Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (Everybody Wants Some!!)

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!, como seu próprio idealizador sugeriu, é uma “sequência espiritual” de Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, no original) – hoje um clássico dos anos 90, que ajudou a alavancar a carreira do então iniciante Richard Linklater. Mas não se deixe levar por isso: Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, por si só, tem méritos suficientes para ganhar o devido destaque na filmografia do cineasta.

Se no filme de 1993 Linklater acompanha o último dia de colégio de uma turma de adolescentes a caminho do que seria nosso Ensino Médio, nos anos 70, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes narra os primeiros dias de um grupo de universitários às vésperas do início das aulas, em 1980. Eles são jogadores de uma equipe de baseball, moram em uma espécie de república estudantil e estão naquela fase da vida em que acreditam ser capazes de tudo. E realmente o são.

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Jovens, Loucos e Mais Rebeldes nos traz uma ambientação perfeita dos anos 80 em vários aspectos, o que nos transporta para aquele período. E são os detalhes que impressionam: cabelo, maquiagem, figurino e cenários são cuidadosamente bem recriando, nos trazendo uma sensação de nostalgia que se acentua a cada minuto da fita por conta da ótima trilha sonora. A seleção musical de Jovens, Loucos e Mais Rebeldes é excepcional, percorrendo vários gêneros que caracterizam a época. Para mim, é o ponto alto do filme.

O roteiro, por sua vez, não decepciona. Aparentemente, os diálogos são puramente despretensiosos, mas em sua totalidade são repletos de significados. Apesar de não ter necessariamente um conflito muito bem estabelecido, seu humor e dinamismo tornam as quase duas horas de fita muito leves, como se o tempo não passasse (assim como para seus personagens). A primeira parte do filme, por exemplo, parece praticamente não sair do lugar, mas é incrível o quanto a história consegue diferenciar cada um dos tipos. Apesar de todos terem um interesse em comum (o esporte), cada um deles mantém sua individualidade. Cada estereótipo está ali, inclusive aquele que é, talvez, o protagonista da trama, Jake – o ponto de equilíbrio entre seus colegas.

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Infelizmente, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes sofre por seus antecessores: o da década de 90 (que gera comparações inevitáveis porém injustas) e Boyhood – Da Infância à Juventude, obra-prima de Linklater que fatalmente aumenta as expectativas com relação à esta nova produção. No entanto, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes é um filme que, em sua simplicidade, se mostra indiscutivelmente inteligente, nostálgico e divertido. O longa não perde seu tempo justificando ou mesmo julgando as ações de suas personagens; pelo contrário, ele se prende ao relato de situações e momentos típicos daquela geração. É a história de um grupo de amigos e suas aspirações, desejos e sonhos, narradas com a nostalgia capaz de nos fazer sentir saudades de uma época que nem mesmo vivenciamos.

Demônio de Neon (The Neon Demon)

Jesse é uma jovem repleta de vida. Recém-chegada em Los Angeles, a bela órfã sonha em ser uma modelo profissional. Após ser contratada por uma conceituada agência, Jesse chama a atenção de um designer que fecha o desfile de sua grife com a menina, despertando a inveja de outras moças que também batalham para crescer na carreira.

01Demônio de Neon é o clássico caso de filme com muita estética e pouco conteúdo. Visual e tecnicamente, Demônio de Neon impressiona desde os primeiros minutos – a sequência inicial, por exemplo, é de uma beleza plástica interessantíssima e quase nos engana com relação ao que virá no decorrer da fita. A fotografia de Natasha Braier é deslumbrante, abusando da paleta de cores, especialmente com seus contrastes. Os enquadramentos também são bastante precisos, centralizados, com uma edição que torna a obra quase um longo videoclipe. Aliás, talvez seja essa a grande proposta de Demônio de Neon: ser um produto sensorial, seja nos frames requintados, na simbologia de suas imagens ou na trilha sonora arrebatadora de Cliff Martinez. A banda musical é justamente o que faz o espectador emergir ainda mais na história, recorrendo ao uso intenso de sintetizadores, que criam uma atmosfera de tensão que se encaixa como uma luva ao que temos diante da tela.

Entretanto, assim como Demônio de Neon tenta criticar a superficialidade do mundo da moda e da ditadura da beleza, o filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn também é raso em seu argumento. Dizer que isso foi proposital é uma saída no mínimo fácil para justificar uma deficiência do roteiro que é escancarada. Mesmo com as atuações competentes de seu elenco (inclusive sua protagonista, a inspirada Elle Fanning), fica evidente que o longa tinha muito mais potencial a ser explorado em sua intenção de chocar o público. Infelizmente, Demônio de Neon se limita exclusivamente à sua estética irrepreensível – resumindo: o que sobra de beleza falta-lhe em conteúdo.

Últimos Dias no Deserto (Last Days in The Desert)

Livremente inspirado em uma passagem do Velho Testamento, Últimos Dias no Deserto acompanha Jesus Cristo (Ewan McGregor) em sua peregrinação de 40 dias de jejum e oração pelo deserto. Nessa jornada, além de enfrentar as provações impostas pela personificação do Diabo, Yeshua (nome do filho de Deus em hebraico) encontra uma família que, apesar da aparente tranquilidade, vive em crise: um pai (Ciarán Hinds), que insiste que eles devem permanecer naquele ambiente hostil e ali sobreviver; a mãe (Ayelet Zurer), que está à beira da morte; e o filho (Tye Sheridan), cuja maior ambição é partir rumo a Jerusalém.

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Foram muitas as obras que revisitaram a vida de Cristo ao longo dos anos, desde seu nascimento até a sua morte e posterior ressurreição. Todavia, poucas produções se concentram em um texto tão específico quanto Últimos Dias No Deserto. As citações bíblicas referentes a este capítulo, entretanto, são pequenas – ou pelo menos não são suficientes para sustentar uma película como esta, mesmo que sua duração seja razoavelmente curta. Logo, para “compensar” a história, para além da introdução de prováveis personagens, a narrativa nos brinda com um espetáculo visual amparado pela fotografia ímpar do mexicano Emmanuel Lubezki. Assim como fez em O Regresso, Lubezki faz uso exclusivo da luz natural da Califórnia (onde o filme foi rodado) – e este é, de longe, o ponto mais favorável do longa, ajudando a criar uma identidade poética bem interessante. Além disso, Jesus Cristo é retratado como um ser humano “comum”. Essa visão mais humanizada, sem a roupagem “cristã” com a qual estamos acostumados, de certa forma aproxima o espectador: é como se o filme contasse a trajetória de um homem qualquer, que vaga naquele cenário desértico em busca de um encontro consigo mesmo e não simplesmente um teste de sua fé e amor a Deus.

Contando com atuações competentes por parte de todo elenco, infelizmente Últimos Dias no Deserto se arrasta demais. Embora seja tecnicamente impecável, falta provocação à fita – e mesmo oferecendo quadros de tirar o fôlego como se para promover algum tipo de reflexão (coisa que Lubezki sabe fazer como ninguém), o público não é capaz de se sensibilizar tanto com a trama quanto ela pretende. A direção e o argumento de Rodrigo Garcia nos entrega, portanto, um produto que é visualmente atraente, mas com uma proposta e conteúdo confusos independente de qualquer religiosidade.

Britney Spears Mostra Vitalidade Pop em “Glory”

Britney Spears há tempos já não precisa provar nada para ninguém. Esta é uma verdade absoluta. Mas é fato também que seu último registro, Britney Jean, não foi lá essas coisas. Sejamos honestos: na realidade, Britney nunca foi reconhecida por lançar ótimos álbuns, mas sim por suas polêmicas e seus singles extraordinários – não à toa, a loira é considerada a “princesinha do pop” (sendo Madonna a eterna rainha). Durante anos, a intérprete foi criticada por sua voz – ou a ausência dela, como alguns alegam – e após inúmeros problemas em sua vida pessoal, poucos acreditavam que Spears voltaria ao que era no início de sua emblemática carreira. E eis que surge Glory.

01Glory  não é seu melhor trabalho, mas aponta para uma evolução que ainda pode surpreender lá na frente. Definitivamente, Britney melhorou e muito. Glory  é, até aqui, seu álbum mais “coeso”, ainda que a cantora tenha atirado em várias direções. Há evidentemente uma diversidade de tendências aqui, mas é admirável o quanto Britney consegue dar uma “uniformidade” ao todo, entregando um disco que soa interessante do início ao fim. Mesmo que algumas faixas não sejam excepcionais, cada uma delas possui identidade própria e isso enriquece muito sua proposta. Vê-se claramente que o desejo de Spears é experimentar, brincar, se divertir com o que está fazendo.

Com uma melodia etérea, Invitation abre o disco com propriedade, sendo quase um prólogo repleto de sensualidade para o primeiro single dessa nova era, a já conhecida Make Me, em parceria com o rapper G-Easy. Aqui, Brit embarca numa pegada mais upbeat, sem deixar de lado seu pop já conhecido. Private Show  tem um instrumental bem gostoso de ouvir, com uma batida quase hip-hop, porém minimalista. Em seguida, Man on The Moon  traz uma sonoridade teen deliciosa, bem diferente do que ocorre em Just Luv Me, onde a artista abraça novamente o minimalismo em uma música que parece ter sido retirada de Purpose, de Justin Bieber. Tudo isso vai preparando o ouvinte para as duas canções que, de cara, mais chamam a atenção na pista: Clumsy  e Do You Wanna Come Over – esta última com uma atmosfera anos 90 e um violão de base que poderíamos chamar de “pervertido” de tanto que agrega à música.

Com gemidinhos que se tornaram uma de suas marcas registradas, Slumber Party  vem carregada no reggae  e é aqui onde encontramos a letra mais provocante desta obra onde o sexo parece ser um de seus temas principais. Com uma levada de violão e sintetizadores no refrão, Just Like Me  é o mais próximo de uma balada até então. Longe de incorporar uma espécie de Nicki Minaj da vida, Britney apresenta vocais quase falados nos principais trechos de Love Me Down – isso sem mencionar a semelhança com um estilo No Doubt lá na década passada. Hard To Forget Ya  e a ótima What You Need  encerram a versão física de Glory – na “deluxe”, outras cinco canções são adicionadas, com destaque para Change Your Mind (No Seas Cortés), Liar  e a estranha mas sensacional If I’m Dancing.

Contando com o apoio de um extenso time de produtores, Glory  não chega a ser uma obra definitiva do pop ou mesmo de sua idealizadora, mas tem um grande mérito: escancarar ao mundo que Britney 1) sim, está viva; 2) está de volta; e 3) é uma artista incrível. O álbum dificilmente vai torna-la maior do que ela já é (uma hitmaker por excelência, não?) e tampouco representará algo inovador dentro do universo pop ou de sua própria discografia, mas nos entrega aquilo que ela sabe muito bem fazer: música pop comercial e facilmente acessível – e não é exatamente isso o que esperamos dela?

A Comunidade (Kollektivet)

Copenhague, década de 70. Erik (Ulrich Thomsen) é um professor universitário e sua mulher Anna (Trine Dyrholm) é âncora em um telejornal local. Pais da adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansen)eles recebem de herança uma mansão na qual Erik passou parte de sua infância. Com os altos custos de manutenção, o marido está disposto a vender o imóvel, até que Anna o convence a montar ali algo que ela sempre sonhou em vivenciar: uma comunidade. Apesar da recusa inicial, logo Erik concorda com a ideia da esposa – e a partir daí os dois saem à procura de amigos e conhecidos para dividir a comuna.

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O novo filme de Thomas Vinterberg (de Festa de Família e A Caça), ainda que conte com vários personagens, é muito objetivo no núcleo central de sua narrativa, composto pela família principal da trama. Cada um dos três tem seu “drama” desenvolvido – os demais moradores ali representados não possuem um objetivo individual definido, mas sim o “todo”. Ou seja, para o diretor de nada importam as características de cada um deles, mas sim o quanto a união daquele grupo afeta a família. Mais interessante ainda é observar que quanto mais o senso de “coletivismo” do grupo cresce, mais aumentam os conflitos de Erik, Anna e Freja – especialmente a partir do momento em que o marido se apaixona por uma aluna anos mais nova do que ele e a comunidade decide que ela também passará a compartilhar o mesmo teto.

Se o título sugere o coletivo, A Comunidade é muito particular à essa família, nos apresentando exatamente o ponto de vista deste trio – e é incrível a construção desses tipos ao longo da fita. Erik, inicialmente um simpático e visionário docente, se torna aos poucos um homem rude e frio, incapaz de lidar com os problemas que estão à sua volta (a cena em que conta a verdade para a cônjuge, após uma noite de sexo, é perplexamente dura). Anna é aquela que busca trazer valores ao meio em que está inserida, porém sofre com isso mais do que todos os outros. Freja, por sua vez, na efervescência da juventude, reage a tudo que acontece ao seu redor com muito equilíbrio, mesmo em sua imaturidade.

A Comunidade consegue captar com precisão todo o charme da capital dinamarquesa de então. E mais do que isso: o longa retrata de maneira muito honesta este cenário da primeira metade dos anos 70, principalmente na proposta pós-libertária que influenciou uma geração, nas ideias, pensamentos, ideologias. Com um desfecho cabível, porém pessimista, A Comunidade atesta o talento de Vinterberg como um dos maiores cineastas de seu país em todos os tempos – além de ser um filme que, por si só, já tem todos os méritos.

Cruzada (Kingdom of Heaven)

Gladiador foi, sem dúvida, um sucesso inigualável, capaz de ressuscitar um gênero: o épico. De fato, o longa dirigido por Ridley Scott desencadeou uma sucessão de outros filmes da mesma espécie (como Tróia, Alexandre, entre outros – apesar de nenhum deles ter obtido tamanho êxito), além de dar carta branca a seu idealizador para embarcar em um projeto adormecido há anos: Cruzada.

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Este épico medieval narra a disputa entre muçulmanos e cristãos pela posse de Jerusalém, no século XII. Na versão romanceada destes acontecimentos reais, acompanhamos Balian (Orlando Bloom, muito antes de aparecer como veio ao mundo curtindo uma praia com Katy Perry), um jovem ferreiro francês que guarda luto pela morte da esposa e do filho. Temente a Deus, logo o viúvo descobre que seu pai é o nobre Godfrey de Ibelin (Liam Neeson), um lorde e valente soldado do rei Baldwin. Levado por Godfrey à Terra Santa, aos poucos Balian ascende na corte e, mesmo fazendo alguns inimigos entre a nobreza, ele conquista a simpatia do rei e seu conselheiro.

Ridley Scott está acostumado a superproduções – e em Cruzada ele faz uso de quase tudo o que reproduziu (com maestria) em Gladiador. O design de produção é, no mínimo, espetacular. As pesquisas e referências visuais foram extensas, sendo imprescindíveis para a recriação de cenários, figurinos e objetos com absoluto domínio. Filmado no Marrocos, Scott dá uma aula de técnica: a cena do ataque de Saladino a Jerusalém é riquíssima em detalhes, sendo mostrada dos mais diversos ângulos possíveis – algo que apenas um cineasta com o gabarito de Scott seria capaz de fazer. A exemplo do que fez em Gladiador (inclusive alguns planos são praticamente os mesmos), o diretor utiliza artifícios como a câmera tremida e cortes rápidos para recriar as sequencias de batalhas.

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Mesclando tipos reais com fictícios (com total licença poética), Cruzada tem um resultado “técnico” que impressiona, porém não inova. Fica claro que Scott usa seu ego para fazer uma cópia quase fiel de sua obra antecessora, o que incomoda em alguns instantes. A narrativa, no entanto, é bastante equilibrada do ponto de vista ideológico: diferente do que é comum acontecer no cinema (onde o Islã é frequentemente associado ao terrorismo, produzindo uma série de estereótipos nada palpáveis), Cruzada  vai claramente contra o fanatismo religioso. Não há um vilão ou mocinho: existe uma certa uniformidade entre os personagens – e, em tempos de discursos acirrados de ódio religioso pelo mundo afora, uma proposta como esta sempre é interessante.

Ventre (Womb)

Ventre, drama alemão do diretor Benedek Fliegauf, sob certo aspecto propõe a discussão de dois temas polêmicos: a engenharia genética e o incesto. Na trama, Eva Green é Rebecca, uma moça que esperou por doze longos anos sua grande paixão de infância, Thomas (Matt Smith). Quando finalmente o reencontra, o jovem morre fatalmente em um acidente de trânsito. Desconsolada, Rebecca decide fazer uma fertilização artificial com o DNA de Thomas, gerando um clone do falecido. O tempo passa e a cada dia Rebecca sente mais dificuldade para esconder a verdade do filho, além de conviver constantemente com o desejo de consumar seu amor por Thomas.

01Amparado por uma bela fotografia em cores frias (predominantemente em tons azulados, acentuando toda a melancolia da fita), Ventre é um filme contemplativo. Esteticamente, tudo é muito bem articulado: os planos são cuidadosamente captados, dos panorâmicos aos mais fechados (estes últimos exprimindo com perfeição as dúvidas de suas personagens). A produção ainda conta com um ótimo trabalho de som, da edição e mixagem à trilha sonora minimalista. Além disso, o casal de protagonistas demonstra muito empenho, com destaque para Green, em um tipo perturbado que já lhe é bastante comum. No auge de sua beleza, a atriz é excessivamente atraente e faz de sua Rebecca uma mulher visivelmente dividida – fato que lhe é reforçado especialmente a partir da segunda metade do longa.

Mas principalmente, Ventre é silencioso. A ausência de diálogos predomina durante a fita, sendo estes substituídos pelos olhares angustiados (e a troca deles, claro) de seus personagens. Um clima de incerteza permeia toda narrativa, uma tensão abrupta se instaura a todo momento – como se algo estivesse prestes a acontecer e nunca, de fato, acontece. O espectador fica nesta aflição até o desfecho da história, que ocorre sem um clímax devido, como se apenas para “compensar” o público (ou choca-lo, como alguns podem alegar). Para além disso, os debates propostos ficam à beira da superficialidade e nunca são aprofundados. Ventre é um filme para poucos: esteticamente belo por um lado, pelo outro infelizmente lhe faltou ousadia e é isso que o impede de ser um cinema memorável.

Café Society (Café Society)

Café Society  vem sendo saudado como um dos melhores filmes de Woody Allen nos últimos tempos – provavelmente o mais elogiado desde Meia Noite em Paris, em 2011. Não que o longa (que estreou em Cannes este ano) esteja na lista de suas obras mais primorosas ou que Allen tenha retornado à sua velha forma – mas, de fato, Café Society  é, no mínimo, um filme agradável de se ver.

A história, que se passa na década de 30 (na efervescência da chamada ‘era de ouro’ do cinema, com suas luzes e cores em technicolor) acompanha o judeu nova-iorquino Bobby (Jesse Eisenberg), que sai do Bronx para tentar ganhar a vida em Hollywood trabalhando com seu tio Phil (Steve Carell), um poderoso agente dos astros de cinema de então. Não demora muito para que o inocente Bobby se apaixone por Vonnie (Kristen Stewart), sem saber que a bela jovem é amante de Phil.

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Café Society  é apenas Woody Allen sendo ele mesmo. Todos os “ingredientes” de seus filmes estão ali: um protagonista que é seu próprio ego (aqui potencializado às alturas com a atuação de Eisenberg), um drama cotidiano discutido entre diálogos existencialistas e piadas com judeus, uma trilha sonora regada a jazz, enfim… Café Society  é uma típica produção de Allen, contando inclusive com a mesma identidade visual de suas obras mais recentes – mérito da ótima fotografia do veterano Vittorio Storaro, que trabalha com filtros de luz que favorecem muito o estilo garboso da época.

O elenco estelar agrega muito à narrativa. Steve Carell demonstra carisma na pele do ricaço Phil, enquanto Eisenberg cai como uma luva ao personagem Bobby. É incrível o quanto o ator está um verdadeiro protagonista de Allen. Mais: Jesse é praticamente o próprio Allen. Seja na calça acima do umbigo, nas mãos na cintura ou no falar cômico, o intérprete parece ter assistido a todos os filmes em que Woody atua porque ele é cópia fiel do cineasta. Já Stewart empresta bastante sobriedade à sua Vonnie. É interessante analisar o quão bem Woody desenvolve essa personagem: o que temos em cena é uma mulher que ama dois homens com a mesma intensidade, porém de maneiras distintas (e é óbvio que ela vai optar por aquele que lhe é mais conveniente). Allen, no entanto, não procura trazer nenhum debate moralista a esta trama; ele não discute as escolhas desta figura feminina, apenas suas consequências.

O amor não correspondido mata mais pessoas no ano do que tuberculose.

Assim, Café Society  se destaca. Com seu tom terno e acolhedor, ele nos faz rir em inúmeros momentos, nos emocionar em outros tantos, refletir com algumas de suas frases de efeito, como um bom filme de Woody Allen deve ser. Sua conclusão, todavia, não é muito feliz como uma produção mais “comercial” exigiria. Pelo contrário: seu desfecho é triste, duro, assim como a vida em algumas ocasiões. É um lado mais racional para se encarar nossa existência. Café Society  não é a obra máxima de Allen, mas por ainda estar acima da média, atesta a genialidade de seu diretor.

12 Horas Para Sobreviver – O Ano Da Eleição (The Purge: Election Year)

01Os dois primeiros filmes da franquia Uma Noite de Crime custaram juntos pouco mais de US$ 12 milhões – uma ninharia se comparado aos mais de US$ 200 milhões que arrecadaram pelo mundo desde sua estreia, em 2013. De fato, a premissa é intrigante: o “expurgo”, um evento anual do estado norte-americano onde todo e qualquer tipo de crime pode ser cometido sem intervenção do sistema judiciário. No Brasil, no entanto, a série parece não ter ido lá muito bem – e isso explica o título nacional que, à primeira vista, procura distanciar totalmente esta nova produção das anteriores: 12 Horas Para Sobreviver – O Ano da Eleição.

Verdade seja dita: não há nada original neste terceiro capítulo da saga e o roteiro segue a mesma fórmula de seus primeiros filmes: a noite do “expurgo” e como sobreviver a ela. Desta vez, acompanhamos Leo Barnes, chefe de segurança da equipe da senadora Charlie Roan, uma das mais fortes candidatas à presidência dos EUA. A campanha de Charlie, que já foi vítima do expurgo no passado, visa extinguir do calendário este evento que dizima continuamente milhares de pessoas a cada nova edição – em especial, as menos favorecidas. Com isso, ela compra briga com poderosos e se torna alvo óbvio da noite mais “aguardada” do ano.

Talvez o que mais tenha faltado a 12 Horas Para Sobreviver – O Ano da Eleição é ousadia. A proposta é interessante (principalmente se considerarmos que este é o ano de eleição presidencial nos EUA – e por lá a disputa está bastante polêmica e acirrada), mas o argumento pouco se utiliza dela, apostando na mesma receita batida das produções anteriores. O tema abre diversas possibilidades e muitas ideias poderiam ser exploradas, desde a própria questão política até mesmo o “turismo criminoso” (que até chegou a ser citado, mas sem qualquer profundidade) ou a segregação de classes. Além disso, 12 Horas Para Sobreviver apresenta uma leve alteração em sua natureza: se antes era o suspense que predominava em boa parte da fita, é visível que esta sequência tem muito mais cara de filme de ação. O próprio personagem de Frank Grillo é o típico protagonista do gênero: bom lutador, possui excelente mira, desconfia de tudo e todos. Isso não chega a ser um problema (até porque a direção de James DeMonaco dá conta do recado), mas torna este filme menos “sombrio” que seus antecessores.

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12 Horas Para Sobreviver peca ainda no seu desfecho apressado: a história termina e o espectador fica com aquele gostinho de “tá, mas e aí?”. O longa poderia ter expandido seu alcance, trazendo para debate uma crítica social necessária: até quando os interesses dos mais ricos vão afetar a vida da classe mais pobre? No entanto, 12 Horas Para Sobreviver se limita exclusivamente a um filme de ação clichê e fácil – desperdiçando seu potencial em algo apenas trivial.

O Funcionário do Mês (Quo Vado?)

Em época de crise, quem é que não almeja a estabilidade (e regalias) de um emprego público? Para Checco, que desde cedo sonhava em ser funcionário do governo assim como seu pai, o cargo no Departamento de Caça e Pesca é tudo o que ele pediu a Deus. Com um bom salário, solteiro, sem filhos e ainda morando na casa dos pais, ele tem seu posto ameaçado quando uma mudança política faz com que o governo tenha que cortar alguns gastos. Agora, resta ao egoísta Checco escolher entre uma demissão voluntária ou ser transferido para um lugar distante.

O Funcionário do Mês chega timidamente aos cinemas brasileiros, apesar das boas críticas ao redor do mundo e, principalmente, do título de maior bilheteria italiana de todos os tempos. Sob a direção de Gennaro Nunziante, esta comédia do absurdo explora os abusos do funcionalismo público na Itália. Além disso, o roteiro também critica de forma bem-humorada a arrogância do poder público, especialmente na construção da personagem Sironi, a advogada responsável por fazer Checco finalmente pedir as contas. Entre armadilhas e viagens para os locais mais improváveis, ela faz de tudo para que Checco ceda aos seus caprichos – a doutora só não imaginava que tudo o que Checco menos deseja é perder esta “mamata”.

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Em meios a risos provocados por piadas dos mais diversos gêneros, O Funcionário do Mês conta com boas atuações por grande parte do seu elenco. Inegavelmente, é o humorista Checco Zalone quem mais se destaca: seu tipo é divertidíssimo e o ator consegue ir de uma emoção à outra com muita fluidez e naturalidade. Ele faz com que, por mais que desaprovemos algumas de suas ações, realmente nos identifiquemos e torçamos pelo protagonista da história. O alívio da trama fica por conta de Eleonora Giovanardi, na pele de Valeria – é essa personagem quem trará à tona o lado mais “racional” de Checco, fazendo com que sua decisão se torne cada vez mais difícil.

Talvez devido à imigração europeia a partir do século XIX, Brasil e Itália são países que possuem muitas semelhanças entre si – e o cinema reflete um pouco dessas características, é verdade. O Funcionário do Mês até se parece com as nossas comédias nacionais, seja no tom pastelão, no desenvolvimento de seu protagonista ou mesmo nas situações absurdas que o argumento propõe. No entanto, mesmo com seus exageros e aos trancos e barrancos, O Funcionário do Mês diverte e muito o espectador que se propuser a conferir esta obra – que além de fazer rir faz com que o público se enxergue nela e ria de si mesmo. E é isso que esperamos de um humor inteligente.