluções são impossíveis até que elas aconteçam; então, elas se tornam inevitáveis.”, entregando muito do propósito do álbum. Com vocais potentes de Bert McCracken, Revolution é uma das mais gratas surpresas da banda em anos. Em seguida, temos Cry, carro chefe do disco – que até já ganhou clipe. Com a ótima performance de Jeph Howard no baixo, a música serve, porém, apenas como canção para se postar nas redes sociais como indireta a algum ex, sendo uma das mais dispensáveis do álbum.

Após um início agitado, temos El-Oh-Vee-El, onde a banda faz uma espécie de crítica ao sistema capitalista que rege a nação mundial, soltando aos quatro ventos que “tudo o que precisamos é L-O-V-E”. A música, que começa de forma bem morna, acaba crescendo ao longo de sua execução e possui uma bela melodia, carregada com a guitarra já conhecida do excelente Quinn Allman. Segue-se com A Song To Stifle Imperial Progression (A Work in Progress), ótima faixa que possui, de longe, uma das melhores letras do disco. Enquanto pede a benção de Deus aos EUA, a banda também afirma que “ao declarar guerra ao terror, você declara guerra a si mesmo. Em seguida, Generation Throwaway abre com seu refrão recheado de vozes declarando que “tudo fica bem quando eu não tenho medo da glória, um verdadeiro hino que me lembra, vagamente, alguma coisa que o trio Green Day fez em seu elogiado American Idiot.

Make Believe é mais um hino que tende a agradar os novos fãs – um ótimo momento com um belíssimo refrão. Com sua batida leve e que melhor representa o lado “bonzinho” dos caras, temos Evolution, precedendo a faixa título, Imaginary Enemy. Longe de ser a melhor música do conjunto, a canção tem uma batida dançante e rápida, lembrando um pouco o estilo de seus amigos do Panic! At The Disco em seu primeiro trabalho (exceto pelos vocais de Bert), mas muito menos cru. Kenna Song, com sua bateria eletrônica, é mais uma das faixas ao estilo “bom moço” da banda. Fechando o álbum, temos Force Without Violence (com sua excelente letra e que representa bem o contexto de todo o projeto) e, finalmente, Overdose, a faixa “fofa” que pode facilmente ser utilizada na trilha sonora de algum filme teen.

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Produzido por John Feldman, Imaginary Enemy é, de longe, o registro mais “completo” da banda até hoje. Depois de uma sequência de álbuns bons mas sem muita alma e mornos o suficiente para serem facilmente desprezados(ArtworkVulnerable), o grupo consegue criar seu American Idiot particular, inserindo letras de impacto dentro de um estilo que aos poucos Bert e seus companheiros vem lutando para impor a seus fãs – uma vez que, vamos admitir, eles dificilmente voltarão a fazer algo musicalmente grandioso quanto A Box Full of Sharp ObjectsMaybe Memories ou Poetic Tragedy. É um fato que os rapazes sempre flertaram com um lado mais “mamão com açúcar” – vide composições como Blue and YellowI Caught Fire ou Buried Myself Alive, hinos que consagraram a banda e a tornaram tão querida entre seus fãs.

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Mas é um fato também que muita coisa mudou de 2001 para cá e a banda amadureceu. Recentemente, o vocalista Bert (conhecido por suas extravagâncias do início de carreira) assumiu viver uma vida mais “limpa”, longe do álcool e das drogas. Isso refletiu em uma mudança explícita em sua voz e também no comportamento dos rapazes em seus shows. Imaginary Enemy é um registro honesto de um artista que nunca se preocupou tanto em permanecer no mainstream, mas sim em fazer um som que considere bom – isso tanto é verdade que o instrumental continua impecável: enquanto Bert não faça as mesmas firulas dos anos iniciais (mas segurando o suficiente o vocal sem desafinar, como muitos vocalistas por aí…), Jeph segue com seu contrabaixo impecável, enquanto Quinn sozinho é capaz de tocar quantas guitarras quiser sem fazer muito esforço. Ainda que muitos fãs clamem por uma volta aos velhos tempos, Imaginary Enemy é uma prova de que a banda mesmo mudando ainda se renova. Apesar da segunda metade do álbum não ter a mesma força que a primeira parte, Imaginary Enemy se sobressai como o melhor disco do grupo em anos – uma contundente resposta às críticas, uma surpresa agradável aos fãs e o melhor exemplo da vitória da banda sobre todos os seus inimigos imaginários e reais.

A Pele de Vênus (La Vénus à la Fourrure)

Gosto muito de filmes com diálogos rápidos, inteligentes e longas sequências, pois acredito que é justamente ali que um cineasta pode demonstrar ao público uma das habilidades que mais admiro no ofício da direção: dirigir pessoas. Redundante? Talvez, mas dirigir atores não é uma tarefa fácil. O consagrado Roman Polanski já havia mostrado que sabe como fazer isso em Deus da Carnificina, de 2011, quando colocou dois casais dentro de um apartamento e os fizeram trocar acusações até os ânimos se alterarem. Em A Pele de Vênus, Polanski retoma a ideia, mas com um grau de erudição e erotismo muito acima de seus trabalhos anteriores.

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Assim como Deus da Carnificina, A Pele de Vênus também é a adaptação de uma peça teatral homônima, apresentando a história de Thomas (Mathieu Amalric), um jovem dramaturgo que está à beira dos nervos por não conseguir encontrar a atriz principal para sua nova peça – uma releitura do livro La Venus à La Fourrure, de 1870 (um clássico da literatura mundial). Prestes a sair do teatro após uma série de audições fracassadas, Thomas recebe a inesperada visita de Vanda (Emmanuelle Seigner), uma bela atriz com quem o dramaturgo se envolve em um relacionamento de submissão, dominação e perversão.

Polanski repete aqui o esquema “teatro filmado”, conseguindo arrancar ótimas atuações de seu pequeno elenco. Mathieu (substituindo Louis Garrel, ator fetiche francês que abandonou o projeto devido sua agenda) e Emmanuelle dão um show à parte. A dupla, que já havia se encontrado no elogiado O Escafandro e a Borboleta, tem uma química incrível ao longo de mais de noventa minutos de película e cada um é bem explorado, desempenhando de forma pra lá de satisfatória sua função dentro da proposta daqueles personagens. Mas quem surpreende é Emmanuelle, esposa do diretor que, aos 46 anos, consegue ser incrivelmente atraente e deslumbrante em cena. A sexualidade que Emmanuelle exprime  é o que faz com que ela roube o filme para si, tornando sua personagem quase uma extensão (com um nível de maturidade acima) de seu papel em Lua de Fel, de 1992 (também dirigido por Polanski).

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Apesar de ter sua atuação bastante questionada na época, Emmanuelle protagonizou ali uma das cenas mais eróticas do cinema de Polanski. Hoje, mais de vinte anos depois, Emmanuelle é uma atriz muito mais madura e sua Vanda é prova irrefutável de que ela não é apenas a esposa de Roman Polanski. Aqui, Seigner tem em mãos um papel à altura de sua figura: Vanda é misteriosa e dosa o papel de vítima e algoz, invertendo-o com um tragicômico Thomas. E Polanski, que não é bobo e sabe como provocar, usa bem a imagem e talento de Seigner. Com uma câmera excepcional (que coloca o espectador sob o ponto de vista praticamente de um voyeur), é nítido o quanto Polanski busca capturar tudo o que sua musa inspiradora pode oferecer, quase que com um certo prazer.

Com um roteiro primoroso, recheado de referências à cultura clássica, a fita é verborrágica – e por tal razão pode parecer um pouco cansativa em diversos momentos. No entanto, os diálogos rápidos e inteligentes velam uma crítica implícita ao papel da mulher na sociedade, à sua verdadeira atribuição como “fêmea”, em um mundo ainda dominado pelo machismo. É a inversão de papeis entre Thomas e Vanda que vai dando mais corpo ao filme, à medida que o dramaturgo se vê cada vez mais ligado à atriz – uma mulher aparentemente sem cultura ou conhecimento, mas que aos poucos se revela muito mais do que um corpo sensual. A variação entre realidade e fantasia, que se misturam ao longo da projeção, dá o tom cômico e nos fazem questionar se Thomas está atuando ou realmente se tornou um escravo de Vanda.

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Há quem possa se incomodar com o estilo “teatral” com que Polanski filmou A Pele de Vênus. Não que essa seja a primeira incursão do diretor no gênero (aliás, Roman tem no currículo, além de Deus da Carnificina, o despercebido A Morte e a Donzela, de 1994, quando Polanski já flertava com o gênero), mas este não é um tipo fácil de filme (nem para quem faz, nem para quem assiste). Não devemos esquecer que, antes de tudo, é cinema e, como tal, o trabalho de Polanski como cineasta é louvável: ele entrega uma obra irresistivelmente atraente, com um “quê” de erotismo que funciona perfeitamente à proposta do longa. E por incrível que pareça, A Pele de Vênus é Polanski retornando às suas origens, já que tem todos os elementos que artista já utilizava em sua filmografia (erotismo, submissão, homoerotismo – aliás, em uma das cenas finais, temos Mathieu travestido com salto alto e batom, nos remetendo instantaneamente a Polanski vestido de mulher em O Inquilino, de 1976). A Pele de Vênus é muito mais requintado, culto e crítico do que Deus da Carnificina, que já era excelente – o que, certamente, representa um nível acima no trabalho do cineasta.

Estou Aqui (I’m Here)

Uma das coisas que mais gosto de fazer é descobrir artistas. Quando vejo o trabalho de um ator ou diretor e esse trabalho me impressiona, lá vou eu correr para pesquisar sua filmografia e confirmar o talento daquele meu novo ídolo. Assim foi com Andrew Garfield, que conheci em O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de 2010, e por quem caí de amores em Não Me Abandone Jamais, no mesmo ano. No entanto, um dos melhores títulos de sua carreira é o curta Estou Aqui.

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Patrocinado pela marca de marca de vodca Absolut, Estou Aqui é um curta de pouco menos de trinta minutos dirigido por Spike Jonze (de Quero Ser John Malkovich, Onde Vivem os Monstros e o mais recente e elogiado Ela). A história se passa em uma Los Angeles habitada por humanos e robôs e narra a trajetória de Sheldon, um tímido robô bibliotecário, que vive sua existência pacata e praticamente despercebida, cuja rotina metódica inclui apenas o caminho de casa para o trabalho. Em um determinado momento, Sheldon conhece Francesca, um robô com aparência feminina cujo espírito de liberdade acaba fascinando o bibliotecário. Aos poucos, a amizade entre os dois se transforma em amor – amor capaz dos maiores sacrifícios para fazer o outro feliz.

Uma das características dos trabalhos de Spike é contar algo de nosso universo dentro de um universo “à parte”. Para o cineasta, nossa sociedade é vazia – e é isso que ele recria em sua Los Angeles surreal. O próprio apartamento do protagonista reflete esse vazio: é opaco, sem decoração, quase sem cores ou nada que estimule maior interesse. Assim também é o convívio entre robôs e humanos, este último grupo que pouco aparece na história e, apesar das críticas que fazem aos seres robóticos, aparentemente convive pacificamente com Sheldon e os demais de sua espécie. Estou Aqui recria, com uma história simplória e até mesmo “boba”, uma metáfora sobre a solidão do homem dentro de uma sociedade cada vez mais individualista – onde não há mais espaços para sentimentos, ofuscados pela correria cotidiana e avanços tecnológicos, por exemplo.

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Estou Aqui possui uma bela fotografia que oscila entre a claridade do sol nos momentos mais alegres e românticos de Sheldon e seu par, e uma paleta mais acinzentada nas cenas mais solitárias, acentuando o vazio do protagonista. A delicada trilha sonora ajuda a tornar o filme ainda mais melancólico, assim como as atuações de Garfield – que mesmo caracterizado como um robô, consegue transmitir todo sentimento da personagem em seu retraído (mas exato) tom de voz. Muito bem recebido por onde passou, Estou Aqui é um projeto que funcionou devido sua estética cinematográfica latente e o primor com o qual foi concebido. Com Estou Aqui, Spike consegue recriar uma fábula sobre o amor – e, principalmente, o mais puro significado de “se doar por inteiro”.

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)

Lá no início da década de 90, o até então desconhecido Quentin Tarantino estreava como diretor com Cães de Aluguel. Ex-funcionário de uma locadora (fato que colaborou para seu vasto conhecimento cinematográfico), Tarantino criava ali uma obra que seria amplamente elogiada pela crítica e considerada por muitos o melhor filme do diretor – ou pelo menos, o precursor de um estilo que definiria Tarantino em toda sua carreira.

Cães de Aluguel é um filme simples e direto: Joe Cabot é um criminoso experiente que reúne um grupo de seis bandidos para um assalto a uma joalheria. Ninguém nesse grupo se conhece e cada um utiliza uma cor como codinome, evitando assim qualquer suposto “envolvimento” após assalto. Entretanto, as coisas não saem como o esperado: quando chegam ao local do crime, a suspeita já está à espera do grupo, o que levanta as suspeitas sobre um provável infiltrado entre eles. Após uma fuga desenfreada, os criminosos que sobrevivem se reúnem em um galpão, onde discutem sobre o acontecido e levantam hipóteses sobre quem poderia ser o traidor da trupe.

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Muita gente considera Pulp Fiction, o filme seguinte do cineasta, como a obra-prima de Tarantino. Outros sugerem que o diretor se reinventou em Kill Bill, alguns anos após o subestimado Jackie Brown. Obviamente, dentro uma filmografia tão linear, é difícil para qualquer fã do diretor definir qual seria seu melhor trabalho. Mas é inegável que Cães de Aluguel é um belo exercício de estilo para um diretor de primeira viagem. Talvez o que mais torne Cães de Aluguel original seja a originalidade com que Tarantino apresenta ao público sua identidade, injetando características que definiriam suas obras posteriores em um filme aparentemente descompromissado (mas nem por isso de qualidade duvidosa).

Inovador e inquestionável, o roteiro torna tudo muito verossímil ao descrever seus personagens e suas ações com bastante clareza. Cada um tem sua personalidade revelada logo de cara, sem muita forçação de barra, e todos estão bem inseridos na história. Não há personagens descartáveis: todos são responsáveis por algum momento no longa. Quentin entrega um roteiro ágil, que não abre margens para situações desnecessárias ou redundantes – e apesar do filme se passar basicamente em um único cenário, não há monotonia. A ação é constante – e isso se deve muito mais pelos excelentes diálogos do que necessariamente por cenas de perseguição ou tiroteio. A cada conversa entre os bandidos, o expectador se depara com uma explosão de referências à cultura pop – como na antológica cena inicial, onde o grupo devaneia num restaurantes sobre o significado de Like a Virgin, de Madonna.

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O filme também traz uma constante nos roteiros tarantinescos: a não linearidade. A história se intercala entre as sequências no galpão e os flashbacks do crime, que aos poucos ajudam a esclarecer a situação. Ousado para a época, Cães de Aluguel traz ainda cenas de violência exacerbada, que chocou muito os críticos – e, como não poderia ser diferente, levantou intermináveis debates sobre a questão da violência no cinema. Em um dos momentos mais fortes do longa, o personagem de Michael Madsen tortura um policial ao arrancar-lhe a orelha – tudo mostrado sem pudor.

São raros os casos no cinema em que um diretor estreia de forma tão magnífica e empolgante. Muito mais raro ainda é quando o primeiro filme de um cineasta diz tanto sobre ele como Cães de Aluguel fala sobre Tarantino. Tudo o que o diretor faria em suas próximas histórias estão ali presentes: os ótimos diálogos e teses tarantinescas, o humor ácido, a violência exagerada e explícita, a trilha sonora excepcional, a não-linearidade do roteiro, as referências à cultura pop e a outras obras de cinema (em certo momento, três dos bandidos se encaram nos remetendo à cena mais emocionante de Três Homens em Conflito, clássico de Sérgio Leoni – um grande ídolo de Tarantino) e, claro, a facilidade com que o cineasta consegue florear até mesmo os momentos mais eloquentes. Não à toa, a Empire definiu Cães de Aluguel como “o melhor filme independente da história”. Com competência difícil de se achar em um diretor iniciante, Tarantino conseguiu muito mais do que isso: fez de Cães de Aluguel uma cartilha de seu próprio gênero.