A Lei da Noite (Live by Night)

Escrito, dirigido e protagonizado por Ben Affleck (por quem eu assumidamente não mantenho a menor simpatia), A Lei da Noite é, para alguns, um dos maiores esnobados das principais premiações em 2017. Lançado nos EUA no final de dezembro do ano passado, o filme, entretanto, foi um fiasco de bilheteria – uma das menores da carreira de Affleck, o que lhe custou um prejuízo de mais de U$ 70 milhões e deixou uma dúvida no ar com relação ao sempre questionável talento de seu idealizador (que, definitivamente, é muito melhor cineasta do que ator, apesar de lhe faltar certo brilhantismo em qualquer uma dessas áreas).

Narrado em primeira pessoa com um desnecessário recurso off, A Lei da Noite conta a história de Joe Coughlin, um veterano de guerra e filho de um capitão de polícia que acaba se envolvendo com o crime organizado. Após ser traído por sua amante e ficar à beira da morte, Joe pede proteção para o chefe da máfia italiana, Maso Pescatore, que o incube de comandar as atividades de um cartel na costa da Flórida. Motivado por um profundo desejo de vingança contra o mafioso Albert White, Joe recomeça sua vida ao lado de Graciela, enquanto tenta administrar seus negócios oriundos de atividades ilegais e as rivalidades que o ameaçam.

01

Talvez o que mais prejudica A Lei da Noite é a falta de objetivo em seu roteiro. É um filme sobre máfia, mas falta se aprofundar no tema, apesar de todos os elementos inerentes a ele estarem presentes. Flerta depois com um romance que poderia facilmente ser descartado, já que não faria a menor diferença na trama. Poderíamos até embarcar em um drama sobre vingança, mas a obsessão do protagonista por seu rival se esvaece ao longo das duas longas horas de produção – e quando os inimigos estão frente a frente não há um clímax à altura. A Lei da Noite se apoia basicamente na velha disputa da máfia para consolidar seu território, mas o ritmo da narrativa é muito comprometido pelo excesso de diálogos. Muita fala, pouca ação – e isso para quem espera um filme “alucinante” é quase uma decepção.

Dizer que o filme é ruim é ser muito cruel com Ben Affleck, que visivelmente se esforça e entrega uma obra que não chega a ser tudo aquilo que propõe, mas quase chega lá. Apesar do incômodo causado pelo uso de CGI para dar uma rejuvenescida em Affleck (que aqui parece ligado no modo automático – mas quando não?), o filme não é um fiasco por completo – pelo contrário, é um entretenimento mediano para quem encara-lo sem muita expectativa. Do contrário, a decepção pode ser inevitável…

Sangue Pela Glória (Bleed for This)

Escrito e dirigido por Ben Younger, um cineasta de currículo modesto até o momento, Sangue Pela Glória acompanha a incrível história real do pugilista Vinny Pazienza, campeão mundial que, após um grave acidente de carro que o deixou à beira da morte, teve uma das reviravoltas mais inspiradoras do mundo dos esportes.

Definitivamente, Sangue Pela Glória não é o melhor filme do gênero, apesar do incrível potencial de sua trama. Seus principais personagens sofrem de uma visível falta de desenvolvimento, refletindo diretamente as falhas de seu argumento. Tudo acontece de forma muito rápida: o roteiro é direto e seco, sem muito espaço para aprofundar algumas situações – como a última luta de Vinny, provavelmente a disputa mais importante de sua carreira, mas que recebeu pouco espaço de cena.

01

No entanto, são as performances sólidas de Miles Teller e Aaron Eckhart (este último, quase irreconhecível) que seguram as quase duas horas de filme. Ambos estão muito bons, especialmente o jovem Miles – é estimulante ver o quanto o ator vem progredindo, apesar das escolhas recentes um tanto desastrosas. Este certamente poderia ser o papel de sua vida e Miles, literalmente, dá seu sangue, sendo praticamente o responsável por toda empatia que nutrimos por Vinny – mas é uma pena que a produção não colabora para fazer este um grande projeto. Com produção executiva de Martin Scorsese, Sangue Pela Glória é o tipo de filme que você de imediato percebe que poderia ser muito maior, mas fica limitado a ser apenas mediano.

Silêncio (Silence)

Falar sobre religião não é fácil. No cinema, este tema, por mais bem tratado que seja, sempre levanta infindáveis debates e discussões – e isso não seria diferente ao falarmos de Silêncio, filme de Martin Scorsese, um cineasta cuja maior parte de sua filmografia foi amparada em seu catolicismo (ainda que não fosse o objeto primário de seus principais títulos). Imersiva em sua plenitude, esta obra do diretor de Taxi Driver e Touro Indomável é um dos projetos mais pessoais de Scorsese, que aqui deixa de lado o crime e a máfia (presente em seus melhores longas) para falar sobre a fé e seu questionamento.

01

Silêncio é a adaptação do livro homônimo escrito por Shūsaku Endō em1966, apontado como um dos melhores romances históricos do século XX (apesar de pouco conhecido no Brasil) e abertamente uma das obras literárias mais relidas por Scorsese. A história acompanha a viagem de dois padres portugueses ao Japão, durante o século XVII, para reencontrar seu mestre que, segundo informações, teria renunciado sua fé cristã e estaria vivendo conforme os costumes locais (em uma região onde a prática do cristianismo era severamente repreendida pelas autoridades).

Amparado pela bela fotografia de Rodrigo Prieto que, em conjunto com o competente design de produção de Dante Ferretti, emprega um tom clássico à toda narrativa (onde cada plano aberto pode ser visto como uma pintura antiga), Silêncio é visual e tecnicamente impecável. As cores dos quadros são ofuscadas por um profundo aspecto de neblina, um recurso que reafirma toda a morbidez da trama. Sonoramente, Scorsese abandona praticamente o uso de qualquer trilha musical, abusando dos sons (revelando um ótimo trabalho de edição e mixagem) e, como sugere o título, do silêncio – como se para estender a tensão do momento e permitir que o espectador possa refletir sobre aquilo que vê na tela. É importante ainda ressaltar que a direção de Scorsese vai além, se mostrando principalmente na performance espetacular de todo o elenco, em especial do protagonista vivido por Andrew Garfield. É interessante analisar o quanto Garfield se doa a esta personagem, nos entregando uma de suas mais surpreendentes atuações até então. Inegavelmente, o intérprete está em sua melhor fase.

02

Mas é no desenvolvimento de seu drama que Silêncio se torna o que é: um grande filme. A história caminha sem pressa, dando tempo necessário ao longo de quase três horas de duração para que tudo transcorra de forma abrangente. Apesar do possível tom xenófobo que alguns possam alegar (quando a cultura japonesa é um tanto “vilanizada”, enquanto o catolicismo é glorificado), Silêncio é um filme que incomoda e faz o público sair de sua zona de conforto para refletir. Em uma época de discursos religiosos inflamados de ódio, Silêncio convida o espectador a questionar sua fé, independente de religiosidade. A fé não está apenas nas atitudes; ela está presente dentre de nós.

Em produção por mais de 20 anos, Silêncio é um filme que nos oferece uma experiência cinematográfica única de contemplação e reflexão. É verdade que não é uma obra para todo o público, mas é certo que é o projeto da vida seu idealizador, ainda que não seja completamente entendido. Esnobado pela Academia, talvez hoje seja difícil enxergar a dimensão de Silêncio dentro da filmografia de Scorsese, mas certamente ele se perpetuará em um futuro não muito distante como um dos momentos mais importantes da carreira de um dos maiores artistas de cinema em todos os tempos.

Lady Gaga Aposenta o Visual Pomposo e Solta a Voz Como Nunca em “Joanne”

Desde o subestimado Artpop (um trabalho incompreendido, que pecava pelo excesso de ideias – ainda que algumas geniais) e um passeio pelo jazz ao lado do sempre competente Tony Bennett, os little monsters aguardavam ansiosamente pelo triunfal retorno de Lady Gaga ao pop. Mesmo os que não simpatizavam com ela também tinham lá suas expectativas, afinal algumas de suas maiores “divas” haviam assumido um tom mais conceitual em seus últimos álbuns (vide Rihanna ou Beyoncé, por exemplo). Logo, há tempos faltava um bom disco pop com músicas para fazer a galera ir até o chão nas boates por aí. Para o bem ou para o mal, Joanne, novo registro de Gaga, chega recentemente às lojas dividindo opiniões, mas mostrando seu indiscutível amadurecimento como artista.

02

Sim, Gaga ultrapassou o status de “diva pop” para se tornar uma intérprete respeitada, com liberdade artística para fazer exatamente aquilo com a qual se sente confortável – e a verdade é que os figurinos extravagantes de outrora já não são tão interessantes, fazendo com que Stefani Germanotta aposente o vestido de carne e vista as botas e chapéu rosa que são os símbolos desta sua nova fase. Joanne é, provavelmente, o seu disco mais pessoal, onde Gaga solta a voz (e como) para falar de seus “demônios” internos que a apavoram e já fazem parte de sua rotina.

Apoiada em uma base composta por guitarra, baixo e bateria, Diamond Heart abre este registro sem o peso de sintetizadores, mas nem por isso menos pop. De cara, é capaz de agradar aos fãs iniciais da cantora. Faixa mais radiofônica de todo o conjunto, A-Yo segue a linha pop de sua antecessora, um hit pronto para as pistas (mesmo que não tenha o vigor de nenhum de seus clássicos anteriores). Com simplicidade e abandonando praticamente qualquer “acabamento” vocal, Joanne é de uma beleza musical única com sua percussão tímida e seu violão dedilhado. É uma calmaria que contrapõe à sequência de canções que segue: John Wayne, com sua batida diferente de tudo o que se ouviu até aqui; Dancin’ in Circles, com sua levada reggaeton que remete à era The Fame Monster; e Perfect Illusion, primeiro single que, embora não seja explosivo e nem faça tanto sentido quando ouvido individualmente, chega se firmando como um dos momentos mais coesos de Joanne.

Million Reasons é a faixa com os mais fortes elementos que referenciam ao estilo country de Joanne. Balada poderosa, aqui você é obrigado a admitir que, sim, Lady Gaga canta muito. Nos remetendo aos filmes tarantinescos que Gaga aparenta admirar bastante, Sinner’s Prayer é uma mistura experimental entre pop e country e, talvez por isso, soe tão curiosa à primeira audição. Com ótimos arranjos de metais e vocais, Come to Mama tem uma melodia incomum e é deliciosa de se ouvir – até agora não entendo às críticas a ela, para ser bem honesto. Em parceria com Florence Welch, Hey Girl traz suavidade e minimalismo, com uma letra feminista que agrega muito à proposta do álbum. Angel Down fecha a versão comum de Joanne, com uma atmosfera soturna e uma interpretação potente de Gaga, isso sem mencionar a parte instrumental muito peculiar.

Ame ou odeie, até o menos é mais quando falamos de Lady Gaga. Goste ou não, a cada dia que passa ela deixa de lado o rótulo de “esquisita” e se consagra como uma das artistas mais completas de sua era. Ainda que Joanne não seja o alívio pop que esperávamos, encontramos aqui uma Lady Gaga sem medo de retornar às suas raízes. Pelo contrário: ela busca valoriza-las, entregando um disco que, entre altos e baixos, tem seus méritos dentro da carreira da cantora. Talvez nunca mais escutaremos algo tão estrondoso quando um Bad Romance ou Pokerface, é verdade, mas é válido o esforço de Gaga em tirar as máscaras e mostrar sua verdadeira face – e já que isso pode ser inevitável, que tal aproveitarmos?

Seremos História? (The Turning Point)

Desde o início de sua carreira, Leonardo DiCaprio sempre se mostrou um árduo defensor das causas ambientais. Elogiado por inúmeros grupos ambientalistas devido ao trabalho que promove desde então, o intérprete foi nomeado pela ONU, em 2014, seu mensageiro da paz e representante das alterações climáticas no mundo – o que o tornou gabaritado para estrelar o potente documentário Seremos História?.

Com produção executiva de Martin Scorsese e direção de Fisher Stevens, Seremos História? acompanha a jornada de três anos do astro hollywoodiano em busca de respostas às ameaças ao meio ambiente. Durante o período, o ator rodou o planeta, visitando locais onde as mudanças climáticas são mais evidentes e causam maior impacto – como a Flórida, nos EUA, que sofre todos os anos com inundações; a Groenlândia, cujas geleiras se derretem mais rapidamente a cada dia; ou mesmo algumas ilhas do Pacífico, prestes a desaparecer com o aumento do nível do mar.

02

A proposta do documentário é simples: alertar o público de que a situação é crítica e tem de ser discutida com urgência. O texto de Mark Monroe argumenta que os governos mundiais precisam tomar ações imediatas para preservar o meio ambiente. Entre elas, a cobrança de impostos sobre combustíveis que emitem dióxido de carbono; o incentivo ao uso de energias renováveis (como a eólica, por exemplo); e até mesmo uma nova dieta alimentar. A dificuldade, segundo a obra, reside inicialmente no fato de que as informações sobre as alterações do clima são bastante controversas: se por um lado há quem defenda que o aumento da temperatura mundial não é nada perto da evolução da humanidade nos últimos anos, os mais pessimistas acreditam que o momento é crucial: por mais que não possamos frear as consequências, devemos desde já arregaçar as mangas e buscar soluções que ajudem a minimizar os impactos causados.

Uma nação informada é uma nação empoderada.

DiCaprio discute o tema com os tipos mais variados: entre líderes políticos, cientistas e outros, Leonardo entrevista nomes como o presidente norte-americano, Barack Obama, o secretário-geral da ONU e o Papa Francisco, primeiro pontífice a se pronunciar acerca do aquecimento global. Apesar de sua visível falta de domínio do assunto, o ator é corajoso ao expor na tela aqueles que, de acordo com o roteiro, seriam os grandes vilões – incluindo nomes de políticos e empresas do ramo alimentício. Além disso, ele não se intimida ao dizer que o Acordo de Paris (assinado por líderes de vários cantos do mundo) não pode ficar restrito apenas ao papel; pelo contrário, ele deve abranger medidas concretas que precisam ser implementadas o quanto antes.

Já disponibilizado no National Geographic Channel, além de outras plataformas, Seremos História? é, antes de um documentário muito bem produzido, um poderoso alerta a todos nós: cada um é responsável, em menor ou maior escala, pelo que acontece no mundo e todos podemos fazer a nossa parte. A conscientização aqui é fundamental. A pergunta do título é interessante e é justamente o que esta produção deseja: nos fazer refletir se, afinal, seremos capazes de salvar o planeta (e a nós mesmos) ou nos deixaremos ser consumidos por nossa própria arrogância.

Terra Estranha (Strangerland)

A família Parker acaba de se mudar para o deserto australiano de Nathgari. Eles não aparentam estar muito felizes com a nova casa, mas a princípio o espectador não enxerga ali nada fora do comum: um pai autoritário, uma mãe condescendente, a adolescente rebelde que implica com o irmão menor – enfim, a estrutura familiar “típica” de tantas outras histórias que vemos por aí. Aos poucos, no entanto, percebemos que algo estranho acontece entre eles – sensação que se potencializa quando os filhos do casal desaparecem subitamente e sem deixar rastros.

01

Terra Estranha é a estreia de Kim Farrant na direção de um longa-metragem. Amparada pela boa fotografia de P.J. Dillon (responsável pela captação de ótimas panorâmicas) e a trilha perturbadora de Keefus Ciancia, Terra Estranha não chega, entretanto, a empolgar e despertar atenção. O argumento tenta escapar da tradicional narrativa que acompanha um desaparecimento, porém muito da trama é comprometido pelo fato de o roteiro não nos fornece respostas, mas insinuações acerca das personagens. Inúmeras pontas soltas surgem fazendo com que a história visivelmente perca seu fôlego e nem mesmo os protagonistas vividos por Nicole Kidman e Joseph Fiennes parecem ter qualquer sintonia. Para completar, o filme recorre a vários clichês para provocar um suspense que não convence (um objeto da pessoa desaparecida que é encontrado, uma ligação silenciosa, uma mão que bate no vidro do carro inesperadamente, etc.). Em uma única cena de maior comoção, vê-se a silhueta de Kidman na penumbra da noite, em meio ao deserto, ecoando aquele grito que só uma pessoa em desespero é capaz de ouvir. A mãe está em busca de uma solução – e é realmente frustrante ver que Terra Estranha se encerra sem fornecê-la.

O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children)

Não é difícil entender as razões que levaram Tim Burton a estar à frente de um projeto sobre seres peculiares – afinal, o próprio diretor é um tipo muito peculiar de artista. Sua obra é identificável logo à primeira vista, ainda que o conjunto dela não seja necessariamente excepcional – na verdade, Burton vem colecionando algumas produções bastante questionáveis nos últimos anos, deixando o espectador e a crítica em dúvida com relação aos seus dotes como cineasta. Mas é inegável que O Lar das Crianças Peculiares, seu mais novo trabalho, é aquilo que podemos chamar de exercício de estilo, como veremos mais adiante.

A história é adaptada do best-seller O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, romance escrito pelo norte-americano Ransom Riggs, lançado em 2011 e que se tornou uma febre mundial. Com ares de franquia teen, a trama principal da série acompanha um grupo de crianças com poderes especiais – entre eles, o jovem Jacob (Asa Butterfield). Após a morte repentina de seu avô (um veterano de guerra cheio de casos para contar), o adolescente segue algumas pistas e viaja até o País de Gales para visitar o orfanato de que tanto seu ente falecido lhe falara quando ainda era criança. Ao chegar lá, Jacob descobre uma fenda temporal que o transporta ao ano de 1943, onde ele conhece as crianças que dão o título ao longa e sua guardiã, a Srta. Peregrine (Eva Green). No entanto, uma monstruosa ameaça paira sobre o local – recaindo sobre Jacob a responsabilidade de proteger aquele grupo.

02

Deixando de lado o material original (afinal, para aqueles que leram o livro, são nítidas as variações feitas pelo roteiro do próprio Ransom Riggs em parceria com Jane Goldman), O Lar das Crianças Peculiares sofre de um evidente desequilíbrio narrativo. A primeira parte da fita praticamente se concentra em Jacob e nas demais crianças, desenvolvendo apropriadamente cada uma delas (o que, consequentemente, faz com que o ritmo neste momento seja mais lento). Apesar do excesso de personagens, cada um deles ganha tempo suficiente em cena para ter suas peculiaridades devidamente exploradas. Curiosamente, no entanto, é a personagem de Eva Green quem ganha menos destaque, resumindo-se apenas a uma mera coadjuvante. Green só aparece na tela com a função de “explicar” os fatos (muitas vezes de forma desnecessariamente didática) e agregar um ar de mistério ao ambiente – o que até confunde o espectador quanto ao seu real caráter. Mais decepcionante ainda, o vilão interpretado por Samuel L. Jackson exagera na canastrice, passando pouca credibilidade para quem assiste.

Mas se o filme demora a acontecer, ele não para em sua parte final (como se para recuperar o tempo perdido). Aqui, encontramos as melhores sequências, como o confronto entre as crianças e os etéreos, com direito inclusive a um exército de caveiras. A partir daí, a ação se acelera, ainda que algumas inverossimilhanças surjam aqui e ali. Jacob não chega a ser um grande herói (ele não é nada além de um garoto comum de sua idade) e é difícil digerir o romance entre ele e a bela Emma Bloom (a mesma que, décadas atrás, se envolvera com seu avô). O lance das fendas temporais também soa confuso em alguns instantes, sendo mencionado como se apenas para encontrar soluções (fáceis) para o argumento.

02

Mas se há deslizes no roteiro, eles são compensados com o aspecto visual do longa. O universo de Tim Burton está impresso ali, desde o jardim do orfanato até o parque de diversões macabro, por exemplo. O design dos monstros é incrível e os efeitos especiais são muito “pés no chão” – para se ter noção, Burton recorre até a técnica de stop motion (o que, de imediato, nos faz recordar de Beetlejuice, repare). Curiosidade: Tim ainda dá o ar da graça, rapidamente – mas para conferir isso você terá que prestar atenção.

O desfecho de O Lar das Crianças Peculiares até abre ponta para uma continuação, mas o arco dramático é fechado sem muita dificuldade. O filme perde bastante pela sua instabilidade narrativa, é verdade, mas compensa por outros pontos, em especial pela sua estética irrepreensível. Talvez O Lar das Crianças Peculiares sofra com seu público alvo, que não é bem definido – afinal, do ponto de vista literário, a história é simples para os pequenos, mas Burton não economiza no clima gótico e assustador, o que pode afugentar naturalmente os mais jovens. O Lar das Crianças Peculiares é um filme muito agradável, com potencial para uma franquia de sucesso, mas não é, necessariamente, peculiar como o título sugere. Pelo contrário: é um puro exercício de estilo de seu idealizador, cuja peculiaridade já está para lá de manjada…

Sangue do Meu Sangue (Sangue del mio Sangue)

Segundo a lei cristã, aquele que tira a própria vida não tem direito ao reino dos céus – logo, a “responsabilidade” pelo suicídio de um padre na cidade de Bobbio, na Itália, em pleno século XVII, recai sobre a freira Benedetta, acusada de ser sua amante. Para impedir que o pároco seja enterrado como um anticristão, seu irmão gêmeo Federico vai até o convento com a missão de fazer com que Benedetta confesse a culpa, mas o jovem também acaba se deixando seduzir pelos encantos da moça.

A princípio, Sangue do Meu Sangue, escrito e dirigido por Marco Bellocchio, não é um filme muito claro, apesar de inquietante. O tom da narrativa é um tanto soturno, melancólico, triste – condizente com a história de amor que chegou a um fim trágico. Ambientado no ápice da dominação cristã, sua temática, no entanto, se mostra incrivelmente atual, ao criticar a influência da Igreja Católica e o machismo de nossa contemporaneidade. O destino de Benedetta foi o mesmo de milhares de mulheres – e, sob certo aspecto, ainda está presente em nossos dias. A cena em que a freira é lançada ao rio para assumir ser uma bruxa é simplesmente arrebatadora e ricamente significativa.

01

Entretanto, a partir da segunda metade da fita, a trama muda de cenário e é transportada para os dias atuais, onde um milionário russo pretende adquirir o imóvel que fora o convento de outrora. Lá agora mora uma figura misteriosa, o Conde, um senhor com traços vampirescos que deseja impedir a venda do local, como forma de preservar sua história e os segredos daquele prédio. O filme, então, muda também o seu tom inicial e se torna um tanto confuso, oscilando gêneros como a comédia pastelão e o drama. Entretanto, vale ressaltar que mesmo que esta segunda parte não chegue perto da magnitude da primeira, Sangue do Meu Sangue ainda continua despertando a curiosidade do espectador ao trazer uma nova atmosfera à narrativa e um argumento que, metaforicamente, critica a decadência da Itália, em seus aspectos político, econômico e societário.

Aplaudido de pé no Festival de Veneza, Sangue do Meu Sangue apresenta ainda um desfecho primoroso, que praticamente traduz tudo aquilo que seu idealizador pretende mostrar em poucas imagens. Amparado por uma bela fotografia e uma trilha sonora  bem executada, o longa de Marco Bellocchio consegue transitar com facilidade nas ideias que propõe, além de trazer à tona debates necessários sobre instituições questionáveis – e isso torna o trabalho de Bellocchio altamente apreciável.

“The Black Parade”: Disco Icônico do MCR Completa 10 Anos

01Pois é, meu amigo, tire o delineador e a chapinha da gaveta porque o “emo” que vive dentro de você vai falar mais alto! The Black Parade, álbum que foi o divisor de águas na carreira da banda My Chemical Romance, acaba de ser relançado em uma edição para lá de especial em comemoração aos seus 10 anos de lançamento.

Originalmente lançado em outubro de 2006, The Black Parade, sem sombra de dúvidas, é o disco mais expressivo do quinteto estadunidense – e certamente um dos trabalhos mais importantes do cenário rock. O conceito desta ópera-rock é a maneira como a morte chega a cada um através da lembrança mais forte que esta pessoa tem de sua existência. O protagonista da história é “O Paciente”, um homem em estado terminal devido a um câncer. Prestes a falecer, ele recebe a visita da morte através de recordações de um desfile que o mesmo presenciou quando criança ao lado do pai. Outros personagens compõe o elenco desta trama, como The Mother War, The Fear ou The Regret.

O trabalho chega novamente às lojas com um material inédito: um disco bônus intitulado Living With Ghosts, que contém 11 faixas, entre demos inéditas e gravações da pré-produção do original – além das 14 canções já conhecidas do público, entre elas os hinos Welcome to The Black Parade (primeiro single), Famous Last Words, I Don’t Love You e a incrível Mama – que conta com a participação da cantora Liza Minnelli.

Ah, e tem mais: o registro também ganhou um tributo pela revista Rock Sound, que homenageou o grupo com o Rock Sound Presents: The Black Parade, onde diversos artistas (como Escape The Fate, Crown The Empire e Asking Alexandria) apresentam suas versões para as músicas que compõe o álbum.

Então, agora é correr e garantir o seu – e, claro, ressuscitar o “emo” em você!

O Homem Que Viu o Infinito (The Man Who Knew Infinity)

01Ambientado às vésperas da Primeira Guerra Mundial, no início do século XX, O Homem Que Viu o Infinito acompanha a trajetória do indiano Srinivasa Ramanujan (Dev Patel), um dos maiores matemáticos de sua época, que contribuiu ativamente em inúmeras áreas do conhecimento aritmético, como a teoria dos números, séries infinitas, frações continuadas, entre outros. Nascido em uma pequena cidade da Índia e sem nenhuma formação acadêmica, o jovem é incentivado a publicar seus trabalhos na Inglaterra, contando para isso com a ajuda do professor G. H. Hardy (Jeremy Irons) que, confiando em seu potencial, leva o rapaz à universidade.

A verdade é que a cinebiografia não é um gênero fácil e merece cuidado – em especial quando se traz às telas uma personalidade não muito conhecida. Mas também é fato que, quando bem executada, uma cinebiografia costuma arrancar elogios da crítica. As últimas edições do Oscar, por exemplo, tiveram bons representantes deste tipo de narrativa em suas principais categorias. Em 2011, O Discurso do Rei foi o grande vencedor da noite; em 2014, foi a vez de 12 Anos de Escravidão faturar o prêmio mais disputado do evento; no ano seguinte, O Jogo da Imitação e A Teoria de Tudo concorriam ao título de melhor filme (e, curiosamente, estas duas produções são bem “parecidas”: a história de vida de um gênio) – O Homem Que Viu o Infinito parece justamente apostar nessa temática.

Infelizmente, O Homem Que Viu o Infinito fica à beira de todas as produções citadas anteriormente. O roteiro não apresenta um retrato mais intimista de seu protagonista, limitando-se a tratar de suas descobertas com total superficialidade. Concordo, como alguns possam argumentar, que se tratando de um filme sobre matemática qualquer abordagem mais “específica” possa dispersar o espectador, mas isso não é desculpa para mostrar seu trabalho de forma tão medíocre. Além disso, o personagem principal não despertar muita empatia por duas razões simples: seu ego e o fato de se colocar constantemente como vítima. O filme tenta trazer à tona os problemas de racismo e xenofobia comuns àquela região durante o período, mas o público já está tão indiferente a Ramanujan que isso fica quase ignorado. Com isso, é o antagonista da trama que desperta curiosidade – um professor ateu, duro e disciplinado, mas nem por isso vilanizado (felizmente, fugindo dos estereótipos).

02

O Homem Que Viu o Infinito tem o perfil de filme que chama a atenção de qualquer produtor devido ao seu imenso potencial. O grande problema é que o longa mira em algo do tipo Uma Mente Brilhante, mas acaba falhando nessa empreitada, tanto em técnica (que montagem mais estranha, hein?) quanto em conteúdo. O Homem Que Viu o Infinito peca por não sair de seu lugar comum, de sua mesmice, limitando-se totalmente a contar uma história – e nem isso consegue fazer direto.