Uma Nova Amiga (Une Nouvelle Amie)

Claire e Laura se conheceram ainda no colégio e logo tornaram-se amigas. As duas cresceram inseparáveis, dividindo suas experiências da infância à idade adulta. Suas vidas tinham tudo para seguir seu curso normalmente até a morte prematura de Laura, após dar à luz a sua única filha. Devota à companheira, Claire se compromete firmemente a cuidar tanto da criança quanto de David, o viúvo – até o dia em que Claire é surpreendida com um fato completamente novo: David é flagrado vestindo as roupas da falecida. A situação é um tanto quanto “bizarra” – ou, pelo menos, inesperada. Mas aí vem a explicação: o rapaz sempre gostara de se vestir como mulher – e, segundo ele, sua própria esposa sabia de sua preferência, apesar de David ter aprisionado essa “personalidade” durante muito tempo para manter as conveniências do matrimônio. O problema é que com a morte de Claire, essa figura “feminina” interior agora quer se libertar.

01Uma Nova Amiga traz abertamente um tema que ainda é tabu: a questão de gênero. Confesso que fiquei surpreso com a trama (até mesmo porque o trailer pouco revela sobre a história) e logo me recordei de Laurence Anyways, de Xavier Dolan – longa de 2012 que também falava sobre o assunto. No entanto, a abordagem sobre gênero é o único ponto em comum com o filme do cineasta canadense, pois Uma Nova Amiga nos traz alguns elementos que nos remetem vagamente à obra do espanhol Pedro Almodóvar, especialmente na forma como Virgínia (a versão feminina de David) se desenvolve e, aos poucos, toma espaço, se tornando praticamente a personalidade dominante – tanto que chega um instante na fita em que Claire quase se convence de que o melhor meio de David lidar com o luto pela morte da esposa é através de Virgínia, assim como ela mesma, que encontra na nova amiga uma razão para sua existência abalada.

Com uma fotografia competente (cujas cores também nos transportam ao universo de Almodóvar) e uma boa cenografia, Uma Nova Amiga flerta de maneira bastante pontual com vários estilos, desde o drama intimista (como no irreparável prólogo, que apresenta todas as fases da amizade entre Claire e Laura), a comédia e também o suspense – principalmente nas sequências de sonhos eróticos de Claire). Além disso, a trilha sonora contribui muito para o desenvolvimento da narrativa, acentuando o tom dramático através de acordes de piano envolventes. Por sua vez, o elenco cumpre bem sua função: se Anaïs Demoustier é eficientemente sóbria na construção de Claire, Romain Duris é, no mínimo, excepcional, se entregando totalmente à personagem. Sua atuação é bastante expressiva, sobretudo no olhar do ator, capaz de trazer toda ternura tanto a David quanto a Virgínia.

É interessante analisar a capacidade de François Ozon em percorrer os mais diversos temas e gêneros com total desenvoltura. Um dos maiores expoentes do novo cinema francês e um dos mais ativos cineastas contemporâneos (com, no mínimo, uma produção por ano), sua obra não é unânime – o que é compreensível, haja visto o período entre seus projetos. Uma Nova Amiga, por exemplo, está longe de ser o momento mais inspirado do diretor, mas possui uma identidade marcante que o torna um título obrigatório na filmografia do artista. Apesar de faltar ousadia, Ozon não decepciona ao trazer à discussão um assunto ainda polêmico, mas tratando-o com muita delicadeza, valorizando a inocência da transformação de sua personagem principal. Uma Nova Amiga é um filme que celebra brilhantemente a diversidade – e, sobretudo, a autodescoberta do indivíduo.

Cidades de Papel (Paper Towns)

Ainda criança, Quentin se apaixonou à primeira vista por Margo, sua nova vizinha – com quem criou um forte laço de amizade. Apesar das claras diferenças entre eles, os dois amigos eram inseparáveis e passaram a infância praticamente juntos. No entanto, a adolescência não foi tão favorável: aos poucos, os antigos melhores amigos foram se afastando, criando novas amizades e tornando-se quase estranhos um para o outro. Às vésperas do fim do colégio, os dois se reaproximam por uma noite – enchendo Quentin de esperança, já que o garoto jamais esqueceu seu primeiro e único amor.

01

Cidades de Papel é baseado no romance homônimo de John Green, mesmo autor de A Culpa é das Estrelas – um dramalhão água com açúcar que levou milhares de adolescentes às salas de cinema no ano passado e promoveu (para variar) a velha discussão sobre as adaptações de textos literárias para as telonas. Green, de fato, sabe como conversar com essa geração; o talento do escritor é inegável e o sucesso de sua obra está aí para comprovar (tanto que as produções de outros de seus títulos já foram anunciadas). Entretanto, irei concentrar minha crítica ao filme individualmente e não ao livro que o originou – e neste aspecto, Cidades de Papel não é lá um grande feito.

Há alguns motivos que impedem que Cidades de Papel seja um filme necessário, mas antes de tudo vale dizer que a ideia não é nova nem a forma como ela foi desenvolvida. É uma típica produção voltada ao público juvenil, com aquela abordagem repleta de sensibilidade para criar uma atmosfera “fofa” e até mesmo nostálgica. Tudo bem, o longa até consegue isso em algumas raras ocasiões, mas (sem querer levantar comparações) é um fato que o espectador tem na memória a imagem muito forte de As Vantagens de Ser Invisível – um drama praticamente unânime. Em alguns momentos, é impossível não associar os dois longas. Acompanhe: um protagonista tímido que tem uma paixão platônica por uma moça explosiva; os amigos que lamentam a fatídica separação; os bailes do colégio (com direito até mesmo a cena de dança descolada).

02

Por mais que o público não queira associar, chega um instante em que a história quase pede isso – e quando o espectador é capaz de esquecer um pouco o “concorrente”, aparece o segundo problema de Cidades de Papel: o argumento. Apesar de começar bem e você até sentir que a narrativa vai decolar, o filme mergulha em uma busca sem sentido do nosso protagonista por Margo – e quanto mais ele avança, mais Cidades de Papel perde o charme, ficando quase desinteressante. Com algumas sequências que nos remetem quase a um road movie teen, a obsessão de Quentin por Margo não é crível e é aí que outras subtramas vão surgindo, junto com os estereótipos (um adolescente virgem dizendo que pegou todas, a loura gostosa, o colega nerd que nunca fez nenhuma loucura), alguns ali apenas para preencher o roteiro porque não acrescentam absolutamente nada ao conjunto da obra.

Tecnicamente bem feito, Cidades de Papel poderia se sair melhor se deixasse de lado a história entre Quentin e Margo (um tipo sem o menor atrativo – e por isso fica difícil entender o fascínio de Quentin por ela) e se aprofundasse mais nos dramas do grupo de amigos. Talvez a completa falta de química entre Cara Delevingne e Nat Wolff contribuiu para que este casal não seja tão memorável quanto os personagens de Logan Lerman e Emma Watson, apesar do bom desempenho de Wolff – tanto que o ator e seus companheiros se saem muito bem juntos, mostrando bastante sintonia (há cenas que parecem ser tiradas dos bastidores). O filme até se sai bem em alguns trechos de humor e com algumas referências à cultura pop, mas se perde na falta de profundidade onde realmente valia a pena. Talvez devesse ser vendido (e se desenvolvido) como uma celebração à amizade e à juventude – e não um romance adolescente barato. Dessa forma, fica a sensação de que alguma coisa faltou, apesar de Cidades de Papel não ser um desperdício. É apenas menor do que aquilo que tenta ser.

O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator Genisys)

Recentemente tive a oportunidade de assistir no cinema ao clássico O Exterminador do Futuro, filme originalmente lançado em 1984 e dirigido por James Cameron – na época, um sucesso de público, capaz de revitalizar a carreira do brutamontes Arnold Schwarzenegger e gerar uma continuação elogiada (na década seguinte, com O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, um dos poucos casos em que a sequência é superior ao primeiro longa). A experiência que tive, apesar de não ser grandiosa, foi curiosamente satisfatória – uma vez que eu particularmente não sou um fã deste gênero -, mas me preparou para encarar a difícil empreitada de conferir a estreia de O Exterminador do Futuro: Gênesis.

02

Já de cara adianto: O Exterminador do Futuro: Gênesis é uma produção que tende a agradar o espectador comum. Falo isso assim porque quero me eximir de quaisquer comentários dos quais possa ser alvo ao questionar a qualidade do filme – porque a verdade é que Gênesis está longe de ser memorável. A trama nos leva ao ano de 2029, quando o líder da resistência humana John Connor envia o sargento Kyle Reese de volta a 1984 para proteger Sarah Connor e, consequentemente, salvaguardar o futuro (basicamente, a mesma premissa da primeira fita). No entanto, uma linha do tempo fragmentada é criada no meio deste percurso, transportando Kyle a uma versão desconhecida do passado e com uma nova missão nas costas: redefinir o futuro.

Gênesis se inicia razoavelmente bem, com uma sequência ótima de ação, devo admitir, que é visualmente empolgante e acerta em cheio ao recriar um futuro catastrófico e apocalíptico – a atmosfera apresentada é bastante convincente e consegue cumprir sua proposta. O problema é que a partir daí Gênesis gradualmente vai se perdendo, a narrativa vai ficando pouco crível e a única coisa realmente interessante são as referências aos dois primeiros filmes da franquia (em um visível esforço do roteiro em revisitar este universo). Com isso, é um vai-e-vem de timelines, personagens que ora são bons, ora são maus, muita história, muita enrolação… e Gênesis se enfraquece. E nem mesmo as cenas de adrenalina (com muito tiro, porrada e explosão) e os efeitos especiais bem elaborados (que geraram até mesmo um Schwarzenegger mais jovem, como há mais de trinta anos atrás) foram o suficiente para amenizar a barra que é engolir mais de duas horas de filme.

01

Não que não haja alguns pequenos acertos isolados. O diretor Alan Taylor é competente nas cenas de ação (que não impressionam, mas sim, funcionam) e nos gags de humor – praticamente sob responsabilidade do carismático Arnold que, com quase setenta anos, mostra boa forma e desenvoltura diante das câmeras (apesar de sua personagem repetir exaustivamente a mesma piada, mas está valendo…). Emilia Clarke, com seu físico franzino, também consegue emular bem a saudosa Sarah Connor, mas nada que a faça competir com a eterna Linda Hamilton (ex-esposa de Cameron – que teria perdido os direitos da franquia junto com o divórcio). Mas uma coisa é certa: Alan Taylor não é James Cameron – e isso é crucial para o resultado final. O cineasta tem um currículo invejável na televisão: entre seus títulos, basta citar a oitava fase de Família Soprano e a primeira e segunda temporadas de Game of Thrones (provavelmente uma das melhores séries da atualidade). Porém, o cara ainda deixa a desejar no cinema. O Exterminador do Futuro: Gênesis tem lá suas qualidades, seus bons momentos – mas é nítido que uma direção mais experiente e segura fariam dele um filme melhor.

Parceiras Eternas (Life Partners)

Parceiras Eternas é o filme de estreia da cineasta Susanna Fogel, cuja trama apresenta duas amigas inseparáveis, de personalidade bastante distintas, cuja cumplicidade é colocada à prova quando uma delas se apaixona. Mais do que isso: as duas estão naquela difícil fase da vida em que algumas decisões devem ser tomadas – e, por mais que lutem contra isso, elas precisam amadurecer e assumir novas responsabilidades.

O tema pode não parecer muito novo ao espectador. Parceiras Eternas é um filme que, antes de tudo, fala sobre mudanças – e como nós lidamos com elas. A abordagem é leve, o que traz certo alívio para questões que, em outras circunstâncias, seriam tratadas com maior “seriedade”. Talvez o único “porém” é o fato de a narrativa não se aprofundar o suficiente, o que faz com que o drama permaneça na superficialidade; e tampouco tem aquele tom “fofo”, típico de filmes teens (as próprias protagonistas já são jovens em período de “maturidade”), embora traga certa identidade à obra.

01

Vale destacar positivamente em Parceiras Eternas o bom trabalho do elenco. Leighton Meester, que ficou conhecida no seriado Gossip Girl, é excepcional no papel da lésbica que fica com ciúmes da amiga e não consegue manter nenhum relacionamento mais sério. Gillian Jacobs interpreta Paige, a companheira mais “centrada” da relação – aquela que sabe que precisa “crescer”, mesmo que isso não seja necessariamente o que mais deseja (a sequência em que a mãe se recusa a pagar a conta no restaurante exemplifica bem esse ponto). Ambas demonstram boa química juntas – a cena inicial é ótima! – e conseguem entregar boas performances, principalmente nos trechos de maiores alterações emocionais de suas personagens. O galã Adam Brody (que há muito tempo já demonstra ser mais que um rosto bonito) faz um tipo interessante, que começa meio estereotipado mas cresce ao longo da fita, se tornando crucial para o andamento da película e seu desfecho.

Como um todo, Parceiras Eternas é uma experiência que pode ser conferida sem medo – e dificilmente você sairá decepcionado do cinema. Mas é apenas um momento e nada além disso. O filme vai te trazer algumas sequências engraçadas e até te fazer pensar na vida em alguns instantes, mas infelizmente é incapaz de produzir uma reflexão mais expressiva porque a ideia não foi totalmente aprofundada. Uma pena. Há até quem diga que Parceiras Eternas poderia ter explorado mais a personagem de Meester e adentrar o universo LGBTQIAP+ – o que, honestamente, seria desnecessário se o argumento fosse melhor desenvolvido.

Asterix e o Domínio dos Deuses (Astérix: Le Domaine des Dieux)

Eu já disse em outras ocasiões que foi-se a época em que animação era coisa de criança. Hoje em dia, é mais provável você encontrar uma multidão de marmanjos nas filas de desenhos animados – e as produtoras apostam cada vez mais neste segmento. Astérix e o Domínio dos Deuses, nova adaptação das histórias dos heróis Astérix e Obelix, é prova irrefutável de que este gênero pode agradar a todas as idades, de forma inteligente e divertida.

O roteiro nos transporta para os anos 50 antes de Cristo. A Gália está toda ocupada pelos romanos, com exceção de um pequeno vilarejo habitado por gauleses irredutíveis e que não cedem à pressão de Julio César. Cansado das tentativas frustradas, o governador decide inverter a estratégia, construindo um complexo de luxo (o “Domínio dos Deuses”) ao lado da aldeia gaulesa e, assim, impressiona-los e convencê-los a unirem-se a Roma. No entanto, os amigos Astérix e Obelix permanecem inflexíveis e terão que fazer de tudo para manter os romanos longe de sua comunidade.

02

Nono filme animado da franquia, Astérix e o Domínio dos Deuses consegue unir com competência dois ingredientes que garantem seu sucesso: o apelo infantil (responsável por sequências nonsenses e “fofas”, capazes de agradar os pequenos) e os gags de humor voltados ao público mais adulto, onde a narrativa aposta em piadas de caráter satírico para criticar a falência de algumas instituições dentro do atual cenário francês – entre elas, a estupidez e despreparo da polícia, a burocracia das leis e a hipocrisia e arrogância dos políticos contemporâneos. A sátira pode até passar despercebida para as crianças, mas é provável que os pais se deliciem com as boas sacadas cômicas.

Infelizmente, o filme perde o fôlego em determinado momento (em que até mesmo a fotografia escura chega a incomodar), mas se recupera no desfecho – deveras infantil e fácil, mas nem por isso menor. Com bom planos que valorizam as cores e o cenário computadorizado (que inclusive pode ser conferido em terceira dimensão), Astérix e o Domínio dos Deuses nos traz ainda os carismáticos personagens dos quadrinhos criados por Albert Uderzo e René Goscinny, em uma aventura que é uma ótima opção de entretenimento para toda a família.

Relacionamento à Francesa (Papa ou Maman)

Vincent e Florence formam um casal aparentemente sem defeitos. Aos olhos das demais pessoas, o casamento dos dois é irretocável. Pais de três crianças saudáveis, bem empregados, com uma boa casa, enfim: a vida conjugal da dupla é perfeita. Por essa razão, ninguém entende quando os dois decidem se divorciar. Amigavelmente, é claro – já que até na sociabilidade eles são exemplo (“Dá até vontade de se separar também…”, diz um amigo).

01

Relacionamento à Francesa é o filme de estreia de Martin Bourboulon e reflete bem um dos vários dramas tão comuns às famílias atuais – aliás, esta é uma tendência no cinema francês contemporâneo, a comédia familiar. No caso da película do estreante, o humor é causado justamente pelo inesperado: nenhum deles quer ficar com os filhos e ambos vão fazer de tudo para não ter a guarda dos pequenos – e conforme os pais percebem que seus planos não estão dando certo, eles mergulham cada vez mais em tentativas frustrantes de alcançar seus objetivos. Aos poucos, a civilidade é deixada de lado e as situações bizarras vão tomando conta da tela, arrancando muitas gargalhadas do público.

É inevitável destacar as ótimas atuações dos protagonistas Laurent Lafitte e Marina Foïs, que demonstram boa sintonia e são simplesmente hilários em cena. A edição da fita e trilha sonora, por sua vez, são bastante pontuais, ajudando muito a tornar o filme bem agradável. Apesar de alguns clichês inevitáveis à história (que podem até levar o espectador menos atento a fazer comparações com as comédias norte-americanas – especialmente as de ‘besteirol’), Relacionamento à Francesa é uma produção que vale muito a pena por sua qualidade inegável, seu humor inteligente e também por se tratar do trabalho de um cineasta iniciante – que, logo em seu debut, acertou em cheio.

Divertida Mente (Inside Out)

03Após uma série de desenhos que dividiram opiniões (respectivamente Carros 2, Valente e Universidade Monstros), a Pixar parece ter finalmente ter retornado a sua boa fase, presenteando o público com o impecável Divertida Mente. Aplaudido em sua estreia, na última edição do Festival de Cannes, a comovente trama sobre as emoções de uma menina de 11 anos entusiasmou a crítica e há quem aposte nela como uma das favoritas ao prêmio de melhor animação no próximo Oscar – merecido e inevitável, uma vez que é improvável que a temporada consiga produzir algo tão esplendoroso e criativo no gênero quanto Divertida Mente.

Divertida Mente antropomorfiza cinco emoções em personagens inesquecíveis: Medo, Raiva, Nojinho, Tristeza e Alegria. Eles são os responsáveis pelo “centro de controle” – uma espécie de sala panorâmica de onde podem enxergar toda a realidade de Riley (uma pré-adolescente que acaba de se mudar com os pais para outra cidade) e, assim, gerenciar suas memórias e reações ao meio externo. Ligadas a esta central, existem neste mundo as ilhas (“Família”, “Amizade”, “Bobeira”, “Honestidade” e “Hóquei” – o esporte preferido da garota), criadas e mantidas com as memórias particulares de cada tipo. Os problemas começam a surgir quando Alegria e Tristeza vão parar fora de seu posto de trabalho, se perdendo na consciência de Riley.

O espectador mais atento é capaz de perceber que Divertida Mente é quase dividido em dois filmes: entre cortes rápidos e uma montagem bem estruturada, o longa alterna o percurso de Tristeza e Alegria rumo ao centro de controle e as reações de Riley sem essas duas emoções em sua mente. A partir daí, o diretor Pete Docter (que teria se inspirado em sua própria filha) consegue unir esses dois meios e explicar também cada parte do cérebro, recriando um universo fabuloso, repleto de ambientes ricos e criativos. O banco de memórias, por exemplo, é mostrado como uma grande biblioteca (com os livros sendo substituídos por esferas). A área dos sonhos, por sua vez, é como um grande estúdio de cinema – uma das sacadas mais geniais do filme. Há até mesmo explicações sobre a criação dos nossos amigos imaginários e o porquê esquecemos certas coisas – uma cena, no mínimo, hilária.

02

Mas esta rica abordagem psicológica não é o principal. Divertida Mente ainda é engraçado – não de forma “boba”, mas inteligente. Tecnicamente impecável, o trabalho de arte é um espetáculo à parte – inclusive merece ser destacada aqui a equipe de criação, responsável por cenários exuberantes e personagens muito bem desenvolvidos. Divertida Mente é exatamente aquilo que nós fãs esperamos da Pixar: uma obra complexa mas sem enrolação, divertida e emocionante, que além de passar ótimas mensagens (que reforçam valores como família, amizade, coragem) é intensamente criativa – garantindo um lugarzinho no rol de melhores produções do estúdio.

Os Olhos Amarelos dos Crocodilos (Les Yeux Jaunes des Crocodiles)

Iris e Joséphine são irmãs, mas vivem em realidades opostas. Iris é a primogênita e preferida da mãe: linda, loira, aparentemente bem casada e financeiramente estável, ela leva uma vida luxuosa e fútil. Estudou cinema quando jovem e hoje está na expectativa de uma grande obra, que parece nunca chegar. Joséphine, por sua vez, sempre foi o “patinho feio” da família: desprezada, ela trabalha como pesquisadora e tradutora, ganha pouco e tem duas filhas – incluindo uma adolescente insuportável. A situação fica ainda mais crítica quando o marido sai de casa, deixando-a com uma grande dívida no banco.

01

Baseado no best-seller escrito por Katherine Pancol (que esteve na lista dos mais vendidos na França em 2006, quando foi lançado) e dirigido por Cécile Telerman, Os Olhos Amarelos dos Crocodilos é uma comédia dramática que nos apresenta duas protagonistas que, apesar de próximas, estão cada vez mais distantes entre si. As irmãs são diferentes em todos aspectos: como profissionais, esposas, mães, mulheres. São essas diferenças que pontuam o relacionamento entre elas, porém elas se completam de certa forma – e isso fica claro quando Iris convence Joséphine a escrever um romance e permitir que ela leve os créditos: enquanto a primeira fica com as glórias do livro, a segunda recebe o dinheiro das vendas (que vai tira-la da crise financeira) e assim os vazios de ambas ficam preenchidos.

02

O roteiro deixa explícito esses dois mundos. Poderia, no entanto, abolir tramas paralelas que não acrescentam nada ao desenvolvimento das protagonistas – ou, pelo menos, troca-las por histórias que agregassem mais, como o relacionamento das irmãs com a mãe ou o casamento de Iris. Outros personagens poderiam ser melhor explorados, como Luca (o misterioso estudante que desperta a atenção de Joséphine) ou Philippe (o marido que tenta salvar o casamento mas se depara com a futilidade da esposa rica). Já as atuações de Emmanuelle Béart e Julie Depardieu não chegam a ser memoráveis – na verdade, em alguns instantes elas até incomodam um pouco (mas isto deve ser reflexo da maneira como suas personagens são tratadas). Por sua vez, o elenco masculino está em dia com o proposto: Patrick Bruel tem uma performance concisa e madura, enquanto o espanhol Quim Gutiérrez traz muita introspecção e mistério ao seu tipo. A trilha sonora ajuda a fita, assim como a fotografia que aposta em tons pastéis e acerta na sobreposição de cores.

03

Talvez o desfecho pudesse ser resumido com aquele velho ditado do “aqui se faz, aqui se paga” – e isso torna as ações previsíveis demais. Apesar do bom argumento, Os Olhos Amarelos dos Crocodilos não nos entrega nada além de um filme mediano, que poderia ser mais profundo em seus dramas. Ao invés disso, fica-se uma história rasa, superficial. Com muito potencial, o filme é bom à sua maneira: há seus momentos interessantes, mas não passa disso. O que não deixa de ser uma pena: Os Olhos Amarelos dos Crocodilos é mais um daqueles casos em que a obra literária é infinitamente melhor que o cinema.

De Cabeça Erguida (La Tête Haute)

De Cabeça Erguida, novo filme de Emmanuelle Bercot, abriu a 68ª edição do Festival de Cannes, em maio deste ano. O longa foi a primeira produção de uma mulher a abrir o evento em 30 anos e, apesar de não ter provocado muito entusiasmo em sua exibição para a imprensa, trata-se de um projeto ambicioso que mistura documental e ficção, resultando um trabalho indispensável na filmografia de seus idealizadores.

A trama acompanha a vida do jovem Malony, dos 6 aos 18 anos de idade. Com um histórico familiar totalmente desfavorável, Malony se torna um delinquente juvenil com temperamento desequilibrado, dividindo seu tempo entre pequenos crimes e internações em centros de correção e reformatórios, onde cumpre pena por seus atos. Nesse período, o adolescente é acompanhado por uma juíza e um professor, que tentam ajudar o garoto a buscar um novo (e melhor) rumo em sua vida.

02

O roteiro basicamente se estende sob as inúmeras tentativas da juíza e o tutor em apoiar o rapaz. Malony comete um delito, recebe uma punição e um novo ciclo se inicia – e isso acontece várias vezes ao longo do filme. Dessa forma, não existe nenhum clímax na história – mas sim pequenos episódios, todos praticamente com essa mesma estrutura. No entanto, é interessante notar que, ainda assim, a narrativa não se torna entediante. Pelo contrário: conforme o filme avança, o espectador se sensibiliza com o protagonista, mesmo detestando seus atos. É como se ele próprio estivesse disposto a dar uma nova chance ao problemático Malony. Talvez isso se dê também por conta da atuação competente do novato Rod Paradot, uma explosão de sentimentos em cena. Ele chora, xinga, sente raiva de tudo e todos, esbraveja, tem ataques de histeria – mas desperta a comoção do público, como se quem assistisse quisesse lhe estender a mão, pois sabe que ele realmente precisa de uma mudança.

A personagem da juíza, no entanto, deixa um tanto a desejar. Interpretada pela musa francesa Catherine Deneuve, sua construção não me pareceu muito firme. Talvez essa lacuna no desenvolvimento dessa persona seja uma forma de manter um certo distanciamento entre ela e Malony – afinal, ela é uma juíza e tem de ser racional, não importam as circunstâncias. Por sua vez, Sara Forestier consegue dar bastante humanidade à mãe do garoto, uma viciada em drogas incapaz de cuidar dos filhos e que não tem a menor noção da realidade perigosa em que ele está inserido. É ela quem ajuda a pontuar na trama a vida destrutiva de Malony: o universo do menino é inteiramente perdido, devastado, sem perspectivas; ele é apenas um produto do seu meio.

01

Apesar de ter momentos sombrios, o filme nos propicia sempre uma ponta de esperança – e o desfecho, a cena final em si, tem uma beleza e significado ímpares. Apesar de não ser impecável, De Cabeça Erguida proporciona uma visão crítica da criminalidade na juventude, ressaltando o papel dos educadores na transformação dessas vidas e sugerindo também a importância da família na construção da personalidade do indivíduo. De Cabeça Erguida chega aos cinemas como um filme capaz de gerar bons debates e fazer pensar – em suma, uma produção necessária que há anos não tínhamos.

Sexo, Amor e Terapia (Tu Veux ou Tu Veux pas)

Dirigido por Tonie Marshall, Sexo, Amor e Terapia é uma comédia que narra o curioso encontro entre Judith e Lambert: ela, uma mulher à frente de seu tempo, que vive sua sexualidade sem medo e mantém casos com os homens que desejar; ele, um viciado em sexo que está passando por um período de abstinência. No entanto, quando os dois passam a trabalhar no mesmo consultório como terapeutas de casais, a situação vai se tornar cada vez mais difícil para eles. 01 Poderíamos dizer que Sexo, Amor e Terapia é a história de duas pessoas que simplesmente se conheceram na hora errada: uma ninfomaníaca e um abstêmio sexual. E talvez é justamente isso que temos para falar sobre este filme porque, de fato, nada além disso acontece na trama ao longo de sua projeção. Durante quase uma hora e meia, a narrativa se sustenta totalmente na tensão sexual entre os dois personagens principais (com flerte, joguinhos e outras firulas, de soluções fáceis e previsíveis) e também nos enfadonhos diálogos terapêuticos, que nada agregam à fita. Resumindo: não há um clímax ou um grande momento e com isso os poucos minutos de fita se tornam intermináveis. O filme não sai do lugar e quase termina da mesma forma como começou: sem despertar o menor interesse do público.

Para completar, parece que a química entre os protagonistas não funciona. Patrick Bruel tem cara de “homem maduro”, um tanto quanto incompatível para o papel (o tom cômico pode ter atrapalhado sua caracterização), enquanto Sophie Marceau faz caras e bocas – qualquer homem fugiria de uma mulher que agisse como ela, cá entre nós. O humor dá certo em alguns raros trechos, com piadas de caráter sexual que, sinceramente, não arrancam muitas risadas. Como comédia, é fato que Sexo, Amor e Terapia tem uma ótima proposta; é uma pena que na execução faltaram esses três ingredientes e todos os outros necessários para se fazer um bom filme.