De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut)

Quando lançado, em 1999, De Olhos Bem Fechados, a obra derradeira de Stanley Kubrick, dividiu opiniões. Houve quem o considerasse uma obra-prima, tamanho o esmero que Kubrick dispensou à produção; houve quem o achasse o maior fiasco da carreira do diretor. De fato, De Olhos Bem Fechados foi um fracasso de bilheteria e levantou debates intermináveis sobre a contribuição deste longa dentro da filmografia do cineasta. Bem, deixemos claro desde o início: De Olhos Bem Fechados não é ruim. Na verdade, seria um ótimo filme para qualquer idealizador – mas não para Stanley Kubrick.

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Concebido ao longo de mais de três anos, De Olhos Bem Fechados está muito longe de se igualar a outros filmes de Kubrick – o que torna praticamente impossível a tarefa de compreendê-lo sem assisti-lo mais de uma vez. A história gira em torno da dupla Bill e Alice (respectivamente, o casal da vez na época, Tom Cruise e Nicole Kidman); ele um médico respeitado, ela uma curadora de arte, que vivem uma relação aparentemente fora de qualquer suspeita. Uma noite após voltarem de uma festa, Alice revela ao esposo que já sentiu atraída por outro homem no passado e cogitou a hipótese de abandonar a família por este homem. Atordoado pela confissão da esposa, Bill sai pelas ruas de Nova York, esbarrando em uma festa dentro de uma mansão misteriosa.

O maior problema de De Olhos Bem Fechados é o ritmo lento que Kubrick confere à sua narrativa. Ao longo de mais de duas horas e meia, é impossível não se revirar na poltrona de minuto em minuto. O filme simplesmente parece não rodar. Obviamente, isso possa ser proposital, como se para um melhor desenvolvimento da trama ou a construção da personalidade de cada um de seus personagens – mas é fato que a história se mostra entediante em diversos momentos. Por sua vez, a dupla de protagonistas não colabora: Kidman (que é muito melhor que seu ex-marido, diga-se de passagem) está muito abaixo das expectativas, chegando a irritar em algumas cenas (como quando está bêbada, por exemplo); já Cruise dá um tom nada interessante a um personagem cheio de ideias vazias e sem fundamentos.

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O trabalho de arte do é louvável – assim, como a trilha sonora, que é atordoante e fica na cabeça do espectador mesmo quando não executada. No entanto, De Olhos Bem Fechados tem um ar “incompleto”, “inacabado”. O filme se perde ainda em diversos momentos: ora tende ao suspense, ora ao psicológico, ora apela para o sexual – mas em nenhum se sai tão bem. Em sua segunda metade, para completar, o foco principal passa a ser o personagem de Cruise – e envolve mortes, assassinatos e perseguições que deixam não chega a empolgar o público. De Olhos Bem Fechados, como obra de um diretor do calibre de Kubrick, é muito aquém dos seus demais trabalhos. É um filme que tenta desvendar (bem superficialmente) os conceitos da monogamia e as diferenças entre “sonhar” e “fazer”, nos permitindo algumas indagações: o simples fato de a esposa um dia pensar em abandona-lo justifica as ações de Bill ou é excessiva demais? De todas as formas, De Olhos Bem Fechados não deixa de ser necessário – principalmente aos que são fãs de Kubrick, um cineasta tão complexo quanto sua obra.

Canções de Amor (Les Chansons D’amour)

Já em 2006, com seu belíssimo Em Paris, o cineasta Christophe Honoré (uma das maiores revelações do novo cinema francês) flertava com o gênero musical na cena em que um casal separado dialoga musicalmente ao telefone. Aparentemente, essa cena era uma espécie de prévia do que estava por vir em seu filme seguinte, Canções de Amor, um musical inspirado repleto de romantismo e tragédia.

Antes de mais nada: abandone os preconceitos com o gênero: sempre podemos ser surpreendidos com bons musicais. E aqui, o estereótipo de musical norte-americano (com suas personagens cantando, pulando, dançando alegres e saltitantes e tudo mais…) passa longe. As músicas se adequam à proposta do longa – o que não deixa o filme se tornar cansativo ou que sua trama soe surreal como em muitos produtos do gênero. O filme apresenta o cotidiano de Ismael (o galã francês Louis Garrel) e sua namorada Julie (a ótima Ludivine Sagnier) que vivem um romance a três com Alice (vivida por Clothilde Hesme). No entanto, essa relação é interrompida por uma tragédia: a morte de Alice. No decorrer da história, Ismael conhece o jovem Erwann, que se apaixona pelo jornalista e tenta seduzi-lo.

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As músicas são o grande ponto forte da obra, pois conseguem transmitir os sentimentos honestos e espontâneos de suas personagens – o que Honoré sabe bem como capturar com sua lente. Interpretadas pelos próprios atores (que mais sussurram do que necessariamente cantam), as canções escritas por Alex Beaupain tornam Canções de Amor um “filme popular com canções”, como sugeriu o próprio diretor na época de lançamento. Beaupain (que perdeu a namorada na vida real antes de escrever as canções para o filme) conseguiu traduzir em poemas as experiências turbulentas sobre o amor dentro de um estilo pop moderno que torna Canções de Amor apaixonante.

Rodado na capital francesa, Honoré ainda consegue criar mais um personagem: sua própria Paris que, em pleno outono e recheado de cores cinzentas, chuvas e devaneios, é o cenário ideal para a história desse grupo de amantes que tudo o que mais desejam é simplesmente amar. O amor na visão de Honoré é tratado sem condicionalismos, sem falsos moralismos. O amor não deve ser pensado, racionalizado ou colocado dentro de uma caixinha e ser exibido como um prêmio. Na proposta do diretor, as pessoas simplesmente amam – e isso basta. Talvez essa visão possa incomodar a platéia um pouco mais conservadora, afinal o musical ganha um tom abertamente homoerótico a partir de sua segunda metade – e curiosamente, a melhor sequência do longa advém da noite de amor entre dois personagens masculinos. Esse divisor de águas na história trará os melhores conflitos da trama e as mais conturbadas experiências aos personagens. Aliás, após a morte de Julie, o filme é dividido em três partes: a partida, a ausência e o regresso – referência explícita ao processo pela qual Ismael irá passar a partir daí.

Canções de Amor é, dessa forma, um filme onde nada é gratuito. Honoré diz, ainda que de forma não direta, que as relações foram feitas para ser vividas e não explicadas. Não há julgamentos, não há certo ou errado – há apenas as expressões do amor em sua mais pura forma. Assim, Canções de Amor não é apenas um belo produto de entretenimento aos olhos e ouvidos, mas também uma reflexão moderna sobre o amor romântico em nossa sociedade.

Encurralado (Duel)

4Lá no começo da década de 70, o cinema começava a passar por uma transformação. Nessa época, surgiam alguns diretores que influenciariam todas as gerações seguintes (inclusive a nossa) e reinventariam o conceito de cinema, popularizando a arte e criando o gênero “pipoca” (aquele tipo de cinema voltado para toda a família). Dentre os principais expoentes dessa trupe, um dos nomes mais cultuados é o de Steven Spielberg que, em 1971, lançou o suspense Encurralado – uma produção que, apesar de não ter a mesma magnitude de seus clássicos lançados posteriormente, já lançava os holofotes sobre o jovem cineasta.

Eu disse que Encurralado não tem a mesma magnitude de outras obras de Spielberg? Quanta injustiça! Encurralado é, talvez, um dos melhores exemplos da obra do diretor, reunindo tudo aquilo que Spielberg faria em sua vasta carreira. Adaptado de um conto, Encurralado foi o primeiro longa do diretor, feito diretamente para a TV (foi lançado para um programa semanal da ABC). Na época, o então desconhecido Spielberg conseguiu carta branca do canal para produzir o telefilme com um prazo de 10 dias (há a lenda de que Spielberg teria estourado o cronograma em 3 dias e outras maluquices…) e, contrariando todas as expectativas, Spielberg entrega uma das melhores histórias de perseguição do cinema – e um dos filmes mais influentes de sua carreira. A premissa é simples: David é um pai de família que está dirigindo em uma rodovia rumo a uma reunião de negócios. Pouco se sabe a respeito do nosso protagonista. No meio da viagem na região desértica estadunidense (recheada de longas e retas estradas e paredões), ele ultrapassa um caminhão-tanque enferrujado, que a partir de então passa a persegui-lo durante todo o caminho.

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Encurralado não possui cenas elaboradas de perseguição (alguém aí falou em Velozes e Furiosos?), nem uma trilha sonora arrebatadora ou mesmo diálogos marcantes (aliás, o que quebra o gelo é o duvidoso artifício de expor os pensamentos do protagonista). No entanto, há um excelente trabalho de edição aqui, que cria uma atmosfera atordoante e nos permite ter uma sensação de perseguição constante através de seus vários takes. Com esses artifícios, Spielberg consegue tornar o caminhão o grande vilão da história, transformando-o em um monstro de proporções gigantescas – ocultando a identidade de seu  motorista durante todo o filme, o que aumenta ainda mais a tensão. Ou seja, o grande  pedaço de metal enferrujado ganha vida própria, causando medo e pavor no protagonista.

O fato de não mostrar o condutor do veículo durante todo o evento torna Encurralado ainda mais intrigante. É um dos artifícios que Spielberg utiliza para manipular a emoção do espectador. Spielberg (que mais tarde ficaria famoso com seus blockbusters) consegue mexer com o espectador sem fazer muito esforço, em um longa que não te deixa desgrudar os olhos da tela. Com um desfecho espetacular, Encurralado é um ótimo filme para os padrões Spielberg.

Obsessão (The Paperboy)

Baseado no livro homônimo de Pete Dexter, Obsessão chega aos cinemas brasileiros no próximo mês – quase um ano após sua estréia mundial, em novembro de 2012. A história acompanha o jovem Jack James (filho W.W. James, editor do jornal Moat County Tribune), um jovem desnorteado que ajuda o irmão jornalista (e homossexual) em uma investigação sobre a possível condenação injusta de um homem que está aguardando sua sentença de morte. Durante a investigação, Jack se apaixona por Charlotte Bless, uma prostituta que troca correspondências amorosas com o condenado.

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Bom, fui bem assim, direto, porque não há muito a se falar sobre o filme. Com um orçamento modesto (a produção não custou nem U$ 13 milhões), Obsessão aposta claramente na força de um elenco de estrelas. Zac Efron é o jovem Jack – e cada dia se distancia mais do garoto saltitante de High School Musical. Não imaginava que poderia dizer isso há cinco anos atrás, mas o fato é que é confortante ver o quanto o ator cresceu e como sua atuação ganhou peso. Matthey McConaughey interpreta muito bem Ward James, irmão de Jack, que esconde sua sexualidade da família e tem uma estranha obsessão por provar a inocência de Hillary Van Wetter – nosso bom amigo John Cusack que, este sim, em um papel pequeno, consegue chamar a atenção a cada aparição. Na pele de um psicótico condenado, fica-se sempre a dúvida se Hillary é ou não o culpado pelo crime. Fechando o elenco, ainda temos Nicole Kidman que, após tantas plásticas e aplicações de toxina botulínica (vulgo botox), está quase irreconhecível. Além disso, há muito tempo não vemos Nicole em um grande papel e sua Charlotte é um belo exemplo. A personagem em si já não é lá essas coisas, não tem um motivo para nada e ainda por cima é… forçada. Definitivamente, não é das melhores atuações da atriz – que é e pode muito mais.

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Apesar do saldo positivo do elenco, o resultado final não é muito feliz. Obsessão não é um excelente filme, como pode parecer à primeira vista. Lee Daniels (do ótimo Preciosa – Uma História de Esperança) faz um belo trabalho na direção do elenco, mas alguma coisa parece faltar. Talvez tenha sido o roteiro arrastado, escrito pelo próprio Pete, que faz com que o longa se torne maçante. Tão pouco há momentos memoráveis – a não ser que você ache memorável ver Zac Efron de cueca em praticamente todas as cenas, nunca se sabe. Obsessão ainda utiliza-se de um recurso que o ajudou a ficar ainda mais “vergonha alheia”: a narração, que faz tanta esforço para explicar a investigação que chega a ser quase didática em certos momentos e faz com que nos sintamos burros. Mesmo assim, Obsessão se torna confuso e sem o menor foco: ora em um personagem, ora em outra narrativa, ora em outra abordagem. É tanto tiro lançado que, no final, nada se atinge. Só o título já deixa margens do que está por vir: lançado em português como Obsessão, o título original do longa é The Paperboy, que, se traduzido corretamente, faria muito mais sentido. Os únicos pontos fortes do filme, além da atuação do elenco e da direção de Lee, ficam por conta da trilha sonora e da questão social abordada: preconceito. A trama se passa em um período turbulento da história norte-americana, onde qualquer minoria era tratada com indiferença. Os diálogos recheado de ódio proferidos aos personagens pretos ou mesmo a cena em que Ward é espancado por um grupo dentro de seu quarto de hotel é uma das poucas experiências cinematográficas boas a serem tiradas de um filme cuja única obsessão é ser grande. Pena que não consegue…

Deus da Carnificina (Carnage)

Hipocrisia. Assuma: você é hipócrita. A verdade incontestável é que todos somos capazes de ter pensamentos politicamente corretos mas que podem ser facilmente manipulados quando se trata de defender nossos próprios interesses. Deus da Carnificina, de Roman Polanski, segue essa temática e consegue, ao longo de menos de uma hora e meia, levar o espectador a uma série de reflexões sobre o comportamento humano.

Lançado em dezembro de 2011 e filmado durante o período de prisão domiciliar de Polanski na Suíça, Deus da Carnificina levantou debates infindáveis na época de sua estreia. Houve quem o considerasse a pior obra do cineasta e se quer poderia ser considerada “cinema de verdade” – afinal, o longa é baseado na peça Carnage (também título original do longa), de Yasmina Reza, e levou todo o seu evidente ar teatral às telas de cinema. Por outro lado, muitos saíram em defesa de Roman, alegando que este seria seu filme “mais cinematográfico” – justamente pelo desafio da direção dentro de um único ambiente. No entanto, Polanski conserva a estrutura teatral da história, direcionando a visão do público – principalmente através dos enquadramentos ao longo do filme, fazendo com que o espectador observe aqueles personagens como um voyeur. A câmera aqui funciona quase como uma espécie de “olho mágico”, o que ajuda a distanciar o Deus da Carnificina da armadilha do teatro filmado.

1Na trama, acompanhamos o encontro (a contragosto) de dois casais com o intuito de buscar uma solução amigável para a briga entre seus filhos pré-adolescentes. O primeiro casal é formado por uma professora preocupada com as desgraças no continente africano e um simplório vendedor de artigos domésticos; já o segundo casal, é composto por um poderoso advogado e uma corretora de investimentos. Conforme o tempo avança, os nervos aumentam e o que era para ser uma tentativa de selar a paz entre as crianças torna-se um palco para intermináveis discussões, onde todos os personagens abandonam a civilidade e deixam cair suas máscaras, revelando a hipocrisia moral daqueles indivíduos.

Está aí um dos méritos de Deus da Carnificina: proporcionar ao espectador a oportunidade de observar a caminhada do ser humano rumo ao caos. A narrativa mantem um ritmo frenético em seu roteiro e montagem, que permite que os personagens se provoquem, aticem um ao outro, peçam desculpas, se desrespeitem. O espectador, diante da tela, tem prazer ao acompanhar a involução da compostura dos dois casais diante da proteção de seus interesses. Com isso, o filme se torna quase uma espécie de cinema “catarse”.

Longe de ser uma comédia escrachada, Deus da Carnificina fornece bem mais do que alguns risos. Em um filme onde a polidez dá lugar à progressiva degradação dos relacionamentos humanos, é interessante ver os dois casais aparentemente civilizados trocando farpas, se rebaixando e dizendo aos quatro ventos tudo aquilo que pensam mas não teriam coragem de falar em outras situações. Em um dos momentos mais cômicos, é possível ver Kate Winslet berrando “Ainda bem que meu filho bateu no seu, pois isso prova que ele não é um veadinho!” ou “Eu estou cagando para os seus direitos humanos!”, por exemplo. Deus da Carnificina critica as hipocrisias sociais com um leve cutucão e revela também o excelente domínio de tela de Polanski e seu incontestável talento como diretor de atores.

Hitchcock (Hitchcock)

Apesar de já ter estreado há algum tempo no circuito norte-americano, Hitchcock – a cinebiografia do diretor homônimo falecido em 1980 – chega, finalmente, às salas nacionais nesta semana. Baseado no livro Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello, o filme não se prende à biografia completa do artista, mas foca suas lentes no conturbado período que Hitchcock viveu durante as filmagens de Psicose, hoje considerada uma de suas maiores realizações.

O filme começa com um Hitchcock em crise, após as duras críticas que seu último trabalho recebera, Intriga Internacional, de 1959 (curiosamente, hoje é um título cultuado em sua filmografia). Sem nenhum projeto à vista, ele procura uma nova história que possa provar a todos que ele ainda é um grande cineasta, quando tem a ideia de levar às telas a adaptação da trama de Robert Bloch. Hitchcock não apenas comprou os direitos do livro que origem ao filme, mas gastou também uma pequena fortuna adquirindo todos os exemplares disponíveis no mercado para que nenhuma pessoa conhecesse seu desfecho até a estreia do longa. Sem o apoio dos estúdios, o diretor teve praticamente que produzir o filme sozinho – chegando inclusive a hipotecar sua residência.

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Embora Anthony Hopkins entregue uma performance competente, seu talento é um tanto ofuscado por um detalhe: a maquiagem. Se nas primeiras imagens promocionais não havia dúvidas de que Hopkins era o próprio Hitchcock, em cena o ator acaba escondido por trás da maquiagem em excesso – que chega até a camuflar as expressões do intérprete. Com isso, o destaque fica a cargo de Helen Mirren, em uma das melhores atuações de sua carreira. Há quem diga que Hitchcock é, na verdade, um pretexto para se exaltar Alma Reville, esposa de Alfred e roteirista que foi durante muito tempo o pilar de sua obra. Sua contribuição à filmografia do diretor foi essencial. Com uma atuação discreta porém segura, Mirren faz com que a figurade Hopkins se torne quase uma espécie de macguffin (termo que o próprio Hitchcock criou para explicar aquilo que, em seus filmes, motiva seus personagens).

Também é destacado no filme, ainda que timidamente, os vínculos de Hitch com suas protagonistas (loiras, obviamente): enquanto mantém uma relação pouco amistosa com Vera Miles (Jessica Biel) – que teria desistido de trabalhar com ele às vésperas do início das gravações de Um Corpo Que Cai, deixando Hitchcock aos berros – , seu relacionamento com Janet Leigh (Scarlett Johansson) se mostra mais equilibrado. Reza a lenda que Janet, protagonista de Psicose, alega inclusive não ter tido grandes dificuldades para filmar a clássica cena do chuveiro.

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No final, Hitchcock cumpre sua promessa, principalmente ao considerarmos que trata-se do longa de estreia de Sasha Gervasi – que entrega uma obra que está longe de ter o brilhantismo de seu protagonista, mas também não decepciona. Apesar de não ter tido toda a repercussão nas bilheterias quanto esperava-se, o filme acerta ao explorar um capítulo específico (e muito curioso) da biografia de um dos maiores gênios do cinema em todos os tempos.

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild)

Benh Zeitlin já havia sido elogiado por seu premiado curta Glory at Sea, de 2008. Na obra, o cineasta acompanha a rotina dos moradores de alguns pontos do estado de Louisiana, EUA, após a passagem do furacão Katrinha, que devastou bairros colocando-os debaixo de água. Em Indomável Sonhadora, Benh segue uma premissa semelhante: aqui, acompanhamos os moradores da “Banheira”, uma ilha no meio de uma barragem que fica submersa após a passagem do furacão. Apesar do local ser fictício, ele é claramente inspirado em uma ilha do Estado que a cada dia que passa fica mais transbordada devido às catástrofes naturais.

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Assim como os moradores da ilha real, os habitantes da Banheira também se recusam a sair de suas casas. Um desses é Wink, um doente cardíaco e pai da pequena Hushpuppy, a protagonista da história. Ao longo do filme, o pai busca ensinar a garota a sobreviver dentro do cenário caótico em que estão inserido (afinal, o pai tem sabe que, cedo ou tarde, sua doença o levará à morte). Vivendo quase como animais (entre o trailer e a casa destruídos), ambos vivem uma relação ilógica e, muitas vezes, sem sentido, dentro de um ambiente marcado por crendices e imaginações, que são, na verdade, a única forma de resistir à pobreza e precariedade do local.

As reações de Wink e Huchpuppy são inesperadas – como as reações de todos os moradores da região. A relação entre Wink e sua filha é intensa: mesmo nos momentos em que deseja ser carinhoso, o pai (devido às próprias dificuldades da vida) só consegue expor seus sentimentos com brutalidade. Sua forma de amar e expressar seu amor pressupõe preparar sua filha às atrocidades da vida, transformando-a em um ser capaz de vencer as adversidades que ainda estão por vir.

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É nessa fábula moderna que surge a figura de Quvenzhané Wallis, a garota que tinha apenas 6 anos quando gravou o longa. Todo o filme é rodado assumindo-se o seu ponto de vista, expondo toda a percepção infantil sobre a realidade que a assola – realidade que, ainda que exagerada em alguns momentos, cria um filme altamente sensorial, onde o melhor a ser feito é abandonar as convenções e as lógicas e se entregar às emoções. Não apenas Wallis atrai os olhares, mas também o ator Dwight Henry, o pai da garota. Ambos são atores de primeira viagem, desconhecidos e sem nenhum treinamento formal – assim como boa parte do elenco. Concorrendo ao Oscar de melhor filme, direção, atriz principal (Wallis é a mais jovem concorrente nessa categoria) e roteiro adaptado (que é assinado pelo próprio diretor em parceria com a autora Lucy Alibar), Indomável Sonhadora é, de longe, um dos melhores filmes desta temporada.

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)

No início do século XXI, nenhum acontecimento afetou tanto o mundo como o ataque terrorista aos EUA no dia 11 de setembro de 2001 – e A Hora Mais Escura, novo filme de Kathryn Bigelow, procura esclarecer os questionamentos referentes ao ocorrido.

Dirigido por Bigelow (primeira mulher a faturar um Oscar de melhor direção, em 2006 com Guerra ao Terror), A Hora Mais Escura resume em pouco mais de duas horas e meia os dez anos da busca incansável do governo norte-americano ao criador da rede terrorista Al-Qaeda, Osama Bin Laden – desde os ataques terroristas em 2001 até sua suposta morte, em maio de 2011, em uma operação da CIA. Apesar de ser abertamente ficcional, o longa recria um acontecimento real, quase em um estilo documentário, o que permite que A Hora Mais Escura funcione como um filme de ação não convencional.

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O primeiro debate aqui – e que já levantou inúmeras polêmicas nos EUA – são as cenas de torturas, que seriam utilizadas pelos agentes da CIA para conseguir informações dos terroristas apreendidos. Bigelow foi duramente criticada e rebateu as opiniões de forma simples: o fato de mostrar tortura em seu filme não implica que seja a favor desses métodos (algo como Tarantino em sua obra, sobre a questão da violência exacerbada). Bigelow alega que fazer guerra não é legal e pode trazer inúmeras consequências – mas assumir que seu país pratique tais atos de crueldade mesmo que para conseguir informações que desvendem o paradeiro de seu maior inimigo é, no mínimo, arriscado. Bigelow não poupa nos detalhes – o que rendeu, inclusive, uma intervenção da CIA, que teria se incomodado com as acusações.

Polêmicas à parte, A Hora Mais Escura tem um ritmo agradável. As imagens começam com a tela em preto e os diálogos das vítimas do 11 de setembro – o que causa uma certa aflição e angústia logo de início. Depois disso, a cineasta procura recriar os principais detalhes da operação que teria matado o líder terrorista. É um típico filme de ação, com algumas diferenças. Em A Hora Mais Escura, o inimigo nunca é revelado. Ele é representado apenas através de diálogos e suposições – mesmo na cena final, quando o terrorista é finalmente atingido, Bigelow tem um cuidado para não expor sua figura, apenas insinuar que o mesmo está morto e o objetivo da missão foi alcançado. O inimigo é oculto, mas está ali a todo momento – e o roteiro bem escrito de Mark Boal consegue manter esse suspense durante toda a projeção.

Outro ponto que difere A Hora Mais Escura dos demais produtos do gênero de ação é que tudo é centrado nas ações estratégicas do grupo norte-americano. Poucas são as sequências de tirar o fôlego – que só passam a ganhar “corpo” a partir dos 100 minutos, praticamente. Antes disso, pode até haver quem se incomode com o excesso de informações lançadas ao público. Esses detalhes podem tornar o filme um tanto “massante”, mas contribuem para formar a personagem principal, interpretada por Jessica Chastain (de A Árvore da Vida), inspirada em uma agente real da CIA que teria dedicado anos de sua vida à captura de Bin Laden. Maya (nome fictício) chega a uma base secreta da CIA no Oriente Médio de forma tímida e discreta, mas aos poucos se torna uma das mais importantes peças no jogo, fazendo com que a busca por Bin Laden vire uma missão quase pessoal, para o qual dedicará toda sua vida (e que trará, consequentemente, um certo vazio após o término da jornada). A personagem claramente vai crescendo no decorrer da história e, mesmo que muitos critiquem a indicação de Jessica ao prêmio de melhor atriz, é fato que seu rostinho angelical e suas poucas expressões contribuíram para o personagem.

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Desenrolando quase como um suspense investigativo, A Hora Mais Escura recria ainda a captura de Bin Laden em uma sequência que não te deixa desgrudar os olhos da tela. As imagens indefinidas e esverdeadas (simulando a visão dos soldados na missão) percorrem todos os cômodos do esconderijo do terrorista (uma locação quase do tamanho real do local foi construída para as gravações). Apesar de não trazer cenas de tiroteio ou sequências de ação espetaculares, Bigelow consegue transmitir a tensão da equipe na missão que supostamente culminou com a morte de Osama. E é esta suposição que levanta o maior dos debates, provavelmente. Osama está morto? Há quem duvide disto. Há quem acredite que isso não passou de puro teatro para popularizar ainda mais o então presidente norte-americano, ou para mostrar ao mundo o quão “foda” são os EUA. De qualquer forma, A Hora Mais Escura ousou em levar isso ao cinema. O roteiro, que inicialmente abordaria apenas algumas tentativas falhas do governo norte-americano durante a guerra, sofreu alterações após a notícia da morte do terrorista. De qualquer forma, A Hora Mais Escura funciona como um bom filme de ação e suspense – mas serve principalmente para massagear o ego norte-americano. No melhor estilo “herói contra vilão”, o inimigo é alcançado e o país está a salvo. E isso é tudo que importa.

Django Livre (Django Unchained)

Em um curto espaço de cerca de 20 anos, Quentin Tarantino se tornou um dos cineastas mais cultuados de sua geração. Desde sua estréia com o renomado Cães de Aluguel, Tarantino coleciona títulos altamente elogiados pela crítica e público, criando um estilo que tem influenciado muitos outros artistas. Não seria muita surpresa, portanto, que Django Livre, seu mais recente trabalho, fosse recebido com tanto entusiasmo pela comunidade cinéfila. E as expectativas foram altamente atendidas.

Django Livre, como afirmou seu próprio diretor, é a segunda parte de uma trilogia que teria se iniciado com Bastardos Inglórios, de 2009 – sim, o filme sobre nazistas e como matar nazistas que fez a crítica cair de joelhos perante Tarantino. Passado dois anos antes da Guerra Civil norte-americana (que trouxe a liberdade para os pretos ainda escravizados no sul dos EUA), Django Livre trata um dos assuntos mais delicados da história norte-americana: a escravidão. Assim como em Bastardos Inglórios, Tarantino usa um polêmico período histórico para criar uma  sequência que, apesar de ficcional, é uma provocante obra política.

5Django é escravo de uma fazenda sulista nos EUA que, após uma tentativa de fuga, é separado de sua esposa e levado a leilão em outra cidade. Durante esse percurso, é “comprado” e alforriado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz, que tem interesse no escravo para encontrar um trio de criminosos. Django é instruído por Schultz na “arte” de capturar bandidos; percebendo seu potencial, o mestre propõe a Django uma parceria que será recompensada com o resgate de sua mulher, que agora pertence ao previsivelmente sádico Calvin Candie, o proprietário de uma rica e próspera fazenda de algodão.

Algo que me assustava antes de assistir a Django Livre era sua classificação. Fiquei com certo receio pelo fato da trama ser recomendada para maiores de 16 anos (afinal, os trabalhos menos badalados de Quentin, Jackie Brown e Kill Bill Vol. 2, tem classificação de 14 e 16 anos, respectivamente). Isso me deixava com a orelha em pé quanto aquilo que é a marca registrada de Tarantino: a violência. Filmes de Tarantino são violentos e, exatamente por isso, atraem nossa atenção. Mas, felizmente, ela está presente (e bem inserida) no filme.

3A violência já se inicia com a quantidade de vezes em que a palavra nigger é pronunciada no longa (nigger é uma expressão de desprezo, altamente racista e pejorativa). Muitos já soltaram críticas ao diretor por este exagero – mas é este o termo realmente usado pelos senhores de escravos naquela época para se referir às suas “propriedades”. Daí, como se não bastassem, partem para criticar o excesso de cenas de violência na obra. Com toda a honestidade, Django Livre é muito mais violento por seus diálogos do que por suas sequências visuais. Se em Pulp Fiction temos o estupro de um homem ou em Bastardos Inglórios a retirada de escalpos nazistas, o mais “visualmente” violento que temos em Django Livre é um homem sendo atacado por cães – ainda assim com vários cortes rápidos, o que ajudou a amenizar o sofrimento ocular. Aí você pergunta: “Mas e a quantidade de tiros disparados? E os corpos e sangue esparramados pelo chão? E a carnificina das cenas finais?”. A resposta é simples: sim, há inúmeras cenas deste tipo – e o combate entre Django e os capangas de Calvin, dentro da casa da fazenda, é um espetáculo visual (a casa inteira é banhada a sangue, que é esguichado sem o menor pudor a cada bala que atinge a carne humana, em um típico excesso tarantinesco).

O elenco está inspiradíssimo. Jamie Foxx, um ator de talento instável, consegue fazer o protagonista de forma brilhante. Discordando de alguns, Jamie tem uma bela atuação. O que acontece é que é difícil se destacar quando se trabalha ao lado de Christoph Waltz (que, quando inspirado, faz qualquer um ser mero coadjuvante quando entra em cena). O ator austríaco (vencedor do Oscar de melhor coadjuvante em Bastardos Inglórios), cria um Schultz divertido e humano (“Agora que te alforriei, me sinto meio responsável por você.”), mas sanguinolento e frio – personagem tipicamente tarantinesco. Mesmo o veterano Samuel L. Jackson está impagável na pele do mordomo Stephen, enquanto Leonardo DiCaprio nos entrega um personagem que causa asco logo de imediato.

8Django Livre se firma como uma excelente obra de arte cinematográfica. Indicado a 5 Oscars (incluindo melhor filme e melhor roteiro original), curiosamente é um dos filmes mais cômicos do diretor, apesar da trama abordar um tema polêmico. No entanto, não é livre de defeitos, sendo o principal dele sua edição (claramente afetada pela ausência de Sally Menke, parceira de Tarantino em seus filmes anteriores), que prejudica muito o andamento da história, dando-nos a sensação de que o filme se estende mais do que deve. A cena do tiroteio na mansão (um falso clímax da narrativa) termina para o desenvolvimento de um desfecho lento e morno, que poderia ter sido extirpado da fita, em minha visão. No entanto, Django Livre consegue se destacar como um de seus melhores filmes, atestando definitivamente seu talento e criatividade.

Frankenweenie (Frankenweenie)

Dizem por aí que Tim Burton não produz um bom filme desde 2007, quando dirigiu o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, longa que recebeu boas críticas mas não empolgou tanto o público nas bilheterias. De fato, as produções que se seguiram não foram as mais felizes para o cineasta. Alice no País das Maravilhas recebeu uma enxurrada de críticas negativas (apesar de ser uma das maiores bilheterias da história – em boa parte devido ao uso do 3D), enquanto Sombras da Noite tem a pior aprovação das fitas burtonianas. Entretanto, se há um gênero cinematográfico que Burton conhece bem é a animação – o que explica o frisson do público pelo lançamento de Frankenweenie.


Frankenweenie
é baseado livremente no curta  homônimo dirigido pelo próprio Tim Burton em 1984. Originalmente filmado em live-action, o curta não teve uma recepção calorosa na época pelos estúdios Disney, que produziram o projeto mas não lhe deram a devida importância. Anos depois,  Burton traz de volta às telas a história de um garoto que perde seu cão Sparky em um trágico atropelamento. Inconsolado com a perda do melhor amigo, o garoto tenta ressuscitar seu cão através de experimentos científicos, motivados pelas aulas de ciência do colégio.

Rodado em stop-motion e totalmente em 3D, Frankenweenie é, talvez, o filme que melhor traduza o universo de Tim Burton até aqui. Há inúmeras referências ao universo burtoniano, a começar pelos personagens do longa, que são definições quase explícitas dos rascunhos do diretor. Um deles, por exemplo, foi retirado de seu livro de poemas O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra. A fotografia em preto e branco também remete aos filmes de terror B que Tim Burton tanto admirava quando criança. E quem não pensou em Vincent Price quando viu a cara do professor de ciências do garoto Victor?

O roteiro foi adaptado sem perder a essência do original, com uma estrutura clara e concisa – a história ora comove, ora faz rir, ora faz chorar, ora dá medo (quebrando a cara de muitos que acreditavam que Burton não seria capaz de segurar quase 1 hora e meia de animação a partir de um curta com cerca de 30 minutos). Além dos personagens já conhecidos, novos tipos são introduzidos, com tramas que agregam à linha narrativa principal, tornando-a muito mais envolvente.

Frankenweenie é um dos retratos mais fiéis da obra burtoniana. Além disso, este retrato tem qualidade cinematográfica indiscutível, mostrando que o cineasta ainda está em boa forma – e é por isso que pode se dar ao luxo de realizar o projeto que quiser, sem medo de represálias. O que vai ser daqui pra frente, não se sabe. Mas Frankenweenie é, de longe, um dos melhores filmes de seu idealizador até aqui – além de se sobressair, individualmente, como uma grande animação.