Uma Linda Mulher (Pretty Woman)

Ele, um homem de negócios com a agenda lotada e em fim de relacionamento a caminho de Los Angeles, dirigindo um carro com marcha manual que lhe é pouco familiar. Ela, uma prostituta do Hollywood Boulevard que divide o apartamento com uma amiga e a muito custo consegue o dinheiro para o aluguel. Estes são os dois protagonistas desta irresistível comédia romântica que abriu a década de 90 com o pé direito.

O encontro dessas duas personagens não poderia ser mais fortuito: com dificuldades para achar o caminho (e também sem saber dirigir muito bem o carro emprestado – já que seu primeiro veículo foi uma limusine automática), Edward contrata Vivian para leva-lo até o hotel em que ficará hospedado por uma semana. Precisando levantar urgentemente o dinheiro do aluguel (já que a amiga de quarto torrou toda a grana em uma noitada), Vivian vê em Edward a solução para seus problemas – ainda que por uma noite. Não demora muito para que o jeito simples e despojado da garota de programa conquiste Edward e ele a convide para “trabalhar” para o galã durante uma semana. A paixão entre os dois, a partir daí, será inevitável.

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Se em Bonequinha de Luxo, em 1961, o desejo de Holly era encontrar um marido rico que a sustentasse, em Uma Linda Mulher o que Vivian mais almeja é abandonar a vida da prostituição. Personagem forte, Vivian sabe exatamente o que quer: mesmo como prostituta, recusa-se a ter um cafetão, preferindo escolher a dedo os clientes com os quais se relaciona – e, óbvio, o que faz com cada um deles (beijo na boca, por exemplo, é proibido). Por outro lado, Edward, apesar de ser um homem de sucesso profissionalmente, é triste e altamente influenciável – principalmente por seu advogado Jason, que enriqueceu trabalhando para o empresário. Ironicamente, contrariando o que se poderia esperar de uma comédia romântica, Vivian não precisa de Edward: o bonitão é apenas um estímulo para que Vivian abandone a profissão. O mais “dependente” na história é Edward: apesar de bem sucedido na profissão, sua vida pessoal vai de mal a pior. É Vivian quem lhe abre as portas para um mundo novo – onde o dinheiro não é o principal elemento e as coisas simples passam a ter um grande valor.

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A perfeita sintonia entre os protagonistas tornam Uma Linda Mulher muito mais agradável. Richard Gere, que não fazia um bom filme há anos, é intensamente cativante no papel de Edward, enquanto Julia Roberts é encantadora vivendo a prostituta Vivian (não à toa, Julia recebeu aqui sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz). O sorriso de Julia na tela é visualmente esplêndido, algo que fica ainda mais bonito em meio ao ótimo design de produção do filme – assim como sua trilha sonora, embalada por canções que permanecem na memória daqueles que viveram os anos 90. O diretor Garry Marshall (um especialista no gênero e que repetiu a parceria com Julia e Richard no menos cultuado Noiva em Fuga, de 1999) soube unir bem todos estes elementos, o que contribui para tornar seus personagens muito mais humanos do que em outras comédias românticas – apesar das inúmeras improbabilidades do roteiro (afinal, poucas prostitutas são tão belas quanto Julia Roberts e poucos quarentões são tão simpáticos como Gere).

Uma linda Mulher é uma comédia romântica aos moldes dos anos 40 (obviamente com um toque moderno para a época) e que ressuscitou o gênero na década de 90 – especialmente quando o cinema vinha apostando naquelas produções recheadas de homens truculentos brigando feito loucos e trocando tiros por aí no final dos anos 80. Uma Linda Mulher é uma espécie de Cinderela versão moderna e, apesar de sua protagonista ser uma personagem politicamente incorreta, é impossível não se apaixonar por sua história. Apesar do roteiro um tanto quanto “clichê” (mas divertido e inteligente o suficiente para conquistar o público), Uma Linda Mulher é definitivamente, um clássico dos anos 90 que até hoje diverte e encanta – e muito.

O Médico Alemão (Wakolda)

01A trama de O Médico Alemão nos leva a Argentina dos anos 60, onde uma família em travessia pela Patagônia, rumo a Bariloche, conhece um curioso e suposto cientista cuja personalidade e identidade lhe são desconhecidas. Ao chegar a seu destino, o médico é acolhido como primeiro hóspede do hotel da família e logo se apega à caçula Lilith, uma menina de doze anos com visíveis problemas de crescimento e que sofre discriminação no colégio por conta de seu pequeno porte. Sob o consentimento da mãe (e às escondidas do pai), o médico se propõe a ajudar a garota através de um tratamento que envolve a aplicação de hormônios, prometendo-lhe uma aceleração em seu crescimento e que seria, naquele momento, indispensável para o desenvolvimento sadio da menina – já na fase da puberdade.

Mais tarde, descobrimos que o médico em questão é Josef Mengele, conhecido como “Anjo da Morte” – que atuou no campo de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial e fazia experimentos com judeus refugiados, especialmente crianças. Porém, essa identidade não é explícita: aos poucos, a diretora Lucía Puenzo vai fornecendo ao espectador as pistas necessárias para que o mistério desta personalidade doentia seja desvendado. E, contrariando o que se poderia imaginar, ao descobrir a identidade do médico o interesse do espectador pelo filme não diminui; ao contrário, ele gradativamente aumenta à medida que a relação do médico com a garota se torna mais estabelecida (no início, sugere-se até mesmo uma conotação sexual, que logo se extingue no decorrer da história).

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Lilith, que desde que chegou à cidade sofre no colégio nas mãos de seus colegas (o que já demonstra a influência alemã naquela região), vê Helmut (o nome falso do alemão) como um herói, capaz de ajuda-la a superar uma limitação que a torna motivo de discriminação entre as crianças de seu grupo. Enquanto Helmut vê Lilith exclusivamente como uma cobaia para seus experimentos (anotando todos os pontos mais importantes de seu tratamento), a garota tem apenas bons olhos para o “vilão” – e quando percebe que algo está errado consigo, já é tarde demais: o cientista foge e nada mais resta.

Com uma fotografia cinzenta em boa parte de sua projeção (acentuando ainda mais a chegada do inverno naquela região), a edição fica mais ágil no decorrer da história, ajudando a aumentar o “suspense” do filme, especialmente nos instantes finais. O trabalho de direção é primoroso ao deixar de lado o suspense “gráfico” (não há nada escancarado na tela) e apostar na tensão progressiva, fazendo do médico a figura típica de um psicopata – mas sem trata-la com uma condenação prévia. Só que muito mais do que um mero suspense sob o período pós-nazista na Argentina ou uma biografia de um nome tão polêmico na História, O Médico Alemão é também um drama sobre a transição feminina da infância para a fase adolescente, especialmente no que se refere à descoberta do corpo (um tema que a diretora já abordou anteriormente, no seu longa de estreia, o elogiado XXY, em 2007). Mas não apenas isso: com uma direção precisa, O Médico Alemão é bom exemplo de filme que cresce e, mesmo que não seja grandioso, atinge uma maturidade difícil de se encontrar no cinema atual.

A Pequena Loja de Suicídios (Le Magasin des Suicides)

Há muito tempo as animações deixaram de ser um gênero exclusivamente infantil. Seja pela técnica diferenciada ou mesmo pelas histórias criativas, este gênero tem conquistado um público cada vez maior – de todas as idades, do garotão de oito anos ao vovô de oitenta. O francês A Pequena Loja de Suicídios, que estreia essa semana no país, tem tudo para ser o típico desenho que agrada a todos – mas especialmente aos adultos apaixonados por este tipo de cinema.

Baseada no romance homônimo de Jean Teulé, a história de A Pequena Loja de Suicídios se passa em mundo (não muito futuro) onde a depressão e a falta de esperança com a vida atingem praticamente toda a população. Nesse cenário cinzento, uma família sobrevive vendendo artigos que auxiliam as pessoas a cometerem suicídio. No entanto, o até então lucrativo negócio é ameaçado com o nascimento do filho caçula, que desde cedo demonstra ter um espírito feliz e alegre, contrastando com o restante da família que vive em completo estado de morbidez emocional.

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O grande mérito de A Pequena Loja de Suicídios é tratar um tema tão delicado de forma sensível. Aqui, ocorre um paradoxo: a trama é contada através de números musicais – e mesmo se você despreza este gênero, fica uma dica: assista, pois vai ser difícil você sair do cinema sem ter gostado do longa. Assim como Tim Burton em A Noiva Cadáver ou O Estranho Mundo de Jack, o diretor e roteirista Patrice Leconte criou com bastante êxito uma alegoria musical que contraria tudo o que podíamos esperar de um filme com esta temática. Se em A Noiva Cadáver, por exemplo, Burton deu cor e vida ao mundo dos mortos enquanto o mundo dos vivos era frio e infeliz, Leconte canta sobre o suicídio de forma alegre e entusiasmada, enquanto na tela pessoas pulam dos prédios e se jogam na frente de caminhões (essa cena inicial já é, por si só, um espetáculo).

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As músicas crescem no decorrer da história e ainda que o filme possua muitas cenas perturbadoras, as canções, que no início eram tristes e melancólicas, tornam-se mais otimistas. Essa mudança gradual é fruto de um roteiro muito rápido e inteligente, marcado por um muito humor ácido – não exagerado, mas na medida certa para arrancar boas risadas. Além disso, o filme trabalha com contrastes: em meio à morbidez latente do início do filme, por exemplo, o que mais incomoda é o sorriso da criança recém-nascida. Os pais tentam a todo custo “consertar” o filho, ensinando-lhe que não há motivos para sorrir em meio a uma existência tão triste. O problema é que a felicidade do garoto aos poucos contagia a todos (da família aos moradores da cidades) – e tudo o que o garoto mais deseja é mudar aquele cenário catastrófico.

Apesar do desfecho óbvio (e da enrolação para chegar a tal), é de se elogiar a criatividade da obra para abordar um tema tão sério e necessário. Em um mundo onde a taxa de suicídios cresce exponencialmente, A Pequena Loja de Suicídios se sobressai como um musical trágico-cômico que perturba e gera um interessante debate. E para aqueles que dizem que este filme não deve ser assistido por crianças (dada a morbidez da história), fico apenas com uma frase que é dita ao longo da trama: a vida é sempre melhor que a morte.

A Marca do Medo (The Quiet Ones)

03A Hammer Film Productions é uma produtora britânica fundada em 1934 e especializada em cinema de terror. Durante os anos 50 e 70, a companhia foi absoluta no gênero, alcançando seu auge na década de 60, quando realizou diversas produções sobre Drácula, Frankstein e outros monstros – imortalizando astros como Christopher Lee e Peter Cushing. Durante a década de 80, a empresa passou a produzir séries de terror para a televisão, não muito bem recebidas pela crítica, até sua total decadência. Recentemente, a Hammer voltou à ativa, com filmes como A Mulher de Preto (com Daniel Radcliffe) e Deixe-me Entrar (versão norte-americana para o original sueco de Tomas Alfredson).

Toda essa introdução é importante para que você, leitor, entenda as expectativas em torno de A Marca do Medo, que chega essa semana aos cinemas nacionais. Provavelmente, A Marca do Medo era um dos filmes mais aguardados pelos fãs do gênero – e a julgar pelo trailer, a produção realmente prometia. Mas como nem sempre o trailer é capaz de expor a qualidade real de um filme, A Marca do Medo se tornou uma das maiores decepções do ano.

A Marca do Medo é baseado em uma história real dos anos 70, que ficou conhecida como “O Experimento Philip”. Na trama, o professor universitário Joseph Coupland (vivido por Jared Harris) reúne uma equipe para fazer um experimento com o objetivo de provar a existência de fantasmas. Após sua universidade cortar os recursos do projeto, o professor e seus alunos se instalam em uma desolada mansão em um lugar distante, onde Joseph utiliza seus métodos pouco ortodoxos para “destruir” um fantasma que perturba a adolescente Jane Harper (Olivia Cooke) – mesmo que para isso ele coloque em risco a integridade física de sua cobaia. Conforme a pesquisa avança, uma estranha força maligna se torna cada vez mais presente, provocando situações incomuns e aterrorizantes.

Aparentemente, A Marca do Medo tinha tudo para ser ótimo exemplar para os admiradores do gênero: tem um bom elenco, tem boas condições e a trama desperta uma curiosidade. Mas o maior pecado do longa está em sua falta de foco: afinal, é um filme de assombração ou possessão? O diretor John Pogue se estende na tática (falha) de deixar em aberto várias possibilidades e a impressão é que temos duas histórias em uma. Como resultado, A Marca do Medo se perde na vã tentativa de ser uma coisa e outra – e acaba não sendo nenhuma delas.

Outro quesito em que o diretor fica em cima do muro é a alternância de sequências de película tradicional e o conhecido found footage (que dá a sensação de falso documentário). Mas a transição entre um recurso e outro não funciona e dá ainda menos credibilidade à narrativa, sustentada por um roteiro frouxo e que não ajuda no desenvolvimento de suas personagens (recheado de estereótipos típicos dos filmes de terror, do bonitão obcecado pelo poder à loira vadia). O mesmo roteiro desleixado é o responsável por uma sequencia de cenas desnecessárias, forçando susto onde não há – o que cansa o espectador, pois as cenas se tornam até mesmo repetitivas. Nem mesmo o elenco parece colaborar – com exceção da competente Olivia Cooke, excelente no papel da psicótica Jane – com ótimos momentos de drama e sofrimento que são fundamentais para fazer com que o público se compadeça de sua personagem. Sua boa atuação também contribui para a boa química entre sua personagem e Brian (Sam Claflin, da saga Jogos Vorazes), que até arriscam um romance meio distorcido. Considerando o enredo, Sam e Olivia fazem milagre.

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A Marca do Medo perde a oportunidade de se tornar um grande filme de terror, desperdiçando uma história com potencial em um roteiro bastante falho. Apesar de conseguir dar alguns pouquíssimos sustos, o longa até que ganha certo charme com sua boa trilha sonora e um design de produção equilibrado (que retrata bem os anos 70 norte-americanos daquela região), mas perde a chance de abusar um pouco mais da violência gráfica – aliás, os efeitos visuais, especialmente na cena final, machucam os olhos de tão ruins que são, mas deixa pra lá. Isso não é nada se comparado à incansável crise de identidade que A Marca do Medo sofre: não sabe quem é e muito menos para que veio.

3 Dias Para Matar (3 Days to Kill)

Há um momento na vida em que os anos passam, a idade chega e é inútil lutar contra o tempo. Em Hollywood, não é muito diferente. Grandes astros vêm e vão, alguns ficam mais em evidência do que outros, mas conforme o tempo vai passando aqueles que viviam de glórias passadas acabam dando espaço para os rostos mais jovens. Kevin Costner, quase uma unanimidade na década de 90 (e que devido ao seu ego inflado teve sua imagem desgastada nos anos seguintes) tem hoje a difícil tarefa de se manter na indústria cinematográfica – e 3 Dias Para Matar vem aí para provar que o ainda há espaço para os “tiozinhos” no cinema – mas não muito.

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A trama de 3 Dias Para Matar acompanha o agente da CIA Ethan Renner, que após uma missão fracassada, descobre que tem um câncer cerebral, o que lhe dá uma estimativa de vida de cerca de três meses. De volta a Paris para tentar reatar os laços com sua ex-esposa e, principalmente, sua filha adolescente, Ethan é abordado por Vivi Delay, uma funcionária do alto escalão da CIA, que lhe oferece uma droga alternativa capaz de lhe dar algum tempo a mais de vida. No entanto, em troca do tratamento, a mulher exige que Ethan aceite uma última missão.

Dirigido por McG (da sequência As Panteras e do mais recente Guerra é Guerra) e com o roteiro escrito por Luc Besson (um especialista do gênero de ação), 3 Dias Para Matar é um filme que nos dá uma sensação de “eu já vi isso em algum lugar…” a todo o momento – e a razão é simples: é um filme repleto de clichês, onde tudo parece favorecer uma narrativa pra lá de previsível.

Alternando entre ação, drama familiar e comédia, ironicamente o filme se sai melhor neste último quesito. Não que seja de um humor muito apreciável: o problema está nas cenas de ação nada empolgantes ou no drama que nunca é aprofundado e serve apenas como pretexto da história. As atuações também não colaboram e o próprio protagonista da trama não possui muita empatia. Kevin Costner parece estar com uma batata quente na boca, visivelmente pouco à vontade com o que acontece a sua volta. Amber Heard, a agente misteriosa e sexy que aparece do nada e sai de cena da mesma forma que entrou, é só uma justificativa para se colocar uma “loira boazuda” na produção.

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Mas em meio a tudo isso, é preciso admitir: 3 Dias Para Matar, ainda assim, é um filme que agrada – e agrada porque é despretensioso, é leve e se revela um bom entretenimento para a grande massa. Não à toa, 3 Dias Para Matar tem se saído muito bem nas bilheterias norte-americanas (o suficiente pelo menos para se pagar, o que nos dias atuais já é um grande trunfo). Com uma qualidade inferior a outras grandes produções do gênero, para um espectador mais “cinéfilo”, 3 Dias Para Matar peca principalmente em dois pontos: em sua duração, prejudicada por um excesso de cenas desnecessárias e que não trazem nenhum significado à trama, sendo totalmente dispensáveis; e, principalmente, sua falta de rumo – como já mencionado, o filme oscila entre diversos gêneros, mas sem obter grande êxito em nenhum deles.

O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel)

Wes Anderson é um diretor exótico – e as opiniões sobre ele e sua obra são ambíguas. Há quem goste e há quem não goste, simples assim. Porém, mesmo aqueles que não se identificam com o estilo tão particular do cineasta são capazes de admitir que o homem por trás de Moonrise Kingdom e O Fantástico Sr. Raposo sabe como contar uma história. Com O Grande Hotel Budapeste, seu novo longa, Anderson só comprova esta certeza – e mais do que isso: mostra que tem capacidade para expor sua visão cinematográfica original com total liberdade, realizando, provavelmente, o melhor trabalho de sua filmografia até então.

O Grande Hotel Budapeste é ambientado na Europa da década de 30, em um país fictício conhecido como República de Zubrowka. À beira da guerra, a narrativa principal é focada na figura do conciérge do luxuoso hotel que dá nome ao título, o caprichoso Gustave, figura simpática, adorado por seus empregados e admirado pelas clientes do local. Em determinado momento da película, Gustave é acusado do assassinato de uma de suas hóspedes preferidas (com quem mantinha um relacionamento) que, em seu aguardado testamento, deixa a maior parte de sua fortuna para o conciérge, revoltando toda a família da falecida. A partir daí, começa a luta de Gustave para provar sua inocência e descobrir o verdadeiro culpado do crime, recebendo a ajuda de Zero Moustafa, mensageiro do hotel com quem Gustave desenvolve uma bela relação de amizade.

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Todo o universo lúdico de Anderson se desenvolve sobre um design de produção sem defeitos, assim como todos os demais aspectos técnicos do filme. A fotografia em tom nostálgico aproveita muito bem os já conhecidos travellings de câmera do diretor, que passa pelas paredes, objetos, figurinos e personagens de forma perfeita e simétrica. Os cenários irregulares e coloridos parecem casas de bonecas e dão um tom quase de fábula à história. Até mesmo os figurinos extravagantes (que acentuam o humor da narrativa) e a maquiagem contribuem na construção da trama, embalada pela excelente trilha de Alexandre Desplat – tão encantadora quanto às imagens que acompanha e que soa perfeita em todos os instantes.

Quanto ao elenco, é inegável o fato de que temos aqui uma reunião de astros do mais alto gabarito. Ralph Fiennes na pele de Gustave é sensacional e transmite um carisma sem igual através de seu personagem, provavelmente em uma de suas melhores atuações no cinema. Chega quase a ser ultrajante pensarmos que Johnny Depp foi cotado para o papel, pois Fiennes é o próprio Gustave. Outras boas surpresas ficam por conta do estreante Tony Revolori, como o fiel escudeiro do personagem principal, e também do oscarizado Adrien Brody, como o filho da hóspede assassinada, um dos vilões da trama que tenta a todo custo receber a herança da mãe. Outros nomes como Jude Law, Edward Norton (como um atrapalhado policial), Mathieu Amalric, Tilda Swinton, Willem Dafoe e Harvey Keitel abrilhantam ainda mais o filme, todos com performances competentes.

Com um roteiro primorosamente bem desenvolvido, O Grande Hotel Budapeste vem colecionando ótimas críticas por onde passa. Com uma direção brilhante, Anderson retrata aqui seu próprio e fértil imaginário, através de uma trama que encanta por seu tom lúdico. Divertidíssimo do início ao fim, o filme apresenta um humor de excelente bom gosto, até mesmo ingênuo em alguns momentos, mas com aquele tom de melancolia que é tão presente no restante da obra do cineasta. Com sua receita já conhecida (que inclui o humor ácido, clima descontraído, personagens excêntricos, fotografia primorosa), Wes Anderson faz de O Grande Hotel Budapeste uma fábula sobre a amizade em tempos difíceis, que se torna mais forte à medida que a esperança se renova. O Grande Hotel Budapeste é a prova definitiva de que ainda há espaço para bons filmes e de que a comédia no cinema pode ser inteligente e abordada com muito refinamento e classe.

Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme)

01Já nas primeiras cenas de Uma Juíza Sem Juízo, somos capazes de descobrir muito a respeito de sua protagonista. Ariane Feldier é uma juíza comprometida e extremamente rígida em seus julgamentos, com grandes perspectivas de crescimento no tribunal onde atua. Além disso, aos 40 anos de idade, ela é solteira, não tem filhos, trabalha muito, se diverte pouco, não acha prazer em quase nada, inclusive nos homens – que troca facilmente por uma dança. Não que haja uma questão de ausência de libido aí, mas talvez sua experiência traumática com a principal figura masculina em sua vida (o pai que abandonou a esposa quando Ariane era pequena – e a seguida morte da mãe, que fez com que a garota ficasse sozinha no mundo) tenha lhe trazido certa desconfiança com relação ao sexo oposto.

Na véspera de ano novo, em meio a uma animada festa em seu local de trabalho, Ariane bebe uns goles a mais e não se recorda de nada do que aconteceu na noite anterior. Alguns meses depois, ela recebe a notícia de que está grávida, mas não faz ideia de como isso pode ter acontecido – e, principalmente, quem é o pai da criança. A partir daí, Ariane começa uma investigação para descobrir os detalhes da história – e, para sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai do filho que espera é um perigoso agressor.

Uma Juíza Sem Juízo é um filme despretensioso, mas que agradou ao público e crítica em geral – tanto que a comédia ganhou o Prêmio Cesar de melhor roteiro (segundo maior festival francês) e foi um sucesso de bilheteria na França. Não tem grandes ambições e seu apelo absurdo consegue arrancar boas risadas da plateia.  Porém, o tom exagerado desta comédia não a torna apelativa. Na verdade, por mais que escolha alguns tipos absurdos e estereotipados, o roteiro ágil (que não deixa o espectador bocejar na poltrona) aliado à trama envolvente e inventiva é o que mais chama a atenção neste filme onde tudo é bastante previsível (mas nem por isso você perde o interesse na trama). A comédia absurda de Uma Juíza sem Juízo, por vezes até mesmo boba, lembra muito os primeiros trabalhos de Woody Allen (obviamente sem toda aquela firula existencial do cineasta).

Mas a comédia também pode render bons frutos, e Uma Juíza Sem Juízo aborda alguns temas contemporâneos que podem render boas discussões. O primeiro, estampado logo nas cenas iniciais, é a visão moderna da mulher na nossa sociedade – independente, workaholic e que não precisa de homem para nada. Depois, a desestruturação da família nos dias atuais é algo frequente. Ambos os protagonistas são frutos de lares problemáticos – e a ideia da formação de uma nova e perfeita “família” (segundo o conceito clássico) é o que mais assusta Ariane. Finalmente, há também uma questão ética aqui: vale a pena assumir um segredo vergonhoso para salvar outra pessoa? Como proceder diante desta questão, tomando ciência da situação vexatória à qual estaremos fatalmente expostos?

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Outro ponto que deve ser elogiado é a ótima interação entre os protagonistas. Sandrine Kiberlian e Albert Dupontel (este último que assina o roteiro e a direção do longa) estão ótimos em seus respectivos papéis e mesmo individualmente tem atuações excelentes. Sandrine consegue lidar bem com as alterações de humor de sua personagem – o que lhe rendeu o Cesar de melhor atriz – , enquanto Albert vive um tipo alucinado que é engraçadíssimo. Da parte técnica, vale ainda destacar a simpática (e divertida) trilha sonora de Christophe Julien (que acentua todo o tom escrachado da comédia).

Em alguns momentos, é bom dar uma pausa em filmes “sérios” e arriscar produções menos badaladas e que exijam um pouco menos de nós como espectadores. Isto não implica em assistir a filmes ruins, mas sim trabalhos menos pretensiosos que podem nos render bons momentos de distração e entretenimento. Uma Juíza sem Juízo não é uma verdadeira pérola cinematográfica, mas funciona bem como comédia, sem forçar a barra. Uma opção divertida para quem gosta de dar umas escapulidas uma vez ou outra das comédias hollywoodianas recheadas de estereótipos, apelações e preconceitos.

Linkin Park Retorna Timidamente Às Origens Com o Ótimo “The Hunting Party”

Pode parecer que não, mas The Hunting Party é apenas o sexto álbum de estúdio da banda Linkin Park. Digo isso porque Hybrid Theory, o primeiro e aclamado registro do sexteto californiano, foi lançado no ano de 2000 – apresentando à indústria fonográfica um dos artistas mais influentes de todos os tempos. Três anos depois, Linkin Park lançava mais um disco clássico: Meteora, contendo os maiores hits – para muitos, hinos – do grupo (FaintSomewhere I BelongFrom The InsideNumb, citando apenas os mais conhecidos). Desde então, Mike, Chester e companhia não lançavam nada tão grandioso (com exceção de algumas faixas avulsas lançadas nos álbuns seguintes, mas que no conjunto de seus respectivos trabalhos não tinham tanta significância). E eis que surge The Hunting Party.

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Não que o Linkin Park pós Meteora fosse ruim. Era apenas diferente – muito diferente. Deixou-se o nu-metal e alternativo e as influências do hip-hop dos primeiros anos e apostou-se em canções mais mornas e carregadas de elementos eletrônicos, o que decepcionou boa parcela dos fãs. Apesar disso, os álbuns foram bem recebidos, estreando em primeiro lugar em vários países e tendo ótimas vendagens. Mas faltava algo. Faltava ainda aquela identidade que parecia estar meio perdida e que agora parece ter retornado com The Hunting Party, ainda que timidamente.

The Hunting Party abre com a ótima Keys To The Kingdom, onde o vocalista Chester (com voz gritante e distorcida) assume: “Eu sou minha própria vítima: eu acabo com tudo que vejo lutando na futilidade”. Já aí a banda entrega tudo o que está por vir: batidas incontroláveis, guitarras pesadas e os inconfundíveis berros de Chester – em boa fase para seus quase 40 anos. Segue-se com All For Nothing, parceria com Page Hamilton (vocalista do Helmet) e uma das melhores canções da carreira dos caras – a que mais traz a sonoridade do Linkin Park dos primeiros trabalhos. Alem do excelente instrumental e do vocal de Mike Shinoda (que é muito bem explorado aqui), a faixa é praticamente um “dedo no meio” que o grupo escancara para os críticos.

Guilt All The Same também é um ótimo momento em The Hunting Party. Com uma introdução de 1 minuto e meio, a música tem um ar dark e possui a melhor letra dessa demanda, encabeçada pelo refrão com a frase “Você são todos culpados da mesma forma, doentes demais para se envergonhar! Vocês querem apontar o dedo, mas não há mais ninguém para culpar”. Vale lembrar que Guilt All The Same foi escolhida como primeiro single – um presente para os fãs. Quebra-se o ritmo alucinante com a instrumental The Summoning, que abre caminho para War – música com fortes influências do mais autêntico punk. É impossível ouvir War e não imaginar uma banda de punk rock quebrando tudo com seus berros intermináveis e a platéia indo ao delírio. É praticamente um “Vocês queriam rock de verdade? Então está aí…”. Em seguida, temos Wasterlands, mais uma faixa com a pegada dos primeiros discos – tem Chester e Shinoda dividindo as atenções e fazendo ótimos vocais, alem de uma batida hip-hop meio quebrada com ótimos riffs de guitarra.

01Until It’s Gone começa com um sintetizador no melhor estilo Numb e tem ares épicos com seu forte cenário orquestral – uma balada para dar aquela acalmada. Daron Malakian, guitarrista do System of a Down, empresta seu talento na faixa Rebellion – e talvez por essa razão a canção parece ter saído do álbum ToxicityMark The Graves peca um pouco com sua longa introdução e, apesar de não ser ruim, se perde com seus altos e baixos e dá uma segurada nos ânimos mais afoitos. Drawbar é mais uma instrumental que põe o pé totalmente no breque, abrindo caminho para mais uma baladinha, Final Masquerade. Com os mesmos ares de grandeza de Until It’s Gone, tem grandes chances de virar single, representando uma espécie de “momento descanso”. Para finalizar, A Line In The Sand, canção mais longa deste trabalho, começa na mesma zona de relaxamento de Final Masquerade, e tem vários momentos de oscilação, mas não representa nada muito grandioso.

The Hunting Party é, provavelmente, o melhor registro do grupo desde Meteora. Para os fãs que sonhavam com um retorno às origens – mas que, devido aos discos anteriores, não tinham muita esperança – The Hunting Party vem como ótima surpresa, sendo um álbum que pode até não agradar completamente mas não decepciona em nada. Com uma ótima produção, The Hunting Party vai na contramão das tendências musicais da indústria – em entrevista à revista Kerrang, o líder da banda, Mike Shinoda, disse que o disco vinha “como uma resposta ao mercado da música atual”. Sobre isso, Mike foi categórico:

Eu li um post em um blog no ano passado sobre como a música é uma droga hoje em dia, e eu concordo. Há bandas como Arcade Fire e Mumford & Sons, que são legais se você gosta desse estilo, mas aí existem outras centenas de bandas tentando imitar essas duas.

Pois é, faz sentido. É um fato que atualmente tudo parece igual. Portanto, receber uma produção como The Hunting Party a essa altura (de uma banda que está em plena atividade e melhor do que nunca) é sempre um bom e refrescante alívio.

Amor Sem Fim (Endless Love)

Da série “remakes desnecessários”, chega aos cinemas brasileiros o longa Amor Sem Fim, nova versão de um clássico “água com açúcar” da década de 80. 03Classifiquei aqui como um remake desnecessário porque, vamos admitir: Amor Sem Limites, de Franco Zefirelli, não chega a ser um grande filme. Okay, marcou o início da década de 80, trazia a estonteante Brooke Shields como protagonista (no auge da carreira, capa de inúmeras revistas e referência de beleza), eternizou a canção Endless Love (dueto entre Lionel Richie e Diane Ross), mas… deixava a desejar como “cinema”. Sequer foi um sucesso de bilheteria. Enfim, não foi nada demais. Talvez por isso, na expectativa de superar o original, gerou-se certo burburinho quando a notícia do remake foi anunciada, lá por volta de 2012.

Em Amor Sem Fim, acompanhamos Jade Butterfield (Gabriella Wilde, de Os Três Mosquiteiros), uma jovem sem amigos e superprotegida pelos pais, que se apaixona por seu antigo colega de classe, o problemático David Elliot (Alex Pettyfer, de Magic Mike), para quem ela nunca havia dado bola. No entanto, o relacionamento não é aprovado pelo pai de Jade, que tenta impedir a todo custo o envolvimento entre os dois. Ou seja, uma típica história de “amor proibido”, tema batido no cinema, mas que aqui ganha um nível de decadência muito maior do que se podia esperar, pois o longa peca – e peca demais. A começar pelo roteiro que não ajuda. Não apenas por ser clichê, com um início, meio e fim já esperados e previsíveis, mas por não ter um rumo definido: não se sabe se é um “romance” mesmo, se é um filme teen, se é um filme mais “família”. O roteiro atira para todos os lados, mas não há um alvo certo e tudo é tratado com muita superficialidade. O romance não é romance por completo; as relações familiares são tratadas de forma grotesca e caricatas; os dramas adolescentes são abordados sob uma ótica muito mais próxima à leitura de revistas do tipo Capricho e Atrevida.

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Quanto às atuações, é um desgosto ver um filme de cinema com um elenco como o que encontramos aqui. Há atores na novelinha global Malhação com muito mais talento (e isso se estende para o casting mais “experiente”). Talvez isso seja resultado do péssimo desenvolvimento das personagens, que oscilam constantemente e não tem a menor “personalidade”. David, por exemplo, é um jovem que teve problemas no passado, com um suposto comportamento agressivo e obsessivo – porém, é tão boa praça e doce quanto um favo de mel (mas depois, agride o pai da amada; depois se arrepende; e depois…). Jade, então… no início é apontada como uma garota deslocada e tímida (provavelmente por conta de uma perda familiar), que nunca conheceu rapazes. Mas aí ela se apaixona e passa a lutar pelo seu grande amor, depois desacredita, depois acredita novamente… Totalmente confuso, não? Talvez o melhor exemplo da oscilação de personalidade entre esses personagens principais se dê na sequência da festa de formatura de Jade, quando David (que sempre foi apaixonado por ela, desde os tempos do colégio) dá uma de difícil e tenta se esquivar enquanto Jade o ataca – para dois minutos depois, a situação se inverter e David confessar que morria de vontade de beija-la. Não, é muita bipolaridade em um único filme…

Com quase 2 horas de duração, Amor Sem Fim é um daqueles típicos produtos que baterão cartão em sessões de filmes vespertinas e levarão adolescentes às salas de cinema. No entanto – e por incrível que pareça – não há nenhuma versão (ainda que piorada, tudo bem…) de Endless Love, um tema incrível que poderia, talvez, fazer Amor Sem Fim valer realmente a pena.

Uma Vida Comum (Still Life)

Nas artes plásticas e na fotografia, define-se como natureza morta o gênero artístico que reproduza objetos inanimados, sejam estes quais forem. Talvez o título original para o filme de Uberto Pasolini (“Still Life”), que estreia esta semana nos cinemas nacionais, seja o mais propício para Uma Vida Comum – um drama existencial que, ao final de seus oitenta e poucos minutos, deixa o espectador com aquele nó na garganta e se perguntando “qual é o sentido da vida?” de  uma forma simples e, talvez por isso, tocante.

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John May é um funcionário inglês encarregado de organizar funerais para as pessoas mortas que foram abandonadas por seus familiares. Mais do que isso: além de preparar as cerimônias, John analisa as histórias, coleta fotos, procura parentes e amigos, faz os discursos religiosos, escolhe as músicas que serão executadas e também é, geralmente, a única presença na despedida. No entanto, em sua vida pessoal, nada de novo acontece: seus dias seguem a mesma rotina – seja no terno impecável com o qual se veste ou no cardápio que segue à risca (uma lata de atum com uma torrada e uma fruta, descascada sempre da mesma forma). Pouco se sabe a seu respeito; apenas o que vemos em cena são sequências que ajudam a compor o perfil de nosso protagonista: metódico, centrado, organizado, solitário, previsível.

John está vivo. O fato de estar “vivo” (biologicamente falando) é a única diferença entre ele e as pessoas que ajuda, pois em sua essência John já está morto. Sua vida solitária, totalmente ausente de aspirações, sonhos ou projetos o colocam no mesmo patamar daqueles que morrem sozinhos e desamparados. Esse perfil é bem delineado na total inexpressividade do personagem (vivido pelo britânico Eddie Marsan) e na direção de Pasolini, que não pesa a mão no sentimento, tratando tudo em um limite de superficialidade que permite ao espectador desejar ir cada vez mais fundo na história. O cineasta ainda utiliza a bela fotografia (com cores quase dessaturadas), abusando de planos que se repetem ao longo do filme e que aumentam a inexpressividade de John diante do mundo.

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No entanto, algo na vida de John começa a mudar a partir da morte inesperada de seu vizinho alcoólatra (também ele uma vítima da solidão) – e também da descoberta de que este seria seu último caso, afinal ele acaba de receber a notícia de que será dispensado. Talvez aí é que John se dê conta de que, inevitavelmente, pode se tornar o mesmo tipo de pessoa com as quais “lida” diariamente. Com isso, John parte em uma busca frenética vasculhando a vida de seu vizinho como se fosse a sua própria. Pela primeira vez, John dá sinais de sua existência, deixando de ser um mero espectador para se tornar um protagonista (ainda que tímido) de sua própria história. Chega até mesmo a arriscar um tímido sorriso – o que, em sua situação, é um grande êxito.

Um fato incontestável: a morte chegará para todos, não importa a história que você tenha vivido. Uma Vida Comum não é um filme que inova como cinema e chega até mesmo a ser cansativo em alguns trechos (devido suas repetidas sequencias). No entanto, é impossível ficar indiferente à trajetória de John e, principalmente, à nossa própria história. Com Uma Vida Comum, Uberto Pasolini consegue fazer seu público, de certa forma, questionar como será o fim de nossos dias, através da visão de um homem que escolhe viver mesmo sabendo que sua natureza já está morta – demonstrando que nunca é tarde para começar a viver a vida.