Na Próxima, Acerto no Coração (La Prochaine Fois je Viserai le Coeur)

02Ninguém dava bola para Guillaume Canet, quando lá no início dos anos 2000, o rapaz atuou ao lado de Leonardo DiCaprio em A Praia, de Danny Boyle. Em começo de carreira, Guillaume não era lá um grande intérprete – mas o tempo passou e foi generoso: com muita dedicação, o bonitão se tornou um dos mais promissores atores franceses de sua geração (além de diretor e roteirista). Agora, o quarentão é o nome principal de Na Próxima, Acerto no Coração, thriller dirigido por Cédric Anger inspirado em acontecimentos reais que chocaram uma pequena comunidade na França no final da década de 70. A trama acompanha um policial extremamente rígido em suas funções, designado junto com sua equipe a investigar uma série de crimes brutais cometidos contra jovens mulheres. Na verdade, o serial killer em questão é o próprio militar.

O argumento de Na Próxima, Acerto no Coração foge do convencional estilo “investigativo”: já de cara, a identidade do assassino é revelada. Isso não diminui o filme; pelo contrário: a narrativa se concentra praticamente na construção de seu protagonista da forma mais abrangente possível. O roteiro não se lança sobre a investigação, mas sim sobre Franck: sua rotina, seus sentimentos, trejeitos e comportamento diante dos fatos. O personagem tem consciência do que é moralmente certo ou errado; ele pratica autoflagelação, apesar de não ser um fanático religioso; vem de uma família aparentemente amorosa, mas trata suas vítimas com total frieza; tem nojo de sujeira e se incomoda com o sangue das mulheres que mata, mas passa horas caminhando por florestas inóspitas. Enfim, cada detalhe é importante para que a personalidade de Franck seja bem definida.

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Canet é competente em sua atuação. Seu tipo misógino (apesar do filme não escancarar uma possível homossexualidade de Franck) é acompanhado por uma constante expressão de insatisfação. Com uma fotografia que preza as cores frias e uma trilha sonora inquietante, Na Próxima, Acerto no Coração é um longa que não oferece pistas muito fáceis ao espectador –  até mesmo porque a história não se debruça sobre os fatos, mas sim sobre seu protagonista. Sabemos que Franck será capturado em algum momento, mas queremos seguir seus passos, aguardando seu próximo crime. Na Próxima, Acerto no Coração pode não ser memorável, é verdade, mas acerta em cheio ao abandonar os clichês do gênero e explorar com propriedade a mente de um assassino.

O Pequeno Príncipe (The Little Prince)

Quando soube da adaptação de Mark Osborne (Kung Fu Panda) para O Pequeno Príncipe, confesso que tive um misto de sensações. Por um lado, fiquei deveras assustado – afinal, adaptar uma obra literária para os cinemas será sempre uma tarefa difícil, especialmente quando se trata de uma leitura unânime como o clássico de Saint-Exupéry. Por outro lado, no entanto, a empolgação tomou conta de mim – afinal, assim como a milhares de pessoas, O Pequeno Príncipe marcou realmente minha vida. Mais do que isso: O Pequeno Príncipe não é apenas um livro infantil: é praticamente um retorno à nossa infância.

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O Pequeno Príncipe não tenta apenas recriar na tela a história original como a conhecemos. Na verdade, o cineasta escreve  uma nova trama a partir, aparentemente, de sua própria experiência com o livro (experiência que é compartilhada por muitos, a bem da verdade). Nessa versão, acompanhamos uma menina (sem nome e que teria sido inspirada na filha do diretor) que desde cedo é preparada pela mãe para ser uma adulta de sucesso. Para tanto, seu dia é cuidadosamente dividido, cronometrado e ajustado para ajudá-la a ser aceita em um colégio renomado. É óbvio que, apesar das ótimas intenções, a mãe não consegue enxergar que, com tudo isso, a garota há tempos deixou de ser uma criança comum. Rejeitado pelos moradores do bairro por ser um verdadeiro sonhador, surge neste instante a figura do aviador, que narra à pequena vizinha seu encontro com um garoto especial, o nosso Pequeno Príncipe.

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Essas duas narrativas são contadas paralelamente e utilizando técnicas diferentes de animação: enquanto no plano “real” a história é recriada em CGI, o universo do principezinho é todo pontuado em stop motion (e, em ambos os casos, tudo é feito com bastante esmero e sofisticação). Para além das duas tramas, entretanto, este O Pequeno Príncipe é ousado em dar um passo além daquilo que já conhecemos, nos apresentando uma variação do conto. Essa forma inteligente de condução do argumento é importante para fazer com que o filme funcione tanto para os que já tiveram algum contato com o livro como para aqueles que o desconhecem. O cineasta ainda é competente ao dosar os momentos de humor e drama, não sendo caricato demais nem pesado demais. Ainda com bons planos que valorizam as cores e nuances de cada personagem, O Pequeno Príncipe também acerta na trilha sonora comandada pelo experiente Hans Zimmer, que contribui muito na construção do produto final.

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Se há um “porém” nisso tudo, devo deixá-lo claro: o nosso Príncipe é um mero coadjuvante. Isto é um problema? Bem, depende de cada um. Qualquer espectador que assistir a O Pequeno Príncipe com certa atenção vai perceber que a intenção de Mark não foi reproduzir o livro como ele é, mas sim captar sua essência – e é um fato que ele conseguiu cumprir sua missão. O Pequeno Príncipe transborda sensibilidade e é interessante a crítica que o longa faz à perda da inocência em um mundo cada vez mais veloz, que clama por um crescimento “padrão” e um comportamento pré-estabelecido (“isto é certo, aquilo é errado”). Isto quer dizer que se você espera um filme fiel à trama de Exupéry, nem vá ao cinema. O Pequeno Príncipe é capaz de emocionar e ser marcante tanto para crianças quanto para adultos, sim – mas consegue isso ao resgatar aquilo que constitui a natureza de seu universo e não recontando sua literatura.

A Dama Dourada (Woman in Gold)

A sequência inicial de A Dama Dourada acompanha uma mulher posando para uma pintura – mais tarde, descobrimos que trata-se do retrato de Adele Bloch-Bauer, feito pelo artista simbolista Gustav Klimt. Em seguida, somos levados para o ano de 1998 e acompanhamos os esforços de Maria Altmann (Helen Mirren), uma judia sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, para recuperar o referido quadro, que teria sido roubado de sua família pelos nazistas durante o período de ocupação alemã na Áustria. Para tanto, Altmann enfrenta uma batalha acirrada contra o governo austríaco para reaver a obra de arte  que, na ocasião, estaria exposta em um museu na cidade de Viena.

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Dirigido por Simon Curtis (de Sete Dias Com Marilyn, de 2011), A Dama Dourada é uma boa cinebiografia (até mesmo melhor do que a de Norma Jeane, do mesmo cineasta, vamos admitir), aos moldes das produções britânicas mais tradicionais, que se desenvolve sobre dois eixos distintos: o primeiro, atual, que refaz a busca pessoal da protagonista para reaver o que é seu por direito; e o segundo que transporta a narrativa aos cruéis anos do Holocausto, recorrendo a flashbacks para recriar os acontecimentos do passado.

No entanto, A Dama Dourada não se aprofunda em nenhum destes eixos: não chega a emergir no drama dos personagens diante dos horrores da guerra, mas tampouco cria muita expectativa com as cenas de tribunal. Compensa praticamente toda essa deficiência na ótima atuação de Helen Mirren – que, apesar de não ser austríaca, claro, consegue compor um tipo curioso com seu sotaque arrastado e seu grau de cultura e refinamento. Ryan Reynolds, por sua vez, faz um personagem pouco carismático, aquele meio atrapalhado e que devido ao seu péssimo desenvolvimento, não consegue convencer como bom moço.

É fato que A Dama Dourada tinha um grande potencial, mas perdeu muito de sua força por não ter um propósito maior exceto apenas contar os fatos. Em determinado instante no final da trama, um dos personagens suplica à filha “Lembre-se de nós”, em uma curta porém bela cena – como se o diretor também fizesse esse apelo ao público com relação ao filme. Mas será que A Dama Dourada é capaz de despertar isso?

Adeus à Linguagem (Adieu au Langage)

Há filmes que não são feitos para ser entendidos. Eles são produzidos não para contar uma história, informar ou mesmo trazer algum tipo de questionamento; eles apenas existem para ser contemplados, pelo prazer exclusivo da arte. Se o espectador buscar alguma compreensão, as chances de sair do cinema frustrado serão grandes, pois a película está ali na tela para se admirar. É exatamente assim que vejo Adeus à Linguagem, novo filme do mestre da nouvelle vague Jean-Luc Godard.

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Ao longo de pouco mais de uma hora de duração, Adeus à Linguagem apresenta a trama de um homem e uma mulher, um casal cujo maior desconforto na relação é a falta de comunicação. Eles não se compreendem – e o cachorro é o símbolo deste relacionamento. É interessante, no entanto, analisar a forma como Godard conduz este argumento. A comunicação do filme é totalmente visual – e é justamente isso que dificulta um entendimento maior da fita. Em determinado momento, Godard diz que “as duas maiores invenções são o zero e o infinito” – frase que traduz bem a proposta do artista de nos fazer entender algo que, na realidade, não está ao nosso alcance.

Conforme o próprio título sugere, Godard quebra a narrativa convencional e constrói uma nova linguagem, cuja força reside na mistura competente de som e imagem. O admirável aqui é o domínio de Godard como cineasta: sua destreza é impecável. Como uma criança com um brinquedo na mão, assim é Godard como diretor, buscando os mais diferentes recursos e manejando-os com total desenvoltura e simplicidade (para se ter noção, até mesmo uma câmera de celular é material de trabalho para Godard). Para tornar a experiência ainda mais agradável, o uso do 3D é excepcional – e, para um profissional que nunca utilizou tal técnica, Godard proporciona algo bastante satisfatória.

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Infelizmente, no entanto, Adeus à Linguagem é ainda um filme de Jean-Luc Godard. E o que isso quer dizer? Bom, se o cineasta sempre foi sinônimo de um cinema “difícil”, é fato que Adeus à Linguagem não é um de seus trabalhos mais fáceis. De longe, Adeus à Linguagem é um de seus filmes mais experimentais, ousados e emotivos, apesar de conter vários elementos comuns à sua filmografia (como a trilha descontinuada, os personagens que conversam fora de enquadramento ou os diálogos cheios de reflexões). Não à toa, Adeus à Linguagem foi considerado a melhor produção de 2014 pelos críticos norte-americanos, além de ser ovacionado em Cannes. Mas a verdade é que o público “comum” tende, com toda razão, a desprezar uma obra como esta. Para os cinéfilos, entretanto, Adeus à Linguagem comprova a maestria de um Godard que merece ser apreciado.

Tiago Iorc Esbanja Alegria em “Troco Likes”

Quando surgiu com Let Yourself In, em 2008, Tiago Iorc era um jovem artista que buscava (ou não) apenas um lugar ao sol. Elogiado, o álbum de estréia rendeu-lhe ótimos singles (muitos viraram trilhas de novela, quase um “carma” para o brasiliense). A voz doce, a sonoridade pop leve e sem forçar a barra e as composições em inglês caíram no gosto do público, não apenas no Brasil, mas também no exterior – o que seria suficiente para Tiago impulsionar uma sólida carreira internacional. Mas isso, de fato, não aconteceu: Tiago fez turnês mundo afora (especialmente na Ásia), ganhou certa visibilidade mas fez no Brasil sua fanbase mais fiel, principalmente no ambiente virtual, onde Tiago é bastante querido.

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Esse pequeno panorama é interessante para que possamos entender o que Troco Likes representa na discografia de Tiago. Quarto álbum do cantor, Troco Likes é um Tiago Iorc revigorado, refletindo claramente as mudanças que o tempo lhe trouxe e que foram surgindo gradualmente no decorrer de sua curta carreira. Troco Likes, mais do que qualquer trabalho anterior (como Umbilical e Zeski, respectivamente de 2011 e 2013), é Tiago Iorc sendo Tiago Iorc, mostrando sua verdadeira faceta como artista e como ser humano. Dessa forma, Troco Likes apresenta um Tiago muito mais maduro e à vontade consigo mesmo, não apenas cantando, mas sobretudo interpretando, sentindo o que está dizendo a cada letra.

Tiago abandona quase por completo o inglês como idioma e abraça o português – o que pode sugerir que Troco Likes é uma invariável continuação de Zeski, mas não vamos pensar nisso. Todas as faixas são em sua língua nativa (exceto a bônus Till I’m Old and Gray, uma das mais gratas surpresas, apenas com voz e violão) e escancaram uma nova fase de Tiago: a felicidade. O cantor deixa de lado o tom soturno do último CD, as letras mais introspectivas e densas e aposta em uma pegada bem mais alegre. Não que as faixas mais tristonhas sejam inexistentes, como é o caso de Eu Errei, Cataflor e Liberdade ou Solidão – essas duas últimas com ótimos arranjos de cordas, acentuando bastante o clima melancólico. Apenas o disco é muito mais ensolarado, radiante, claro.

E é aí que conhecemos Tiago como ele é e para o que realmente veio. As canções aí se dividem quase em dois grupos: as mais românticas, como Amei Te Ver (de longe, a que mais nos remete ao estilo de Let Yourself In), a deliciosa De Todas as Coisas e Coisa Linda (primeira música de trabalho, uma ode ao amor e uma das melhores composições de Tiago); e as que possuem críticas sociais, como Bossa (onde Tiago já grita “Atenção: as pessoas não precisam ser iguais as outras!”) ou Sol Que Faltava, onde o intérprete cria um novo verbo (“instagramear”) para cutucar a “geração Whatsupp” e o universo das redes sociais – daí talvez se explique o curioso título Troco Likes, cuja capa nos traz um desenho de Tiago forçando um sorriso amarelo. Por sua vez, vocalmente o rapaz continua imbatível e arrisca a voz em faixas como Alexandria (que possui um refrão pegajoso, mas eficiente) e a simplesmente espetacular Mil Razões – a música mais ousada do disco, com corajosos arranjos de metais.

01Troco Likes é um dos melhores álbuns nacionais do ano até aqui. Apesar de se distanciar do estilo que o consagrou, Tiago ainda tem como ponto forte sua voz suave e os arranjos serenos e bem executados. Talvez Troco Likes esbanje tanta alegria e luz por refletir a boa fase amorosa do artista: Tiago namora há algum tempo a atriz Isabelle Drummond e frequentemente o casal é clicado por aí – e o público percebe que os dois estão super bem, obrigada. Ouvir Coisa Linda, por exemplo, é praticamente enxergar o cantor sussurrando a letra no ouvido da namorada apaixonada, pare para analisar. Pudera: afinal, Troco Likes é apaixonante.

Corrente do Mal (It Follows)

Apontado como uma das gratas surpresas do Festival de Sundance 2015, Corrente do Mal está sendo saudado pela crítica como um dos melhores filmes de terror dos últimos anos – e, considerando o gênero, não é algo que a gente encontre por aí todo dia. De fato, esta produção sobre fantasmas tem seus devidos méritos e pode agradar aos fãs do estilo, apesar de não ser um projeto memorável. A trama, passada no subúrbio de uma Detroit decadente (cinza e solitária, como uma verdadeira cidade fantasma), acompanha Jay, uma adolescente comum como tantas outras de sua idade. Após uma noite de sexo casual com Hugh, o rapaz com quem está saindo, Jay descobre algo improvável: Hugh transmitiu a ela uma maldição, que fará com que Jay seja perseguida por uma entidade que assume diversos corpos. Para se livrar desta criatura e salvar sua vida, Jay tem que passar esse mal adiante da mesma forma como o contraiu: transando com outra pessoa.

01 A princípio, alguns podem pensar que trata-se de uma analogia ao sexo sem proteção e a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, mas a verdade é que a metáfora pode estar muito mais ligada à perda da virgindade ainda na adolescência – e a “maldição” como uma punição que acompanhará o jovem (ou melhor, a jovem) durante toda sua vida. É como se fosse um peso que se tem a carregar, o que traz um caráter ligeiramente mais social à história. No entanto, são apenas teorias – que podem até mesmo ser jogadas por terra com o fato de que o “mal” em questão perde seu impacto quando passado adiante. A câmera do diretor David Robert Mitchell nos dá a interessante sensação de que estamos próximos da protagonista, uma vez que é como se os personagens estivessem sendo observados a todo instante. Além disso, as lentes percorrem todos os cantos, reproduzindo cenários que incluem uma casa minimamente decorada, uma praia deserta ou mesmo os bairros de um subúrbio deprimente, que agregam um ar de mistério à narrativa. No entanto, é a trilha sonora quem mais contribui para o clima macabro da fita: com uma pegada psicodélica e abstrata, o uso de sintetizadores nos leva de volta aos filmes de terror dos anos 80 e, de longe, é o ponto forte de Corrente do Mal.

Infelizmente, as atuações deixam a desejar: apesar de uma protagonista regular, o elenco de apoio é fraco – mas não tanto quanto o argumento. Na tentativa de aumentar o suspense, os personagens não são suficientemente desenvolvidos, muito menos a entidade. Nenhuma informação sobre qualquer coisa em Corrente do Mal é fornecida, como se o cineasta quisesse apenas retratar os fatos como são, dando ao espectador a oportunidade de tirar suas próprias conclusões. Infelizmente, o filme perde o fôlego em vários momentos, onde os poucos sustos são postos de lado e dramas não tão atraentes vem à tona, além da falta de terror gráfico. Corrente do Mal até consegue assustar aqui e ali e criar uma aura de tensão, mas se sai muito melhor em seu visual vintage, que reforça o mistério e gera uma identidade única para o filme. Pena que nem sempre beleza fala mais alto – às vezes, é importante ter um pouco de conteúdo…

O Que as Mulheres Querem (Sous Les Jupes Des Filles)

“O que as mulheres querem?” – está aí uma pergunta que você já deve ter ouvido centenas de vezes. A verdade é que esta é uma dúvida que nos aflige desde os primórdios da humanidade e já foi abordada em diversos momentos na ficção, tornando-se um tema quase trivial. Pois é exatamente isto que a cineasta Audrey Dana tenta responder em seu filme de estreia – e, levando em consideração que se trata de uma obra dirigida por uma mulher, poderíamos pensar que a forma como a questão foi explorada seria um pouco diferente. Engano o nosso…

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O Que as Mulheres Querem segue 11 mulheres parisienses buscando aquilo que desejam: amar e serem amadas. Os problemas, entretanto, se apresentam logo no início: uma repetição dos mesmos tipos já estereotipados em outras produções do gênero. Mas com um agravante: as mulheres de Audrey Dana não se bastam, necessitando sempre da figura masculina (nem que refletida em uma lésbica, para você ter noção do absurdo) para serem felizes e se realizarem por completo. Essa banalização do feminino se debruça sobre personagens superficialmente desenvolvidos, que por sua vez transitam um roteiro excessivamente caricatural que além de recorrer aos já citados estereótipos (a esposa infeliz que se apaixona por uma babá, a executiva que não tem vida social, a traída que inferniza o esposo e etc.) utiliza inúmeros clichês e fórmulas batidas com o intuito de produzir humor onde não há. Para piorar, este excesso de personagens acaba prejudicando também as narrativas individuais, com tramas que deixam pontas e desfechos indefinidos.

A diretora (que também atua) infelizmente entrega uma das piores produções francesas nos últimos anos, apostando em elementos utilizados à exaustão no cinema, sem se preocupar com mudar minimamente a receita (temos os mesmos tipos e a velha abordagem que vulgariza a mulher). Com isso, nem o bom elenco (que conta com a participação da premiada Isabelle Adjani e a ex de Johnny Depp, Vanessa Paradis) e a trilha sonora empolgante são capazes de fazer com que O Que as Mulheres Querem realmente valha a pena. Com pouca graça e um final pra lá de nonsense, O Que as Mulheres Querem é uma triste prova de que as mulheres no cinema ainda ficam um pouco perdidas quando o assunto são elas mesmas.

D.U.F.F. (The DUFF)

Imagine vários filmes de comédia adolescente da década de 90 pra cá, como As Patricinhas de Beverly Hills, Garotas Malvadas, 10 Coisas Que eu Odeio em Você ou Gatos, Fios Dentais e Amassos. Pense em tudo o que eles tem em comum – de recursos visuais a personagens. Selecione corretamente os melhores pontos, aqueles que você sabe que vão funcionar de forma certeira. Pois bem: isto é D.U.F.F.

D.U.F.F. conta a história de Bianca, uma típica adolescente às vésperas do fim do colégio. Ela não é a garota mais linda nem a mais estilosa, curte clássicos de terror, não é popular e muito menos esportista; por outro lado, compensa todas essas “particularidades” com seu bom humor e lealdade aos amigos. Até descobrir que é uma “DUFF” – do inglês designated ugly fat friend, expressão utilizada para se referir àquela menina não tão favorecida fisicamente que serve de intermédio entre as amigas e as demais pessoas. Revoltada, ela pede ao seu vizinho bonitão que a ajude a melhorar o visual e ser mais sociável – em troca disto, ela se dispõe a auxilia-lo a passar de ano.

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Essa sinopse (ou parte dela) poderia se encaixar em qualquer comédia adolescente que se preze. D.U.F.F. é puramente um emaranhado de todos os clichês comuns ao gênero, desde a narrativa completamente batida, a trilha sonora pop e efeitos especiais aos personagens do longa, como o atleta com o corpo escultural, a loira fútil que sonha em ser a rainha do baile e o amor platônico da protagonista (que, no final, se mostra um grande imbecil). Tudo ali produz a incrível sensação de “já vi isso em algum lugar” – e ela é real. De fato, não há nada minimamente original no filme. No entanto, D.U.F.F. possui um ritmo tão leve e despretensioso que o espectador não se incomoda tanto com isso. Pelo contrário: quanto mais o filme avança, mais o público embarca na história.

A minha velha defesa é de que os clichês, quando bem utilizados, podem render resultados satisfatórios. D.U.F.F. é prova disso. Com uma boa química entre o elenco (com destaque para o casal Mae Whitman e Robbie Amell) e um humor estrategicamente pontual, D.U.F.F. não é uma produção extraordinária, mas cumpre muito bem sua proposta de entreter. Boa surpresa para um filme repleto de clichês – que são muito bem-vindos quando sabiamente utilizados.

Carrossel: O Filme (Carrossel: O Filme)

02Durante a coletiva de imprensa de Carrossel: O Filme, a produtora Diane Maia utilizou uma expressão que me chamou a atenção – “a força da marca Carrossel”. É justamente isso: Carrossel é uma marca que se perpetua desde o final dos anos 80, quando a novela foi produzida pela Televisa (na época, já um remake de um programa da TV argentina), chegando ao Brasil pela primeira vez em 1991 através do SBT. Duas décadas depois, a emissora de Silvio Santos fez a sua própria versão da história – muito bem sucedida, não apenas pela qualidade da produção mas também pela quantidade de produtos licenciados. O folhetim assinado pela esposa do patrão, Iris Abravanel, não decepcionou e trouxe uma audiência excelente para o SBT – em um horário marcado por telejornais sensacionalistas, Carrossel criou uma legião de fãs e resgatou um público que era abandonado pelas demais redes. Diante disso, a novela foi reprisada, ganhou uma série menos badalada (a fraquíssima Patrulha Salvadora) e, agora, seu longa-metragem – que, definitivamente, não era necessário, mas é totalmente satisfatório.

A trama de Carrossel: O Filme é relativamente simples: os alunos da fictícia Escola Mundial estão em férias e viajam para um acampamento pertencente ao avô de uma das crianças do grupo. Sem a presença da querida professora Helena (Rosanne Mulholland, agora de volta ao casting da concorrente Globo) e acompanhados da diretora Olívia (Noemi Gerbelli) e da faxineira arretada Graça (Márcia de Oliveira), a turma é dividida em duas equipes para a disputa de uma gincana. No entanto, os times terão de unir forças para evitar que o sítio seja vendido para o vilão Gonzalez, que pretende transformar o local em uma fábrica poluente.

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Confesso que não é fácil assistir a Carrossel: O Filme sem ressalvas. A primeira já se apresenta no fato de que estamos diante de um filme voltado a um público infantil. Não que isso seja lá um grande problema ou que produções infantis não possam ser boas (um dos meus filmes preferidos, por exemplo, é o ótimo O Pequeno Nicolau, de Laurent Tirard), mas é difícil esquecer que a novela acabou há cerca de três anos e o elenco cresceu. Lucas Santos, o arteiro Paulo, engrossou bem a voz, por exemplo; Nicholas Torres, intérprete de Jaime, tem até barba; Fernanda Concon já é adolescente. Esta talvez tenha sido a maior tarefa dos diretores: fazer com que atores razoavelmente maduros consigam interpretar personagens tão infantilizados, cada um com características fortes e marcantes. Em alguns momentos, isso pesa bastante e o filme tropeça em um tom meio “bobo” ou caricato demais.

No entanto, o roteiro simples e direto é bem desenvolvido dentro de sua proposta, gerando situações engraçadas, apesar de poucas surpresas. O texto de Márcio Alemão e Mirna Nogueira consegue, em pouco menos de 1 hora e meia, valorizar cada um dos personagens e todos eles tem seu devido espaço (embora obviamente haja os destaques do grupo). E é interessante ver o time mirim em cena e constatar que alguns deles não amadureceram só no físico, mas sobretudo profissionalmente. Nomes como o já citado Lucas Santos, Thomaz Costa e Stefany Vaz dominam bem seus papéis, visivelmente mais seguros à frente das câmeras. O elenco adulto ganha bastante com a escalação de Orival Pessini (sim, o boneco Fofão) e Gabriel Calamari (pena que este último ficou reduzido apenas ao jovem gatinho que arranca suspiro das meninas mais novas). Para apimentar a narrativa, Paulo Miklos e Oscar Filho formam a dupla má da vez, no melhor estilo “vilão e ajudante atrapalhado”. No entanto, ambos são excessivamente extravagantes, estereotipados e previsíveis – mas tudo bem, a gente perdoa.

Com uma trilha sonora eclética, Carrossel: O Filme tem mais um pecado: o excesso de didatismo da direção de Alexandre Boury e Mauricio Eça, que não se contenta apenas em mostrar os fatos, mas explicá-los. O personagem tem que dizer que o acampamento é sua vida, o vilão necessita afirmar que odeia crianças, os pequenos precisam soltar (e cantar) aos quatro ventos que são amigos inseparáveis – os acontecimentos, por si, parecem não ser suficientes. Mas isso não atrapalha a película final. Apesar de não poder se comparar a grandes produções do gênero ou a um longa Disney, Carrossel: O Filme acerta ao levar para o cinema os melhores elementos da história na TV, com uma trama divertida, leve, sem apelação e números musicais que tem potencial para grudar na cabeça da garotada. Além disso, a fita traz lições valiosas sobre amizade e companheirismo e também reflexões sobre o respeito à natureza, ainda que todos esses temas sejam tratados de forma um tanto infantil. Boa opção para as férias, cabe ao espectador abandonar todos os preconceitos e embarcar nessa aventura.

“Sete Vidas”: Trama de Lícia Manzo se Despede Deixando Saudades

Quando 2015 se iniciou, todas as atenções estavam voltadas a Babilônia, trama de Gilberto Braga (autor de Vale Tudo e Dancin’ Days) em parceria com Ricardo Linhares e João Ximenes Braga. Contrariando as expectativas, Babilônia foi rejeitada pelo público, tendo o pior desempenho do horário em todos os tempos. Foi quando Lícia Manzo chegou timidamente com Sete Vidas, surpreendendo com uma produção que já pode ser considerada uma das melhores telenovelas globais em anos.

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A sinopse de Sete Vidas foi inicialmente apresentada para o horário das 11, com apenas 50 episódios. Isto explica uma de suas qualidades mais notáveis: Sete Vidas teve uma narrativa “enxuta”. Com pouco mais de 100 capítulos, não houve muita correria ou enrolação (algo comum em trabalhos mais longos), o que contribuiu muito para o ritmo de Sete Vidas. Esta duração é bem menor que a média das produções globais, que sempre sofrem com aquela desconfortável sensação de “extensão” desnecessária. Na contramão, Sete Vidas ficou com aquele incrível gostinho de “quero mais”. Talvez esta é a hora da emissora apostar em folhetins mais curtos como este.

Lícia Manzo também tem se mostrado uma autora de talento. Muitos comparam seu estilo ao do veterano Manoel Carlos (de Por Amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas) – e, sim, as semelhanças são evidentes. Ambos criam seus textos baseados em situações cotidianas. Apesar do foco ser obviamente famílias de classe média, os dramas levantados são universais, capazes de atingir os mais distintos públicos. Este humanismo provoca identificação e reflexão. Talvez a única diferença entre Lícia e Maneco é que enquanto o autor constrói suas personagens sob um olhar livre de julgamento, Lícia possui uma abordagem mais crítica. O tom de “DR” é quase predominante em toda sua obra, como se cada um de seus tipos estivessem debatendo suas ideias e sentimentos. Se para muitos isso pode soar “chato”, em Sete Vidas a escritora surpreendeu pela qualidade de seu texto, que nos proporcionou diálogos intensos.

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Com uma proposta original (que basicamente se estruturou a partir do atual conceito de família), Sete Vidas apresentou temas contemporâneos e importantes, como inseminação artificial, homossexualidade, adoção – todos tratados com total humanidade. Com conflitos plausíveis, a novela abandonou os exageros tão comuns nos folhetins e sequer trouxe os tradicionais vilões, até mesmo por conta de sua abordagem. Jayme Monjardim, diretor de núcleo, teria até abandonado o uso excessivo de maquiagem, buscando trazer maior realismo à história e ressaltando as expressões e atuações de um elenco inspirado. Bastante homogênea, a escalação de Sete Vidas foi elogiada, desde os rostos mais conhecidos (de Débora Bloch, Selma Egrei, Regina Duarte – esta última em um papel secundário que roubou a cena) até nomes mais novos e que merecem atenção, como os novatos Isabelle Drummond, Jayme Matarazzo e Thiago Rodrigues.

Com um desfecho que dispensou quaisquer clichês batidos em nossa teledramaturgia (não teve casamento, nem bebês nascendo ou gente má se dando mal), Sete Vidas se despede do espectador como uma das mais expressivas tramas globais dos últimos anos. Chegando de mansinho, a novela caiu no gosto popular, proporcionando debates necessários à hora do café, no happy hour com os amigos ou na sala com a família – o que não deixa de ser uma surpresa, haja visto seu formato. Apesar de não ter o melhor Ibope, Sete Vidas foi repleta de diálogos marcantes e cenas memoráveis, mostrando que o realismo pode ser muito mais interessante que o velho conflito entre mocinhos e vilões. Resta a nós torcermos para que a Globo olhe Lícia Manzo com mais carinho, concedendo-lhe logo um merecido espaço no horário nobre.