Hitchcock (Hitchcock)

Apesar de já ter estreado há algum tempo no circuito norte-americano, Hitchcock – a cinebiografia do diretor homônimo falecido em 1980 – chega, finalmente, às salas nacionais nesta semana. Baseado no livro Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello, o filme não se prende à biografia completa do artista, mas foca suas lentes no conturbado período que Hitchcock viveu durante as filmagens de Psicose, hoje considerada uma de suas maiores realizações.

O filme começa com um Hitchcock em crise, após as duras críticas que seu último trabalho recebera, Intriga Internacional, de 1959 (curiosamente, hoje é um título cultuado em sua filmografia). Sem nenhum projeto à vista, ele procura uma nova história que possa provar a todos que ele ainda é um grande cineasta, quando tem a ideia de levar às telas a adaptação da trama de Robert Bloch. Hitchcock não apenas comprou os direitos do livro que origem ao filme, mas gastou também uma pequena fortuna adquirindo todos os exemplares disponíveis no mercado para que nenhuma pessoa conhecesse seu desfecho até a estreia do longa. Sem o apoio dos estúdios, o diretor teve praticamente que produzir o filme sozinho – chegando inclusive a hipotecar sua residência.

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Embora Anthony Hopkins entregue uma performance competente, seu talento é um tanto ofuscado por um detalhe: a maquiagem. Se nas primeiras imagens promocionais não havia dúvidas de que Hopkins era o próprio Hitchcock, em cena o ator acaba escondido por trás da maquiagem em excesso – que chega até a camuflar as expressões do intérprete. Com isso, o destaque fica a cargo de Helen Mirren, em uma das melhores atuações de sua carreira. Há quem diga que Hitchcock é, na verdade, um pretexto para se exaltar Alma Reville, esposa de Alfred e roteirista que foi durante muito tempo o pilar de sua obra. Sua contribuição à filmografia do diretor foi essencial. Com uma atuação discreta porém segura, Mirren faz com que a figurade Hopkins se torne quase uma espécie de macguffin (termo que o próprio Hitchcock criou para explicar aquilo que, em seus filmes, motiva seus personagens).

Também é destacado no filme, ainda que timidamente, os vínculos de Hitch com suas protagonistas (loiras, obviamente): enquanto mantém uma relação pouco amistosa com Vera Miles (Jessica Biel) – que teria desistido de trabalhar com ele às vésperas do início das gravações de Um Corpo Que Cai, deixando Hitchcock aos berros – , seu relacionamento com Janet Leigh (Scarlett Johansson) se mostra mais equilibrado. Reza a lenda que Janet, protagonista de Psicose, alega inclusive não ter tido grandes dificuldades para filmar a clássica cena do chuveiro.

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No final, Hitchcock cumpre sua promessa, principalmente ao considerarmos que trata-se do longa de estreia de Sasha Gervasi – que entrega uma obra que está longe de ter o brilhantismo de seu protagonista, mas também não decepciona. Apesar de não ter tido toda a repercussão nas bilheterias quanto esperava-se, o filme acerta ao explorar um capítulo específico (e muito curioso) da biografia de um dos maiores gênios do cinema em todos os tempos.

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild)

Benh Zeitlin já havia sido elogiado por seu premiado curta Glory at Sea, de 2008. Na obra, o cineasta acompanha a rotina dos moradores de alguns pontos do estado de Louisiana, EUA, após a passagem do furacão Katrinha, que devastou bairros colocando-os debaixo de água. Em Indomável Sonhadora, Benh segue uma premissa semelhante: aqui, acompanhamos os moradores da “Banheira”, uma ilha no meio de uma barragem que fica submersa após a passagem do furacão. Apesar do local ser fictício, ele é claramente inspirado em uma ilha do Estado que a cada dia que passa fica mais transbordada devido às catástrofes naturais.

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Assim como os moradores da ilha real, os habitantes da Banheira também se recusam a sair de suas casas. Um desses é Wink, um doente cardíaco e pai da pequena Hushpuppy, a protagonista da história. Ao longo do filme, o pai busca ensinar a garota a sobreviver dentro do cenário caótico em que estão inserido (afinal, o pai tem sabe que, cedo ou tarde, sua doença o levará à morte). Vivendo quase como animais (entre o trailer e a casa destruídos), ambos vivem uma relação ilógica e, muitas vezes, sem sentido, dentro de um ambiente marcado por crendices e imaginações, que são, na verdade, a única forma de resistir à pobreza e precariedade do local.

As reações de Wink e Huchpuppy são inesperadas – como as reações de todos os moradores da região. A relação entre Wink e sua filha é intensa: mesmo nos momentos em que deseja ser carinhoso, o pai (devido às próprias dificuldades da vida) só consegue expor seus sentimentos com brutalidade. Sua forma de amar e expressar seu amor pressupõe preparar sua filha às atrocidades da vida, transformando-a em um ser capaz de vencer as adversidades que ainda estão por vir.

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É nessa fábula moderna que surge a figura de Quvenzhané Wallis, a garota que tinha apenas 6 anos quando gravou o longa. Todo o filme é rodado assumindo-se o seu ponto de vista, expondo toda a percepção infantil sobre a realidade que a assola – realidade que, ainda que exagerada em alguns momentos, cria um filme altamente sensorial, onde o melhor a ser feito é abandonar as convenções e as lógicas e se entregar às emoções. Não apenas Wallis atrai os olhares, mas também o ator Dwight Henry, o pai da garota. Ambos são atores de primeira viagem, desconhecidos e sem nenhum treinamento formal – assim como boa parte do elenco. Concorrendo ao Oscar de melhor filme, direção, atriz principal (Wallis é a mais jovem concorrente nessa categoria) e roteiro adaptado (que é assinado pelo próprio diretor em parceria com a autora Lucy Alibar), Indomável Sonhadora é, de longe, um dos melhores filmes desta temporada.

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)

No início do século XXI, nenhum acontecimento afetou tanto o mundo como o ataque terrorista aos EUA no dia 11 de setembro de 2001 – e A Hora Mais Escura, novo filme de Kathryn Bigelow, procura esclarecer os questionamentos referentes ao ocorrido.

Dirigido por Bigelow (primeira mulher a faturar um Oscar de melhor direção, em 2006 com Guerra ao Terror), A Hora Mais Escura resume em pouco mais de duas horas e meia os dez anos da busca incansável do governo norte-americano ao criador da rede terrorista Al-Qaeda, Osama Bin Laden – desde os ataques terroristas em 2001 até sua suposta morte, em maio de 2011, em uma operação da CIA. Apesar de ser abertamente ficcional, o longa recria um acontecimento real, quase em um estilo documentário, o que permite que A Hora Mais Escura funcione como um filme de ação não convencional.

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O primeiro debate aqui – e que já levantou inúmeras polêmicas nos EUA – são as cenas de torturas, que seriam utilizadas pelos agentes da CIA para conseguir informações dos terroristas apreendidos. Bigelow foi duramente criticada e rebateu as opiniões de forma simples: o fato de mostrar tortura em seu filme não implica que seja a favor desses métodos (algo como Tarantino em sua obra, sobre a questão da violência exacerbada). Bigelow alega que fazer guerra não é legal e pode trazer inúmeras consequências – mas assumir que seu país pratique tais atos de crueldade mesmo que para conseguir informações que desvendem o paradeiro de seu maior inimigo é, no mínimo, arriscado. Bigelow não poupa nos detalhes – o que rendeu, inclusive, uma intervenção da CIA, que teria se incomodado com as acusações.

Polêmicas à parte, A Hora Mais Escura tem um ritmo agradável. As imagens começam com a tela em preto e os diálogos das vítimas do 11 de setembro – o que causa uma certa aflição e angústia logo de início. Depois disso, a cineasta procura recriar os principais detalhes da operação que teria matado o líder terrorista. É um típico filme de ação, com algumas diferenças. Em A Hora Mais Escura, o inimigo nunca é revelado. Ele é representado apenas através de diálogos e suposições – mesmo na cena final, quando o terrorista é finalmente atingido, Bigelow tem um cuidado para não expor sua figura, apenas insinuar que o mesmo está morto e o objetivo da missão foi alcançado. O inimigo é oculto, mas está ali a todo momento – e o roteiro bem escrito de Mark Boal consegue manter esse suspense durante toda a projeção.

Outro ponto que difere A Hora Mais Escura dos demais produtos do gênero de ação é que tudo é centrado nas ações estratégicas do grupo norte-americano. Poucas são as sequências de tirar o fôlego – que só passam a ganhar “corpo” a partir dos 100 minutos, praticamente. Antes disso, pode até haver quem se incomode com o excesso de informações lançadas ao público. Esses detalhes podem tornar o filme um tanto “massante”, mas contribuem para formar a personagem principal, interpretada por Jessica Chastain (de A Árvore da Vida), inspirada em uma agente real da CIA que teria dedicado anos de sua vida à captura de Bin Laden. Maya (nome fictício) chega a uma base secreta da CIA no Oriente Médio de forma tímida e discreta, mas aos poucos se torna uma das mais importantes peças no jogo, fazendo com que a busca por Bin Laden vire uma missão quase pessoal, para o qual dedicará toda sua vida (e que trará, consequentemente, um certo vazio após o término da jornada). A personagem claramente vai crescendo no decorrer da história e, mesmo que muitos critiquem a indicação de Jessica ao prêmio de melhor atriz, é fato que seu rostinho angelical e suas poucas expressões contribuíram para o personagem.

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Desenrolando quase como um suspense investigativo, A Hora Mais Escura recria ainda a captura de Bin Laden em uma sequência que não te deixa desgrudar os olhos da tela. As imagens indefinidas e esverdeadas (simulando a visão dos soldados na missão) percorrem todos os cômodos do esconderijo do terrorista (uma locação quase do tamanho real do local foi construída para as gravações). Apesar de não trazer cenas de tiroteio ou sequências de ação espetaculares, Bigelow consegue transmitir a tensão da equipe na missão que supostamente culminou com a morte de Osama. E é esta suposição que levanta o maior dos debates, provavelmente. Osama está morto? Há quem duvide disto. Há quem acredite que isso não passou de puro teatro para popularizar ainda mais o então presidente norte-americano, ou para mostrar ao mundo o quão “foda” são os EUA. De qualquer forma, A Hora Mais Escura ousou em levar isso ao cinema. O roteiro, que inicialmente abordaria apenas algumas tentativas falhas do governo norte-americano durante a guerra, sofreu alterações após a notícia da morte do terrorista. De qualquer forma, A Hora Mais Escura funciona como um bom filme de ação e suspense – mas serve principalmente para massagear o ego norte-americano. No melhor estilo “herói contra vilão”, o inimigo é alcançado e o país está a salvo. E isso é tudo que importa.

Django Livre (Django Unchained)

Em um curto espaço de cerca de 20 anos, Quentin Tarantino se tornou um dos cineastas mais cultuados de sua geração. Desde sua estréia com o renomado Cães de Aluguel, Tarantino coleciona títulos altamente elogiados pela crítica e público, criando um estilo que tem influenciado muitos outros artistas. Não seria muita surpresa, portanto, que Django Livre, seu mais recente trabalho, fosse recebido com tanto entusiasmo pela comunidade cinéfila. E as expectativas foram altamente atendidas.

Django Livre, como afirmou seu próprio diretor, é a segunda parte de uma trilogia que teria se iniciado com Bastardos Inglórios, de 2009 – sim, o filme sobre nazistas e como matar nazistas que fez a crítica cair de joelhos perante Tarantino. Passado dois anos antes da Guerra Civil norte-americana (que trouxe a liberdade para os pretos ainda escravizados no sul dos EUA), Django Livre trata um dos assuntos mais delicados da história norte-americana: a escravidão. Assim como em Bastardos Inglórios, Tarantino usa um polêmico período histórico para criar uma  sequência que, apesar de ficcional, é uma provocante obra política.

5Django é escravo de uma fazenda sulista nos EUA que, após uma tentativa de fuga, é separado de sua esposa e levado a leilão em outra cidade. Durante esse percurso, é “comprado” e alforriado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz, que tem interesse no escravo para encontrar um trio de criminosos. Django é instruído por Schultz na “arte” de capturar bandidos; percebendo seu potencial, o mestre propõe a Django uma parceria que será recompensada com o resgate de sua mulher, que agora pertence ao previsivelmente sádico Calvin Candie, o proprietário de uma rica e próspera fazenda de algodão.

Algo que me assustava antes de assistir a Django Livre era sua classificação. Fiquei com certo receio pelo fato da trama ser recomendada para maiores de 16 anos (afinal, os trabalhos menos badalados de Quentin, Jackie Brown e Kill Bill Vol. 2, tem classificação de 14 e 16 anos, respectivamente). Isso me deixava com a orelha em pé quanto aquilo que é a marca registrada de Tarantino: a violência. Filmes de Tarantino são violentos e, exatamente por isso, atraem nossa atenção. Mas, felizmente, ela está presente (e bem inserida) no filme.

3A violência já se inicia com a quantidade de vezes em que a palavra nigger é pronunciada no longa (nigger é uma expressão de desprezo, altamente racista e pejorativa). Muitos já soltaram críticas ao diretor por este exagero – mas é este o termo realmente usado pelos senhores de escravos naquela época para se referir às suas “propriedades”. Daí, como se não bastassem, partem para criticar o excesso de cenas de violência na obra. Com toda a honestidade, Django Livre é muito mais violento por seus diálogos do que por suas sequências visuais. Se em Pulp Fiction temos o estupro de um homem ou em Bastardos Inglórios a retirada de escalpos nazistas, o mais “visualmente” violento que temos em Django Livre é um homem sendo atacado por cães – ainda assim com vários cortes rápidos, o que ajudou a amenizar o sofrimento ocular. Aí você pergunta: “Mas e a quantidade de tiros disparados? E os corpos e sangue esparramados pelo chão? E a carnificina das cenas finais?”. A resposta é simples: sim, há inúmeras cenas deste tipo – e o combate entre Django e os capangas de Calvin, dentro da casa da fazenda, é um espetáculo visual (a casa inteira é banhada a sangue, que é esguichado sem o menor pudor a cada bala que atinge a carne humana, em um típico excesso tarantinesco).

O elenco está inspiradíssimo. Jamie Foxx, um ator de talento instável, consegue fazer o protagonista de forma brilhante. Discordando de alguns, Jamie tem uma bela atuação. O que acontece é que é difícil se destacar quando se trabalha ao lado de Christoph Waltz (que, quando inspirado, faz qualquer um ser mero coadjuvante quando entra em cena). O ator austríaco (vencedor do Oscar de melhor coadjuvante em Bastardos Inglórios), cria um Schultz divertido e humano (“Agora que te alforriei, me sinto meio responsável por você.”), mas sanguinolento e frio – personagem tipicamente tarantinesco. Mesmo o veterano Samuel L. Jackson está impagável na pele do mordomo Stephen, enquanto Leonardo DiCaprio nos entrega um personagem que causa asco logo de imediato.

8Django Livre se firma como uma excelente obra de arte cinematográfica. Indicado a 5 Oscars (incluindo melhor filme e melhor roteiro original), curiosamente é um dos filmes mais cômicos do diretor, apesar da trama abordar um tema polêmico. No entanto, não é livre de defeitos, sendo o principal dele sua edição (claramente afetada pela ausência de Sally Menke, parceira de Tarantino em seus filmes anteriores), que prejudica muito o andamento da história, dando-nos a sensação de que o filme se estende mais do que deve. A cena do tiroteio na mansão (um falso clímax da narrativa) termina para o desenvolvimento de um desfecho lento e morno, que poderia ter sido extirpado da fita, em minha visão. No entanto, Django Livre consegue se destacar como um de seus melhores filmes, atestando definitivamente seu talento e criatividade.

Frankenweenie (Frankenweenie)

Dizem por aí que Tim Burton não produz um bom filme desde 2007, quando dirigiu o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, longa que recebeu boas críticas mas não empolgou tanto o público nas bilheterias. De fato, as produções que se seguiram não foram as mais felizes para o cineasta. Alice no País das Maravilhas recebeu uma enxurrada de críticas negativas (apesar de ser uma das maiores bilheterias da história – em boa parte devido ao uso do 3D), enquanto Sombras da Noite tem a pior aprovação das fitas burtonianas. Entretanto, se há um gênero cinematográfico que Burton conhece bem é a animação – o que explica o frisson do público pelo lançamento de Frankenweenie.


Frankenweenie
é baseado livremente no curta  homônimo dirigido pelo próprio Tim Burton em 1984. Originalmente filmado em live-action, o curta não teve uma recepção calorosa na época pelos estúdios Disney, que produziram o projeto mas não lhe deram a devida importância. Anos depois,  Burton traz de volta às telas a história de um garoto que perde seu cão Sparky em um trágico atropelamento. Inconsolado com a perda do melhor amigo, o garoto tenta ressuscitar seu cão através de experimentos científicos, motivados pelas aulas de ciência do colégio.

Rodado em stop-motion e totalmente em 3D, Frankenweenie é, talvez, o filme que melhor traduza o universo de Tim Burton até aqui. Há inúmeras referências ao universo burtoniano, a começar pelos personagens do longa, que são definições quase explícitas dos rascunhos do diretor. Um deles, por exemplo, foi retirado de seu livro de poemas O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra. A fotografia em preto e branco também remete aos filmes de terror B que Tim Burton tanto admirava quando criança. E quem não pensou em Vincent Price quando viu a cara do professor de ciências do garoto Victor?

O roteiro foi adaptado sem perder a essência do original, com uma estrutura clara e concisa – a história ora comove, ora faz rir, ora faz chorar, ora dá medo (quebrando a cara de muitos que acreditavam que Burton não seria capaz de segurar quase 1 hora e meia de animação a partir de um curta com cerca de 30 minutos). Além dos personagens já conhecidos, novos tipos são introduzidos, com tramas que agregam à linha narrativa principal, tornando-a muito mais envolvente.

Frankenweenie é um dos retratos mais fiéis da obra burtoniana. Além disso, este retrato tem qualidade cinematográfica indiscutível, mostrando que o cineasta ainda está em boa forma – e é por isso que pode se dar ao luxo de realizar o projeto que quiser, sem medo de represálias. O que vai ser daqui pra frente, não se sabe. Mas Frankenweenie é, de longe, um dos melhores filmes de seu idealizador até aqui – além de se sobressair, individualmente, como uma grande animação.

Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary)

O jornalista norte-americano Hunter S. Thompson, que se suicidou com um tiro de espingarda em fevereiro de 2005, aos 67 anos, escreveu seu romance The Rum Diary durante a década de 1960, com seus vinte e tantos anos. Entretanto, o livro só foi publicado em 1998, ano em que – coincidentemente ou não – seu livro Fear And Loathing in Las Vegas foi adaptado para o cinema pelo “surrealista” Terry Gilliam (do mais recente O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus).

Os livros possuem algumas características em comum. Primeiro, acompanham algum jornalista jogado em uma região desconhecida e que passa por situações regradas aos mais diferentes tipos de drogas (lícitas e ilícitas). Segundo, o jornalista em questão é o alter-ego do próprio Thompson, notório consumidor de drogas e bebidas e criador do estilo de jornalismo gonzo (estilo no qual não há uma distinção clara entre ficção e não-ficção, levando muitas vezes o autor a participar da história como sujeito da narrativa).

No entanto, enquanto em Fear And Loathing… o alter-ego de Thompson já está em sua fase mais absurda (quando o autor usava e abusava das mais diversas substâncias químicas), The Rum Diary apresenta o jornalista em sua primeira fase, ainda no início de carreira – um escritor ainda como um mero coadjuvante, por vezes em tom até mesmo romanesco, como o próprio Thompson se assumiu.

Bom, tudo isso é impontante dizer antes de falar sobre Diário de um Jornalista Bêbado, adaptação cinematográfica de The Rum Diary, que estreou no país nesta semana. Na trama, Paul Kemp é um jornalista que vai trabalhar em um jornal à beira da falência em Porto Rico. Kemp, um alcoólatra inveterado, passa por divertidas situações ao lado de seus amigos – tão loucos quanto ele – e se apaixona por Chenault, namorada de um colega de profissão renegado, envolvido em um esquema de grilagem da terra. O protagonista é vivido pelo multifacetado Johnny Depp, que também encarnou o personagem principal em Medo e Delírio – título em português da adaptação de Terry Gilliam – e foi amigo pessoal de Thompson. Depp inclusive insistia para que a obra de Thompson fosse levada para o cinema e está entre um dos produtores do longa.

Diário de um Jornalista Bêbado não alcançou o sucesso esperado. A produção, que custou cerca de 45 milhões de dólares, faturou pouco mais de 13 milhões nos EUA. Depp foi duramente criticado ao dizer que o público não estaria acostumado a filmes inteligentes como este e não se importava com os números, pois o longa se tornaria um clássico daqui há alguns anos. A baixa popularidade prejudicou até mesmo a distribuição do projeto: originalmente lançado nos EUA em 28 de outubro de 2011, o filme só chegou agora aos cinemas nacionais. Entretanto, a fita está muito longe de ser o fiasco que dizem.

O filme é muito bem ambientado em um Porto Rico cheio de cores, alegre e descontraído, retratando muito bem o período (a história se passa na década de 1950), com seus habitantes e cultura locais, justamente na época em que a nação lutava por sua independência diante dos EUA, num país marcado por grandes desigualdades sociais (a cena em que um ricaço esnobe expulsa um grupo de nativos de sua “praia particular” é exemplo disso). Já a trilha sonora, característica e muito bem executada, foi uma das pré-indicadas para o Oscar 2012 – embora não tenha ficado entre as finalistas. No quesito atuações, vale destacar Depp, que parece muito à vontade com sua personagem. Não muito exagerado, Depp consegue segurar consideravelmente suas caras e bocas – elas estão lá, mas muito menos que em outros trabalhos. Destaque também para Amber Heard (sensualíssima no papel de Chenault), Richard Jenkins (como o chefe do jornal onde Kemp trabalha) e, chamando os olhares para si a cada aparição, Michael Rispoli, como Bob Sala (um dos amigos bizarros de Kemp).

Entretanto, o que mais se pode relevar em Diário… é sua direção. Bruce Robinson conseguiu criar um produto simpático – e este é o melhor adjetivo para o longa. Durante quase duas hora de projeção, Bruce não arrisca tanto na comédia física (na verdade, mostra-se bastante intimidado em relação a isso), mas cria cenas de pastelão divertidas avulsas. Embora não haja um roteiro com estrutura rígida, como se sem rumo (o que deixa a sensação de altos e baixos a todo instante), o filme é simpático justamente por não ser pretensioso.

Talvez a experiência Medo e Delírio tenha deixado o público com um pé atrás quanto a Diário de um Jornalista Bêbado. O filme de Gilliam, para muitos, é uma das piores obras cinematográficas de todos os tempos. Para outros, é considerado um clássico. Talvez Depp esteja certo: daqui há alguns anos, Diário… pode se tornar um daqueles filmes cults que são vendidos a preços exorbitantes a colecionadores fanáticos. Ele já tem um ponto que o ajuda: não é um blockbuster. Apesar do texto à deriva, o longa é um bom programa que pode ser consumido sem moderação.

A Mulher de Preto (The Woman in Black)

A Mulher de Preto conta a história de Arthur Kipps, um jovem advogado e pai viúvo, desestabilizado emocionalmente desde a morte de sua esposa, que viaja para uma cidade do interior da Inglaterra para cuidar dos papéis de um cliente falecido recentemente, dono de uma mansão. Lá, ele descobre que há o espírito de uma mulher que toda vez que é visto causa a morte trágica de uma criança da cidade. Mais tarde, Arthur descobre que o espírito apenas deseja vingança por conta da morte de seu filho, cujo corpo nunca fora encontrado.

O filme tem todos os elementos próprios deste tipo de película. Vamos lá: homem da cidade que não acredita nas crendices de pessoas simples do campo, confere; atmosfera sinistra, confere; história envolvendo o sobrenatural, confere; cenário do interior de uma Inglaterra no início do século XX, confere. Entretanto, nem mesmo estes elementos são capazes de impedir que A Mulher de Preto deslize e se torne uma quase furada.

A princípio, já somos apresentados claramente a uma falha na escolha do ator principal. Apesar do roteiro destacar a juventude de Kepps, Daniel Radcliffe é absolutamente muito jovem para o papel – além do fato de Radcliffe ainda estar muito vivo na memória dos fãs como o bruxinho Harry Potter, personagem principal de uma das maiores franquias do cinema. Radcliffe faz um tremendo esforço para o papel que, definitivamente, não foi feito para ele. Afinal, Daniel em nada se parece com um viúvo que tem um filho de cinco anos. A sensação é a de que estamos em uma montagem de teatro escolar, onde crianças e adolescentes fazem personagens adultos. Além disso, o rosto assustado de Radcliffe a todo instante é irritante – e essa foi a única expressão que o ator conseguiu fazer durante todo o filme.

Depois, o filme tropeça – e muito – no roteiro. A história em si tem um grande potencial, pois é um legítimo conto de fantasmas. O que acontece é que ela não decola: as sequências são longas e cansativas, com pouquíssimos sustos. sustos. Alem disso, a lógica com que Kepps descobre o “grande” mistério do fantasma é, sob certo aspecto, duvidosa (confesso que ri com a facilidade com que o advogado encontra o corpo do filho do fantasma), o que faz com que o filme caminhe para um final bem diferente daquilo que se espera – e que não deixa de ser decepcionante para o espectador.

Mas tudo isso pode ser, talvez, creditado à falta de uma direção madura: percebe-se que o diretor James Watkins não teve pulso forte para conduzir sua obra e não aproveitou o potencial da trama. Parece que não é apenas uma história sobre fantasmas. A direção, ao que tudo indica, também é difícil de enxergar.

Cisne Negro (Black Swan)

Quando li a sinopse de Cisne Negro, confesso que não me interessei imediatamente. Achei-o apenas mais um drama como tantos outros, que tentam prender a atenção do telespectador com histórias clichês sobre artistas que enfrentam uma má fase em sua carreira e buscam superação. A única coisa que me entusiasmou foi o fato do filme ter Natalie Portman como protagonista – pois além de acha-la talentosa, considero-a uma das mulheres mais bonitas do cinema. Entretanto, minhas expectativas foram superadas logo nas cenas iniciais da bela obra de Darren Aronofsky.

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Não se trata apenas de um filme qualquer: é um dos melhores dramas psicológicos da década. O longa conta a história de Nina, uma dançarina cuja marca é a perfeição. Após anos atuando em pequenos papéis, ela tem a grande chance de sua carreira ao ser escolhida para protagonizar o clássico O lago dos cisnes. Nina é a artista ideal para o papel de Cisne Branco: é doce, meiga, delicada; por outro lado, mesmo com toda sua técnica perfeita, ela é incapaz de interpretar com desenvoltura o Cisne Negro, que exige uma postura sensual, maligna, perversa, completamente oposta à sua personalidade.

O foco da narrativa persegue a trajetória de Nina ao compor essa personagem. Até então, tudo bem. É um percurso pelo qual muitos atores passam e também um tema já abordado outras vezes no cinema. Para recriar o Cisne Negro, ela tem de lutar contra forças que nunca havia enfrentado antes, como a pressão da mãe protetora ou o assédio de seu instrutor. Mas, principalmente, ela tem de enfrentar uma força maior: ela mesma. À medida que ela vence esses desafios, ela começa a encontrar os verdadeiros passos para sua dança. Ou seja, a superação na carreira só chega quando Nina consegue superar seus traumas pessoais, em uma guerra contra si mesma que é, por muitas vezes, dolorosa e sofrida.

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Nina é obcecada pela perfeição, pela técnica, pela ambição de ser uma protagonista, que é incapaz de perceber os limites que separam sonho e realidade – mudança constante no filme. E Natalie Portman não ganhou o Oscar de melhor atriz à toa. A transformação pela qual sua personagem passa no decorrer da trama (em curtos espaços de tempo) é absorvida e transmitida de forma tocante pela jovem atriz. É possível sentir cada dor, cada gota de sangue, cada suor que é derramado por Nina durante sua jornada. É como se Natalie também tivesse de superar suas próprias dúvidas e incertezas para compor esta que, ao que tudo indica, é a personagem de sua vida.

Destaque também para as atuações de Vincent Cassel (como o exigente coreógrafo de balé) e Barbara Hershey, que brilhou como a mãe de Nina, uma bailarina frustrada por ter de abandonar sua carreira para cuidar da filha. Inesperadamente, temos também uma Winona Ryder caótica, interpretando a veterana dançarina Beth, que também se torna uma das inimigas de Nina em seus pesadelos mais macabros. A trilha sonora é outro ponto forte, sendo indispensável para a caracterização da história.

Drama psicológico que surpreende e seduz ao mesmo tempo, Cisne Negro é mais do que uma simples lição sobre as dificuldades da vida e suas superações. Alguns o consideram até mesmo um thriller, pois a forma como a história caminha ao longo da película é assustadora. Com atuações brilhantes e direção impecável, Cisne Negro é uma metáfora sobre a condição do artista moderno e sua ambição pelo reconhecimento e, principalmente, pela perfeição, que pode levar a cada um de nós a descobrir sentimentos (e um outro lado de si) que podem nos surpreender.