Gravidade (Gravity)

Concorde você ou não, Gravidade, novo trabalho de Alfonso Cuarón, é um sucesso de público e crítica. É quase unanimidade que Gravidade vai aos poucos deixando as salas de cinema ao redor do mundo se consagrando como um dos melhores filmes do ano – e um dos mais elogiados produtos do gênero.

A trama de Gravidade se passa no espaço, na órbita terrestre, onde um grupo de astronautas e cientistas trabalha na instalação de novas peças do telescópio Hubble. Entre eles, estão a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock, de quem falaremos adiante…) e o comandante da empreitada, o “boa praça” Matt Kowalsky (George Clooney, mais simpático do que nunca). No entanto, algo inesperado acontece: uma nuvem de detritos espaciais atinge o equipamento principal, deixando Stone e Kowalsky à deriva no meio do nada – na imensidão e escuridão do espaço.

Há quem diga que Gravidade surpreende por conseguir prender a atenção do telespectador ao longo de sua uma hora e meia, ainda que seu roteiro seja bem econômico. Particularmente (e reforço o “particularmente” – já que aqui é questão de gosto mesmo…), a narrativa tem alguns momentos de marasmo, mas que não chegam necessariamente a cansar o espectador; pelo contrário, devido a sua curta duração, temos até mesmo a sensação de que tudo se passa rápido demais e que o filme poderia até mesmo ser estendido (o que Cuarón sabiamente não o fez).

03

Contando uma história de sobrevivência, Gravidade é centrado totalmente em Bullock. Sua atuação é louvável: simples, direta, nada exagerada. No decorrer da trama, ficamos atordoados com sua respiração ofegante – praticamente sentindo todo seu desespero ao se ver sozinha, perdida na escuridão e longe de casa. Uma das apostas mais cotadas para o Oscar de melhor atriz no próximo ano, Sandra carrega nas costas uns 80% do filme. Claro que não sentiríamos o desespero de Ryan sem o belíssimo trabalho de câmera que Cuarón faz – utilizando-se de longos planos sem cortes, que saltam de dentro para fora dos capacetes de suas poucas personagens, o que acentua a aflição que nossos protagonistas sentem durante sua viagem.

Gravidade é puro cinema espetáculo. E para este fim, é uma produção que funciona muito bem. Ele chega já mostrando para o que veio: impressionar. Apesar dos erros com a realidade espacial (já tem gente utilizando isso para criticar o longa) e o pouco desenvolvimento dado às suas personagens (tem até uma tentativa de drama ao abordar a perda da filha de Ryan, mas que falha miseravelmente…), nada importa se você ficar de olhos abertos durante toda a sua exibição. Cuarón dá uma aula de boa utilização de efeitos visuais e fotografia/edição impecáveis, criando ótimas sequências. Com poucos diálogos, o filme ainda consegue abordar uma história de superação como poucos outros. Ryan é um típico exemplo de personagem que apesar de ter perdido tudo, ainda decide viver – o que faz de Gravidade também uma bela metáfora para os nossos dias.

Blue Jasmine (Blue Jasmine)

Ofuscado pela estreia meteórica do segundo filme da franquia Jogos Vorazes (fato que é totalmente compreensível, cá entre nós…), Blue Jasmine, o novo longa do cultuado Woody Allen, chega aos cinemas brasileiros. Após uma temporada pela Europa (filmando em locais como Paris, Roma, Barcelona e outras cidades do velho continente), o cineasta retorna ao solo norte-americano – mas não a Nova York que tanto ama e que foi consagrada em sua melhor fase.

O cenário agora é São Francisco e é para lá que a protagonista da história, a bela Jasmine, é obrigada a se mudar após perder toda a sua fortuna (tudo por, em um momento de raiva, denunciar o marido por fraudes no setor de investimentos e ver todos seus bens confiscados pelo governo, afundando-se em dívidas intermináveis). Anteriormente acostumada com uma vida repleta de luxos, agora Jasmine é forçada a procurar abrigo na modesta casa de sua irmã Ginger – irmã esta que sempre foi desprezada por Jasmine justamente por ser pouco favorecida financeiramente (além de seu duvidoso gosto para homens).

01

Blue Jasmine é uma comédia de situações – e, assim sendo, a maior parte dos bons momentos da trama se desenvolvem justamente nos pequenos casos que ocorrem a Jasmine enquanto tenta se adaptar à sua nova realidade. Se antes Jasmine era a esposa de um investidor milionário que a mimava com as maiores regalias, agora Jasmine se vê trabalhando como recepcionista em um consultório dentário e sendo assediada pelo patrão. Se antes Jasmine servia jantares e festas a centenas de pessoas, agora é obrigada a aturar os sobrinhos berrando por toda a casa, enquanto assiste a irmã se relacionando com homens cujo tipo ela detesta.

Estruturando o filme com vários flashbacks (que ajudam a contar toda trajetória de Jasmine até sua decadência financeira – e por que não dizer moral?), Woody constrói uma narrativa não muito linear, que se equilibra com momentos muito bons e outros medianos. Como na maior parte dos filmes do diretor, temos uma trilha sonora deliciosa de se ouvir – Blue Moon ao piano fica irresistível. Quanto ao elenco, não se tem muito a dizer. Alec Baldwin, ligado no modo automático, é o marido picareta de Jasmine. Sally Hawkins, como a irmã medíocre de Jasmine, é tão cativante que chegamos a torcer para que ela realmente encontre um cara legal, como sua irmã sugere (e isso nos decepciona em determinado trecho da história). Mas o destaque é, inegavelmente, de Cate Blanchet. Positiva ou negativamente.

04

Filmada de forma exaustiva por Allen, Cate é a típica musa do cineasta. Jasmine é uma personagem de ambiguidade sem par: ao longo da história, achamos que ela é vítima e também a culpada pelos acontecimentos; achamos a protagonista inteligente e também burra; consciente, mas por vezes confusa; mas em todos os momentos, Jasmine é neurótica (como uma verdadeira protagonista de Woody Allen). Isso exigiu de Cate uma atuação cheia de nuances – suas oscilações de estado emocional se refletem na voz, nos gestos, nas expressões de seu rosto e mesmo na postura da atriz. No entanto, a interpretação um tanto quanto “narcisista” de Cate (é visível que ela pretende roubar a cena, não dando espaço para mais ninguém) sufocam a sua personagem – ou seria o excesso de ostentação de sua imagem por parte de Allen? Blue Jasmine é algo novo na carreira do diretor: é aqui que Allen mais se delicia com sua protagonista. É Cate que ocupa todos os espaços do filme.

Apesar de não ser o seu melhor filme em anos (e nem dar sinal de que Allen voltará a fazer algo grandioso como antigamente), Woody entrega uma obra que ainda faz uma alusão ao relacionamento da elite e o proletariado. Jasmine, excêntrica e mesquinha, é a cara da classe alta que tanto enxergamos no próprio Allen – afinal, note que mesmo sem aparecer na frente das câmeras, é possível enxergar traços de Allen em sua Jasmine. Ao longo de sua carreira, Allen filmou tramas “parecidas” e “pouco inovadoras” (sob certo aspecto) – perceba: sempre os mesmos tipos de personagens, as mesmas características, as mesmas ambições, as mesmas narrativas. Dessa forma, Blue Jasmine se destaca simplesmente por ser um filme de Woody Allen com a cara de Woody Allen.

Frances Ha (Frances Ha)

Frances Ha não tem começo, nem meio, nem fim; tampouco é um filme de gênero definido (não é bem uma comédia, nem um drama, nem um romance). Mas é inegável que o longa dirigido por Noah Baumbach (de A Lula e a Baleia) tem muito a nos dizer.

A protagonista é Frances, um retrato fiel da geração de jovens do início do século XXI. Ela não é a garota mais bonita, nem a mais inteligente, muito menos a mais rica; mas, como todos de sua idade, tem aspirações e sonhos – especificamente, sua maior ambição é a de integrar o time principal de uma companhia de dança onde é assistente e sair em turnê pelo país, dando-lhe melhores condições para viver em Nova York. Mas nem tudo são flores: apesar de almejar o reconhecimento profissional, ela não possui muito talento para tal; além disso, ela já está naquela idade em que, apesar de ainda se sentir jovem, o tempo já dá indícios de que está passando rápido demais e quando menos se esperar… simplesmente passou.

04

Frances, nossa heroína neste filme excessivamente nova-iorquino, foge um pouco do padrão das mulheres retratadas em Hollywood. Frances é a cara da juventude “problema” da nossa atualidade; uma personagem profunda e cheia de personalidade: positiva, bem humorada, consciente, amiga, fiel. Em certo momento, Frances confessa para Sophie, sua melhor amiga: “somos iguais a duas lésbicas juntas a muito tempo que não fazem mais sexo”. Atrapalhada, Frances em diversos momentos é como uma adolescente: vê tudo ao seu redor e sabe que precisa amadurecer, mas ao mesmo tempo tem medo dos rumos que a vida irá tomar.

Noah optou por trazer uma atmosfera “clássica” para a história – presente não apenas na escolha da fotografia em preto e branco (nos remetendo de imediato a Woody Allen em Manhattan), como também na trilha sonora, que vai do instrumental de Bach, Mozart e Georges Delerue (um dos maiores compositores da nouvelle vague) a hits que incluem Paul McCartney, The Rolling Stones e Harry Nilsson. Aliás, em uma das cenas mais deliciosas do filme, a protagonista (a irresistível Greta Gerwig, em ótima atuação) sai correndo e dançando pelas ruas nova-iorquinas embalada ao som de David Bowie e sua incrível Modern Love. Quer música mais propícia?

01

Frances Ha é um retrato dos nossos tempos. É uma narrativa sobre as relações humanas no cenário urbano atual, que analisa aquela fase da vida em que você fica meio perdido entre o que quer fazer e o que deve fazer. A identificação com Frances é imediata. Frances Ha, mais do que um filme de caráter “cool”, é uma fábula contemporânea sobre crescimento e realização dos sonhos – ou mesmo a necessidade de se assumir que alguns deles deverão ser abandonados.

Pedalando Com Molière (Alceste à Bicyclette)

A improvável amizade entre dois atores, Serge e Gauthier, é o fio condutor do longa francês Pedalando Com Molière. Por que improvável? Bom, enquanto o primeiro é um ator aposentado, desiludido com o showbiz e que abandonou a agitada vida artística parisiense para viver isolado em uma ilha francesa, o segundo é o protagonista de uma série de TV de sucesso, atuando em um projeto que, apesar de não lhe exigir tanto talento, lhe traz o status de artista mais bem pago do país.

01

Parceiros de longa data, Serge e Gauthier conhecem um ao outro como ninguém. Serge, que sofrera uma depressão que o obrigou a fugir dos palcos, vive tranquilo em sua solidão, longe dos holofotes. Sua paz é interrompida quando Gauthier (que agora é um astro da TV) o convida para, juntos, protagonizarem a peça O Misantropo, de Molière. Apesar da recusa inicial, Serge propõe que ambos passem alguns dias ensaiando a cena que abre a obra, revezando-se entre os papéis principais (Alceste e Philinte). Ao final dos ensaios, Serge dará a resposta sobre sua participação na produção – e é a partir deste momento que começa um jogo de poder e manipulação entre os dois amigos.

É justamente este jogo que garante praticamente toda a diversão do longa. A competitividade entre ambos (sempre tentando obter vantagem um sobre o outro) rende boas risadas, tornando Pedalando Com Molière um filme deliciosamente agradável de se assistir. Como todas as comédias de situações, as piadas do filme são extraídas de pequenas coisas (como um passeio de bicicleta ou um acidente em uma banheira de hidromassagem). Além disso, esses intérpretes possuem aspirações pessoais e artísticas diferentes (cada um deles encara a arte sob uma perspectiva) e que são bem exploradas pelo roteiro. Com ótimos diálogos entre os dois colegas (que se amam, se odeiam, se admiram, se abominam), o filme ainda apresenta alguns trechos da obra original de Molière, que são protagonizados pelos dois amigos em uma espécie de disputa artística (e pessoal, por que não?).

04

Com uma bela fotografia (resultado do trabalho de Jean-Claude Larrieu), Pedalando Com Molière ainda traz as atuações competentes de Fabrice Luchini e Lambert Wilson (respectivamente, Serge e Gauthier), que estão em ótima sintonia. No entanto, o excesso de tramas paralelas e personagens não muito bem desenvolvidos (como uma atriz pornô sem nenhuma veia artística ou uma italiana em processo de divórcio) faz com que o filme desvie um pouco a atenção do espectador. Problemas de roteiro a parte, o diretor Philippe Le Guay cria uma obra que, diferente das comédias norte-americanas, não se propõe apenas a fazer rir, mas também a fazer pensar. Com um desfecho um tanto quanto “doloroso” e que pega o espectador de surpresa (devido ao tom leve e festivo da trama até então), Pedalando Com Molière é um filme que comprova que nem tudo na vida é tão belo quanto a arte.

Closer: Perto Demais (Closer)

Closer: Perto Demais foi vendido como “uma história de amor madura”. Baseada na peça teatral de Patrick Marber, talvez esta seja a melhor definição do que o filme realmente é: uma trama de amor moderna – e, como sugere o título, uma olhada muito mais próxima nas fraquezas e problemáticas das relações humanas no nosso tempo.

A narrativa segue os encontros e desencontros de quatro personagens. Dan, um jornalista fracassado, cruza casualmente com a striper Alice, recém-chega dos EUA, em meio à agitação da capital britânica. Passado um tempo, Dan conhece Ana em uma sessão fotográfica e passa a se relacionar com a artista. Também de forma casual (através da troca de identidades em um chat na internet), Ana se envolve com o médico Larry – formando uma espécie de casal “perfeito”: ambos bem sucedidos em suas profissões, é o casal que, aparentemente, vive um conto de fadas. No entanto, quando o envolvimento entre Ana e Dan é descoberto por Larry, ocorre uma espécie de troca de casais – formando o “retângulo” amoroso central.

Sim, confesso que explicando assim, tudo pode parecer um pouco confuso – mas não o é. Closer é direto, despudorado, bem resolvido – assim como suas personagens. Isso se reflete em um roteiro afiado, com diálogos abertos, marcantes e, por muitas vezes, descarados. Houve, na época de lançamento, quem classificasse o filme como imoral (apesar da ausência de cenas de sexo ou nudez). Talvez essa classificação tenha sido gerada pela forma sincera (por muitas vezes vulgar ou violenta) como as personagens se relacionam com seus pares – e até mesmo consigo mesmas.

04

Closer é um desenrolar de traições, relações sexuais e relacionamentos entre os quatro personagens. Entre idas e vindas, eles se amam e se odeiam; se traem, mentem uns para os outros, exibindo personalidades por vezes amorais. Em um determinado momento, Ana joga na cara de Dan que “ele não conhece nada sobre o amor porque ele não entende compromisso”. Esse desenrolar frenético se evidencia no roteiro, por vezes, atropelado: ocorrem saltos cronológicos na narrativa (meses e até anos) que evidenciam o desequilíbrio dessas relações e tornam o filme, sob certo aspecto, circular: termina exatamente do ponto onde começou.

Quanto ao elenco, é necessário dizer: Closer é impressionante. Jude Law, um tanto apático, é o que menos causa frisson, mas faz um trabalho eficiente. Julia Roberts, mais serena do que nunca, traz uma atuação segura que se adequa bem à sua personagem, assim como Clive Owen, que faz um tipo beirando a paranoia que é o retrato de muitos homens que encontramos por aí. No entanto, é Natalie Portman quem realmente brilha (muito antes de Cisne Negro – pelo qual faturou o Oscar de Melhor Atriz). Na pele de Alice, Natalie é enigmática, sensual e controversa – arriscaria dizer, uma das melhores antagonistas femininas do cinema.

01

Mike Nichols, com uma direção precisa, lança diversos planos fechados em seus atores, o que realça o sofrimento de suas protagonistas – como na cena do ensaio fotográfico de Alice. Com uma fotografia moderna, o filme tem poucas tomadas externas – o que fortalece o clima de intimidade que estaremos invadindo. A trilha sonora, que passeia de Bebel Gilberto com “Samba da Benção” à belíssima The Blower’s Daughter” de Damian Rice, acentua ainda mais o clima intimista do longa, nos deixando mais a vontade para invadir a privacidade de suas personagens.

Com uma visão pessimista em diversos momentos, Closer lança um olhar sobre a problemática dos relacionamentos humanos, nos mostrando bem de perto as fraquezas de nossa natureza. Serve para explanar as contradições das relações, expondo a impotência do homem diante daquilo que sente – e daquilo que deseja. Longe dos blockbusters norte-americanos (com suas tramas recheadas de mocinhos e vilões), Closer é um filme próximo à vida real, onde os personagens não são julgados por serem bons ou maus – ainda que você, em algum momento, possa sentir repulsa às suas ações. Diferente das histórias de amor hollywoodianas convencionais (aqui parece que não há o amor verdadeiro; apenas uma projeção que jamais será atendida), Closer tem um grande mérito: sua imprevisibilidade e, assim como o amor, é um filme onde o espectador mergulha de cabeça – sem se preocupar com o que está por vir.

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut)

Quando lançado, em 1999, De Olhos Bem Fechados, a obra derradeira de Stanley Kubrick, dividiu opiniões. Houve quem o considerasse uma obra-prima, tamanho o esmero que Kubrick dispensou à produção; houve quem o achasse o maior fiasco da carreira do diretor. De fato, De Olhos Bem Fechados foi um fracasso de bilheteria e levantou debates intermináveis sobre a contribuição deste longa dentro da filmografia do cineasta. Bem, deixemos claro desde o início: De Olhos Bem Fechados não é ruim. Na verdade, seria um ótimo filme para qualquer idealizador – mas não para Stanley Kubrick.

olhos2

Concebido ao longo de mais de três anos, De Olhos Bem Fechados está muito longe de se igualar a outros filmes de Kubrick – o que torna praticamente impossível a tarefa de compreendê-lo sem assisti-lo mais de uma vez. A história gira em torno da dupla Bill e Alice (respectivamente, o casal da vez na época, Tom Cruise e Nicole Kidman); ele um médico respeitado, ela uma curadora de arte, que vivem uma relação aparentemente fora de qualquer suspeita. Uma noite após voltarem de uma festa, Alice revela ao esposo que já sentiu atraída por outro homem no passado e cogitou a hipótese de abandonar a família por este homem. Atordoado pela confissão da esposa, Bill sai pelas ruas de Nova York, esbarrando em uma festa dentro de uma mansão misteriosa.

O maior problema de De Olhos Bem Fechados é o ritmo lento que Kubrick confere à sua narrativa. Ao longo de mais de duas horas e meia, é impossível não se revirar na poltrona de minuto em minuto. O filme simplesmente parece não rodar. Obviamente, isso possa ser proposital, como se para um melhor desenvolvimento da trama ou a construção da personalidade de cada um de seus personagens – mas é fato que a história se mostra entediante em diversos momentos. Por sua vez, a dupla de protagonistas não colabora: Kidman (que é muito melhor que seu ex-marido, diga-se de passagem) está muito abaixo das expectativas, chegando a irritar em algumas cenas (como quando está bêbada, por exemplo); já Cruise dá um tom nada interessante a um personagem cheio de ideias vazias e sem fundamentos.

olhos

O trabalho de arte do é louvável – assim, como a trilha sonora, que é atordoante e fica na cabeça do espectador mesmo quando não executada. No entanto, De Olhos Bem Fechados tem um ar “incompleto”, “inacabado”. O filme se perde ainda em diversos momentos: ora tende ao suspense, ora ao psicológico, ora apela para o sexual – mas em nenhum se sai tão bem. Em sua segunda metade, para completar, o foco principal passa a ser o personagem de Cruise – e envolve mortes, assassinatos e perseguições que deixam não chega a empolgar o público. De Olhos Bem Fechados, como obra de um diretor do calibre de Kubrick, é muito aquém dos seus demais trabalhos. É um filme que tenta desvendar (bem superficialmente) os conceitos da monogamia e as diferenças entre “sonhar” e “fazer”, nos permitindo algumas indagações: o simples fato de a esposa um dia pensar em abandona-lo justifica as ações de Bill ou é excessiva demais? De todas as formas, De Olhos Bem Fechados não deixa de ser necessário – principalmente aos que são fãs de Kubrick, um cineasta tão complexo quanto sua obra.

Canções de Amor (Les Chansons D’amour)

Já em 2006, com seu belíssimo Em Paris, o cineasta Christophe Honoré (uma das maiores revelações do novo cinema francês) flertava com o gênero musical na cena em que um casal separado dialoga musicalmente ao telefone. Aparentemente, essa cena era uma espécie de prévia do que estava por vir em seu filme seguinte, Canções de Amor, um musical inspirado repleto de romantismo e tragédia.

Antes de mais nada: abandone os preconceitos com o gênero: sempre podemos ser surpreendidos com bons musicais. E aqui, o estereótipo de musical norte-americano (com suas personagens cantando, pulando, dançando alegres e saltitantes e tudo mais…) passa longe. As músicas se adequam à proposta do longa – o que não deixa o filme se tornar cansativo ou que sua trama soe surreal como em muitos produtos do gênero. O filme apresenta o cotidiano de Ismael (o galã francês Louis Garrel) e sua namorada Julie (a ótima Ludivine Sagnier) que vivem um romance a três com Alice (vivida por Clothilde Hesme). No entanto, essa relação é interrompida por uma tragédia: a morte de Alice. No decorrer da história, Ismael conhece o jovem Erwann, que se apaixona pelo jornalista e tenta seduzi-lo.

02

As músicas são o grande ponto forte da obra, pois conseguem transmitir os sentimentos honestos e espontâneos de suas personagens – o que Honoré sabe bem como capturar com sua lente. Interpretadas pelos próprios atores (que mais sussurram do que necessariamente cantam), as canções escritas por Alex Beaupain tornam Canções de Amor um “filme popular com canções”, como sugeriu o próprio diretor na época de lançamento. Beaupain (que perdeu a namorada na vida real antes de escrever as canções para o filme) conseguiu traduzir em poemas as experiências turbulentas sobre o amor dentro de um estilo pop moderno que torna Canções de Amor apaixonante.

Rodado na capital francesa, Honoré ainda consegue criar mais um personagem: sua própria Paris que, em pleno outono e recheado de cores cinzentas, chuvas e devaneios, é o cenário ideal para a história desse grupo de amantes que tudo o que mais desejam é simplesmente amar. O amor na visão de Honoré é tratado sem condicionalismos, sem falsos moralismos. O amor não deve ser pensado, racionalizado ou colocado dentro de uma caixinha e ser exibido como um prêmio. Na proposta do diretor, as pessoas simplesmente amam – e isso basta. Talvez essa visão possa incomodar a platéia um pouco mais conservadora, afinal o musical ganha um tom abertamente homoerótico a partir de sua segunda metade – e curiosamente, a melhor sequência do longa advém da noite de amor entre dois personagens masculinos. Esse divisor de águas na história trará os melhores conflitos da trama e as mais conturbadas experiências aos personagens. Aliás, após a morte de Julie, o filme é dividido em três partes: a partida, a ausência e o regresso – referência explícita ao processo pela qual Ismael irá passar a partir daí.

Canções de Amor é, dessa forma, um filme onde nada é gratuito. Honoré diz, ainda que de forma não direta, que as relações foram feitas para ser vividas e não explicadas. Não há julgamentos, não há certo ou errado – há apenas as expressões do amor em sua mais pura forma. Assim, Canções de Amor não é apenas um belo produto de entretenimento aos olhos e ouvidos, mas também uma reflexão moderna sobre o amor romântico em nossa sociedade.

Encurralado (Duel)

4Lá no começo da década de 70, o cinema começava a passar por uma transformação. Nessa época, surgiam alguns diretores que influenciariam todas as gerações seguintes (inclusive a nossa) e reinventariam o conceito de cinema, popularizando a arte e criando o gênero “pipoca” (aquele tipo de cinema voltado para toda a família). Dentre os principais expoentes dessa trupe, um dos nomes mais cultuados é o de Steven Spielberg que, em 1971, lançou o suspense Encurralado – uma produção que, apesar de não ter a mesma magnitude de seus clássicos lançados posteriormente, já lançava os holofotes sobre o jovem cineasta.

Eu disse que Encurralado não tem a mesma magnitude de outras obras de Spielberg? Quanta injustiça! Encurralado é, talvez, um dos melhores exemplos da obra do diretor, reunindo tudo aquilo que Spielberg faria em sua vasta carreira. Adaptado de um conto, Encurralado foi o primeiro longa do diretor, feito diretamente para a TV (foi lançado para um programa semanal da ABC). Na época, o então desconhecido Spielberg conseguiu carta branca do canal para produzir o telefilme com um prazo de 10 dias (há a lenda de que Spielberg teria estourado o cronograma em 3 dias e outras maluquices…) e, contrariando todas as expectativas, Spielberg entrega uma das melhores histórias de perseguição do cinema – e um dos filmes mais influentes de sua carreira. A premissa é simples: David é um pai de família que está dirigindo em uma rodovia rumo a uma reunião de negócios. Pouco se sabe a respeito do nosso protagonista. No meio da viagem na região desértica estadunidense (recheada de longas e retas estradas e paredões), ele ultrapassa um caminhão-tanque enferrujado, que a partir de então passa a persegui-lo durante todo o caminho.

2

Encurralado não possui cenas elaboradas de perseguição (alguém aí falou em Velozes e Furiosos?), nem uma trilha sonora arrebatadora ou mesmo diálogos marcantes (aliás, o que quebra o gelo é o duvidoso artifício de expor os pensamentos do protagonista). No entanto, há um excelente trabalho de edição aqui, que cria uma atmosfera atordoante e nos permite ter uma sensação de perseguição constante através de seus vários takes. Com esses artifícios, Spielberg consegue tornar o caminhão o grande vilão da história, transformando-o em um monstro de proporções gigantescas – ocultando a identidade de seu  motorista durante todo o filme, o que aumenta ainda mais a tensão. Ou seja, o grande  pedaço de metal enferrujado ganha vida própria, causando medo e pavor no protagonista.

O fato de não mostrar o condutor do veículo durante todo o evento torna Encurralado ainda mais intrigante. É um dos artifícios que Spielberg utiliza para manipular a emoção do espectador. Spielberg (que mais tarde ficaria famoso com seus blockbusters) consegue mexer com o espectador sem fazer muito esforço, em um longa que não te deixa desgrudar os olhos da tela. Com um desfecho espetacular, Encurralado é um ótimo filme para os padrões Spielberg.

Obsessão (The Paperboy)

Baseado no livro homônimo de Pete Dexter, Obsessão chega aos cinemas brasileiros no próximo mês – quase um ano após sua estréia mundial, em novembro de 2012. A história acompanha o jovem Jack James (filho W.W. James, editor do jornal Moat County Tribune), um jovem desnorteado que ajuda o irmão jornalista (e homossexual) em uma investigação sobre a possível condenação injusta de um homem que está aguardando sua sentença de morte. Durante a investigação, Jack se apaixona por Charlotte Bless, uma prostituta que troca correspondências amorosas com o condenado.

2

Bom, fui bem assim, direto, porque não há muito a se falar sobre o filme. Com um orçamento modesto (a produção não custou nem U$ 13 milhões), Obsessão aposta claramente na força de um elenco de estrelas. Zac Efron é o jovem Jack – e cada dia se distancia mais do garoto saltitante de High School Musical. Não imaginava que poderia dizer isso há cinco anos atrás, mas o fato é que é confortante ver o quanto o ator cresceu e como sua atuação ganhou peso. Matthey McConaughey interpreta muito bem Ward James, irmão de Jack, que esconde sua sexualidade da família e tem uma estranha obsessão por provar a inocência de Hillary Van Wetter – nosso bom amigo John Cusack que, este sim, em um papel pequeno, consegue chamar a atenção a cada aparição. Na pele de um psicótico condenado, fica-se sempre a dúvida se Hillary é ou não o culpado pelo crime. Fechando o elenco, ainda temos Nicole Kidman que, após tantas plásticas e aplicações de toxina botulínica (vulgo botox), está quase irreconhecível. Além disso, há muito tempo não vemos Nicole em um grande papel e sua Charlotte é um belo exemplo. A personagem em si já não é lá essas coisas, não tem um motivo para nada e ainda por cima é… forçada. Definitivamente, não é das melhores atuações da atriz – que é e pode muito mais.

1

Apesar do saldo positivo do elenco, o resultado final não é muito feliz. Obsessão não é um excelente filme, como pode parecer à primeira vista. Lee Daniels (do ótimo Preciosa – Uma História de Esperança) faz um belo trabalho na direção do elenco, mas alguma coisa parece faltar. Talvez tenha sido o roteiro arrastado, escrito pelo próprio Pete, que faz com que o longa se torne maçante. Tão pouco há momentos memoráveis – a não ser que você ache memorável ver Zac Efron de cueca em praticamente todas as cenas, nunca se sabe. Obsessão ainda utiliza-se de um recurso que o ajudou a ficar ainda mais “vergonha alheia”: a narração, que faz tanta esforço para explicar a investigação que chega a ser quase didática em certos momentos e faz com que nos sintamos burros. Mesmo assim, Obsessão se torna confuso e sem o menor foco: ora em um personagem, ora em outra narrativa, ora em outra abordagem. É tanto tiro lançado que, no final, nada se atinge. Só o título já deixa margens do que está por vir: lançado em português como Obsessão, o título original do longa é The Paperboy, que, se traduzido corretamente, faria muito mais sentido. Os únicos pontos fortes do filme, além da atuação do elenco e da direção de Lee, ficam por conta da trilha sonora e da questão social abordada: preconceito. A trama se passa em um período turbulento da história norte-americana, onde qualquer minoria era tratada com indiferença. Os diálogos recheado de ódio proferidos aos personagens pretos ou mesmo a cena em que Ward é espancado por um grupo dentro de seu quarto de hotel é uma das poucas experiências cinematográficas boas a serem tiradas de um filme cuja única obsessão é ser grande. Pena que não consegue…

Deus da Carnificina (Carnage)

Hipocrisia. Assuma: você é hipócrita. A verdade incontestável é que todos somos capazes de ter pensamentos politicamente corretos mas que podem ser facilmente manipulados quando se trata de defender nossos próprios interesses. Deus da Carnificina, de Roman Polanski, segue essa temática e consegue, ao longo de menos de uma hora e meia, levar o espectador a uma série de reflexões sobre o comportamento humano.

Lançado em dezembro de 2011 e filmado durante o período de prisão domiciliar de Polanski na Suíça, Deus da Carnificina levantou debates infindáveis na época de sua estreia. Houve quem o considerasse a pior obra do cineasta e se quer poderia ser considerada “cinema de verdade” – afinal, o longa é baseado na peça Carnage (também título original do longa), de Yasmina Reza, e levou todo o seu evidente ar teatral às telas de cinema. Por outro lado, muitos saíram em defesa de Roman, alegando que este seria seu filme “mais cinematográfico” – justamente pelo desafio da direção dentro de um único ambiente. No entanto, Polanski conserva a estrutura teatral da história, direcionando a visão do público – principalmente através dos enquadramentos ao longo do filme, fazendo com que o espectador observe aqueles personagens como um voyeur. A câmera aqui funciona quase como uma espécie de “olho mágico”, o que ajuda a distanciar o Deus da Carnificina da armadilha do teatro filmado.

1Na trama, acompanhamos o encontro (a contragosto) de dois casais com o intuito de buscar uma solução amigável para a briga entre seus filhos pré-adolescentes. O primeiro casal é formado por uma professora preocupada com as desgraças no continente africano e um simplório vendedor de artigos domésticos; já o segundo casal, é composto por um poderoso advogado e uma corretora de investimentos. Conforme o tempo avança, os nervos aumentam e o que era para ser uma tentativa de selar a paz entre as crianças torna-se um palco para intermináveis discussões, onde todos os personagens abandonam a civilidade e deixam cair suas máscaras, revelando a hipocrisia moral daqueles indivíduos.

Está aí um dos méritos de Deus da Carnificina: proporcionar ao espectador a oportunidade de observar a caminhada do ser humano rumo ao caos. A narrativa mantem um ritmo frenético em seu roteiro e montagem, que permite que os personagens se provoquem, aticem um ao outro, peçam desculpas, se desrespeitem. O espectador, diante da tela, tem prazer ao acompanhar a involução da compostura dos dois casais diante da proteção de seus interesses. Com isso, o filme se torna quase uma espécie de cinema “catarse”.

Longe de ser uma comédia escrachada, Deus da Carnificina fornece bem mais do que alguns risos. Em um filme onde a polidez dá lugar à progressiva degradação dos relacionamentos humanos, é interessante ver os dois casais aparentemente civilizados trocando farpas, se rebaixando e dizendo aos quatro ventos tudo aquilo que pensam mas não teriam coragem de falar em outras situações. Em um dos momentos mais cômicos, é possível ver Kate Winslet berrando “Ainda bem que meu filho bateu no seu, pois isso prova que ele não é um veadinho!” ou “Eu estou cagando para os seus direitos humanos!”, por exemplo. Deus da Carnificina critica as hipocrisias sociais com um leve cutucão e revela também o excelente domínio de tela de Polanski e seu incontestável talento como diretor de atores.