The Used e a Vitória Sobre Seus Inimigos Imaginários e Reais

Toda vez que alguma banda que eu curto (ou um artista que mereça ser comentado) lança um novo álbum, faço questão de fazer minha crítica sobre o novo trabalho. Assim, estava ansioso para vir aqui e falar sobre Imaginary Enemy, o 6º registro do agora quarteto norte-americano The Used que, desde 2001, vem sendo um dos meus artistas preferidos por diversas razões. Longe dos estúdios desde 2012, com o suficiente Vulnerable, a banda de Utah traz ao público um álbum conceitual, denso e equilibrado, representando provavelmente um dos melhores momentos do grupo nos últimos anos.

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Imaginary Enemy começa com força total com a batida enérgica de Revolution. A música abre em off com a frase Todas as revoluções são impossíveis até que elas aconteçam; então, elas se tornam inevitáveis.”, entregando muito do propósito do álbum. Com vocais potentes de Bert McCracken, Revolution é uma das mais gratas surpresas da banda em anos. Em seguida, temos Cry, carro chefe do disco – que até já ganhou clipe. Com a ótima performance de Jeph Howard no baixo, a música serve, porém, apenas como canção para se postar nas redes sociais como indireta a algum ex, sendo uma das mais dispensáveis do álbum.

Após um início agitado, temos El-Oh-Vee-El, onde a banda faz uma espécie de crítica ao sistema capitalista que rege a nação mundial, soltando aos quatro ventos que “tudo o que precisamos é L-O-V-E”. A música, que começa de forma bem morna, acaba crescendo ao longo de sua execução e possui uma bela melodia, carregada com a guitarra já conhecida do excelente Quinn Allman. Segue-se com A Song To Stifle Imperial Progression (A Work in Progress), ótima faixa que possui, de longe, uma das melhores letras do disco. Enquanto pede a benção de Deus aos EUA, a banda também afirma que “ao declarar guerra ao terror, você declara guerra a si mesmo. Em seguida, Generation Throwaway abre com seu refrão recheado de vozes declarando que “tudo fica bem quando eu não tenho medo da glória, um verdadeiro hino que me lembra, vagamente, alguma coisa que o trio Green Day fez em seu elogiado American Idiot.

Make Believe é mais um hino que tende a agradar os novos fãs – um ótimo momento com um belíssimo refrão. Com sua batida leve e que melhor representa o lado “bonzinho” dos caras, temos Evolution, precedendo a faixa título, Imaginary Enemy. Longe de ser a melhor música do conjunto, a canção tem uma batida dançante e rápida, lembrando um pouco o estilo de seus amigos do Panic! At The Disco em seu primeiro trabalho (exceto pelos vocais de Bert), mas muito menos cru. Kenna Song, com sua bateria eletrônica, é mais uma das faixas ao estilo “bom moço” da banda. Fechando o álbum, temos Force Without Violence (com sua excelente letra e que representa bem o contexto de todo o projeto) e, finalmente, Overdose, a faixa “fofa” que pode facilmente ser utilizada na trilha sonora de algum filme teen.

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Produzido por John Feldman, Imaginary Enemy é, de longe, o registro mais “completo” da banda até hoje. Depois de uma sequência de álbuns bons mas sem muita alma e mornos o suficiente para serem facilmente desprezados(ArtworkVulnerable), o grupo consegue criar seu American Idiot particular, inserindo letras de impacto dentro de um estilo que aos poucos Bert e seus companheiros vem lutando para impor a seus fãs – uma vez que, vamos admitir, eles dificilmente voltarão a fazer algo musicalmente grandioso quanto A Box Full of Sharp ObjectsMaybe Memories ou Poetic Tragedy. É um fato que os rapazes sempre flertaram com um lado mais “mamão com açúcar” – vide composições como Blue and YellowI Caught Fire ou Buried Myself Alive, hinos que consagraram a banda e a tornaram tão querida entre seus fãs.

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Mas é um fato também que muita coisa mudou de 2001 para cá e a banda amadureceu. Recentemente, o vocalista Bert (conhecido por suas extravagâncias do início de carreira) assumiu viver uma vida mais “limpa”, longe do álcool e das drogas. Isso refletiu em uma mudança explícita em sua voz e também no comportamento dos rapazes em seus shows. Imaginary Enemy é um registro honesto de um artista que nunca se preocupou tanto em permanecer no mainstream, mas sim em fazer um som que considere bom – isso tanto é verdade que o instrumental continua impecável: enquanto Bert não faça as mesmas firulas dos anos iniciais (mas segurando o suficiente o vocal sem desafinar, como muitos vocalistas por aí…), Jeph segue com seu contrabaixo impecável, enquanto Quinn sozinho é capaz de tocar quantas guitarras quiser sem fazer muito esforço. Ainda que muitos fãs clamem por uma volta aos velhos tempos, Imaginary Enemy é uma prova de que a banda mesmo mudando ainda se renova. Apesar da segunda metade do álbum não ter a mesma força que a primeira parte, Imaginary Enemy se sobressai como o melhor disco do grupo em anos – uma contundente resposta às críticas, uma surpresa agradável aos fãs e o melhor exemplo da vitória da banda sobre todos os seus inimigos imaginários e reais.

A Pele de Vênus (La Vénus à la Fourrure)

Gosto muito de filmes com diálogos rápidos, inteligentes e longas sequências, pois acredito que é justamente ali que um cineasta pode demonstrar ao público uma das habilidades que mais admiro no ofício da direção: dirigir pessoas. Redundante? Talvez, mas dirigir atores não é uma tarefa fácil. O consagrado Roman Polanski já havia mostrado que sabe como fazer isso em Deus da Carnificina, de 2011, quando colocou dois casais dentro de um apartamento e os fizeram trocar acusações até os ânimos se alterarem. Em A Pele de Vênus, Polanski retoma a ideia, mas com um grau de erudição e erotismo muito acima de seus trabalhos anteriores.

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Assim como Deus da Carnificina, A Pele de Vênus também é a adaptação de uma peça teatral homônima, apresentando a história de Thomas (Mathieu Amalric), um jovem dramaturgo que está à beira dos nervos por não conseguir encontrar a atriz principal para sua nova peça – uma releitura do livro La Venus à La Fourrure, de 1870 (um clássico da literatura mundial). Prestes a sair do teatro após uma série de audições fracassadas, Thomas recebe a inesperada visita de Vanda (Emmanuelle Seigner), uma bela atriz com quem o dramaturgo se envolve em um relacionamento de submissão, dominação e perversão.

Polanski repete aqui o esquema “teatro filmado”, conseguindo arrancar ótimas atuações de seu pequeno elenco. Mathieu (substituindo Louis Garrel, ator fetiche francês que abandonou o projeto devido sua agenda) e Emmanuelle dão um show à parte. A dupla, que já havia se encontrado no elogiado O Escafandro e a Borboleta, tem uma química incrível ao longo de mais de noventa minutos de película e cada um é bem explorado, desempenhando de forma pra lá de satisfatória sua função dentro da proposta daqueles personagens. Mas quem surpreende é Emmanuelle, esposa do diretor que, aos 46 anos, consegue ser incrivelmente atraente e deslumbrante em cena. A sexualidade que Emmanuelle exprime  é o que faz com que ela roube o filme para si, tornando sua personagem quase uma extensão (com um nível de maturidade acima) de seu papel em Lua de Fel, de 1992 (também dirigido por Polanski).

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Apesar de ter sua atuação bastante questionada na época, Emmanuelle protagonizou ali uma das cenas mais eróticas do cinema de Polanski. Hoje, mais de vinte anos depois, Emmanuelle é uma atriz muito mais madura e sua Vanda é prova irrefutável de que ela não é apenas a esposa de Roman Polanski. Aqui, Seigner tem em mãos um papel à altura de sua figura: Vanda é misteriosa e dosa o papel de vítima e algoz, invertendo-o com um tragicômico Thomas. E Polanski, que não é bobo e sabe como provocar, usa bem a imagem e talento de Seigner. Com uma câmera excepcional (que coloca o espectador sob o ponto de vista praticamente de um voyeur), é nítido o quanto Polanski busca capturar tudo o que sua musa inspiradora pode oferecer, quase que com um certo prazer.

Com um roteiro primoroso, recheado de referências à cultura clássica, a fita é verborrágica – e por tal razão pode parecer um pouco cansativa em diversos momentos. No entanto, os diálogos rápidos e inteligentes velam uma crítica implícita ao papel da mulher na sociedade, à sua verdadeira atribuição como “fêmea”, em um mundo ainda dominado pelo machismo. É a inversão de papeis entre Thomas e Vanda que vai dando mais corpo ao filme, à medida que o dramaturgo se vê cada vez mais ligado à atriz – uma mulher aparentemente sem cultura ou conhecimento, mas que aos poucos se revela muito mais do que um corpo sensual. A variação entre realidade e fantasia, que se misturam ao longo da projeção, dá o tom cômico e nos fazem questionar se Thomas está atuando ou realmente se tornou um escravo de Vanda.

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Há quem possa se incomodar com o estilo “teatral” com que Polanski filmou A Pele de Vênus. Não que essa seja a primeira incursão do diretor no gênero (aliás, Roman tem no currículo, além de Deus da Carnificina, o despercebido A Morte e a Donzela, de 1994, quando Polanski já flertava com o gênero), mas este não é um tipo fácil de filme (nem para quem faz, nem para quem assiste). Não devemos esquecer que, antes de tudo, é cinema e, como tal, o trabalho de Polanski como cineasta é louvável: ele entrega uma obra irresistivelmente atraente, com um “quê” de erotismo que funciona perfeitamente à proposta do longa. E por incrível que pareça, A Pele de Vênus é Polanski retornando às suas origens, já que tem todos os elementos que artista já utilizava em sua filmografia (erotismo, submissão, homoerotismo – aliás, em uma das cenas finais, temos Mathieu travestido com salto alto e batom, nos remetendo instantaneamente a Polanski vestido de mulher em O Inquilino, de 1976). A Pele de Vênus é muito mais requintado, culto e crítico do que Deus da Carnificina, que já era excelente – o que, certamente, representa um nível acima no trabalho do cineasta.

Estou Aqui (I’m Here)

Uma das coisas que mais gosto de fazer é descobrir artistas. Quando vejo o trabalho de um ator ou diretor e esse trabalho me impressiona, lá vou eu correr para pesquisar sua filmografia e confirmar o talento daquele meu novo ídolo. Assim foi com Andrew Garfield, que conheci em O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de 2010, e por quem caí de amores em Não Me Abandone Jamais, no mesmo ano. No entanto, um dos melhores títulos de sua carreira é o curta Estou Aqui.

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Patrocinado pela marca de marca de vodca Absolut, Estou Aqui é um curta de pouco menos de trinta minutos dirigido por Spike Jonze (de Quero Ser John Malkovich, Onde Vivem os Monstros e o mais recente e elogiado Ela). A história se passa em uma Los Angeles habitada por humanos e robôs e narra a trajetória de Sheldon, um tímido robô bibliotecário, que vive sua existência pacata e praticamente despercebida, cuja rotina metódica inclui apenas o caminho de casa para o trabalho. Em um determinado momento, Sheldon conhece Francesca, um robô com aparência feminina cujo espírito de liberdade acaba fascinando o bibliotecário. Aos poucos, a amizade entre os dois se transforma em amor – amor capaz dos maiores sacrifícios para fazer o outro feliz.

Uma das características dos trabalhos de Spike é contar algo de nosso universo dentro de um universo “à parte”. Para o cineasta, nossa sociedade é vazia – e é isso que ele recria em sua Los Angeles surreal. O próprio apartamento do protagonista reflete esse vazio: é opaco, sem decoração, quase sem cores ou nada que estimule maior interesse. Assim também é o convívio entre robôs e humanos, este último grupo que pouco aparece na história e, apesar das críticas que fazem aos seres robóticos, aparentemente convive pacificamente com Sheldon e os demais de sua espécie. Estou Aqui recria, com uma história simplória e até mesmo “boba”, uma metáfora sobre a solidão do homem dentro de uma sociedade cada vez mais individualista – onde não há mais espaços para sentimentos, ofuscados pela correria cotidiana e avanços tecnológicos, por exemplo.

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Estou Aqui possui uma bela fotografia que oscila entre a claridade do sol nos momentos mais alegres e românticos de Sheldon e seu par, e uma paleta mais acinzentada nas cenas mais solitárias, acentuando o vazio do protagonista. A delicada trilha sonora ajuda a tornar o filme ainda mais melancólico, assim como as atuações de Garfield – que mesmo caracterizado como um robô, consegue transmitir todo sentimento da personagem em seu retraído (mas exato) tom de voz. Muito bem recebido por onde passou, Estou Aqui é um projeto que funcionou devido sua estética cinematográfica latente e o primor com o qual foi concebido. Com Estou Aqui, Spike consegue recriar uma fábula sobre o amor – e, principalmente, o mais puro significado de “se doar por inteiro”.

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)

Lá no início da década de 90, o até então desconhecido Quentin Tarantino estreava como diretor com Cães de Aluguel. Ex-funcionário de uma locadora (fato que colaborou para seu vasto conhecimento cinematográfico), Tarantino criava ali uma obra que seria amplamente elogiada pela crítica e considerada por muitos o melhor filme do diretor – ou pelo menos, o precursor de um estilo que definiria Tarantino em toda sua carreira.

Cães de Aluguel é um filme simples e direto: Joe Cabot é um criminoso experiente que reúne um grupo de seis bandidos para um assalto a uma joalheria. Ninguém nesse grupo se conhece e cada um utiliza uma cor como codinome, evitando assim qualquer suposto “envolvimento” após assalto. Entretanto, as coisas não saem como o esperado: quando chegam ao local do crime, a suspeita já está à espera do grupo, o que levanta as suspeitas sobre um provável infiltrado entre eles. Após uma fuga desenfreada, os criminosos que sobrevivem se reúnem em um galpão, onde discutem sobre o acontecido e levantam hipóteses sobre quem poderia ser o traidor da trupe.

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Muita gente considera Pulp Fiction, o filme seguinte do cineasta, como a obra-prima de Tarantino. Outros sugerem que o diretor se reinventou em Kill Bill, alguns anos após o subestimado Jackie Brown. Obviamente, dentro uma filmografia tão linear, é difícil para qualquer fã do diretor definir qual seria seu melhor trabalho. Mas é inegável que Cães de Aluguel é um belo exercício de estilo para um diretor de primeira viagem. Talvez o que mais torne Cães de Aluguel original seja a originalidade com que Tarantino apresenta ao público sua identidade, injetando características que definiriam suas obras posteriores em um filme aparentemente descompromissado (mas nem por isso de qualidade duvidosa).

Inovador e inquestionável, o roteiro torna tudo muito verossímil ao descrever seus personagens e suas ações com bastante clareza. Cada um tem sua personalidade revelada logo de cara, sem muita forçação de barra, e todos estão bem inseridos na história. Não há personagens descartáveis: todos são responsáveis por algum momento no longa. Quentin entrega um roteiro ágil, que não abre margens para situações desnecessárias ou redundantes – e apesar do filme se passar basicamente em um único cenário, não há monotonia. A ação é constante – e isso se deve muito mais pelos excelentes diálogos do que necessariamente por cenas de perseguição ou tiroteio. A cada conversa entre os bandidos, o expectador se depara com uma explosão de referências à cultura pop – como na antológica cena inicial, onde o grupo devaneia num restaurantes sobre o significado de Like a Virgin, de Madonna.

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O filme também traz uma constante nos roteiros tarantinescos: a não linearidade. A história se intercala entre as sequências no galpão e os flashbacks do crime, que aos poucos ajudam a esclarecer a situação. Ousado para a época, Cães de Aluguel traz ainda cenas de violência exacerbada, que chocou muito os críticos – e, como não poderia ser diferente, levantou intermináveis debates sobre a questão da violência no cinema. Em um dos momentos mais fortes do longa, o personagem de Michael Madsen tortura um policial ao arrancar-lhe a orelha – tudo mostrado sem pudor.

São raros os casos no cinema em que um diretor estreia de forma tão magnífica e empolgante. Muito mais raro ainda é quando o primeiro filme de um cineasta diz tanto sobre ele como Cães de Aluguel fala sobre Tarantino. Tudo o que o diretor faria em suas próximas histórias estão ali presentes: os ótimos diálogos e teses tarantinescas, o humor ácido, a violência exagerada e explícita, a trilha sonora excepcional, a não-linearidade do roteiro, as referências à cultura pop e a outras obras de cinema (em certo momento, três dos bandidos se encaram nos remetendo à cena mais emocionante de Três Homens em Conflito, clássico de Sérgio Leoni – um grande ídolo de Tarantino) e, claro, a facilidade com que o cineasta consegue florear até mesmo os momentos mais eloquentes. Não à toa, a Empire definiu Cães de Aluguel como “o melhor filme independente da história”. Com competência difícil de se achar em um diretor iniciante, Tarantino conseguiu muito mais do que isso: fez de Cães de Aluguel uma cartilha de seu próprio gênero.

O Libertino (The Libertine)

Fato incontestável: Johnny Depp é um artista multifacetado. Ao longo de uma carreira de sucesso, Depp coleciona personagens estranhos e burlescos – mas sempre com um toque de humanidade. Há quem torça o nariz para o ator por conta desses tipos – alegando que Depp mantém sempre as mesmas expressões e caras – e há os que o veneram por sua obsessão em personagens caricatos, tornando-o um dos artistas mais queridos do público. O Libertino, de 2006, traz Depp em um dos pontos mais altos de sua carreira e comprova que, quando inspirado, o ator é extraordinário.

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De cara, deve-se dizer que O Libertino não é um filme fácil. O drama centraliza sua narrativa nos últimos anos de vida de John Wilmot, o Conde de Rochester, figura emblemática do século XVII. John era um dos tipos mais nobres e cultos da sociedade inglesa naquela época, mas sua paixão desenfreada pelos prazeres da vida (sexo, álcool e drogas – não precisamente nesta ordem) e seu desprezo pela corte e toda sua hipocrisia o tornam, aos poucos, um rebelde amado por uns e odiado por outros.

Johnny Depp, em uma atuação madura, encarna um protagonista vazio e perdido dentro de si. Logo no início da trama, Wilmot deixa claro em seu belíssimo prólogo: “Vocês não irão gostar de mim!”. Consciente de sua existência inútil e vaga, Wilmot busca freneticamente por emoções que lhe assegurem momentos de prazer. Ao longo de sua curta mas intensa vida, John casou-se, teve diversos amantes (mulheres e homens), foi preso, afrontou o Rei, entre inúmeras situações depreciativas – até morrer, precocemente, aos 33 anos, corroído por doenças venéreas e seus vícios extravagantes.

O roteiro, baseado em uma peça de teatro, foi adaptado para o cinema por seu próprio autor – mas não perdeu todo o ar teatral da obra que o originou. A peça, estrelada por John Malkovich, fascinou o ator – que imediatamente quis levar a história às telas de cinema, convidando Depp para assumir o protagonista. Sábia escolha de Malkovich, que ainda faz uma ponta no filme – irreconhecível como o Rei Carlos II, sob uma peruca e nariz falsos. Abertamente teatral, o filme possui uma estética bastante diferente das produções do gênero, optando por uma iluminação natural, tornando a fotografia muito mais verossímil – praticamente uma pintura da época, com seus tons granulados, esmaecendo suavemente graças à tênue luz. A trilha sonora minimalista de Michael Nyman ajuda a compor um clima intimista que leva o espectador a sair do status mórbido de “platéia” e colocando-o praticamente dentro da narrativa.

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Vale ressaltar que essa produção inglesa recebeu duras críticas nos EUA, onde foi um fiasco de bilheteria. Mas vale também ressaltar que americano não gosta de produções de época ou dramas históricos – apenas quando se trata de sua própria história e olhe lá. Com propriedade, o estreante Laurence Dunmore entrega um filme denso, difícil e indigesto, estampando de forma pungente a hipocrisia da elite dominante (que pouco mudou do século XVII para cá) e sua falta de moral. Wilmot – que na pele de Depp vai da sedução à repulsa em questão de segundos – mergulha cada vez mais fundo em sua própria destruição, à medida que suas experiências se tornam mais extravagantes e seu cinismo e desprezo por si mesmo aumentam. Em suma, O Libertino retrata o homem em sua insaciável busca pelo prazer – mesmo que isso o leve à autodestruição.

Cry-Baby (Cry-Baby)

John Waters é mais conhecido, provavelmente, por seu Pink Flamingos, de 1972, notoriamente uma das mais queridas obras do cinema trash do mercado norte-americano e clássico desse gênero – lançado no mesmo ano em que O Poderoso Chefão, de Coppola. No entanto, ­Cry-Baby é um bom exemplar da obra do diretor – ainda que o filme nunca tenha sido um sucesso de público e crítica.

A história é uma espécie de versão anos 50 de Romeu e Julieta – mas muito mais exagerada. Na trama (que se passa na cidade natal do diretor, Baltimore), Allison é uma jovem rica criada pela avó após a morte dos pais. Crescendo em um ambiente comportado e tradicional, ela se apaixona por Wade Cry-baby, o líder de uma gangue de delinquentes juvenis da cidade. Para ficar com Wade, ela tem que enfrentar os preconceitos da família e os ciúmes de seu namorado almofadinha que, junto com outros membros da cidade, trava uma verdadeira guerra contra o grupo de Wade para garantir a moral e os bons costumes de Baltimore – e, claro, salvar sua namorada.

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Apesar da sinopse “séria” da história, não se deixe enganar: Cry-Baby é puro pastelão. O musical de Waters serve muito mais como uma homenagem aos filmes B sobre delinquência juvenil – subgênero que era bem popular nos EUA em décadas passadas. Trata-se ainda de uma sátira interessante aos musicais juvenis que fizeram muito sucesso e consagraram vários astros do cinema hollywoodiano (vide Grease – Nos Tempos da Brilhantina).

Cry-baby foi o primeiro longa de Waters para um grande estúdio – e talvez por isso, um dos méritos da película foi retirar Johnny Depp daquele status de galã que a série Anjos da Lei lhe proporcionara logo no início de carreira. Depp, no papel de Wade, é charmoso, bonito e exagerado, como o personagem exige. Aliás, não apenas Wade, mas todos os personagens do filme – em sua grande maioria, estereotipados o suficiente para renderem boas risadas das situações cômicas e improváveis pelas quais passam.

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Cry-Baby é razoavelmente inteligente e divertido, porém deveras mais leve do que se podia esperar de uma obra de John Waters (diretor que já fez o close de um ânus e filmou um travesti obeso degustando fezes de cachorro em seus filmes, entre outras bizarrices) – o que, provavelmente, desapontou os fãs mais ardilosos da obra do cineasta. Aliás, não apenas aos fãs, mas a produção também não agradou muito aos cinéfilos em geral – na época, cegos por seus pudores em relação ao diretor, além da resistência natural ao gênero musical. Talvez por seu tom satírico, o filme pareça ter sido feito às pressas – o que tornou o roteiro e suas personagens um tanto quanto artificiais, deixando alguns rasgos que poderiam ser melhor trabalhados. No entanto, Cry-baby não deve ser descartado como um lixo cinematográfico – apesar de ter sido feito por um diretor que é especialista nesse assunto. Para nossa alegria, claro…

Leblon, Família e Bossa Nova: As Tramas de Manoel Carlos

Bossa nova, Leblon, conflitos familiares… Estes são alguns elementos tradicionais que encontramos nas tramas de Manoel Carlos, um dos mais aclamados autores de telenovelas nacionais. Conhecido por suas heroínas fortes, sempre com o nome de Helena, Maneco (como é chamado no meio artístico) se consagrou ao retratar em suas tramas a sociedade carioca atual, dando maior foco nas relações familiares e criando personagens com conflitos muito próximos aos do público em geral.

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Mas Manoel Carlos não é apenas um grande novelista. Para quem não sabe, Maneco é um dos nomes que participaram diretamente da construção da nossa TV lá pela década de 60. Manoel Carlos esteve à frente de alguns programas clássicos da TV brasileira, como O Fino da Bossa, Esta Noite se ImprovisaFamília Trapo (Record) e Chico Anysio Show (pela antiga TV Rio), além de ser um dos primeiros diretores da revista eletrônica Fantástico.

Para comemorar a estreia de sua nova novela, Em Família (que, aparentemente, será sua última trama), decidi listar os 5 melhores trabalhos de Maneco como novelista. Traga o banquinho e o violão, solte uma bossa nova no player e confira a lista:

BAILA COMIGO (1981)
Em Baila Comigo, Manoel Carlos apresentou ao público sua primeira Helena, vivida pela atriz Lilian Lemmertz. A trama gira em torno dos irmãos gêmeos protagonizados por Tony Ramos (Joaquim Seixas Miranda e João Victor Gama). Baila Comigo fez um grande sucesso em outros países e, no Brasil, alcançou uma média de 61 pontos no Ibope – sendo que seu maior pico foi de 78 pontos.
Elenco Principal: Lilian Lemmertz, Tony Ramos, Raul Cortez, Susana Vieira e Fernando Torres

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HISTÓRIA DE AMOR (1995)
Uma das mais famosas novelas das 18 horas na década de 90, História de Amor traz Regina Duarte interpretando sua primeira Helena. Vendida para cerca de 30 países, História de Amor ressuscitou o Vale a Pena Ver de Novo quando foi exibida em dezembro de 2001 – horário que enfrentava uma crise na emissora carioca. Na época, a então esquecida novela de Manoel Carlos foi responsável por quase dobrar a audiência no horário, se tornando uma das mais assistidas reprises da Globo.
Elenco Principal: Regina Duarte, José Mayer, Carla Marins, Carolina Ferraz e Lília Cabral

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LAÇOS DE FAMÍLIA (2000)
Uma das mais cultuadas novelas do autor, Laços de Família conta a história da filha que se apaixona pelo namorado da mãe, Helena, vivida aqui por Vera Fischer. A trama abordou vários temas sociais (prostituição, leucemia, impotência, entre outros) e é considerada uma das mais “sombrias” obras de Manoel Carlos. Sucesso também no Vale a Pena Ver de Novo, quando reprisada, Laços de Família alcançou picos de 65 pontos de audiência no dia em que a personagem de Carolina Dieckmann raspa a cabeça em decorrência de seu tratamento contra a leucemia.
Elenco Principal: Vera Fischer, José Mayer, Tony Ramos, Carolina Dieckmann e Reynaldo Gianecchini

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MULHERES APAIXONADAS (2003)
Christiane Torloni é a Helena de Mulheres Apaixonadas, desta vez uma mulher que vive um casamento que caiu na rotina até o momento em que a personagem reencontra uma grande paixão da adolescência. Com diversas tramas sociais (como alcoolismo, homossexualidade, violência doméstica), a novela virou reportagem da revista americana Newsweek no ano de sua exibição – quando atingiu ótimos índices de audiência. Outro ponto forte da novela foi sua trilha sonora, que vendeu mais de 1 milhão de cópias, e sua abertura, que foi produzida com fotos enviadas pelas espectadoras e era reformulada a cada 2 semanas.
Elenco Principal: Christiane Torloni, José Mayer e Tony Ramos

PÁGINAS DA VIDA (2006)
Páginas da Vida traz a terceira e última Helena de Manoel Carlos vivida por Regina Duarte (a segunda foi em Por Amor, de 1997). A trama apresentou diversos temas sociais, sendo que o principal deles foi a questão da síndrome de Down. A trama conseguiu uma média no Ibope de 53 pontos e rendeu a Lília Cabral uma indicação ao Emmy Internacional de melhor atriz por sua atuação na novela.
Elenco Principal: Regina Duarte, Lília Cabral, Marcos Caruso, Fernanda Vasconcellos, Thiago Rodrigues e Ana Paula Arósio

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PRESENÇA DE ANITA (2001)
Ah, Anita… A trama de Presença de Anita (inspirada livremente na obra literária de Mário Donato) narra o envolvimento de Nando, homem de meia idade, com a jovem Anita, amiga de sua filha. Nando, que é casado, vive uma tórrida relação com a ninfeta – irresistivelmente bem interpretada pela estreante Mel Lisboa. Com Presença de Anita, Manoel Carlos conseguiu a maior audiência dentre as minisséries da década de 2000, desbancando sucessos como A MuralhaA Casa das Sete Mulheres.
Elenco Principal: José Mayer, Helena Ranaldi e Mel Lisboa

MAYSA – QUANDO FALA O CORAÇÃO (2009)
A trama retrata a vida da cantora Maysa e foi dirigida pelo próprio filha da artista, Jayme Monjardim. Com média geral de 26 pontos (excelente para seu horário de exibição), Maysa – Quando Fala o Coração foi o trabalho de estreia de Larissa Maciel – atriz escolhida entre cerca de 200 outras candidatas para viver a cantora. Muito elogiada pelo público e pela crítica, a novela teve um elenco formado praticamente com novos rostos da TV, inclusive o estreante Mateus Solano, no papel de Ronaldo Bôscoli.
Elenco Principal: Larissa Maciel, Eduardo Semerjian e Mateus Solano

Oliver Twist (Oliver Twist)

Clássico livro escrito por Charles Dickens, Oliver Twist é uma obra muito mais citada do que propriamente lida. É uma literatura que serve de inúmeras referências, ainda que poucos a conheçam profundamente. No cinema, por exemplo, o texto de Dickens já teve várias versões – mas nenhuma delas pode ser considerada tão fiel à obra literária quanto a versão que o cineasta Roman Polanski dirigiu em 2005.

Concebido como uma homenagem do cineasta aos seus filhos, Oliver Twist conta a comovente história do garoto órfão que é “vendido” para um coveiro. Sofrendo com a crueldade da família que o “adotara”, Oliver foge para Londres, onde é recolhido das ruas e acolhido por Fagin, um velho marginal que comanda um esquema envolvendo prostitutas e crianças criminosas. Sem muita aptidão para o crime, Oliver conhece um bondoso homem em quem enxerga uma figura paterna. No entanto, Fagin, temendo que Oliver denuncie seu esquema, planeja um assalto à residência do senhor rico que o pequeno deseja como pai.

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Polanski assume a empreitada de dirigir este clássico literário após seu honroso reconhecimento por O Pianista (pelo qual ganhou o Oscar de melhor direção), em 2002. Grande parte do êxito obtido pelo diretor se deve à sua equipe técnica (praticamente a mesma de seu filme anterior). O trabalho de arte ao recriar a negra e suja Londres vitoriana é uma aula de cinema – em uma época onde cenários são construídos por computador, tornando filmes muito mais artificiais. Baseado em gravuras da época, a cenografia é impecável e contribui para acentuar o sentimento de isolamento de Oliver na precária cidade – sentimento este que nos remete, quase que imediatamente, ao mesmo drama vivido pelo personagem de Adrien Brody em O Pianista. Maquiagem, fotografia e a belíssima trilha sonora de Rachel Portman ainda acentuam essa sensação, dando um ar muito mais intenso ao roteiro de Ronald Harwood (que trabalhou com Polanski em O Pianista).

Quanto às atuações, seria impossível não mencionar Ben Kingsley, excelente em sua caracterização como o velho Fagin. Em um dos melhores papéis de sua carreira (mas menosprezado pela crítica), ele faz uma ótima composição de personagem, um vilão incontestável, mas que desperta certa compaixão ao se mostrar tão afável e carinhoso com o pequeno Oliver. Aliás, o personagem título não poderia ter sido melhor escalado. Barney Clark (que mais tarde só faria uma ponta em Pecados Inocentes, infelizmente) estrela brilhantemente este filme de peso, em uma das melhores atuações mirins dos últimos anos. Suas expressões faciais e seus olhos lacrimejantes deixam qualquer um comovido – o que corrobora a opinião da crítica de que dificilmente outro ator fará tão bem este personagem depois de Barney.

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Oliver Twist de Polanski é, provavelmente, a mais bela e fiel adaptação ao romance que o originou – distanciando-se apenas de uma história infantil para criar um drama de sofrimento tão triste quanto o próprio livro. Polanski produz um filme que aborda a crueldade humana e lança uma profunda reflexão sobre a sobrevivência da inocência em um mundo tão corroído pela maldade e egoísmo. Em uma das cenas mais emocionantes, Oliver decide visitar Fagin na prisão – mostrando toda sua inocência e gratidão por um homem que, mesmo com seus defeitos, o acolhera quando em perigo. Oliver Twist nas mãos de Polanski se torna a mais pura e definitiva versão da obra de Dickens, ofuscando todas as produções anteriores do clássico.

A Dança dos Vampiros (The Fearless Vampire Killers)

Analisar hoje A Dança dos Vampiros, de 1967, é uma tarefa complicada. Isso porque esse longa de Roman Polanski percorre dois gêneros: ora é um terror, ora é uma comédia, mas nunca assusta totalmente ou faz rir por completo. Na verdade, A Dança dos Vampiros pode ser encarado muito mais como uma sátira aos filmes de terror de outrora do que um filme necessariamente “sério” – o que não o rebaixa, mas sim o torna um dos melhores exemplares da cultuada e diversificada carreira de Polanski.

02A Dança dos Vampiros traz a história de Abronsius, um professor universitário especialista em vampiros, que viaja à Transilvânia (acompanhado de seu fiel e medroso assistente, Alfred) para comprovar a existência desses seres macabros. Na cidade, ao se hospedarem em um estalagem local, eles presenciam o rapto de uma bela jovem, por quem Alfred se apaixona logo de início. Persuadido por seu assistente, Abronsius parte rumo ao castelo do Conde Krolock para tentar resgatar a bela dama.

O tom humorístico de A Dança dos Vampiros concentra-se basicamente nas trapalhadas de Abronsius e Alfred – que o próprio Polanski interpreta com muito empenho. Seu tipo carismático, atrapalhado e “pamonha” talvez tenha inspirado o perfil que, anos mais tarde, Woody Allen imortalizaria em seus filmes. Os demais personagens da vila ou mesmo os tipos vampirescos do castelo são perfeitamente caricatos, garantindo os momentos mais cômicos da película e deixando o longa muito mais divertido.

Na parte técnica, não se pode dizer que o filme possua muitas qualidades louváveis – o que pode ser justificável, sobretudo, pelos recursos da época e pelo próprio tom “pastelão satírico” da produção. No entanto, deve-se destacar a trilha assustadora composta por Krzysztof Komeda – parceiro de longa data de Polanski que mais tarde assinaria também a banda sonora de O Bebê de Rosemary. As tomadas mais extensas de perseguição em meio à neve também demonstram um trabalho de câmera hábil, assim como a cenografia e figurino que explicitavam o perfeccionismo do diretor e justificavam os milhões gastos durante sua produção (especialmente na ótima cena do baile vampiresco, já ao final do filme).

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Os produtores decidiram lançar dois filmes: uma versão do diretor e uma versão de estúdio (carregado ainda pelo título The Fearless Vampires Killers, or Pardon Me, But Your Teeth Are in My Neck), o que, obviamente, irritou o artista. No entanto, foi a versão de Polanski que se tornou uma espécie de clássico “cult” nos cinemas de arte e nas universidades norte-americanas. A irritação do cineasta talvez se deva ao fato de que durante muito tempo ele considerou A Dança dos Vampiros como sua melhor obra. Provavelmente, essa paixão exagerada do diretor pelo longa possa ter sido causada pelas boas lembranças que ele tem de sua própria vida pessoal durante o período, quando estava visivelmente apaixonado pela estonteante Sharon Tate – antes dos acontecimentos fatídicos que tornariam a vida de Polanski muito mais sombria do que qualquer trabalho que o cineasta faria em sua carreira.

O Último Portal (The Ninth Gate)

Muitas biografias de Roman Polanski sugerem que o diretor tenha feito um pacto com o demônio em troca da fama. Não se pode afirmar ao certo se tal pacto realmente existiu, mas é fato incontestável que Polanski tem uma vida fora dos palcos tão polêmica quanto sua própria obra. Em O Último Portal, de 1999, o diretor retoma um tema que abordara (ainda que parcialmente) trinta anos antes, em seu cultuado O Bebê de Rosemary: o satanismo, o sobrenatural, o além.

O Último Portal é uma viagem ao reino das trevas. Na trama, Dean Corso (Johnny Depp, antes da saga Piratas do Caribe) é um especialista e negociante de livros raros de caráter duvidoso e despudorado, contratado pelo milionário Boris Balkan (Frank Langella) para confirmar a autenticidade de um livro raro que, segundo consta, teria sido coescrito por Aristide Torchia e o próprio demônio. Na realidade, Boris possui um dos três únicos exemplares do livro de Torchia dos nove escritos em 1966 que teriam o poder de invocar o diabo e abrir as portas para o inferno.

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Essa é uma incursão séria de Polanski ao sobrenatural. Boa parte da obra mais autoral do diretor já tem alguns elementos essenciais em thrillers de mistério ou sobrenatural (como o já citado O Bebê de Rosemary ou O Inquilino). No entanto, em O Último Portal, Polanski vai mais a fundo, quase caindo nos clichês do gênero. Não fosse pelo talento do cineasta, O Último Portal teria tudo para ser mais um longa de suspense a tratar temas sobrenaturais – mas Polanski conduz tão bem a tensão e o clima decadente da história que o filme se torna uma obra que te deixa atordoado (positiva ou negativamente).

Polanski faz do livro misterioso o principal personagem de seu filme. Dean Corso é um anti-herói, que vai ganhando mais empatia à medida que se torna mais decadente como ser humano. A frieza de Corso e sua moral cínica deixam o personagem ainda mais interessante, enquanto ele se vê cada vez mais determinado a encontrar uma resposta para o enigma que tenta desvendar, ainda que não saiba exatamente o porquê. Aliás, não há porquês – e com isso, Polanski cria um suspense aterrorizante e aberto a inúmeras interpretações. Há grupos de debates na rede que tentam decifrar alguns enigmas da história, como a identidade da personagem de Emannuelle Seigner ou a pessoa por trás dos assassinatos da trama. Até mesmo o desfecho é de uma ambiguidade tamanha que divide os fãs, deixando uns fascinados e outros decepcionados.

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Polanski cria ainda um ambiente repleto de sugestões: a obra traz referências e citações, com pistas escondidas que conduzem às mais diversas leituras. Deixando as soluções muito fáceis de lado, Polanski é um deus fanfarrão que brinca com suas personagens como marionetes, manipulando-os da maneira que bem entender para criar seu suspense – que ainda é mais atenuado com a excelente trilha sonora do polonês Wojciech Kilar (um subestimado que, entre outros, assina a trilha de Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Copolla), com toda sua erudição e mistério.

Embora tenha uma das piores avaliações da filmografia do cineasta, O Último Portal, a meu ver, é um ótimo filme, que abre margem para diversas suposições e cabe ao expectador decidir qual delas é a mais adequada para si. Apesar do ritmo lento em alguns instantes, é um thriller sobre forças ocultas e satanismo – o que aumenta ainda mais os mitos acerca da obra e, principalmente, da vida de Polanski.